A LITERATURA É UMA ESCADA MUITO ALTA

Por Leandro Bertoldo Silva

Uma das condições que nos faz ser humanos é a nossa capacidade de ler. Ser leitor é estar inserido, não em um universo, mas em algo maior, uma espécie de pluriverso que é, ainda, mais vasto. Gosto dessa palavra: “Vasto”. Lembro-me de Drummond ao escrever: “Mundo, mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não uma solução”. Bem, não me chamo Raimundo, mas supondo ser esse o nome de todos os alunos e alunas que dizem ter horror à leitura por não entenderem como, ao ler, somos transportados aos vastos mundos, conscientes e inconscientes, reais ou imaginários, busquemos a solução com licença ao poeta.

Antes, o que nos faz verdadeiramente humanos em nossa experiência leitora é perceber que não lemos somente as palavras. Há algo a mais nessa experiência que reflete a nossa condição lúcida de seres racionais dotados de uma inteligência superior. Sempre digo: precisamos aprender a ler a verdadeira natureza íntima de todas as coisas. Eu, como escritor, gosto dos leitores que leem os cheiros, os sabores, as lembranças, as saudades, as esperanças, as suposições… As letras são materializações do que sentimos, mas não devemos ficar presos nelas, pois se assim acontece, ficamos na superficialidade, no espelho das águas e perdemos a oportunidade de desfrutar o encontro das profundidades. É como a árvore; vemos o seu tronco, galhos, folhas e frutos, mas não enxergamos o mais importante: suas raízes. Na escrita se dá o mesmo. É preciso ler as raízes, o que está “escondido”, pois são elas a sustentar sua existência.

Mas deixemos as digressões. Até porque estava nelas quando um aluno levantou a mão no meio da sala.

— É o seguinte, fessô — disse ele coçando a cabeça. Eu sei que o senhor é escritor e fala essas coisas aí, mas eu não consigo entender essas paradas de ler o que não tá escrito. Como isso é possível?

— Ora, Raimundo, você ouviu o que eu falei sobre a árvore?

— Ouvi, fessô, mas isso tudo é poético demais… Falando assim até dá pra entender, mas sei lá…

— Certo. Vou te explicar de outra forma. Vamos fazer uma pequena viagem mental.

— Fazer o quê?

— Um faz de conta, vou contar uma história e você vai se vendo dentro dela.

— Pô, fessô, maneiro. A galera pode vir junto?

— Pode. Mas você precisa se concentrar, pode ser?

— Pode crer.

— Vamos lá. Imagina que você está indo para uma cachoeira com alguns amigos.

— Maneiro.

— Porém, durante o trajeto e ao chegar lá o sol foi se escondendo e dando lugar a um tempo nublado e até com alguns pingos de chuva, poucos, mas suficientes para turvar a água e impedir a sua bela visão cristalina.

— Pô, fessô, sacanagem…

— Concentra, Raimundo.

 — Vai nessa.

— Se algum de seus amigos falasse para você pular na água de cabeça, você pularia?

— Com a água turva? Tá doido, fessô, de jeito nenhum!

— Ora, e por quê?

— Por quê?! Cê tá doido mesmo! Com a água turva não dá pra ver o fundo e nem onde as pedras estão. É perigoso pacas!

— Pedras? Mas que pedras? Eu não falei em pedras! Além do mais, você nem as viu! Como sabe que tem pedras?

— Ô, fessô, se liga! Cachoeiras são lugares de pedras a contar pelas que existem nas margens. A gente pode até não tá vendo, mas isso porque a chuva que o senhor falou fez mexer as paradas lá embaixo da água e a lama subiu pra superfície. Mas que tem pedra, ah isso tem. E vai que tem uma exatamente onde eu pularia…

— Hummm… Sabe o que você fez, Raimundo?

— Me livrei de uma?

— Isso também. Mas você acabou de fazer uma leitura perfeita da natureza e das suposições.

— Hã?!

— Sim, Raimundo, percebe! Você leu a água, a lama, a chuva… E não havia palavras aí, ou seja, as pedras. Você enxergou o que não estava visível, exatamente como devemos fazer em uma leitura: ler nas entrelinhas, nos espaços vazios onde as palavras já não são necessárias… Entendeu?

Nem era mais preciso perguntar. A sua expressão disse tudo. Ele ficou satisfeito com a explicação. Eu mais ainda por ter, talvez, despertado mais um leitor crítico. Ao vê-lo com seu ar alegre e orgulhoso de si mesmo e em meio à algazarra da turma que o saudava, fiquei a pensar… É, a literatura é mesmo uma escada muito alta e para se chegar ao topo é preciso subir degraus.

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Pois é, essa é uma fala corriqueira minha. Quem me conhece sabe disso. Infelizmente, tem muita gente adepta ao salto à distância e quer alcançar, de um pulo só, o último degrau. Vemos isso muito nas escolas quando “obrigam” alunos a lerem autores e obras que ainda não estão preparados e, além de não prepará-los, ainda dão prova de livros, prática que eu nunca fui adepto, pois acredito mesmo que há muitas outras maneiras de se avaliar uma leitura… E você, o que acha disso? Obrigado mais uma vez por estar aqui. E não deixe de curtir, deixar seu comentário, compartilhar com um amigo ou amiga. Já disse, mas vale repetir: para mim é precioso.

Forte abraço!

NA CLÍNICA

Por Leandro Bertoldo Silva

Estava eu com minha esposa em uma clínica para acompanhar a minha sogra em um exame médico, quando uma atendente chamou uma paciente em espera. Logo eu soube ser Sosléia Leão de Almeida, graças à demora da senhora perceber a chamada e fazer a atendente repetir o nome antes escutado por mim como Sossega Leão de Almeida. Pronto! A troca fonética na minha cabeça foi o suficiente para começar a imaginar histórias. O que levaria um pai e uma mãe a batizar uma filha com o nome de Sossega Leão? Para as crianças de hoje em dia até seria uma boa pedida e faria jus ao termo usado no estado do Ceará como espaço gradeado no qual se colocam os pequenos e pequenas para que fiquem em segurança; no popular, cercadinho ou, ainda, chiqueirinho. Não há referência pior e embora muita gente seja contra essa terminologia, inclusive eu, o fato é que as crianças de hoje… Misericórdia! Seja como for, a senhora já passava dos 70 anos, provavelmente criada na rigidez da época. Por que então se chamaria assim? Não fazia o menor sentindo.

Nisso uma outra senhora saiu pelo corredor possessa, soltando fogo pelas ventas e, aos berros, dizia ser a médica a tomar naquele lugar sugerido. Que absurdo, meu Deus! Como alguém estudada poderia dizer aquela barbaridade? O mundo estava mesmo perdido. Assim bradava a mulher a chorar desesperadamente até vir a mesma atendente de antes com a receita da médica nas mãos ao tentar sem sucesso explicar a senhora que ali estava escrito: “Tomar Novalgina de 6 em 6 horas”. Não adiantou. O dito não encontrou outro significado e a senhora, que, aliás, se chamava Ava Gina da Silva e usava um aparelho de surdez, saiu aos prantos a defender sua pureza.

Passada a confusão e ânimos serenados, apesar dos risos de uns e protestos de outros, ambos camuflados, veio novamente a atendente para mais uma chamada.

— Amado Pinto de Oliveira… É esse mesmo o nome?! — já perguntou receosa.

— Por quê? Tem alguma coisa de errado com ele? — levantou um homem dirigindo-se à atendente.

— O senhor é o senhor Amado?

— Amado da minha mãe e Pinto do meu pai, que se chama Oliveira. Sou eu sim, senhora.

— Não há nada de errado, senhor Amado. Queira me acompanhar, sim?

— Não.

— Como não?

— A senhora acha que tem alguma coisa de errado com o meu nome.

— Eu não acho nada, senhor.

— Acha, sim. Por que então ao me chamar a senhora ficou arrastando o meu Pinto? A senhora disse assim: Amado Piiiinnnnto de Oliveira?! E ainda colocou uma interrogação velada no final! Pois saiba que na minha família todos temos Pinto, tanto os homens quanto as mulheres.

— Não há nada de errado com o seu Pinto, Senhor Amado. Posso lhe assegurar isso! — falou mais alto a atendente no exato momento em que entrava uma mãe com sua filha pré-adolescente já a jogar a bolsa para cima e correr a tampar os ouvidos da menina, porém tarde demais, pois se todos gargalhavam copiosamente, a menina certamente havia escutado. O senhor Amado ficou ofendidíssimo por ver todos rindo do seu Pinto, inclusive a filha da mãe, enquanto essa já arrastava a menina para fora, levantava os braços e gritava “valha-me Deus”!

A atendente quis cancelar todas as consultas e a confusão se instalou entre risos e xingamentos. A médica ao ouvir aquela balbúrdia saiu da sua sala e foi ela mesma tomar conta da situação. Enquanto ela tentava acalmar novamente os ânimos, a mãe e a filha pré-adolescente voltaram com um policial.

— É essa a pervertida, seu policial. E essa outra deve ser a chefe dela. Essas mulheres devem ser presas.

— Calma – disse a médica — tudo não passou de um mal entendido. Podemos explicar.

Depois de um tempo considerável tudo se aquietou. A médica resolveu continuar o atendimento e ela mesma fazer as chamadas. Porém, ao passar os olhos pelas fichas e verificar todos os nomes ali escritos chamou a atendente no canto e segredou:

— Vamos precisar de reforços… O policial que saiu daqui não deve estar longe. É melhor chamá-lo de volta ou então é bom preparar um sossega-leão bem forte.

— Sim, senhora.

Ô complicação é nome de gente!  A situação mal tranquilizou e eu fiquei ali a imaginar a Sosléia distribuindo bolsada para todo lado. Cabeça de escritor é coisa muito perigosa…

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* Obrigado mais uma vez por sua leitura. E não deixe de curtir, deixar seu comentário, compartilhar com um amigo ou amiga. Já disse, mas vale repetir: para mim é precioso.

Forte abraço!

CRÔNICA-TESTAMENTO

Por Leandro Bertoldo Silva

Existem algumas pessoas que têm verdadeira aversão quando o assunto é morte ou velório. Para muitas há qualquer coisa de mórbido ou mesmo um extremo mau gosto, embora não exista quem não tenha uma história engraçada para contar desses momentos sorumbáticos, o que causa uma das maiores controvérsias da vida ou falta dela. Não raras vezes aparece um bêbado vindo não se sabe de onde sem ninguém igualmente saber quem é — talvez amigo do finado que não pode mais prestar explicações — frente a palavras e casos desconexos proferidos aleatoriamente a causar risadas em uns e pulgas atrás da orelha de outros.

Há também os casos que viram lendas. Soube uma vez pela boca de todos os moradores de uma cidadezinha do interior de Minas que por anos não se falava em outra coisa a não ser da história de D. Etelvina, senhora de seus oitenta e poucos anos, morta, coitada, dentro do caixão e sendo velada em casa com os braços amarrados forçando-os a permanecerem na clássica posição cruzada no peito devido ter sido encontrada com eles para cima. O porquê de ter sido assim havia muitas versões e não menos controvérsias, mas foi fato necessário atar as duas mãos com barbante. Madrugada adentro entre um prato de sopa aqui outro ali, uma conversa lá outra cá, eis que D. Etelvina foi inchando devagarinho. Parece até ter escolhido o momento certo, pois quando as pessoas se reuniram para a oração final, já de manhazinha, o barbante não resistiu à pressão dos braços de velha senhora e veio a arrebentar. Os braços, antes amarrados, como uma mola voltaram à posição vertical de uma só vez e fez espalhar flores para tudo que era lado junto com gente, cachorro, homens, mulheres, novos, idosos, até o padre e o sacristão aos gritos de misericórdia, latidos e palavrões, ao disputarem, todos, a pequena janela da sala, pois na porta já não passava ninguém. Nessas horas até os mais corajosos se revelam e não há quem mantenha posturas.

Há ainda os fatos poéticos, como aconteceu com um tio meu ao se despedir em um dos almoços de família, como eram costume todos os domingos. Depois de cantar e tocar suas modas de viola como ninguém e finda a comilança com uma generosa quantidade de gordura de porco que ele sempre colocava em seu prato e a tradicional pinguinha, ele se sentou em sua poltrona demonstrando total tranquilidade, enrolou um cigarrinho de palha, pitou calmamente e aí recostou confortavelmente, colocou o seu inseparável chapéu italiano no rosto e disse a todos: “É, está na hora de subir o morro”. O que todos pensavam ser uma sesta era o seu desenlace, assim mesmo com discrição e sem sofrimento. Morreu como viveu: feliz e rodeado de pessoas, cantando, comendo, fumando e tomando cachaça. Foi-se o “Zé do Mato”, como era conhecido, para mim o poeta da alegria e uma grande inspiração.

Quero aproveitar o ensejo da leveza e usar a mesma pergunta de um narrador de futebol ao se referir aos títulos do meu time do coração, porém direcionando-me a esses momentos derradeiros difíceis para muitos: “por que é que tem que ser tão sofrido assim?” Pois é! Não tem. Pelo menos para mim. E já que ainda estou aqui para falar sobre isso, não deixarei que me roubem a mínima oportunidade de opinar sobre um evento cuja atração principal será eu. Nada mais justo. Até mesmo porque devo elucidar aos mais supersticiosos que é fato consumado passarmos todos por esse momento e, se assim é, a única pessoa a dar informações precisas de como pensa ser este instante sou eu mais uma vez. Portanto, desejo jogar luz a essa situação e criar um evento poético, por que não? Duvida?  Vai vendo.

A propósito, o leitor atento deve ter percebido o título dessa crônica e visto lá a palavra “testamento”. Segundo o dicionário etimológico da língua portuguesa, testamento é o ato pelo qual alguém, com observância da lei, dispõe de seu patrimônio para depois de sua morte. Pois bem, segundo a iminência a observância aqui não é a lei, mas a poesia. E a disposição trata-se da declaração das minhas últimas vontades. Sendo assim, atesto:

Eu, escritor dessa crônica, brasileiro, casado, inscrito em todas as leis do desejo de romantizar a vida e a morte que me cabem, estando em perfeito juízo e em pleno gozo de minhas faculdades intelectuais, sem nenhuma interdição, na presença de (03) três testemunhas a seguir qualificadas: a literatura, o amor e a gratidão, residentes e domiciliados nas Ruas dos que Escrevem, dos que nos Move e dos que me Permitiram Estar Neste Mundo, livre de qualquer instrumento ou coação, resolvo publicar a presente crônica-testamento na qual exaro minhas últimas vontades, pela forma e maneira seguinte: PRIMEIRO: Não quero choro, se possível, prefiro os sorrisos. Afinal, passei por essa vida e venci, embora esteja a passar e a vencer neste exato momento da escrita. SEGUNDO: Não quero flores. Por que matar e enterrar as pobrezinhas? Acredito que um ser, no caso eu nessa condição no momento, seja o bastante. Além do mais, perfume de flores com vela é muito característico de defunto, Deus me livre! Estar morto já é suficiente. No lugar delas prefiro bolinhas de papel. Estar coberto por elas me é muito mais agradável e mais condizente com a minha profissão. TERCEIRO: Quero papéis avulsos na entrada do recinto e também um pote de lápis para as pessoas escreverem, se desejarem, uma mensagem, um poema, a letra de uma música ou outra coisa sugerida pelo coração, fazer uma bolinha com o papel e colocá-la junto às outras. Maledicências não serão fiscalizadas, mas eu saberei e prometo transmutá-las do lado de lá. QUARTO: Quero um evento agradável. Para isso, peço que a partir de então a palavra “velório” seja modificada por “sarau” para que todos possam se divertir. A palavra “capela” se houver não precisa ser substituída na grafia, mas ressignificada, isto é, apenas caso alguém queira cantar sem o acompanhamento de instrumento, o que será maravilhoso. Caso tenha algum, que sejam violão e flauta transversal, meus preferidos. Violino é lindo, mas aumenta a tristeza e não há esse sentimento em saraus. QUINTO: Ainda sobre a música, fica valendo a popular brasileira. Chorinho não combina com o meu momento, muito menos sofrência. Essa nem morto quero ouvir. SEXTO: Como grand finale, em seu sentido literal, desejo ser conduzido ao último berço ao som de “Canon em Ré maior”, de Pachelbel. E no momento exato do plantio, para dar um ar mais poético e galante, que alguém leia em alto e bom som a poesia “Hora Eterna”, de Henriqueta Lisboa. Não lhes furtarei o prazer da procura, mas transcrevo aqui alguns versos:

[…] Vida que esplendes por que passas!

Quero viver, sentir num turbilhão

dentro do pensamento a certeza deste eu.

Sofra, embora – que importa? – O corpo

fatigado.

Quero vida, mais vida, alma, renovação,

força para reter tudo o que o céu me deu,

capacidade para amar o que foi  criado!

Vida que esplendes porque passas,

e que és amada porque findas! […]

Bem a propósito, não é mesmo?

E dito isso dou por encerrada a presente crônica-testamento na existência das (03) três testemunhas acima descritas, para as quais dedico a minha vida e que a confirmará em juízo no cartório do céu, de conformidade com a lei da arte e da natureza.

EM TEMPO: Não quero enfeites, nem placas, nem mármores frios; a terra me basta. E nela, bem perto de mim, que se plante um pé de ameixa. Dele nasci e nele eternizo. Não quero virar estrela, prefiro ser árvore. Bem viva.

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* Obrigado por sua leitura. Como viu, é possível lançar luz sob todas as coisas, por que não? Peço a gentileza de levar em consideração, embora daqui a bastante tempo… Curta, deixe seu comentário, compartilhe com um amigo ou amiga. Quem sabe este texto não despertará novos olhares?

Forte abraço!

(DE)SENCONTRO

Por Leandro Bertoldo Silva

Costuma-se dizer que ouvir conversa alheia é falta de educação. Concordo. Mas e quando a conversa vem até você? Vinícius de Moraes já dizia que “a vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida”. Vinícius era poeta ou profeta? Seguramente os dois. Não sei em quais circunstâncias os escritores, músicos, compositores criam suas obras… Humm, está certo! Não posso dar-me como o poeta de Pessoa a fingir dores ou mesmo dissabores! É porque durante certo período acreditava que esses magos da palavra entravam em estado de nirvana, banhavam-se em algum rio ou subiam alguma espécie de montanha imaginária, talvez até real, e acessavam o ápice da criação. Deuses da palavra ou escultores da controvérsia: eis a questão para, como Shakespeare, ficar entre o ser e o não ser. Todas essas possibilidades, porém, caíram por terra frente o acaso do meu copo de cerveja pousado ao lado do meu bloco de notas em um bar de quinta, onde tentava, até então em vão, escrever seja lá o que fosse a fim de tornar-me o novo best seller, como se isso representasse alguma coisa…

“Certa vez, a rosa se enfeitara de flores para ser percebida. Nem assim conseguia.”

Foi o que ouvi dito por uma mulher, muito bonita por sinal, a um homem supostamente seu marido ao se aproximarem da mesa em que eu estava. Não digo isso pelas alianças em seus dedos, mas pela experiência mística — porque não há outra forma de definir aquilo — revelada bem ao alcance dos meus olhos e ouvidos. Eles ainda nem tinham se sentado à mesa ao lado quando, ao fazerem, presenciei um curtíssimo diálogo ou, pelo menos, uma tentativa iniciada por aquela pérola de declaração muito, muito verdadeira:

— Certa vez, a rosa se enfeitara de flores para ser percebida. Nem assim conseguia.

— Como?!

— Certa vez, a rosa se enfeitara de flores para…

— O que? Só um minuto, por favor, o celular… […] Sim, agora pode falar.

— Certa vez, a rosa se enfeitara…

— Nossa, lembrei que tinha que ter postado aquela foto ontem! Desculpe, meu bem… Então…

— Certa vez, a rosa se…

— Preciso trocar esse telefone… Ah, desculpe. O que estava mesmo dizendo?

— Certa vez…

— Será que pedimos batata frita ou macarrão na chapa? Bem, parece que você estava dizendo alguma coisa…

— Certa… mente.

— O que?

— Nada. Quero ir embora.

— Você é sempre assim! Depois diz que não te dou atenção…

Saíram tão rápido quanto chegaram. Terminei meu copo de cerveja, guardei meu bloco de notas, paguei a conta e fui-me embora com essa — meu estado de nirvana — cantarolando o “Samba da benção” enquanto outros best sellers da vida  provavelmente estariam a serem escritos por aí, ou, quem sabe, cantados.

Porque o samba nasceu lá na Bahia

E se hoje ele é branco na poesia

Se hoje ele é branco na poesia

Ele é negro demais no coração…

A benção, Vinícius.

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Pois é… Se você já viveu algo parecido, se já foi arrebatado ou arrebatada assim “sem mais nem porquê” por alguma pérola que a vida nos proporciona, conte nos comentários. Lembre também de curtir e compartilhar essa crônica com os amigos. Fico muito agradecido.

“É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe…”

Forte abraço!

UM CONTO DE JUVENTUDE: A MELHOR MÚSICA DO MUNDO

Por Leandro Bertoldo Silva

Engraçado como algumas frases nos impactam. Deparei-me com uma delas, lembrada por uma amiga no excelente espaço Jornal Presença Itabirito,MG, na qual fiquei a refletir. Dizia assim:

“Quanto de você existe naquilo que você odeia?”

Essa máxima atribuída a Sigmund Freud remeteu-me a um outro pensamento irmão ao nos trazer a seguinte consideração:

“O que está fora é o que está dentro”.

Não, esse não é de Freud, embora ele pudesse explicar. Eu nem mesmo sei de quem seja, mas lembrei-me de um acontecimento, desses inusitados, e o transformei em história para nunca mais ser esquecida, pois, como dizia Guimarães Rosa, “Eu não sentia nada. Só uma transformação pesável. Muita coisa importante falta nome”…

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Uma vez encontrei um menino sozinho na rua. Estava todo sujo. Estava tão sujo, que eu jurava ver poeira saindo do seu corpo quando caminhava em minha direção. Curioso perceber o quanto a sujeira contrastava com sua felicidade. Vinha com um sorriso a esbanjar contentamento. Carregava uma caixinha de fósforo e nela dedilhou um sambinha e, tão logo me viu, começou a cantar:

            Oh, seu moço, por favor, dê um sorriso!

            Porque hoje aprendi o que é o amor.

            O que é o amor…

— Por que está tão feliz, menino? — perguntei admirado.

— Porque hoje conheci a melhor música do mundo e descobri que ela está dentro dessa caixinha! — respondeu-me prontamente.

— Música?! Mas isso não é música! É apenas um batuque!

Ele me olhou de uma maneira tenra e dócil…

— Não, moço… É música. E é tão linda! Mas só os puros podem ouvi-la e reconhecê-la.

— Não é engraçado um rapaz como você, tão sujo, falar de pureza?

Mais uma vez ele pousou em mim um olhar dócil, sorriu e disse:

— Você acha isso mesmo? É, moço… As coisas do mundo, assim como seus ouvidos e olhos, nem sempre são como se diz ou mostra. Preste um pouco mais de atenção… Eu vou ajudar você.

A partir daquele momento, não mais disse nada. Na verdade, não fora preciso. Ele tocou a caixinha de fósforo de uma forma tão maravilhosa, com uma alegria tão especial, eu fui, aos poucos, percebendo a grande música ali presente. Nessa hora, enxerguei, afinal: não era poeira suja a sair de seu corpo, mas partículas minúsculas de luz ao envolvê-lo completamente. Foi quando vi como eu estava enganado pelo pessimismo muitas vezes arrogante dos mais velhos ao julgar ter o direito de achar ser isso natural.

Quando o jovem me viu diferente, deu um sorriso largo e escultural — não me lembrava de ter visto igual — e saiu tocando a sua caixinha de fósforo até sumir de minha vista. Quanto a mim, fiquei feliz. Ele está por aí, na sua missão de caixinha. Por isso, repare em todas as pessoas “sujas” pelos caminhos e, ao invés de se desviar, dê a elas um pouco de atenção e as toque como a uma caixinha de fósforo. O que vier delas pode ser a melhor música do mundo…

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*Essa história eu a presenciei em parte. Felizmente me fiz moço para viver por ele a realidade a qual desperdiçou. Compartilhe com um amigo, comente se já viveu alguma situação que o fez repensar conceitos…

Obrigado por sua leitura.

Forte abraço!

NO PRINCÍPIO, A PALAVRA: FEMININA, DIVINA

Por Leandro Bertoldo Silva

Tencionava descer à Terra e finalmente dar-se a conhecer aos homens. Foi assim que Deus deixou de ser mulher, e de uma forma tão brutal, que esta história virou lenda para que nunca mais fosse tida como verdade…

Fala-se de um tempo onde tudo eram fragrâncias; fala-se da chuva e do sol – harmonia perfeita das estações; do calor e do frio, da maciez das flores, das sementes que germinam em tempos de esperas. Para que a pressa? Não há pressa; há lucidez, e tudo basta. Assim era a vida no mundo: sem embates, sem crimes contra a íntima Natureza. Durante muito tempo, as mulheres viveram na mais absoluta bem-aventurança. Eram as senhoras de todos os saberes. Conheciam, pelo cheiro, os segredos das ervas, e por suas infusões cantavam a essência dos sentimentos. Não havia terra que não pudessem cultivar, nem animais que não pudessem domar. Na escala da natureza, a mulher reinava, mas sem armas; seus instrumentos eram feitos de fragilidade, pois não conheciam impetuosidades e tinham na humildade o regaço de sua beleza. A terra, também feminina, entendia o trabalho e se deixava fecundar pela semente da mulher, pois não conhecia varão e, sendo assim, nunca fora aberta, em suas partes, chagas violentas, mas sulcos com total respeito e devoção onde a vida continuava a crescer ininterruptamente.

Mas eis que um dia, as mulheres ficaram atônitas. Um fruto diferente, de uma beleza incomparável surgira de entre as folhas de uma macieira. Como tendia a crescer a cada mês diferente dos outros frutos, as mulheres o esconderam por nove meses, quando de dentro de seu invólucro vermelho surgiu uma criança tão bela como um anjo. As mulheres, hipnotizadas pela beleza da criança, perceberam sua anatomia diferente, mas como todo o resto era tão igual, porém de uma beleza nunca vista, não deram a importância merecida. Estava acontecida a invasão original.

A partir daquele dia, algo mudou. As mulheres, antes tão altruístas, viram nascer um sentimento desconhecido, pois lhes doía ter que dividir entre elas a criança, desejando-a só para si. Sabedoras de um desequilíbrio fortuitamente a fazer morada em suas almas, foram ter com a Deusa que pressentira a quebra da harmonia, mas a sabia inevitável. Faltava-lhes um ensinamento e era chegado o momento do grande dilúvio, tão grande e medonho que a história não o mencionou…

O menino cresceu resguardado pela Deusa e a beleza crescia junto dele, mas crescia também, mesmo veladamente, os sentimentos de ciúme, inveja e discórdia. O menino, agora homem feito, logo entendeu a origem do infortúnio ao perceber ser ele mesmo o motivo, e isso o fez se sentir tão poderoso ao ponto de se estabelecer como o senhor das mulheres. A Deusa, em sua compreensão, sabia ser exatamente aquele o ponto do conflito. Era ali onde haveria de existir o equilíbrio entre as polaridades e, à sua vontade, se misturavam entre homens e mulheres ao passar a dividir a mesma terra. Como as mulheres eram filhas do céu e, sendo assim, possuidoras das verdades, e os homens filhos da terra maculada e, por isso, cegos pelo véu da ambição, a Deusa se fez Deus para ter aceitação nos corações vaidosos destes e de quem se achavam, em véu de ilusão, serem os donos do mundo. Muitos anos se passariam, muitos conflitos aconteceriam até entenderem – homens e mulheres – não haver dissociações; um se completaria no outro como o dia e a noite, o sol e a lua, o fogo e a água. Até lá, as mulheres se recolheriam em suas sabedorias e verdades só a elas destinadas, só elas sentiam, ao ponto de realizarem o que desejassem tendo nos olhos a morada de seus mistérios. Os homens, por suas vezes, se revelariam na força e na coragem, mas mediante o barulho que criariam na fantasia de seus domínios, revelariam suas fraquezas e seus medos frente ao desconhecido. Mas o tempo chegaria e, quando chegasse, o verbo, antes feito carne, entenderia a existência de algo muito maior que lhe gerara: a palavra, alma feminina em sua natureza divina. E o tempo se refez…

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*Este conto, publicado no dia 8 de março, deixo em homenagem à imensa e incomparável sabedoria das mulheres.

VOCÊ AINDA ESCREVE CARTAS? NÃO SABE NEM O QUE É ISSO? SERIA BOM SABER!

Por Leandro Bertoldo Silva.

Bem, aqui estou eu depois de ter escrito o texto que aí vai ainda no ano de 2018 e tê-lo publicado em meu Blog. Digo isso em estado de alegria por ter recebido, depois de 4 anos, uma carta… Sim, isso mesmo, uma carta!

Hoje ao ver as timelines das pessoas lotadas de mensagens (sim, eu também envio muitas), fiquei a imaginar se existe alguém nesses tempos de tecnologia que ainda escreve carta… E se sim, não posso deixar de imaginar também o outro alguém ao recebê-la naquele quase ritualístico processo da surpresa, ao constatar a presença do envelope na caixinha do correio, abri-lo após ter escolhido a melhor hora para fazê-lo e lançar-se à leitura com os olhos marejados de saudades…

Pois foi em uma conversa com um casal de amigos escritores que essa magia das cartas ressurgiu. Por isso, republico o texto com algum ajeito aqui e ali para quem ainda não teve a oportunidade de ler. Para aqueles que já leram, espero encontrarem nele algum ponto distraído escapado aos olhos. E no final eu farei um convite bem possível de ser o que muitos estavam por esperar.

Mas…

É, não posso deixar de dizer: sim, eu sei… Cartas são coisas antigas, ainda mais nos dias de hoje onde tudo são messengerwatts e face; # pronto, falei. Até o e-mail já se sente meio vovô! Mas para quem acha que as cartas já não têm dias contados, por não terem nem mais dias para serem escritas, engana-se! Vejamos… As cartas, essa missiva dos tempos dos dinossauros, têm um lugar de honra na inquestionável beleza de ser… As cartas, diferentes das mídias ceifadoras de palavras e até de expressões inteiras, falam com o coração; elas deslizam em nossas memórias e alcançam o patamar da delicadeza e da elegância.

Costumo comparar as cartas a fusquinhas, e todos sabem: criança não mente. O que isso tem a ver? Tudo! Faça a experiência e veja como uma criança não “contaminada” pela mídia – coisa infelizmente rara – vai preferir o fusquinha à Ferrari… Por quê? Simples! Fusquinhas se parecem com joaninhas; e as Ferarris? Com Ferraris mesmo. Ah, mas isso é coisa de criança! Será mesmo? Uma vez colocaram um fusquinha 76 original, impecável, rodas pintadas, uma beleza, ao lado de uma Ferrari dentro de um shopping para ver a reação das pessoas. De cada dez pessoas, oito contemplavam o fusquinha por muito mais tempo. Ou seja, o fusquinha, o chamado popopósaboneteiravai-que-eu-fico, e tantos outros nomes e apelidos, é como a nossa carta: antiga, mas de uma beleza incomparável, de uma elegância inquestionável e expressa, além de palavras, a sabedoria de quem dignifica a escrevê-la, pois ali se cravam histórias.

Escrever cartas hoje é sinônimo de coragem, de pessoas sem medo de expressar, além de sentimentos, sua capacidade para tal. Reparem nas pessoas que escrevem cartas – tudo bem, eu sei! É difícil encontrá-las, mas elas existem, sim, e só o fato de serem difíceis demonstram especialidades raras. Verá, quando as encontrar, que são pessoas polidas, que jogam o jogo das singularidades e não dos plurais, que fomentam encantamentos e nos deixam perplexos pelo diferencial de um gesto, de uma fala ou da própria escrita elaborada, bem cuidada, articulada até o último fio da gramática, digo, das palavras. Escrever cartas vai além de uma questão de escolha; é uma questão de estilo. Em um mundo onde as pessoas parecem ser feitas em série, ser diferente é um perigo. Mas, às vezes, esse risco, ou a falta dele, é onde a vida ficou sem graça, sem cor, sem movimento, apesar de tantos atrativos. Sabe de uma coisa? As pessoas são como as cartas: algumas têm conteúdos e, por isso, continuam existindo fazendo a diferença no meio de milhões, enquanto outras… Bem, as outras, por sofrerem tantas mutilações ao longo da vida, é o que todo mundo vê… Mas não podemos deixar de pensar na vida como um ciclo. Uma vez se está por cima, outra vez se está por baixo. O que hoje é considerado antiquado, ultrapassado, amanhã será um ouro, não o de tolo, esse já sabemos onde se encontra.

            Como dizia uma ex-aluna minha, “de acordo com os fatos supracitados”, é interessante pensar nos ditados populares, porque muito nos ensinam pela sutileza de suas ideias. Por isso, termino estas palavras com um desses ditados que vem bem a calhar e tão usado em cartas antigamente: “Em terra de cego quem tem olho é rei!”. Pense nisso…

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E aqui, eu, minha amiga escritora Valéria Gurgel e meu amigo escritor Paulo Cezar ventura deixamos o convite mencionado lá em cima feito em seis mãos!

Você ainda é do tipo de pessoa que escreve cartas? Gostaria de voltar a escrevê-las e também de recebê-las? Pois estamos a criar o movimento #aindaescrovocartas.

Não há palavras para mencionar a emoção ao escrevê-las, enviá-las e recebê-las. Experimente! Escreva uma carta e envie para um amigo, uma amiga e verá como é deliciosa a nostalgia, como a alegria irá invadir o seu coração.

O mundo anda muito necessitado de tempo e de carinhos. Muitos não possuem mais o dom da paciência e escrever cartas é uma terapia, além de um abraço em forma de palavras. Mais do que isso, é um exercício de espera.

Vejamos… Precisamos encontrar um tempo preciso para pensar no tema que iremos escrever, corrigir e até passar a limpo, se necessário, com a melhor caligrafia possível. Enquanto escrevemos vamos idealizando do outro lado a sensação da pessoa ouvindo a nossa própria voz lendo a carta para ela. É um momento muito especial. Depois, endereçar e levar a uma agência dos Correios, para seguir naquela gostosa expectativa da resposta! E…

“Quando o carteiro chegou e meu nome gritou com uma carta na mão”…

Portanto, convidamos você a aderir ao movimento #aindaescrevocartas.

Como?

Curta e siga o grupo Ainda escrevo cartas no facebook e esteja em meio a pessoas que valorizam essa prática. Este grupo é formado pela parceria entre a Árvore das Letras editora-escola ateliê e a Rolimã Editora.

O objetivo geral é escrever cartas, óbvio, e refundar o delicioso hábito de enviar e receber uma carta na caixa dos correios, e não apenas contas a pagar ou publicidade de distribuidora de gás, de pizzaria e de hamburgueria, ou, em tempos de eleições, os famigerados “santinhos” dos candidatos.

Trata-se de uma ideia simples, mas poderosa, forte e realizável e com grande possibilidade de expandir ou mesmo retomar pelo mundo relações mais verdadeiras e humanas com enorme potencial de fazer alguém feliz…

Você pode escrever para seus amigos, pais, irmãos, filhos, pessoas conhecidas do próprio grupo. O importante é escrever.

Você pode fazer parte do grupo acessando este link: https://www.facebook.com/groups/1629135930765971

Este é um espaço onde compartilharemos nossas impressões ao escrever e receber cartas, fotos de cartas enviadas e recebidas (trechos, é claro, ocultando nomes e endereços das pessoas), e principalmente ser um lugar incentivador dessa prática.

E então, vamos lá? Só falta começar.

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* Obrigado pela sua leitura. Se você gostou, peço a gentileza de curtir, deixar um comentário e até compartilhar com um amigo, uma amiga. Quem sabe este texto não despertará em alguém a vontade de escrever cartas e um novo sentido de alegria? E se for você esse alguém, sinta-se em casa!

Forte abraço!

PELO CANTO DISTINGUEM-SE PÁSSAROS LIBERTOS: A LITERATURA DA CORAGEM

Por Leandro Bertoldo Silva

Em 2019 eu já havia criado as prensas de madeira, as quais eu chamo de “Paula Brito” e já confeccionava os meus livros e até de outros escritores e escritoras. Foi o ano em que comecei a idealizar a bicicleta de livros que veio a ser a Rocinante, uma vez que hoje sou conhecido como Quixote das Gerais. Uma bicicleta que sustentasse uma bancada de trabalho e uma mala repleta de livros escritos e feitos por mim de maneira artesanal e ecológica, além de enfeites pendurados que remetessem à literatura e a todo o seu universo mágico de criação.

Portanto, já naquele ano eu vislumbrava uma bicicleta que seria, ao mesmo tempo, uma oficina de livros e uma loja itinerante; oficina para mostrar ao vivo às pessoas o processo da costura de um livro e suas etapas a partir da prensa feita com madeira reaproveitada, e loja como local de vender o meu trabalho da forma mais poética possível ao estar frente a frente com os leitores. Foi e é assim a minha escolha em ser um escritor independente por opção e convicção, como costumo dizer, sem me arrepender das recusas pelas editoras. Entenda melhor essa história clicando AQUI.

Porém veio a pandemia e com ela, além do medo, o isolamento social. O que eu pensava em ir para as ruas, praças, escolas, livrarias, precisou cair em “modo de espera” sem que tivéssemos a menor noção de quanto tempo iria durar. Como consequência, fomos todos ainda mais para o mundo virtual. Os encontros passaram a ser por lives. A internet lotava de pessoas enquanto as praças esvaziavam.

Não reclamo. Adaptei-me como todo mundo. Fiz lançamento on-line do meu último livro até então, criei programa de entrevistas pelo Youtube sempre a valorizar a literatura independente e seus autores e autoras e, principalmente, fiz muitos amigos, muitos mesmo.

A Rocinante passou a ser cenário das minhas lives, chegou a ser mostrada e comentada em programas de televisão e rádio, mas alguma coisa faltava em meu coração. Era como um pássaro, com toda sua exuberância e beleza de cantos e cores, triste por ser ver fechado e preso em um mundo frio e metálico.

O mundo virtual veio para ficar. Dele extraímos várias possibilidades, facilidades e até a chance de reunir centenas de pessoas em um mesmo evento de maneira muito fácil, mas… Não tem o brilho do olhar, a emoção do momento, o contato ainda necessitado de cuidados, mas presente pela proximidade do outro. Assim foram necessários dois anos para aquela idealização inicial, além de todos os outros de preparação e muito trabalho, se transformarem em realidade.

Desculpem-me os entusiastas virtuais, mas a presença física das pessoas, o encontro de almas, o calor da fala, do estar ao vivo em inteirezas não há tecnologia que supere. Dois anos… Um tempo de espera pragmática para que hoje, com todos os cuidados, repito, eu possa mostrar, ao vivo e a cores, a coragem de fazer literatura independente no Brasil.

Deixo aqui o meu agradecimento ao Instituto Cultural In-Cena e ao espaço Papo Café, em Teófilo Otoni, que abriram a porta do “Sábados Literários”. Agradeço por estarmos irmanados na missão de arte e poder existir além das telas. O pássaro está liberto e a Rocinante está nas ruas. Que venham cidades, escolas, feiras.

Que assim seja.

DIÁRIO DE VIAGEM QUE BEM PODERIA SER: PARE O ÔNIBUS QUE EU QUERO DESCER

Por Leandro Bertoldo Silva

Existem muitas histórias em nossas vidas e até dariam um filme. Como não sou cineasta e sim escritor, deixo registrada aqui uma viagem a começar com meus itens básicos em minha bolsa tiracolo…

Livro, diário, caneta, caderno de anotações, carteira, dinheiro, passagens. Chiclete, celular, lenços de papel e óleo essencial. Máscara, vidro de álcool.

— Nossa, parece até bolsa de mulher! — disse com um sorriso minha esposa na rodoviária, ao aguardar comigo a chegada do ônibus que teimava atraso. Junto dela, meu sogro, minha sogra e minha filha também esperavam pacientemente – meu sogro nem tanto assim – o momento de despedirmos, pois chegava a hora de iniciar uma longa jornada de viagem de Minas a São Paulo até a casa dos meus pais.

Sim, a distância é longa, no entanto mais longo é o incompreensível atraso típico dos brasileiros presente em todas as ocasiões, e isso se deu logo no início antes mesmo de começar. O ônibus estava marcado para sair às 21h30 de Padre Paraíso com destino a Belo Horizonte e lá estava eu às 21 horas pronto para o embarque. O ônibus, porém, proveniente de Araçuaí, ainda estava a caminho. E a caminho ficou por 15… 25… 30… 45 minutos, 1 hora sem nada acontecer a não ser uma chuvinha miúda e fina para aumentar o frio.

Quando finalmente o ônibus apontou na pista, as despedidas se sucederam, para total alívio do meu sogro, o qual rapidamente se transformou em agonia ao escutar o agente de viagem falar ao me aproximar com as bagagens:

— Sua passagem é de 21h30?

— Sim…

— Então aguarde, por favor, porque este é o ônibus das 20 horas.

Fiquei perplexo por 45 segundos, mas logo consegui convencer minha esposa e todos a fazer valer aquelas despedidas e, assim, lá fiquei eu sozinho no frio e na chuva por mais algum tempo até a chegada do ônibus das 21h30.

Tempo, tempo, tempo, tempo… Já cantava Maria Bethânia! E eu precisei fazer um pedido ao senhor sentado no meu lugar quando, após uma longa espera, enfim poder entrar no ônibus às 22h40.

— É… O senhor está sentado no meu lugar.

— Jura?! Eu jurava ter lido o número do assento certo. Espere um pouquinho, vou conferir…

— Olha, não precisa; eu não me importo! Eu sento aqui do lado mesmo. É só o senhor arredar um pouquinho, e…

— De jeito nenhum! O certo é o certo. Se o senhor está dizendo que eu estou sentado no seu lugar, precisamos conferir.

— Meu senhor, não precisa. Eu só disse porque…

— Ahá! Viu só? Se disse é porque o senhor quer viajar no seu lugar, certo?

— Todo lugar é lugar, meu senhor… Eu só quero é começar logo a viagem.

— Mas ela já começou…

— Para o senhor sim, mas para mim… Bem, pode ficar em seu lugar. Eu me sento aqui ao lado mesmo.

— Mas o senhor não disse: “o senhor está sentado no meu lugar”?  Então o lugar é seu!

— Disse, mas pode ficar com ele.

— De jeito nenhum!

Nisso o ônibus pelo menos já tinha partido e eu lá em pé sem conseguir convencer o homem a não se incomodar. Depois de aproximadamente cinco minutos ou um pouco mais e de revirar todos os cantos das bolsas em seu colo, ele finalmente encontrou a passagem no bolsinho da camisa.

— Olha, que cabeça a minha… Eu jurava ter colocado a passagem em alguma das bolsas. Ih, olha só… — disse ajeitando os óculos — Eu também jurava ter lido certo o número da poltrona. A minha é essa outra. Mas uma vez aqui, se importa se eu ficar nessa mesma e o senhor ir aí ao lado?

Ou aquele homem não batia bem ou estava gozando da minha cara! Apenas me sentei e disse a ele:

— O senhor jura demais!

— Sou muito religioso, sim senhor.

A partir daí, acomodei no lugar, coloquei o cinto de segurança, esborrifei álcool para todo lado, fechei os olhos, indiferente ao som longe de um ronco, e…

— Moço, desculpe, mas o senhor poderia trocar de lugar comigo?

Já ia perder as estribeiras quando vi se tratar de outra pessoa a me chamar. Dessa vez era uma moça bem nova ainda, quase menina, e me olhava com olhos um pouco assustados. Nem foi preciso esforço para adivinhar: ela, moça, ao viajar sozinha pela primeira vez, estava insegura, para não dizer medo mesmo, de ficar lá atrás do ônibus na companhia de pessoas desconhecidas. Tudo bem na frente também serem pessoas desconhecidas, mas…

— Minha mãe disse para eu tentar trocar de lugar com alguém caso eu…

— Sim, sim, tudo bem, eu compreendo. Onde você estava sentada?

Ela estava sentada muito atrás, bem ao lado do dono do ronco cujo som já não era mais longe, mas perto, insuportavelmente perto, sem contar o cheiro igualmente insuportável do banheiro. Desconfio daquela moça… Ela até podia ser uma menina ainda, mas suspeitei ter caído no maior conto do vigário. Não por acaso os olhos assustados e pedintes dela me lembraram de um certo gato do filme Shrek, mas quem poderia ter certeza? E se a suposta simulação existisse apenas na minha cabeça? Assim, passei a viagem toda sem pregar o olho e sem o roncador acordar sequer nas paradas. Ao chegar a Belo Horizonte debaixo de chuva, ainda bem para esfriar a minha cabeça, ouvi do incômodo companheiro:

— Nossa! Já chegou? Como passou rápido…

E era apenas a metade do caminho…

Tempo, tempo, tempo, tempo… Assim esperei pelas ruas e rodoviária de BH de 8h. até às 21h45 quando, por fim, chegou a hora de embarcar para a cidade de Marília, em São Paulo. Bem, “chegou a hora” é modo de dizer. Na verdade, a passagem havia sido marcada para esse horário e, antes mesmo de chegar a Belo Horizonte recebi uma mensagem da empresa de ônibus a perguntar se eu me importava em trocar o meu horário para 20h., mas sem explicar bem o motivo. Respondi positivamente, pois esperaria menos tempo para iniciar a viagem para Marília. Ao desembarcar na rodoviária em BH, dirigi-me ao guichê da companhia para certificar aquela mensagem e pedido. Dois funcionários lá estavam, mas não sabiam do ocorrido. Porém, ao verificarem no sistema de passagens viram que os horários já estavam trocados conforme minha autorização. Tudo resolvido, e apesar daquela desconfiançazinha típica do mineiro, esperei até a hora do embarque com a pulga atrás da orelha. Às 19h45 o sistema de som da rodoviária anunciou: “senhores passageiros, faltam 15 minutos para a próxima partida. Ocupem seus lugares”. Lá fui eu para a plataforma de embarque ocupar meu assento — dessa vez esperava ser o correto —, quando, ao querer ligar para minha esposa e dizer que tudo estava bem, percebi o celular sem bateria. Certo, 15 minutos é o suficiente para conectar o celular na carga, falar com ela e entrar no ônibus. Subi novamente com toda a bagagem as escadas até ao saguão onde ficam as tomadas de recarga, conectei rápido o celular que teimava em demorar a ligar. Nisso aquele friozinho na barriga já começava, pois o ônibus esperava ligado lá embaixo. Já estava ali mesmo, então insisti na ligação, pois minha esposa ficaria muito preocupada se eu não desse notícias. Finalmente consegui falar com ela, puxei rapidamente o telefone da tomada e fui desembestado tropicando pelas escadas em direção ao ônibus batendo as bolsas em todo mundo. O motorista e o agente, após conferirem a passagem e acomodarem as malas no bagageiro, me autorizaram a entrar e eu, coração acelerado, sentei-me aliviado até perceber algo o qual me fez rir de nervoso: em todas as poltronas, inclusive a minha, havia entradas USB para recarregar celular… Seria cômico se não fosse trágico! E não digo isso pelo fato acabado de ocorrer, mas de um problema de última hora, o qual fez com que o ônibus antes marcado para às 21h45 e passado para 20h., saísse somente às 22h30.

A viagem transcorreu normalmente sem percalços nem nada, tirando apenas duas chateações… Os vinte e oito reais pagos em uma xícara de café com pão em uma parada, onde só então entendi o porquê de nos entregar na entrada uma plaquinha com um código de barras e só anunciar o valor do pedido no caixa na hora de pagar e, consequentemente, depois de ter comido, e a distância que era longa, longa demais! Parecia até aqueles probleminhas de matemática do tempo de escola… “Leandro saiu de Padre Paraíso, em Minas Gerais, às 21h45 de quinta-feira para chegar a Marília/SP, sábado, às 11h30, com parada prevista de 14 horas e 30 minutos em Belo Horizonte até a próxima partida. Considerando que o ônibus espacial da NASA até à lua, passando por Júpiter e fazendo uma escala pelos anéis de Saturno é 10 vezes mais perto, quanto tempo levaria para ele gritar SOCORRO??”

Brincadeira à parte, a viagem se mostrava mesmo muito longa, e o motorista a cada rodoviária na qual entrávamos – e entramos em todas, cidade por cidade – gritava duas vezes como se fosse para certificar a distância: “Rodoviária de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto; Rodoviária de Baurú, Baurú…”. E de repetição em repetição, de cidade em cidade, cheguei ao meu destino muitas horas à frente do previsto e com muita história para contar.

A volta? Bem, até contaria se não fosse o frio do ar condicionado do ônibus e eu sem blusa por tê-la esquecido na casa dos meus pais. Além disso, a minha companheira de assento, devido ao seu porte físico um tanto avantajado, ocupava o dela e a metade do meu. E eu ali, espremido entre o anelo e o suspiro, ou melhor, entre a minha sobra e o braço da cadeira. Assim, não pensava em mais nada. Eu só lembrava a minha irmã ao dizer:

— Tudo pronto para iniciar a viagem planetária? Saindo hoje para chegar só sábado, se fosse de avião chegaria ao Japão.

Seria uma boa pedida se na minha cidade existisse aeroporto… Como não tem, fui a novas aventuras, intercalando em minha cabeça novos probleminhas matemáticos que no meu tempo ainda mantinham todos os atrativos de uma boa história como aquelas que eu vivia.

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** Mais uma vez grato pela sua leitura. E se esse texto te fez lembrar alguma viagem que tenha vivido, diz aí nos comentários. A propósito, lembro que no meu tempo de escola a professora sempre pedia para escrevermos uma “composição” com o tema: “Minhas férias”… Se lembra disso?

Forte abraço!

FILOSOFANDO ACERCA DO SILÊNCIO

Contemple uma flor…
Viu? Deus está nos silêncios…
Por que o grito?
(Haicai – Leandro Bertoldo Silva)

Por Valéria Gurgel

“Comunicar não é produzir ruídos.”

Parafraseando essa máxima citada é que começo a refletir sobre o silêncio. Qual a sua verdadeira importância? E o que esse “tal do silêncio” tem a nos dizer?

Dialogando com meu digníssimo amigo das letras, Leandro Bertoldo Silva, acerca do silêncio, ele também se referia a outra máxima, essa de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa que diz: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito, é preciso também que haja silêncio dentro da alma”.

Todos nós, salvo alguns que possuem alguma deficiência da voz, ou da audição, nascemos com esse privilégio de desenvolver a capacidade de falar e de ouvir. E para isso desenvolvemos também o raciocínio, que nos permite pensar, analisar e construir uma conversação, o que nos difere dos animais.

Confesso que já tive muita dificuldade em entender o silêncio em sua subjetividade. Já me senti completamente esgotada ao escutar a um monólogo o tempo todo e principalmente se não tem discernimento daquilo que diz, é uma experiência bastante fatigante. Mas, é nesse processo de aprender a escutar, que treinamos o valor do ouvir e consequentemente o do silêncio. Afinal ninguém pode ouvir o outro de verdade se não se abster da ansiedade de abrir a boca, interrompendo o suposto interlocutor.

E quantas vezes atropelamos as conversas porque mais que querer ouvir o que o outro tem a nos dizer, queremos falar e falar e falar. E geralmente é nesse momento, que quem fala demais se equivoca ou se complica, ou até mesmo passa vergonha em diversas situações envolvidas. E às vezes nem percebe!  Enquanto que o ouvir, muito nos ensina e só nos compromete quando decidimos abrir a boca, sem antes pensar.

São muitos os provérbios construídos sobre a temática do falar e do ouvir, e os ditos populares são também muito verdadeiros. “Boca fechada não entra mosquito,” “Palavra é prata e silêncio é ouro,” ou “Quem fala demais dá bom dia para cavalos,” e tantos outros mais… Sem contar que o nosso próprio corpo sinaliza tudo isso, uma vez que nascemos com dois ouvidos e apenas uma boca!

 Silêncio não é mera ausência de palavras, nem sinônimo dos introspectivos. Silêncio consciente e estruturado é virtude dos sábios.

Muitos de nós efetuamos conversas clonadas, porque pensar dá trabalho. E seguimos tagarelando. Na verdade, não desenvolvemos a capacidade de tampouco ouvir à nós mesmos quem dirá aos outros.

Nessa ânsia desenfreada de falar, sem prestar atenção ao conteúdo proferido, vamos jogando palavras ao vento e desaprendendo mais que nunca a nossa capacidade de discernimento e absorção através do ouvir.

Comecei a entender o valor do silêncio, quando comecei a gostar mais de ouvir que de falar. Observando calada e atentamente os encontros familiares, as rodas de amigos, os debates em escolas, as mesas de bares, as praças de alimentação, os pontos de ônibus, filas de bancos, bancos das praças, e diversos estabelecimentos comerciais aonde se aglomeram pessoas. E percebi que o repertório falante é muito repetitivo e fútil.

Geralmente os temas giram em torno de si mesmo, numa extrema egolatria, ou da vida daquele que está ausente.

 Se todos de um grupo estiverem ali presentes, de que vão falar afinal? Quanta superficialidade e falta de vida interior existe entre as pessoas!

Assim, é perceptível que realmente o silêncio seja ouro diante a tantas palavras de bijuteria enferrujadas, ruídos sem nenhum valor, murmúrios falantes de meras frases baratas são cuspidas e até escarradas a todo momento.

Não me refiro aqui, a nenhum silêncio forçado, forjado, ou associado à frustração, desgosto, mal humor, ou o dito popular; do engolir palavras. Falo do silêncio de raiz, de lucidez que tudo diz, ainda que calado. Muitas vezes na paz de um sorriso, de um olhar, da sabedoria que transcende o sábio no diálogo profundo consigo mesmo dentro de seus olhos.

Aquele diálogo interno do autoconhecimento. Que pensa antes de abrir a boca porque tem plena consciência que se o que tiver que ser dito não for melhor que o silêncio, que não diga! É desse silêncio que me refiro. Silêncio dos ruídos externos e internos. Tal como um esvaziamento dos excessos da alma turbulenta, uma calmaria que começa na mente através também da prática da meditação. 

Uma palavra pode significar uma vida! Como já foi citado no Clássico Budista Dhammapada, que se refere ao Sidarta Gautama, “mais do que mil palavras sem sentido, vale uma única palavra que traga consolo a quem houve.“

De tantas milhões e milhões de palavras proferidas por nós a cada dia, se pudéssemos filtrar e recordar todas elas, será que no fim de um dia, de uma semana, de um mês, de um ano ao menos, filtraríamos “aquela palavra” que poderia justificar a nossa existência?

Se sim, já valeu a pena ter vivido!

Preocupante é não percebermos isso o mais cedo possível. Antes mesmo que nos comprometamos nas relações familiares, afetivas, no ambiente laboral, na sociedade em geral e na maioria das vezes por termos a infelicidade de falar algo que não tenha passado pelo crivo das três peneiras, como assim, já se referia o grande filósofo Sócrates. 

“O que será dito é bom? É justo? É verdadeiro? Se não for que prevaleça o silêncio”!

Os grandes seres humanos que por aqui passaram, tinham bem expandidos essa percepção do silêncio, e o quanto ela pode ser importante para dizer muito de nós mesmos. Quando se aprende a calar, e ouvir a si mesmo, ouvimos o outro. E aprendemos a ter cautela, dar tempo para o entendimento refletir e interpretar, para somente depois, questionar a razão.

Há os dois extremos nesse mundo dual.

Imagina um mundo sem sons? Ou uma melodia sendo executada sem pausas? Sem nenhum momento de silêncio para percebermos o contraste entre os sons? Chegaria um dado momento que estafaria os nossos ouvidos.

Por outro lado, seria possível toda a humanidade entender bem uns aos outros sem emitir ou ouvir nenhum tipo sequer de som? 

Assim como o vazio existe para que as coisas se acomodem, se ajeitem no espaço, o silêncio existe para que as palavras e os sons possam ser emitidos, cautelosamente, ordenadamente, e absorvidos, escutados, apreciados e compreendidos.

Chegará um tempo, em que a humanidade aprenderá enfim a congraçar seus preciosos sentidos, como dizia Hermes Trismegisto, em O Caibalion, e  “Os lábios da sabedoria só se abrirão para os ouvidos do entendimento”.

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** Grato pela sua leitura. Compartilhe este texto com seus amigos e aproveite para refletir… Qual é o seu maior silêncio?

Forte abraço!