STORYTELLING ALFORRIA LITERÁRIA

Certa vez, assisti a uma entrevista de um escritor angolano que gosto muito – José Eduardo Agualusa – e ele dizia:

“aconselho a qualquer jovem: primeira coisa é ler muito; a segunda coisa é nunca perder a paciência, nem a vontade de continuar, mesmo que ao princípio pareça difícil. Quando nós fazemos o que quer que seja com paixão, vamos acabar por fazer bem, e os livros bons acabam sempre por encontrar os seus leitores…”.

Quanto aos meus livros serem bons, bem… A julgar pelas mensagens que recebo, depoimentos e fotos de leitores, e quando eu penso que os meus livros já estão espalhados por tantas cidades e estados, vejo que a seriedade, pesquisa e verdade com as quais eu os escrevo, está me levando para um caminho bem interessante!

Quanto a fazer com paixão… este é o propósito deste pequeno vídeo que é uma storytelling da Alforria Literária, um resumo das minhas produções, das minhas pesquisas, e, sim, da minha grande paixão por essa arte espetacular que é não apenas escrever, mas produzir e publicar o próprio livro em harmonia e respeito à natureza das coisas e das pessoas.

O vídeo é simples, como é simples todo o meu trabalho, até mesmo para receber por ele o valor financeiro justo e necessário. E aqui me lembro de outro artista – Oswaldo Montenegro – que disse em um poema algo o qual pauto minha vida:

“Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba, e que ninguém a tente complicar, porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer…”

Forte abraço!

LBS.

QUANDO AS LUZES SE APAGAM

20180728_194314

Por Leandro Bertoldo Silva

QUANDO AS LUZES SE APAGAM É QUE ENXERGAMOS COM MAIS CLAREZA…

 

Imagine uma cidade num sábado à noite, que, de repente, se vê com metade de suas luzes apagadas. Uma visita de amigos que viriam para o jantar e a hora bem próxima. Qual a sensação que você teria?

****

 Muitas vezes temos a tendência de enxergar somente o lado negativo de certos acontecimentos, o que nos faz achar que tudo é relativamente sombrio. Isto, naturalmente, é um engano que a vida, com a sua sutileza peculiar, mostra-nos o contrário e como estamos é doente dos olhos e, por que não, dos sentidos, como bem disse Alberto Caeiro:

“O que vejo a cada momento

é aquilo que nunca antes eu tinha visto,

e eu sei dar por isso muito bem.”

Quando nos colocamos frente às situações tais quais elas se apresentam e olhamos de verdade para elas tentando extrair o melhor que podemos, vamos descobrir a poesia que ali existe e não percebíamos, e o que aparentemente é um transtorno, na verdade é um enorme presente embrulhado no papel das possibilidades.

Sim, estava eu fazendo a barba após um banho num início de noite de sábado, quando subitamente a luz foi embora, não apenas da minha casa, como da metade da cidade de Padre Paraíso, deixando todos na mais completa escuridão. Era possível ouvir os bramidos e os lamentos ecoando de cada canto, de cada esquina e casas, como se as paredes, ao invés de ouvidos, tinham enormes bocas que emitiam gritos a la Edvard Munch. Pedi minha filha para trazer uma lanterna para acabar de fazer a barba e assim fiz tranquilamente já pensando como faríamos com a visita de dois amigos que viriam para o jantar. Em momento algum, tanto eu como Geane, minha esposa, queríamos desmarcar o encontro, afinal não tinha sido a primeira vez que tentávamos e tudo já estava adiantado desde o dia anterior, o que incluía os ingredientes de um delicioso yakissoba e as jabuticabas colhidas do pé do quintal da minha casa para o preparo de um vinho frisante, sem nos importar de estarmos cometendo ali qualquer tipo de gafe ou incoerência culinária. Mas o melhor mesmo estava por acontecer… Fomos os três – eu, minha esposa e minha filha – para a sala, e enquanto Geane tentava falar com os amigos pelos dados móveis do celular, deixando nele a luz da lanterna acesa, esta fez refletir na parede as nossas sombras enormes. Para mim e minha filha foi o mesmo que oferecer doce para criança. Começamos a brincar de fazer animais com as mãos e a criar histórias onde a cobra de 3 metros engolia uma aranha frágil e indefesa. Tudo bem, também criamos histórias de lindos passarinhos voando entre as flores… Lembrei-me de quando eu era criança e de como passava horas fazendo essas projeções usando o abajur da minha mãe, e só então me dei conta de que nunca as havia feito com minha filha! Larguei a reflexão de tamanha perda de tempo e mergulhei nas aventuras do cachorro que corria atrás do coelho, do jacaré que mostrava língua para o sapo e do elefante que bebia água no poço.

Geane confirmou que nossos amigos viriam mesmo sem luz e, a partir daí, começamos a encher a casa de velas. Enquanto as velas eram acesas na cozinha e na sala, encarreguei-me de acendê-las na varanda para uma boa recepção de boas-vindas. Tudo começou a ficar num clima mágico, meio idade média, e nossa casa já não era casa, mas um livro de histórias onde cada quarto guardava um capítulo surpreendente. O melhor deles aconteceu quando fomos para a cama de casal e eu perguntei para minha filha se ela queria de fato ouvir uma história, pois eu leria para ela usando uma lanterna. Yasmin logo disse que sim. Eu fui até minha estante e peguei o primeiro livro que minhas mãos tocaram. O título? “O menino que perdeu a sombra”, do Jorge Fernando dos Santos. Quase não acreditei na deliciosa coincidência de um menino que tateava no escuro à procura de si mesmo. A diferença é que nós havíamos nos encontrado naquela escuridão.

No fim da leitura, como todo bom livro que nos surpreende, a luz voltou, mas nada era como antes, tudo tinha mudado: as percepções, os sentimentos, as descobertas. As velas foram apagadas, os amigos chegaram, sorrisos e abraços em festejos de carinho, brindes erguidos. Mas dentro de mim continuava aquela doce escuridão que enche de luz as nossas sombras. E mais uma vez me veio à memória o velho Caeiro e de como estava certo:

“O mundo não se fez para pensarmos nele

(pensar é estar doente dos olhos)

mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…”

Pura verdade…