O HOMEM QUE CONTAVA HISTÓRIAS

Por Leandro Bertoldo Silva

Talvez uma das características mais marcantes dos seres humanos é a capacidade de contar histórias. Temos necessidade delas. Não seria exagero dizer: são as histórias a nos manterem vivos, pois a falta delas representa a falta da existência.

Quando contamos histórias damos vazão a nossa voz interna, aquela parte de nós que necessita expressar-se, mesmo quando o mundo parece não escutar.

Contar histórias, seja falada ou escrita, é uma forma de não silenciar a alma, de dar continuidade à própria narrativa, mesmo diante das indiferenças.

Quantas vezes deixamos de falar o que sentimos ou mesmo escrever o que queremos apenas porque os outros “não escutam ou leem”?

É preciso saber que as histórias nos convidam a alcançarmos a autenticidade, não como forma de sermos reconhecidos, mas como forma de permanecermos inteiros.

Paradoxalmente, são nos momentos de solitude que alcançamos o sentido essencial de nossas vidas. Portanto, contar histórias passa a não ser mais para e sobre o outro, e sim para preservar a nossa própria humanidade.

Mesmo quando temos a sensação de não sermos ouvidos, seguir falando, escrevendo e criando é manter acesa a chama do (ser) humano.

Isso muda completamente o foco do fazer (para fora) para o ser (para dentro). Não é mais contar ou escrever para mudar o mundo, mas para não ser mudado por ele.

Tem uma história que ilustra perfeitamente esse pensamento. Como ela é curta, irei transcrevê-la aqui.

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Era uma vez um homem que, cansado de ver as pessoas de sua cidade sempre tensas, angustiadas e tristes, resolveu fazer algo por elas.

Como sabia de cor lindas histórias, sentou-se num banquinho no meio da praça e pôs-se a contar e a contar…

E assim o contador de histórias passava os seus dias…

A princípio, algumas pessoas paravam para ouvi-lo, curiosas. Mas só ficavam um pouquinho, pois tinham muita pressa, seu tempo era curto!

Mesmo assim, o homem não desistia: todos os dias, punha o seu banquinho na praça e contava as suas histórias repletas de fantasia.

O tempo passou…

Um dia o contador de histórias narrava, para uma plateia inexistente, uma maravilhosa fábula, quando um garotinho, puxando-o pela manga, interrompeu-o:

— Ei, tio! Será que você não percebeu que não tem ninguém ouvindo? Por que você insiste em contar essas histórias?

Então, o sábio homem respondeu:

— Olha, meu filho, antes eu contava histórias pensando em mudar o mundo; hoje, eu conto histórias para que o mundo não me mude…

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*Esta é uma história da tradição judaica que está no livro “O Homem que contava histórias”, de Rosane Pamplona e Sônia Magalhães.

Bem, acredito ter ficado clara a necessidade de continuarmos a contar histórias…

E você, qual história está contando na vida?

Um forte abraço e até a próxima.

O TEMPO QUE ESCOLHEMOS GUARDAR

Por Leandro Bertoldo Silva

Vocês já pararam para pensar na importância do tempo em nossas vidas?

Vocês conseguem valorizar cada momento para além da pressa cotidiana?

Muitas vezes o nosso dia a dia não nos permite perceber a grande obra da natureza, ou seja, nós mesmos dentro de um contexto de mudanças e transformações.

Por quantas coisas passamos, quantos momentos vividos… Se pensarmos que cada um deles nos forma como pessoa e é responsável pela nossa transformação, é salutar guardarmos na memória um pouquinho de cada dia.

Esse “guardar” oportuniza a conexão com nossas emoções e nossas memórias afetivas, fazendo com que organizamos sentimentos e experiências, abraçando não apenas o que é alegre, mas também o que traz saudade.

Quando revistamos nossas memórias afetivas sabemos o que é importante para nós. Porém, é preciso reconhecer o valor do passado sem se prender excessivamente a ele. O melhor é enxergá-lo com ternura para celebrar o presente e se preparar para o futuro.

Com tudo isso, deixo uma reflexão:

Quais memórias você guardaria e por quê?

Para inspirar sua reflexão, deixo também aqui abaixo a narração da história “Caixinha de guardar o tempo”, escrita pela Alessandra Roscoe e ilustrada por Alexandre Rampazo. Quem sabe, ao ouvir essa história, você também não sentirá o desejo de fazer como Sofia?

Forte abraço e até a próxima!

ONDE OS OLHOS ÀS VEZES NÃO PODEM ALCANÇAR

Por Leandro Bertoldo Silva

Você já deve ter ouvido a seguinte frase: “Um rio não passa duas vezes no mesmo lugar” ou “ninguém entra duas vezes no mesmo rio”.

Essa frase é atribuída ao filósofo grego Heráclito, que enfatiza a impermanência e a transformação inerente à natureza humana.

Nunca somos as mesmas pessoas de um instante anterior, estamos sempre em transformação. Assim é a vida.

Por isso, não devemos nos inquietar se algo não está acontecendo da forma que gostaríamos. Às vezes tudo que precisamos fazer é deixar as águas passarem até que tudo mude. É também como abrir as janelas da nossa existência e deixar que mudanças ocorram.

A natureza é sempre uma excelente fonte de observação. Considere, por exemplo, as borboletas… Elas são símbolos de transformação no clássico arquétipo da metamorfose. As borboletas sugerem que podemos emergir de um estado de isolamento (casulo) para estarmos no mundo (liberdade) de uma forma mais integrada, sem exigir rupturas radicais. De novo, lembremo-nos da água, ela simplesmente passa pelos obstáculos mansa e calmamente.

Transformar é mudar e para que mudanças ocorram dentro da gente é preciso sensibilidade, paciência e muita persistência.

Muitas vezes queremos que as mudanças sejam rápidas, de uma hora para outra, e nem sempre é assim que acontece. É preciso o tempo das esperas. As mudanças verdadeiras acontecem nas sutilezas, onde os olhos às vezes não podem alcançar, mas o coração se preenche de verdades.

Onde está a verdade do seu coração? O que você gostaria de transformar ou ter transformado em sua vida?

Para ajudar nessa reflexão, apresento a história de minha autoria “A menina que fazia borboletas” que fala de Silvinha, uma menina autista que, por essa razão, vivia sozinha e sem amigos, a não ser um menino que sempre a visitava. Embora ele tentasse se comunicar com ela, não obtinha sucesso, mas continuava ao lado dela na companhia do silêncio. Assim eram todos os dias, até que numa manhã uma borboleta entrou voando pela janela do quarto e algo incrível aconteceu…

Ouça essa história na linda narração de Pierre André.

Um forte abraço e até a próxima.

O POETA DA PÁTRIA EM RASCUNHO

Por Tomé Nasapulo Kapiãla

O militante é um poeta de capacete, escreve versos com as mãos sujas de realidade e os bolsos cheios de sonhos. Não rima por vaidade, rima por necessidade: cada estrofe é um “deveria ser” lançado contra o muro teimoso do “sempre foi assim”. Já o cidadão é o leitor desses poemas públicos, lê-os nas paredes descascadas, nas filas intermináveis, nos discursos mal pontuados. Uns leem em silêncio, outros sublinham com raiva, há quem dobre a página e finja que não viu, mas todos, sem exceção, vivem dentro do livro.

A militância nasce quando o poeta se cansa de escrever só para a gaveta e resolve declamar na praça. É nesse instante que o sonho vira barulho e a metáfora vira incômodo. Porque sonhar, neste País, é actividade suspeita: quem imagina demais acaba acusado de desrespeito à realidade, como se a realidade fosse uma senhora frágil que não suporta ser contrariada.

A cidadania, por sua vez, chega com manual de instruções: pode usufruir, mas não questione; pode reclamar, mas baixinho; pode sonhar, desde que não acorde os outros. E assim, o cidadão é convidado a ser leitor obediente, nunca coautor. Aplaudir o poema é permitido, corrigir o verso é quase crime.

Mas todo poeta sabe, e todo leitor atento desconfia, que um poema só se completa quando é lido com espírito crítico. Do mesmo modo, uma pátria só amadurece quando entende que crítica não é ofensa, é revisão ortográfica do futuro. O erro não está em quem aponta a falha, mas em quem insiste em chamar rascunho de obra final.

No fundo, militantes e cidadãos partilham a mesma página. Uns escrevem com urgência, outros leem com esperança. O problema começa quando o editor, essa entidade invisível chamada poder, decide censurar os versos e acusar o poeta de antipatriótico, esquecendo-se de que não há pátria sem poesia, nem progresso sem quem ouse imaginar diferente.

E assim seguimos: poetas a construir a realidade com sonhos, leitores a aprender que ler também é um acto político. Porque, mais cedo ou mais tarde, todo leitor consciente percebe que não basta virar a página, é preciso ajudar a escrever o próximo capítulo.

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Emílio Tomé Cinco Reis de pseudónimo literário Tomé Nasapulo Kapiãla, angolano, natural da província do Huambo, planalto central, licenciado em Geologia faculdade de ciências naturais, universidade pública, Agostinho Neto. É professor do ensino secundário do 2° ciclo do Liceu Público N° 4019 ex-IMNE de Cacuaco “24 de Junho”, lecciona a disciplina de Física e dirigente comunitário da comunidade dos Imbondeiros Cacuaco, província de Luanda.

COMO ENCONTRAR O AMOR?

Por Simone Kelly de Oliveira

Será que ele tem a mesma sensação de esperar alguém com muita saudade no aeroporto, depois de uma longa viagem? Alguém que vai sair do portão de desembarque, te abraçar, e aquele abraço faz o seu coração vibrar… 

É sobre encontrar a árvore do desejo e pedir o fruto do amor? 

Mas eu pergunto a você: o amor tem várias características? A vivência humana precisa de amor em todos os relacionamentos. E, sobre relacionamento, há um muito polêmico: o entre cônjuges. 

Ah, lembrei-me de uma obra de muito sucesso, intitulada — Os Homens são de Marte, as Mulheres são de Vênus —. Por isso se distinguem demais. Será? 

Para mim, homens e mulheres não pertencem totalmente a planetas diferentes, porque, no fundo, todos só querem amar e se sentir amados. 

Pois é natural que o amor ofereça afeto, carinho, ternura e tudo de agradável que ele pode dar. Mas há também as lutas, as diferenças, as dores terrenas que ele — o amor sublime — pode superar, porque “o amor tudo suporta”. 1 Coríntios 13:7, Bíblia Sagrada: “O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. 

Então, o amor, na verdade, é uma lição de aprendizado e depende do valor que você dá diante das circunstâncias. 

Mas ele é plenitude, fascinante. E deve ser por isso que, no fundo, para alguns é tão difícil conjugar o verbo amar. 

Talvez não haja resposta para essa pergunta que eu possa afirmar. Quem sou eu para tal julgamento apontar? Pois há na vida experiências que cada coração pode analisar. 

Mas o que importa, no fundo de nossas almas humanas imperfeitas é estar nos braços do verdadeiro verbo amar. 

Talvez não seja fácil percebermos, talvez não seja fácil encontrar. E creio que, certamente, a maioria quer se abrigar onde ele está. É a estrada onde muitos querem chegar. 

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Simone Kelly Costa de Oliveira do Nascimento nasceu em Belém (PA).Professora de Língua e Literatura Portuguesa, do Ensino Fundamental e Médio, graduada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em Letras Língua e Literatura Portuguesa, pós-graduada em Educação Especial e Psicopedagogia. Acadêmico Efetiva Imortal ALSPA, Academia de São Pedro da Aldeia -RJ. Recebeu a honraria “Mérito Acadêmico Charles Dickens ALSPA”, Academia de Letras São Pedro da Aldeia -RJ.

O NASCIMENTO DE UM POEMA

Por Saiory Gutierrez

Pouco se fala sobre o bloqueio criativo de um escritor, que tem muito a escrever, mas não sabe por onde começar. Durante um dos eventos de Biblioterapia mediado pelo Leandro —  por acaso, o dono desse blog — que participei, ele desenvolve uma dinâmica interessante para a escrita, onde nos inspiramos na escrita de outros autores, fazendo um quebra cabeça de palavras, mas que no fim, se torna uma poesia.

“Lábio;

As lágrimas que choro, branca e calma, ninguém as vê brotar dentro da alma;

Em que espelho ficou perdida minha face?

Me dê a coragem de viver 365 dias e noites, todos vazios da tua presença.

Azul, Magenta, Laranja.

Lágrimas Ocultas;

Retrato;

Meu Deus, me dê coragem!

Coragem, plenitude, êxtase,

Amargo, Olhos, Face,

Cismar, grave, brandura.

A arte liberta aquilo que não somos capazes de dizer.”

Esse foi um texto simples que produzi em um desses momentos de Biblioterapia, que pode parecer simples à primeira vista, mas para mim, que o escrevi e escolhi cada parte do texto, fica visível as emoções que senti em cada palavra! Dessas “simples” palavras consigo exprimir novos textos, poemas e sentimentos. Nascemos para sentir e expressar nossos sentimentos com a arte! Que no meu caso, é a escrita e a música, mas no seu caso pode ser o desenho, a pintura, ou até mesmo artes marciais! Não se deixe esquecer do que nascemos para fazer! Não se esqueça dos seus hobbies, dos seus gostos, e principalmente, da sua essência! Viva a arte em toda a sua grandeza.

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Saiory Gutierrez é estudante do ensino médio, se formando em Gestão Empreendedora integrado ao Ensino Médio, militante feminista pelo Levante Popular da Juventude, presidente do Grêmio Central do IFNMG e uma grande estoica! Expressa profundamente suas emoções através da arte!

A LINDA ARTE DO SONHAR

Por Ricardo Albino

Certa vez, perguntaram a um cego : Como é que você sonha ?

Ele respondeu:

“Sonho como todo mundo, só não vejo.”

Como uma pessoa com deficiência física e visual acho importante contar uma coisa que muitos não sabem.

Existe uma diferença entre o cego e deficiente visual. O primeiro não enxerga nada e o segundo tem baixa visão, também conhecida como visão subnormal, o meu time na vida.

E o que impede o cego e eu de sonhar? Nada, graças a Deus! Até o momento, sonhar é de graça, não se paga imposto e faz cada dia ter mais graça de viver. Sonhar é um exemplo de patrimônio imaterial da humanidade mais democrático, acessível e inclusivo que eu conheço. Não tem barreiras arquitetônicas que impeça um cego de enxergar até a cores, um deficiente físico de andar sozinho sem aparelho ou bengala nem um cadeirante de voar longas distâncias sem cair.

Sabem como isso é possível?

Dando asas a imaginação. É assim que todo ser humano do mundo renova amor no coração e acorda com fé que o sonho bem sonhado, ainda que demore um tempo — no tempo certo do bem — será objetivo realizado.

O sonho não tem preconceito, não faz pouco caso, não faz fila preferencial nem exige laudo ou credencial para estacionar do lado esquerdo do peito de alguém. Cabe apenas aos passageiros da esperança, seguir nos trilhos do maquinista Divino que guia o trem da história ao ponto final da missão abençoada que todo sonhador de corpo e alma sabe que tem.

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Sou Ricardo Flávio Mendlovitz Albino. No mundo da contação de história todos me conhecem por Ricardo Albino. Tenho 47 anos, nascido e criado em Belo Horizonte, jornalista formado em 2006, pelo Centro Universitário de Belo Horizonte – UNI BH, contador de histórias formado pelo Instituto Cultural Aletria, em 2015, criador da página Ricontar Histórias, em 2017, e do canal de mesmo nome no You Tube, em 2021. Cadeirante, idealizei no canal o podcast Ricontar para unir histórias, meu amor pelo rádio, acessibilidade e inclusão.

A MAGIA DAS HISTÓRIAS

Por Pierre André

Ele chegou sem aviso, vindo do fundo da grande plateia formada por pequenos olhares curiosos. Caminhava com leveza, como se já carregasse consigo um segredo prestes a ser revelado. Havia algo de especial em sua presença, algo que fazia o ar ao redor parecer diferente, mais leve, quase mágico.

Enquanto avançava, seus objetos se transformavam. O tambor que trazia consigo logo se tornava uma mochila, e o pandeiro improvisado, em suas mãos, dava lugar a um livro. Não era apenas uma troca de coisas, mas uma mudança de sentido, como se tudo ali estivesse a serviço de algo maior: a história que seria contada.

Quando começou a falar, sua voz se elevou de maneira brincante, misturando palavras e melodias. Ele não apenas contava, ele cantarolava, encantava. Diante dele, os olhos das crianças brilhavam intensamente, refletindo curiosidade e alegria. Era como se cada palavra acendesse uma pequena luz dentro de cada uma delas.

Havia uma expectativa no ar. Algo já estava acontecendo, e todos sentiam que algo ainda maior estava por vir. Em poucos instantes, uma viagem começaria, não daquelas que exigem malas ou caminhos, mas das que nascem dentro da imaginação.

De repente, lá estava o contador de histórias, em um reino diferente, onde tudo parecia reinventado. Lá, os reis não usavam coroas, as fadas não precisavam de varinhas, e os anões, embora pequenos, eram gigantes imaginários. Os monstros, curiosamente, eram os que sentiam medo e choravam, enquanto as crianças voavam livres, sem precisar de asas. Os pássaros nadavam pelos rios, e os rios transbordavam não de água, mas de poesia.

A cada história contada, uma nova viagem acontecia. E a cada viagem, algo se transformava dentro de quem escutava. As crianças, em silêncio, cheias de encantamento, agradeciam com o brilho dos olhos, um gesto simples, mas cheio de significado.

Porque ali, naquela troca entre quem conta e quem ouve, havia algo sendo plantado…

A história, contada com o coração, semeava amor e esperança e imaginação.

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Pierre André e seu suposto texto de apresentação…

Vê se pode… O menino queria fazer de conta que o faz-de-conta se desfez. Vou deixar não… Pensei. E tentei desfazer essa ideia maluca dele. Ainda bem que dei conta. Agora faz de conta que eu num dô conta… Não teria escrito esses escritos para vocês. Quero falar de mim não. Meus textos já falam…

ONDE AS PALAVRAS SE LIBERTAM: UM CONVITE À ESCRITA

Por Leandro Bertoldo Silva

Provavelmente você já passou pela experiência de querer escrever, mas não saber por onde começar. Ou ainda, você até tem ideias de um início, mas se atropela no meio do caminho ou tem dificuldades em finalizar.

Isso é muito comum em textos dissertativos/argumentativos, onde faz-se necessária uma espécie de “ordenação lógica do pensamento”. Por isso mesmo, até nesses é possível não ensinar a pensar, mas a construir caminhos que levam a uma boa escrita.

Porém, não é sobre esse tipo de texto que eu quero me referir aqui. Pretendo, antes, falar da escrita livre, daquela despretensiosa de qualquer regra, acima de qualquer crítica, até mesmo da obrigatoriedade da leitura, cujo único objetivo é se ver, como disse, livre.

Eu sei! Quem escreve quer ser lido. Mas nem sempre é assim ou precisa ser assim. Aliás, mesmo que seja, um texto antes de ser do outro é preciso ser de quem escreve. E, para isso, é necessário liberdade, desprendimento, despreocupação até com as regras de ortografia; essas podem ser revisadas depois.

Escrever é soltar, é abrir o coração, é deixar vir os pensamentos e libertá-los sem medo. Depois você decide o que fazer com as palavras, se transformarão em poesia, em crônica, conto ou num célebre romance. Ou, ainda, em coisa nenhuma, somente palavras soltas, porém potentes para você. Como diz Flannery O’Connor: “Escrevo porque não sei o que estou pensando até ler o que digo.”

Por isso, este texto aqui não é para falar, é para propor. Muitas vezes só precisamos de um “empurrãozinho”, um pequeno incentivo para destravar nossa escrita e fazer dela uma aliada de libertação, a nossa libertação.

Irei compartilhar aqui algumas sugestões de escrita livre, criativa ou afetiva – como queira chamar. Algumas delas nasceram de vivências em grupo a partir de encontros de Biblioterapia, outras de buscas pessoais, outras ainda de livros que vieram de outros livros e todas com a mais absoluta liberdade de ser mexida, adaptada às mais diversas realidades, desejos e vontades.

Assim, deixarei aqui 7 práticas simples. Caso alguma delas faça sentido para você, use-a. Se quiser adaptá-las, faça isso. Abuse da sua criatividade, solte seu espírito e deixe as palavras tomarem lugar dentro de você.

Antes de começar, permita-me dizer somente mais uma coisa e sugerir 3 dicas de ouro:

Primeiro, as propostas que está prestes a ler estão no meu Instagram pessoal @leandrobertoldosilva. Todo domingo pela manhã eu compartilho nos Stories uma proposta nova com o nome de SEMANÁRIO. Convido você a me seguir por lá e usufruir deste e outros conteúdos relacionados à escrita, livros e encadernação. Será um prazer ter a sua presença.

Agora as dicas:

1- Todas as propostas são de escrita livre. Portanto, tente em um primeiro momento respeitar a primeira ideia que lhe vier à mente. Não edite, não apague e muito menos se censure. Tire o controle e deixe o subconsciente assumir. Depois, só depois, e isso pode durar dias, volte ao texto e dê a ele uma forma que mais lhe agrada.

2- Em algumas propostas, antes de se lançar à escrita, feche um pouco os olhos e respire. Essa prática vai ajudar no relaxamento e permitir despertar a criatividade.

3- O mais importante! Saiba que você não precisa ser poeta, escritor ou escritora para aproveitar ao máximo dessas práticas. Apenas escreva, só escreva.

Propostas (Semanários):

SEMANÁRIO 1
Ouça uma música de quando era criança. Deixe a emoção vir à tona. Escreva uma carta para você mesma(o) sobre o que ela te faz lembrar. Guarde-a. Depois de um tempo, leia… O que irá responder?

SEMANÁRIO 2
Observe estas seis palavras: ALEGRIA – TRISTEZA – DOR – SAUDADE – RAIVA – MEDO. Qual delas representa você neste exato momento? Pegue giz de cera, lápis ou caneta e faça rabiscos para expressar como você sente essa emoção. Olhe o seu rabisco. O que você observa? Que história pode sair deles?

SEMANÁRIO 3
Liste ações que você deixou de fazer em sua vida porque alguém, um dia, lhe disse que não eram importantes o suficiente para merecer atenção. Leia-as. Como se sente? Marque as que você gostaria de voltar a fazer. Escreva sobre isso.

SEMANÁRIO 4
Somos felizes quando dedicamos ao máximo o nosso amor a nós mesmos. Liste coisas que você pode fazer sozinho e se sentir feliz. Aproveite ao máximo sua própria companhia.

SEMANÁRIO 5
Escreva uma carta para o SENHOR TEMPO. Coloque tudo que tem vontade de desabafar: acontecimentos que marcaram sua vida de forma positiva e negativa, fatos que podem acontecer e como você gostaria que eles fossem. Desfrute disso…

SEMANÁRIO 6
Liste acontecimentos rotineiros de um dia. Você sofre em razão da dificuldade de prever os acontecimentos cotidianos? Você tolera mudanças e desafios inesperados? Circule na sua lista o que você ousaria fazer diferente hoje e faça. Escreva como se sentiu no fim do dia.

SEMANÁRIO 7
Respire fundo. Numa folha em branco, faça uma linha da esquerda para a direita (com a mão dominante) e volte da direita para a esquerda fazendo outra linha (com a mão não dominante). Repita até acabar a folha. O que pensou enquanto traçava as linhas?

Forte abraço e boa escrita…

UMA CARTA PARA ALGUÉM ESPECIAL

Por Luzia Maria de Souza

O que é uma carta?

Dentre outros significados da palavra carta, trago aqui o meu preferido. E não por ter esse objeto uma gama de significados, que se alteram conforme a palavra que a acompanhe ou não. Há uma nostalgia nesse objeto onde se pode registrar todo afeto, toda ternura, toda ira e toda a esperança. Por isso eu vibro tanto com o poder de uma carta! Ali as palavras escorrem da caneta como se tivessem vida própria. Segue seu curso quando o coração fala através das palavras. Então, como lágrima que nasce na alma às vezes ferida, as palavras, contentes se deixam colocar em lugares vizinhos aos verbos, aos pronomes e adjetivos. E ali vão compondo frases e contando histórias. Muitas histórias!

Escrever é tarefa difícil porque não se pode equivocar e confundir o sentimento com as palavras. Elas precisam se ajustar, estar em acordo e dizerem, com as palavras, o que o coração deseja expressar. E escrever para essa pessoa é tão árduo quanto óbvio. Não há rédeas e nem senões… Nenhum julgamento ou omissão. Tudo claro, exposto como uma fratura da tíbia. Faz doer sim, mas vai além. Permite refletir, avaliar, perceber e olhar. Ver além das palavras, seu sentido dentro de um contexto.

Uma carta é uma chave pra alma! É pra encher o coração de expectativa e por vezes te fazer perder o fôlego.

Carta para uma querida amiga

Olá! Há tempos não nos falamos.

Tenho muito a te dizer.

Ah, minha amiga! Como te conheço! Quantas lutas travamos juntas. Quantas vitórias, quantas Juras.

Hoje escrevo pra te deixar um recado. Foi duro, mas foi bom. É sério. Nós conseguimos! Todas nós. Houve momentos em que eu não acreditava, mas você persistiu e foi lá e pagou pra ver. Fez valer toda sua força e querer.

Estou certa de que você hoje, aqui dentro, está plena e feliz. Tratando as feridas, porque elas nunca somem de vez. Mas se transformam em linhas tênues como a pauta do papel onde te escrevo. E ora disfarçando, ora expondo e se fazendo valer das cicatrizes, seus troféus! Olhar pras marcas que a vida deixou é estímulo e gratidão. E assim, você segue adiante. Destemida e apaixonada. Mas cautelosa… Já pisou muita brasa viva, ávida que estava por viver tudo o que te era ofertado.

E esse choro que traz a lágrima (tenho certeza que está brotando aí), é de alegria mais que de tristeza. É verdade, tudo foi como deveria ter sido. A contabilidade fecha direitinho e seu saldo, minha cara, é positivasso!

Hoje, enquanto escrevo, muitas dúvidas surgem e sei que você sentiu muito medo e se achou pequena demais e insuficientemente capaz pra tanta luta. Os lugares que não te cabiam, hoje provavelmente estarão repletos de sua essência, de sua luz e persistência. Porque você não aceitava os vetos preconceituosos e covardes. Você sempre foi luz! Os espaços ocupados em sua alma que te impediam de respirar por estarem repletos de uma ausência dorida foram preenchidos aos poucos. Foram ocupados pelas doces lembranças. Porque você já era guerreira. Era frágil o suficiente para aceitar a mão que se estendia e para não ser arrogante. Mas forte o bastante para não pisar em ninguém, mas também pra não deixar que te fizessem de capacho. Cada uma de nós contribuiu pra que hoje fôssemos vitoriosas. Todas nós, em nosso tempo e espaço, com nossas dificuldades e sonhos, vitórias e derrotas, estamos orgulhosas da pessoa que nos tornamos. E isso faz de você ser quem é, e sempre foi: Nós!

Assinado: Lu do presente.

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Sou a Luzia Maria de Souza, mãe do Silas e do André. Filha da Carminha e do Duca. Irmã da Lina, da Letícia, do Alan e da Laíse. Esposa do Fernando de Bulhões. Sou escancaradamente amante da vida, da alegria, da música, do movimento e de gente! Estou dando meus primeiros passos como escritora. Mas gosto mesmo é de registrar minha própria história e navegar em minhas memórias e reflexões. Afinal, sou o resultado das coisas que vivi, do convívio com pessoas que passaram por mim e deixaram marcas em minha vida.