TEMPO? É VOCÊ QUEM FAZ! PLANEJAMENTO É TUDO, ATÉ PARA LER!

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Por Leandro Bertoldo Silva

Com o que você se identifica?

Antonia mora em São Paulo; Paulo, em Belo Horizonte, assim como Luzia e Angelo, diferente de Geane e Yasmin, que moram em Padre Paraíso, no Vale do Jequitinhonha. Marlene, Elisa e Jair estão em Teófilo Otoni, Bianca em Campinas, Ana Paula em Governador Valadares, e ainda temos Guilhermes, Letícias, Alices, Mauros, Franciscos, Rosilenes e Alexandres espalhados por todo o Brasil!

Você sente aquela vontade de ler um livro; um não, vários! Você sente que aquelas histórias irão mexer com suas emoções. Você sabe que ali, nos livros, existe um pluriverso a ser desvendado, que há mais informações do que as simples letras impressas nas folhas de papel; existe um mundo, uma época, um contexto que caracteriza a existência de cada um deles. E você quer lê-los, conhecer os seus autores.

Mas você não tem tempo…

Não tem tempo pelo trabalho que é muito. Não tem tempo pela família que precisa da sua atenção. Não tem tempo pela escola, onde você já tem que ler tantas coisas para seus trabalhos e provas. E tantos outros motivos que vão se juntando.

E principalmente?

Você sente que tirar o seu tempo para ler, irá lhe fazer perder tempo…

Talvez essa vontade de ler seja apenas uma bobagem. Talvez essas histórias sejam péssimas. Talvez você seja apenas um tolo ao achar que livros mudam pessoas e podem mudar você mesmo e fazê-lo feliz.

Então, você não lê.

Você acredita nesses pensamentos. Você se sente bem quando seu amigo do trabalho diz, estressado, que está muito ocupado – ufa, não é só você, mesmo dizendo sempre que gostaria que com você “fosse diferente”. Você se identifica com a situação de que os afazeres domésticos lhe tomam toda disposição para fazer o que tanto gosta, assim como os compromissos que sempre existem. E você passa dias, semanas, meses… falando para você mesmo que está certo, que gostaria tanto de ler, mas não tem condições.

Será mesmo?

“Não”! Uma voz dentro de você, meiga e amável, cochicha em seus ouvidos: “Não, isso tudo está muito, muito errado…!” E você revigora a sua vontade primeira. Você acredita na leitura e, acima de tudo, você acredita em você! Sabe que o tempo é você quem faz, que a falta dele não existe, existe é a falta de prioridade, e que se colocar entre as suas prioridades a leitura, ela terá a sua hora, como a novela das sete, o bate-papo com os amigos, o futebol no fim de semana, até o banho do cachorro…

Então você começa de novo!

Antonia mora em São Paulo; Paulo, em Belo Horizonte, assim como Luzia e Angelo, diferente de Geane e Yasmin, que moram em Padre Paraíso, no Vale do Jequitinhonha. Marlene, Elisa e Jair estão em Teófilo Otoni, Bianca em Campinas, Ana Paula em Governador Valadares, e ainda temos Guilhermes, Letícias, Alices, Mauros, Franciscos, Rosilenes e Alexandres espalhados por todo o Brasil!

Você sente aquela vontade de ler um livro, e pensa… “ler é tão maravilhoso! E outra voz pergunta…

“E se existisse uma forma de ler de uma maneira mais organizada, relacionando as leituras por critérios de objetivos e importância em determinado momento da vida? E se essas leituras pudessem ser compartilhadas ao mesmo tempo sem que uma se sobreponha à outra?”

Um sorriso se estampa em seu rosto…

“Uma incentivando a outra numa atitude contagiante que fosse se espalhando naquele sentimento gostoso de vitória e objetivo concluído, cujo investimento fosse somente a certeza de que o mundo necessita de mais leitores como você e, como consequência, de mais cultura, de mais refinamento?”

Você está feliz, porque percebe que literatura não é matéria didática, é arte, e das maiores, o que proporciona a elevação moral, social e espiritual das pessoas, pois nela encontramos nossas histórias, nossas origens, anseios, valores, desejos e uma infinidade de coisas que nos levam às conquistas que sempre sonhamos. Nela, nos tornamos seres humanos construtores de pensamentos e produtores de novas sempre possíveis realidades.

E sua alma se abre…

Porque essa possibilidade EXISTE! E não é uma só… Através dela você pode criar a sua e se transformar no leitor ou na leitora que sempre quis ser! Você se sente bem porque acaba de se tornar um(a) NOVO(A) LEITOR(A)!

Achou interessante? Então veja este recado!

Viu? Mas continue a ler para conhecer uma maneira muito prática de repartir o seu tempo de leitura de forma a ler muito, muito mais, dentro das suas possibilidades.

Isso por quê?

Bem, se você também é um amante da leitura deve ficar meio em dúvida às vezes com tantos livros que gostaria de ler, mas que o tempo castiga nosso adorado desejo de viver em meio às páginas.

Mas, olha! Planejamento é tudo, e é o que devemos fazer, pois ele é muito necessário, ainda mais nos dias corridos de hoje. Devo dizer que não existe um método ou uma cartilha a ser seguida. Cada qual é cada qual e cada um sabe, melhor do que ninguém, onde os calos apertam, ou melhor, do seu dia a dia.

O que vou escrever aqui funciona comigo dentro da minha rotina e escolhas. Sou escritor e professor e a leitura é matéria-prima do meu trabalho. Tenho tantos livros para ler quanto são as estrelas no céu…! Por isso, faço uma divisão de três modalidades de leitura:

  • LEITURA DE ENTRETENIMENTO;
  • LEITURA DE PESQUISA;
  • LEITURA DE REFERÊNCIA.

Funciona mais ou menos assim:

LEITURA DE ENTRETENIMENTO

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É a que eu faço pelo meu bel prazer (não que as outras não sejam). É a leitura do divertimento puro, do deleite, sem maiores compromissos do que a apreciação da arte literária. Aqui incluo contos, romances, poesias, etc. Costumo realizar essa leitura de segunda à quinta-feira logo após o horário de almoço, mais especificamente de 13h:00 até 13h:45, que é quando estou em sala de aula esperando meus alunos chegarem. Obviamente, a sala está pronta, matéria preparada, equipamentos checados e, assim, posso me entregar e desfrutar dos personagens e versos…

LEITURA DE PESQUISA

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É a que eu realizo quando estou escrevendo um livro, seja ele de contos ou romance. Um escritor é um contador de histórias e precisa estar atento a tantas histórias já contadas por aí. Isso nos ajuda a estarmos mais presentes, sintonizados com a nossa época, com os gostos e preferências do nosso tempo, sem dizer que um escritor é antes de tudo um pesquisador da sua própria arte. Essa leitura eu a faço às sextas-feiras na parte da tarde, que é o dia de planejar toda a semana que virá, inclusive minha escrita diária.

LEITURA DE REFERÊNCIA

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É a leitura dos grandes autores, daqueles que me dizem mais profundamente, seja em termos de estilo, seja em termos de ideias. Aqui estão os escritores da literatura clássica e contemporânea. Como diz Mia Couto (um dos meus escritores de referência), “os escritores nascem de outros escritores”, e é exatamente assim que acontece. Para essa leitura eu reservei os fins de semana, não todo, claro, pois também tenho uma vida social e familiar que é tão importante quanto. Mas para um leitor sempre sobra um tempinho…

Bem, como disse, não há um modelo a ser seguido. O importante é que cada um encontre o seu jeito, seja ele qual for, pois deixar de ler é algo que não devemos, tanto porque, como disse Monteiro Lobato, “um país se faz com homens e livros”.

Se você gostou, aproveite para divulgar este artigo para aquele amigo ou amiga que, como você, ama a leitura e tem vontade de ler muitas coisas, mas, no entanto, esbarra na “falta de tempo”.

Vamos lá?

Ah, e já que estamos em companhia de leitores, aproveito para indicar os meus dois livros – um romance e um de contos curtos. “Janelas da Alma: uma tempestade íntima, um conflito, um retorno”, e “Entrelinhas Contos mínimos”. Saiba sobre eles clicando AQUI

 

Desejo a todos Boas leituras!

A PROPÓSITO D’O MENINO DO DEDO VERDE

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Por Leandro Bertoldo Silva

Você já leu O Menino do Dedo Verde, do acadêmico francês Maurice Druon?

Se sim, para você é uma obra infantil ou adulta? Se não, tanto para você quanto para quem leu vale muito a pena a reflexão publicada na orelha da 57ª edição – Rio de Janeiro, da José Olympio, de 1996.

Bem, a edição vem demonstrada como literatura infanto-juvenil, mas posso lhe assegurar que este é um dos deliciosos casos que a classificação pouco importa, pois tanto crianças, quanto jovens ou adultos são arrebatados para um mundo onde Tistu, o personagem dessa história, nos coloca de frente a uma enxurrada de pensamentos…

Nessa referida edição é onde se encontra a reflexão mencionada que o crítico José Geraldo Nogueira Moutinho (1933-1991), uma das grandes personalidades literárias do Vale do Paraíba, publicou na Folha de São Paulo em junho de 1973.

Na época, estando eu com então 1 ano de idade, não podia sequer imaginar que 44 anos depois iria encontrar, tanto nestas palavras quanto na obra em si de Maurice Druon, um livro que é exatamente, sem pôr nem tirar, tudo o que Moutinho diz.

Na verdade, acredito que ele traduz exatamente o que os que leram a obra tiveram a oportunidade de conferir. E para aqueles que ainda não tiveram essa oportunidade, transcrevo aqui o que lá se foram tantos anos e ainda se mantém absolutamente atual…

Vamos lá…

Um acontecimento a destacar

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A propósito d’O MENINO DO DEDO VERDE o crítico paulista Nogueira Moutinho escreveu na Folha de São Paulo a seguinte crônica:

Trata-se de um dos acontecimentos, não direi literários, mas poéticos, do ano, o lançamento deste livro de Maurice Druon, traduzido por um dos mais completos conhecedores da linguagem lírica no Brasil, Dom Marcos Barbosa. O fato do monge beneditino, recriador em nosso idioma do Pequeno Príncipe, haver se dedicado a verter esse outro texto, já é uma espécie de garantia prévia no tocante à sua qualidade, ao seu lirismo, à sua lição de poesia e de verdade. Maurice Druon, embora acadêmico e autor de romances históricos, nada perdeu de flexibilidade, de gratuidade lírica, não se deixou esclarecer nem emburguesar pelos títulos, lauréis e outras prendas da velhice. É capaz de articular um relato nesse dificílimo idioma que adultos e crianças entendem, os primeiros, é claro, se não matarem em si o espírito de infância, isto é, o espírito de poesia.

Livro para reler ao longo dos anos, se termos a sorte de descobri-lo na idade cronológica certa; livro para meditar em toda a sua riqueza, se já o recebemos adultos.

O paralelo com o récit hoje clássico de Saint-Exupéry não é exagerado. Dom Marcos, que verteu a ambos para o nosso idioma, confessa que só deu pela semelhança quando terminou o trabalho e se pôs a refletir criticamente sobre o livro. De fato, o Pequeno Príncipe pertence a uma mitologia; Tistu, o menino do dedo verde está, ao contrário, preso às contingências sociológicas do mundo em que existimos. O primeiro é intemporal, o segundo é filho da era da poluição, de agressividade e do desentendimento. Sua missão é justamente despoluir, humanizar, reintroduzir a poesia num universo do qual ela se encontra exilada.

Sobre um mundo cinza e enlutado, Tistu deixa impressões digitais misteriosas que suscitam o reverdecimento e a alegria. Tão apaixonante quanto o Pequeno Príncipe, sua tarefa é mais urgente e mais original. Druon foi capaz de criar um símbolo rico de conotações e de apelos, um significante símbolo cujo significado jaz um pouco em cada leitor, capaz de florescer ao descobrir-se também possuidor de um polegar verde.

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Segundo a explicação do velho jardineiro, Bigode, ao menino, “o polegar verde é invisível. A coisa se passa dentro da pele: é o que se chama um talento oculto. Só um especialista é que descobre. Ora, eu sou um especialista. Garanto que você tem polegar verde”. E à pergunta atônita de Tistu o jardineiro prossegue: “Ah! é uma qualidade maravilhosa, um verdadeiro dom do Céu. Você sabe: há sementes por toda parte. Não só no chão, mas nos telhados das casas, no parapeito das janelas, nas calçadas das ruas, nas cercas e nos muros. Milhares e milhares de sementes que não servem para nada. Estão ali esperando que um vento as carregue para um jardim ou para um campo.”

A simbologia quase evangélica deste pequeno livro faz dele realmente um acontecimento a destacar entre a massa dos lançamentos literários. Cremos estar presenciando o retorno do Pequeno Príncipe: como nas fábulas antigas, se disfarça como Tistu, para só revelar sua verdadeira identidade aos que como ele possuem o polegar verde.”

(Folha de S. Paulo, junho de 1973)

Maravilhoso, não?

Então é assim: se você é um dos felizardos que já leu este livro de verdades e encantos, de flores e cheiros, não importa quanto tempo tenha, se muito ou pouco, se dê a oportunidade de reler agora com ainda mais atenção no momento atual que estamos passando, não apenas no nosso país, mas em toda humanidade…

Se você ainda não leu, nem é preciso dizer, um mundo de emoções, descobertas e verdades o espera…

E não se esqueça! Adoraria saber o que você achou da obra. Entre em contato, comente, recomende…