MAPINGUARI

Conta a lenda que existia na floresta um bicho esquisito que, dizem, comia gente… Chamava-se Mapinguari! Esse bicho eu sei que ninguém conhece, mas ele é conhecido de outro bicho que esse… Também ninguém conhece! Sabe que bicho era? Nada mais, nada menos do que o Rei Zilá, o Rei da escuridão… Bem, se isso é verdade eu não sei… O que eu sei é que essa história é mesmo de assustar, e começa assim…

Quero levantar da sombra

e o mundo dominar.

Quero fazer do escuro

um lugar pra se morar.

Quero um mundo diferente,

quero todo mundo respeitando a gente.

Quero um planeta sem cor,

quero que o perfume abandone a flor.

Eu sou Zilá, há, há, há, há!

Eu sou a sombra, há, há, há, há!

Faço do escuro um medo engasgado

e acato o lamento do choro vingado!

A sombra me aquece,

o terror engrandece,

a feiura estremece…

Eu sou o mestre!

Eu sou Zilá, há, há, há, há!

Eu sou a sombra, há, há, há, há!

Eu sou Zilá!

Caçador
Ilustração de Adilson Amaral

Só que nessa história não tem Zilá nenhum… Ele é só conhecido do Mapinguari, o tal bicho de nome esquisito que vivia na floresta! Ele era grande… Quase quatro metros! Tinha os cabelos vermelhos e as orelhas pontudas. Vivia no meio das árvores e imitava o pio dos pássaros… Fiu, fiu… prrrrit, prrrrit!

Em noite de lua cheia ele se transformava em menino, saia e entrava no terreiro das casas à procura de comida. Todos tinham medo dele, tinham medo da noite e tinham medo da lua…

— Besteira! Isso não existe… — diziam os mais jovens.

— Cuidado, meninos, com o bicho… — diziam os mais velhos.

Um dia, apareceu no terreiro da casa de um caçador um menino estranho. O caçador, ouvindo um barulho, foi até a janela, mas não viu ninguém. Até que ouviu um batido na porta…

TOC, TOC, TOC!

O caçador foi andando até a porta…

— É… Quem está aí?

— É o bich… Quer dizer, é um menino…

— Menino?!

O caçador, então, lembrou que aquela noite era noite de lua cheia! E já meio amedrontado, perguntou:

— E o que você quer, me-me-menino?

— Ah, apenas um pouco de comida!

Comida? Menino?! Lua??!! E o caçador já bastante amedrontado, perguntou:

— E o que, vo-você co-co-come, me-menino?

— Ah, qualquer coisa… Até mesmo um pedaço de pão!

Ah, que alívio! Não era o bicho, pois esse comia gente! O caçador, então, cheio de coragem abriu a porta…

NHÉÉÉÉÉÉ….

Quando ele abriu a porta… Sabe o que ele viu? Viu que, de fato, era um menino, e que ele tinha os cabelos vermelhos e as orelhas pontudas…

— Ai, meu Deus do céu!! É o bicho! É o bicho! Socorro, meu Deus do céu! Ai, ai, ai, ai, ai… Socorro! É o bicho, meu Deus!

— Sim, sou o bicho! Transformei-me em menino e vim me encontrar com o senhor!

— E vai me comer, bicho do mato?

— Do mato eu sou, do mato em vim, mas não vou comer ninguém… Vim para dizer que existo, mas não sou mal como dizem que sou!…

— Veio para dizer isso?! — perguntou o caçador admirado.

— Vim para pedir uma coisa! Não tenham medo de mim, como a todos os meus amigos animais. Vocês é que nos caçam, vocês é que nos comem e, muitas vezes, não por fome…

O caçador ouvindo isso abaixou a cabeça e, envergonhado, pediu desculpas pelas atitudes malvadas dele. Quando levantou a cabeça não mais viu o menino-bicho, que já havia voltado para a floresta. Ouviu apenas um som longo e fino sumindo pela noite.

Fiu, fiu… prrrrit, prrrrit!

Para ouvir o conto narrado, clique abaixo!

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Forte abraço!

Leandro Bertoldo Silva.

A PASSAGEM

A Passagem

Não me procures ali

onde os vivos visitam

os chamados mortos.

Procura-me dentro das grandes águas.

[…]

 Hilda Hilst

Um dia, um pescador saiu para pescar. Levantou mais cedo que os outros e foi para o mar. Lá, desembainhou o facão e desvestiu a pele de seu corpo, jogando-se na água. Assim que seu corpo sem pele tocou a água, ele transformou-se em um peixe lindo, encantando os outros peixes, conduzindo-os às redes dos outros pescadores a essa altura já armadas. No final do dia, já em forma de homem, voltou para casa levando um único peixe, diferente dos demais que voltaram com as redes cheias. Com o tempo, seu filho foi achando aquilo estranho, mas era só ouvir as algazarras dos meninos, que logo esquecia e ia brincar com as outras crianças.

Numa bela manhã, o rapaz acordou mais cedo do que o pai. Esperou que ele saísse e o seguiu, presenciando tudo o que fazia. Naquele dia, o pai não mais voltou para casa. Os pescadores também não levaram peixe algum. Assim foram todos os outros dias seguidos até que o rapaz, mantendo silêncio, fez o que precisava: levantou cedo e foi para o mar procurar o pai. Ao chegar, viu-o de costas na margem da água, parecendo que o esperava.

            — Você descobriu… Agora terá que tomar o meu lugar.

            — E se eu não quiser, pai?

            — Todos morrerão de fome. Nós dois sabemos que não há escolha.

Desembainhou o facão… Um grito de pânico se fez ouvir. O rapaz sentou-se na cama, sentindo-se completamente ofegante e suado…

            — Pesadelo, filho?

            — Sim, eu…

            — Já não era sem tempo… Levante-se! Hoje você vai pescar comigo.

            Um medo terrível assolou o garoto, e ele fez a mesma pergunta do sonho:

            — E se eu não quiser, pai?

            — Nós dois sabemos que não há escolha… Eu vi como ontem você não quis brincar com as outras crianças…

O tempo havia chegado… E foi assim que a passagem de sua infância se deu como uma lâmina a desvestir o seu corpo e expor a sua alma. Era isso o que pensava, lembrando-se do pai, enquanto ele, agora homem feito, olhava o filho que dormia parecendo sonhar…

Ouça o conto narrado

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