FOI LÁ NA VENDA DO SEU LIDIRICO

Seu Gelsonsogro

Foi lá na Venda do Seu Lidirico que eu conheci uma das lendas vivas da nossa história. Lidirico Almeida, atleticano, nascido em Novo Cruzeiro (?!), no ano de 1927, chegou na cidade de Araçuaí, no Norte de Minas Gerais, em meados da década de 40 e, como ele mesmo me disse, se voltou a sua cidade de cinco a seis vezes ao longo de todos esses anos foi muito. Desde então, ele mantém um dos pontos comerciais mais tradicionais do lugar: a Venda do Seu Lidirico, “que tem de tudo e cada coisa que tem eu explico”… E ele também! E como explica…

Sentado em uma cadeira simples de bar ao lado da neta atrás do balcão, Seu Lidirico chegou a levantar quando nos viu – eu, minha esposa, minha filha, minha sogra e meu sogro Gelson Pinheiro, outra lenda viva da nossa história que merece capítulo especial.

Tínhamos ido de Padre Paraíso a Araçuaí para conhecermos dois lugares muito comentados: uma “flor e cultura”, que não floresce apenas flores e transpira cultura, como tudo naquela cidade, e… a Venda do Seu Lidirico.

A floricultura era o primeiro destino. Por isso, Seu Lidirico sentou-se pacientemente como se soubesse que o melhor sempre fica por último, afinal o apressado come cru, como diz o bom mineiro. Acenei para ele como quem falasse “estou indo aí” e podia ver as histórias e causos se ajeitando em sua cabeça para serem contados, como se já não tivessem sido centenas de vezes…

A conversa de mineiro de que um lugar fica bem pertinho um do outro, “bem ali”, esticando o beiço, nesse caso era verdade. Era só atravessar a rua. Quem vai em um tem que ir no outro. E Seu Lidirico estava lá, nos esperando certo da nossa visita.

Nunca havia conhecido uma celebridade de verdade, porque as falsas se acham; as verdadeiras acham as pessoas, no carinho das mãos que recebem, no afeto do aperto que sentimos na verdade do coração como uma ponte que liga pessoas. Foi assim, nesse bem-querer, que fomos recebidos por Seu Lidirico e sua esposa, Dona Iaiá, chamada por sua neta a pedido dele.

Não sabíamos para quem olhar. Os casos se misturavam e se completavam sempre com precisão de datas e uma memória invejável de quem a própria história pedia licença. O início da venda, as primeiras casas da rua, os únicos dez carros da cidade, se muito, quando chegaram, a data do casamento (1948), o número de filhos – quinze no total – e os mais de 30 netos somando, ao todo, 98 pessoas vivas, excetuando uma nora que morreu intoxicada na fazenda – “só morreu essa nora nesses anos todos”, explicava Seu Lidirico, eram algumas das muitas histórias que se sucediam.

Esses e outros causos, até a partida do Atlético contra o São Paulo na noite anterior vencida pelo time mineiro com gol contra, eram contados, comentados e explicados enquanto apresentava as famosas cachaças produzidas por um dos filhos na região que, claro, provamos, eu e meu sogro, e levamos dois litros, enquanto Dona Iaiá dividia a conversa entre o engarrafar outros dois litros de cloro para a venda e as fotos tiradas sempre atrás do balcão, como se aquela amizade nascente já fosse antiga.

Fico feliz em encontrar pessoas assim em que a simplicidade é verdadeira e que a história também se faz verdadeira e espontânea na hora, sabendo que está sendo escrita e conhecida não apenas nas páginas dos livros, mas ali, ao vivo, porque se tem um lugar que tem história para contar é mesmo lá na Venda do Seu Lidirico.

Para que possam conhecer mais do que tem na Venda do Seu Lidirico, passa lá, é bem ali… Pertin, pertin, um tirin de bala de bodoque, no Norte de Minas Gerais, em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha. Mas se não der para ir, se avexe não, como dizem por lá, ouça abaixo a música, pois até música feita por Miltinho Edilberto e Xangai, apresentada no programa Sr. Brasil, do Rolando Boldrim, Seu Lidirico tem, afinal, é a venda do Seu Lidirico, “que tem de tudo e cada coisa que tem eu explico…”. E ele também! E como explica…

ÁRVORE DAS LETRAS DESENVOLVE PROJETO LITERÁRIO EM ESCOLA NO VALE DO JEQUITINHONHA E TRANSFORMA ALUNOS EM AUTORES

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Tudo começou com uma pergunta: como fazer os jovens se interessarem mais pela leitura? E a resposta apareceu muito clara e direta: colocá-los do outro lado da história, ou seja, do lado de quem escreve.

Pimba!

A partir daí, o escritor e professor Leandro Bertoldo Silva procurou a escola Orlando Tavares, a qual já havia lecionado há 5 anos, e fez a proposta à diretora Jussara Pinheiro Paiva que, prontamente, acatou a ideia abrindo as portas da escola para que o projeto acontecesse. Tal aprovação é externada em sua fala:

 

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Jussara Pinheiro Paiva. Diretora da Escola Orlando Tavares

É de uma imensa alegria compartilhar desse projeto com os alunos, professores e demais profissionais da escola. Foi desenvolvido pelo escritor, professor e amigo Leandro Bertoldo Silva atividades em sala de aula que acabaram aguçando a imaginação dos nossos discentes, nos mostrando como são habilidosos.

Acredito que a escola seja um lugar para construir prazerosamente o conhecimento integrado com afeto, valorizando a leitura e a escrita. Este livro proporcionou exatamente isso: possibilitou aos nossos alunos a elaboração de textos partindo de uma história de cada família. Durante esse trabalho fica claro que o entendimento literário pode ser prazeroso quando se trata do que se vive e é nessa pequena/grande diferença que mora o segredo para (des)costurar pensamentos com a ajuda da entrelinha.

Quero parabenizar a iniciativa do escritor e professor Leandro e a cada aluno que aceitou esse desafio. Que seja o primeiro de muitos livros publicados pelos alunos da EOT”.

Para isso, Leandro assumiu as aulas de redação da escola, levando aos alunos todo o conhecimento adquirido em seu curso Vivenciando a Linguagem, Leitura e Escrita na cidade de Padre Paraíso e região (ver matéria no site LiteralmenteUai clicando AQUI), oferecendo aos alunos uma forma pragmática de estudo.

O projeto foi dividido em 4 etapas – uma para cada bimestre – onde, em cada um deles, os alunos do ensino fundamental 2 (6º ao 9º anos) foram sendo orientados a partir de dinâmicas de escrita criativa e conhecimentos técnicos da escrita narrativa a entrarem em contato com o texto literário.

A proposta foi a escrita de um livro em conjunto – uma coletânea de mini contos – na qual cada aluno escreveria uma história partindo da concepção da escrita concisa, bem aos moldes do livro Entrelinhas Contos mínimos, escrito pelo próprio professor e escritor Leandro, e que todos tiveram acesso de forma online, juntamente com outro livro do autor (esse físico) – Janelas da Alma: uma tempestade íntima, um conflito, um retorno – como forma de mostrar na prática o processo de escrita e publicação de uma obra.

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Faltava o fio condutor do livro, e este ficou por conta das memórias de família, que acabou sendo a temática do trabalho como mais uma estratégia de envolver as famílias dos alunos aproximando-as ainda mais do projeto, da escola e deles mesmos, pois, segundo o escritor Bartolomeu Campos Queirós em uma das unidades de um dos livros didáticos dos próprios alunos, “o que não foi esquecido merece ser repensado”.

Como mostra do envolvimento dos alunos, leia a seguir alguns depoimentos bem emocionantes!

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Ana Esther Alvim de Godoy – Aluna do 6º ano.

“Essa aventura começou quando tivemos que levar um objeto antigo de família para a escola. Na hora fiquei um pouco preocupada, pois pensei que em casa não teria nada para levar. Fiquei a aula toda pensando sobre aquilo. Chegando em casa comentei com minha mãe e meu pai. Ao entardecer, meu pai chegou em casa falando que tinha pensado em uma coisa com bastante história, e eu fiquei muito empolgada. Era um rádio bem velho, mas em bom estado. Achei muito interessante, pois vinha do passado, o que seria bom, pois estávamos falando de lembranças, não é mesmo?”

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Igor Gomes da Silva – aluno do 7º ano.

“Antes de relatar minha experiência com esse projeto, gostaria de parabenizar o meu professor Leandro pela iniciativa, pois estar à frente da construção de um livro requer muita coragem, esforço, dedicação e amor. Quanto a experiência, o tempo que passei com a minha mãe e irmão em busca do material foi muito importante, pois juntos percebemos que naquelas fotografias estavam registrados momentos que eu não teria como me recordar porque era muito pequeno. A fotografia escolhida retratava uma viagem que fiz com toda minha família para um hotel fazenda próximo de Governador Valadares, um lugar lindo, com tirolesa, piscina, sinuca, animais como cavalos e aves”.

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Renato Santos Silva – aluno do 8º ano.

“Minha busca pelo objeto foi muito interessante, pois fui à casa da minha bisavó procurar algumas lembranças significativas na minha família para levar à escola. Chegando lá, minha bisavó começou a contar histórias da sua infância e de toda sua vida através dos objetos que tive curiosidade de conhecer. Dentre tantos, optei por dois, sendo eles o cassetete de quando o meu bisavô era soldado, da Polícia Militar de Minas Gerais, o qual minha bisavó sempre guardou com muito carinho para lembrar dele, que infelizmente faleceu. O outro foi o telefone que a esposa do Dr. Domingos Savio, grande médico que teve em Padre Paraíso, havia dado para ela. Minha bisavó gostava muito dele e ele a admirava muito. Sempre que podia, o médico a visitava, e ela, esperta como sempre, aproveitava para fazer uma consulta. Prova disso é que ela tem várias receitas guardadas até hoje”.

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Vitória Amaral Neves – aluna do 9º ano.

“Desde que nos foi feita a proposta, questionei-me inúmeras vezes de como a mesma seria realizada, pois cada aluno teria que escrever uma história a curto prazo direcionadas para um livro. Confesso que passou em minha cabeça a possibilidade de que o projeto não seria concluído, mas agora vejo que nada está sendo em vão. Com a procura dos objetos e fotos foi possível que um vínculo fosse criado em nossa família. Relembrar as histórias fez com que criássemos um momento particular entre nós, além do que pudemos nos aproximar de outros alunos e contar o trajeto das fotos e dos objetos levados por nós. Vejo que com o andamento das histórias irá ser um trabalho de incrível repercussão, podendo servir de inspiração para outras escolas, assim ampliando e fortalecendo ainda mais a literatura brasileira”.

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Fabiene Ramalho Lopes Dutra, mãe da aluna Hanna Ramalho Dutra, do 6º ano.

“Penso que a leitura tem que fazer parte da educação da criança, e sempre incentivei Hanna a ler, mostrando a ela o quanto podemos aprender com um bom livro. Quando fiquei sabendo do projeto de escrever um livro, achei muito interessante. Uma forma de incentivar os alunos, a desenvolver a leitura e a escrita. O processo de pesquisa e a busca por informações envolveu a família e amigos. Recordamos momentos alegres e tristes, mas que faz parte da nossa história”.

A publicação do livro ficou por conta da Árvore das Letras, através do selo Alforria Literária, também desenvolvido pelo escritor e professor, no qual a publicação obedece a um conceito de sustentabilidade, onde os livros são publicados sob demanda produzidos com capa de papel ecológico inteiramente personalizado com fibras de material orgânico e tinta natural, numa verdadeira artesania literária, sendo o miolo do livro de papel reciclado, demonstrando um valor importante na preservação do meio ambiente, através do uso de recursos renováveis. (Clique AQUI para conhecer os livros e saber mais sobre a Alforria Literária).

A culminância do projeto, como não poderia deixar de ser, será uma noite de lançamento, com data já marcada para o mês de novembro, onde os alunos/escritores irão receber seus convidados e autografar os seus livros, fazendo desse momento mais uma realidade literária de nossas letras, valorizando o que de melhor existe em Padre Paraíso e no Vale do Jequitinhonha: sua própria gente e suas próprias histórias.

Até lá, leia, como um gostinho especial, o prefácio do livro que não poderia deixar de ter outro nome: MEMÓRIAS DE UM TEMPO.

Para mim há uma grande diferença entre estudo vivo e estudo morto. Estudo vivo é aquele que pauta sua existência na produção de ideias e não apenas na repetição do que já existe, ainda mais o disfarçando sob o viés do conhecimento. Estudo vivo privilegia o compartilhamento, mesmo que o mundo muitas vezes nos leva a acreditar no contrário e nos faz criar escolas que são regimentos de competições, mas, pelo estudo vivo, aprendemos que há lugar para todos, pois ele cria e vive nas asas das possibilidades. Estudo vivo respira e se pergunta sempre “por que não?”, ao invés de conservar-se no abafamento das respostas prontas que nos faz ter vidas prontas, permanecidas em si mesmas, cinzas, sem perfume e cor. Sempre duvidei das escolas cinzas… Não, não pintem suas salas de aula de cinza. Se for para tê-las, tenha-as coloridas.

Acho que sempre fui indisciplinado, uma espécie de inconformado social, a ponto de não aceitar verdades verdadeiras; elas podem ser falsas e perigosamente destruidoras de sonhos. Também sempre acreditei que uma escola não pode motivar os seus alunos utilizando apenas o velho recurso de provas e notas. Uma escola assim tem algo de muito, muito errado, e alguma coisa precisa ser feita. Este livro é a tentativa dessa coisa, como é a tentativa de tudo o que eu faço, pois livros mudam vidas.

Quando fiz aos alunos a proposta de escreverem um livro, li em seus rostos uma certa descrença. Mas já esperava por isso. Minha tarefa não era apenas concretizar o que eu sabia que eles poderiam, mas tocar-lhes o coração. E isso foi acontecendo gradativamente, até que todos perceberam que sim, era verdade, escreveríamos um livro e que eu não iria desistir.

Uau!! É mesmo verdade! Vamos escrever um livro! Sobre o quê? Aqui entra uma outra coisa que acredito: a família. Sem ela não existimos. É ela que nos nutre, que nos faz acontecer. Precisava envolver não apenas os alunos, mas as suas famílias nas páginas do que seria escrito, confiando que desse encontro surgiriam lembranças, memórias, aproximações e curas, sim, curas, pois a busca de memórias escondidas pode sarar muitas distâncias…

E como diz Bartolomeu Campos Queirós, um escritor que soube muito bem entender como as lembranças moram em nós e delas surgem histórias, “a memória é um espaço interno onde a fantasia conversa com a realidade”, ou seja, “o que não foi esquecido merece ser relembrado”.

Pronto. Estava tudo exposto. Agora era trabalhar, fornecer aos alunos o que precisavam para escrever. Algumas técnicas, umas dinâmicas, um pouco de experiência, um tantinho de informação e muita, muita leitura e uma dose imensa de vontade. O resultado? Bem, está aqui em suas mãos ao alcance de seus olhos. É só virar as páginas e permitir-se ir nessa viagem, que não há feio nem errado; há histórias lindas, reais e imaginadas, também há as misturadas saídas de cada um a sua maneira e que, por isso, já bastam.

Quanto a mim, sigo o meu caminho com um profundo sentimento de gratidão. Obrigado aos alunos, à escola e às famílias por acreditarem que sonhos foram feitos para serem sonhados e muito mais para serem realizados.

 Leandro Bertoldo Silva

2017-01-01_12.12.07Escritor, professor, criador da Árvore das Letras e desse blog, e membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni/MG.

 

RÉVEILLON

Por Leandro Bertoldo Silva

Sempre fui fascinado por Fernando Pessoa e a sua capacidade de ser vários sendo ele mesmo. Esta admiração profunda, acrescentada a um sentimento de saudade e solidão em uma data onde todos esperam estar com alguém, me fez pensar em uma situação que descrevo com um conto curto, tão rápido como o abrir e fechar dos olhos… Gosto dos contos curtos, das miudezas da alma que refletem nossas grandiosas emoções. Este abre o livro Entrelinhas Contos mínimos.

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Dia 31 de dezembro. Quase tudo pronto para o réveillon. Depois de anos desejando passar esse momento com alguém que aliviasse minha insistente solidão, encontro o fim desse tormento. Repasso pela última vez os itens cuidadosamente preparados antes da chegada de ilustre persona: mesa posta para a ceia, champanhe, tudo para duas pessoas. As horas passam rápidas. Os primeiros fogos espocam no ar, anunciando os novos tempos. Quase não percebo a chegada tão sonhada da pessoa esperada. Sento-me à cabeceira da mesa e, no exato instante em que o novo ano marca sua presença, olho para o grande espelho da sala à minha frente e saúdo meu convidado. E uma lágrima escorre de meus olhos no mesmo instante dos dele…

CLIQUE E OUÇA O ÁUDIO DO CONTO

STORYTELLING ALFORRIA LITERÁRIA

Certa vez, assisti a uma entrevista de um escritor angolano que gosto muito – José Eduardo Agualusa – e ele dizia:

“aconselho a qualquer jovem: primeira coisa é ler muito; a segunda coisa é nunca perder a paciência, nem a vontade de continuar, mesmo que ao princípio pareça difícil. Quando nós fazemos o que quer que seja com paixão, vamos acabar por fazer bem, e os livros bons acabam sempre por encontrar os seus leitores…”.

Quanto aos meus livros serem bons, bem… A julgar pelas mensagens que recebo, depoimentos e fotos de leitores, e quando eu penso que os meus livros já estão espalhados por tantas cidades e estados, vejo que a seriedade, pesquisa e verdade com as quais eu os escrevo, está me levando para um caminho bem interessante!

Quanto a fazer com paixão… este é o propósito deste pequeno vídeo que é uma storytelling da Alforria Literária, um resumo das minhas produções, das minhas pesquisas, e, sim, da minha grande paixão por essa arte espetacular que é não apenas escrever, mas produzir e publicar o próprio livro em harmonia e respeito à natureza das coisas e das pessoas.

O vídeo é simples, como é simples todo o meu trabalho, até mesmo para receber por ele o valor financeiro justo e necessário. E aqui me lembro de outro artista – Oswaldo Montenegro – que disse em um poema algo o qual pauto minha vida:

“Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba, e que ninguém a tente complicar, porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer…”

Forte abraço!

LBS.

QUANDO AS LUZES SE APAGAM

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Por Leandro Bertoldo Silva

QUANDO AS LUZES SE APAGAM É QUE ENXERGAMOS COM MAIS CLAREZA…

 

Imagine uma cidade num sábado à noite, que, de repente, se vê com metade de suas luzes apagadas. Uma visita de amigos que viriam para o jantar e a hora bem próxima. Qual a sensação que você teria?

****

 Muitas vezes temos a tendência de enxergar somente o lado negativo de certos acontecimentos, o que nos faz achar que tudo é relativamente sombrio. Isto, naturalmente, é um engano que a vida, com a sua sutileza peculiar, mostra-nos o contrário e como estamos é doente dos olhos e, por que não, dos sentidos, como bem disse Alberto Caeiro:

“O que vejo a cada momento

é aquilo que nunca antes eu tinha visto,

e eu sei dar por isso muito bem.”

Quando nos colocamos frente às situações tais quais elas se apresentam e olhamos de verdade para elas tentando extrair o melhor que podemos, vamos descobrir a poesia que ali existe e não percebíamos, e o que aparentemente é um transtorno, na verdade é um enorme presente embrulhado no papel das possibilidades.

Sim, estava eu fazendo a barba após um banho num início de noite de sábado, quando subitamente a luz foi embora, não apenas da minha casa, como da metade da cidade de Padre Paraíso, deixando todos na mais completa escuridão. Era possível ouvir os bramidos e os lamentos ecoando de cada canto, de cada esquina e casas, como se as paredes, ao invés de ouvidos, tinham enormes bocas que emitiam gritos a la Edvard Munch. Pedi minha filha para trazer uma lanterna para acabar de fazer a barba e assim fiz tranquilamente já pensando como faríamos com a visita de dois amigos que viriam para o jantar. Em momento algum, tanto eu como Geane, minha esposa, queríamos desmarcar o encontro, afinal não tinha sido a primeira vez que tentávamos e tudo já estava adiantado desde o dia anterior, o que incluía os ingredientes de um delicioso yakissoba e as jabuticabas colhidas do pé do quintal da minha casa para o preparo de um vinho frisante, sem nos importar de estarmos cometendo ali qualquer tipo de gafe ou incoerência culinária. Mas o melhor mesmo estava por acontecer… Fomos os três – eu, minha esposa e minha filha – para a sala, e enquanto Geane tentava falar com os amigos pelos dados móveis do celular, deixando nele a luz da lanterna acesa, esta fez refletir na parede as nossas sombras enormes. Para mim e minha filha foi o mesmo que oferecer doce para criança. Começamos a brincar de fazer animais com as mãos e a criar histórias onde a cobra de 3 metros engolia uma aranha frágil e indefesa. Tudo bem, também criamos histórias de lindos passarinhos voando entre as flores… Lembrei-me de quando eu era criança e de como passava horas fazendo essas projeções usando o abajur da minha mãe, e só então me dei conta de que nunca as havia feito com minha filha! Larguei a reflexão de tamanha perda de tempo e mergulhei nas aventuras do cachorro que corria atrás do coelho, do jacaré que mostrava língua para o sapo e do elefante que bebia água no poço.

Geane confirmou que nossos amigos viriam mesmo sem luz e, a partir daí, começamos a encher a casa de velas. Enquanto as velas eram acesas na cozinha e na sala, encarreguei-me de acendê-las na varanda para uma boa recepção de boas-vindas. Tudo começou a ficar num clima mágico, meio idade média, e nossa casa já não era casa, mas um livro de histórias onde cada quarto guardava um capítulo surpreendente. O melhor deles aconteceu quando fomos para a cama de casal e eu perguntei para minha filha se ela queria de fato ouvir uma história, pois eu leria para ela usando uma lanterna. Yasmin logo disse que sim. Eu fui até minha estante e peguei o primeiro livro que minhas mãos tocaram. O título? “O menino que perdeu a sombra”, do Jorge Fernando dos Santos. Quase não acreditei na deliciosa coincidência de um menino que tateava no escuro à procura de si mesmo. A diferença é que nós havíamos nos encontrado naquela escuridão.

No fim da leitura, como todo bom livro que nos surpreende, a luz voltou, mas nada era como antes, tudo tinha mudado: as percepções, os sentimentos, as descobertas. As velas foram apagadas, os amigos chegaram, sorrisos e abraços em festejos de carinho, brindes erguidos. Mas dentro de mim continuava aquela doce escuridão que enche de luz as nossas sombras. E mais uma vez me veio à memória o velho Caeiro e de como estava certo:

“O mundo não se fez para pensarmos nele

(pensar é estar doente dos olhos)

mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…”

Pura verdade…

QUEM SÃO OS SEUS HERÓIS

QUEM SÃO OS SEUS HERÓIS_

Por Leandro Bertoldo Silva

É comum termos personagens que marcam ou marcaram nossas vidas. Quem nunca se imaginou sobrevoar os arranha-céus das cidades como o Super-Homem, ou subir pelas paredes como o Homem-Aranha e até combater o crime usando um laço mágico como a Mulher-Maravilha? Eu também tenho os meus personagens, mas nenhum, por mais poderes que poderia ter, me falou tão profundamente quanto um específico, e olha que nem poder ele possui, a não ser sua inteligência… Engana-se quem pensou em Batman! O meu herói, sim, pois acabou por se transformar em um herói para mim, não era bravo, valente, nunca salvou ninguém de perigos, a não ser a mim que fui salvo do não saber das coisas, do não gostar de ler, de não conhecer histórias e mitologias, filósofos e inventores. O meu personagem é, e sempre foi um sábio sabugo de milho feito pelas mãos talentosas e generosas de Tia Nastácia, colhido em um milharal no Sítio do Picapau Amarelo: Visconde de Sabugosa.

                Desde criança, Visconde povoa meu coração de sonhos e viagens inesquecíveis. Quantas vezes fui à lua em um foguete, ajudei Teseu a vencer o Minotauro e quase morri de susto ao ficar a poucos centímetros da boca do Boitatá! Sim, vivia as aventuras do Sítio como se fossem reais e, embora admirado com a coragem de Pedrinho e sua música que quase me fazia chorar, como faz até hoje (ela é, inclusive, o toque do meu celular), diferente da maioria dos meninos da minha idade, era o Visconde que eu queria ser. Na minha imaginação, passava horas na biblioteca e os meus poucos livros reais se transformavam nas enciclopédias e compêndios lidos e estudados pelo sábio sabugo. E os pregadores de roupa da minha mãe que se transformavam em máquinas e equipamentos moderníssimos capazes de nos transportar pelo tempo? Tampinhas de garrafa, alfinetes, papéis laminados de bombom, tudo eu levava para o meu quarto, ou melhor, para o meu laboratório, e ficava lá inventando coisas. Afinal, eu era o Visconde!

                Este personagem é mais do que um gosto de criança, uma simpatia infantil que depois que a gente cresce desaparece. Visconde permanece em mim como uma entidade real, lúcida. Em todos os momentos da minha vida ele esteve presente, e sempre da melhor forma, silencioso, introspectivo, cúmplice… Inclusive, poucas pessoas sabem disso (até agora). Até a minha história do pé de ameixa que não me canso de contar e que hoje se transformou na Árvore das Letras, Visconde estava lá. Era nele que eu me transformava ao subir na árvore e fazer de seus galhos as estantes dos meus livros. Hoje tenho uma filha já moça, e é uma das poucas que sabe da minha “identidade secreta”… Ela faz com que os meus sonhos permaneçam acordados. Sou muito grato a ela, pois, apesar dos tempos modernos, ela permitiu que eu a apresentasse ao meu mundo, às minhas aventuras e, mais do que conhecer, ela entrou neles, compactuou com meus personagens, estendeu-lhes a mão e acolheu-os em seu coração. Não tenho dúvidas que Yasmin é uma daquelas princesas contadas pela Dona Benta que fazia com que eu, Visconde, pesquisasse a respeito nos livros de história. Mas me faltava uma coisa: faltava, além de ser o Visconde por dentro, ser também o Visconde por fora, deixar que ele se mostrasse em mim assim como eu sempre me mostrei nele. E mais uma vez, foi ela, minha filha, que me permitiu isso. Em seu aniversário de 11 anos onde todos podiam se fantasiar de alguma coisa, resolvi fazer o contrário… Quando todos colocaram suas máscaras, resolvi tirar a minha…

                Quero terminar este exto fazendo um agradecimento mais do que especial a uma pessoa que não está mais entre nós, uma pessoa que não conheci pessoalmente, mas que foi responsável por proporcionar tudo o que contei: o ator André Valli, o verdadeiro Visconde, único, insubstituível. Tenho certeza que de onde ele está deve estar feliz com um profundo sentimento de missão cumprida. Obrigado, Visconde, por todas as nossas aventuras. Elas ainda não acabaram…

2016-04-17_00.00.51Este sou eu que, mesmo depois da festa, foi difícil voltar à fantasia da vida… Mas qualquer dia eu volto à realidade.

E você, qual é o seu herói ou heroína, aquele ser maravilhoso que mexeu com as suas emoções? Adoraria saber! E acredite: é tão bom libertá-los…

Forte abraço!

 

NO PRINCÍPIO, A PALAVRA: FEMININA, DIVINA

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Por Leandro Bertoldo Silva

Tencionava descer à Terra e finalmente dar-se a conhecer aos homens. Foi assim que Deus deixou de ser mulher, e de uma forma tão brutal, que esta história virou lenda para que nunca mais fosse tida como verdade…

            Fala-se de um tempo onde tudo eram fragrâncias; fala-se da chuva e do sol – harmonia perfeita das estações; do calor e do frio, da maciez das flores, das sementes que germinam em tempos de esperas. Para que a pressa? Não há pressa; há lucidez, e tudo basta. Assim era a vida no mundo: sem embates, sem crimes contra a íntima Natureza. Durante muito tempo, as mulheres viveram na mais absoluta bem-aventurança. Eram as senhoras de todos os saberes. Conheciam, pelo cheiro, os segredos das ervas, e por suas infusões cantavam a essência dos sentimentos. Não havia terra que não pudessem cultivar, nem animais que não pudessem domar. Na escala da Natureza, a mulher reinava, mas sem armas; seus instrumentos eram feitos de fragilidade, pois não conheciam impetuosidades e tinham na humildade o regaço de sua beleza. A terra, também feminina, entendia o trabalho e se deixava fecundar pela semente da mulher, pois não conhecia varão e, sendo assim, nunca fora aberta, em suas partes, chagas violentas, mas sulcos com total respeito e devoção onde a vida continuava a crescer ininterruptamente.

            Mas eis que um dia, as mulheres ficaram atônitas. Um fruto diferente, de uma beleza incomparável surgira de entre as folhas de uma macieira. Como tendia a crescer a cada mês diferente dos outros frutos, as mulheres o esconderam por nove meses, quando de dentro de seu invólucro vermelho surgiu uma criança tão bela como um anjo. As mulheres, hipnotizadas pela beleza da criança, viram que a sua anatomia era diferente, mas como todo o resto era tão igual, porém de uma beleza nunca vista, não deram a importância que o caso merecia. Estava acontecida a invasão original.

            A partir daquele dia, algo mudou. As mulheres, antes tão altruístas, viram nascer um sentimento desconhecido, pois lhes doía ter que dividir entre elas a criança, desejando-a só para si. Sabedoras de que o desequilíbrio fortuitamente fazia morada em suas almas, foram ter com a Deusa que pressentira a quebra da harmonia, mas a sabia inevitável. Faltava-lhes um ensinamento e era chegado o momento do grande dilúvio, tão grande e medonho que a história não o mencionou…

            O menino cresceu resguardado pela Deusa e a beleza crescia junto dele, mas crescia também, mesmo veladamente, os sentimentos de ciúme, inveja e discórdia. O menino, agora homem feito, logo entendeu que a origem do infortúnio era ele mesmo e se sentiu poderoso, tão poderoso que se estabeleceu como o senhor das mulheres. A Deusa, em sua compreensão, sabia que o ponto do conflito era exatamente onde haveria de existir o equilíbrio entre as polaridades que agora, à sua vontade, se misturavam entre homens e mulheres que passaram a dividir a mesma terra. Como as mulheres eram filhas do céu e, sendo assim, possuidoras das verdades, e os homens filhos da terra maculada e por isso, cegos pelo véu da ambição, a Deusa se fez Deus para ter aceitação nos corações vaidosos de quem se achavam, agora, donos do mundo. Muitos anos se passariam, muitos conflitos aconteceriam até que entendessem – homens e mulheres – que não eram mais dissociados; um se completaria no outro como o dia e a noite, o sol e a lua, o fogo e a água. Até lá, as mulheres se recolheriam em suas sabedoria e verdade que só elas possuíam, só elas sentiam, ao ponto de realizarem o que desejassem tendo nos olhos a morada de seus mistérios. Os homens, por suas vezes, se revelariam na força e na coragem, mas mediante o barulho que criariam na fantasia de seus domínios, revelariam suas fraquezas e seus medos daquilo que ainda não conheciam. Mas o tempo chegaria e, quando chegasse, o verbo, que havia se feito carne, entenderia que antes existira algo muito maior que lhe gerara: a palavra, alma feminina em sua natureza divina. E o tempo se refez…