TEMPOS IDOS, MAS VIVIDOS

Por Leandro Bertoldo Silva

Curioso como as profundas transformações da vida só são percebidas depois – muito depois – quando tomam importâncias gigantescas. No momento em si são apenas acontecimentos, nada mais. Felizes são os escritores ao captarem em palavras fotografias dos seus tempos. Se alguém irá ler ou não, como você agora, é outra história. O importante é que está grafada antes de tudo na alma e salva do esquecimento. Mas quem disse que um escritor nasce escritor? Mia Couto bem diz: “ninguém é alguma coisa, e sim está alguma coisa”. E eu nem era e nem estava absolutamente nada naquela época de algum dia de algum mês de 1979. Aliás, era: uma criança de 7 anos de idade a aprender a ler e a escrever sem se dar conta do quanto estava a ser moldado naquelas folhas mimeografadas com cheiro de álcool ao contornar à lápis os pontilhados das letras.

Antes de qualquer coisa, sim, naquela época aprendíamos a ler e a escrever mais tarde e de forma rudimentar. Não era como hoje quando meninos e meninas com 4, 5 anos já estão iniciando suas jornadas com as palavras com as mais avançadas metodologias. Mas tenho comigo que muitas vezes a “pressa é inimiga da perfeição” e nem sempre quem larga na frente chega em primeiro, quando chega, ou chega bem. Basta um olhar minucioso para os acontecimentos do dia a dia em comparação à simplicidade de outrora e tirar as próprias conclusões.

De qualquer forma, eu aprendi a ler muito rápido. Talvez até mesmo pela espera, porque antes de lançar-me às letras eu lia – e lia muito bem – as coisas da vida. Lia o gosto das frutas que eu comia no quintal da minha avó, em especial para as ameixas, goiabas, pitangas e amoras. Lia os meus carrinhos de lata, que até hoje me fascinam. Lia as bolas de gude e as de meia feitas pelo meu pai. Lia as formigas ao acompanhá-las em fila ao formigueiro com as folhinhas às costas. Lia as joaninhas a passear pelos meus dedos. Lia o vento nos cabelos que já não tenho quando, de cima da árvore, continuava a ler o sopro forte da chuva que vinha pelo canto das cigarras.

Ah, que tempos… Tudo isso era o grande livro da natureza e foi muito útil quando finalmente chegou os dias de escola. Engana-se quem pensa que aquelas histórias escritas em língua que hoje se chama “saudade” acabaram com a vinda do novo compromisso. Ir para a escola era uma aventura. A propósito, eu ia de avião. Eu tinha vários. O que eu mais gostava era um branco e laranja com hélice frontal e trem de pouso para a água (vai que chovia no caminho…). Decolava do quintal e por dois a três quilômetros voava com os olhos fixos pelas janelinhas daquele aviãozinho de brinquedo até pousar com segurança no hangar debaixo da carteira da minha sala de aula.

Foi nessa sala, inclusive, que aquela transformação profunda do início desse texto se tornou uma das maiores. Não me lembro dos colegas, mas jamais esqueci a professora que uma vez a segui da escola até sua casa apenas para ver onde ela morava a fim de certificar que ela era uma pessoa normal, que tinha casa, família, comia e bebia como todo mundo. Sempre tive as professoras daquela época como seres diferentes das outras pessoas, quase divinos, e eram mesmo. Havia nelas qualquer coisa de fadas, uma espécie de perfeição que provocava fascínio. Aquela em especial apresentou-me as letras. E a partir daquele momento eu poderia escrever as minhas leituras.

Evoco apenas mais três daqueles tempos: essa mesma professora ao nomear-me “guardião da escada” a fim de impedir que os alunos saíssem do pátio na hora do recreio antes do sinal, o que acarretou em mim um prodigioso sentimento de responsabilidade; a roupa de palhaço que a minha mãe fez para uma festa da escola em que o cós da calça ficava quase à altura do joelho, tornando-me a sensação da festa na qual substituí as gozações pelos aplausos anos depois nos palcos de teatro, e de novo a professora ao ensinar-me que quando estamos sem ideias para escrever, a folha de papel pode se tronar um copo para beber água. É que no caminho de volta para casa havia uma pracinha e no meio dela uma biquinha por onde corria uma água constante. Nunca soube de onde vinha a água, ainda bem, mas meu avião sempre fazia uma escala no banco ao lado da bica, onde eu repetia as dobras na folha de caderno ensinadas pela mestra, e dava forma a um copinho que recebia a água e me saciava a sede antes de continuar a viagem. Embora hoje uso computadores para registrar as minhas leituras, ainda escrevo em cadernos, mas não arranco as suas folhas para que não sacie a importância de tempos idos, mas vividos com a intensidade de um menino que soube o que é ler cada momento da vida, porque, para lá do meu quintal, sempre existiram e irão existir páginas a serem preenchidas e, quem sabe, percebidas.

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Forte abraço!

FELIZ LIVRO NOVO!

Que na vida possamos ser quem realmente somos, sorrir os nossos sorrisos, mostrar, sem medo, os nossos corações. FELIZ LIVRO NOVO para todos! Os que podem ser lidos e os que podem se escritos. A página está em branco e hoje começa um novo capítulo. Escrevamos.

Forte abraço!
Leandro Bertoldo Silva.