MINHA DICA DE HOJE – REI BRANCO, RAINHA NEGRA

A minha dica de hoje vem da linha da literatura histórica. Rei Branco, Rainha Negra, do escritor mineiro Paulo Amador, traz como pano de fundo a vida de Chica da Silva, uma das figuras mais emblemáticas da nossa história.

O livro é um relato emocionante da luta do povo de Diamantina, em Minas Gerais, contra o absolutismo português, em que Chica da Silva teve papel de destaque e liderança ao mostrar o nascimento de um sonho de liberdade, o que acarretou na primeira democracia racial do mundo. Veja mais detalhes no vídeo.

Forte abraço!
Leandro Bertoldo Silva.

UMA FLOR NASCEU

“Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu”.
(Carlos Drummond de Andrade)

Por Leandro Bertoldo Silva

Sempre tive uma relação muito especial com as flores. Para mim, elas são as artes mais perfeitas da natureza e capazes de curas inimagináveis. Leia uma pequena história que traz as flores como inspiração.

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Seu coração estava dilacerado e queria pôr fim à sua vida, acabar com aquele sofrimento, pois imaginava ser isso possível por esse caminho, já que era o único que conhecia. Preparou todas as coisas que julgou serem necessárias para a aguardada despedida; e já era próximo de meio dia…

Na sexta hora, quando nada mais restava a fazer a não ser saltar para o destino imaginado, uma rosa, até então despercebida, chamou-lhe a atenção no momento exato que se desfolhou à sua frente. Ao ver as pétalas espalhadas daquela rosa, não duvidou de que, um dia, não importa se há muito tempo ou segundos antes, aquela bela flor teve forma, perfume e função de ser bela, doando, assim, o seu amor. Olhou para as pétalas que um dia formaram uma flor e que, mesmo naquele estado, continuavam sendo uma flor, porque ainda tinham a capacidade de oferecer a beleza e o prazer do seu perfume… Foi quando compreendeu que o amor, antes de ser sentido, deve ser manifestado, mesmo que dilacerado, pois está aí a natureza de transformar-se. Como orvalhos naquelas mesmas pétalas, lágrimas sublinharam seus olhos, mas já eram de agradecimento, não apenas por ter sido salvo por uma flor, mas por ter se convertido em uma; e já era um minuto depois do meio dia…

ANIVERSÁRIO – ÁLVARO DE CAMPOS (FERNANDO PESSOA)

Era sábado, dia 10 de outubro de 1992, às 21 horas, no Centro Cultural da UFMG, em Belo Horizonte. Neste dia, minha mãe fez um buquê de flores para ornamentar o camarim onde eu e mais dois atores- Ademar Pinto e Cléber Andrade, estreávamos, pelo Grupo Intervalo, o espetáculo As Máscaras de Fernando Pessoa, dirigida pelo saudoso mestre, professor, amigo, conselheiro, pai das artes Ítalo Mudado…

A foto acima é de um dos ensaios no teatro de bolso do Teatro Universitário da UFMG – TU, no casarão da rua Carangola. E abaixo o programa com desconto para o espetáculo.

Resolvi compartilhar essa lembrança porque ela, assim como muitas, nos formam como pessoas e contam nossas histórias. Naquela época não existia redes sociais e eu estava muito longe de ter, inclusive, um computador em casa. Motivo pelo qual, os únicos guardados que eu tenho são esses registros.

Hoje temos mais recursos. E, por isso, deixo aqui um dos poemas que eu falava no espetáculo que, por coincidência(?) fala de lembranças…

Forte abraço!
Leandro Bertoldo Silva.

UMA CERTA DONA NICINHA

Ilustração de Adilson Amaral

Do livro O menino que aprendeu a imaginar, de Leandro Bertoldo Silva

Dona Nicinha era uma professora diferente. Se estivesse na sala de aula, tratava logo de organizar as carteiras em círculo. Preferia mesmo que as salas tivessem almofadas no lugar de cadeiras duras e desconfortáveis. Mas, vá lá… Nada que não se pudesse improvisar. Por isso mesmo, Dona Nicinha gostava mesmo era de dar aulas na praça ao som dos passarinhos ou mesmo na quadra da escola, onde tudo era motivo de tornar as aulas mais interessantes, ou surpreendentes, já que era uma professora de Geografia e não de Educação Física.

            Dona Nicinha tinha muitos alunos e gostava muito deles. A recíproca era verdadeira, pois os alunos adoravam a professora e seu jeito simples e diferente de os tratarem. Afinal, ela chegava perto deles e os ouvia com atenção…

Como dito, Dona Nicinha tinha muitos alunos, mas havia um em especial, um tal José de apelido “Desatento”. Acabou ficando conhecido como José Desatento. Ele não gostava muito de estudar. Até que Matemática ele gostava por ser uma matéria mais… Digamos… Absoluta, concreta mesmo. O negócio ficava complicado é quando ele tinha que imaginar… Não que ele não soubesse, pelo contrário, ele imaginava até demais. Aí sobrava exatamente para as aulas de Dona Nicinha. Como seria o tal fuso horário? Será que ele tinha ponteiros na ponta do nariz que indicavam as horas? E fuso horário tem nariz? Bem, deve ter. E ainda por cima deve combinar com os braços longitudinais e as pernas em latitudes de 15º, uma a leste e a outra a oeste…

— José, está prestando atenção?

— Estou fessora!

— O que eu disse, então?

— Que o fuso horário de tanto variar as horas e alternar o dia e a noite sem parar e a todo o momento, deve ter pegado um baita de um resfriado!

Pronto. Era gargalhada geral…

José Desatento não fazia por mal. Gostava de Dona Nicinha.

— Sabe o que é, fessora, eu não consigo entender esse negócio de geografia, sabe? Mapas, escalas… Daí eu começo a pensar e quando dou por mim já estou imaginando histórias…

Hummmm…. Já que José Desatento gostava de histórias, Dona Nicinha teve uma grande ideia! Propôs à turma uma aula na biblioteca da escola, em que deixou tudo muito bem preparado para levar a cabo seu intento. No dia seguinte, tudo combinado, os alunos dirigiram-se à biblioteca e estranharam, já que Dona Nicinha nunca havia se atrasado. Ao chegarem, viram que a biblioteca estava vazia. Entre os murmurinhos, risadas e brincadeiras que logo começaram a surgir, eis que uma voz exuberante, alta e vibrante se fez ouvir vinda de trás de um grande Atlas, cuidadosamente colocado em cima de uma das estantes bem ao alcance dos olhos das crianças. Os alunos logo perceberam que se tratava de mais uma invenção de Dona Nicinha, mas, seja como for, dessa vez estava muito real, pois a voz não parecia a dela e, ainda por cima, ela não estava atrás da estante. Dona Nicinha havia preparado tudo. Amarrara um microfone de tal maneira que não deixou à mostra nenhum fio que, passando pelos vários livros e estantes, permitia que ela falasse de outro lugar da biblioteca onde mantinha uma visão perfeita dos alunos sem que estes a vissem. Coisas de Dona Nicinha…

— Muito bem, crianças… Cheguem aqui perto de mim! Eu sou o Geógrafo e quero levá-los a uma viagem inesquecível! Mas… — começou a chorar. José Desatento achou aquilo fabuloso. Puxa! Um Atlas que fala! E ainda chora?! Como é que pode? Sua imaginação logo deu sinais de ação. Bingo! O plano estava dando certo… José colocou-se à frente do grupo e percebeu uma pocinha de água perto do Atlas (cuidadosamente colocada por Dona Nicinha).

— Ei, por que você está chorando? — perguntou José Desatento.

— Porque você não me usa! — disse o Atlas.

— Ah! Desde quando preciso te usar? Aliás, de onde está saindo essas lágrimas?

— Elas? São do oceano Atlântico! Tem também um pouco do Pacífico e um tantinho do Índico.

— Ai, ai! Você é maluco! Desde quando o oceano Atlântico, Índico ou Pacífico é feito de lágrimas?

— Desde quando você não percebeu que eu sou um Atlas!

Ilustração de Adilson Amaral

E assim, Dona Nicinha, ou melhor, Geógrafo, foi dando toda a aula do dia, pedindo ora um, ora outro que folheasse uma parte do Atlas à medida que ela ia explicando e fazendo os alunos “viajarem” em suas páginas.

José Desatento estava agora mais atento do que nunca. A cada explicação do Geógrafo, ele se imaginava numa verdadeira aventura. Em seus pensamentos, à medida que Geógrafo ia articulando as palavras, ele ia ficando pequenininho e descobrindo várias coisas viajando de um lugar a outro na companhia do novo amigo. De repente, estava lá na Espanha descobrindo várias coisas, mais precisamente as touradas e, também, que lá tem um dos times de futebol mais ricos do mundo. Isso ele gostou à beça, pois adorava vários esportes, principalmente futebol. Depois ele voltou aqui mesmo para o Brasil e viu que no Nordeste tem duas danças chamadas frevo e axé e, no Rio de Janeiro, tem o samba. Em Minas Gerais tem uma comida típica que é o feijão tropeiro, que os turistas adoram, e também o pão de queijo. Na Argentina conheceu uma dança muito querida pelos hermanos, que é o tango. Ficou sabendo que na Itália inventaram duas comidas deliciosas que ele adora: a pizza e o macarrão. E assim, ele foi conhecendo o mundo pelas páginas do Geógrafo como nunca havia conhecido.

No fim da aula, Dona Nicinha deixou seu esconderijo e fingiu entrar na biblioteca se desculpando pelo atraso. Os alunos até sabiam que se tratava de uma grande brincadeira, mas tudo tinha sido tão bem articulado e conduzido pela professora, que eles não quebraram o encanto. Contaram a ela o que tinham aprendido e a respeito do Geógrafo de tal forma e com tanta verdade, que ela mesma quase acreditou na própria história. Quem mais falava era José Desatento, que mostrava a cada frase um grande aproveitamento. Dona Nicinha ouvia tudo com atenção. Sentia-se satisfeita, pois achava que tinha conseguido tocar o coração de seus alunos, principalmente de José, e fazer com que ele encarasse a Geografia com outros olhos. A confirmação disso se deu uma semana depois, quando José, ao apresentar um trabalho, falou tudo o que aprendeu nas páginas de seu “amigo” Geógrafo. Falou tão bem que foi aplaudido pelos colegas e pela professora Nicinha. Ao soar o sinal para ir embora, Dona Nicinha juntou suas coisas e saiu da sala satisfeita. Quando foi virar o corredor, ela ouviu José gritando para ela:

— Valeu, Geógrafo!

Dona Nicinha nada falou. Apenas sorriu e foi entrar em outra sala para mais uma de suas aulas inesquecíveis…

MINHA DICA DE HOJE – O ENCONTRO MARCADO

Minha dica de hoje é um livro que, literalmente, marcou a minha vida: O encontro marcado, de Fernando Sabino. Esse livro que conta a trajetória de vida de um personagem em busca de si mesmo – Eduardo Marciano – é a busca que todos nós fazemos ao longo de nossa trajetória através de nossas escolhas.

Ambientada em uma Belo Horizonte dos anos 40, as referências sobrepõem-se ao tempo e constroem lembranças que também são minhas…

Forte abraço!
Leandro Bertoldo Silva.

“Ele faria da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro”
(Fernando Sabino)

LIVRO PRONTO – ADVERTÊNCIA

Em um vídeo anterior, falei da proposta literária deste que é o meu quinto livro publicado pela Árvore das Letras, através do selo Alforria Literária, e que você pode verificar clicando AQUI.

Neste, venho, com muita alegria, apresentar o livro e presenteá-los com a Advertência que abre estas histórias contadas pelo amigo Aarão Reis e recontadas por Xavier de Novais.

Assim diz Xavier:

Que Hipérion* possa me haver dado a alcova da escrita, para que neste matrimônio que muito me apraz, possa eu, Xavier de Novais, depois de ter vivido em tão encantadora cidade, ter o auxílio das boas almas de horizonte tão belo. Trata-se, em verdade, de uma narrativa em duas vozes: a minha e a dele, meu amigo, como se verá, embora a minha não seja mais que a dele, sendo eu apenas um portador dando notícias neste livro. Alguns acharão nele um romance; outros, contos, e outros, ainda, talvez nada. Mas, ai! Quanta coisa há de se encontrar por aqui…

Mas, antes de qualquer coisa, é preciso perguntar-lhes: caros amigos e caras amigas, vocês têm medo de fantasma? Sim ou não? Pois é… Durante algum tempo, hesitei, sem saber se deveria ou não levar esta história ao conhecimento de todos, ou melhor, estas histórias, pois foram muitas que meu amigo finado me contou. Sinto-me um tanto perplexo com a possibilidade de me acharem desviado das ideias e quererem me internar num manicômio, mas como fugir à realidade de ter sido escolhido o seu ouvinte? De fato, este que acabou por se tornar, para mim, um grande herói, escolheu-me. Hesitei, como disse, por um bom tempo, mas apenas o suficiente para encher-me de coragem e perder o medo do que as pessoas (inclusive o leitor e a leitora) poderiam dizer, e, então, respeitosamente dar-lhes uma bela e ostentosa “banana”. Não, não estou nervoso. É apenas um desabafo íntimo. É preciso convir que uma pessoa que recebe pontualmente, como se verá, a visita de um ectoplasma ilustre, com um gosto refinado para o café e um bom papo madrugada adentro e que, além disso, há um tempo guardava suas histórias, enquanto ainda questionava se deveria ou não contá-las, apesar de louco para fazê-lo, merece um instante de vazão. Caso contradigam-me, dizendo: “você é um louco”; “é um fanfarrão”; “não passa de um contador de histórias”, não tem importância. Medo já não tenho mais. Além disso, a propósito desse último xingamento, devo elucidar que seria injusto, pois histórias nunca soube contar, embora as aprecie. Eu apenas as escutava. Por sinal, eram muito bem traçadas, e até diria interpretadas, por meu amigo defunto, ou melhor, morto, pois defunto não era mais. Antes que eu me renda à tentativa de teorizar sobre a diferença entre ser defunto e ser morto, vamos à história, ou pelo menos parte dela.

Mas também, antes que a paciência lhes falte, o que seria extremamente triste para mim depois de pensar por tanto tempo se deveria ou não revelar estas histórias, vamos a três rápidas considerações: primeiro, a história em si não é de fantasma, como devem ter percebido, a história me foi contada por um; segundo, e eis o motivo de eu pensar que poderiam me achar louco, uma coisa é contar histórias de assombração, como nossos avós nos contavam e hoje fariam as crianças rirem ao invés de terem medo, outra é contar histórias contadas por um fantasma, isto é bem diferente. E a terceira é a que segue…

Xavier de Novais

*Hipérion significa o Alto: é o epíteto a Hélio, o Sol.

E assim inicia o livro que guarda muitas surpresas que, a partir de maio, estará à disposição dos leitores e leitoras. Mas disso eu falo em outra publicação…

Forte abraço!
Leandro Bertoldo Silva.

MINIMALISMO DIGITAL OU… TEMPOS FUTUROS

Por Leandro Bertoldo Silva

Há algum tempo, publiquei aqui neste blog um artigo intitulado somente “Tempo futuro”, iniciado da seguinte forma:

ALGUNS AMIGOS SABEM QUE DIMINUÍ CONSIDERAVELMENTE MINHA PRESENÇA NAS REDES SOCIAIS. PARA UM ESCRITOR INDEPENDENTE ISSO SERIA PÉSSIMO, CERTO? BEM, NEM TANTO! TUDO É UMA QUESTÃO DE PENSAR FORA DA CAIXINHA…

É incrível como pessoas, empresas e governos constroem seus alicerces, inclusive relacionamentos, não em bases sólidas, mas em castelos de cartas. Será que em algum momento realmente já pensaram que tudo o que edificaram pode, literalmente, desmoronar do dia para a noite? Que poder é esse e o que está por trás disso? Quais as consequências de uma vida assim?

Não pretendo responder a essas perguntas, mas lançar mão a uma reflexão.

Com o passar do tempo e a pandemia, vi crescer consideravelmente o uso das redes sociais e, embora até entenda a ocasião e a necessidade de se reinventar como profissional (eu sou escritor, mas o mesmo vale para você e o que você faz), como aluno ou mesmo de se sentir menos “isolado”, acredito que as coisas ainda podem ser diferentes ou, pelo menos, mais conscientes.

Bem, quando escrevi o referido artigo eu ainda não havia lido o livro Minimalismo Digital, de Cal Newport, por ainda não ter sido lançado no Brasil. Um tempo depois, eu não apenas li o livro, como tive a certeza de que eu não estava errado em já compartilhar das ideias revolucionárias de Cal, pois ele já havia sido responsável por fortalecer em mim, com suas palestras e pontos de vista, uma maneira de viver conectado, sim, mas com a realidade.

Uma coisa eu tenho que admitir… Eu estava engando! Diminuir a presença nas redes sociais não é apenas útil para escritores (lógico, sobra mais tempo para o principal: escrever), mas algo necessário para todas as pessoas que buscam por uma vida mais essencial.

Por achar o tema simplesmente extraordinário e ter tido experiências suficientes para confirmar a eficácia de sua veracidade e importância para lidar com “uma vida profunda em mundo superficial”, irei republicá-lo acrescido de novas experiências e, no final, de algumas passagens do livro que certamente farão você refletir.

Cal Newport

Mas antes, quem é Cal Newport? Cal é professor associado de ciência da computação da Universidade de Georgetown, é um escritor dedicado ao impacto da tecnologia na sociedade. Além de Minimalismo Digital, ele é o autor de Trabalho Focado (Alta Books) e mais quatro livros, e escreve regularmente artigos para seu popular site, www.calnewport.com.

Dito isso, vamos ao artigo que inicia com a seguinte pergunta:

COMO É A SUA RELAÇÃO COM AS REDES? ELAS TRABALHAM PARA VOCÊ OU É VOCÊ QUE TRABALHA PARA ELAS?

Muitas vezes o que pensamos ser a liberdade, o viver sem fronteiras, o estarmos conectados ao mundo é, no fundo, no fundo, o contrário do que acreditamos. Estou vivendo um momento de muita reflexão, se não quanto aos rumos em que a sociedade está caminhando no clássico “e assim caminha a humanidade”, pelo menos no bite que me cabe neste latifúndio. Estou me referindo às redes sociais, essa bolha na qual estamos cada vez mais imersos e segmentados e à necessidade que elas têm em minha vida. Aliás, este é o pensamento que me vem: até onde elas têm necessidade em minha vida? Não sei na sua, mas na minha é o que se segue.

Confesso que fiquei muito impactado com as ideias extraídas do livro Deep Work: Rules for Focused in a Distracted World, de Cal Newport, além de uma palestra do TEDx  do mesmo autor sobre as redes sociais, em que ele defende a total inutilidade dessas redes e o porquê todas as pessoas deveriam abandoná-las. Calma, sem radicalismo, mas a ideia é interessante. Impressionou-me ainda mais o fato de ser quem ele é: um Millenial, cientista da computação, escritor e que nunca teve uma sequer conta nas redes sociais.

Antes de citar alguns dos vários argumentos apontados por Newport, digo que cheguei até ele depois de um tempo considerável pensando sobre o assunto e assustado por me achar não pertencente ao mundo moderno. Mas como assim se aqui estou eu utilizando da internet para divulgar o meu trabalho?

Uma coisa é importante que se diga: internet e redes sociais são duas coisas completamente diferentes, embora muitas empresas bilionárias insistam em uni-las na tentativa de aprisionar a todos dentro da caixa ou mesmo de um grande buraco negro… “Quer ver um vídeo? Veja aqui! Quer saber sobre as notícias da sua cidade? Saiba aqui! Quer vender algo? Venda aqui!” Conhece algo assim? Qualquer semelhança não é mera coincidência… Opa! Onde está o mundo sem fronteiras? E se são os famosos e incompreensíveis algoritmos que determinam o que e quem eu vejo, não há liberdade nessa história, e isso, além de bizarro, me fez entrar em um profundo dilema. A propósito, esse nome deu título ao documentário “O dilema das redes”, exibido na Netflix, que mostra que os problemas de desinformação, discurso de ódio, polarização política, depressão é apenas a ponta do iceberg de problemas muito maiores.

Há algum tempo, sem mesmo conhecer as ideias de Newport, já havia tomado a decisão de fazer a experiência de desativar a minha conta no facebook por não estar mais me sentindo à vontade por lá. Por vários motivos que não cabem aqui agora, passei a achá-lo um lugar desagradável, inconveniente e a balança pesou muito para uma despedida e, sem me arrepender – pelo contrário, experimentei um enorme sentimento de alívio, liberdade e recuperação da minha autonomia e autoestima – os argumentos de Newport vieram ratificar a minha decisão. Para elucidar alguns, simulei uma conversa com Cal Newport a partir do que ele diz na palestra do TEDx e que você pode verificá-la clicando AQUI. Vamos lá!

Cal, O que as redes sociais realmente representam?

Cal Newport: “As redes sociais são apenas produtos, desenvolvidos por empresas privadas, amplamente financiados, cuidadosamente comercializados e projetados principalmente para capturar e vender suas informações pessoais e sua atenção para anunciantes”.

Mas, Cal, as redes sociais estão entre as tecnologias fundamentais do século 21. Rejeitá-las seria um ato de extremo arcaísmo…

Cal Newport: “As redes sociais não são uma tecnologia fundamental. Elas influenciam algumas tecnologias fundamentais, mas são melhores compreendidas como uma fonte repugnante de entretenimento, como máquina caça-níqueis, que te oferecem agrados brilhantes em troca de minutos de sua atenção e bites dos seus dados pessoais, que podem depois serem empacotados e vendidos.”

Está certo, cal, mas não posso abandonar as redes sociais porque elas são vitais para o meu sucesso. Se eu não tiver uma marca bem cultivada nas redes sociais, as pessoas não vão saber quem eu sou, não vão conseguir me encontrar, oportunidades não virão ao meu encontro e vou efetivamente desaparecer! (Essa é forte!)

Cal Newport: “Isso é uma bobagem. Na competitiva economia do século 21, o que o mercado valoriza é a habilidade de produzir coisas raras, valiosas, e rejeita, na maior parte, atividades que são fáceis de serem replicadas e que produzem pouco valor. Qualquer criança de seis anos com um smartphone pode criar um post viral… O mercado valoriza coisas raras. Se você conseguir extrair soluções que mudarão uma estratégia de negócio e atividades de alta concentração, produzindo resultados raros e valiosos, você criará as próprias oportunidades e as pessoas irão te encontrar independente de quantos seguidores você tiver no Instagram.”

Fim da simulação com respostas verdadeiras.

Esses e outros argumentos você pode conferir clicando no link da palestra. Muitos outros livros e profissionais ligados à tecnologia, ou não, foram me mostrando que a quantidade de pessoas que começam a despertar a consciência para uma nova forma de viver sem as redes, ou pelo menos repensando sua postura dentro delas, se reinventando frente a esse mar (in)navegável é muito maior do que eu presumia e que eu não estou assim tão sozinho como imaginava. Ufa, ainda bem, pois, afinal de contas, não estou querendo dizer que não devemos buscar por oportunidades e mostrar o nosso trabalho; o que estou querendo dizer é que não dependemos exclusivamente das redes sociais para isso, e nem devemos, pois, o que existe hoje, amanhã pode desaparecer.

Porém, um pensamento também me faz presente: sempre busquei viver bem na sociedade sem que eu precisasse me render às coisas fúteis da vida, acreditando ser possível vencer o grande desafio de estar no mundo sem me deixar influenciar pelo supérfluo, pelo que não vale a pena e me concentrar em coisas e pessoas valiosas. Também, e especificamente sobre o trabalho, não precisamos vendê-lo o tempo todo, mas compartilhá-lo como fonte de inspiração para as outras pessoas. E, se assim é na vida real, por que não na virtual? Esse pensamento não me fez querer voltar ao facebook, e o Instagram está indo pelo mesmo caminho, assim como o WhatsApp que, infelizmente, para continuar usando o app a partir de maio desse ano (era fevereiro, mas devido à alta rejeição prorrogaram o prazo) é preciso aceitar a nova política de “privacidade” imposta pelo facebook. Eu não vou aceitar. Como assim? Sem facebook? Sem Instagram?! Sem WhatsApp??!! Isso, então, significa um suicídio digital? Sinceramente acredito que não, mas é, sim, um adeus a Mark Zuckerberg. Há vida depois da curva. No final desse artigo, informarei onde e como estarei presente para não mais obedecer a uma filosofia que denominei – desculpe a expressão – “xixi de cachorro”. Se você tem um e sai para passear com ele, sabe que o amiguinho vive “marcando território” por toda parte que ele vai. Sim, é a sua forma de dizer: “passei por aqui” ou “estive aqui”. É assim que eu vejo as redes sociais, como o Instagram, por exemplo, para evitar a clássica máxima de que “quem não é visto não é lembrado”. Não vejo por aí. Há outras maneiras de se fazer presente, como se verá, e, mesmo assim, estabeleci uma regra pessoal que conta com três perguntas essenciais. Aí estão elas:

  • O que estou postando é relevante?
  • O que estou postando faz sentido para as pessoas ou só para mim?
  • O que estou postando é essencial e agrega valor ou é algo apenas para obter likes e, portanto, para satisfazer o meu ego?

Essas perguntas são mais pertinentes do que podem parecer. Está certo que o que eu posto nas redes – na sua imensa maioria sobre leitura – você pode até não gostar. Ninguém é obrigado a gostar de ler, de literatura e desse universo que tanto me encanta, mas uma coisa é indiscutível: fútil não é. Digo isso porque chega a ser inacreditável as coisas que vemos nas redes sociais, como fotos de xícaras de café em balcão de livraria, livros abertos (geralmente grossos; será que a pessoa leu?) com um gato em cima ou simplesmente a foto da própria pessoa no espelho – o maior e mais autêntico narcisismo – além da cegueira, pois, como diz Mia Couto: “cego é quem só abre os olhos quando a si mesmo se contempla”, sem contar os sem sentidos “quiz”: as dez coisas que eu comprei, os dez livros que eu li, as dez viagens que eu fiz, e por aí vai… E a pergunta se faz: “o que essas coisas mudam efetivamente para melhor a minha vida ou de quem quer que seja?”

Chega a ser assustador a quantidade desse descarte virtual e sem sentido impregnado na internet e, consequentemente, na vida das pessoas que ficam vulneráveis como se fossem grandes receptáculos de qualquer coisa.

Como sempre digo, não estou querendo influenciar ninguém, cada qual sabe onde a sua inteligência é melhor moldada e respeitada. Mas, por outro lado, também não é possível continuar apático a tanta barbaridade e não expressar o que sinto, até mesmo para alguns amigos entenderem minhas escolhas.

Dito isso, quero deixar aqui, como prometi, algumas passagens do livro Minimalismo Digital e convido-o a também fazer as suas reflexões. Para isso, acho fundamental transcrever o que vai na apresentação do livro:

O minimalismo é a arte de saber quanto é suficiente. O minimalismo digital aplica essa ideia ao nosso uso da tecnologia. Ele é o segredo para vivermos uma vida focada em um mundo cada vez mais caótico. Neste livro oportuno e esclarecedor, o autor do best-seller Trabalho Focado apresenta uma filosofia para o uso de tecnologia que já melhorou inúmeras vidas.

Minimalistas digitais estão ao nosso redor. São pessoas tranquilas e felizes, que estendem longas conversas sem olhares furtivos para seus smartphones. Eles se perdem em um bom livro, em um projeto de carpintaria ou em uma corrida matinal sem pressa. Divertem-se com amigos e familiares, sem o desejo obsessivo de documentar a experiência. Eles se informam sobre as notícias do dia, mas não se sentem oprimidos por elas. Não experimentam um “medo de perder alguma coisa”, porque já sabem quais atividades dão significado a suas vidas e lhes satisfazem.

Agora, Newport nomeia esse movimento silencioso e traz um argumento persuasivo para sua urgência em nosso mundo saturado de tecnologia. Dicas advindas do senso comum, como desativar as notificações, ou rituais esporádicos, como tirar férias do universo digital, não são suficientes para nos ajudar a retomar o controle de nossas vidas no que tange às tecnologias; e as tentativas de se afastar completamente são complicadas por cobranças de familiares, amigos e do trabalho. Diferentemente, precisamos de um método ponderado para decidir quais ferramentas usar, com quais objetivos e sob quais condições.

Com base em uma variedade diversificada de exemplos da vida real, de agricultores amish a pais aflitos e programadores do Vale do Silício, Newport identifica as práticas comuns de minimalistas digitais e as ideias que as respaldam. Ele mostra como os minimalistas digitais têm repensado sua relação com as mídias sociais, redescobrindo os prazeres do mundo off-line e se reconectando à sua essência por meio de períodos regulares de solidão. Por fim, ele compartilha estratégias para integrar essas práticas, iniciando com um processo de ‘faxina digital’ de 30 dias que já ajudou milhares de pessoas a se sentirem menos sobrecarregadas e com maior controle de suas vidas.

A tecnologia não é inteiramente boa nem ruim. O segredo é usá-la para viabilizar seus objetivos e valores, em vez de deixar que ela use você. Esse livro o ensina a fazer isso.

Não é interessante? Veja, agora, algumas passagens bem elucidativas…

PRODUTORES DE TABACO

“Bill Maher encerra todos os episódios de seu programa da HBO, Real Time, com um monólogo. Geralmente, os tópicos são políticos. Houve uma exceção, no entanto, em 12 de maio de 2017, quando Maher olhou para a câmara e disse:

Os magnatas das mídias sociais precisam parar de fingir que são deuses nerds amigáveis construindo um mundo melhor e admitir que são apenas produtores de tabaco usando ternos, vendendo um produto viciante para crianças. Porque, sejamos sinceros, verificar sua quantidade de ‘curtidas’ é a nova nicotina.” (página 9).

“Há sempre essa narrativa de que a tecnologia é neutra. E cabe a nós escolher como vamos usá-la. Isso simplesmente não é verdade… […] Querem que você a use de maneiras específicas durante longos períodos. Pois é assim que ganham dinheiro.” (página 10).

“Nem todos os minimalistas digitais rejeitam todas as ferramentas tecnológicas. Para muitos, a questão principal ‘será que essa é a melhor maneira de usar a tecnologia em prol desse objetivo?’ os leva a otimizar cuidadosamente os serviços que a maioria das pessoas usa sem muito critério.” (página 30).

“A conexão é ilusória. Terceirizar sua autonomia para um conglomerado da economia da atenção – como faz quando, inconscientemente, se inscreve em qualquer novo serviço que surge da classe de capitalistas do Vale do Silício – é o contrário de liberdade e provavelmente prejudicará sua individualidade.” (página 54).

“Quer você aceite ou não a filosofia de comunicação centrada em diálogo que proponho, espero que aceite sua premissa motivadora: a relação entre nossa sociabilidade profundamente humana e as modernas ferramentas de comunicação digital é tensa e produz problemas significativos em sua vida se não for abordada com cuidado. Você não pode esperar que um aplicativo criado em um dormitório, ou entre as mesas de pingue-pongue de uma incubadora do Vale do Silício, substitua com sucesso os tipos de interações ricas às quais nos adaptamos meticulosamente ao longo de milênios. Nossa sociabilidade é simplesmente complexa demais para ser terceirizada em uma rede social ou reduzida a mensagens instantâneas e emojis.” (página 149).

“Aqueles que estão comprometidos com o status quo digital podem considerar essa filosofia antitecnológica. Essa afirmação é equivocada. O minimalismo digital definitivamente não rejeita as inovações da era da internet, ele rejeita o modo como muitas pessoas atualmente se envolvem com elas. Como cientista da computação, ganho a vida ajudando a avançar na vanguarda do mundo digital. Como muitos na minha área, sou fascinado pelas possibilidades do nosso futuro tecnológico. Mas também estou convencido de que não podemos liberar esse potencial até que nos esforcemos para assumir o controle de nossas próprias vidas digitais – para decidirmos com confiança quais ferramentas queremos usar, por que razões e sob que condições. Isso não é reacionário, é senso comum.” (página 256).

Bem, fico por aqui fazendo meus os desejos de Cal de que as pessoas entendam que não sou contra a tecnologia – eu a tenho, eu a uso –, mas enxerguem de uma vez por todas que as redes sociais não podem jamais tomar o lugar do convívio presencial e real dentro de uma sociedade, transformando essa mesma sociedade em zumbis virtuais e ditando as regras dos destinos.

E para terminar, aqui está o que muitos dos meus amigos já estão a par:

A partir desse ano, estarei concentrando toda a minha presença e produção de conteúdo e divulgação em três lugares específicos:

Aqui neste blog da Árvore das Letras, que é o meu espaço próprio na internet, onde publico contos, artigos, reflexões como essa, poesias, dicas de livros, entrevistas e demais conteúdos literários.

O canal do Youtube, onde continuarei publicando meus vídeos de histórias e mediação de leitura, e direcionando, também, as lives que farei. ACESSE AQUI!

O Telegram, como contato direto com as pessoas (33)98437-0072, e no qual tenho um canal literário privado que pode ser acessado por este link: ACESSE AQUI!

Com isso, reitero que já não estou utilizando o facebook, e o Instagram está a caminho da mesma desativação, assim como o WhatsApp, o qual estarei usando até a nova política de “privacidade” entrar em vigor a partir de maio.

O motivo dessa ação é potencializar a literatura, quem realmente gosta de leitura e tem interesse por ela, ou queira ter, fazendo parte de um lugar com mais liberdade de escolha, de diálogos inteligentes e trocas respeitosas de opiniões, criando um sentido maior e mais assertivo em tudo isso. Gostaria de continuar tendo a sua companhia e presença pelos canais mencionados.  Se for do seu agrado, siga-os e compartilhe com pessoas que achar interessante.

Agradeço muito.

Despeço-me com mais um pensamento de Cal Newport que achei extraordinário:

“Se você está comprometido em criar impacto no mundo, desligue seu celular, feche as abas do seu computador, arregace suas mangas e vá trabalhar”.

E aqui cabe uma reflexão bem interessante retirada do livro:

você jamais conseguirá criar uma potência como o facebook se estiver o tempo todo no facebook…

Leve em consideração todas as outras redes sociais! Mas se tiver que usá-las para divulgar o seu trabalho, ok, use-as se for tão importante e impossível para você deixá-las, mas reserve a “cereja do bolo” para os blogs. Pense na possibilidade de alimentar um espaço que seja realmente seu, pois, sendo assim, é você quem manda na caixinha…

Forte abraço!

CANÇÃO PARA ÁLBUM DE MOÇA

Existem poesias que, por algum motivo, “pegam a gente” na primeira leitura. É quando acontece aquela velha máxima dos contadores de história: “não é você quem escolhe a história, mas a história é que te escolhe”. O mesmo, portanto, vale para a poesia.

Foi o que aconteceu comigo com essa poesia de Carlos Drummond de Andrade, e que deixo aqui para você ler e depois ouvir o quanto e como ela me tocou.

E como o mundo da poesia não é para ser nada explicado, mas sim sentido, vamos logo à ela

Forte abraço!
Leandro Bertoldo Silva.

Bom dia: eu dizia à moça
que de longe me sorria.
Bom dia: mas da distância
ela nem me respondia.
Em vão a fala dos olhos
e dos braços repetia
bom dia a moça que estava
de noite como de dia
bem longe de meu poder
e de meu pobre bom dia.

Bom dia sempre: se acaso
a resposta vier fria ou tarde vier,
contudo esperarei o bom dia.
E sobre casas compactas
sobre o vale e a serrania
irei repetindo manso
a qualquer hora: bom dia.
Nem a moça põe reparo
não sente, não desconfia
o que há de carinho preso
no cerne deste bom dia.

Bom dia: repito à tarde
à meia-noite: bom dia.
E de madrugada vou
pintando a cor de meu dia
que a moça possa encontrá-lo
azul e rosa: bom dia.

Bom dia: apenas um eco na mata
(mas quem diria)
decifra minha mensagem,
deseja bom o meu dia.
A moça, sorrindo ao longe
não sente, nessa alegria,
o que há de rude também
no clarão deste bom dia.
De triste, túrbido, inquieto,
noite que se denuncia
e vai errante, sem fogos,
na mais louca nostalgia.
Ah, se um dia respondesses
Ao meu bom dia: bom dia!
Como a noite se mudara
no mais cristalino dia!