UMA CERTA DONA NICINHA

Ilustração de Adilson Amaral

Do livro O menino que aprendeu a imaginar, de Leandro Bertoldo Silva

Dona Nicinha era uma professora diferente. Se estivesse na sala de aula, tratava logo de organizar as carteiras em círculo. Preferia mesmo que as salas tivessem almofadas no lugar de cadeiras duras e desconfortáveis. Mas, vá lá… Nada que não se pudesse improvisar. Por isso mesmo, Dona Nicinha gostava mesmo era de dar aulas na praça ao som dos passarinhos ou mesmo na quadra da escola, onde tudo era motivo de tornar as aulas mais interessantes, ou surpreendentes, já que era uma professora de Geografia e não de Educação Física.

            Dona Nicinha tinha muitos alunos e gostava muito deles. A recíproca era verdadeira, pois os alunos adoravam a professora e seu jeito simples e diferente de os tratarem. Afinal, ela chegava perto deles e os ouvia com atenção…

Como dito, Dona Nicinha tinha muitos alunos, mas havia um em especial, um tal José de apelido “Desatento”. Acabou ficando conhecido como José Desatento. Ele não gostava muito de estudar. Até que Matemática ele gostava por ser uma matéria mais… Digamos… Absoluta, concreta mesmo. O negócio ficava complicado é quando ele tinha que imaginar… Não que ele não soubesse, pelo contrário, ele imaginava até demais. Aí sobrava exatamente para as aulas de Dona Nicinha. Como seria o tal fuso horário? Será que ele tinha ponteiros na ponta do nariz que indicavam as horas? E fuso horário tem nariz? Bem, deve ter. E ainda por cima deve combinar com os braços longitudinais e as pernas em latitudes de 15º, uma a leste e a outra a oeste…

— José, está prestando atenção?

— Estou fessora!

— O que eu disse, então?

— Que o fuso horário de tanto variar as horas e alternar o dia e a noite sem parar e a todo o momento, deve ter pegado um baita de um resfriado!

Pronto. Era gargalhada geral…

José Desatento não fazia por mal. Gostava de Dona Nicinha.

— Sabe o que é, fessora, eu não consigo entender esse negócio de geografia, sabe? Mapas, escalas… Daí eu começo a pensar e quando dou por mim já estou imaginando histórias…

Hummmm…. Já que José Desatento gostava de histórias, Dona Nicinha teve uma grande ideia! Propôs à turma uma aula na biblioteca da escola, em que deixou tudo muito bem preparado para levar a cabo seu intento. No dia seguinte, tudo combinado, os alunos dirigiram-se à biblioteca e estranharam, já que Dona Nicinha nunca havia se atrasado. Ao chegarem, viram que a biblioteca estava vazia. Entre os murmurinhos, risadas e brincadeiras que logo começaram a surgir, eis que uma voz exuberante, alta e vibrante se fez ouvir vinda de trás de um grande Atlas, cuidadosamente colocado em cima de uma das estantes bem ao alcance dos olhos das crianças. Os alunos logo perceberam que se tratava de mais uma invenção de Dona Nicinha, mas, seja como for, dessa vez estava muito real, pois a voz não parecia a dela e, ainda por cima, ela não estava atrás da estante. Dona Nicinha havia preparado tudo. Amarrara um microfone de tal maneira que não deixou à mostra nenhum fio que, passando pelos vários livros e estantes, permitia que ela falasse de outro lugar da biblioteca onde mantinha uma visão perfeita dos alunos sem que estes a vissem. Coisas de Dona Nicinha…

— Muito bem, crianças… Cheguem aqui perto de mim! Eu sou o Geógrafo e quero levá-los a uma viagem inesquecível! Mas… — começou a chorar. José Desatento achou aquilo fabuloso. Puxa! Um Atlas que fala! E ainda chora?! Como é que pode? Sua imaginação logo deu sinais de ação. Bingo! O plano estava dando certo… José colocou-se à frente do grupo e percebeu uma pocinha de água perto do Atlas (cuidadosamente colocada por Dona Nicinha).

— Ei, por que você está chorando? — perguntou José Desatento.

— Porque você não me usa! — disse o Atlas.

— Ah! Desde quando preciso te usar? Aliás, de onde está saindo essas lágrimas?

— Elas? São do oceano Atlântico! Tem também um pouco do Pacífico e um tantinho do Índico.

— Ai, ai! Você é maluco! Desde quando o oceano Atlântico, Índico ou Pacífico é feito de lágrimas?

— Desde quando você não percebeu que eu sou um Atlas!

Ilustração de Adilson Amaral

E assim, Dona Nicinha, ou melhor, Geógrafo, foi dando toda a aula do dia, pedindo ora um, ora outro que folheasse uma parte do Atlas à medida que ela ia explicando e fazendo os alunos “viajarem” em suas páginas.

José Desatento estava agora mais atento do que nunca. A cada explicação do Geógrafo, ele se imaginava numa verdadeira aventura. Em seus pensamentos, à medida que Geógrafo ia articulando as palavras, ele ia ficando pequenininho e descobrindo várias coisas viajando de um lugar a outro na companhia do novo amigo. De repente, estava lá na Espanha descobrindo várias coisas, mais precisamente as touradas e, também, que lá tem um dos times de futebol mais ricos do mundo. Isso ele gostou à beça, pois adorava vários esportes, principalmente futebol. Depois ele voltou aqui mesmo para o Brasil e viu que no Nordeste tem duas danças chamadas frevo e axé e, no Rio de Janeiro, tem o samba. Em Minas Gerais tem uma comida típica que é o feijão tropeiro, que os turistas adoram, e também o pão de queijo. Na Argentina conheceu uma dança muito querida pelos hermanos, que é o tango. Ficou sabendo que na Itália inventaram duas comidas deliciosas que ele adora: a pizza e o macarrão. E assim, ele foi conhecendo o mundo pelas páginas do Geógrafo como nunca havia conhecido.

No fim da aula, Dona Nicinha deixou seu esconderijo e fingiu entrar na biblioteca se desculpando pelo atraso. Os alunos até sabiam que se tratava de uma grande brincadeira, mas tudo tinha sido tão bem articulado e conduzido pela professora, que eles não quebraram o encanto. Contaram a ela o que tinham aprendido e a respeito do Geógrafo de tal forma e com tanta verdade, que ela mesma quase acreditou na própria história. Quem mais falava era José Desatento, que mostrava a cada frase um grande aproveitamento. Dona Nicinha ouvia tudo com atenção. Sentia-se satisfeita, pois achava que tinha conseguido tocar o coração de seus alunos, principalmente de José, e fazer com que ele encarasse a Geografia com outros olhos. A confirmação disso se deu uma semana depois, quando José, ao apresentar um trabalho, falou tudo o que aprendeu nas páginas de seu “amigo” Geógrafo. Falou tão bem que foi aplaudido pelos colegas e pela professora Nicinha. Ao soar o sinal para ir embora, Dona Nicinha juntou suas coisas e saiu da sala satisfeita. Quando foi virar o corredor, ela ouviu José gritando para ela:

— Valeu, Geógrafo!

Dona Nicinha nada falou. Apenas sorriu e foi entrar em outra sala para mais uma de suas aulas inesquecíveis…

LIVRO PRONTO – ADVERTÊNCIA

Em um vídeo anterior, falei da proposta literária deste que é o meu quinto livro publicado pela Árvore das Letras, através do selo Alforria Literária, e que você pode verificar clicando AQUI.

Neste, venho, com muita alegria, apresentar o livro e presenteá-los com a Advertência que abre estas histórias contadas pelo amigo Aarão Reis e recontadas por Xavier de Novais.

Assim diz Xavier:

Que Hipérion* possa me haver dado a alcova da escrita, para que neste matrimônio que muito me apraz, possa eu, Xavier de Novais, depois de ter vivido em tão encantadora cidade, ter o auxílio das boas almas de horizonte tão belo. Trata-se, em verdade, de uma narrativa em duas vozes: a minha e a dele, meu amigo, como se verá, embora a minha não seja mais que a dele, sendo eu apenas um portador dando notícias neste livro. Alguns acharão nele um romance; outros, contos, e outros, ainda, talvez nada. Mas, ai! Quanta coisa há de se encontrar por aqui…

Mas, antes de qualquer coisa, é preciso perguntar-lhes: caros amigos e caras amigas, vocês têm medo de fantasma? Sim ou não? Pois é… Durante algum tempo, hesitei, sem saber se deveria ou não levar esta história ao conhecimento de todos, ou melhor, estas histórias, pois foram muitas que meu amigo finado me contou. Sinto-me um tanto perplexo com a possibilidade de me acharem desviado das ideias e quererem me internar num manicômio, mas como fugir à realidade de ter sido escolhido o seu ouvinte? De fato, este que acabou por se tornar, para mim, um grande herói, escolheu-me. Hesitei, como disse, por um bom tempo, mas apenas o suficiente para encher-me de coragem e perder o medo do que as pessoas (inclusive o leitor e a leitora) poderiam dizer, e, então, respeitosamente dar-lhes uma bela e ostentosa “banana”. Não, não estou nervoso. É apenas um desabafo íntimo. É preciso convir que uma pessoa que recebe pontualmente, como se verá, a visita de um ectoplasma ilustre, com um gosto refinado para o café e um bom papo madrugada adentro e que, além disso, há um tempo guardava suas histórias, enquanto ainda questionava se deveria ou não contá-las, apesar de louco para fazê-lo, merece um instante de vazão. Caso contradigam-me, dizendo: “você é um louco”; “é um fanfarrão”; “não passa de um contador de histórias”, não tem importância. Medo já não tenho mais. Além disso, a propósito desse último xingamento, devo elucidar que seria injusto, pois histórias nunca soube contar, embora as aprecie. Eu apenas as escutava. Por sinal, eram muito bem traçadas, e até diria interpretadas, por meu amigo defunto, ou melhor, morto, pois defunto não era mais. Antes que eu me renda à tentativa de teorizar sobre a diferença entre ser defunto e ser morto, vamos à história, ou pelo menos parte dela.

Mas também, antes que a paciência lhes falte, o que seria extremamente triste para mim depois de pensar por tanto tempo se deveria ou não revelar estas histórias, vamos a três rápidas considerações: primeiro, a história em si não é de fantasma, como devem ter percebido, a história me foi contada por um; segundo, e eis o motivo de eu pensar que poderiam me achar louco, uma coisa é contar histórias de assombração, como nossos avós nos contavam e hoje fariam as crianças rirem ao invés de terem medo, outra é contar histórias contadas por um fantasma, isto é bem diferente. E a terceira é a que segue…

Xavier de Novais

*Hipérion significa o Alto: é o epíteto a Hélio, o Sol.

E assim inicia o livro que guarda muitas surpresas que, a partir de maio, estará à disposição dos leitores e leitoras. Mas disso eu falo em outra publicação…

Forte abraço!
Leandro Bertoldo Silva.

CANÇÃO PARA ÁLBUM DE MOÇA

Existem poesias que, por algum motivo, “pegam a gente” na primeira leitura. É quando acontece aquela velha máxima dos contadores de história: “não é você quem escolhe a história, mas a história é que te escolhe”. O mesmo, portanto, vale para a poesia.

Foi o que aconteceu comigo com essa poesia de Carlos Drummond de Andrade, e que deixo aqui para você ler e depois ouvir o quanto e como ela me tocou.

E como o mundo da poesia não é para ser nada explicado, mas sim sentido, vamos logo à ela

Forte abraço!
Leandro Bertoldo Silva.

Bom dia: eu dizia à moça
que de longe me sorria.
Bom dia: mas da distância
ela nem me respondia.
Em vão a fala dos olhos
e dos braços repetia
bom dia a moça que estava
de noite como de dia
bem longe de meu poder
e de meu pobre bom dia.

Bom dia sempre: se acaso
a resposta vier fria ou tarde vier,
contudo esperarei o bom dia.
E sobre casas compactas
sobre o vale e a serrania
irei repetindo manso
a qualquer hora: bom dia.
Nem a moça põe reparo
não sente, não desconfia
o que há de carinho preso
no cerne deste bom dia.

Bom dia: repito à tarde
à meia-noite: bom dia.
E de madrugada vou
pintando a cor de meu dia
que a moça possa encontrá-lo
azul e rosa: bom dia.

Bom dia: apenas um eco na mata
(mas quem diria)
decifra minha mensagem,
deseja bom o meu dia.
A moça, sorrindo ao longe
não sente, nessa alegria,
o que há de rude também
no clarão deste bom dia.
De triste, túrbido, inquieto,
noite que se denuncia
e vai errante, sem fogos,
na mais louca nostalgia.
Ah, se um dia respondesses
Ao meu bom dia: bom dia!
Como a noite se mudara
no mais cristalino dia!

A LIBERDADE DE PUBLICAR

O meu novo livro Histórias de um certo Aarão e outros casos contados, aprovado pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerias, via Lei Aldir Blanc, é mais um trabalho publicado pela Editora independente da Árvore das Letras, através do selo Alforria Literária.

O coração desse trabalho é ele ser realizado na máquina “Paula Brito”, uma prensa de madeira reaproveitada feita em parceria com o artesão Egídio Luthier, obedecendo um conceito de sustentabilidade.

Com essas duas novas máquinas que estão sendo construídas, a Árvore das Letras possui agora cinco prensas para a confecção de seus livros, o que vem a consolidar o principal desse trabalho: apresentar à sociedade uma nova forma de fazer literatura, facilitando o acesso à leitura.

Para saber melhor sobre essa escolha, clique AQUI e conheça a Alforria Literária.

A PALAVRA, O QUE É?

Como escritor, sou apaixonado pelas palavras. Existem palavras doces e salgadas, cheias e vazias, bonitas e feias, grandes e pequenas, e tantas outras mais.

Escrever e ler é estar no meio delas e absorver tudo o que elas têm a dizer.

Palavras fazem rir, mas também fazem chorar; podem afastar, mas também aproximar.

Seja como for, é fascinante a viagem pelo mundo das palavras. Neste vídeo, leio o livro de Luís Pimentel com as ilustrações de Ionit Zilberman, que brinca com as palavras de forma a encher o coração.

Convido você a acompanhar essa história e, no final, responda pra mim: Qual é a sua palavra preferida? A minha você já, já, irá saber.

Aproveite para fazer parte das pessoas que seguem aqui este blog, clicando na tarja azul (Seguir um espaço de linguagem, leitura e escrita) logo acima da minha foto no canto superior direito, e sigam o canal do Youtube também. Tem muitas palavras em histórias maravilhosas por lá.

Forte abraço, boas leituras e lindas palavras para você.

A ESCOLHA SUTIL

Por Leandro Bertoldo Silva.

Uma manhã estava levando minha filha para a escola, quando ela viu uma borboleta:

– Olha, pai! Uma borboleta toda preta! Que linda!

Quando olhei, já a vi pousada, mas Yasmin a havia observado em voo, antes mesmo de mim. As crianças sempre têm olhos mágicos…
Após admirar a borboleta por algum tempo, seguimos nosso caminho. Quando voltei, ela ainda estava lá, no mesmo lugar… Muita gente passava, mas ninguém a reparava… Talvez por ser pequena demais, talvez por estar em um lugar muito feio próxima a uma parede mal pintada de um azul desbotado.
Mas… Sendo generoso com meus olhos, não é que ela se exibia em uma praia de areias brancas sob um lindo céu azul?
Não sei o que você “escolhe” ver na vida, mas guardei essa lembrança em haicai para minha filha. Ela tem olhos mágicos…

LEITORES OU OURO DE TOLOS

Por Leandro Bertoldo Silva

Perdoem-me, mas esse texto não é assim tão fofinho…

Encontrar leitores (veja bem) eu disse LEITORES, não visitadores de prefácios, apresentações e orelhas de livro, é como garimpar pedras preciosas. Existem muitos cascalhos, restolhos mesmo, mas desses eu falo depois; o problema são as escoras, as falsas pedras que não perdem a mínima oportunidade para se mostrarem. São bijuterias que muitas vezes até ostentam um brilho como ouro, mas só para os tolos… Isso mesmo! Não são leitores; são ouro de tolos que, quando colocados à prova, se escondem, ficam quietinhos, saem de fininho.

Será que estou pegando pesado?

Tenho encontrado muitas pessoas assim, muitas mesmo, principalmente em lugares onde as “minas” são mais propícias. Alguém pensou nas escolas? Bem, não era para ser assim tão explícito, mas já que pensaram tenho que dar o braço a torcer. Muitas escolas, e eu disse “muitas”, não disse todas, tornaram-se lugares onde menos se lê. Passei algum tempo nelas e infelizmente sempre foi raro ver um professor com um livro nas mãos, e eu digo livro literário, pois didático já é de se esperar, pois é parte do ofício. E os alunos? Bem, estes até são obrigados, o que não deveriam, pois leitura é para ser estimulada, um prazer, mas… Cada um usa os recursos que tem, principalmente quando se joga no time do “faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”. Sabe qual o problema do Brasil?

Sim! De novo, estamos cheio de pessoas assim…

Individualmente também temos bijuterias, o que fazem as pedras serem ainda mais raras. Essas são escassas frente à quantidade de escoras que tomam todos os lugares. Talvez seja esse o motivo do nome “escora”: vivem escorando em desculpas, sendo a campeã delas a famigerada “falta de tempo”. Já escrevi a respeito disso (mas voltarei em breve a falar sobre), em que provo, por “a” mais “b”, que não existe falta de tempo; existe falta de prioridade. Espero até que este seja o caso de muitos, porque pior do que isso é a falta de honestidade. Lembra dos leitores de orelha? Pois é…

Pelo exposto, fica bem claro, pelo menos para mim que mantenho um grupo pequeno de pedras preciosas, o qual, com muito esforço e garimpo, vai aumentando, o retrato de um país, onde, segundo a pesquisa divulgada na 4º edição dos “Retratos da Leitura no Brasil”, desenvolvida pelo Instituo Pró-Livro, aponta que 44% da população não é leitora e que 30% nunca comprou um livro na vida. Mas acredite: mesmo que esse baixo índice de leitura indica uma das nossas mazelas históricas e aponta para o empobrecimento dos debates, inclusive políticos, estamos melhorando! Mesmo a passos lentos vamos caminhando e acreditando que a famosa frase de Monteiro Lobato – “um país se faz com homens e livros” – um dia soe com mais verdade…

Ah, quanto aos restolhos? Bem, desses eu gosto muito e os respeito pra caramba! Enchem o peito e dizem em alto e bom som: “eu não gosto de ler!” Pelo menos são sinceros e não bancam o Kid Cultura.

Quem é Kid Cultura? Oswaldo Montenegro responde! Vejam aí…

Forte abraço!

VITRINE LITERÁRIA: OS TRABALHADORES DO MAR

Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, com a célebre tradução de Machado de Assis, é a minha primeira leitura de 2021. Juntamente com O Corcunda de Notre-Dame e Os Miseráveis, que retratam os dogmas da fé e a sociedade, respectivamente, e que já estão na minha lista na sequência, este livro fala da relação do homem com a natureza interna e externa, criando uma espécie de trilogia de um dos mais fantásticos autores da literatura mundial.

Os trabalhadores do Mar conta a história de Gilliat, um jovem rejeitado pela comunidade onde vive, que se apaixona por Déruchette, a bela sobrinha do armador Lethierry. Para conquistar a jovem, Gilliat enfrenta uma batalha com a natureza para recuperar o motor do navio naufragado de Lethierry. Uma história linda e envolvente de superação, amor e coragem.

Em tempo: Não tenho gatos, mas se algum dia eu tiver uma gata ela se chamará Déruchette. Poderosa, muito poderosa…

Forte abraço!
Leandro Bertoldo Silva.

O AVANTESMA DA LAGOINHA

Por Leandro Bertoldo Silva

Belo Horizonte é uma cidade povoada de fantasmas… Um deles, não mais famoso do que outros, mas igualmente inusitado, traz a alcunha de o Avantesma da Lagoinha. Tenho particularmente um carinho especial por ele e aqui trago uma fala de Xavier de Novais, o personagem do meu livro, que conta, ou melhor, reconta o que Aarão Reis – este também um fantasma amigo – lhe contou em um dos papos na livraria entre um café e outro.

Faço este recorte não sem antes dizer que tenho a permissão de Xavier e Reis para fazê-lo, além de ter que ajustar algo aqui e ali para que, fora do livro, possa fazer sentindo…

E se quiser ouvir o lamento do avantesma – pobre criatura – está aqui no final deste vídeo.

[…] já havia algo de mal assombrado no aspecto daquela cidade promissora… E agora estava ele ali (Aarão Reis), compactuando com uma dessas assombrações no exato momento em que em seu passeio de ônibus passava por um elevado… Lá estava ele, pendurado no viaduto à espera da passagem do carro, o fantasma que carregava e carrega até hoje o nome do lugar e agora deste capítulo: o avantesma da Lagoinha! Muitos já o conhecem – há os que afirmam, inclusive, que já o viu –, mas para que possamos refrescar a memória dos esquecidos e lançar luz aos desavisados antes mesmo de dizer o que é o principal, ou seja, o motivo do choro, aproveitemos a descrição desses que contam terem visto a fantasmagórica aparição e que já se encontra em tantos registros como sendo um senhor todo de preto sem qualquer traço de rosto, sem feição; uma aparição disforme e excêntrica que cheira a enxofre e chora convulsivamente, e que em seguida, como diz um outro fantasma – tão famoso quanto, mas mais ameno e poeta – “dissolve-se qual sonho que não quer ser sonhado”. Antes, o avantesma da Lagoinha costumava espantar motorneiros se pondo entre os trilhos do bonde e enchendo de pavor os moradores do bairro. Hoje, nas madrugadas de lua cheia – sempre as luas cheias – pendura-se pelas bordas dos viadutos importunando os motoristas dos ônibus que trafegam pela região.

Naquela noite, porém, havia chegado mais cedo, e Reis, que seguia em seu passeio de ônibus rumo à livraria, e ao avistar seu colega do além, logo notou que o choro convulsivo estava mais convulsivo que nunca. Embora fosse noite de lua cheia, ainda não era madrugada e vendo aquela pobre alma penada dependurada no viaduto, bem que podia pensar que estava prestes a se atirar lá de cima, se isso fizesse algum sentido para um fantasma.

Reis sempre fora muito generoso, e essa generosidade, principalmente agora naquele caso do avantesma, parecia que lhe aflorava sobremaneira. Primeiro porque se tratava de um igual dentro da sua condição de alma, embora a sua não fosse penada como a do colega. E depois por lhe ser comovidamente doloroso um choro daqueles, e olha que nem rosto tinha a lastimável criatura, imagine se tivesse. […]

Opa, opa, opa… Fiquemos por aqui! Afinal, o livro ainda não foi lançado. Mas, vá lá! Por que do choro convulsivo? Sim, meus amigos! O Avantesma da Lagoinha chorava por amor! Pelo menos foi o que disse Aarão Reis a Xavier de Novais… E isso ninguém sabia! Mas antes que eu me renda à tentação de contar quem era esse amor e o que vai no livro, fico por aqui dizendo apenas que logo, logo, todos saberão…

Forte abraço!