O HOMEM QUE TECIA BOLSAS

Por Leandro Bertoldo Silva

Ele havia aprendido com a sua mãe que as bolsas servem para guardar histórias.

Elena aprendera desde cedo a arte da costura. Menina ainda e, naquele tempo, trabalhou em uma fábrica de sapatos. Como era muito pequena, era colocada pelos adultos dentro de uma caixa, onde separava os pares entre pequenos, médios e grandes.

Mas não eram os sapatos a ser a razão do que a acompanharia pelo resto de sua vida.

Com o tempo aprendera a cortar, e aqueles pedaços de retalhos de couro que diziam não servirem para nada, eram emendados um no outro com desenvoltura pela menina que fez nascer de suas mãos de criança uma linda e encantadora bolsa.

Todos ficaram maravilhados com o prodígio de Elena. Mas o que ninguém sabia é que não era o couro a preencher o coração da menina, mas a linha. Era com ela, em laçadas mágicas em pontos e costuras, que o tempo passou para ela, deixando pelo caminho de sua existência centenas de bolsas tecidas de todos os tipos: grandes, pequenas, brancas ou pretas, de adultos e crianças a serem preenchidas com histórias, histórias que nem mesmo ela sabia que tinha, mas continuava, ano após ano, tempo após tempo, linha após linha a tecer, tecer e tecer.

Antes que Elena partisse, as pessoas imploravam: “vende as bolsas, Elena!” Mas Elena não vendia. Seus próprios filhos e netos não entendiam e também pediam. Seus amigos repetiam palavras ao vento: “vende as bolsas, Elena!” Mas Elena não vendia, apenas dizia: “Eu sei o momento”.

Elena passou como o tempo. E o “momento” ninguém sabia, ninguém via. Seus cabelos brancos e finos que um dos seus filhos tão bem conhecia, ficou na lembrança de uma saudade que doía. O filho, agora homem feito, recordava do dia que sua mãe, pouco tempo antes de partir, abrira na cama todas as bolsas e as mostrava uma por uma. E agora lá estavam elas guardadas pela casa: bolsas de todos os tipos e cores, lisas, felpudas, abertas, fechadas, com cascas, almíscar, fechos e presilhas.

Para as pessoas era apenas um tempo perdido, um trabalho em vão. Mas para o filho que aprendeu a observar, cada bolsa era um afago de existência. Ele vira a mãe tecer muitas delas e trouxe à memória de como as suas mãos pareciam não segurar a linha e a agulha, mas a magia do invisível que logo se formava em mais uma reminiscência. Viu a bolsa de linhas azuis e lembrou de quando  ela o apresentou ao mar pela primeira vez; vira-a tantas vezes em volta de linhas amarelas a tecer o sol para aquecer o dia; afagou a bolsa bebê e imaginou como teria sido o dia em que ele mesmo dera os primeiros passos. Cada ponto, cada laço, do primeiro ao último, contava histórias. E ele estava ali com todas elas a sua frente. Mas as mãos de sua mãe não mais teciam, descansavam no silêncio que já não mais existia.

Com o tempo, sempre o tempo, uma aglomeração de vozes foi se formando. Para todos os cantos, para todos os lados, o filho parecia ouvir uma legião de pessoas, colecionadores, curiosos, palpiteiros a clamar: “vende as bolsas, Elena!” Mas Elena, agora ele próprio, não vendia. O que ele fez, porém, ninguém podia imaginar. Ele chamou as pessoas e dispôs todas as centenas de bolsas a frente delas, assim como sua mãe lhe havia feito. E foi aí que o “momento” que Elena tanto esperava, aconteceu.

O homem começou a abrir bolsa por bolsa diante da multidão que se aglomerava como num teatro. Curiosamente, à medida que eram abertas, o lugar se poetizava em afinidades. Ao abrir a primeira bolsa, um som suave de canção de ninar tomou o coração dos filhos que ali se encontravam a lembrar dos pais. A segunda fez surgir o aroma delicioso das manhãs de domingo quando o café coado exalava o gosto de bom dia. Da terceira saiu o barulho da chuva na telha de barro quando o sol dava lugar a outros espetáculos. Lembrou também de um livro que lera, onde o tempo era guardado em uma caixa e as palavras dançavam em sua mente… “Na caixinha iam parar a folha da árvore que caía, a gota da chuva que chovia, o medo que ela escondia, os bilhetes que ela escrevia, os desenhos que ela fazia, um tempo que ela sabia que não perdia, a imensidão dos sentimentos que ela vivia e a história da vida que ela tecia”. Mas ele tinha mais do que caixas; tinha bolsas tecidas à mão, as mãos de Elena, as mãos de sua mãe, que estava certa, afinal.

Que momento sublime ao mostrar que o mundo é efêmero e que os afetos precisam de um lugar para morar. Agora sabia. Elena desde cedo tecia não objetos, mas abrigos seguros para acolher os deslumbramentos de um primeiro beijo, as alegrias das famílias em noites de festa, as dores dos que perdiam seus entes queridos, os medos e descobertas da primeira infância, o perdão entre gerações. Cada bolsa era uma casa; cada casa uma vida na imensidão dos dias.

O homem então convidou um a um a se aproximar, e cada qual, ao abrir pela ressonância a sua bolsa, encontrava suas histórias e o que lhe definia. Saía feliz. Até que ele mesmo abriu a sua, uma bolsa simples lhe dada de presente pela própria mãe. Ao abri-la, encontrou a saudade. Essa apertava tanto! Mas junto dela encontrou também um desejo imenso do amanhã a partir do qual ele também começaria a tecer.

A MEMÓRIA É UM “PRESENTE” QUE ATRAVESSA O TEMPO

Por Leandro Bertoldo Silva

Você Já pensou na importância da memória nas nossas vidas? Por que a memória é essencial para quem somos?

Ela é como um fio da mais tênue linha a costurar nossa existência no espaço e no tempo. Não apenas guarda lembranças, mas sustenta tudo aquilo que somos.

Ao recordar lembranças, momentos vividos, experiências e afetos, passamos a nos reconhecer em tudo isso, no que chamamos vida.

É a memória que nos devolve os anos passados desde a infância a embalar saudades. O cheiro da chuva misturado à terra nas brincadeiras de rua, o aroma gostoso da comida feita por mãos queridas, a voz de alguém que já não podemos ouvir a não ser pelo coração… Tudo isso é como uma trilha amorosa a nos conduzir pela oportunidade de construir nossa identidade.

A memória é guardiã das histórias, não apenas pessoais, mas coletivas. É o relicário das conquistas, das lutas de um povo, das dores e esperanças, que também fazem parte da evolução das almas. Esquecer seria como cortar as raízes de uma árvore: ela pode até permanecer de pé, mas não mais florescerá…

Portanto, preservar a memória é um ato necessário de amor. É acolher o olhar contra o esquecimento que silencia. É afagar o que fomos pelo que somos e ainda seremos aos olhos de alguém.

E quando tudo isso se perde? Perde-se junto uma existência. Não há de ter realidade mais triste do que essa.

Por isso a necessidade de contar histórias, de guardar afetos, de registrar nos álbuns da vida cheiros, cores, sabores de momentos sublimes: uma fotografia que recorda, uma xícara de chocolate quente, uma risada solta e alta, um abraço de aniversário, sorrisos de amizade…

Onde você guarda suas memórias?

Um dia não estaremos mais aqui, como hoje não está tanta gente que amamos, mas podemos deixar a identidade do que foram e de quem somos. Lembrar é não permitir que a chama se apague, é renovar sempre a permanência de alguém em nós e de nós em alguém.

Permita-se, pois, a recordar. Brinque com suas lembranças e não as tenha como algo a machucar. Antes, pense nelas como a oportunidade merecida de ter vivido. Se tem memórias de alguém é porque esteve com esse alguém.

Lembre-se: a memória é um PRESENTE que atravessa o tempo…

Para ilustrar essa reflexão, indico 3 livros:

Guilherme Augusto Araújo Fernandes, literatura infantil escrita por Mem Fox, ilustrado por Julie Vivas e traduzido por Gilda de Aquino, da editora Brinque.Book.  Um livro sensível, onde a memória, essa questão aparentemente complicada, é tratada de forma simples e carinhosa, através da visão de uma criança.

Os Esquecidos de Domingo, de Valérie Perrin, que nos convida a olhar para essa realidade com mais sensibilidade. Ambientado em um lar de idosos, o romance aborda o envelhecimento sob uma perspectiva delicada e profundamente humana. Ela destaca a preservação de memórias, histórias e afetos que insistem em sobreviver ao tempo.

Para sempre, Amanhã, livro de minha autoria, que vem dialogar com as nossas memórias em uma mescla de realidade e ficção e mostrar a importância de registrar histórias. Escrito em crônicas e contos e baseado no pensamento de Mia Couto de que “um bom livro acaba por nos empurrar para a escrita”, o livro convida não apenas à leitura, mas também ao desejo de escrever as próprias memórias.

Forte abraço e até a próxima!

O BARCO DOS SONHOS

Por Leandro Bertoldo Silva

Imagine um sonho em que fosse possível atar as duas pontas da vida, onde o longe e o perto fosse como atravessar um rio, o mar ou uma rua…

A vida passa muito depressa… Em um momento nascemos, mantemos nossas vidas de crianças e brincadeiras, em outro já somos jovens, adultos, velhos (no melhor sentido da palavra velho).

O que você tem feito da vida? Suas escolhas te justificam?

Se fosse possível voltar no tempo, o que faria diferente? E se fosse possível ir adiante em apenas um dia, o que gostaria de encontrar?

Essas são perguntas que muitas vezes povoam nossas mentes, mesmo que nem sempre temos respostas para elas ou, se temos, elas continuarão existindo, e é bom que seja assim.

A vida é uma constante viagem onde o perto e o longe faz morada em nossos corações. Para realizar essa viagem, muitas vezes basta um automóvel, um avião, um barco. Ou o sonho da viagem. Entre a cidade sem praias e o mar sem edifícios, viajam mensagens, viajam pessoas, viajam imagens…

Gosto muito dos livros de imagens porque são palavras não escritas que o nosso coração reconstrói. Hoje quero trazer um desses livros com um simples, mas significativo convite: embarque nos sonhos sugeridos pelas imagens e sons e imagine-se tendo a oportunidade de enviar para você mesmo/mesma uma mensagem…

Primeiro, pense em você criança. O que diria para você mais velho? Quais perguntas faria? A partir das suas perguntas, pense em você mais velho. Quais respostas daria?

Quem sabe você pode registrar suas descobertas e guardá-las para você?

Para ilustrar tudo isso, compartilho um lindo livro: “O barco dos sonhos”, de Rogério Coelho, da Editora Positivo, de uma maneira muito especial. Recomendo usar fones de ouvidos.

Um ótimo dia e uma ótima “leitura”…

O HOMEM QUE CONTAVA HISTÓRIAS

Por Leandro Bertoldo Silva

Talvez uma das características mais marcantes dos seres humanos é a capacidade de contar histórias. Temos necessidade delas. Não seria exagero dizer: são as histórias a nos manterem vivos, pois a falta delas representa a falta da existência.

Quando contamos histórias damos vazão a nossa voz interna, aquela parte de nós que necessita expressar-se, mesmo quando o mundo parece não escutar.

Contar histórias, seja falada ou escrita, é uma forma de não silenciar a alma, de dar continuidade à própria narrativa, mesmo diante das indiferenças.

Quantas vezes deixamos de falar o que sentimos ou mesmo escrever o que queremos apenas porque os outros “não escutam ou leem”?

É preciso saber que as histórias nos convidam a alcançarmos a autenticidade, não como forma de sermos reconhecidos, mas como forma de permanecermos inteiros.

Paradoxalmente, são nos momentos de solitude que alcançamos o sentido essencial de nossas vidas. Portanto, contar histórias passa a não ser mais para e sobre o outro, e sim para preservar a nossa própria humanidade.

Mesmo quando temos a sensação de não sermos ouvidos, seguir falando, escrevendo e criando é manter acesa a chama do (ser) humano.

Isso muda completamente o foco do fazer (para fora) para o ser (para dentro). Não é mais contar ou escrever para mudar o mundo, mas para não ser mudado por ele.

Tem uma história que ilustra perfeitamente esse pensamento. Como ela é curta, irei transcrevê-la aqui.

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Era uma vez um homem que, cansado de ver as pessoas de sua cidade sempre tensas, angustiadas e tristes, resolveu fazer algo por elas.

Como sabia de cor lindas histórias, sentou-se num banquinho no meio da praça e pôs-se a contar e a contar…

E assim o contador de histórias passava os seus dias…

A princípio, algumas pessoas paravam para ouvi-lo, curiosas. Mas só ficavam um pouquinho, pois tinham muita pressa, seu tempo era curto!

Mesmo assim, o homem não desistia: todos os dias, punha o seu banquinho na praça e contava as suas histórias repletas de fantasia.

O tempo passou…

Um dia o contador de histórias narrava, para uma plateia inexistente, uma maravilhosa fábula, quando um garotinho, puxando-o pela manga, interrompeu-o:

— Ei, tio! Será que você não percebeu que não tem ninguém ouvindo? Por que você insiste em contar essas histórias?

Então, o sábio homem respondeu:

— Olha, meu filho, antes eu contava histórias pensando em mudar o mundo; hoje, eu conto histórias para que o mundo não me mude…

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*Esta é uma história da tradição judaica que está no livro “O Homem que contava histórias”, de Rosane Pamplona e Sônia Magalhães.

Bem, acredito ter ficado clara a necessidade de continuarmos a contar histórias…

E você, qual história está contando na vida?

Um forte abraço e até a próxima.

O TEMPO QUE ESCOLHEMOS GUARDAR

Por Leandro Bertoldo Silva

Vocês já pararam para pensar na importância do tempo em nossas vidas?

Vocês conseguem valorizar cada momento para além da pressa cotidiana?

Muitas vezes o nosso dia a dia não nos permite perceber a grande obra da natureza, ou seja, nós mesmos dentro de um contexto de mudanças e transformações.

Por quantas coisas passamos, quantos momentos vividos… Se pensarmos que cada um deles nos forma como pessoa e é responsável pela nossa transformação, é salutar guardarmos na memória um pouquinho de cada dia.

Esse “guardar” oportuniza a conexão com nossas emoções e nossas memórias afetivas, fazendo com que organizamos sentimentos e experiências, abraçando não apenas o que é alegre, mas também o que traz saudade.

Quando revistamos nossas memórias afetivas sabemos o que é importante para nós. Porém, é preciso reconhecer o valor do passado sem se prender excessivamente a ele. O melhor é enxergá-lo com ternura para celebrar o presente e se preparar para o futuro.

Com tudo isso, deixo uma reflexão:

Quais memórias você guardaria e por quê?

Para inspirar sua reflexão, deixo também aqui abaixo a narração da história “Caixinha de guardar o tempo”, escrita pela Alessandra Roscoe e ilustrada por Alexandre Rampazo. Quem sabe, ao ouvir essa história, você também não sentirá o desejo de fazer como Sofia?

Forte abraço e até a próxima!

ONDE OS OLHOS ÀS VEZES NÃO PODEM ALCANÇAR

Por Leandro Bertoldo Silva

Você já deve ter ouvido a seguinte frase: “Um rio não passa duas vezes no mesmo lugar” ou “ninguém entra duas vezes no mesmo rio”.

Essa frase é atribuída ao filósofo grego Heráclito, que enfatiza a impermanência e a transformação inerente à natureza humana.

Nunca somos as mesmas pessoas de um instante anterior, estamos sempre em transformação. Assim é a vida.

Por isso, não devemos nos inquietar se algo não está acontecendo da forma que gostaríamos. Às vezes tudo que precisamos fazer é deixar as águas passarem até que tudo mude. É também como abrir as janelas da nossa existência e deixar que mudanças ocorram.

A natureza é sempre uma excelente fonte de observação. Considere, por exemplo, as borboletas… Elas são símbolos de transformação no clássico arquétipo da metamorfose. As borboletas sugerem que podemos emergir de um estado de isolamento (casulo) para estarmos no mundo (liberdade) de uma forma mais integrada, sem exigir rupturas radicais. De novo, lembremo-nos da água, ela simplesmente passa pelos obstáculos mansa e calmamente.

Transformar é mudar e para que mudanças ocorram dentro da gente é preciso sensibilidade, paciência e muita persistência.

Muitas vezes queremos que as mudanças sejam rápidas, de uma hora para outra, e nem sempre é assim que acontece. É preciso o tempo das esperas. As mudanças verdadeiras acontecem nas sutilezas, onde os olhos às vezes não podem alcançar, mas o coração se preenche de verdades.

Onde está a verdade do seu coração? O que você gostaria de transformar ou ter transformado em sua vida?

Para ajudar nessa reflexão, apresento a história de minha autoria “A menina que fazia borboletas” que fala de Silvinha, uma menina autista que, por essa razão, vivia sozinha e sem amigos, a não ser um menino que sempre a visitava. Embora ele tentasse se comunicar com ela, não obtinha sucesso, mas continuava ao lado dela na companhia do silêncio. Assim eram todos os dias, até que numa manhã uma borboleta entrou voando pela janela do quarto e algo incrível aconteceu…

Ouça essa história na linda narração de Pierre André.

Um forte abraço e até a próxima.

O POETA DA PÁTRIA EM RASCUNHO

Por Tomé Nasapulo Kapiãla

O militante é um poeta de capacete, escreve versos com as mãos sujas de realidade e os bolsos cheios de sonhos. Não rima por vaidade, rima por necessidade: cada estrofe é um “deveria ser” lançado contra o muro teimoso do “sempre foi assim”. Já o cidadão é o leitor desses poemas públicos, lê-os nas paredes descascadas, nas filas intermináveis, nos discursos mal pontuados. Uns leem em silêncio, outros sublinham com raiva, há quem dobre a página e finja que não viu, mas todos, sem exceção, vivem dentro do livro.

A militância nasce quando o poeta se cansa de escrever só para a gaveta e resolve declamar na praça. É nesse instante que o sonho vira barulho e a metáfora vira incômodo. Porque sonhar, neste País, é actividade suspeita: quem imagina demais acaba acusado de desrespeito à realidade, como se a realidade fosse uma senhora frágil que não suporta ser contrariada.

A cidadania, por sua vez, chega com manual de instruções: pode usufruir, mas não questione; pode reclamar, mas baixinho; pode sonhar, desde que não acorde os outros. E assim, o cidadão é convidado a ser leitor obediente, nunca coautor. Aplaudir o poema é permitido, corrigir o verso é quase crime.

Mas todo poeta sabe, e todo leitor atento desconfia, que um poema só se completa quando é lido com espírito crítico. Do mesmo modo, uma pátria só amadurece quando entende que crítica não é ofensa, é revisão ortográfica do futuro. O erro não está em quem aponta a falha, mas em quem insiste em chamar rascunho de obra final.

No fundo, militantes e cidadãos partilham a mesma página. Uns escrevem com urgência, outros leem com esperança. O problema começa quando o editor, essa entidade invisível chamada poder, decide censurar os versos e acusar o poeta de antipatriótico, esquecendo-se de que não há pátria sem poesia, nem progresso sem quem ouse imaginar diferente.

E assim seguimos: poetas a construir a realidade com sonhos, leitores a aprender que ler também é um acto político. Porque, mais cedo ou mais tarde, todo leitor consciente percebe que não basta virar a página, é preciso ajudar a escrever o próximo capítulo.

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Emílio Tomé Cinco Reis de pseudónimo literário Tomé Nasapulo Kapiãla, angolano, natural da província do Huambo, planalto central, licenciado em Geologia faculdade de ciências naturais, universidade pública, Agostinho Neto. É professor do ensino secundário do 2° ciclo do Liceu Público N° 4019 ex-IMNE de Cacuaco “24 de Junho”, lecciona a disciplina de Física e dirigente comunitário da comunidade dos Imbondeiros Cacuaco, província de Luanda.

COMO ENCONTRAR O AMOR?

Por Simone Kelly de Oliveira

Será que ele tem a mesma sensação de esperar alguém com muita saudade no aeroporto, depois de uma longa viagem? Alguém que vai sair do portão de desembarque, te abraçar, e aquele abraço faz o seu coração vibrar… 

É sobre encontrar a árvore do desejo e pedir o fruto do amor? 

Mas eu pergunto a você: o amor tem várias características? A vivência humana precisa de amor em todos os relacionamentos. E, sobre relacionamento, há um muito polêmico: o entre cônjuges. 

Ah, lembrei-me de uma obra de muito sucesso, intitulada — Os Homens são de Marte, as Mulheres são de Vênus —. Por isso se distinguem demais. Será? 

Para mim, homens e mulheres não pertencem totalmente a planetas diferentes, porque, no fundo, todos só querem amar e se sentir amados. 

Pois é natural que o amor ofereça afeto, carinho, ternura e tudo de agradável que ele pode dar. Mas há também as lutas, as diferenças, as dores terrenas que ele — o amor sublime — pode superar, porque “o amor tudo suporta”. 1 Coríntios 13:7, Bíblia Sagrada: “O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. 

Então, o amor, na verdade, é uma lição de aprendizado e depende do valor que você dá diante das circunstâncias. 

Mas ele é plenitude, fascinante. E deve ser por isso que, no fundo, para alguns é tão difícil conjugar o verbo amar. 

Talvez não haja resposta para essa pergunta que eu possa afirmar. Quem sou eu para tal julgamento apontar? Pois há na vida experiências que cada coração pode analisar. 

Mas o que importa, no fundo de nossas almas humanas imperfeitas é estar nos braços do verdadeiro verbo amar. 

Talvez não seja fácil percebermos, talvez não seja fácil encontrar. E creio que, certamente, a maioria quer se abrigar onde ele está. É a estrada onde muitos querem chegar. 

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Simone Kelly Costa de Oliveira do Nascimento nasceu em Belém (PA).Professora de Língua e Literatura Portuguesa, do Ensino Fundamental e Médio, graduada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em Letras Língua e Literatura Portuguesa, pós-graduada em Educação Especial e Psicopedagogia. Acadêmico Efetiva Imortal ALSPA, Academia de São Pedro da Aldeia -RJ. Recebeu a honraria “Mérito Acadêmico Charles Dickens ALSPA”, Academia de Letras São Pedro da Aldeia -RJ.

O NASCIMENTO DE UM POEMA

Por Saiory Gutierrez

Pouco se fala sobre o bloqueio criativo de um escritor, que tem muito a escrever, mas não sabe por onde começar. Durante um dos eventos de Biblioterapia mediado pelo Leandro —  por acaso, o dono desse blog — que participei, ele desenvolve uma dinâmica interessante para a escrita, onde nos inspiramos na escrita de outros autores, fazendo um quebra cabeça de palavras, mas que no fim, se torna uma poesia.

“Lábio;

As lágrimas que choro, branca e calma, ninguém as vê brotar dentro da alma;

Em que espelho ficou perdida minha face?

Me dê a coragem de viver 365 dias e noites, todos vazios da tua presença.

Azul, Magenta, Laranja.

Lágrimas Ocultas;

Retrato;

Meu Deus, me dê coragem!

Coragem, plenitude, êxtase,

Amargo, Olhos, Face,

Cismar, grave, brandura.

A arte liberta aquilo que não somos capazes de dizer.”

Esse foi um texto simples que produzi em um desses momentos de Biblioterapia, que pode parecer simples à primeira vista, mas para mim, que o escrevi e escolhi cada parte do texto, fica visível as emoções que senti em cada palavra! Dessas “simples” palavras consigo exprimir novos textos, poemas e sentimentos. Nascemos para sentir e expressar nossos sentimentos com a arte! Que no meu caso, é a escrita e a música, mas no seu caso pode ser o desenho, a pintura, ou até mesmo artes marciais! Não se deixe esquecer do que nascemos para fazer! Não se esqueça dos seus hobbies, dos seus gostos, e principalmente, da sua essência! Viva a arte em toda a sua grandeza.

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Saiory Gutierrez é estudante do ensino médio, se formando em Gestão Empreendedora integrado ao Ensino Médio, militante feminista pelo Levante Popular da Juventude, presidente do Grêmio Central do IFNMG e uma grande estoica! Expressa profundamente suas emoções através da arte!

A LINDA ARTE DO SONHAR

Por Ricardo Albino

Certa vez, perguntaram a um cego : Como é que você sonha ?

Ele respondeu:

“Sonho como todo mundo, só não vejo.”

Como uma pessoa com deficiência física e visual acho importante contar uma coisa que muitos não sabem.

Existe uma diferença entre o cego e deficiente visual. O primeiro não enxerga nada e o segundo tem baixa visão, também conhecida como visão subnormal, o meu time na vida.

E o que impede o cego e eu de sonhar? Nada, graças a Deus! Até o momento, sonhar é de graça, não se paga imposto e faz cada dia ter mais graça de viver. Sonhar é um exemplo de patrimônio imaterial da humanidade mais democrático, acessível e inclusivo que eu conheço. Não tem barreiras arquitetônicas que impeça um cego de enxergar até a cores, um deficiente físico de andar sozinho sem aparelho ou bengala nem um cadeirante de voar longas distâncias sem cair.

Sabem como isso é possível?

Dando asas a imaginação. É assim que todo ser humano do mundo renova amor no coração e acorda com fé que o sonho bem sonhado, ainda que demore um tempo — no tempo certo do bem — será objetivo realizado.

O sonho não tem preconceito, não faz pouco caso, não faz fila preferencial nem exige laudo ou credencial para estacionar do lado esquerdo do peito de alguém. Cabe apenas aos passageiros da esperança, seguir nos trilhos do maquinista Divino que guia o trem da história ao ponto final da missão abençoada que todo sonhador de corpo e alma sabe que tem.

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Sou Ricardo Flávio Mendlovitz Albino. No mundo da contação de história todos me conhecem por Ricardo Albino. Tenho 47 anos, nascido e criado em Belo Horizonte, jornalista formado em 2006, pelo Centro Universitário de Belo Horizonte – UNI BH, contador de histórias formado pelo Instituto Cultural Aletria, em 2015, criador da página Ricontar Histórias, em 2017, e do canal de mesmo nome no You Tube, em 2021. Cadeirante, idealizei no canal o podcast Ricontar para unir histórias, meu amor pelo rádio, acessibilidade e inclusão.