Por Leandro Bertoldo Silva
Quarta Literária – uma conversa para pensar, aprender ou experimentar.
Eu costumava acreditar que, para ser feliz, precisava de muitas coisas… Encontrar alguém, ser reconhecido, ter determinado trabalho, ter uma família, ser aceito, alcançar determinado objetivo, deixar de cometer erros, agradar determinadas pessoas e, principalmente, ganhar mais dinheiro.
Se formos pensar, não sou eu que costumava acreditar nisso, mas o mundo inteiro. Em algum lugar, em algum momento, essa condição, ou essas condições de felicidade, foram nos passada e a perpetuamos por gerações inteiras.
Por que será que tantas vezes acreditamos que precisamos disso tudo para nos sentirmos mais inteiros? Estamos sempre à procura da “parte que falta”.
Confesso que acho tudo isso muito cansativo. Lembro-me do Jorge, o personagem do meu primeiro livro — Janelas da Alma: uma tempestade íntima, um conflito, um retorno — e de como ele saiu em busca do direito de “não ser perfeito”.
Porque é isso mesmo que acontece: vivemos uma obrigação por ser feliz e a felicidade está sempre atrelada a todas essas questões. Se fosse só isso, estava tudo bem. Era só seguir com as nossas dores e as nossas faltas. O problema é que quase sempre envolvemos outras pessoas nessa busca desenfreada. E aí a história é outra…
Você já parou para pensar sobre o que colocamos sobre os ombros de uma pessoa quando a transformamos na nossa “parte que falta”, ou o que acontece quando esperamos que o outro resolva uma falta que é nossa?
Certamente, disso não virão boas coisas.
Então, comecei a pensar… Será mesmo que precisa ser assim? Talvez não precisamos encontrar uma parte que falta.
Talvez precisamos apenas nos conhecer melhor; talvez precisamos parar de nos cobrar tanto, aceitar que nem tudo precisa estar perfeito e completo, aprender a estar com a gente mesmo e, principalmente, deixar de procurar no outro aquilo que não oferecemos a nós mesmos.
Não sei quanto a você ao ler, mas ao escrever isso, sinto as coisas tornando-se mais leves, como se eu passasse a perceber que muito do que eu procuro fora já, há muito, está dentro de mim. Como a alegria de ler um livro sentado em um banco de praça em um domingo a tarde, a permissão em sentir o cheiro da chuva na terra molhada ou observar um arco-íris quando ninguém parece enxergá-lo. Ou, quem sabe, como no livro cujo título deu nome a essas palavras que dirijo a você — A Parte que Falta —, de Shel Silverstein, deixar que uma borboleta pouse delicadamente em você.
Começo a perceber que existe grandeza nas pequenas coisas. Que há diferença entre precisar de alguém e escolher estar com alguém. Eu sei que passei muito tempo na procura e talvez você também tenha passado. Quanto a mim, sei que muitas coisas não vou encontrar. E quer saber? Está tudo bem. Aprendi que muitas vezes é possível estar incompleto, e ainda assim me sentir inteiro…
Por isso, fico com nosso poeta maior em seu Poema de Sete Faces, ao dizer:
Quando nasci, um anjo torto
Desses que vivem na sombra
Disse: Vai, Carlos, ser gauche na vida…
Quero ser assim…













