O AVANTESMA DA LAGOINHA

Por Leandro Bertoldo Silva

Belo Horizonte é uma cidade povoada de fantasmas… Um deles, não mais famoso do que outros, mas igualmente inusitado, traz a alcunha de o Avantesma da Lagoinha. Tenho particularmente um carinho especial por ele e aqui trago uma fala de Xavier de Novais, o personagem do meu livro, que conta, ou melhor, reconta o que Aarão Reis – este também um fantasma amigo – lhe contou em um dos papos na livraria entre um café e outro.

Faço este recorte não sem antes dizer que tenho a permissão de Xavier e Reis para fazê-lo, além de ter que ajustar algo aqui e ali para que, fora do livro, possa fazer sentindo…

E se quiser ouvir o lamento do avantesma – pobre criatura – está aqui no final deste vídeo.

[…] já havia algo de mal assombrado no aspecto daquela cidade promissora… E agora estava ele ali (Aarão Reis), compactuando com uma dessas assombrações no exato momento em que em seu passeio de ônibus passava por um elevado… Lá estava ele, pendurado no viaduto à espera da passagem do carro, o fantasma que carregava e carrega até hoje o nome do lugar e agora deste capítulo: o avantesma da Lagoinha! Muitos já o conhecem – há os que afirmam, inclusive, que já o viu –, mas para que possamos refrescar a memória dos esquecidos e lançar luz aos desavisados antes mesmo de dizer o que é o principal, ou seja, o motivo do choro, aproveitemos a descrição desses que contam terem visto a fantasmagórica aparição e que já se encontra em tantos registros como sendo um senhor todo de preto sem qualquer traço de rosto, sem feição; uma aparição disforme e excêntrica que cheira a enxofre e chora convulsivamente, e que em seguida, como diz um outro fantasma – tão famoso quanto, mas mais ameno e poeta – “dissolve-se qual sonho que não quer ser sonhado”. Antes, o avantesma da Lagoinha costumava espantar motorneiros se pondo entre os trilhos do bonde e enchendo de pavor os moradores do bairro. Hoje, nas madrugadas de lua cheia – sempre as luas cheias – pendura-se pelas bordas dos viadutos importunando os motoristas dos ônibus que trafegam pela região.

Naquela noite, porém, havia chegado mais cedo, e Reis, que seguia em seu passeio de ônibus rumo à livraria, e ao avistar seu colega do além, logo notou que o choro convulsivo estava mais convulsivo que nunca. Embora fosse noite de lua cheia, ainda não era madrugada e vendo aquela pobre alma penada dependurada no viaduto, bem que podia pensar que estava prestes a se atirar lá de cima, se isso fizesse algum sentido para um fantasma.

Reis sempre fora muito generoso, e essa generosidade, principalmente agora naquele caso do avantesma, parecia que lhe aflorava sobremaneira. Primeiro porque se tratava de um igual dentro da sua condição de alma, embora a sua não fosse penada como a do colega. E depois por lhe ser comovidamente doloroso um choro daqueles, e olha que nem rosto tinha a lastimável criatura, imagine se tivesse. […]

Opa, opa, opa… Fiquemos por aqui! Afinal, o livro ainda não foi lançado. Mas, vá lá! Por que do choro convulsivo? Sim, meus amigos! O Avantesma da Lagoinha chorava por amor! Pelo menos foi o que disse Aarão Reis a Xavier de Novais… E isso ninguém sabia! Mas antes que eu me renda à tentação de contar quem era esse amor e o que vai no livro, fico por aqui dizendo apenas que logo, logo, todos saberão…

Forte abraço!

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