FERIDAS ABERTAS, SOPROS DE LUZ

 

Por Leandro Bertoldo Silva, a partir da vivência da Estufa de Futuros: Modos de Convívio, Produção e Gestão na Cena Contemporânea, mediada por Cynthia Margareth.

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Entre os dias 18 a 23 de junho aconteceu o FESTTO – Festival Nacional de Teatro de Teófilo Otoni, organizado pelo Instituto Cultural In-Cena, em que reuniram artistas, pensadores e formadores de opinião de várias cidades e regiões do Brasil numa troca efervescente de arte e cultura.

Teatro, dança, música, literatura, oficinas, encontros, rodas de conversa nortearam pensamentos e fortaleceram posturas em busca de um lugar melhor, mais justo e humano, onde as vozes puderam ecoar atravessando fronteiras e transformando sentimentos. Aprendemos que é possível falarmos outras línguas, que o medo e a intolerância em suas várias faces em tempos que atravessamos não são armas capazes de fazer calar. Não por acaso, o que nos conduziu nesses dias de trocas foi o “verbo e aquilo que nos afeta”; o verbo sim, nossa ferramenta de poder, porque ninguém cala aquilo que fala.

Tivemos, nós da Árvore das Letras, a grande oportunidade de estarmos inseridos no projeto Estufa de Futuros: Modos de Convívio, Produção e Gestão na Cena Contemporânea, mediada pela Cynthia Margareth, de Campinas/SP.

Nesse lugar dialogamos com vários grupos, colhemos depoimentos, ouvimos histórias… E mais do que isso, semeamos, entre tantos terrenos férteis, sementes de esperança e vimos brotar quase que instantaneamente frutos de coragem.

Transcrevo abaixo a essência do que vivenciamos de forma visceral nestes dias onde a luz soprou seus raios de vida.

 

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Gente

Dentro de nossas inventações compartilhadas… ESTAMOS AQUI!

Encontramo-nos ou nos reencontramos em um MeiMundo de pessoas ávidas por Companhia (de teatro)? Ou, ainda, seríamos um Bando de artistas loucos que gritam suas coragens, estando sempre em busca de uma bela e Adorável Companhia?

Como diz Sophia de Mello Breyner Andresen: “Há momentos que são quase esquecimento numa doçura imensa de regresso”.

Sim, este momento de fala e escuta, mais do que um encontro, foi um regresso de almas, uma revisitação de nossas histórias que, por mais diferentes que sejam, tornam-se todas iguais, tornam-se nossas. Somos artistas, caras pintadas das emoções. Aonde vamos, aonde quer que vamos, voamos para Ser estrelas. E vamos juntos!

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Durante esses dias, feridas foram abertas à procura de cura num desejo enorme por soluções… Oh, meus amigos… Deixe-me contar uma história, história de palhaço, que permeia o nosso imaginário e que aqui esteve e está tão presente entre nós…

Tinham-lhe tantas vezes pedido conselhos… Era o redentor de todos os sofrimentos que assolavam as almas em conflito, a ponto de impedir suicídios. Alegria – o palhaço da luz –, como era conhecido, escolheu as ruas como o seu picadeiro e nelas transformava pessoas. Agonia mudava-se em sonhos e medos em esperanças. Contudo, algo curioso acontecia: Alegria era triste… O homem por trás do palhaço não conseguia fazer consigo o mesmo que fazia com os outros, pois não tinha tido a sorte de encontrar alguém que o apresentasse a si…

Pois essa sorte nós tivemos! Encontramo-nos e nos apresentamos a nós!

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Cia Bando, de Belo Horizonte, bela como a cor de sua raça, a verdade de se afirmar negro, potencializando habilidades;

Cia de Teatro Gente, gente como a gente em busca do encontro e da coragem de se transformar e transmutar da morte à vida. À benção, Plínio Marcos;

Adorável Companhia, que traz no nome a sua identidade no desejo de mostrar inteiro – nunca mais ou menos – que o que nos aproxima pode ser sempre mais forte do que aquilo que nos afasta;

Companhia de Teatro, nas paixões de Paixão, transitando do macro ao micro e encontrando nas casas e jardins os palcos inimagináveis. Capitão, oh, meu capitão, tu és um sucesso!

MeiMundo Inventações Compartilhadas, fazendo-se enxergar na potencialidade da não-invisibilidade, pois existimos e podemos ser.

Assim, foi a nossa viagem. Muito prazer a todos que tiveram a coragem de se mostrar e escancarar suas feridas ao encontro da luz. Só assim, revisitando-nos, é que encontramos a chave que nos abre e descobrimos que estamos todos juntos em um mesmo lugar.

Que lugar é este?

Oh, meus senhores, minhas senhoras, respeitáveis artistas… Não poderia nunca, jamais ser outro que não a mágica e encantadora condição de estarmos IN-CENA!

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RECORTES

Recortes

Não podemos exigir o amor de ninguém.

Podemos apenas dar bons motivos para que

gostem de nós, e ter paciência… para que a vida

faça o resto.

 (Clarice Lispector)

Desiludido, escreveu num pedaço de papel: “Meu amor não tem rosto nem nome…”. Aquilo o incomodou até que o tempo anestesiou sua dor. Por alguns anos, até que procurou a dona daquelas palavras que saíram de si. Já tinha uma pequena caixa de recortes, na qual moravam imagens de mulheres sem nudez ou sequer sensualidade. Vestidos em bustos, braços, pernas, todas elas comuns e sem rosto, faziam-se companheiras dos papéis já amarelados e esquecidos, quase que com suas letras desbotadas. A inércia daquele encontro e a insistência da sua impossibilidade fizeram com que desistisse de vez e aposentasse suas imaginações por anos, vivendo apenas em sua companhia. Já idoso, porém, ao limpar sua estante, deparou com aquelas lembranças e quis jogá-las fora. À porta de sua casa, abriu a tampa do coletor e, no derradeiro movimento, ouviu uma voz que lhe disse:

“Meu nome é Judite. Preciso de uma informação…”.

Ao fitar a senhora que sorria, seu rosto se desenhou em cada pedacinho de papel que segurava e, junto com o nome, preencheu o que faltava…

Ouça o conto narrado:

Acompanhe essa e outras histórias no nosso canal do Youtube no Literatura em Áudio.

https://www.youtube.com/channel/UCQogOcP-pTO9eMGlk4QHAGA?view_as=subscriber

Assista, dê um like, faça seus comentários, se inscreva e ajude a divulgar cada vez mais a literatura!

RESUMO DA ÁRVORE – 01 A 08 DE JUNHO

Olá!

Abri essa semana com um haicai que dizia:

Ponte entre tempos…

Mundos que se completam…

Quem sou eu agora?

De fato, esses dias que passaram foram como pontes que me conectaram a vários lugares diferentes, mas que se completaram em mim, contribuindo para que eu cada vez mais afirmasse em mim mesmo quem sou e o que eu faço.

Aconteceram muitos encontros com gente bacana no espaço físico da Árvore das Letras, muitos abraços e muitas esperanças de um mundo melhor, com mais leitura e mais consciências.

Foi linda a visita que fiz na Escola Municipal José Rodrigues da Silva, na Vila dos Posseiros, dando sequência em minha jornada de levar literatura pelo Vale do Jequitinhonha e Mucuri. O Menino que Aprendeu a Imaginar – Oswaldo e o palhacinho de chapéu de guizos – estão andando bastante e conhecendo muita gente legal! Ainda quero visitar muitas outras escolas e instituições, principalmente como essas onde a simplicidade nos alimenta de maneira tão rica e autêntica. Estive com alunos, pais, professores e fui tão bem recebido que me senti até no Sítio do Picapau Amarelo ao me encontrar com a Emília. Um dia ainda volto lá como Visconde…

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Outra coisa muito legal dessa semana nasceu com uma pergunta:

VOCÊ JÁ OUVIU LITERATURA?

Com essa pergunta publiquei aqui no blog e nas redes sociais um pequeno áudio de 2 minutos e 20 segundos contando a história de Pedro e João, dois amigos que se conhecem desde a infância e passam 86 anos juntos até que a separação é inevitável, mesmo que por instantes… Você pode ler e ouvir a história no post abaixo.

O que me deixou muito feliz é que recebi muitas mensagens de várias pessoas que ouviram e não só gostaram, mas deram a ideia de que eu criasse um canal no youtube, onde eu pudesse ir publicando as histórias. Como o canal já existe, mas estava meio parado, resolvi reativá-lo, porém direcioná-lo para esse trabalho, inclusive pensando em gravar alguns contos de Machado de Assis e outros textos de domínio público. Ok, embora o audiolivro já exista na internet, sempre achei as narrações um pouco frias e monótonas… Assim, penso em fazer do meu jeito, dando à leitura e aos personagens um pouco de interpretação, usando efeitos e trilha sonora para conectar com a atmosfera da história, como nas novelas de rádio e nos antigos discos de contos.

Leandro Bertoldo Silva (1)

Agradeço as mensagens e as sugestões, inclusive podemos atender, assim, os portadores de deficiência visual, o que é muito bacana.

Bem, então é isso! Vamos em frente divulgando a literatura cada vez mais e por todas as formas possíveis!

Forte abraço, vamos para mais uma semana e fique ligado no que vem por aí!

Leandro Bertoldo Silva.

CUMPLICIDADE

algodão doce

Por Leandro Bertoldo Silva

[…]

A morte apenas existe por uma brevíssima

troca de ausências.

[…]

Mia Couto

O momento havia chegado. “Todo encontro está fadado à separação”, não é assim? Na vida daqueles dois amigos, não era diferente. Apenas havia o entendimento de que era por um breve instante, tão breve como o bater de asas de uma borboleta, como aquela do parque onde, pela primeira vez, quando crianças, comeram juntos os primeiros algodões-doces: branquinhos, felpudos. A novidade transformara-se em símbolo de amizade nascida junta na mesma maternidade e perpetuada até ali, 86 anos depois.

            Agora, nos derradeiros minutos em que apenas a espera separava aquele encontro terreno, o velho amigo doente, perante os olhares condolentes, viu, pela janela, uma frestinha do céu repleto de nuvens branquinhas e felpudas e, num filete de voz quase sumida, disse ao amigo outro que se mantinha ao seu lado:

            — Pedro… Olhe… Está vendo? Algodões-doces…

            E, junto com os seus olhos que se encontraram num último sorriso de cumplicidade, veio a resposta calma, serena:

            — É sim, João… E não se esqueça… Quando você chegar lá, guarde um pedacinho pra mim…

Clique para ouvir o conto narrado