SEJAMOS ROSAS HUMANAS – ENCONTROS POÉTICOS

A PINTURA FEITA POR IURY PLENUS REPRESENTA A CHEGADA DA CULTURA NO VALE DO JEQUITINHONHA. ASSIM, A ÁRVORE DAS LETRAS FOI LEVANDO A ARTE DA POESIA ATRAVÉS DA OFICINA DE (RE)CONSTRUÇÃO POÉTICA, MINISTRADA NA CASINHA DE CULTURA PARA JOVENS DA ASCAI – ASSOCIAÇÃO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, NA CIDADE DE ITAOBIM, MINAS GERAIS. O RESULTADO DAS POESIAS ESCRITAS PELOS JOVENS, CUJO TEMA PARTIU DAS ROSAS, SERÁ A PUBLICAÇÃO DE UM LIVRO FEITO E EDITADO PELA ALFORRIA LITERÁRIA. LEIA ABAIXO COMO FOI ESSE ENCONTRO ARTÍSTICO, POÉTICO E ESPECIAL.

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Por Leandro Bertoldo Silva

Logo na chegada fomos recebidos, eu, Geane, minha esposa e Yasmin, minha filha, por Carlos Carmona e Geovana Pinheiro, que ficaram responsáveis por prepararem o local da oficina. Embora a sala destinada com ar condicionado para amenizar o forte calor do Vale do Jequitinhonha estava nos esperando com direito a balas de boas-vindas, agradecemos, organizamos os materiais, mas deixamos claro que utilizaríamos outros espaços da casinha, pois, afinal, um lugar daqueles precisava ser bem explorado já que era de poesia que iríamos falar, e poesia respira em cada metro quadrado daquele lugar… As pinturas na parede, o parquinho, os balanços na árvore, a amarelinha desenhada na rampa que dá acesso ao espaço do palco e do lanche, tudo já era e é poesia como um mundo que se abre ao transpor o portal da imaginação e dos versos que estavam por vir.

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Com tudo pronto – cadeiras em círculo e o centro cuidadosamente preparado com uma rosa na garrafa escrita com um haicai em cima de um tapete de flor feito de fuxico, os jovens foram chegando um a um, em duplas, em trios, naquele clima gostoso das incertezas, onde o nervosismo e a vergonha típica das idades se disfarçam e ganham nas risadas altas o seu refúgio. As incertezas ganharam alento e logo foram substituídas por encanto e brincadeiras na dança de roda que abriu o dia e os trabalhos.

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Como tudo é mágico no mundo da poesia e os deuses da arte parecem estar presentes, foi logo após a dança de roda, quando os jovens começaram a se apresentar, cada qual trazendo sua história de vida, li em seus rostos e gestos a curiosidade ilimitada, a imaginação generosa, o desejo de compreender, mas com espírito crítico e aguçado, cheios de dúvidas, contudo com a coragem de expor experiências decisivas que costumam marcar para o resto da vida. E dessa leitura tive a experiência gratificante de vivenciar a concepção do livro que virá a nascer. O seu nome, como um sopro suave e calmo, me veio à mente ao saborear aquelas confluências de vidas tão ricas que se desdobravam aos nossos olhos. E como tudo fluía ao ritmo deles, estava batizado o filho que ganhava gestação e que saberão ao final da leitura.

A partir daí tudo ganhava dimensão e formas ao mostrar a eles que não existe apenas um caminho para chegar a algum lugar, principalmente à poesia, e muitos jovens que diziam não ter com a leitura e com a escrita uma relação mais íntima, foram descobrindo ao terem contato com elas por meio da brincadeira, do lúdico, da liberdade – bem diferente dos padrões preestabelecidos com regras quase sempre inúteis e desnecessárias para um primeiro contato – que sempre gostaram de ler e escrever e não sabiam.

Tudo que é feito com harmonia segue o caminho das flores e, assim, após um momento necessário de exercício e meditação para que cada um voltasse a atenção para si mesmo, mesmo estando com os outros, todos eles tiveram um primeiro contato com as poesias deixando com que elas escolhessem cada um deles, e não o contrário, fortalecendo a ideia de que na arte tudo pode ser diferente, desde que seja com arte-delicadeza e arte-ternura.

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Tendo sido escolhidos pelas poesias, alguns retribuíram o carinho da escolha pela leitura compartilhada, e entre aplausos e tributos aos poetas, partimos para a escrita dos próprios poemas. Mas, como os sonhos que escondem surpresas, era necessário um tema já previsto por todos nas rosas do centro do círculo, no cheiro perfumado que exalava na sala e no pequeno haicai escrito na garrafa…

No meio de cem

Cada rosa exala

O seu perfume.

Como toda palavra faz parte de textos diferentes, e qualquer palavra pode fazer parte de um poema, três textos de diferentes gêneros foram apresentados a eles dentro de balões para associarem que fazer poesia é brincar com as palavras, exatamente quando Mário Quintana nos diz que “eles passarão, eu passarinho…”

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Com os textos em mãos e de volta à sala em grupos de quatro e cinco, brincamos novamente com as palavras agora escritas no papel e com as cores, e dessa brincadeira surgiram pequenos embriões poéticos em que, cada qual, a sua maneira, deu forma e sentido nascendo, assim, a poesia de cada um, linda, perfeita por si só, magnífica como a rosa que simboliza a taça de vida, a alma, o coração, o amor.

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Estava terminado o primeiro dia… Mas, como diz Drummond, “Vamos a outra parte, com engenho e arte…”

O segundo dia, direcionado pela artista Geane Matos, iniciou como o primeiro: brincando, pois o brincar é o combustível dos sorrisos, da alegria e do retorno a casa, onde encontramos o melhor de nós, sem medos, sem preconceitos e nos abrimos para as possibilidades.

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Após a alegria de voltar a ser criança, dos sorrisos e da descontração, era o momento de cada um compartilhar a sua poesia agora sim acabada, lapidada. A cada leitura todos se surpreendiam com a sua própria capacidade e com a capacidade do outro de fazer poesia. Em cada aplauso acendia no rosto do agora poeta e poetisa o orgulho e a felicidade de ter conseguido o que antes não imaginava ser possível. Mas era real. As poesias eram lidas e declamadas e o respeito que cada um acolhia o outro também era poesia de novo aos nossos olhos. Mas ainda foi dada a eles uma última tarefa… Transpor para outra forma de arte a sua poesia e o seu sentimento. Com delicadeza e generosidade, Geane os conduziu à transposição poética dando a cada um dele um pedaço de argila para que moldassem nela, a partir do que haviam escrito, a sua conexão com a natureza.

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Os trabalhos foram expostos e, da mesma forma, víamos em cada um a alegria da conquista. Estava completo. O que houve em seguida foi ouvirmos o que cada um tinha a dizer de sua experiência e as confluências se fortaleceram nas novas amizades criadas em um laço de respeito e admiração uns pelos outros.

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O resultado físico de toda essa magia poética estará no livro “COM-FLUÊNCIA: PÉTALAS POÉTICAS” a ser lançado no início de 2019, onde cada autor e autora terão a oportunidade de autografar a sua obra, abrindo um ano magnífico no coração de todos.

Assim, fechando os trabalhos de 2018 com muita gratidão e alegria, agradecemos a todos os envolvidos no projeto, principalmente a Leandro Gomes por fazer a ponte entre nós e esta instituição mais que especial! A Andrette Ferraz, gestor da Casinha de Cultura e da ASCAI em Itaobim e a Carlos Carmona pela acolhida. Foi um belo encerramento, embora seja também o início de uma nova etapa.

 

 

VIVENCIANDO A LINGUAGEM, LEITURA E ESCRITA

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Por Leandro Bertoldo Silva

Mais um ano concluído!

No final de novembro, finalizamos com muito proveito o nosso curso Vivenciando a Linguagem, Leitura e Escrita e ficamos muito felizes com a presença de todos os alunos, dos pais, inclusive, que é o nosso maior elo na construção da aprendizagem.

Ficamos muito satisfeitos por verificarmos o quanto os resultados foram perceptíveis pelos pais e quanto os alunos se desenvovleram dentro do que foi proposto para cada turma.

Para que todos saibam o que de fato é este curso e o porquê já estamos entrando no sexto ano consecutivo deste trabalho com um índice de satisfação imensa por todos que passaram, que passam e estão passando por ele, resolvi falar um pouquinho aqui sobre tudo isso. Tenho certeza que entenderão o motivo de tanto prazer…

O QUE É ESCREVER?

Escrever é uma habilidade necessária para todas as pessoas e, particularmente, para quem estuda. Para escrever com clareza é necessária uma anterior organização lógica do pensamento, podendo-se concluir que sem o pensamento logicamente ordenado não pode haver redação clara, inteligível. Isso significa que ensinar a escrever equivale a ensinar a pensar, tarefa obviamente impossível; no entanto, sugerir técnicas ou práticas que favoreçam o desenvolvimento do processo de redação é tarefa possível.

A redação de um bom texto exige grande domínio do pensamento sobre as palavras. É preciso “capturá-las”, escolhê-las adequadamente, dominá-las para ordená-las em frases e parágrafos, como quem monta uma espécie de quebra-cabeça.

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É com este objetivo que o curso Vivenciando a Linguagem, Leitura e Escrita propõe-se a estudar e discutir as etapas a serem seguidas na elaboração de um texto, analisando suas partes constituintes, a construção dos parágrafos, as estruturas frasais, o uso do vocabulário adequado, bem como o caminho para a solução dos erros gramaticais e as impropriedades de vocabulário mais comuns encontradas nas redações.

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Porém, antes disso, faz-se necessário voltarmos nossos olhos para a leitura, que é a “matéria-prima” de nossas ideias, da riqueza de nossos pensamentos e fortalecimento de nossa visão de mundo. É ela que nos mune de “ferramentas” para um bom texto. Tão importante quanto escrever é saber ler e interpretar para que, através dessa prática, possamos alcançar qualidade em nossos argumentos e transpô-los para o papel.

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A ênfase do curso, portanto, privilegia a leitura, a interpretação e a redação de diversos tipos de textos. No entanto, para atingir esse objetivo, tomamos o caminho inverso do comumente usado, isto é, ao invés de partirmos das técnicas para alcançarmos o prazer da escrita, iniciamos exatamente utilizando o prazer das palavras para encontrarmos o caminho das técnicas, preparando o aluno para alcançar resultados satisfatórios e práticos na arte de escrever bem. Para isso, utilizamos vários exercícios práticos de escrita orientada para que o aluno perceba as artimanhas da escrita e seus diversos caminhos ou, como diz Ronald Claver, autor do livro A Arte de escrever com Arte, as artes e manhas do gato. Por isso é que antes das palavras ganharem o papel elas são literalmente desenhadas, além de servirem como fonte de dinâmica e de brincar.

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O curso conta ainda, além de um estudo específico de ortografia e frase, oração e período, com diversas dinâmicas de leitura individual e em grupos com o objetivo de estimular essa prática, auxiliar o desenvolvimento de habilidades de atenção e observação, incentivar a organização e a expressão de ideias, estimular o aumento e a fixação de vocabulário e incentivar a criatividade; tudo isso para alcançar o seu objetivo final, que é levar o aluno a produzir com mais propriedade redações de cunho narrativo, descritivo, dissertativo, informativo, publicitário, acadêmico e literário.

MAS O MAIS IMPORTANTE DE TUDO!

Todos que passam pela Árvore das Letras aprendem que escrevemos não para fazer uma prova no final de ano ou melhorar as notas na escola…

ESCREVEMOS POR QUE SOMOS SERES HUMANOS E, COMO TAIS, TEMOS A NECESSIDADE DE CONTAR E DEIXAR REGISTRADAS NOSSAS HISTÓRIAS!

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MUITO ALÉM DO TEXTO!

 

Levando-se em conta que o resultado de um texto está intimamente ligado com a qualidade emocional e vivencial de quem o escreve, leva-nos a certificar que o ser humano é feito de corpo e alma e, sendo assim, não podemos manter, nos tempos atuais, a ideia de mente separada do corpo e das emoções. Portanto, durante o curso, os alunos contam com o apoio da Terapeuta Floral e artista Geane Matos que, através dos florais, atua no equilíbrio mental e emocional dos alunos em encontros agendados.

Nossa experiência mostra que essa prática apresenta resultados significativos em nossos alunos, como é em várias partes do mundo. A terapia com flores é um tratamento natural que utiliza a essência retirada das flores, usado por via oral, para auxiliar em várias questões. Como não é medicamento, não possui contraindicações nem efeitos colaterais. A fórmula base utilizada é a fórmula do estudante que estimula a concentração no aprendizado, a memória e a força de vontade, além da organização e da perseverança nos estudos.

E VAMOS ALÉM…

No início de cada aula, que tem a duração de uma hora e meia, passamos pela prática da meditação como forma de buscar a concentração e o estado ideal para que os conteúdos, as dinâmicas, as leituras e as escritas a seresm realizadas sejam vivenciadas de maneira profunda e atenta, mantendo os alunos presentes e com a consciência calma. Só assim atingimos a concentração ideal para a aprendizagem.

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Este é o curso Vivenciando a Linguagem, Leitura e Escrita! Ficamos muito felizes com tudo isso… E vamos em frente!

Forte abraço!

Leandro Bertoldo Silva

TEMPO FUTURO

ALGUNS AMIGOS SABEM QUE DIMINUÍ CONSIDERAVELMENTE A MINHA PRESENÇA NAS REDES SOCIAIS. PARA UM ESCRITOR INDEPENDENTE ISSO SERIA PÉSSIMO, CERTO? BEM, NEM TANTO! TUDO É UMA QUESTÃO DE PENSAR FORA DA CAIXINHA… LEIA A SEGUIR O QUE ME MOTIVOU A ISSO E ALGUMAS IDEIAS DE PESSOAS RELEVANTES QUE VALE A PENA REFLETIR SOBRE ELAS. E APÓS A LEITURA, PENSE: COMO É A SUA RELAÇÃO COM AS REDES? ELAS TRABALHAM PARA VOCÊ OU É VOCÊ QUE TRABALHA PARA ELAS?

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Por Leandro Bertoldo Silva

Muitas vezes o que pensamos ser a liberdade, o viver sem fronteiras, o estarmos conectados ao mundo é, no fundo, no fundo, o contrário do que acreditamos. Estou vivendo um momento de muita reflexão, se não quanto aos rumos em que a sociedade está caminhando no clássico “e assim caminha a humanidade”, pelo menos no bite que me cabe neste latifúndio. Estou me referindo às redes sociais, essa bolha na qual estamos cada vez mais imersos e segmentados e à necessidade que elas têm em minha vida. Aliás, este é o pensamento que me vem: até onde elas têm necessidade em minha vida? Não sei na sua, mas na minha é o que se segue.

cal Newport

CAL NEWPORT (FOTO: REPRODUÇÃO)

Confesso que fiquei muito impactado com as ideias extraídas do livro Deep Work: Rules for Focused in a Distracted World, de Cal Newport, além de uma palestra do TEDx  do mesmo autor sobre as redes sociais, em que ele defende a total inutilidade dessas redes e o porquê todas as pessoas deveriam abandoná-las. Calma, sem radicalismo, mas a ideia é interessante. Impressionou-me ainda mais o fato de ser quem ele é, um Millenial, cientista da computação, escritor e que nunca teve uma sequer conta nas redes sociais.

Antes de citar alguns dos vários argumentos apontados por Newport, digo que cheguei até ele depois de um tempo considerável pensando sobre o assunto e assustado por me achar não pertencente ao mundo moderno. Mas como assim se aqui estou eu utilizando da internet para divulgar o meu trabalho?

Uma coisa é importante que se diga: internet e redes sociais são duas coisas completamente diferentes, embora muitas empresas bilionárias insistem em uni-las na tentativa de aprisionar a todos dentro da caixa ou mesmo de um grande buraco negro. “Quer ver um vídeo? Veja aqui! Quer saber sobre as notícias da sua cidade? Saiba aqui! Quer vender algo? Venda aqui!” Conhece algo assim? Qualquer semelhança não é mera coincidência… Opa! Onde está o mundo sem fronteiras?! E se são os famosos e incompreensíveis algoritmos que determinam o que e quem eu vejo, não há liberdade nessa história, e isso, além de bizarro, me fez entrar em crise.

Há algum tempo, sem mesmo conhecer as ideias de Newport, já havia tomado a decisão de fazer a experiência de desativar a minha conta no facebook por não estar mais me sentindo à vontade por lá. Por vários motivos que não cabem aqui agora, passei a achá-lo um lugar desagradável, inconveniente e a balança pesou muito para uma despedida e, sem me arrepender – pelo contrário, experimentei um enorme sentimento de alívio, liberdade e recuperação da minha autonomia e autoestima – os argumentos de Newport vieram ratificar a minha decisão. Para elucidar alguns, simulei uma conversa com Cal Newport a partir do que ele diz na palestra do TDx e que você pode verificar clicando AQUI. Vamos lá!

Cal, O que as redes sociais realmente representam?

Cal Newport: “As redes sociais são apenas produtos, desenvolvidos por empresas privadas, amplamente financiados, cuidadosamente comercializados e projetados principalmente para capturar e vender suas informações pessoais e sua atenção para anunciantes”.

Mas, Cal, as redes sociais estão entre as tecnologias fundamentais do século 21. Rejeitá-las seria um ato de extremo arcaísmo…

Cal Newport: “As redes sociais não são uma tecnologia fundamental. Elas influenciam algumas tecnologias fundamentais, mas são melhores compreendidas como uma fonte repugnante de entretenimento, como máquina caça-níqueis, que te oferecem agrados brilhantes em troca de minutos de sua atenção e bites dos seus dados pessoais, que podem depois serem empacotados e vendidos.”

Está certo, cal, mas não posso abandonar as redes sociais porque elas são vitais para o meu sucesso. Se eu não tiver uma marca bem cultivada nas redes sociais, as pessoas não vão saber quem eu sou, não vão conseguir me encontrar, oportunidades não virão ao meu encontro e vou efetivamente desaparecer! (Essa é forte!)

Cal Newport: “Isso é uma bobagem. Na competitiva economia do século 21, o que o mercado valoriza é a habilidade de produzir coisas raras, valiosas, e rejeita, na maior parte, atividades que são fáceis de serem replicadas e que produzem pouco valor. Qualquer criança de seis anos com um smartphone pode criar um post viral… O mercado valoriza coisas raras. Se você conseguir extrair soluções que mudarão uma estratégia de negócio e atividades de alta concentração, produzindo resultados raros e valiosos, você criará as próprias oportunidades e as pessoas irão te encontrar independente de quantos seguidores você tiver no Instagram.”

Fim da simulação com respostas verdadeiras.

Esses e outros argumentos você pode conferir clicando no link da palestra. Muitos outros livros e profissionais ligados à tecnologia, ou não, como o caso do professor André Azevedo da Fonseca, foram me mostrando que a quantidade de pessoas que começam a despertar a consciência para uma nova forma de viver sem as redes, ou pelo menos repensando sua postura dentro delas, se reinventando frente a esse mar (in)navegável é muito maior do que eu presumia e que eu não estou assim tão sozinho como imaginava. Ufa, ainda bem, pois, afinal de contas, não estou querendo dizer que não devemos buscar por oportunidades e mostrar o nosso trabalho; o que estou querendo dizer é que não dependemos exclusivamente das redes sociais para isso.

Porém, um pensamento também me faz presente: sempre busquei viver bem na sociedade sem que eu precisasse me render às coisas fúteis da vida, acreditando ser possível vencer o grande desafio de estar no mundo sem me deixar influenciar pelo supérfluo, pelo que não vale a pena e me concentrar em coisas e pessoas valiosas. Também, e especificamente sobre o trabalho, não precisamos vendê-lo o tempo todo, mas compartilhá-lo como fonte de inspiração para as outras pessoas. E, se assim é na vida real, por que não na virtual? Esse pensamento não me fez querer voltar ao facebook como antes. A minha página pessoal nessa rede que, como disse, cheguei a desativar por um tempo, diferente da imensa maioria que chega a possuir de mil e três mil “amigos” ou mais, tem cerca de 90 pessoas que eu realmente conheço e me relaciono de maneira mais pessoal do que virtual. Mantenho a página da Árvore das Letras para chamadas bem pontuais e, por enquanto e bem moderadamente, o Instagram, embora seja da mesma empresa. Porém, estabeleci uma regra pessoal de postagem que conta com três perguntas essenciais. Aí estão elas:

  • O que estou postando é relevante?
  • O que estou postando faz sentido para as pessoas ou só para mim?
  • O que estou postando é essencial e agrega valor ou é algo apenas para obter likes e, portanto, para satisfazer o meu ego?

Essas perguntas são mais pertinentes do que podem parecer. Está certo que o que eu posto nas redes – na sua imensa maioria sobre leitura – você pode até não gostar. Ninguém é obrigado a gostar de ler, de literatura e desse universo que tanto me encanta, mas uma coisa é indiscutível: fútil não é. Digo isso porque chega a ser inacreditável as coisas que vemos nas redes sociais, como fotos de xícaras de café em balcão de livraria, livros abertos (geralmente grossos; será que a pessoa leu?) com um gato em cima ou simplesmente a foto da própria pessoa no espelho – o maior e mais autêntico narcisismo – além da cegueira, pois, como diz Mia Couto: “cego é quem só abre os olhos quando a si mesmo se contempla”, sem contar os sem sentidos “quiz”: as dez coisas que eu comprei, os dez livros que eu li, as dez viagens que eu fiz, e por aí vai… E a pergunta se faz: “o que essas coisas mudam efetivamente para melhor a minha vida ou de quem quer que seja?”

Chega a ser assustador a quantidade desse descarte virtual e sem sentido impregnado na internet e, consequentemente, na vida das pessoas que ficam vulneráveis como se fossem grandes receptáculos de qualquer coisa.

Como sempre digo, não estou querendo influenciar ninguém, cada qual sabe onde a sua inteligência é melhor moldada e respeitada. Mas, por outro lado, também não é possível continuar apático a tanta barbaridade e não expressar o que sinto, até mesmo para alguns amigos entenderem minhas escolhas.

E para encerrar, quero ficar com mais um pensamento de Cal Newport que achei extraordinário:

“Se você está comprometido em criar impacto no mundo, desligue seu celular, feche as abas do seu computador, arregace suas mangas e vá trabalhar”.

Mas se tiver que usar o computador para divulgar o seu trabalho, ok, use as redes sociais, mas deixe a “cereja do bolo” para os blogs – pense neles – pois uma coisa é certa: você irá desenvolver muito a sua criatividade em algo que é realmente seu e, sendo assim, é você quem manda na caixinha…

Forte abraço!

Leandro Bertoldo Silva

MEMÓRIAS DE UM TEMPO

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Por Leandro Bertoldo Silva

A Alforria Literária deu mais um grande passo na sua proposta de se consolidar como uma alternativa sustentável e de qualidade na produção de livros ecológicos, mostrando que é possível abrir novo mercado editorial através de novas possibilidades mais justas, tanto para quem escreve como para quem consome.

Na noite do dia 23 de novembro de 2018 aconteceu em Padre Paraíso, Minas Gerais, mais um lançamento e noite de autógrafos do novo livro “Memórias de um Tempo”, resultante do projeto de leitura e escrita da Árvore das Letras, realizado na Escola Orlando Tavares no Vale do Jequitinhonha, transformando alunos em autores.

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Foi uma noite belíssima em que os novos autores receberam seus convidados e autografaram os seus livros que tiveram como tema suas próprias memórias e de suas famílias, mostrando que todos temos histórias para contar e compartilhar.

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Com isso, a Alforria Literária como selo da Árvore das Letras, já contabiliza em sua recente história 5 obras publicadas somente neste ano de 2018, sendo elas: “Janelas da Alma: uma tempestade íntima, um conflito, um retorno”, “Entrelinhas Contos mínimos” e “Relicário Pessoal-Raicais” – todas como resultado do meu trabalho como escritor, e as obras “Cartas ao Tempo”, dos alunos da primeira turma da Árvore das Letras, e o atual “Memórias de um Tempo”, dos alunos da Escola Orlando Tavares.

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Isso nos enche de alegria e esperança de vermos mais literatura em nossas vidas, fazendo com que a leitura ganhe aspecto de protagonista em nossas famílias e comunidades construindo um mundo mais culto e menos violento.

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Transcrevo abaixo o prefácio do novo livro “Memórias de um Tempo”, um vez que ele reflete uma visão de educação que eu, como escritor e professor, prezo como alicerce em meu trabalho e que levo como sonho realizado, porém com muito ainda a fazer.

Estamos prontos para novos voos! Que venha 2019!

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Para mim há uma grande diferença entre estudo vivo e estudo morto. Estudo vivo é aquele que pauta sua existência na produção de ideias e não apenas na repetição do que já existe, ainda mais o disfarçando sob o viés do conhecimento. Estudo vivo privilegia o compartilhamento, mesmo que o mundo muitas vezes nos leva a acreditar no contrário e nos faz criar escolas que são regimentos de competições, mas, pelo estudo vivo, aprendemos que há lugar para todos, pois ele cria e vive nas asas das possibilidades. Estudo vivo respira e se pergunta sempre “por que não?”, ao invés de conservar-se no abafamento das respostas prontas que nos faz ter vidas prontas, permanecidas em si mesmas, cinzas, sem perfume e cor. Sempre duvidei das escolas cinza… Não, não pintem suas salas de aula de cinza. Se for para tê-las, tenha-as coloridas.

Acho que sempre fui indisciplinado, uma espécie de inconformado social, a ponto de não aceitar verdades verdadeiras; elas podem ser falsas e perigosamente destruidoras de sonhos. Também sempre acreditei que uma escola não pode motivar os seus alunos utilizando apenas o velho recurso de provas e notas. Uma escola assim tem algo de muito, muito errado, e alguma coisa precisa ser feita. Este livro é a tentativa dessa coisa, como é a tentativa de tudo o que eu faço, pois livros mudam vidas.

Quando fiz aos alunos a proposta de escreverem um livro, li em seus rostos uma certa descrença. Mas já esperava por isso. Minha tarefa não era apenas concretizar o que eu sabia que eles poderiam, mas tocar-lhes o coração. E isso foi acontecendo gradativamente, até que todos perceberam que sim, era verdade, escreveríamos um livro e que eu não iria desistir.

Uau!! É mesmo verdade! Vamos escrever um livro! Sobre o quê? Aqui entra uma outra coisa que acredito: a família. Sem ela não existimos. É ela que nos nutre, que nos acontece. Precisava envolver não apenas os alunos, mas as suas famílias nas páginas do que seria escrito, confiando que desse encontro surgiriam lembranças, memórias, aproximações e curas, sim, curas, pois a busca de memórias escondidas pode sarar muitas distâncias…

E como diz Bartolomeu Campos Queirós, um escritor que soube muito bem entender como as lembranças moram em nós e delas surgem histórias, “a memória é um espaço interno onde a fantasia conversa com a realidade”, ou seja, “o que não foi esquecido merece ser relembrado”.

Pronto. Estava tudo exposto. Agora era trabalhar, fornecer aos alunos o que precisavam para escrever. Algumas técnicas, umas dinâmicas, um pouco de experiência, um tantinho de informação e muita, muita leitura e uma dose imensa de vontade. O resultado? Bem, está aqui em suas mãos ao alcance de seus olhos. É só virar as páginas e permitir-se ir nessa viagem, que não há feio nem errado; há histórias lindas, reais e imaginadas, também há as misturadas saídas de cada um a sua maneira e que, por isso, já bastam.

Quanto a mim, sigo o meu caminho com um profundo sentimento de gratidão. Obrigado aos alunos, à escola e às famílias por acreditarem que sonhos foram feitos para serem sonhados e muito mais para serem realizados.

Leandro Bertoldo Silva

Escritor, professor e membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni/MG.

RECORTES

Recortes

Por Leandro Bertoldo Silva, do livro Entrelinhas Contos mínimos

Desiludido, escreveu num pedaço de papel: “Meu amor não tem rosto nem nome…”. Aquilo o incomodou até que o tempo anestesiou sua dor. Por alguns anos, até que procurou a dona daquelas palavras que saíram de si. Já tinha uma pequena caixa de recortes, na qual moravam imagens de mulheres sem nudez ou sequer sensualidade. Vestidos em bustos, braços, pernas, todas elas comuns e sem rosto, faziam-se companheiras dos papéis já amarelados e esquecidos, quase que com suas letras desbotadas. A inércia daquele encontro e a insistência da sua impossibilidade fizeram com que desistisse de vez e aposentasse suas imaginações por anos, vivendo apenas em sua companhia. Já idoso, porém, ao limpar sua estante, deparou com aquelas lembranças e quis jogá-las fora. À porta de sua casa, abriu a tampa do coletor e, no derradeiro movimento, ouviu uma voz que lhe disse: “Meu nome é Judite. Preciso de uma informação…”. Ao fitar a senhora que sorria, seu rosto se desenhou em cada pedacinho de papel que segurava e, junto com o nome, preencheu o que faltava…

Ouça abaixo a história narrada

DESPEDIDA

_A vida é sempre a mesma para todos_rede de ilusões e desenganos. O quadro é único, a moldura é que é diferente_(Florbela Espanca)

Por Leandro Bertoldo Silva, do livro Entrelinhas Contos mínimos

Levantou cedo. Era seu último domingo naquela casa de roça em que viveu desde que nasceu. Planejara, com o irmão mais novo, fazer tudo como de costume para sua despedida. O irmão, com uma tristeza n’alma, nada dizia, só acompanhava. Subiram em árvores, comeram frutas do pé, deitaram na rede e escutaram os passarinhos, correram na chuva e caçaram borboletas quando o sol sorriu trazendo o arco-íris. Andaram a cavalo, comeram bolo de fubá e guardaram as migalhinhas para pescar…

A tarde já findava quando, na beira do lago, o irmão mais novo, quebrando o silêncio do dia, perguntou para o irmão mais velho por que ele estava indo embora. Ante a resposta de que era para ganhar muito dinheiro, ele ainda quis saber para quê. Após jogar a última isca na água, veio a derradeira resposta: “para um dia ter uma vida tranquila”. E não houve mais perguntas…

*A múcica abaixo é Clair de lune, de Claude Debussy. Ela foi minha fonte de inspiração para esse mini conto. Ouçam como é linda!

 

ESPERAS QUE CHEGAM

Esperas que chegam

Por Leandro Bertoldo Silva, do livro Entrelinhas Contos mínimos

“Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais” (Clarice Lispector)

Quanta espera… Entrou no quarto e se sentou à penteadeira da mãe. Batom, brincos, sombra, blush – um arsenal de feminilidade que ela agora percebia; afinal, a idade estava aí! “Será que o Guto vai notar na escola?”. Aquilo tudo brilhava a seus olhos, tão ao alcance de suas mãos… E agora ela podia. Sentia-se no direito de ser mulher tão linda como sua mãe. São assim as transformações do tempo… Invadem, sem pedir licença, os nossos anos, compactuando com os nossos aniversários. Mas faltava uma coisa, quer dizer, faltava mesmo… Pois agora já não falta mais! Os sapatos de saltos da mãe. Finalmente, nos seus pés! Ela se aprontou toda e se mirou no espelho… Linda, perfeita, adulta. A campainha toca. Chegou a hora…

            — Filha, a Aninha chegou.

            — Aninha?! Oba! Já não sabia mais o que inventar para te esperar! Trouxe a Barbie? A casinha já está pronta no meu quarto. Já estou indo…

Ouça abaixo a história narrada