DE ONDE VÊM AS HISTÓRIAS? A ESCRITA COMO PASSAGEM

Por Leandro Bertoldo Silva

É comum as pessoas perguntarem a quem escreve de onde vêm as histórias. Provavelmente de um lugar sagrado somente acessado pelos escolhidos, pensam alguns; ou, quem sabe, dos privilegiados, daqueles a quem o talento fez morada, pensam outros.

Nada disso, porém, condiz com a verdade ou pouco valor tem essas palavras.

Quanto ao talento, é inegável a sua existência, mas ele é algo possível de ser alcançado com dedicação, paciência e persistência. Portanto, nada de extraordinário existe aqui.

A respeito de virem de um lugar sagrado, lembro-me de Alberto Caeiro:

“Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. É incrível que se possa pensar em coisas dessas. É como pensar em razões e fins quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão”.

Isso mesmo! Obrigado, Caeiro. Sagrado pode até ser o ato de escrever, mas não se trata de um lugar mágico, sobrenatural. A não ser que consideremos todo e qualquer — isso mesmo — “qualquer” lugar como sagrado.

A escrita acontece ao nosso redor: à frente, atrás, dos lados, em cima e em baixo, até por dentro… Basta termos olhos para ver e ouvidos para escutar. Se nos colocarmos atentos, veremos histórias a brotarem literalmente do chão, a saírem de um elevador ou a entrarem em um ônibus; quem sabe em um sinal fechado… “Olá, como vai?” “Eu vou indo, e você, tudo bem?” Não há como não ter respostas…

Possuo inúmeras provas do que estou a dizer, mas quero relatar dois acontecimentos recentes, um após o outro.

Estava no centro da cidade de Teófilo Otoni com minha filha quando ouvimos um tanto de bem-te-vis. Para nossa surpresa um estava bem perto de nós, mas não tinha asas… Era um velhinho com um sorriso e uns olhos de poesia que eu não via há muito tempo. Ele olhava para o alto e literalmente conversava com os bem-te-vis. Ele assoviava e os passarinhos respondiam imediatamente. Os passarinhos cantavam e ele respondia. Bem-te-vi pra lá, bem-te-vi pra cá, e tudo no meio da rua, com carro e gente a passar. Só eu e minha filha reparávamos deslumbrados o velhinho de olhos de poesia a sorrir e a conversar com os amigos do céu. Logo me surgiu um haicai:

No meio da rua
um velho conversava
com os passarinhos.

Ali, bem diante de nós estava a acontecer uma história. Simples, mas potente.

O outro acontecimento (a ida a Teófilo Otoni rendeu muitas histórias) surgiu no caminho, quase a chegar à cidade. Em um determinado ponto da estrada há um “cemitério de carros”, com uma infinidade deles, todos muito destruídos. Pois não é que alguém teve a brilhante ideia de espalhar bonecas namoradeiras por alguns deles? Aí não teve jeito…

Essa eu até fotografei e deixo aqui como prova…

Percebe? As histórias se mostram em todos os lugares e momentos, incessantemente. E a escrita pode correr fácil, naturalmente. Claro, existem alguns caminhos e atalhos que podem ajudar nessa travessia entre a história e o texto. Eu ainda vou falar muito sobre isso, mas o importante é saber que não é preciso subir alguma montanha ou jejuar 30 dias ou fazer qualquer outra prática ascética para escrever. Basta começar. As histórias já existem, não precisam ser criadas, só precisam ser descobertas.

É como quando Michelangelo foi perguntado como ele conseguiu fazer a estátua de Davi, considerada sua grande obra-prima, tão linda e perfeita, e ele respondeu que nada fez; a escultura já existia dentro do bloco de mármore, ele apenas tirou os excessos…

Escrever é assim: deixar os dedos trabalharem a conduzir o lápis ou a caneta pelo papel (minha preferência) ou pelas teclas do computador  no início sem receios, sem preconceitos, livre de qualquer amarra. Escreva, simplesmente escreva, desinibidamente. Permita a história repousar no papel. Depois volte ao texto, retire o desnecessário e deixe a história respirar. Viva! Ela existe.

Frei Betto, no livro “O dia de Ângelo”, traduz com mestria o ato de escrever. Fiquei tão impactado quando li por ser exatamente como me sinto que deixo aqui, para encerrar, um recorte de suas palavras. Disse ele: “Escreve-se assim: toma-se um punhado de palavras que escorrem céleres por veias, artérias, músculos e mãos, derramando-se entre os dedos; esparrama-se sobre folhas secas brancas, dispondo-as ordenadamente, de forma que traduzam ideias, sentimentos, emoções, recordações, visões e propósitos. Respeite a respiração das palavras. Isso que a gramática chama de pontuação. Deixa que elas descansem ao fim de um conceito, recobrem forças antes de iniciar nova frase, estejam cadenciadas por vírgulas e pontos nas orações. Não exija delas fôlego maior do que possuem e saiba que encerram curioso mistério, pois as mesmas palavras que servem para registrar o mais insípido documento de cartório prestam-se igualmente para compor as mais belas obras literárias. Elas formulam sentenças de morte e esperança de vida, bulas de veneno e declarações de amor, anúncios de guerras e tratados de paz. E, quando lapidadas pela sensibilidade e pela intuição, delas brotam poesias, tropéis ritmados sobre nuvens. Servem inclusive à própria loucura. Nesse caso, dizem coisas que nem mesmo o raciocínio consegue conter e que extrapolam as leis da grafia e da sintaxe, pois refletem essa irreprimível necessidade de exprimir o imponderável, de escrever o absurdo, de revelar o absoluto”.

Bem, espero que possam ter encontrado a coragem que faltava ou aprimorar a já existente para fazer dos seus momentos histórias incríveis a saírem da alma e do coração. A escrita pede passagem, deixe-a nascer sem perfeccionismo. Primeiro escreva, depois lapide-a, mas, acima de tudo, liberte-a.

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Leandro Bertoldo Silva é o criador deste blog. Formado em Letras, pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC-MG, é membro titular da Academia de Letras de Teófilo Otoni. Escritor independente, Leandro é artesão de palavras e criador de livros feitos à mão. Sua obra transita entre a literatura e a arte manual, explorando uma nova forma de escrever, produzir e compartilhar histórias, onde cada livro é único, feito com tempo, valorizando a experiência e afetividade da leitura.

AS CATACUMBAS DO MIADO

Por Ricardo Albino

Será que a Carolina ama gatos porque eles têm sete vidas pra recomeçar?

Por falar nelas, certa noite a moça encontrou um casal, ainda filhotes bem no lugar onde, teoricamente, vida não tem mais: O cemitério!

Fiquei eu daqui a pensar o que os felinos de bigode foram fazer lá… Será que marcaram um encontro secreto para espiar a lua sem ninguém vê? Será que foram visitar algum amigo que partiu para as Catacumbas do Miado? Se for esse o motivo, será que o possível defunto já gastou as sete vidas? Foi morte matada ou morrida?

Então é bem provável que os amigos do morto foram enganar a Dona Morte e ressuscitar o parça que até o momento, não sabemos se era gato Persa.

Como era o nome do felino que partiu daqui para a terra dos pés juntos? Seria Gasparzinho? Talvez seja exatamente por isso que os outros chegaram tão depressa. Devem se chamar Fantasminha e Camarada. Quem sabe um deles seja Zumbi, o miador da meia noite? 

Mas, e a Carol, o que fazia ali naquela hora? No interior, quando morre alguém é costume se despedir bebendo o morto. Sendo assim, Carolina deve ter ido levar leite no pratinho para Fantasminha e Camarada darem um tchau para o amigo.

Aproveitando o passeio inusitado para que os dois gatinhos não ficassem com fama de meliantes na redondeza, Carol levou suas novas crianças de patas para casa e deu os nomes de Pastel para o amarelo e Sushi para o preto e branco.

É por essas e outras que, reza a lenda, o pastel de feira mais gostoso é feito com carne de gato. Eu continuo comendo, até que a morte nos separe!

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Sou Ricardo Flávio Mendlovitz Albino. No mundo da contação de história todos me conhecem por Ricardo Albino. Tenho 47 anos, nascido e criado em Belo Horizonte, jornalista formado em 2006, pelo Centro Universitário de Belo Horizonte – UNI BH, contador de histórias formado pelo Instituto Cultural Aletria, em 2015, criador da página Ricontar Histórias, em 2017, e do canal de mesmo nome no You Tube, em 2021. Cadeirante, idealizei no canal o podcast Ricontar para unir histórias, meu amor pelo rádio, acessibilidade e inclusão.

A SURPRESA DA EMENGARDA

Por Pierre André

Hoje eu acordei era cedo
Com alguém cantando lá fora.
Mas quem poderia ser
Justamente àquela hora?

Fui olhar pela janela
Com uma preguiça danada.
Tinha que saber quem era.
Não me custava nada.

De repente, o canto parou.
Então fiquei ali quietinho.
Mas não demorou muito
Começou de novo, baixinho.

Depois foi aumentando.
Eu não estava entendendo.
E minha curiosidade, ai, ai, ai…
Começou e foi crescendo.

Tive então que me decidir
E resolvi me levantar.
Estava ainda sonolento.
Fui andando devagar.

Aquele cantado não parava,
Mas como era desafinado
Pensei em voltar pra cama
Deixando aquele canto de lado.

Voltei pra cama pensando:
Deito lá e me esqueço…
Mas de quem seria a voz?
Deve ser de quem conheço.

Mas por que não chama?
Fica lá fora só cantando!
Então levantei e fui decidido.
Mas fui devagar, andando.

E o danado daquele canto
Continuou foi cantando.
E a minha curiosidade
Ia só é aumentando.

Abri então a janela…
Aquela voz engraçada.
Meu Deus, que surpresa!
Era dela, da Emengarda.

Disparado, batia acelerado
Dentro do peito, meu coração.
E ainda estava ao seu lado
Seu marido, o Sebastião.

Emengarda, acreditem!
Vestia sete saias de filó…
Quem acreditou, acreditou,
Mas ela vestia era uma só.

E no dedo de uma patinha,
Desta vez pode acreditar!
Tinha um lindo e belo anel,
Aquele que recebeu no altar.

Os sapatos, a saia encobria.
Não deu para eu reparar.
Desses então, lamento,
Mas não posso comentar.

Vocês devem querer saber
Da cama dela e de Sebastião.
Eu também estou curioso.
Será que é de marfim, ou não?

Tinha um carrinho ali ao lado…
– Que carrinho é esse, hein?…
Perguntei pra Emengarda.
– Ora, é o carrinho do nosso neném.

Ao ver no carrinho uma baratinha,
Meu Deus… Que coisa mais linda!
– Emengarda, qual é o nome dela? Perguntei.
– Ela se chama Emerlinda!

E viemos lhe trazer um convite
Com todo amor e carinho.
Quer ser de Emerlinda,
Como já é nosso, padrinho?

Fiquei até sem palavras
Naquele lindo momento.
Se tiver mais surpresas
Sinceramente, não aguento.

Contar pra vocês essa história
Foi tanta emoção que nem acreditei.
Mas que virei padrinho
De uma baratinha, isso eu virei.

E a partir daquele dia
Emengarda, Sebastião,
Emerlinda e o padrinho “babão”
Continuaram muito felizes.

É verdade, não é mentira não.

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Pierre André e seu suposto texto de apresentação…

Vê se pode… O menino queria fazer de conta que o faz-de-conta se desfez. Vou deixar não… Pensei. E tentei desfazer essa ideia maluca dele. Ainda bem que dei conta. Agora faz de conta que eu num dô conta… Não teria escrito esses escritos para vocês. Quero falar de mim não. Meus textos já falam…




POR QUE ESCREVER À MÃO AINDA IMPORTA?

Por Leandro Bertoldo Silva

Foi em uma segunda-feira de manhã de 1980 quando, ao entrar naquela sala de aula e me deparar com o quadro verde cuidadosamente desenhado por letras tão bem torneadas pela professora, que tive a minha primeira grande transformação. Estava eu com sete anos no então primeiro ano do ensino fundamental. Sim, naquela época íamos para a escola mais tarde. Tudo era muito diferente…

Não entendia os escritos, mas os copiava subindo e descendo o lápis na folha de papel. No início nada era mais torto, cheio de garranchos, às vezes grandes demais, outras vezes tão minúsculos, tudo na tentativa de ser fiel ao modelo. Mas de alguma forma sentia como se tivesse encontrado o paraíso. A mão da professora sobre a minha conduzia-me cada vez mais dia após dia naquela tarefa em busca da perfeição. Aos poucos, as letras sorriam ao ganhar contornos e sons. Enquanto a mão escrevia os olhos liam. A vida ganhava forma e o mundo se se abria diante de mim.

Nunca mais deixei de escrever. E escrever à mão pelas razões que passo a dizer.

Escrever à mão reflete de uma maneira muito nítida e peculiar quem nós verdadeiramente somos e a nossa forma de enxergar o mundo em seus vários aspectos e momentos. Isso se evidencia a partir da nossa própria caligrafia. Por exemplo, quando estamos apressados ou nervosos, a nossa letra se torna quase ilegível em muitos casos até para nós mesmos. Mas se formos escrever para alguém que gostamos muito, caprichamos e a letra ganha traços e desenhos rebuscados.  Quem é do tempo das cartas de amor sabe bem disso. E não venham achar as cartas de amor ridículas! Como diz o poeta Fernando Pessoa, “ridículo é quem nunca escreveu cartas de amor”.

Tanto um tipo de letra quanto o outro espelha a nossa personalidade e nos traduz como seres humanos. Se eu estou ansioso, a minha letra me denuncia; se eu estou feliz ou esperançoso, ela também evidencia. Percebe o quanto o ato de escrever à mão é essencialmente humano?

Embora a escrita digital tenha a sua relevância nos dias de hoje, principalmente pela praticidade e rapidez e também pela facilidade proporcionada em alguns casos até mesmo físicos, ela, diferente da outra, padroniza os sentimentos os quais precisam ser explicados para as emoções serem compreendidas.

Isso não acontece com a escrita à mão. Um traço mais forte, um leve tremor, nos diz muito além das palavras. Há aqui um contato mais próximo com as nossas emoções. Nesses momentos, as letras ilustram as falas do coração, a alma se desdobra nos caminhos da aventura, das incertezas e possibilidades e transformam-se em poesia, não apenas a poesia da arte, mas a poesia da vida.

Nos tempos pré-históricos isso já acontecia. As pinturas rupestres, não por acaso, eram ilustrações. Ali eram compartilhadas aventuras de caça, contagem de tempo e até histórias de amor, como mostrado recentemente nas redes sociais a imagem de um suposto beijo entre os nossos mais antigos ancestrais. Fico a imaginar o momento exato desse registro. Certamente foi bem mais expressivo ao se comparar com os dias de hoje quando digitamos em um teclado de computador ou pelo bloco de notas do celular. Percebe como a poesia acaba de ser quebrada?

Não há dúvida de esses meios modernos serem muito mais rápidos e práticos, mas, até mesmo por isso, impedem o tempo das esperas e tornam-se muitas vezes descartáveis e perigosamente suscetíveis ao desaparecimento, bem diferente dos desenhos das cavernas e das linhas no papel.

Escrever à mão, portanto, é uma forma não apenas de sobrevivência, mas de permanência, onde a letra ganha traços de personalidade até mesmo espiritual, porque aquilo que registramos em palavras é o reflexo dos nossos mais profundos sentimentos. Podem guardar lembranças, revelar verdades, construir amores e uma infinidade de possibilidades, tudo ali, ao alcance das mãos. Não é maravilhoso?

Por isso eu deixo uma pergunta — mais uma — para não ser respondida rapidamente: em meio ao mundo moderno, qual é a sua letra?

Em tempo! A primeira versão desse texto foi escrita à mão, em um dos meus cadernos artesanais. Talvez por isso ele ainda carregue o som do lápis no papel…

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Leandro Bertoldo Silva é o criador deste blog. Formado em Letras, pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC-MG, é membro titular da Academia de Letras de Teófilo Otoni. Escritor independente, Leandro é artesão de palavras e criador de livros feitos à mão. Sua obra transita entre a literatura e a arte manual, explorando uma nova forma de escrever, produzir e compartilhar histórias, onde cada livro é único, feito com tempo, valorizando a experiência e afetividade da leitura.

EMBURRECIDOS

Por Luzia Maria de Souza

Do nada surge aquele homem, manso, de poucas palavras e comunica que precisaria de uma informação de todos nós.  Até aí tudo bem. Ele era o chefe e podia mesmo pedir ou querer quase tudo. E ele era um chefe do tipo “boa praça”. Muito tranquilo. Gostávamos muito dele. Pois sabíamos que ele se importava conosco.

Ele se comunicava pouco, mas sorria com frequência e sempre se colocava a nossa disposição. Gostava de nos ouvir e sempre se mostrava interessado de verdade, ao final de qualquer diálogo ou ordem dada.

Porém, naquele dia ele parecia preocupado. Estava amuado, ligeiramente assustado e apreensivo.

Por detrás de uma bancada improvisada com pedaços de tábuas, estava ele com aquele olhar estranho. Em cima da “bancada” havia pequenas pilhas de papel limpos, novos e outros para aproveitamento do verso. Havia também potes com canetas e lápis e borrachas… Então veio a ordem:

— preciso que escrevam no papel (e apontou para os que estavam disponíveis na mesa) o endereço de e-mail de vocês.

Tarefa simples… Será?

Os semblantes tranquilos e brincantes colocaram os dedos ágeis pra trabalhar alcançando papéis e canetas e adotando uma postura, para em pé mesmo, cumprir a tarefa dada por ele.

Ele, por sua vez, apoiou as duas mãos na bancada e abaixou a cabeça como quem, olhando pro chão, implora que dê certo.

Havia um burburinho que aos poucos foi se tornando frenético. Papéis sendo embolados e jogados fora ou de volta na mesa, canetas e lápis sendo trocados, como se os objetos apresentassem algum defeito e não estivessem ajudando. Havia também entre os papéis, impressões com defeitos ou erros e estavam ali pra reaproveitamento do verso. Uns pareciam fragmentos de documentos importantes, mas ninguém compreendia o que estava escrito ali. Nós conhecíamos as letras, mas algo tornou impossível a nossa compreensão. Aquela carreirinha de letras não significava absolutamente nada pra nós. Nada ali fazia sentido.

Tentamos uma, duas, três e mais um monte de vezes e o tal endereço do e-mail não se concluía. Os rabiscos pareciam ter vida própria. Tomavam formas de palavras que não compreendíamos. Nossos punhos estavam em brasa pelo esforço e pelo desespero.

Olhávamo-nos pra ver se alguém havia concluído aquela tarefa que naquele momento parecia impossível. Envergonhados e assustados, sem entender o que estava acontecendo, fomos, aos poucos saindo daquele lugar e deixando ali nossa frustação por não mais sermos capazes de ler ou escrever um simples manuscrito. Pois era como se naquele momento, uma densa névoa surgisse e ofuscasse nossa vista e nosso sentido para que não tivéssemos acesso a nenhuma trilha onde a escrita pudesse nos encontrar.

Estávamos emburrecidos!

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Sou a Luzia Maria de Souza, mãe do Silas e do André. Filha da Carminha e do Duca. Irmã da Lina, da Letícia, do Alan e da Laíse. Esposa do Fernando de Bulhões. Sou escancaradamente amante da vida, da alegria, da música, do movimento e de gente! Estou dando meus primeiros passos como escritora. Mas gosto mesmo é de registrar minha própria história e navegar em minhas memórias e reflexões. Afinal, sou o resultado das coisas que vivi, do convívio com pessoas que passaram por mim e deixaram marcas em minha vida.

O DESAFIO DA ESCRITA

Por Luciana G. Rugani
Alguém que, um dia, ousou publicar.

Nos tempos atuais, em que cada dia nos surpreende com acontecimentos reveladores da ilimitada maldade humana, a escrita tem sido um desafio para mim. A minha motivação na escrita sempre tem sido criar conteúdos capazes de agregar reflexões positivas, seja em prol de uma maior consciência social como também de um aprimoramento individual, e a pergunta que, primeiramente, faço, a mim mesma, ao escrever é “qual a mensagem principal que desejo transmitir com este texto?”.

Acontece que, nos últimos meses, quando me proponho a escrever algo, tem sido difícil cumprir esse propósito ligado à minha motivação. Começo a escrever e, quando vejo, as duras constatações advindas da maturidade, que permite enxergar de maneira mais clara os tantos tresloucados fatos sociais que acometem o cotidiano, misturam-se à insatisfação e ao medo e fazem com que as palavras soem apenas como desabafo ou um texto realista pendendo ao pessimista, o que nada de construtivo acrescentaria ao leitor.

O desafio tem sido grande, pois a dificuldade de seguir alinhada ao quesito motivador prejudica a vontade e, para não inundar as telas com conteúdo realista-pessimista, acabo optando pelo silêncio e pela não-escrita. Não foram poucas as vezes em que o branco da tela me venceu e de mim afloraram apenas bocejos e mais bocejos. E, amigos leitores, biologicamente falando, seria a escrita com prisão de ventre. Aquilo que antes saía fácil, hoje tem sido um difícil e, às vezes, tortuoso trabalho.

Hoje, antes de escrever este artigo e em busca de inspiração, li um texto novo, saindo do forno, de autoria do meu querido Hairon. Ele escreveu sobre a importância de valorizarmos cada momento, cada instante de nossa vida. Esse texto foi o que me fez detectar o motivo que apontei no início de minha fala (ou um deles, não sei dizer se é apenas um) pelo qual a escrita tornou-se um desafio. A mensagem escrita por Hairon, repleta de verdade, soou para mim como um bater de um sino que tira o foco de nossa atenção da realidade concreta e nos leva à abstração da energia produzida pelo som. E me trouxe à lembrança um livro que li há alguns anos, e que seria bom reler: “Paz a cada passo”, de Thich Nhat Hanh, em que o autor nos apresenta um verdadeiro guia para o exercício da “atenção plena”.

Hairon fala sobre viver em equilíbrio com o meio, reconhecendo aquilo que possuímos e que nos rouba a vontade e a conexão com o instante presente como, por exemplo, o medo e a raiva, mas reconhecendo também os limites que não devemos exceder nesse sentir.

Essa fala me fez refletir no quanto a arte de viver torna-se complexa, e, ao mesmo tempo, simples, quando a lucidez vem à tona para lembrar que a atenção deve ser constante, pois, na atualidade, o que não falta são estímulos que exacerbam os medos, os receios e a desesperança. Escutar os sentimentos no agora, reconhecê-los, é o primeiro passo para aprender a valorizar o momento, selecionando, com mais lucidez, aquilo que fará bem cultivar. Tal como as plantas invasoras que espalham seus estolões subterrâneos e acabam por sufocar as plantas próximas, assim são os cordões da mente. Ao deixar livres os medos e a desesperança, eles acabarão por sufocar a vontade, a motivação para um melhor cultivo e até mesmo a inspiração para criar. Após reconhecê-los presentes, cabe impor-lhes a razão para limitá-los, como uma contenção racional, para, a partir daí, buscar aquilo que equilibra e que remete à leveza, e não ao lado sombrio, de ser um humano. Acredito, por tudo que concluí da leitura, que sejam esses os primeiros passos para o reposicionamento em um estado mais propício ao realinhamento motivacional. No entanto, fica a dúvida em relação à inspiração para o criar. Será mesmo que apenas o realinhamento motivacional promoverá minha inspiração? Bastará retomar o sentido primeiro do meu escrever, aquele que mencionei no início de minha fala? O que, de fato, a determinará por completo?

São perguntas que ficam, e que não sei responder agora. Quem sabe o tempo possa me trazer as respostas!

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Luciana Gonçalves Rugani é escritora e poeta. Natural de Belo Horizonte (MG), tornou-se também cidadã cabo-friense ao receber, da Câmara Municipal da cidade, o Título de Cidadania Cabo-friense. É membra das academias de Letras e Artes de Cabo Frio – ALACAF, de Letras de São Pedro da Aldeia – ALSPA e de Artes, Ciências e Letras de Iguaba Grande – AACLIG. Colunista da Revista Digital Aldeia Magazine e do Blog do Totonho. Participou de diversas antologias lançadas no Brasil e em Portugal. Foi selecionada, pelos curadores da Lura Editorial e entre autores de todo o país, para participar da antologia “Leituras à Beira-mar”. Recebeu o “Prêmio Cidade São Pedro da Aldeia de Literatura” concedido pela Associação Internacional de Escritores e Artistas – Literarte, o Prêmio Cultural Caiçara, concedido pela ALACAF e pela ALSPA e o título de “Doutora Honoris Causa em Literatura”, concedido pela ALSPA. Possui publicado um livro de poesias e crônicas intitulado “Mar de Palavras”, que originou o audiolivro de mesmo nome, disponível nas principais plataformas digitais de streaming. Idealizadora dos projetos “Sarau 15 Minutos” e “Arte na Rede”, promovidos em suas redes sociais. É autora do blog “Cantinho das Ideias”. Expôs seu livro na 21ª Festa Literária Internacional de Paraty – 21ª FLIP. Foi vencedora do 3º lugar do Prêmio Teixeira e Sousa de Literatura, da Prefeitura de Cabo Frio, ano 2023, gênero “poema”. Recebeu o troféu “Destaque Cultural 2024” da ALACAF e o Certificado de Excelência Cultural 2024 da ALSPA. Possui obras em antologias lançadas na XV Bienal Internacional do Livro do Ceará e na Bienal do Livro Rio, ambas em 2025.

A ESCRITA COMO PERCURSO

Por Leandro Bertoldo Silva

Escrever é uma habilidade necessária para todas as pessoas, mesmo na era das redes sociais, mas aqui quero me dirigir particularmente para quem tem na escrita uma razão maior de ser, que vai muito além de legendas e emojis.

Para escrever com clareza é necessária uma anterior organização lógica do pensamento, podendo-se concluir que sem o pensamento logicamente ordenado não pode haver redação clara, inteligível. Isso significa que ensinar a escrever equivale a ensinar a pensar, tarefa obviamente impossível; no entanto, sugerir técnicas ou práticas que favoreçam o desenvolvimento do processo de redação é tarefa possível.

A redação de um bom texto exige grande domínio do pensamento sobre as palavras. É preciso “capturá-las”, escolhê-las adequadamente, dominá-las para ordená-las em frases e parágrafos, como quem monta uma espécie de quebra-cabeça.

Porém, antes disso, faz-se necessário voltarmos nossos olhos para a leitura, que é a “matéria-prima” de nossas ideias, da riqueza de nossos pensamentos e fortalecimento de nossa visão de mundo. É ela que nos mune de “ferramentas” para um bom texto. Tão importante quanto escrever é saber ler e interpretar para que, através dessa prática, possamos alcançar qualidade em nossos argumentos e transpô-los para o papel.

Falei agora há pouco sobre “técnicas”, mas por que não pensar no caminho inverso do comumente usado? Isto é, ao invés de partir das técnicas para alcançar o prazer da escrita, iniciar exatamente utilizando o prazer das palavras para encontrar o caminho das técnicas para alcançar resultados mais satisfatórios e práticos na arte de escrever.

Foi assim que eu sempre pensei e agi com muitos alunos ao longo de toda essa trajetória, por acreditar na leveza e nas artimanhas da escrita e seus diversos caminhos ou, como diz Ronald Claver, autor do livro A Arte de escrever com Arte, as artes e manhas do gato, ou melhor, do texto.

Mas nada disso adianta para quem quer escrever ou aprimorar sua escrita se não existir o principal: ESCREVER!

Segundo a jornalista e professora Dad Squarisi, ler e escrever são habilidades. Exigem treino. Jogam no time de nadar, jogar ou saltar. Quanto mais se pratica, melhor o desempenho. Os campeões olímpicos só se tornam campeões olímpicos porque treinam muito e sempre. Portanto, para ser campeão ou campeã das letras, a receita é simples; escrever muito e sempre.

Isso quer dizer que escrever não é somente uma atividade intelectual, é também uma atividade física e só se aprende a escrever ou só melhoramos a nossa escrita, escrevendo.

Mas escrever o quê? Qualquer coisa. Poesia, contos, receitas, o resumo de um livro ou de um filme, o resumo do seu dia. Bem, “qualquer coisa” desde que seja mais do que legendas no Instagram…, Pois quando buscamos algo mais profundo a cabeça e as mãos se desinibem. É uma festa. Viva!

Quero deixar aqui algumas dicas na esperança de serem úteis para o seu processo de escrita. Talvez elas te ajudem, talvez você já faça uso de algumas ou talvez elas te inspirem a buscar o seu próprio jeito. Está tudo certo.

Primeiramente, pense em escrever à mão (irei falar muito sobre isso em nossos encontros por aqui). Reserve um caderno especialmente para as suas criações. Se desejar, faça os registros a lápis se se sentir mais seguro, assim poderá apagar livremente sem deixar rasuras. Mas se tiver rasuras, está tudo bem também.

Muitas vezes, nos seus textos, você poderá sentir necessidade de buscar uma forma mais expressiva e que o agrade mais – reelabore-os. Depois, poderá passar a limpo suas criações, em um outro caderno separado ou mesmo em seu computador ou quem sabe, até mesmo em um blog como esse. Será o seu espaço de publicações, para ser divulgado sempre.

E por fim, Coloque sempre a data nas suas criações. Mostre seus textos para seus amigos. Muita gente vai gostar.

Que bom seja o seu trabalho!

Só falta começar!

Em tempo! Esse texto inaugura uma série de 8 publicações quinzenais que farei sobre o tema da escrita, reflexões sobre processos criativos, experiências e organização textual, entre outros, sempre trazendo dicas e propostas de produção.

Se você já segue o blog, ajude a divulgá-lo para mais pessoas que como você ama esse universo das palavras; se ainda não, deixo o convite para seguir e se juntar a nós. Temos muitas histórias para contar.

Forte abraço e até a próxima.

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Leandro Bertoldo Silva é o criador deste blog. Formado em Letras, pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC-MG e membro titular da Academia de Letras de Teófilo Otoni. Escritor independente, Leandro é artesão de palavras e criador de livros feitos à mão. Sua obra transita entre a literatura e a arte manual, explorando uma nova forma de escrever, produzir e compartilhar histórias, onde cada livro é único, feito com tempo, valorizando a experiência e afetividade da leitura.

LIBERDADE SEM MEDO DE EXISTIR

Por Leandro Bertoldo Silva

Em conversa com um casal amigo meu, falávamos sobre o quanto neste mundo atual perdemos a nossa capacidade de escolha. Se observarmos todo um contexto de vida, ou seja, tudo ao nosso redor, enxergaremos uma padronização massificada e profundamente incômoda para quem cresceu na diversidade.

Sou do tempo onde até os carros eram coloridos e tinham cada qual a sua originalidade pelo formato e desenho próprios, bem diferentes das caixas quadradas ou abaloadas monocromáticas de hoje.

Fala-se tanto em pluralidade e estamos cada vez mais imersos no indivisível, na obrigatoriedade de ser igual. Há coisas e situações que a igualdade é necessária, é um direito e um dever, mas eu me refiro à liberdade de se sentir diferente, de poder, como eu disse, escolher o próprio caminho como quem escolhe a própria roupa, a própria comida, a próxima leitura. Mas sabe de uma coisa? A situação é muito mais séria quando pensamos que nem roupa, nem comida e nem leitura podemos escolher hoje em dia; o mercado, a economia e o sistema comportamental escolhem por nós. Nós até escolhemos, mas apenas o que é permitido, ou seja, é tudo ilusório.

Sair desse lugar é tarefa árdua, é viver na corda bamba da resistência. É preciso muita disciplina e força de vontade para estar em um meio sem ser afetado por ele. Sinceramente, acho quase impossível.

Um dos exemplos disso são as redes sociais.

Por muito tempo acreditei que precisava habitar o lugar das redes para existir na memória das pessoas, mas, pouco a pouco, fui percebendo que a minha própria memória pedia descanso. A constância delas me cobrava uma escrita que não era minha, um ritmo que não era meu e me afastava do que eu realmente queria oferecer.

Então decidi buscar outras maneiras. Maneiras mais profundas, mais lentas, mais alinhadas com o que pulsa em mim. Espaços como esse, onde a escuta é mais ampla e a presença não precisa ser performada, apenas escrita e vivida. Para mim, é bom pensar, mesmo que seja utópico, mas é a “minha” utopia, que não estar nas redes da forma que elas querem não significa ausência, significa presença escolhida, aquela que nasce do silêncio, da intenção e do cuidado com o que venho construindo com as mãos e com a palavra.

Mas não quero desviar o foco apenas nisso. Como eu disse, as redes sociais são só um exemplo, embora dominador ao extremo. Existem outras curvas nessa estrada.

Prefiro seguir inteiro a partilhar ideias, acolher conversas e oferecer o meu trabalho, porém em lugares onde o tempo corre em outra direção, onde a relevância não depende de métricas, mas de encontros verdadeiros e os textos vão muito além de legendas.

Por isso estou aqui, desejoso de uma comunicação mais honesta e direta, de uma forma que não desagasta, mas nutre, em busca de abrigo a me recolher mais profundamente.

Essa é a minha escolha.

Qual é a sua?

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Leandro Bertoldo Silva é o criador deste blog. Formado em Letras, pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC-MG e membro titular da Academia de Letras de Teófilo Otoni. Escritor independente, Leandro é artesão de palavras e criador de livros feitos à mão. Sua obra transita entre a literatura e a arte manual, explorando uma nova forma de escrever, produzir e compartilhar histórias, onde cada livro é único, feito com tempo, valorizando a experiência e afetividade da leitura.

VIVENCIANDO EMOÇÕES

Por Hairon H. de Freitas

O que mais preciso ouvir nesse momento, senão as palavras de um sábio que me oriente sobre as questões emocionais que me afligem e que afligem a humanidade.

Sempre que olhamos para os animais irracionais com suas atitudes abruptas, medrosas e ferozes, tentamos colocar um pouco de razoabilidade sobre suas ações, tentando, às vezes, controlar o ímpeto natural deles. Por vezes, ignoramos o estágio em que vivem, por isso somos tentados a transformá-los em seres humanos ou quase humanos.

Fico pensando se os sábios também nos observam da mesma maneira que observamos os animais, tentando elevar nossas atitudes infantilizadas e recheadas de instintos a um patamar considerável, ou será que eles nos respeitam e entendem os nossos limites, sem impor melhoras inesperadas em nossas emoções?

Por vezes encontramos pessoas surtadas que ignoram o limite da convivência, agindo como um leão na selva, no entanto exigimos que os animais sejam moldados de acordo com as nossas perspectivas de vida.

No estágio atual, o homem já deveria possuir um emocional mais equilibrado, mas, contrariamente, ele insiste em valorizar o ego, criando inúmeros obstáculos e chegando até o nível irracional do ser.

Quem disse que é fácil entender o nosso emocional desvairado, incongruente e contraditório?

Não! Nunca foi fácil entender o que se passa em nossa mente egóica. Hoje temos diferentes tipos de instrumentos utilizados em nossa capacitação e aprimoramento interior, tão necessário para apaziguar os nossos relacionamentos em casa, no trabalho ou em qualquer lugar onde estejamos.

Alguns dos fundamentos importantes com os quais os sábios sempre abrem suas explicações e palestras são: conhecer-se melhor, não julgar e não se precipitar.

Dentro de uma vida desequilibrada, o sofrimento cumpre o seu papel até que o neófito se canse e busque caminhos mais razoáveis, que não promovam tantos desgastes emocionais.

A princípio, busco um sábio que me oriente mais sobre as questões emocionais.

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Hairon Herbert de Freitas é apreciador de arte: poética, musical e desenhos abstratos. É membro das academias de Letras e Artes de Cabo Frio – ALACAF, de Letras de São Pedro da Aldeia – ALSPA e de Artes, Ciências e Letras de Iguaba Grande – AACLIG. Participou de projetos, antologias, varais poéticos e saraus, entre eles: Projeto Poesia na Escola, do professor Gilberto Martins, de Brodowski (SP); antologias “A Aldeia de Pedro”, em São Pedro da Aldeia; antologias “Flores Literárias” em Cabo Frio; antologias, varais poéticos e saraus da ALACAF e da ALSPA. Recebeu o “Prêmio Cultural Caiçara”, concedido pela ALACAF e pela ALSPA, e o Título de Doutor Honoris Causa em Artes e Literatura, concedido pela ALSPA. É colaborador da Árvore das Letras.

QUANDO O TRABALHO DEIXA DE SER IDEIA: O CRITÉRIO QUE INAUGURA 2026

Por Leandro Bertoldo Silva

Existe um momento em que é preciso enxergar as coisas com mais clareza, a vida com mais propósito e o trabalho com mais definição.

No meu desejo de enxergar a literatura bem fora da caixinha em tudo que a envolve, mas principalmente na escrita e na maneira de apresentar isso primeiro para mim e depois para o outro, me levou a uma pergunta nem tão simples de responder, mas fundamental:

“Que problema, afinal, o meu trabalho resolve?”

Confesso já ter tentado responder essa pergunta inúmeras vezes, mas nunca havia conseguido chegar a um resultado satisfatório, mesmo tendo dentro de mim o que eu queria. Mas faltava comunicar às pessoas, fazê-las entenderem onde, de fato, eu me encontrava e o que propunha.

Porém, sou persistente e lancei-me novamente à busca da resposta como quem procura o tão sonhado potinho de ouro no fim do arco-íris. Lá fui eu, caderno e caneta na mão, porque sim, sou coerente com meus propósitos, e comecei a rabiscar palavras e frases como de muitas outras vezes.

Nada saía até que numa das longas pausas, entre uma xícara de café e outra, olhei bem onde e como eu estava a escrever: segurava a minha melhor caneta e a usava em um caderno feito por mim. Hum… Eu disse há pouco a palavra “propósito”?

Algo começou a se iluminar. Minha sobrancelha esquerda arqueou levemente, passei a lembrar dos momentos mais incríveis vividos com as pessoas por intermédio do meu trabalho e lá estavam os lançamentos das coletâneas em livros artesanais, resultantes de momentos mágicos de leitura e escrita.

Então… E se… É isso!

Abri novamente o caderno e escrevi de uma só vez:

“Eu ajudo pessoas a conectarem consigo mesmas através das histórias literárias e da escrita à mão, tendo o caderno como espelho de seus sentimentos e a publicação artesanal como possibilidade”.

Uau! Como tudo ficou muito mais claro! Pousei a caneta do lado e fiquei a olhar aquelas poucas palavras dispostas de uma forma a combinar exatamente tudo o que eu fazia: escrever com paixão, ajudar pessoas a encontrarem dentro de si esse mesmo prazer e exteriorizar seus sentimentos tendo as histórias como suporte e inspiração e, além de tudo, costurar seus próprios cadernos e ter a possibilidade de ver seus escritos reunidos em um livro feito artesanalmente.

Foi muito rápido compreender o prazer e sentir o entusiasmo daquela definição. O próximo passo foi decidir comunicar isso com as pessoas certas e não mais para “todo mundo”. Aprendi ao longo da minha experiência que as coisas não são para todo mundo; algumas são para algumas pessoas, enquanto outras, por mais admiradas que sejam pelo nosso trabalho, estão muito distantes daquilo que oferecemos.

O que eu fiz?

Criei uma pesquisa na Comunidade da Árvore das Letras para ouvir diretamente das pessoas o que elas queriam e pautar as minhas ações a partir das suas respostas. Isso não apenas definiu muitas coisas como me certificou do caminho escolhido e me ajudou a abandonar com muito respeito atitudes e ofertas que já não faziam mais sentido. Na sequência, apresento os resultados obtidos.

Na primeira pergunta Como você se define no seu vínculo com a leitura e a escrita, para 45,5% das pessoas que manifestaram, responderam que leem e escrevem regularmente, ou seja, estamos construindo o nosso trabalho em local certo.

Na segunda pergunta o  que mais te traz até esta Comunidade, tivemos números bem interessantes: para 36,4% das pessoas, é o desejo de escrever mais, enquanto para 27,3% é a inspiração e o bem-estar emocional; o mesmo número para o sentimento de pertencimento.

Sobre quais tipos de conteúdo as pessoas mais apreciam, para 63,6% preferem propostas de escrita afetiva; 54,5% gostam de conversas e reflexões sobre processos criativos e 45,5% de textos de colaboradores publicados no blog. Esses dados direcionam muito a nossa presença por aqui e ao longo do ano.

Para como você prefere receber conteúdos, achei muito interessante 54,5% das pessoas preferirem textos no WhatsApp. Isso demonstra que estamos lidando com pessoas realmente leitoras. 18,2% mencionaram áudios e vídeos, e isso traz muitas boas ideias.

Quanto às expectativas para 2026, 45,5% esperam por práticas guiadas de escrita enquanto 27,3% gostariam de encontrar séries temáticas de escrita, leitura e autocuidado. As duas coisas se aproximam muito.

Por fim, 63,6% das pessoas consideraram participar de oficina de escrita, workshops e cursos de encadernação artesanal pagos e 36,4% também, dependendo do valor. Ou seja, teremos novidades.

Bem, com tudo isso dito e exposto, posso certificar sobre como o meu trabalho deixou de ser uma ideia e se transformou em um critério, transformando-se em uma nova base a dar origem a todo um ecossistema a funcionar a partir de 2026. Trata-se de um trabalho inédito que na próxima publicação mostrarei como irá funcionar.

O que posso adiantar é que as Quartas Literárias passarão a ser direcionadas para assuntos como esse, assim como práticas de escrita, criatividade, leitura e autocuidado, como apontados na pesquisa, enquanto as Crônicas de Domingo serão alternadas entre textos de colaboradores.

Por hora vou ficar por aqui, mas quero dizer uma última coisa: se o que foi dito fez sentido, se você também se encontrou representado, representada nesses dados é porque você não faz parte de todo mundo, mas de pessoas especiais cuja escrita é uma ferramenta poderosa de criatividade e autoconhecimento. E se assim é, talvez o seu próximo passo já para iniciar 2026 de uma forma bem inovadora, seja conhecer o Workshop “O caderno como espelho: uma vivência direcionada para encadernação, escrita, silêncio e presença”, que pode ser realizado de forma presencial ou online. O link para saber mais sobre o workshop está logo abaixo e já temos até datas para acontecer os primeiros do ano.

Aproveito para convidar você também a assinar o blog da Árvore das Letras e receber todas as publicações diretamente em seu e-mail em primeira mão, isso se você já não assinou.

E caso queira participar do grupo exclusivo Conversa ao Pé da Árvore, da Comunidade da Árvore das Letras no WhatsApp e estar em contato com pessoas que valorizam o mesmo que você, é só fazer a sua solicitação. É só acessar os links correspondentes abaixo. Acredito que temos muito a conversar.

Até o próximo encontro. Espero por você.

Forte abraço.

Workshop – https://arvoredasletras.com.br/workshop/

Grupo exclusivo Conversa ao Pé da Árvore – https://chat.whatsapp.com/Kl1xzqFGdlC4kdRPpM5Kdk