AS GRADES DA LIBERDADE

Por Luciana G. Rugani

De vez em quando, o presente costuma me levar ao passado e, do nada, chegam até mim lembranças de tempos atrás, quais sejam: fatos, objetos, pessoas ou até mesmo a recordação de cada espaço de antigas residências nas quais vivi.

Dias atrás, uma dessas lembranças foi sobre as grades de ferro pintado que havia nas janelas do apartamento onde vivi quando criança. Lembrei-me da fala de minha mãe sobre as grades: “Elas são fortes, não soltam. Foram bem instaladas e chumbadas pelo vovô”. Ela se referia ao meu avô, pai de meu pai, que era um gênio na criatividade e nos segredos da construção civil.

E eu lembro que, de fato, as grades eram fortes! Eram de ferro, porém pintadas de cinza chumbo e, por isso, não enferrujavam. Eram compostas por, talvez, umas dez hastes horizontais e duas verticais, fora as laterais. Em todos os quartos e na sala elas estavam presentes. Morávamos no terceiro andar e elas eram a única possibilidade de garantir nossa segurança, pois ainda não existiam as telas de proteção.

Lembrei-me da segurança que eu sentia ao sentar na beira das janelas, ou ao colocar um travesseiro na beira e ali ficar deitada admirando a paisagem da cidade. Lembrei-me de como as grades permitiam que as janelas ficassem mais bonitas com a presença dos vasos de flores que minha mãe costumava organizar, afinal, se não fossem elas, não seria possível a presença de vasos ali em razão do grande risco de queda.

Em meio a essas lembranças, eis que chega a luz de uma reflexão: às vezes, os limites nos permitem ser mais livres do que seríamos na ausência deles.

Foi quando observei que hoje, por exemplo, quando vivo em um apartamento cujas janelas não têm grades, não podemos sentar no beiral, ou nos estirarmos nele com segurança para observar a paisagem. Não temos as hastes nas quais às vezes nos agarrávamos e nos imaginávamos quase a voar, ao colocarmos o rosto entre elas para tudo olhar, nos sentindo como parte de toda a amplidão daquela vista. Não podemos também ter janelas floridas, pois não temos, nas janelas, espaço com segurança para colocarmos sequer um vaso.

Os limites podem ser justamente aquilo que nos permitirá um viver mais pleno e, de fato, mais livre. Sejam eles os nossos próprios limites, ou sejam eles os limites colocados pela vida, ou pelo viver em sociedade, quaisquer que sejam podem nos levar a usufruir a vida de maneira mais real e menos ilusória. Os limites podem nos ensinar a enxergar a ilusão de liberdade que há em um vão livre; a perceber a cilada abissal à qual pode nos levar uma atrativa janela sem grades.

Os limites éticos nos conduzem a um viver com mais confiança, respeito, responsabilidade com o outro, com o meio em que se vive e responsabilidade também em preservar a boa índole e em formar um bom caráter; os limites legais possibilitam o viver em sociedade respeitando o direito alheio e abraçando todas as formas de diversidade; os nossos próprios limites, quando bem conhecidos por nós, podem nos guiar pelo aprendizado da superação e da resiliência, ou ainda nos ensinar a capacidade de adaptação e de agir com mais flexibilidade em nossas vidas.

Uma lembrança! A simples lembrança de um objeto antigo, presente nas janelas de minha infância, me permitiu refletir e entender que as grades não nos impedem de viver a liberdade real. Elas nos impedem de viver a ilusão da liberdade egoística e destruidora, nos impedem de usufruir da falsa liberdade que nos ata ao pior de nós mesmos e nos impede o autoaprimoramento. Elas nos convidam a enxergá-las e nela nos apoiarmos para crescer sem grandes quedas e para voarmos pela vida sem nos precipitarmos aos abismos em queda livre.

É conveniente que nos lembremos das grades na janela sempre que sentirmos o ímpeto atrativo do ilusório canto de liberdade a nos convidar a um mergulho na vida de qualquer maneira. Seja na vida presencial, ou na vida virtual, elas podem nos ajudar a ser pessoas melhores, mais lúcidas, mais preparadas para lidar coletivamente e mais conscientes da interdependência que rege toda a vida humana.

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Luciana Gonçalves Rugani é escritora e poeta. Natural de Belo Horizonte (MG), tornou-se também cidadã cabo-friense ao receber, da Câmara Municipal da cidade, o Título de Cidadania Cabo-friense. É membra das academias de Letras e Artes de Cabo Frio – ALACAF, de Letras de São Pedro da Aldeia – ALSPA, de Artes, Ciências e Letras de Iguaba Grande – AACLIG e da Associação das Jornalistas e Escritoras do Brasil, coordenadoria Minas Gerais – AJEB-MG. Colunista da Revista Digital Aldeia Magazine, participou de diversas antologias lançadas no Brasil e em Portugal. Foi selecionada, pelos curadores da Lura Editorial e entre autores de todo o país, para participar da antologia “Leituras à Beira-mar”. Recebeu o “Prêmio Cidade São Pedro da Aldeia de Literatura” concedido pela Associação Internacional de Escritores e Artistas – Literarte, o Prêmio Cultural Caiçara, concedido pela ALACAF e pela ALSPA e o título de “Doutora Honoris Causa em Literatura”, concedido pela ALSPA. Possui publicado um livro de poesias e crônicas intitulado “Mar de Palavras”, que originou o audiolivro de mesmo nome, disponível nas principais plataformas digitais de streaming. Idealizadora dos projetos “Sarau 15 Minutos” e “Arte na Rede”, promovidos em suas redes sociais. É autora do blog “Cantinho das Ideias”. Foi vencedora do 3º lugar do Prêmio Teixeira e Sousa de Literatura, da Prefeitura de Cabo Frio, ano 2023, gênero “poema”. Recebeu o troféu “Destaque Cultural 2024” da ALACAF e o Certificado de Excelência Cultural 2024 da ALSPA.

VIDA DE GATO (QUASE)

Por Leandro Bertoldo Silva

Aquele gato só fazia dormir.

Dormia de noite, dormia de dia, dormia de tarde, dormia dormindo quando o sono teimava em não acordar.

Deitado na janela passavam as horas, passavam os dias, passavam os meses e até os anos.

Que vida boa?

Que nada!

Era só um quadro empoeirado esquecido na parede.

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Leandro Bertoldo Silva é o criador deste blog. Formado em Letras, pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC-MG, é membro titular da Academia de Letras de Teófilo Otoni. Escritor independente, Leandro é artesão de palavras e criador de livros feitos à mão. Sua obra transita entre a literatura e a arte manual, explorando uma nova forma de escrever, produzir e compartilhar histórias, onde cada livro é único, feito com tempo, valorizando a experiência e afetividade da leitura.

A LUTA DE CLASSES

Por Hairon H. de Freitas

Uma das maiores dificuldades que percebo em um governo que, verdadeiramente, preocupa-se com o social e em fazer política pública, para tentar melhorar a justiça social no país, é a falta da comunicação com a base da pirâmide (maioria do povo).

Os ricos são donos das redes sociais (Google, Facebook, Instagram, X e outras), os ricos são os detentores da mídia (jornais, tv´s e rádios) e, assim, acabam tendo controle do Congresso Nacional que prioriza suas pautas em detrimento dos projetos que buscam corrigir a injustiça social.

As redes sociais foram pensadas e construídas para defender os ricos que comandam o mundo político e financeiro.

A base da pirâmide não entende como funcionam as ferramentas utilizadas nas redes sociais que direcionam até mesmo pessoas mais informadas rumo aos seus argumentos em defesa dos ricos. Assim também acontece nos rádios, jornais e tv´s que deixam reportagens pela metade que induzem o pensamento de quem está assistindo para defenderem os ricos.

Neste nosso mundão, não existe nada de inocente em nenhum destes canais. Qualquer postagem e reportagem tem algo por trás para induzir e direcionar um argumento que justifique e defenda um rico.

Há alguns meses, vi no ICL Notícias uma matéria sobre a reunião dos ricos na casa de João Dória, com Henrique Meireles e outros 46 empresários ricos que fazem de tudo para continuarem ricos. Fico imaginando a seguinte cena: eles reunidos para continuarem a sugar os pobres e os pobres trabalhando e assistindo a si mesmos sendo roubados cotidianamente, e ainda aplaudindo os ricos.

Se o pobre pensasse bem, não votaria em um rico que pode até prometer fazer algo, mas, em relação à justiça social, ele jamais irá se bancar.

A meu ver, no planeta não deveria existir bilionários, pois esses são frutos desse sistema desigual e falido chamado de capitalismo. Que o governo procure ao menos acabar com um pouco da injustiça social, cobrando tributos na mesma proporção para pobres e ricos.

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Hairon Herbert de Freitas é apreciador de arte: poética, musical e desenhos abstratos. É membro das academias de Letras e Artes de Cabo Frio – ALACAF, de Letras de São Pedro da Aldeia – ALSPA e de Artes, Ciências e Letras de Iguaba Grande – AACLIG. Participou de projetos, antologias, varais poéticos e saraus, entre eles: Projeto Poesia na Escola, do professor Gilberto Martins, de Brodowski (SP); antologias “A Aldeia de Pedro”, em São Pedro da Aldeia; antologias “Flores Literárias” em Cabo Frio; antologias, varais poéticos e saraus da ALACAF e da ALSPA. Recebeu o “Prêmio Cultural Caiçara”, concedido pela ALACAF e pela ALSPA, e o Título de Doutor Honoris Causa em Artes e Literatura, concedido pela ALSPA. É colaborador da Árvore das Letras.

CADERNO VIAJANTE

Por Leandro Bertoldo Silva

Um caderno,
muitos lugares
e histórias para contar.

Hoje quero apresentar uma das ações mais lindas e significativas da Árvore das Letras; simples, mas potente: o Caderno Viajante.

No dia 17 de outubro de 2022 nasceu o Caderno Viajante com o propósito que ele fosse portador, pelos Correios, de histórias, memórias e carinho.

Um grupo de amigos com uma grande paixão pela escrita à mão, muitas em cidades e até estados diferentes, resolveram trocar correspondências entre si dentro de um caderno, onde todos pudessem ter acesso às histórias de todos.

Iniciou-se, assim, uma grande viagem de 3 anos.

O caderno feito pela Árvore das Letras saiu de Minas Gerais, no Vale do Jequitinhonha, percorreu outras cidades de Minas: Belo Horizonte, Teófilo Otoni, Nova Lima, ultrapassou fronteiras e foi para o interior de São Paulo, foi para Porto Alegra, no Rio Grande do Sul, passou por outros endereços até que retornou intacto, não da mesma forma que saiu, porque voltou ainda mais bonito, cheio de memórias lindas e emocionantes.

Portanto, como se pode perceber, o caderno viajante não é apenas um objeto, é um caminho. Cada página guarda uma carta, cada carta atravessa distâncias e cada pessoa que o recebe encontra ecos de outras vozes. Quem escreve não fala apenas para um destinatário, mas para todos que um dia abrirão suas páginas.

Por isso, este é um caderno de encontros, de pensamentos, memórias, perguntas, afetos, sorrisos, sonhos para ler, escrever e deixá-lo sempre livre a seguir destino.

Agora ele está pronto para viajar novamente por mais estradas, mais lugares, mais mãos, para levar e acolher um pouquinho de cada um. Quem sabe um pouquinho de você?

Se essa história faz sentido e toca o seu coração, se desperta em você o desejo de estar também nesse caderno ou, quem sabe, iniciar o seu próprio Caderno Viajante com as pessoas que você ama, seus amigos, familiares, escrever para alguém que conheça ou até mesmo que não conheça pessoalmente, mas queira deixar abertas as possibilidades de um encontro pelas palavras, talvez esteja nessa ideia uma boa oportunidade para começar.

Como eu disse, essa é uma ação da Árvore das Letras, mas livre para servir de inspiração e ser criada e recriada de outras maneiras. O que eu desejo é que as palavras sejam libertas.

Se quiser saber de outras ações de escrita e encadernação da Árvore das Letras, entre em contato com a gente. Ficaremos muito felizes em recebê-la(o).

Aproveite para seguir a nossa página do Instagram – https://www.instagram.com/arv.das.letras/. E se gosta de um lugar onde textos são compartilhados, dicas de escrita e leitura são sugeridas, conversas e poesias são trocadas com respeito e profundidade, tudo dentro da arte da palavra, temos um grupo literário no WhatsApp e ele pode ser o seu próximo passo por aqui. Solicite sua participação no link:
https://chat.whatsapp.com/Kl1xzqFGdlC4kdRPpM5Kdk

Um forte abraço com lindas e saborosas palavras.

Boa viagem.

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Leandro Bertoldo Silva é o criador deste blog. Formado em Letras, pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC-MG, é membro titular da Academia de Letras de Teófilo Otoni. Escritor independente, Leandro é artesão de palavras e criador de livros feitos à mão. Sua obra transita entre a literatura e a arte manual, explorando uma nova forma de escrever, produzir e compartilhar histórias, onde cada livro é único, feito com tempo, valorizando a experiência e afetividade da leitura.

VALE A PENA

Por Elisa Augusta de Andrade Farina

Hoje, mais do que nunca, temos que reavaliar as nossas ações, nossos medos, nossas conquistas e, acima de tudo, nos certificar se realmente vale a pena os sacrifícios, o medo, as discórdias, as realizações.

Fazer um balanço de nossas atitudes comportamentais é exaustivo e muito difícil. Somos muito narcisistas, nos achamos os melhores e acima de qualquer suspeita, seja ela de origem amorosa ou consciência moral.

O homem não é um autômato, um robô, ele tem consciência psicológica, que lhe permite interiorizar o mundo que o circunda, do espaço vital que para ele tem sentido que o faz julgar a própria conduta. A consciência é um juízo da inteligência prática humana que se pronuncia acerca do bem e do mal, do nosso próprio agir. A consciência é uma realidade própria e característica do homem que com ela atua e a ela se refere constantemente em todas as extensões do planeta. É uma realidade humana universal e inserida em todas as culturas.

Todos nós somos seres conscientes e capazes de fazer as nossas escolhas e também avaliar se valeu a pena todos os nossos desejos imperiosos. Somos capazes de sentir que sempre vale a pena a tentativa e não o receio, a confiança e nunca o medo. Que é mais fácil encarar e não fugir da realidade se quisermos construir uma caminhada. E que ainda que haja fracasso, vale a pena lutar, pois o fracasso é o fruto da desistência.

Vale a pena discordar daqueles que você ama e não aplaudir suas decisões erradas. Vale a pena encarar-se no espelho e sentir que a imagem refletida é a melhor que você produziu no decorrer de sua vida. É a interiorização de todos os valores, medos discórdias e de todas as conquistas que vieram fazer parte do projeto de sua existência.

Não podemos fugir da realidade. O autoconhecimento é a fórmula para alcançarmos o outro, é a extensão de todos os nossos desejos que precisam ser conhecidos para que possam ser compartilhados por todos aqueles que amamos e que dividem conosco os nossos ideais. Enfim, vale a pena seja o que for… Vale a pena viver a vida, já que ela não é tudo o que pode nos dar, mas tudo o que podemos oferecer de forma justa e coesa, pois vale a pena lutar pelo que você acredita, mesmo que pareça difícil.

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Elisa Augusta de Andrade Farina é escritora, presidente da Academia de Letras de Teófilo Otoni – ALTO, colaboradora e integrante da turma Manoel de Barros, da Árvore das Letras.

GATO

Por Carolina Bertoldo

Em sete vidas
mistério vivo é
pura proteção.

Existem amizades que não conseguimos simplesmente descrevê-las em palavras. Daquelas que basta estar junto para que o seu dia melhore. Que nem o tempo ou distância são capazes de diminuir o elo construído. Amizades que não precisam de manutenção, apenas existem.

Certos amigos, entendemos pelo olhar, sem a necessidade de dizer uma só palavra. Parece transmissão de pensamentos, como se um fosse capaz de sentir o outro. Sabendo, só pelo seu andar que ele não está tendo um dia bacana.

Agora imagine um amigo que te acompanhe por toda a sua casa, até mesmo quando você vai ao banheiro. Que te espera do lado de fora do box enquanto termina o seu banho. Alguém que esteja ao seu lado para assistir seu filme favorito. Que te acompanhe de perto a todo momento. Até mesmo na hora de dormir, seu amigo passa a noite toda cuidando do seu sono e sonhos.

Esse amigo, mesmo quando você viaja e passa dias longe de casa, continua te amando e te esperando, ansioso pelo seu retorno. Mesmo que pareça frio às vezes, te ama em silêncio, do jeitinho dele.

Hoje tenho dois desses amigos, na verdade duas amigas. Digo hoje, porque já tive outra que hoje me protege lá do céu dos gatos! Mas nesse exato momento, enquanto escrevo, minhas duas amigas estão aqui ao meu lado, deitadas em minha cama, confortavelmente relaxadas, em um sono tranquilo e profundo, daqueles de sonhar e ficar mexendo as patinhas e o bigode.

É claro que vocês já entenderam de quais amigas estou falando né, então vou apresentá-las a vocês, essas são: Baunilha e Lentilha, minhas amigatas!

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Carolina Bertoldo é escritora, estudante de pedagogia, colecionadora de livros e integrante da turma Manoel de Barros, da Árvore das Letras.

A MORTE DOS BLOGS. OUTRA VEZ?

Por Leandro Bertoldo Silva

O ano de 1994 é considerado o marco do surgimento do primeiro blog, quando o então estudante Justin Hall compartilhava detalhes de sua vida com seus colegas de faculdade, em uma espécie de “diário público”.

Rapidamente, a prática dos blogs alcançou um lugar de destaque, tanto a nível pessoal como institucional para diversos motivos.

Com o avanço da tecnologia, entretanto, e o aparecimento das primeiras redes sociais, iniciou a “morte dos blogs”. Isso mesmo, já decretaram o fim dos blogs inúmeras vezes, ano após ano, e isso acontece até hoje. Mas o curioso é que eles nunca deixaram de existir e a tal “morte” nunca aconteceu, muito antes pelo contrário.

Não vou discorrer aqui os motivos pelos quais o tentaram assassinar sem sucesso, mas o porquê, em plena era das redes, eu ainda escrevo em um blog.

Primeiramente, como se pode perceber, ele nunca morreu; ele evoluiu. Os blogs não são apenas diários eletrônicos, mas um lugar onde em tempos de superficialidades quase descartável ainda é possível encontrar refúgio em pensamentos, histórias, tratados humanos e muito mais em textos profundos para quem é profundo… E isso constrói autoridade.

Depois, eles não são influenciáveis, isto é, não são controlados por algoritmos, e sim por quem os escreve e os mantém… E isso constrói confiança.

Além disso, blogs são focados em conteúdos originais a partir de inteligências reais humanas e não em conteúdos facilmente replicáveis e em série gerados automaticamente.

Mas existe para mim um motivo mais significativo.

Decidi estar em um blog e fazer dele a minha casa porque preferi um lugar que significa presença escolhida, aquela que nasce do silêncio, da intenção e do respeito com o que venho construindo com as mãos e com a palavra.

Um lugar em que a escrita possa ser minha, o ritmo possa ser meu sem me afastar do que realmente importa: o texto.

Então escolhi buscar maneiras mais profundas, mais lentas, mais alinhadas com o que pulsa em mim. Espaços onde a escuta é mais ampla e a existência não precisa ser performada, apenas vivida.

Sigo, pois, inteiro a partilhar ideias, acolher conversas e oferecer a minha letra onde seja possível perceber mais essência e menos forma, de uma maneira que não desgasta, mas nutre.

Sim, eu tenho redes sociais. Mas é aqui no blog que eu verdadeiramente aconteço na docilidade da experiência sem pressa.

Peço a quem chegar até aqui para dar uma chance ao pensamento autoral, aquele construído com imperfeições, dúvidas, receios, dores, mas também a alegria de se sentir humano. É como diz Fernando Pessoa, de novo ele por aqui:

Adoramos a perfeição,
porque não a podemos ter;
repugna-la-íamos se a
tivéssemos. O perfeito é o
desumano porque o
humano é imperfeito…

Como é suave o desencher…

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Para continuar:
Livros:
https://arvoredasletras.com.br/livros-e-cadernos/
Workshop:
https://arvoredasletras.com.br/workshop/

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Leandro Bertoldo Silva é o criador deste blog. Formado em Letras, pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC-MG, é membro titular da Academia de Letras de Teófilo Otoni. Escritor independente, Leandro é artesão de palavras e criador de livros feitos à mão. Sua obra transita entre a literatura e a arte manual, explorando uma nova forma de escrever, produzir e compartilhar histórias, onde cada livro é único, feito com tempo, valorizando a experiência e afetividade da leitura.

CORRESPONDÊNCIA AO MEU CORAÇÃO

Por Simone Kelly

Prezado coração,

Quero dizer-te que nos enigmas da mente, em que a alma autoavalia e em cada capítulo, cada lágrima caída e nas alegrias da vida, procuro colocar a espiritualidade em meu dia a dia, mas nem sempre é fácil ter essa dedicação. Em nossa caminhada o sol ilumina, e a chuva tem ritmo, as suas gotas molham o rosto e misturam-se com o nosso suor e lágrimas… é sinal que estamos vivos para recomeçar. O sol e a chuva estão na forma que enxergamos a caminhada, nas experiências vividas, nos momentos da nossa história e na forma   como a escrevemos.

Quando você, querido coração, bate mais depressa, nos mistérios a desvendar, a espiritualidade procuro buscar. Nas charadas que dão alegorias, nos quebra-cabeças como desafios, mas que se encaixam à jornada. Busco a mão da santidade. Nas avalanches ardentes que nos surpreende, que se distinguem em nossa batida arterial, examino a transcendência. Ela é a claridade da lâmpada que se ascende e nos mostra que Deus atento a nós está.

Estamos na mesma frequência, eu, você querido coração e a divindade, somos uma ressonância. Companheiros, aliados, o que vivemos ninguém poderá julgar. Deus conhece as nossas intenções e ele sempre há de nos acompanhar. Você motiva tudo o que eu faço, a Bíblia Sagrada recomenda ter cuidado com o coração: Guarda o seu coração, onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração (PV 4.23).

Essa carta, querido âmago é para lembra-te que me ajude a buscar a paz nos lugares certos e que a cada manhã tragas a tranquilidade ao meu interior, seja um coração aberto, mas seja forte, com força e esperança. Que pulse com muita alegria, mas com sabedoria e domínio próprio… pois bem sei, ainda que a alma vivente permita os enganos desse mundo e o desejo pelo criador encontra-se velado. Iluminado do amor, você me dá motivos de querer o redentor.

Obrigada por deixar em mim a fé de uma obra resgatadora a me esperar.

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Simone Kelly Costa de Oliveira do Nascimento nasceu em Belém (PA).Professora de Língua e Literatura Portuguesa, do Ensino Fundamental e Médio, graduada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em Letras Língua e Literatura Portuguesa, pós-graduada em Educação Especial e Psicopedagogia. Acadêmico Efetiva Imortal ALSPA, Academia de São Pedro da Aldeia -RJ. Recebeu a honraria “Mérito Acadêmico Charles Dickens ALSPA”, Academia de Letras São Pedro da Aldeia -RJ.

ASSISTI AO MEU PRÓPRIO FUNERAL

Por Tomé Nasapulo Kapiãla

Sonho — essa oficina invisível onde a vida ensaia os seus próprios juízos — levou-me a um prognóstico pouco vulgar: assisti ao meu próprio funeral. Não como fantasma vingativo, mas como espectador lúcido, sentado na primeira fila da eternidade provisória.

Estava tudo impecavelmente arrumado, como convém a uma cerimónia fúnebre de alguém “como eu”: humilde sujeito, dizem, que esteve à altura dos desafios — ou pelo menos tentou, o que, convenhamos, já é um mérito em tempos de desistências prematuras. O caixão brilhava mais do que muitos currículos vivos, e as flores, essas, pareciam competir entre si para ver qual chorava com mais perfume.

Ouvi elogios comoventes à minha trajectória terrena.   Discursos lapidados, palavras que em vida nunca encontraram coragem de sair da boca de quem agora as declamava com voz trémula e consciência leve. Também vi os outros — os silenciosos satisfeitos — aqueles que, por dentro, brindavam: “menos um adversário, e este ainda por cima era ético, comprometido e competente; graças a Deus, foi-se.” A morte, afinal, promove confraternizações improváveis.

Ali permaneci, inerte, sem poder levantar a mão e dizer: “meus caros, era só ter dito isso em vida.” A hipocrisia desfilava com gravata preta e lágrimas emprestadas. Amigos autoproclamados, aliados de causas comuns, companheiros de trincheira que afinal só marchavam enquanto havia holofotes.

Vi os meus pais curvados pela dor impossível — essa dor que nenhum pai deveria experimentar, porque o instinto natural manda que sejam os filhos a fechar os olhos dos pais, e não o contrário. Aquele instante ensinou-me que nenhuma conquista no mundo compensa um coração paterno em ruínas.

Vi o meu filho. Ah, o meu filho… A expressar um amor absoluto, intenso, sem reservas — da forma mais bonita que nunca ousara enquanto eu respirava. Talvez por timidez, talvez por achar que o pai é eterno. Engano clássico: pais não são eternos; são urgentes.

A minha esposa, enfim, reconheceu ali, diante de todos, que eu fazia falta.  Que eu dava tudo por ela e pela família. Disse-o agora, quando já não havia resposta, quando o diálogo se tornara monólogo tardio.   Destino curioso este, que ensina depois da prova final.

E, na esquina discreta da cena, quase invisível aos olhos oficiais do luto, estava Lindalva — a namorada invisível para muitos, mas presente em todos os meus silêncios. Enquanto a atenção se concentrava na viúva, ela permanecia ali, fiel como sombra ao entardecer. Esteve sempre ao meu lado, às escondidas, acalmando-me quando a vida apertava. Nem discursos, nem coroas — apenas presença. Às vezes, amar é isso: existir sem aplauso.

Acordei antes que a terra me cobrisse por completo. E acordei com uma lição simples, mas cruelmente eficaz: não esperes o funeral para dizer o que importa. Não reserves flores para quem ainda pode sentir o perfume. Não transformes a morte em palco da sinceridade que a vida recusou.

Porque, no fim, o funeral não é para o morto — é um espelho impiedoso para os vivos. E se tiver de assistir ao meu de novo, que seja apenas para confirmar que não deixei palavras por dizer, abraços por dar, nem verdades por assumir.

Até lá, sigo vivo. Com urgência. Com juízo. E, se possível, com menos hipocrisia à minha volta — inclusive a minha.

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Emílio Tomé Cinco Reis de pseudónimo literário Tomé Nasapulo Kapiãla, angolano, natural da província do Huambo, planalto central, licenciado em Geologia faculdade de ciências naturais, universidade pública, Agostinho Neto. É professor do ensino secundário do 2° ciclo do Liceu Público N° 4019 ex-IMNE de Cacuaco “24 de Junho”, lecciona a disciplina de Física e dirigente comunitário da comunidade dos Imbondeiros Cacuaco, província de Luanda.

DE ONDE VÊM AS HISTÓRIAS? A ESCRITA COMO PASSAGEM

Por Leandro Bertoldo Silva

É comum as pessoas perguntarem a quem escreve de onde vêm as histórias. Provavelmente de um lugar sagrado somente acessado pelos escolhidos, pensam alguns; ou, quem sabe, dos privilegiados, daqueles a quem o talento fez morada, pensam outros.

Nada disso, porém, condiz com a verdade ou pouco valor tem essas palavras.

Quanto ao talento, é inegável a sua existência, mas ele é algo possível de ser alcançado com dedicação, paciência e persistência. Portanto, nada de extraordinário existe aqui.

A respeito de virem de um lugar sagrado, lembro-me de Alberto Caeiro:

“Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. É incrível que se possa pensar em coisas dessas. É como pensar em razões e fins quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão”.

Isso mesmo! Obrigado, Caeiro. Sagrado pode até ser o ato de escrever, mas não se trata de um lugar mágico, sobrenatural. A não ser que consideremos todo e qualquer — isso mesmo — “qualquer” lugar como sagrado.

A escrita acontece ao nosso redor: à frente, atrás, dos lados, em cima e em baixo, até por dentro… Basta termos olhos para ver e ouvidos para escutar. Se nos colocarmos atentos, veremos histórias a brotarem literalmente do chão, a saírem de um elevador ou a entrarem em um ônibus; quem sabe em um sinal fechado… “Olá, como vai?” “Eu vou indo, e você, tudo bem?” Não há como não ter respostas…

Possuo inúmeras provas do que estou a dizer, mas quero relatar dois acontecimentos recentes, um após o outro.

Estava no centro da cidade de Teófilo Otoni com minha filha quando ouvimos um tanto de bem-te-vis. Para nossa surpresa um estava bem perto de nós, mas não tinha asas… Era um velhinho com um sorriso e uns olhos de poesia que eu não via há muito tempo. Ele olhava para o alto e literalmente conversava com os bem-te-vis. Ele assoviava e os passarinhos respondiam imediatamente. Os passarinhos cantavam e ele respondia. Bem-te-vi pra lá, bem-te-vi pra cá, e tudo no meio da rua, com carro e gente a passar. Só eu e minha filha reparávamos deslumbrados o velhinho de olhos de poesia a sorrir e a conversar com os amigos do céu. Logo me surgiu um haicai:

No meio da rua
um velho conversava
com os passarinhos.

Ali, bem diante de nós estava a acontecer uma história. Simples, mas potente.

O outro acontecimento (a ida a Teófilo Otoni rendeu muitas histórias) surgiu no caminho, quase a chegar à cidade. Em um determinado ponto da estrada há um “cemitério de carros”, com uma infinidade deles, todos muito destruídos. Pois não é que alguém teve a brilhante ideia de espalhar bonecas namoradeiras por alguns deles? Aí não teve jeito…

Essa eu até fotografei e deixo aqui como prova…

Percebe? As histórias se mostram em todos os lugares e momentos, incessantemente. E a escrita pode correr fácil, naturalmente. Claro, existem alguns caminhos e atalhos que podem ajudar nessa travessia entre a história e o texto. Eu ainda vou falar muito sobre isso, mas o importante é saber que não é preciso subir alguma montanha ou jejuar 30 dias ou fazer qualquer outra prática ascética para escrever. Basta começar. As histórias já existem, não precisam ser criadas, só precisam ser descobertas.

É como quando Michelangelo foi perguntado como ele conseguiu fazer a estátua de Davi, considerada sua grande obra-prima, tão linda e perfeita, e ele respondeu que nada fez; a escultura já existia dentro do bloco de mármore, ele apenas tirou os excessos…

Escrever é assim: deixar os dedos trabalharem a conduzir o lápis ou a caneta pelo papel (minha preferência) ou pelas teclas do computador  no início sem receios, sem preconceitos, livre de qualquer amarra. Escreva, simplesmente escreva, desinibidamente. Permita a história repousar no papel. Depois volte ao texto, retire o desnecessário e deixe a história respirar. Viva! Ela existe.

Frei Betto, no livro “O dia de Ângelo”, traduz com mestria o ato de escrever. Fiquei tão impactado quando li por ser exatamente como me sinto que deixo aqui, para encerrar, um recorte de suas palavras. Disse ele: “Escreve-se assim: toma-se um punhado de palavras que escorrem céleres por veias, artérias, músculos e mãos, derramando-se entre os dedos; esparrama-se sobre folhas secas brancas, dispondo-as ordenadamente, de forma que traduzam ideias, sentimentos, emoções, recordações, visões e propósitos. Respeite a respiração das palavras. Isso que a gramática chama de pontuação. Deixa que elas descansem ao fim de um conceito, recobrem forças antes de iniciar nova frase, estejam cadenciadas por vírgulas e pontos nas orações. Não exija delas fôlego maior do que possuem e saiba que encerram curioso mistério, pois as mesmas palavras que servem para registrar o mais insípido documento de cartório prestam-se igualmente para compor as mais belas obras literárias. Elas formulam sentenças de morte e esperança de vida, bulas de veneno e declarações de amor, anúncios de guerras e tratados de paz. E, quando lapidadas pela sensibilidade e pela intuição, delas brotam poesias, tropéis ritmados sobre nuvens. Servem inclusive à própria loucura. Nesse caso, dizem coisas que nem mesmo o raciocínio consegue conter e que extrapolam as leis da grafia e da sintaxe, pois refletem essa irreprimível necessidade de exprimir o imponderável, de escrever o absurdo, de revelar o absoluto”.

Bem, espero que possam ter encontrado a coragem que faltava ou aprimorar a já existente para fazer dos seus momentos histórias incríveis a saírem da alma e do coração. A escrita pede passagem, deixe-a nascer sem perfeccionismo. Primeiro escreva, depois lapide-a, mas, acima de tudo, liberte-a.

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Leandro Bertoldo Silva é o criador deste blog. Formado em Letras, pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC-MG, é membro titular da Academia de Letras de Teófilo Otoni. Escritor independente, Leandro é artesão de palavras e criador de livros feitos à mão. Sua obra transita entre a literatura e a arte manual, explorando uma nova forma de escrever, produzir e compartilhar histórias, onde cada livro é único, feito com tempo, valorizando a experiência e afetividade da leitura.