ENCONTRO MARCADO – PRODUÇÃO ARTESANAL DE LIVROS

Acompanhe a entrevista que dei ao programa Encontro Marcado da Rádio 98Fm, em Teófilo Otoni, falando sobre a produção artesanal de livros.

Tive a alegria de conhecer e conversar com o apresentador Aníbal e estar com a minha filha e sempre colaboradora Yasmin @heey_yasmiin , que preferiu ficar nos bastidores fazendo divulgações em tempo real.

Foi uma conversa muito tranquila onde pude expor como vem sendo o meu trabalho na Árvore das Letras com o selo Alforria Literária, trabalho esse desenvolvido em Padre Paraíso, no Vale do Jequitinhonha, e que vem “aos pouquinhos” (pare ser bem mineiro) ganhando o conhecimento das pessoas.

CHEGA! É COELHO DEMAIS NESSA HISTÓRIA!

É possível até que, para quem vê um escritor sentado àquela mesa repleta de exemplares de seu livro autografando-os para os leitores ávidos na fila de espera, pense em como é maravilhosa e promissora a vida desses arquitetos da palavra. Mais do que isso, é possível imaginá-los ainda crianças em volta de suas prodigalidades ao ostentar todos os elogios das professoras primárias para o orgulho dos pais.

Bem, devo confessar que o meu início não foi assim tão alvissareiro… Aliás, muito, mas muito longe disso. Quando criança eu sofria de uma certa indisposição periférica de linguagem portátil de intercomunicação simplificada, que, em termo mais popular, significa “preguiça”. Sim, devo admitir – até porque há provas incontestáveis disso – que eu tinha muita preguiça de escrever. Aí está, veja só…

Eu sempre inventei histórias, isso ninguém pode negar, e as contava brilhantemente, embora pessoa alguma as ouvia, pelo menos que eu estivesse consciente disso. Eu inventava e reinventava verdadeiros feitos memoráveis com heróis e mocinhas ao portar os meus bonequinhos de plástico como personagens principais e tinha até os secundários e antagonistas, subia ladeiras impossíveis cheias de obstáculos formados pelas voltas do grosso cobertor de onça na cama dos meus pais com meus carrinhos e minha picape cinza de rodas largas e, mesmo quando não havia a companhia de nenhum desses cúmplices de aventuras, me imaginava em um complexo e extenso torneio chamado “Campeonato Belo-horizontino de Futebol de Jogo Dedado”, que consistia apenas em uma bolinha de gude e os meus dedos indicador e médio de ambas as mãos, como se fossem as pernas dos jogadores, aliás, de todos os 11 jogadores de todos os times inscritos no torneio, que acontecia no tapeta da sala da minha casa com turno e returno. Havia times de todos os bairros da cidade, sendo o maior clássico Pompéia X Esplanada Futebol Clube. E olha que existia passe de calcanhar, embaixadinha, lançamentos precisos e até o som da torcida que vibrava com cada lance e gols antológicos. Digo isso para mostrar que, sim, eu inventava histórias, mas escrevê-las… E é aí que entra a pessoa que me projetou para o que eu sou hoje: para alguns, Maria Elena – com “E” mesmo – para outros, Dona Elena, outro, ainda, Lena, mas, para mim, a minha mãe. E o que tem isso com o título dessa história? Calma! Não sejamos apressados como os coelhos…

Estava eu naquele fim de manhã de uma sexta-feira na sala de aula a contar as horas à espera para ir embora crente que naquele dia não teríamos “para-casa”, o que me renderia todas as tramas e aventuras possíveis com meus companheiros de imaginação, além de poder realizar toda uma rodada do campeonato de jogo dedado, quando tudo se esvaiu como um passe de mágica ao ouvir a professora, minutos antes de soar o sino, pedir que escrevêssemos o que naquele tempo chamávamos de “composição”. Era a redação de hoje  e aquela palavra, por incrível que pareça, me atormentava. A primeira sílaba -com imediatamente era substituída pela correlação -im e a palavra virava “imposição”. Pronto! Era isso o suficiente para toda a minha criatividade ir para o espaço e a indisposição periférica de linguagem portátil de intercomunicação simplificada tomar conta de mim e do meu humor.

Ainda bem que o tema da composição era livre, o que não diminuiu a imposição correlata, e isso me fez voltar para casa acabrunhado já preocupado com o que eu iria escrever. Para que essa história não vire um tratado psicológico ou de educação ao associar o que para mim era e ainda continua sendo óbvio, ou seja, se um dia, para os seresteiros, a televisão matou a janela, para mim a obrigação matava a vontade, cheguemos, pois, logo aos coelhos. Mas não sem antes dizer o quanto minha mãe me conhecia! Ao me ver arrastar o caderno para lá e para cá e brincar com o lápis entre os dedos, ela já sabia do que se tratava. Sem deixar de mexer nas panelas do almoço e vendo o estado que a imposição periférica me deixava, ela disse um “venha cá, meu filho, eu vou te ajudar. Já que o tema é livre, escreva aí! Mas só dessa vez, hein…”. Sentei ali mesmo no chão da cozinha e, olhando para cima, aquela mulher de pouco mais de um metro e sessenta se agigantava em ternura, cuidado, carinho, sabedoria e amor. Preparei-me para escrever, quando ela começou a ditar:

– Era uma vez um coelho… – “Era uma vez um coelho…”

– Que casou com uma coelha… – “que casou com uma coelha…”

– E teve sete coelhinhos…

CHEGA! É COLEHO DEMAIS NESSA HISTÓRIA! O que tinha sido para mim um alívio a ajuda da minha mãe, tornara-se um drama ao lembrar das explicações da professora… Não é que ela havia dito que o tema era, de fato, livre, mas que todo personagem que colocássemos na história tinha que ter nome, sobrenome, história pregressa (eu nem sabia o que era isso) e, para mim, identidade, CPF, procuração passada em cartório – só faltou ser aquela do céu – assinada: “Deus”. Deus do céu…

Confesso não me lembrar de como terminou essa história, essa e a daquela coelhada toda. Talvez a minha ânsia de escrever que tempos depois fez parte do que sou e faço hoje seja a minha tentativa de descobrir. De qualquer forma, sou grato à professora que me venceu ao tirar de mim naquele dia a possibilidade de minhas aventuras, mas me deu a oportunidade de ter com minha mãe um momento breve, brevíssimo, mas o suficiente para marcar oficialmente o meu começo na literatura. Eu sempre disse e continuarei dizendo que a literatura é uma escada muito alta, e que para chegar lá no topo é preciso subir degraus. Se assim é na leitura, na escrita então nem se fala… Sim, ela me venceu, mas “ao vencedor , as batatas”, já dizia Machado de Assis, e certamente não foram as que minha mãe cozinhava naquele dia. Essas eram só minhas. Das mãos generosas da minha mãe surgiam, assim, o alimento do corpo e da alma ao fazer nascer não coelhos, mas, a partir deles, a existência de uma lembrança e de um ofício.

PAIS E FILHOS, FILHOS E PAIS

Por Leandro Bertoldo Silva

“Quando é que os pais vão entender os filhos? Quando é que os filhos vão entender os pais?”

É assim que Moacyr Scliar entra na parte final de uma crônica intitulada Um filho e seu pai, que, ao ler, recordo-me de uma passagem da vida quando eu, com dez anos, fui apresentado não ao meu pai – que já o conhecia de várias ocasiões, mas ao pai que eu queria ser. A bem da verdade minto um pouco – só um pouquinho – porque, embora já havia tido tantas mostras do herói que meu pai sempre foi e ainda é, mesmo eu hoje com os meus 49 anos de idade, foi lá naquela manhã quando, absolutamente atormentado por uma prova de ciências que estava prestes a fazer, tive a alma completamente arrebatada ao olhar para aquele homem de semblante tranquilo e assovio afinado, sua marca registrada ao se fazer presente, enquanto me levava para a escola em passos lentos antes mesmo de ir para o trabalho.

Voltando um pouco, acordei com aquela vontade de fazer os ponteiros do relógio regressarem para não encarar a dura realidade de ir para a escola, ainda mais em dia de prova. A disciplina já é sabida: Ciências. Qual a matéria? Corpo humano, ou, para ser mais exato, o esqueleto humano. Havia passado o dia anterior em cima dos cadernos tentando decorar os mais de 200 ossos que o constitui, sem me esquecer das extremidades de cima com seus trapézios, trapezóides, capitatos, hamatos e uma série de nomes para mim mais úteis nas histórias espaciais que eu inventava com os meus bonequinhos Playmobil.

Como sempre, o meu pai precisou chamar várias vezes para eu levantar, enquanto passava o café. Minha mãe, cúmplice daqueles momentos, me vestia ainda na cama e, uma vez de pé, não havia mais jeito: era ir ao banheiro e de lá me dirigir à mesa, onde já estavam os meus irmãos em conversas animadas — às vezes nem sempre — contrapondo comigo ao viver, calado e acabrunhado, meu pesadelo de Lucy, o esqueleto mais antigo já encontrado no mundo, estima-se que da espécie “Australopithecus afarensis” que viveu há 3,2 milhões de anos.

Eu praticamente nem prestava atenção no que comia. Meu pensamento saia do cérebro e descia pelo tubo anelar da traqueia, passando pelo esôfago e chegando aos intestinos grosso e delgado, quase me fazendo arrevessar, para dizer uma palavra mais apropriada para a ocasião em que eu me encontrava à mesa do café.

Mas não se iludam! Essas palavras difíceis nem em sonho eu as tinha em minha mente e nem seria capaz de pronunciá-las à época. A propósito, esse era o problema: eu não sabia nada. O dia anterior havia sido um desastre em minhas tentativas infrutíferas de decorar o esqueleto humano, a sua função e para que servia cada coisa, inclusive ossinho por ossinho. E ainda tinha que lembrar a professora dizendo que não podíamos decorar, era preciso saber… Francamente!

Terminado o café que eu mal havia começado – sem que minha mãe amorosamente repreendesse e emendava um “não deixe de merendar no recreio, hein!”, lá fui eu mochila às costas na companhia do meu pai que a essa altura já detinha todo o conhecimento do que me afligia. E foi aí que começou toda a sua destreza que fazem dos pais seres especiais, sem esforço e alteração e muito menos broncas e sermões.

– Por que está tão preocupado com a prova? – foi a pergunta que eu mal podia acreditar e cuja resposta era óbvia:

– Ora, pai! Porque eu não sei nada!

– Mas você não estudou?

– Estudei, né pai! Mas é muito osso e muita função. É tanta coisa que tem dentro da gente…

– Bom, meu filho, se você estudou você bem sabe, por exemplo, que o maior osso do corpo humano é o estribo, e…

– Que isso, pai? O senhor está louco?! Se eu escrevo isso na prova aí é que eu tiro zero mesmo! Esse é o menor e não o maior. O maior é o fêmur, que é responsável por formar a coxa. O estribo é esse ossinho aqui que fica na nossa orelha.

– Ah, sim… Eu me enganei. Bem, mas se cair na prova qual é o mineral presente nos ossos aí você sabe que é o cloro, não é?

– Pai do céu!! Que cloro que nada! É o cálcio. E o esqueleto humano junto com os dentes possuem 99% dele. Isso eu sei porque só faltou 1% pra chegar em cem. Aí não dá pra esquecer.

– Hummm…. Você foi bem inteligente… Então também não dá pra esquecer que o osso mais forte que nós temos é o osso da mão, porque a gente usa pra apertar as coisas.

– Ai, ai, ai, pai… O senhor é maluco mesmo! Ainda bem que não vai fazer a prova no meu lugar! A nossa mão não tem um osso só, tem vários, e são divididos em carpo, metacarpo  e falange. Além do mais o osso mais forte é o da mandíbula que serve pra mastigar as coisas. Desse jeito o senhor nem deve saber que ele é o único osso móvel do crânio.

– É mesmo? Puxa, não sabia…

E assim foi durante todo o trajeto de casa até a escola, com meu pai falando tudo ao contrário do que eu tinha lido nos livros e no caderno e eu consertando sem deixar de lado aquele mau humor de quem não sabia nada para fazer uma prova.

Ao chegar ao portão da escola, meu pai me deu um abraço, um beijo e desejou boa sorte na prova. Fui o observando indo embora em seu passo calmo e assovio afinado, já desconfiado de que algo muito importante havia acontecido. Eu que cheguei a pensar que o meu pai não estava a me ajudar em nada, ao receber a prova, vi que estavam ali em forma de perguntas exatamente toda a conversa que eu acabara de ter com ele. Até parece que ele havia lido o meu caderno! Será?… Fui respondendo uma a uma às questões, e quando a professora no mesmo dia entregou o resultado da prova, estava lá um 10 e abaixo dele escrito “Parabéns, você arrasou!”.

Saí da escola todo contente e fui pulando para a casa numa felicidade nada clandestina, como disse Clarice Lispector em uma de suas mais belas crônicas. A minha era evidente. Esperei ansiosamente a chegada do meu pai que reconheci pelo assovio. Entreguei a ele a prova, que apenas disse com o semblante bem de pai:

– Você é inteligente! E eu achando que eu sabia tudo…

Pois é, foi assim que eu aprendi uma das maiores lições da minha vida que nada tem a ver com ciências, mas sim, como eu disse, em ser apresentado ao pai que um dia eu queria me tornar.

Tem apenas duas coisas nessa história que eu preciso destacar: entre acertos e erros eu estava errado, muito errado em achar que o meu pai não havia me ajudado em nada, mas, mais errado do que eu estava a professora…

Não, Dona Marieta! Quem arrasou foi o meu pai.

FESTIVAL LTERÁRIO INTERNACIONAL DE BELO HORIZONTE – FLI BH 2021

Em 2021, o Festival Literário Internacional de Belo Horizonte – FLI BH acontece em uma edição totalmente digital. De 10 a 20 de agosto são mais de 100 atrações em uma jornada literária de 11 dias no Portal Belo Horizonte.

Com atividades diversas e opções para todos os públicos, a programação contempla discussões sobre a criação, a circulação, a leitura e a literatura na cidade, incluindo seu diálogo com outras linguagens artísticas.

O 4º FLI BH tem como tema “VIRANDO A PÁGINA: Livro e leitura tecendo amanhãs”, e uma das novidades dessa edição é a possibilidade de autores e autoras independentes poderem mostrar suas obras mais recentes.

E é com muita alegria que estarei participando com o livro “Histórias de um certo Aarão e outros casos contados – das histórias e lendas de Belo Horizonte recontadas por um segurança que recebia, em seu serviço, a visita ilustre do fantasma de Aarão Reis”, publicado pelo selo Alforria Literária, da Árvore das Letras.

A participação será em vídeo que será disponibilizado na página do FLI BH na abertura do festival.

Acesse o link http://www.portalbelohorizonte.com.br/fli/2021/ e fique por dentro da programação.

SEJA BEM-VINDA, ROCINANTE!

Este mês, dia 04 de agosto, é o meu aniversário, e eu, como Quixote das Gerais, filho literário e legitimo de Dom Quixote de La Mancha com a pastora Marcela, tenho a grande felicidade de apresentar a todos a Rocinante, minha bicicleta das letras.

Rocinante é o mesmo nome dado ao cavalo do Engenhoso Fidalgo, que eu me aproprio com todas as licenças poéticas possíveis, uma vez que ganhei essa alcunha de um grande amigo e que, com muita honra, assumi de bom grado.

Sempre acreditei que tudo nessa vida não é por acaso, e não foi por acaso que essa história aconteceu. Assim como Dom Quixote é um cavaleiro andante, estarei andando com a Rocinante pelas praças das cidades, bibliotecas, feiras literárias e eventos de arte, munido de uma “Paula Brito” (minha prensa de madeira), linha, cola e agulhas, mostrando às pessoas o processo de fabricação dos livros da Alforria Literária e disponibilizando-os para quem quiser adquiri-los. A Rocinante é, assim, a base de uma oficina e loja itinerantes.

Era esse o trabalho que estava para acontecer quando iniciou a pandemia, esse grande e tenebroso moinho o qual estamos lutando e o qual iremos vencer.

Até que eu e a Rocinante possamos ir para as ruas, ela será, mesmo quando o retorno vier, a minha nova bancada para lives e outras ações que serão reveladas a seu tempo. Ela terá outros acessórios, mas o motivo de querer mostrá-la hoje é para coincidir com a sua chegada exatamente no meu aniversário e ter, a partir de então, uma data precisa também para o seu nascimento.

Que a literatura nos abençoe e que possamos seguir o nosso caminho deixando algo neste mundo que valha a pena ser lembrado.

PEQUENOS CADERNOS IN-FÓLIOS PARA COSTURAR PALAVRAS

Se você segue este blog já me conhece e sabe do meu trabalho na confecção de livros a partir das prensas de madeira – as chamadas “Paula Brito” e de como me tornei um escritor artífice.

Se está chegando por aqui agora, já, já irá descobrir isso.

O meu trabalho, pautado na sustentabilidade, me faz ser um artesão das palavras, não apenas no processo sagrado da escrita, mas na materialização dos pensamentos que a constrói. É nessa materialização que escolhi o livro físico como suporte a partir da encadernação artesanal.

Neste processo de fazer nascerem os livros, há sobras de materiais, como recortes de papel e linha que sempre são guardados para daí surgirem novos produtos que podem ser tão vastos quanto a nossa imaginação e criatividade permitirem.

Aqui apresento pequenos cadernos in-fólios costurados para colecionar palavras… O que iria para o descarte vira arte e ganha nova existência.

Respeitar é o ato da consideração e de reverência pelo que a natureza nos proporciona, e eu reverencio tudo isso.

Vamos colecionar palavras?

SAVITRI – CONTO TRADICIONAL DA ÍNDIA

… Assim, por estas trilhas da Índia, chega a princesa SAVITRI que nos ensinará sobre a coragem para amar…

SAVITRI é um conto de ensinamento tradicional da Índia e ensina sobre amor e determinação, sobre como preparar-se para conseguir o que se deseja, o que na narrativa é indicado pelo jejum e vigília e, sobretudo, nos fala de coragem e do pedido generoso que alcança também o bem-estar daqueles que estão próximos. Mas, acima de tudo, reflete a grande sabedoria da mulher.

O Eu leio para você é uma proposta biblioterapêutica de incentivo ao autoconhecimento e ao amor pelos livros e pelas histórias.

JANELAS DA ALMA – PREFÁCIO DA NOVA EDIÇÃO

Por Jéssica Rodrigues

Será possível adentrar os mistérios da alma e descortinar janelas que possam desvendá-la? Este exercício interno em conflito contínuo com o meio é essência da natureza humana. Os seres que se veem refletidos em situações, encontros e desencontros são puramente isto: humanos. E como uma obra de ficção, um romance, pode revelar tão bem esta nuance genuinamente real e presente no viver ou no imaginário de cada um de nós? A esta e outras perguntas, temos o aguçar aqui nesta obra.

Na leitura deste livro que mescla emoções, sentidos, memórias e devaneios – o encontro pessoal do personagem Jorge é brilhantemente construído nesta narrativa que cativa o leitor do início ao fim do texto. Penso que um bom romance é aquele que, ao fim de um capítulo, nos convida à leitura do próximo. Quando isso acontece, a conexão está estabelecida e o leitor já se deixou cativar pelo enredo. Este é o momento em que a mágica surge: o texto, antes vivo apenas no imaginário do autor, ganha ares e, com asas literárias, alça voo recebendo vida também no universo dos leitores. Foi assim aqui comigo ao leu o “Janelas da alma – uma tempestade íntima, um conflito, um retorno”. Jorge foi apresentando-se e, gradativamente, desvelando seus segredos. Vi-me em conflito de compreensão e, por vezes, voltei para conferir se havia me distraído e perdido algum ponto que me desse pistas para o desenrolar da história. Gosto disso, quando o livro não nos mantém inertes e então nos convida a revê-lo, transitar em suas páginas e buscar elementos de significação e ressignificação. Afinal, é aí que está a graça de tudo, não é? Sem esse remelexo no pensamento, a leitura não nos move, e é nele que o texto toma forma e sentido. Não penso em sentidos prontos e acabados, mas em diferentes e vastas elaborações pessoais, que dialogam com o cerne da narrativa. Isto sim me parece bom: dialogar com o texto, construindo possibilidades e gestando o impossível também.

As janelas do personagem, por vezes, abriram-se às minhas próprias. Um texto que faz parar, pensar, amadurecer. O zelo com informações pontuais como a nomenclatura das flores ou de cenas do cenário artístico teatral, bem como o dialogar de detalhes e de aprendizados nas entrelinhas. Uma obra completa: instigante, bem arquitetada, com jogos simbólicos e confrontos entre o abstrato e o real. Permito-me parafrasear Rubem Alves que diz que “todo jardim nasce de um sonho e, este por sua vez, nasce dentro da alma; assim, quem não tem jardins por dentro, não os plantam por fora, nem passeia por eles”. Jorge me conduziu aos seus jardins externos e internos. Leandro Bertoldo Silva manejou bem as palavras e este livro é um jardim completo.

Jéssica Rodrigues é pedagoga, professora e escritora.

A EVOLUÇÃO DOS LIVROS

Das pinturas rupestres, passando pelo volumen ao codex, os homens foram registrando suas histórias. Os livros, como todas as coisas, viveram e ainda vivem a sua evolução, haja vista os e-books hoje em dia que, respeitosamente e sem nenhum preconceito, pois os tenho, não é a minha preferência.

A partir das lajotas de barro, passando pelo papiro – planta que cresce em regiões lodosas que no antigo Egito existia nas margens do rio Nilo – os livros evoluíram para as peles de animais, onde era possível dobrá-los, uma vez que o papiro, quebradiço, não permitia.

Os chineses já imprimiam calendários e livros sagrados no século VII, mas foi a partir da prensa de tipos móveis de Johannes Gensfleish, conhecido como Gutenberg, no século XV, que tivemos a primeira grande evolução dos livros, podendo estes se popularizarem, uma vez que não eram mais escritos à mão e deixaram de ser uma exclusividade dos nobres e do clero, alcançando o seu maior objetivo: propagar a arte e o conhecimento.

O que isso nos mostra?

Que tudo, absolutamente tudo evolui, principalmente em se tratando de arte, que há sempre outros caminhos a serem percorridos para quem se propõe a encontrá-los, e se eles por acaso não existirem podem ser construídos.

Foi este pensamento que me fez construir com a parceria do luthier Egídio Alves de Souza a minha própria prensa, também de madeira, como a de Gutenberg, e dei a ela o nome de “Paula Brito” em homenagem ao nosso tipógrafo brasileiro no século XIX. Com ela criei uma técnica autoral de feitura de livros utilizando folhas soltas coladas e costuradas ao invés dos tradicionais cadernos em blocos.

Não se trata de querer voltar ao passado, mas se inspirar nele e trazer para a contemporaneidade uma nova forma de fazer e consumir literatura de uma maneira livre e descompromissada de verdades absolutas e receitas prontas, porque elas não existem; o que existe é a vontade, pois, como diz Agualusa, um escritor angolano:

“quando nós fazemos o que quer que seja com paixão, vamos acabar por fazer bem, e os livros bons acabam sempre por encontrar os seus leitores”.

Saiba mais sobre esse trabalho clicando AQUI.

PARA LÁ DESSE QUINTAL

Por Leandro Bertoldo Silva – Quixote das Gerais

Sou de Belo Horizonte e amo minha cidade. Acabei de publicar um livro com histórias de BH contadas pelo fantasma de Aarão Reis, que foi aprovado pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais. Mas foi nesta pequena cidade de Padre Paraíso, no Vale do Jequitinhonha, que fiz nascer a Árvore das Letras e junto dela a Alforria Literária. E é daqui que todos os meus livros autorais, na escrita e na forma, são distribuídos para todo o Brasil. Clique em Alforria Literária para conhecer.

Se estiver passando pelo Vale, venha conhecer Padre Paraíso, a Árvore, a Alforria Literária, as prensas de madeira – as chamadas “Paula Brito” – e toda a arte que floresce nessa terra que se tornou a casa de tantos que aqui chegaram e mesmo dos que saíram, pois, como diz a famosa referência, “quem bebe a água da biquinha, não passa da igrejinha”.

E já que está por aqui, aproveite para ler o conto mínimo “Para lá desse quintal”, inspirado na tranquilidade de todos os Vales que moram em nosso interior.

Quando a pátria que temos não a temos
perdida por silêncio e por renúncia
até a voz do mar se torna exílio
e a luz que nos rodeia é como grades.

– Sophia de Mello Breyner Andresen –

Ilustração: Adilson Amaral

Para lá desse quintal, sempre houve uma noite infinita. Contudo, agora que o transpôs, não sabia se deveria. Talvez fosse melhor imaginá-la pelo rádio ao debruçar-se sobre a mesa a ouvir aquela música e deixar-se fazer dela – a noite – o que as suas lágrimas sugerissem.

Mas a curiosidade o abateu como estrelas cadentes a viajarem em excessos. Era evidente a sua felicidade na simples-cidade em que vivia: meiga, pequena, pacata, protegida dos adereços que tornam cheios os nossos pensamentos.

E quão mais confortável era a vida pouca neste quintal vazio que o tempo ainda não preenchera…

Tudo era tão cheio de nada a sua volta, que a falta, além de não se fazer presente, apresentava-se como possibilidades. Um banho quente em noite fria era um bálsamo de abundância! O que dizer da velha bicicleta que o ajudava a vencer a longa distância entre a casa e a escola e ainda emprestava-lhe a suave carícia do vento?

Mas o menino cresceu…

E o quintal não mais lhe cabia. Não se arrependia de ter desejado o infinito, mas de tê-lo deixado ser ilusão…