MEMÓRIAS DE UM TEMPO

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Por Leandro Bertoldo Silva

A Alforria Literária deu mais um grande passo na sua proposta de se consolidar como uma alternativa sustentável e de qualidade na produção de livros ecológicos, mostrando que é possível abrir novo mercado editorial através de novas possibilidades mais justas, tanto para quem escreve como para quem consome.

Na noite do dia 23 de novembro de 2018 aconteceu em Padre Paraíso, Minas Gerais, mais um lançamento e noite de autógrafos do novo livro “Memórias de um Tempo”, resultante do projeto de leitura e escrita da Árvore das Letras, realizado na Escola Orlando Tavares no Vale do Jequitinhonha, transformando alunos em autores.

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Foi uma noite belíssima em que os novos autores receberam seus convidados e autografaram os seus livros que tiveram como tema suas próprias memórias e de suas famílias, mostrando que todos temos histórias para contar e compartilhar.

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Com isso, a Alforria Literária como selo da Árvore das Letras, já contabiliza em sua recente história 5 obras publicadas somente neste ano de 2018, sendo elas: “Janelas da Alma: uma tempestade íntima, um conflito, um retorno”, “Entrelinhas Contos mínimos” e “Relicário Pessoal-Raicais” – todas como resultado do meu trabalho como escritor, e as obras “Cartas ao Tempo”, dos alunos da primeira turma da Árvore das Letras, e o atual “Memórias de um Tempo”, dos alunos da Escola Orlando Tavares.

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Isso nos enche de alegria e esperança de vermos mais literatura em nossas vidas, fazendo com que a leitura ganhe aspecto de protagonista em nossas famílias e comunidades construindo um mundo mais culto e menos violento.

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Transcrevo abaixo o prefácio do novo livro “Memórias de um Tempo”, um vez que ele reflete uma visão de educação que eu, como escritor e professor, prezo como alicerce em meu trabalho e que levo como sonho realizado, porém com muito ainda a fazer.

Estamos prontos para novos voos! Que venha 2019!

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Para mim há uma grande diferença entre estudo vivo e estudo morto. Estudo vivo é aquele que pauta sua existência na produção de ideias e não apenas na repetição do que já existe, ainda mais o disfarçando sob o viés do conhecimento. Estudo vivo privilegia o compartilhamento, mesmo que o mundo muitas vezes nos leva a acreditar no contrário e nos faz criar escolas que são regimentos de competições, mas, pelo estudo vivo, aprendemos que há lugar para todos, pois ele cria e vive nas asas das possibilidades. Estudo vivo respira e se pergunta sempre “por que não?”, ao invés de conservar-se no abafamento das respostas prontas que nos faz ter vidas prontas, permanecidas em si mesmas, cinzas, sem perfume e cor. Sempre duvidei das escolas cinza… Não, não pintem suas salas de aula de cinza. Se for para tê-las, tenha-as coloridas.

Acho que sempre fui indisciplinado, uma espécie de inconformado social, a ponto de não aceitar verdades verdadeiras; elas podem ser falsas e perigosamente destruidoras de sonhos. Também sempre acreditei que uma escola não pode motivar os seus alunos utilizando apenas o velho recurso de provas e notas. Uma escola assim tem algo de muito, muito errado, e alguma coisa precisa ser feita. Este livro é a tentativa dessa coisa, como é a tentativa de tudo o que eu faço, pois livros mudam vidas.

Quando fiz aos alunos a proposta de escreverem um livro, li em seus rostos uma certa descrença. Mas já esperava por isso. Minha tarefa não era apenas concretizar o que eu sabia que eles poderiam, mas tocar-lhes o coração. E isso foi acontecendo gradativamente, até que todos perceberam que sim, era verdade, escreveríamos um livro e que eu não iria desistir.

Uau!! É mesmo verdade! Vamos escrever um livro! Sobre o quê? Aqui entra uma outra coisa que acredito: a família. Sem ela não existimos. É ela que nos nutre, que nos acontece. Precisava envolver não apenas os alunos, mas as suas famílias nas páginas do que seria escrito, confiando que desse encontro surgiriam lembranças, memórias, aproximações e curas, sim, curas, pois a busca de memórias escondidas pode sarar muitas distâncias…

E como diz Bartolomeu Campos Queirós, um escritor que soube muito bem entender como as lembranças moram em nós e delas surgem histórias, “a memória é um espaço interno onde a fantasia conversa com a realidade”, ou seja, “o que não foi esquecido merece ser relembrado”.

Pronto. Estava tudo exposto. Agora era trabalhar, fornecer aos alunos o que precisavam para escrever. Algumas técnicas, umas dinâmicas, um pouco de experiência, um tantinho de informação e muita, muita leitura e uma dose imensa de vontade. O resultado? Bem, está aqui em suas mãos ao alcance de seus olhos. É só virar as páginas e permitir-se ir nessa viagem, que não há feio nem errado; há histórias lindas, reais e imaginadas, também há as misturadas saídas de cada um a sua maneira e que, por isso, já bastam.

Quanto a mim, sigo o meu caminho com um profundo sentimento de gratidão. Obrigado aos alunos, à escola e às famílias por acreditarem que sonhos foram feitos para serem sonhados e muito mais para serem realizados.

Leandro Bertoldo Silva

Escritor, professor e membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni/MG.

DESPEDIDA

_A vida é sempre a mesma para todos_rede de ilusões e desenganos. O quadro é único, a moldura é que é diferente_(Florbela Espanca)

Por Leandro Bertoldo Silva, do livro Entrelinhas Contos mínimos

Levantou cedo. Era seu último domingo naquela casa de roça em que viveu desde que nasceu. Planejara, com o irmão mais novo, fazer tudo como de costume para sua despedida. O irmão, com uma tristeza n’alma, nada dizia, só acompanhava. Subiram em árvores, comeram frutas do pé, deitaram na rede e escutaram os passarinhos, correram na chuva e caçaram borboletas quando o sol sorriu trazendo o arco-íris. Andaram a cavalo, comeram bolo de fubá e guardaram as migalhinhas para pescar…

A tarde já findava quando, na beira do lago, o irmão mais novo, quebrando o silêncio do dia, perguntou para o irmão mais velho por que ele estava indo embora. Ante a resposta de que era para ganhar muito dinheiro, ele ainda quis saber para quê. Após jogar a última isca na água, veio a derradeira resposta: “para um dia ter uma vida tranquila”. E não houve mais perguntas…

*A múcica abaixo é Clair de lune, de Claude Debussy. Ela foi minha fonte de inspiração para esse mini conto. Ouçam como é linda!

 

ESPERAS QUE CHEGAM

Esperas que chegam

Por Leandro Bertoldo Silva, do livro Entrelinhas Contos mínimos

“Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais” (Clarice Lispector)

Quanta espera… Entrou no quarto e se sentou à penteadeira da mãe. Batom, brincos, sombra, blush – um arsenal de feminilidade que ela agora percebia; afinal, a idade estava aí! “Será que o Guto vai notar na escola?”. Aquilo tudo brilhava a seus olhos, tão ao alcance de suas mãos… E agora ela podia. Sentia-se no direito de ser mulher tão linda como sua mãe. São assim as transformações do tempo… Invadem, sem pedir licença, os nossos anos, compactuando com os nossos aniversários. Mas faltava uma coisa, quer dizer, faltava mesmo… Pois agora já não falta mais! Os sapatos de saltos da mãe. Finalmente, nos seus pés! Ela se aprontou toda e se mirou no espelho… Linda, perfeita, adulta. A campainha toca. Chegou a hora…

            — Filha, a Aninha chegou.

            — Aninha?! Oba! Já não sabia mais o que inventar para te esperar! Trouxe a Barbie? A casinha já está pronta no meu quarto. Já estou indo…

Ouça abaixo a história narrada

 

RÉVEILLON

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Por Leandro Bertoldo Silva, do livro Entrelinhas Contos mínimos

“Escuto, mas não sei se o que ouço é silêncio”
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Dia 31 de dezembro. Quase tudo pronto para o réveillon. Depois de anos desejando passar esse momento com alguém que aliviasse minha insistente solidão, encontro o fim desse tormento. Repasso pela última vez os itens cuidadosamente preparados antes da chegada de ilustre persona: mesa posta para a ceia, champanhe, tudo para duas pessoas. As horas passam rápidas. Os primeiros fogos espocam no ar, anunciando os novos tempos. Quase não percebo a chegada tão sonhada da pessoa esperada. Sento-me à cabeceira da mesa e, no exato instante em que o novo ano marca sua presença, olho para o grande espelho da sala à minha frente e saúdo meu convidado. E uma lágrima escorre de meus olhos no mesmo instante dos dele…

Ouça abaixo a história narrada