PONTOS DE VISTA

menina

Por Leandro Bertoldo Silva

Por caminhos tortos, viera

a cair num destino

de mulher.

[…]

– Clarice Lispector –

 

“Havia me arrumado toda. Um dia inteiro no salão de beleza”.

Pensava, pensava, pensava… Seu cabelo mais parecia uma escultura de Rodin. Unhas desenhadas, moderníssimas. A pele uma seda, e gastou uma fortuna naquele vestido dos sonhos. Ficou tão bonita que mal podia se reconhecer no espelho.

“Por que será que ele sequer me olhou?”.

Perguntava-se desiludida e triste, segurando a vassoura na pausa da casa que pedia arrumação. O cabelo da véspera, agora volumoso e desgrenhado, estava preso no alto da cabeça por dois lápis atravessados. A maquiagem desfeita revelava as sardas abaixo dos olhos. Os óculos, de aros grossos e teimosos, escorregavam para a ponta do nariz. Os chinelos de dedo nada pareciam com os sapatos de salto de outrora. Foi assim, com uma camiseta simples e um short desfiado, que se dirigiu à porta para atender a campainha que tocava. Era ele! O amigo do seu irmão… O responsável por toda aquela transformação de Cinderela. Ontem sequer a notou; hoje estava ali, bem a sua frente, vendo-a naquele estado! Os olhos pousados nela, vidrados, pareciam não acreditar. Sua vergonha aumentava a cada silêncio do rapaz que não arredava pé, até que sua boca, num movimento de quem iria finalmente desferir a gozação, disse:

— Luiza! Você está… linda!

E o amor se indecifrou em pontos de vista…

BOOKSCREEN – LITERATURA NA PALMA DAS MÃOS (E COM SEGURANÇA)

bookscreen

O BOOKSCREEN da Árvore das Letras, que em sua tradução literal é “tela de livros”, é uma nova experiência de leitura compartilhada e planejada entre grupos de pessoas. O objetivo é oferecer uma leitura organizada que pode ser por capítulos ou número de páginas, dependendo do objetivo proposto.

Dessa forma, é possível mensurar o dia do início e do término da leitura da obra escolhida e todos estarão lendo no mesmo ritmo, proporcionando uma maior interação entre os participantes.

Inicialmente, o BOOKSCREEN foi criado para os alunos da Árvore das Letras, mas, devido a sua interatividade, qualquer pessoa, independente de onde esteja, pode participar ativamente das leituras.

Sendo assim, como funciona?

Escolhido o livro, a forma de leitura (se por capítulos ou nº de páginas) e a periodicidade (se diária ou semanal), serão adotadas as seguintes etapas:

1º) Os textos (páginas ou capítulos) serão publicados em um link específico aqui no blog da Árvore das Letras e estarão disponíveis para leitura;

2º) Será criado um grupo no whatsapp, onde todos os participantes receberão o link de acesso ao texto publicado no blog;

3º) Os participantes farão a leitura no tempo estipulado;

4º) Os participantes poderão escrever nos comentários das publicações um parecer (síntese) sobre o que leu. Este parecer, além da prática da escrita, será fundamental para o debate, que é o próximo passo;

5º) Em sala de aula ou em fóruns de discussão pela internet, serão debatidas as páginas ou capítulos lidos. No caso de pessoas estarem em outras localidades, os comentários deixados na página servirão de muito auxílio para esse momento.

6º) O mesmo processo será repetido até o término do livro;

7º) Ao final da leitura, o livro físico será sorteado para todos os que participaram nos comentários das postagens, sem custo de envio.

NÃO É UMA MANEIRA INTERESSANTE E SEGURA DE COMPARTILHAR LEITURA?

Se você não é aluno da Árvore das Letras e deseja participar, fique atento nas nossas redes sociais e envie mensagem dizendo do seu interesse de fazer parte dos grupos.

Estaremos lendo dois livros a partir do dia 22/03/2020: Janelas da Alma – uma tempestade íntima, um conflito, um retorno (de Leandro Bertoldo Silva) e A Ilha Perdida (de Maria José Dupré – Coleção Vagalume).

Entre em contato para saber mais informações.

Forte abraço!

Leandro Bertoldo Silva.

(DES)ENCONTRO

(Des)Encontro

A vida é a arte do encontro, embora

haja tantos desencontros pela vida.

 – Vinícius de Moraes –

— Certa vez, a rosa se enfeitara de flores para ser percebida. Nem assim conseguia.

— Como?!

— Certa vez, a rosa se enfeitara de flores para…

— O que? Só um minuto, por favor, o celular… […] Sim, agora pode falar.

— Certa vez, a rosa se enfeitara…

— Nossa, me lembrei de que tinha que ter postado aquela foto ontem! Desculpe, sim… Então…

— Certa vez, a rosa se…

— Preciso trocar este telefone… Ah, desculpe. O que estava mesmo dizendo?

— Certa vez…

— Será que pedimos batata frita ou hambúrguer na chapa? Bem, parece que você estava dizendo alguma coisa…

— Certa… mente.

— O que?

— Nada. Quero ir embora.

— Você é sempre assim! Depois diz que não te dou atenção…

A CADEIRAERRANTE

Tina

Por Leandro Bertoldo Silva.

Perdi o medo de mim. Adeus.

 – Adélia Prado –

Sou eu. Sou eu que ponho perfume nas flores, sou eu que alimento o sopro dos ventos, que tinjo de luz o negrume da noite a sustentar-me em asas descoladas.

             Valentina acordou com essas palavras a fazerem versos em sua mente. Estranhou o fato de não ser alguém a lhe dizer isso em sonho que já não lembrava, mas de ser o próprio sonho que a despertava. Aquele não seria mais um dia comum… No vazio de sua existência, onde insistiam em mantê-la em uma viagem permanente que a distanciava cada vez mais de onde queria estar, perfilava a fronteira entre a sombra e o esplendor do sol que a separava da imobilidade. Valentina, valente, tinha no nome a fonte: a coragem e a força de emplumar-se, como aves, a liberdade de sua alma. E daí que vivia em uma cadeira de rodas? Acaso não existia? Não havia lugar em que não pudesse ir nem havia nada que não pudesse fazer. Levantou-se, preparou-se num esmero de namorada e linda, como nunca havia deixado de ser, mirou-se no espelho para, antes de chamar a todos e anunciar sua nova presença, chamar a si mesma.

Horas achadas ficou remirando seu rosto e seu corpo enxergando além deles. Descobria-se… Valentina virou Tina, descolada do que lhe prendia. Surgia ali Tina Descolada e agora com uma razão de vida: ser uma cadeiraerrante sem limites a viajar pelo mundo dos sonhos e das possibilidades, descolando outras Tinas para a liberdade, e construir rampas de acesso ao coração das pessoas no lugar onde antes existiam escadas. Agora sim, podia chamar os outros. Estava na hora de voar…

(Agradecimento sempre especial à Marta Alencar, que escreveu o prefácio de meu primeiro livro Entrelinhas Contos mínimos, no qual contém essa história).

ENTRE O ANELO E O SUSPIRO

escritora

Por Leandro Bertoldo Silva

 

Aflição de ser água em meio à terra

e ter a face conturbada e imóvel.

E a um só tempo múltipla e imóvel.

 – Hilda Hilst –

Há momentos de mais puro esquecimento, esses momentos em que nossa alma se liberta em princípio de estado. Como é doce o não ter que ser…

Era o que pensava Jorge. Queria não ter que ser sempre, entregar-se a ele mesmo como as flores se entregam ao orvalho da manhã sem trocas e sem medos. Sempre teve [ou tive?] a visão desse encontro: ora era a flor, ora o orvalho, como ora era o escritor, ora o personagem, sem preferências ou escolhas que viessem destruir os versos que existem “entre o anelo e o suspiro”, como dizia aquela poesia guardada em um naco de memória.

Já era noite e toda noite era assim: nos preparávamos, eu e Jorge, para esquecer, nunca dormir. No esquecimento, não há sonhos – essa arrogância do pensamento. Isso já era eu que achava, em comunhão com meu personagem, que, a essa altura, já não sabíamos quem era ele e quem era eu. Não importa. Calávamos um para o outro no momento exato do esquecimento, fragrância milimétrica de tempo entre o estar acordado e o começar a dormir.

Pronto. Já foi. O barulho recomeça e o sonho invade os nossos pensamentos. Boa noite, Jorge. Amanhã volto a escrever-te.

MATERNIDADE

Maternidade

Alice: Quanto tempo dura o eterno?

Coelho: Às vezes, apenas um segundo.

 – Lewis Carroll –

Maternidade era uma das palavras esquecidas no seu dicionário. Era fácil demais para algumas pessoas pensarem nisso, não para ela, de corpo perfeito e vida em liberdade. Por isso, seu ventre crescido estava na contramão de todos e recordava sua rejeição. Daquele invólucro perfeito, ficariam cicatrizes, marcas que sobreporiam ao efemeramente físico e atingiriam sonhos interrompidos.

Dejanira era mulher do mundo. Esse era o resguardo que nunca pensou em abandonar, nem sequer substituí-lo por um momento que fosse. Sentia-se sem vida, apesar da vida que crescia dentro de si. E, agora, mesmo sendo duas, teimava em sua solidão. O tempo passava, mas não levava a angústia que aumentava a cada dia que a circunscrição de seu estado apontava. Já dividia seu alimento, mesmo sem sua permissão, como seria dividir o resto? Era o que pensava desolada e inquieta. Só havia um jeito: acabar logo com aquilo. Porém, o feto crescido já era uma criança e, antes mesmo de pensar em qualquer outra coisa, de seu corpo redondo começou a emergir um líquido que, ao rebentar da bolsa, jorrou junto com uma sensação indefinível que a urgência do momento não permitiu reflexões. Elas só vieram quando, já com a criança liberta deitada em seu peito em meio aos médicos, começou a cantarolar uma cantiga de ninar no mesmo momento em que seus seios saciavam o filho que calava a ouvir.

Seus olhos recém-maternos se iluminaram, e o coração, que antes rejeitava, agora acalentava e se punha a descobrir uma desconhecida impressão felina e protetora.

A mulher do mundo sem fronteiras não sabia se o choro convulso que irrompia naquele instante era amor ou remorso, talvez fossem os dois. Aquele momento eternizado na música que embalava sua criança fazia pensar: afinal, é a mãe quem dá à luz um filho ou é o filho que faz nascer a mãe?

QUER OUVIR UMA HISTÓRIA?

Contação de histórias

“ELE IMAGINAVA que era rei, soldado, herói, pirata e domador. Era o que queria ser, porque era um sonhador…”

Foi ouvindo essa música tema do Pedrinho, do Sítio do Picapau Amarelo, que cresci de tamanho, mas continuei criança no coração porque nunca deixei de sonhar. Por muitos anos contei histórias em tantas cidades e lugares… Livrarias, eventos, feiras, simpósios e principalmente escolas. Mudei de Belo Horizonte para o Vale do Jequitinhonha e continuei contando histórias, só que através dos livros que comecei a escrever. Hoje tenho 4 livros publicados entre romance, contos, poesia e um infanto-juvenil. E este ano publico o meu quinto livro, que é fruto de uma longa pesquisa sobre as histórias e casos de Belo Horizonte e que tem como protagonistas Xavier de Novais — o segurança de uma livraria — e nada mais, nada menos do que o fantasma de Aarão Reis! É cada história…

Agora é hora de juntar as duas coisas — os livros e a oralidade — para que cada vez mais personagens sejam libertados e a magia e o encantamento nunca possam deixar de existir.

Quer ouvir uma história? Tenho muitas pra contar!

Uma mala, um violão, alguns livros, apitos, lenços e um mundo se abre aos nossos olhos…

Como na foto acima que, pelas carinhas das crianças, dá para perceber o quanto elas ficaram encantadas ao ouvir a saga do caçador que recebia no terreiro da sua casa o terrível bicho Mapinguari… Eita!

Clique no play abaixo para conhecer essa história e, se quiser conhecer outras, entre em contato! Terei o maior prazer em fazer uma visita levando minha mala repleta de livros e casos…

Entre em contato e se abra para um mundo de sonhos!

Whatsapp: (33)98437-0072

Forte abraço!

Leandro Bertoldo Silva.

PRIMEIRO DIA DE AULA

Primeiro dia de aula

Nossas vidas são definidas por momentos.

Principalmente aqueles que nos

pegam de surpresa.

 – Bob Marley –

Primeiro dia de aula. Escola nova, novos colegas, novos professores. Ia sem entusiasmo, pois não compreendia o porquê de estudar aquelas matérias, ou melhor, aquelas coisas sem praticidade nenhuma. Já não bastasse a Matemática com aqueles cálculos medonhos, ainda tinha o Português com aqueles textos e regras cheias de exceções. Chegou atrasado, quando o professor, que já havia iniciado a aula, falava com entusiasmo:

— A função do verbo é dar ação ao sujeito. Portanto, sujeito sem verbo é sujeito paralisado…!

Torcendo o nariz, por ver ali a comprovação do que pensava, perguntou ao colega ao lado:

— Qual o nome desse professor de Português?

— Português?! Não… Ele é professor de Teologia!

A surpresa e o susto que tomou, fizeram-no lembrar-se da combustão instantânea da Química quando, aos moldes da Física e seus caminhos improváveis, começou a enxergar a importância oculta das matérias enquanto o professor complementava sua explicação:

— É por isso que precisamos aprender a ler o mundo e a manter a nossa vida longe do ‘estado de dicionário’ e correr a Geografia de nossas almas.

E uma nova História começou a ser escrita em sua vida…

HISTÓRIAS DE UM CERTO AARÃO E OUTROS CASOS CONTADOS: DAS HISTÓRIAS E LENDAS DE BELO HORIZONTE RECONTADAS POR UM SEGURANÇA QUE RECEBIA, EM SEU SERVIÇO, A VISITA ILUSTRE DO FANTASMA DE AARÃO REIS

Aarão Reis - arte provisória

 

Olá, meus amigos! Tenho uma grande novidade para vocês!!

Acabo de finalizar a escrita do meu quinto livro!! Iuhuuuuuuuu!!!

Vocês podem imaginar o meu estado de extrema felicidade!! Afinal, foram alguns bons anos lendo muito, visitando exposições, pesquisando a história de Belo Horizonte desde quando ainda era o antigo Curral del Rey, anotando, preenchendo muitas folhas de caderno…

Mas para quem é escritor sabe que o ponto final em uma obra não é tãããão final assim e que esta é apenas a primeira etapa do trabalho… Agora vêm as revisões, as trocas aqui e ali de alguns vocábulos, as correções ortográficas, enfim…

Além disso, é momento de me debruçar no projeto gráfico, na arte da capa, nas ilustrações que, como sabem, é tudo feito de maneira minuciosa.

Mas sabe o que é legal?

Pela primeira vez quero dividir esse momento com os leitores! À medida que eu for caminhando, conversando com pessoas, decidindo revisores, criando as ideias, quero ir documentando e compartilhando tudo isso com vocês para que vejam, literalmente, o livro nascer.

Além disso, vou postar algumas fotos de lugares que aparecem ou são citados no livro e dar até algumas pinceladas da história, sem spoiler, é claro!

E para que tenham uma ideia do que trata essa história bem intrigante até na forma de ser escrita, respondam-me…

Vocês têm medo de fantasmas? Sim ou não?

 

Depois de muito tempo, resolvi abrir uma história ao conhecimento de todos. Uma não; várias! Na verdade, essas histórias (ou estórias?) não aconteceram comigo, mas com um amigo: Xavier de Novais, o segurança de uma livraria. É ele o narrador do meu quinto livro que acabo de finalizar!

Saibam que Xavier de Novais é o melhor amigo vivo do fantasma de Aarão Reis. Eu sei que essa história é um tanto estranha… Mas vale a pena conhecê-la! Por enquanto, apresento-lhes a sua estrutura narrativa…

Vamos lá?

Nessa obra há o deslocamento do foco de interesse da escrita. Não se trata diretamente da biografia real de Aarão Reis, mas da forma como ele enxerga as circunstâncias em que vive após a sua morte. Em vez de trabalhar os espaços externos e sociais do personagem, investe na caracterização ficcional do mesmo a partir do momento em que Aarão Reis, agora um fantasma, conta suas histórias para Xavier de Novais — o segurança de uma livraria —, em nosso século, que é o personagem-narrador do livro.

construtores
Comissão Cosntrutora da Nova Capital – 1895

 

 

 

Aarão Reis carrega, sim, a estigma de grande homem importante que foi em vida (Engenheiro que arquitetou a chamada Nova Capital, hoje a cidade de Belo Horizonte, em Minas Gerais), mas o que importa para ele é a sua existência após a morte e a liberdade de fazer o que mais gosta: contar histórias. Para isso, assim que chegou no “mundo da fumaça”, como ele mesmo diz, tratou logo de pedir às autoridades sua transferência do Departamento dos Fundadores para o Departamento dos Contadores de Histórias. Só vendo…

A estrutura de “Histórias de um certo Aarão e outros casos contados” tem uma lógica narrativa inovadora. A sequência do livro não é determinada pela cronologia dos fatos que o envolvem, mas pelo encadeamento das histórias de Aarão Reis recontadas pelo segurança da livraria. Uma história puxa a outra e, entre elas, de forma paralela, a nova existência de Aarão Reis vai sendo revelada ao leitor – pura ficção.

Organizado em contos, a obra flui segundo o ritmo da fala de Xavier de Novais – o narrador, que não é o personagem principal. A aparente falta de coerência da narrativa, permeada pelos contos, revela uma forte coerência interna. Vale lembrar que os contos são as histórias contadas pelo fantasma – ele, sim, o personagem principal – ao amigo.

Em síntese: É um romance (a história fictícia de Aarão Reis no além, após a sua morte) permeado por contos (as histórias contadas ao segurança e recontadas, por este, ao leitor).

A ideia é que as histórias contadas passem pelo imaginário popular, sendo levadas ao leitor – além de algumas criações genuínas – releituras de lendas urbanas de Belo Horizonte, como o fantasma do Palácio da Liberdade, o Avantesma da Lagoinha, o mistério do tesouro da Serra do Curral e até mesmo a Loira do Bonfim aparece por aqui, além de outras histórias recheadas de imaginação.

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Dentro do pensamento de que “quem conta um conto aumenta um ponto”, alguns desses personagens seriam amigos de Aarão Reis que poderiam, inclusive, contar as suas próprias versões das lendas, ou seja, a estória por trás das histórias, fazendo com que os leitores tenham uma experiência diferente ao que sempre ouviram e busquem as várias versões das mesmas, fazendo um paralelo entre o que é contado e o que pode ser criado. É como diz a citação de Bartolomeu Campos Queirós no início do livro:

“A memória é um espaço interno onde a fantasia conversa com a realidade”.

Essa é a proposta narrativa que ainda reserva outras surpresas, como, quem sabe, um encontro inusitado com Brás Cubas, ou mesmo com o seu criador, uma vez que Aarão Reis conhecia bem o Rio de Janeiro, embora tenha preferido ficar em nossas terras mineiras… Tudo é possível no além…

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Está aqui, portanto, apresentado este livro que acaba de ser escrito!

Convido você a essa jornada de experimentação e criação literária, remontando aos tempos dos folhetins. Isso se não tiver medo de fantasma…

PARA LÁ DESSE QUINTAL

Para lá desse quintal

Quando a pátria que temos não a temos

perdida por silêncio e por renúncia

até a voz do mar se torna exílio

e a luz que nos rodeia é como grades.

 – Sophia de Mello Breyner Andresen –

Para lá desse quintal, sempre houve uma noite infinita. Contudo, agora que o transpôs, não sabia se deveria. Talvez fosse melhor imaginá-la pelo rádio ao debruçar-se sobre a mesa a ouvir aquela música e deixar-se fazer dela – a noite – o que as suas lágrimas sugerissem. Mas a curiosidade o abateu como estrelas cadentes a viajarem em excessos. Era evidente a sua felicidade na simples-cidade em que vivia: meiga, pequena, pacata, protegida dos adereços que tornam cheios os nossos pensamentos. E quão mais confortável era a vida pouca neste quintal vazio que o tempo ainda não preenchera… Tudo era tão cheio de nada a sua volta, que a falta, além de não se fazer presente, apresentava-se como possibilidades. Um banho quente em noite fria era um bálsamo de abundância! O que dizer da velha bicicleta que o ajudava a vencer a longa distância entre a casa e a escola e ainda emprestava-lhe a suave carícia do vento? Mas o menino cresceu… E o quintal não mais lhe cabia. Não se arrependia de ter desejado o infinito, mas de tê-lo deixado ser ilusão…

(Do livro Entrelinhas Contos mínimos)