A INCRÍVEL ARTE DE SEMEAR IDEIAS LITERÁRIAS

Por Elis-Rouse, do site LiteralMente, UAI

Disseminar, espalhar, plantar, os sinônimos de semear nunca foram tão pertinentes quando se trata do escritor mineiro Leandro Bertoldo Silva. Dos frutos colhidos, quem tem a agradecer são os deuses da literatura.

A história de Leandro com a leitura é daquelas à moda antiga, com a receita infalível do incentivo familiar.

“Meus pais sempre incentivaram a leitura dentro de casa, sempre compraram livros para mim e meus irmãos. Lia-os de cima de um pé de ameixa na casa de minha avó, que eu transformei em biblioteca, pois fazia dos galhos dessa árvore verdadeiras estantes naturais repletas de livros que eu ia ganhando e colecionando. Lá passava a maior parte do meu tempo,” conta Leandro.

Inspirado pela leitura de clássicos como “Cinderela”, livros da Coleção Vaga-Lume e autores como José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Drummond, Clarice e Fernando Sabino, o desejo de escrever e eternizar suas próprias histórias foi só uma questão de tempo.

“Eu era muito novo e não tinha uma formulação muito clara do que aquilo representava, mas aqueles escritores me ensinavam muito, como ensinam até hoje. E entre as muitas coisas que eles me ensinaram está o fato de eu querer profundamente estar entre eles, fazendo parte do mundo das histórias, dos poemas, dos romances, dos contos. Eu também queria escrever livros e inventar histórias”, conta.

Suas histórias carregam o tom poético, leve e que reverberam para muito além da última página. Leandro afirma que não costuma seguir um ritual de escrita ou processo criativo, mas destaca em suas obras uma tendência memorialista.

“O escritor Bartolomeu Campos Queirós diz muito bem que “a memória é um espaço interno onde a fantasia conversa com a realidade”. É exatamente assim comigo. Toda história, seja um conto, um romance ou até um pequeno haicai parte de uma memória para depois ganhar outros sentidos e significados. No meu caso é a memória que está sempre presente.”

Entre os diversos poemas e contos saídos do fundo da memória, quatro livros já foram publicados:Entrelinhas Contos mínimosJanelas da Alma: uma tempestade íntima, um conflito, um retorno, Relicário Pessoal – Haicais e o primeiro livro infantil O menino que aprendeu a imaginar, lançado no primeiro semestre deste ano. A grande novidade é que todos os livros são produzidos, publicados, distribuídos e vendidos pelo próprio autor.

Todo o processo editorial está literalmente nas mãos do autor, que optou em ser um escritor independente. Amante da literatura, Bertoldo recusou diversas propostas de grandes editoras e no “faça você mesmo”, criou seu próprio método de publicação, por meio do projeto “Alforria Literária”, uma alternativa diferente, barata e sustentável de publicação.

Alforria Literária

É um selo editorial dedicado a publicação de livros. Surgiu da necessidade de gerenciar a venda dos seus livros e oferecer uma alternativa mais barata para os leitores. A demanda pelo livro físico e a compra direta das mãos do autor era latente, como conta Leandro.

“Durante o ano de 2017 e já início de 2018, recebi alguns contatos de leitores interessados em adquirirem os meus livros. Curioso que todas as pessoas queriam comprar os livros diretamente comigo, embora estejam disponíveis para venda em plataformas online. Isso é totalmente compreensível, uma vez que no final o livro sai a um preço muito alto para o leitor”.

Em uma sacada genial de autopublicação, aliada a uma consciência de sustentabilidade, nasceu a Paula Britto.

Paula Britto – A arte da impressão sustentável

O diferencial das publicações da Alforria Literária é a produção totalmente manual feita em uma máquina especial, própria para fazer livros, chamada “Paula Brito”.

O nome feminino é uma homenagem a Francisco de Paula Brito, fundador da “Marmota Fluminense”, uma livraria no Rio de Janeiro, do século XlX, onde Machado de Assis teria iniciado sua carreira literária.

Feita de madeira de Ipê reaproveitada, a máquina de fazer livros ganhou vida nas mãos de Egídio Souza, um luthier da cidade que comprou a idade e desenvolveu com Bertoldo um modelo pioneiro de publicação sustentável no Brasil.

Os livros produzidos na “Paula Brito” são feitos em papel reciclável nos tamanhos 14,8 x 21 cm – 75g. As páginas são impressas no processo normal, via computador.

O primeiro toque especial vem nas capas confeccionadas manualmente com papel personalizado com fibras de material orgânico e tinta natural. A finalização das capas fica por conta da esposa de Bertoldo, a artesã Geane Matos.  A partir daqui a máquina entra em ação para finalizar o livro, unindo o miolo a capa.

Utilizando essa matéria-prima, a Alforria Literária afirma seu compromisso junto ao meio ambiente, lembrando que a reciclagem e a sustentabilidade contribuem para a geração de empregos, a redução do lixo e a qualidade de vida desta e das futuras gerações”, como afirma Bertoldo.

Veja como a “Paula Brito” funciona

A vida no Vale do Jequitinhonha

Há nove anos, Leandro Bertoldo Silva Silva deixou a capital mineira para viver na cidade de Padre Paraíso, no Vale do Jequitinhonha, interior de Minas Gerais.

A região conhecida pela riqueza no artesanato, e a carência de uma população que sofre com a seca e o descaso das autoridades, ganhou muito mais que apenas mais um habitante, ganhou também um incentivador de uma arte que, assim como o teatro e o cinema, é praticamente ausente na região, a literatura.

Leandro desenvolve diversos projetos de incentivo à leitura e escrita, e as artes na região por meio do projeto Árvore das Letras, criado em 2014.

Curso Vivenciando a Linguagem, Leitura e Escrita

 É um curso pago, onde os alunos desenvolvem habilidades de escrita criativa. O curso auxilia não apenas pessoas que desejam colocar no papel suas histórias, como também serve como preparativo para a redação do ENEM. Mais de 100 pessoas já passaram pelo projeto.

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Grupo de leitura dramática

O projeto faz parte do curso “Vivenciando a linguagem, leitura e escrita”, que abarca pessoas de diferentes idades interessadas em ler e interpretar obras de grandes autores da literatura.

Privilegio nas leituras autores nacionais como forma de valorizar a nossa literatura clássica, moderna e em língua portuguesa. Já trabalhamos com Machado de Assis, através dos contos “Missa do Galo” e “Um apólogo”; Fernando Sabino, com o conto “O homem nu”; Murilo Rubião, com “O pirotécnico Zacarias”; contos recolhidos de Alaíde Lisboa, com “O espelho, a bota e a rosa”; a história “O pescador, o anel e o rei”, da contadora de histórias Bia Bedran e “A felicidade está dentro de nós”, de Isaura Caminhas Fasciani”, conta Leandro.

Whatsapp “Novos Leitores”

É um grupo para troca de informação literárias e leitura coletiva. Leandro distribui gratuitamente, também via Whatsapp, por meio da lista de distribuição “Mais literatura”, pequenas pílulas literárias com novidades e dicas de conteúdo literário produzido por outras fontes, inclusive do LiteralMente,Uai!

Oficinas de artes, literatura para adultos e crianças

Em parceria com a esposa Geane, o projeto Árvore das Letras oferece oficinas e cursos de pequena duração voltados para as artes em geral, pintura e découpage, decoração de caixas, entre outros.

Livros

Em meio a uma presença cada vez mais marcante das tecnologias na vida atual, e os índices cada vez menores de leitores, Leandro têm uma visão positiva na batalha de atenção entre os livros e as tecnologias.

“Talvez a questão não seja disputar, mas harmonizar uma coisa com a outra. As histórias precisam ser lidas e se a tecnologia pode ajudar é melhor inseri-la no processo.”

Fato é que o brasileiro lê cada vez menos e as livrarias em decadência acabam fechando as portas. Isso faz com que o processo de fazer o brasileiro ler mais se torna cada vez mais árduo, contudo, não menos prazeroso.

“Passa muito pelo incentivo em casa, como aconteceu comigo e pela escola, mas não da forma tradicional e comumente usada. Acho um verdadeiro desserviço quando os professores pedem os alunos para lerem um livro com o objetivo de aplicarem uma prova escrita. Não se dá prova de livros! Isso mais desconstrói um leitor do que provoca o efeito desejado que é formá-lo. Técnicas e didáticas podem até existir, mas é preciso que o prazer das histórias, de se descobrir um mundo diferente do seu sobreponha à técnica. O ser humano é curioso e desbravador por natureza. Se conseguirmos atingir esse nível de curiosidade e prazer sem a obrigação, certamente as pessoas lerão mais. Não é fácil, mas é possível”, explica.

Leandro Bertoldo Silva faz a diferença para literatura nacional e o faz com prazer!

Sou feliz porque sou escritor; sou feliz porque também estou nessa árvore e, principalmente, sou feliz porque hoje faço para as pessoas o que fizeram para mim: oferecer a chance de conhecer um mundo capaz de transformar para o bem a realidade de alguém. Este é o meu propósito na vida.

Algumas curiosidades sobre o autor

Se pudesse indicar um livro para quem nunca leu por prazer, qual seria?

A Palavra Mágica, de Moacyr Scliar.

Qual livro você mais leu?

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e ainda o lerei muitas outras vezes, pois é fascinante a coragem desse livro e é uma verdadeira aula de estrutura narrativa deixada por Machado.

Cite um livro que te marcou.

O Encontro Marcado, de Fernando Sabino… Marcou-me literalmente!

Qual autor/autora te inspira

Mia Couto, para mim, é sem dúvida um dos autores mais importantes e talentosos da literatura contemporânea em língua portuguesa. Ele diz que um livro é bom quando ele te empurra para a escrita. Os livros do Mia, todos eles, fazem isso comigo.

Ler é…

Se descobrir pelos olhos e pela imaginação.

Escrever é…

Existir. Escrevemos porque estamos vivos e temos a necessidade de contar histórias.

Ser escritor hoje no Brasil significa?

Ter coragem de buscar por novas possibilidades.

Conheça seus livros

Entrelinhas Contos Mínimos: Com pouco mais de 120 páginas, a obra, que já está na segunda edição, traz uma coletânea de minicontos que retratam diversos momentos e situações diárias. Leia a resenha aqui.

Janelas das Alma: uma tempestade íntima, um conflito, um retorno: É um romance que conta a história de Jorge, um jovem publicitário que vive as pressões que a vida, implacavelmente, impõe a todos: a necessidade quase obrigatória de sermos perfeitos, como bom filho, bom pai, boa esposa, bom amigo, bom profissional, bom tudo! Amargurado e cansado, resolve sair em uma viagem de férias que não tirava há muito tempo, para aliviar sua angústia. No caminho do aeroporto, se depara com um acontecimento que mudará completamente a sua vida. Leia a resenha aqui.

Relicário pessoal – haicais: Em 90 páginas, Leandro apresenta pequenas historinhas em formato de haicais. Histórias leves e originais em um livro fascinante.

MAPINGUARI

Conta a lenda que existia na floresta um bicho esquisito que, dizem, comia gente… Chamava-se Mapinguari! Esse bicho eu sei que ninguém conhece, mas ele é conhecido de outro bicho que esse… Também ninguém conhece! Sabe que bicho era? Nada mais, nada menos do que o Rei Zilá, o Rei da escuridão… Bem, se isso é verdade eu não sei… O que eu sei é que essa história é mesmo de assustar, e começa assim…

Quero levantar da sombra

e o mundo dominar.

Quero fazer do escuro

um lugar pra se morar.

Quero um mundo diferente,

quero todo mundo respeitando a gente.

Quero um planeta sem cor,

quero que o perfume abandone a flor.

Eu sou Zilá, há, há, há, há!

Eu sou a sombra, há, há, há, há!

Faço do escuro um medo engasgado

e acato o lamento do choro vingado!

A sombra me aquece,

o terror engrandece,

a feiura estremece…

Eu sou o mestre!

Eu sou Zilá, há, há, há, há!

Eu sou a sombra, há, há, há, há!

Eu sou Zilá!

Caçador
Ilustração de Adilson Amaral

Só que nessa história não tem Zilá nenhum… Ele é só conhecido do Mapinguari, o tal bicho de nome esquisito que vivia na floresta! Ele era grande… Quase quatro metros! Tinha os cabelos vermelhos e as orelhas pontudas. Vivia no meio das árvores e imitava o pio dos pássaros… Fiu, fiu… prrrrit, prrrrit!

Em noite de lua cheia ele se transformava em menino, saia e entrava no terreiro das casas à procura de comida. Todos tinham medo dele, tinham medo da noite e tinham medo da lua…

— Besteira! Isso não existe… — diziam os mais jovens.

— Cuidado, meninos, com o bicho… — diziam os mais velhos.

Um dia, apareceu no terreiro da casa de um caçador um menino estranho. O caçador, ouvindo um barulho, foi até a janela, mas não viu ninguém. Até que ouviu um batido na porta…

TOC, TOC, TOC!

O caçador foi andando até a porta…

— É… Quem está aí?

— É o bich… Quer dizer, é um menino…

— Menino?!

O caçador, então, lembrou que aquela noite era noite de lua cheia! E já meio amedrontado, perguntou:

— E o que você quer, me-me-menino?

— Ah, apenas um pouco de comida!

Comida? Menino?! Lua??!! E o caçador já bastante amedrontado, perguntou:

— E o que, vo-você co-co-come, me-menino?

— Ah, qualquer coisa… Até mesmo um pedaço de pão!

Ah, que alívio! Não era o bicho, pois esse comia gente! O caçador, então, cheio de coragem abriu a porta…

NHÉÉÉÉÉÉ….

Quando ele abriu a porta… Sabe o que ele viu? Viu que, de fato, era um menino, e que ele tinha os cabelos vermelhos e as orelhas pontudas…

— Ai, meu Deus do céu!! É o bicho! É o bicho! Socorro, meu Deus do céu! Ai, ai, ai, ai, ai… Socorro! É o bicho, meu Deus!

— Sim, sou o bicho! Transformei-me em menino e vim me encontrar com o senhor!

— E vai me comer, bicho do mato?

— Do mato eu sou, do mato em vim, mas não vou comer ninguém… Vim para dizer que existo, mas não sou mal como dizem que sou!…

— Veio para dizer isso?! — perguntou o caçador admirado.

— Vim para pedir uma coisa! Não tenham medo de mim, como a todos os meus amigos animais. Vocês é que nos caçam, vocês é que nos comem e, muitas vezes, não por fome…

O caçador ouvindo isso abaixou a cabeça e, envergonhado, pediu desculpas pelas atitudes malvadas dele. Quando levantou a cabeça não mais viu o menino-bicho, que já havia voltado para a floresta. Ouviu apenas um som longo e fino sumindo pela noite.

Fiu, fiu… prrrrit, prrrrit!

Para ouvir o conto narrado, clique abaixo!

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Forte abraço!

Leandro Bertoldo Silva.

A PASSAGEM

A Passagem

Não me procures ali

onde os vivos visitam

os chamados mortos.

Procura-me dentro das grandes águas.

[…]

 Hilda Hilst

Um dia, um pescador saiu para pescar. Levantou mais cedo que os outros e foi para o mar. Lá, desembainhou o facão e desvestiu a pele de seu corpo, jogando-se na água. Assim que seu corpo sem pele tocou a água, ele transformou-se em um peixe lindo, encantando os outros peixes, conduzindo-os às redes dos outros pescadores a essa altura já armadas. No final do dia, já em forma de homem, voltou para casa levando um único peixe, diferente dos demais que voltaram com as redes cheias. Com o tempo, seu filho foi achando aquilo estranho, mas era só ouvir as algazarras dos meninos, que logo esquecia e ia brincar com as outras crianças.

Numa bela manhã, o rapaz acordou mais cedo do que o pai. Esperou que ele saísse e o seguiu, presenciando tudo o que fazia. Naquele dia, o pai não mais voltou para casa. Os pescadores também não levaram peixe algum. Assim foram todos os outros dias seguidos até que o rapaz, mantendo silêncio, fez o que precisava: levantou cedo e foi para o mar procurar o pai. Ao chegar, viu-o de costas na margem da água, parecendo que o esperava.

            — Você descobriu… Agora terá que tomar o meu lugar.

            — E se eu não quiser, pai?

            — Todos morrerão de fome. Nós dois sabemos que não há escolha.

Desembainhou o facão… Um grito de pânico se fez ouvir. O rapaz sentou-se na cama, sentindo-se completamente ofegante e suado…

            — Pesadelo, filho?

            — Sim, eu…

            — Já não era sem tempo… Levante-se! Hoje você vai pescar comigo.

            Um medo terrível assolou o garoto, e ele fez a mesma pergunta do sonho:

            — E se eu não quiser, pai?

            — Nós dois sabemos que não há escolha… Eu vi como ontem você não quis brincar com as outras crianças…

O tempo havia chegado… E foi assim que a passagem de sua infância se deu como uma lâmina a desvestir o seu corpo e expor a sua alma. Era isso o que pensava, lembrando-se do pai, enquanto ele, agora homem feito, olhava o filho que dormia parecendo sonhar…

Ouça o conto narrado

Acompanhe essa e outras histórias no nosso canal do Youtube no Literatura em Áudio.

https://www.youtube.com/channel/UCQogOcP-pTO9eMGlk4QHAGA?view_as=subscriber

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FERIDAS ABERTAS, SOPROS DE LUZ

 

Por Leandro Bertoldo Silva, a partir da vivência da Estufa de Futuros: Modos de Convívio, Produção e Gestão na Cena Contemporânea, mediada por Cynthia Margareth.

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Entre os dias 18 a 23 de junho aconteceu o FESTTO – Festival Nacional de Teatro de Teófilo Otoni, organizado pelo Instituto Cultural In-Cena, em que reuniram artistas, pensadores e formadores de opinião de várias cidades e regiões do Brasil numa troca efervescente de arte e cultura.

Teatro, dança, música, literatura, oficinas, encontros, rodas de conversa nortearam pensamentos e fortaleceram posturas em busca de um lugar melhor, mais justo e humano, onde as vozes puderam ecoar atravessando fronteiras e transformando sentimentos. Aprendemos que é possível falarmos outras línguas, que o medo e a intolerância em suas várias faces em tempos que atravessamos não são armas capazes de fazer calar. Não por acaso, o que nos conduziu nesses dias de trocas foi o “verbo e aquilo que nos afeta”; o verbo sim, nossa ferramenta de poder, porque ninguém cala aquilo que fala.

Tivemos, nós da Árvore das Letras, a grande oportunidade de estarmos inseridos no projeto Estufa de Futuros: Modos de Convívio, Produção e Gestão na Cena Contemporânea, mediada pela Cynthia Margareth, de Campinas/SP.

Nesse lugar dialogamos com vários grupos, colhemos depoimentos, ouvimos histórias… E mais do que isso, semeamos, entre tantos terrenos férteis, sementes de esperança e vimos brotar quase que instantaneamente frutos de coragem.

Transcrevo abaixo a essência do que vivenciamos de forma visceral nestes dias onde a luz soprou seus raios de vida.

 

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Gente

Dentro de nossas inventações compartilhadas… ESTAMOS AQUI!

Encontramo-nos ou nos reencontramos em um MeiMundo de pessoas ávidas por Companhia (de teatro)? Ou, ainda, seríamos um Bando de artistas loucos que gritam suas coragens, estando sempre em busca de uma bela e Adorável Companhia?

Como diz Sophia de Mello Breyner Andresen: “Há momentos que são quase esquecimento numa doçura imensa de regresso”.

Sim, este momento de fala e escuta, mais do que um encontro, foi um regresso de almas, uma revisitação de nossas histórias que, por mais diferentes que sejam, tornam-se todas iguais, tornam-se nossas. Somos artistas, caras pintadas das emoções. Aonde vamos, aonde quer que vamos, voamos para Ser estrelas. E vamos juntos!

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Durante esses dias, feridas foram abertas à procura de cura num desejo enorme por soluções… Oh, meus amigos… Deixe-me contar uma história, história de palhaço, que permeia o nosso imaginário e que aqui esteve e está tão presente entre nós…

Tinham-lhe tantas vezes pedido conselhos… Era o redentor de todos os sofrimentos que assolavam as almas em conflito, a ponto de impedir suicídios. Alegria – o palhaço da luz –, como era conhecido, escolheu as ruas como o seu picadeiro e nelas transformava pessoas. Agonia mudava-se em sonhos e medos em esperanças. Contudo, algo curioso acontecia: Alegria era triste… O homem por trás do palhaço não conseguia fazer consigo o mesmo que fazia com os outros, pois não tinha tido a sorte de encontrar alguém que o apresentasse a si…

Pois essa sorte nós tivemos! Encontramo-nos e nos apresentamos a nós!

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Cia Bando, de Belo Horizonte, bela como a cor de sua raça, a verdade de se afirmar negro, potencializando habilidades;

Cia de Teatro Gente, gente como a gente em busca do encontro e da coragem de se transformar e transmutar da morte à vida. À benção, Plínio Marcos;

Adorável Companhia, que traz no nome a sua identidade no desejo de mostrar inteiro – nunca mais ou menos – que o que nos aproxima pode ser sempre mais forte do que aquilo que nos afasta;

Companhia de Teatro, nas paixões de Paixão, transitando do macro ao micro e encontrando nas casas e jardins os palcos inimagináveis. Capitão, oh, meu capitão, tu és um sucesso!

MeiMundo Inventações Compartilhadas, fazendo-se enxergar na potencialidade da não-invisibilidade, pois existimos e podemos ser.

Assim, foi a nossa viagem. Muito prazer a todos que tiveram a coragem de se mostrar e escancarar suas feridas ao encontro da luz. Só assim, revisitando-nos, é que encontramos a chave que nos abre e descobrimos que estamos todos juntos em um mesmo lugar.

Que lugar é este?

Oh, meus senhores, minhas senhoras, respeitáveis artistas… Não poderia nunca, jamais ser outro que não a mágica e encantadora condição de estarmos IN-CENA!

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RECORTES

Recortes

Não podemos exigir o amor de ninguém.

Podemos apenas dar bons motivos para que

gostem de nós, e ter paciência… para que a vida

faça o resto.

 (Clarice Lispector)

Desiludido, escreveu num pedaço de papel: “Meu amor não tem rosto nem nome…”. Aquilo o incomodou até que o tempo anestesiou sua dor. Por alguns anos, até que procurou a dona daquelas palavras que saíram de si. Já tinha uma pequena caixa de recortes, na qual moravam imagens de mulheres sem nudez ou sequer sensualidade. Vestidos em bustos, braços, pernas, todas elas comuns e sem rosto, faziam-se companheiras dos papéis já amarelados e esquecidos, quase que com suas letras desbotadas. A inércia daquele encontro e a insistência da sua impossibilidade fizeram com que desistisse de vez e aposentasse suas imaginações por anos, vivendo apenas em sua companhia. Já idoso, porém, ao limpar sua estante, deparou com aquelas lembranças e quis jogá-las fora. À porta de sua casa, abriu a tampa do coletor e, no derradeiro movimento, ouviu uma voz que lhe disse:

“Meu nome é Judite. Preciso de uma informação…”.

Ao fitar a senhora que sorria, seu rosto se desenhou em cada pedacinho de papel que segurava e, junto com o nome, preencheu o que faltava…

Ouça o conto narrado:

Acompanhe essa e outras histórias no nosso canal do Youtube no Literatura em Áudio.

https://www.youtube.com/channel/UCQogOcP-pTO9eMGlk4QHAGA?view_as=subscriber

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RESUMO DA ÁRVORE – 01 A 08 DE JUNHO

Olá!

Abri essa semana com um haicai que dizia:

Ponte entre tempos…

Mundos que se completam…

Quem sou eu agora?

De fato, esses dias que passaram foram como pontes que me conectaram a vários lugares diferentes, mas que se completaram em mim, contribuindo para que eu cada vez mais afirmasse em mim mesmo quem sou e o que eu faço.

Aconteceram muitos encontros com gente bacana no espaço físico da Árvore das Letras, muitos abraços e muitas esperanças de um mundo melhor, com mais leitura e mais consciências.

Foi linda a visita que fiz na Escola Municipal José Rodrigues da Silva, na Vila dos Posseiros, dando sequência em minha jornada de levar literatura pelo Vale do Jequitinhonha e Mucuri. O Menino que Aprendeu a Imaginar – Oswaldo e o palhacinho de chapéu de guizos – estão andando bastante e conhecendo muita gente legal! Ainda quero visitar muitas outras escolas e instituições, principalmente como essas onde a simplicidade nos alimenta de maneira tão rica e autêntica. Estive com alunos, pais, professores e fui tão bem recebido que me senti até no Sítio do Picapau Amarelo ao me encontrar com a Emília. Um dia ainda volto lá como Visconde…

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Outra coisa muito legal dessa semana nasceu com uma pergunta:

VOCÊ JÁ OUVIU LITERATURA?

Com essa pergunta publiquei aqui no blog e nas redes sociais um pequeno áudio de 2 minutos e 20 segundos contando a história de Pedro e João, dois amigos que se conhecem desde a infância e passam 86 anos juntos até que a separação é inevitável, mesmo que por instantes… Você pode ler e ouvir a história no post abaixo.

O que me deixou muito feliz é que recebi muitas mensagens de várias pessoas que ouviram e não só gostaram, mas deram a ideia de que eu criasse um canal no youtube, onde eu pudesse ir publicando as histórias. Como o canal já existe, mas estava meio parado, resolvi reativá-lo, porém direcioná-lo para esse trabalho, inclusive pensando em gravar alguns contos de Machado de Assis e outros textos de domínio público. Ok, embora o audiolivro já exista na internet, sempre achei as narrações um pouco frias e monótonas… Assim, penso em fazer do meu jeito, dando à leitura e aos personagens um pouco de interpretação, usando efeitos e trilha sonora para conectar com a atmosfera da história, como nas novelas de rádio e nos antigos discos de contos.

Leandro Bertoldo Silva (1)

Agradeço as mensagens e as sugestões, inclusive podemos atender, assim, os portadores de deficiência visual, o que é muito bacana.

Bem, então é isso! Vamos em frente divulgando a literatura cada vez mais e por todas as formas possíveis!

Forte abraço, vamos para mais uma semana e fique ligado no que vem por aí!

Leandro Bertoldo Silva.

CUMPLICIDADE

algodão doce

Por Leandro Bertoldo Silva

[…]

A morte apenas existe por uma brevíssima

troca de ausências.

[…]

Mia Couto

O momento havia chegado. “Todo encontro está fadado à separação”, não é assim? Na vida daqueles dois amigos, não era diferente. Apenas havia o entendimento de que era por um breve instante, tão breve como o bater de asas de uma borboleta, como aquela do parque onde, pela primeira vez, quando crianças, comeram juntos os primeiros algodões-doces: branquinhos, felpudos. A novidade transformara-se em símbolo de amizade nascida junta na mesma maternidade e perpetuada até ali, 86 anos depois.

            Agora, nos derradeiros minutos em que apenas a espera separava aquele encontro terreno, o velho amigo doente, perante os olhares condolentes, viu, pela janela, uma frestinha do céu repleto de nuvens branquinhas e felpudas e, num filete de voz quase sumida, disse ao amigo outro que se mantinha ao seu lado:

            — Pedro… Olhe… Está vendo? Algodões-doces…

            E, junto com os seus olhos que se encontraram num último sorriso de cumplicidade, veio a resposta calma, serena:

            — É sim, João… E não se esqueça… Quando você chegar lá, guarde um pedacinho pra mim…

Clique para ouvir o conto narrado

O INCENTIVO NASCE DE NOSSAS AÇÕES

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Esta é uma publicação de agradecimentos! Agradecimento a todos que compareceram ao lançamento do livro O Menino que Aprendeu a Imaginar no dia 30 de abril, em Padre Paraíso, demonstrando o seu carinho e principalmente a sua valorização pela leitura, pela arte e cultura. Não citarei aqui nomes porque não seria possível dizer todos e, para mim, todos que lá estiveram são especiais, assim como os que não puderam estar presentes, mas que enviaram palavras de apoio e até mesmo orações que muito me fortaleceram. Muito obrigado!

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Mas essa é também uma publicação de reflexão! Reflexão pela ausência de muitos professores e demais profissionais da educação que trabalham com o incentivo à leitura, que não medem esforços, ou pelo menos assim é para ser, para fazer com que um aluno, uma criança ou jovem valorize o livro, os autores, os ilustradores e todo um trabalho que é feito com muito empenho e responsabilidade. É preciso pensar que o incentivo nasce de nossas ações; que precisamos retribuir aquilo que muitas vezes solicitamos num pedido de visita a uma escola, a uma contação de histórias ou mesmo uma presença ou palavra em um projeto de leitura.

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Estamos vivendo um momento crucial em nossa existência social, cultural, educacional, moral, onde não é mais possível viver sem a verdade dos nossos sentimentos, em agir por forma e diferentemente daquilo que dizemos. Mas como aquela história de um menino que andando em uma praia repleta de estrelas do mar, pegava uma a uma e a jogava de volta à água para salvá-la, e ao ser criticado por alguém por haver milhões delas e ele não ter condições de salvar todas, fico com a resposta do menino ao olhar bem para a pessoa, se abaixar, pegar mais uma, jogá-la na água e dizer: “para essa eu fiz a diferença…”

Que bom que tivemos muitos meninos e meninas jogando estrelas do mar de volta ao oceano neste dia…

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COM-FLUÊNCIAS – PÉTALAS POÉTICAS

Quando nos deparamos com algo assim é que enxergamos o valor de acreditar em todas as possibilidades; é quando o que para muitos é uma obrigação ou mesmo uma tarefa, para eles é um convite e para nós uma realização ao ver jovens acreditando em si mesmos e indo muito, mas muito além de muitos com o dobro ou o triplo de oportunidades. Isso, sim, é verdade, é respeito um pelo outro, isso é inclusão por quem sabe fazer, é cultura, é educação que vale a pena, é Vale do Jequitinhonha. Parabéns a ASCAI – Associação da Criança e do Adolescente de Itaobim e muito obrigado pela oportunidade e por acreditarem na Árvore das Letras e na Alforria Literária. Ver estes jovens com os livros nas mãos e os olhos brilhando, livros que eles escreveram na oficina de (Re)Construção Poética e que tivemos a oportunidade de produzir e publicar é uma felicidade sem tamanho. Que prazer este encontro!

GENTE, QUE LOUCURA!

LISTA DE TRANSMISÃO.

Por Leandro Bertoldo Silva

 

Estava sentado no sofá da minha casa pensando nos livros que coloquei como meta este ano para ler, quando comecei a conversar comigo mesmo… Na verdade não era bem comigo que eu conversava, mas com o personagem que estou escrevendo no livro das histórias de Aarão Reis – Xavier de Novais. Não seria nada demais se levando em conta que ele, na minha história, é o segurança de uma livraria; nada estranho, portanto, de estar falando com o nobre amigo sobre livros.

Acontece que ele começou a ter opiniões próprias, tecendo comentários sobre livros que eu ainda não li e ele sim… A propósito, Xavier de Novais é um exímio leitor, como se verá no meu livro quando eu o terminar.
Mas isso me fez pensar sobre o que é ser um personagem. Talvez para ele o personagem fosse eu… Pensando na teoria de que às vezes são os livros que nos escrevem e não o contrário, é bem possível que fosse mesmo. Mas para maior compreensão, se é que é possível, deixo que ele próprio se explique e se apresente.

Oi, o meu nome é Xavier de Novais. Não sou propriamente um personagem. Personagem tem uma personalidade; eu não tenho uma personalidade, tenho várias, ou melhor, tenho tantas quantas forem os olhos de quem me leem. Isso porque posso estar em um poema, mas também em um romance, quem sabe em um conto, ou mesmo num ensaio. Ora, se não sou um personagem, também não o deixo de ser, e muitos! Posso até ser você neste momento. Na verdade, eu preciso de você para existir, mas você não precisa de mim para viver, mas se me ter e ouvir minha voz, sendo ‘um’ comigo e abrir as portas do seu coração, posso lhe abrir mais do que isso, posso lhe abrir estradas. Não quero agora lhe dizer mais do que poderei falar em versos e histórias. Despeço-me, então, para nelas me fazer presente, se assim me permitir. Até breve!

É nessa antítese, nessa espécie de mundo dos contrários que vivi essa experiência inusitada e que peço agora a gentileza da sua atenção para aliá-la à sensibilidade das percepções poéticas e literárias para, junto com Xavier de Novais, adentrarmos os caminhos por onde é possível sonhar.

Para isso, além de o estar escrevendo no livro Histórias de um certo Aarão e outros casos contados: das histórias e lendas de Belo Horizonte recontadas por um segurança que recebia, em seu serviço, a visita ilustre do fantasma de Aarão Reis, resolvi dar a ele existência própria e fora do livro.

Assim, a partir de agora é ele quem irá se encarregar de uma lista de transmissão que mantenho no WhatsApp, o que será ótimo, pois vai me desafogar um pouco nas tarefas que tenho que fazer. E vamos ver no que isso vai dar…

Se você já faz parte da lista, ótimo! Se ainda não e deseja fazer e receber folhetins literários, indicação de livros, autores, matérias, informações de feiras e eventos culturais, seja bem-vindo(a). É só enviar uma mensagem no whatsapp no número (33)98437-0072, dizendo: EU QUERO FAZER PARTE DA LISTA. Divulgue também para os seus amigos!

Venha fazer parte dessa experiência literária!

Forte abraço!
Leandro Bertoldo Silva.