ANIVERSÁRIO – ÁLVARO DE CAMPOS (FERNANDO PESSOA)

Era sábado, dia 10 de outubro de 1992, às 21 horas, no Centro Cultural da UFMG, em Belo Horizonte. Neste dia, minha mãe fez um buquê de flores para ornamentar o camarim onde eu e mais dois atores- Ademar Pinto e Cléber Andrade, estreávamos, pelo Grupo Intervalo, o espetáculo As Máscaras de Fernando Pessoa, dirigida pelo saudoso mestre, professor, amigo, conselheiro, pai das artes Ítalo Mudado…

A foto acima é de um dos ensaios no teatro de bolso do Teatro Universitário da UFMG – TU, no casarão da rua Carangola. E abaixo o programa com desconto para o espetáculo.

Resolvi compartilhar essa lembrança porque ela, assim como muitas, nos formam como pessoas e contam nossas histórias. Naquela época não existia redes sociais e eu estava muito longe de ter, inclusive, um computador em casa. Motivo pelo qual, os únicos guardados que eu tenho são esses registros.

Hoje temos mais recursos. E, por isso, deixo aqui um dos poemas que eu falava no espetáculo que, por coincidência(?) fala de lembranças…

Forte abraço!
Leandro Bertoldo Silva.

UMA CERTA DONA NICINHA

Ilustração de Adilson Amaral

Do livro O menino que aprendeu a imaginar, de Leandro Bertoldo Silva

Dona Nicinha era uma professora diferente. Se estivesse na sala de aula, tratava logo de organizar as carteiras em círculo. Preferia mesmo que as salas tivessem almofadas no lugar de cadeiras duras e desconfortáveis. Mas, vá lá… Nada que não se pudesse improvisar. Por isso mesmo, Dona Nicinha gostava mesmo era de dar aulas na praça ao som dos passarinhos ou mesmo na quadra da escola, onde tudo era motivo de tornar as aulas mais interessantes, ou surpreendentes, já que era uma professora de Geografia e não de Educação Física.

            Dona Nicinha tinha muitos alunos e gostava muito deles. A recíproca era verdadeira, pois os alunos adoravam a professora e seu jeito simples e diferente de os tratarem. Afinal, ela chegava perto deles e os ouvia com atenção…

Como dito, Dona Nicinha tinha muitos alunos, mas havia um em especial, um tal José de apelido “Desatento”. Acabou ficando conhecido como José Desatento. Ele não gostava muito de estudar. Até que Matemática ele gostava por ser uma matéria mais… Digamos… Absoluta, concreta mesmo. O negócio ficava complicado é quando ele tinha que imaginar… Não que ele não soubesse, pelo contrário, ele imaginava até demais. Aí sobrava exatamente para as aulas de Dona Nicinha. Como seria o tal fuso horário? Será que ele tinha ponteiros na ponta do nariz que indicavam as horas? E fuso horário tem nariz? Bem, deve ter. E ainda por cima deve combinar com os braços longitudinais e as pernas em latitudes de 15º, uma a leste e a outra a oeste…

— José, está prestando atenção?

— Estou fessora!

— O que eu disse, então?

— Que o fuso horário de tanto variar as horas e alternar o dia e a noite sem parar e a todo o momento, deve ter pegado um baita de um resfriado!

Pronto. Era gargalhada geral…

José Desatento não fazia por mal. Gostava de Dona Nicinha.

— Sabe o que é, fessora, eu não consigo entender esse negócio de geografia, sabe? Mapas, escalas… Daí eu começo a pensar e quando dou por mim já estou imaginando histórias…

Hummmm…. Já que José Desatento gostava de histórias, Dona Nicinha teve uma grande ideia! Propôs à turma uma aula na biblioteca da escola, em que deixou tudo muito bem preparado para levar a cabo seu intento. No dia seguinte, tudo combinado, os alunos dirigiram-se à biblioteca e estranharam, já que Dona Nicinha nunca havia se atrasado. Ao chegarem, viram que a biblioteca estava vazia. Entre os murmurinhos, risadas e brincadeiras que logo começaram a surgir, eis que uma voz exuberante, alta e vibrante se fez ouvir vinda de trás de um grande Atlas, cuidadosamente colocado em cima de uma das estantes bem ao alcance dos olhos das crianças. Os alunos logo perceberam que se tratava de mais uma invenção de Dona Nicinha, mas, seja como for, dessa vez estava muito real, pois a voz não parecia a dela e, ainda por cima, ela não estava atrás da estante. Dona Nicinha havia preparado tudo. Amarrara um microfone de tal maneira que não deixou à mostra nenhum fio que, passando pelos vários livros e estantes, permitia que ela falasse de outro lugar da biblioteca onde mantinha uma visão perfeita dos alunos sem que estes a vissem. Coisas de Dona Nicinha…

— Muito bem, crianças… Cheguem aqui perto de mim! Eu sou o Geógrafo e quero levá-los a uma viagem inesquecível! Mas… — começou a chorar. José Desatento achou aquilo fabuloso. Puxa! Um Atlas que fala! E ainda chora?! Como é que pode? Sua imaginação logo deu sinais de ação. Bingo! O plano estava dando certo… José colocou-se à frente do grupo e percebeu uma pocinha de água perto do Atlas (cuidadosamente colocada por Dona Nicinha).

— Ei, por que você está chorando? — perguntou José Desatento.

— Porque você não me usa! — disse o Atlas.

— Ah! Desde quando preciso te usar? Aliás, de onde está saindo essas lágrimas?

— Elas? São do oceano Atlântico! Tem também um pouco do Pacífico e um tantinho do Índico.

— Ai, ai! Você é maluco! Desde quando o oceano Atlântico, Índico ou Pacífico é feito de lágrimas?

— Desde quando você não percebeu que eu sou um Atlas!

Ilustração de Adilson Amaral

E assim, Dona Nicinha, ou melhor, Geógrafo, foi dando toda a aula do dia, pedindo ora um, ora outro que folheasse uma parte do Atlas à medida que ela ia explicando e fazendo os alunos “viajarem” em suas páginas.

José Desatento estava agora mais atento do que nunca. A cada explicação do Geógrafo, ele se imaginava numa verdadeira aventura. Em seus pensamentos, à medida que Geógrafo ia articulando as palavras, ele ia ficando pequenininho e descobrindo várias coisas viajando de um lugar a outro na companhia do novo amigo. De repente, estava lá na Espanha descobrindo várias coisas, mais precisamente as touradas e, também, que lá tem um dos times de futebol mais ricos do mundo. Isso ele gostou à beça, pois adorava vários esportes, principalmente futebol. Depois ele voltou aqui mesmo para o Brasil e viu que no Nordeste tem duas danças chamadas frevo e axé e, no Rio de Janeiro, tem o samba. Em Minas Gerais tem uma comida típica que é o feijão tropeiro, que os turistas adoram, e também o pão de queijo. Na Argentina conheceu uma dança muito querida pelos hermanos, que é o tango. Ficou sabendo que na Itália inventaram duas comidas deliciosas que ele adora: a pizza e o macarrão. E assim, ele foi conhecendo o mundo pelas páginas do Geógrafo como nunca havia conhecido.

No fim da aula, Dona Nicinha deixou seu esconderijo e fingiu entrar na biblioteca se desculpando pelo atraso. Os alunos até sabiam que se tratava de uma grande brincadeira, mas tudo tinha sido tão bem articulado e conduzido pela professora, que eles não quebraram o encanto. Contaram a ela o que tinham aprendido e a respeito do Geógrafo de tal forma e com tanta verdade, que ela mesma quase acreditou na própria história. Quem mais falava era José Desatento, que mostrava a cada frase um grande aproveitamento. Dona Nicinha ouvia tudo com atenção. Sentia-se satisfeita, pois achava que tinha conseguido tocar o coração de seus alunos, principalmente de José, e fazer com que ele encarasse a Geografia com outros olhos. A confirmação disso se deu uma semana depois, quando José, ao apresentar um trabalho, falou tudo o que aprendeu nas páginas de seu “amigo” Geógrafo. Falou tão bem que foi aplaudido pelos colegas e pela professora Nicinha. Ao soar o sinal para ir embora, Dona Nicinha juntou suas coisas e saiu da sala satisfeita. Quando foi virar o corredor, ela ouviu José gritando para ela:

— Valeu, Geógrafo!

Dona Nicinha nada falou. Apenas sorriu e foi entrar em outra sala para mais uma de suas aulas inesquecíveis…

LIVRO PRONTO – ADVERTÊNCIA

Em um vídeo anterior, falei da proposta literária deste que é o meu quinto livro publicado pela Árvore das Letras, através do selo Alforria Literária, e que você pode verificar clicando AQUI.

Neste, venho, com muita alegria, apresentar o livro e presenteá-los com a Advertência que abre estas histórias contadas pelo amigo Aarão Reis e recontadas por Xavier de Novais.

Assim diz Xavier:

Que Hipérion* possa me haver dado a alcova da escrita, para que neste matrimônio que muito me apraz, possa eu, Xavier de Novais, depois de ter vivido em tão encantadora cidade, ter o auxílio das boas almas de horizonte tão belo. Trata-se, em verdade, de uma narrativa em duas vozes: a minha e a dele, meu amigo, como se verá, embora a minha não seja mais que a dele, sendo eu apenas um portador dando notícias neste livro. Alguns acharão nele um romance; outros, contos, e outros, ainda, talvez nada. Mas, ai! Quanta coisa há de se encontrar por aqui…

Mas, antes de qualquer coisa, é preciso perguntar-lhes: caros amigos e caras amigas, vocês têm medo de fantasma? Sim ou não? Pois é… Durante algum tempo, hesitei, sem saber se deveria ou não levar esta história ao conhecimento de todos, ou melhor, estas histórias, pois foram muitas que meu amigo finado me contou. Sinto-me um tanto perplexo com a possibilidade de me acharem desviado das ideias e quererem me internar num manicômio, mas como fugir à realidade de ter sido escolhido o seu ouvinte? De fato, este que acabou por se tornar, para mim, um grande herói, escolheu-me. Hesitei, como disse, por um bom tempo, mas apenas o suficiente para encher-me de coragem e perder o medo do que as pessoas (inclusive o leitor e a leitora) poderiam dizer, e, então, respeitosamente dar-lhes uma bela e ostentosa “banana”. Não, não estou nervoso. É apenas um desabafo íntimo. É preciso convir que uma pessoa que recebe pontualmente, como se verá, a visita de um ectoplasma ilustre, com um gosto refinado para o café e um bom papo madrugada adentro e que, além disso, há um tempo guardava suas histórias, enquanto ainda questionava se deveria ou não contá-las, apesar de louco para fazê-lo, merece um instante de vazão. Caso contradigam-me, dizendo: “você é um louco”; “é um fanfarrão”; “não passa de um contador de histórias”, não tem importância. Medo já não tenho mais. Além disso, a propósito desse último xingamento, devo elucidar que seria injusto, pois histórias nunca soube contar, embora as aprecie. Eu apenas as escutava. Por sinal, eram muito bem traçadas, e até diria interpretadas, por meu amigo defunto, ou melhor, morto, pois defunto não era mais. Antes que eu me renda à tentativa de teorizar sobre a diferença entre ser defunto e ser morto, vamos à história, ou pelo menos parte dela.

Mas também, antes que a paciência lhes falte, o que seria extremamente triste para mim depois de pensar por tanto tempo se deveria ou não revelar estas histórias, vamos a três rápidas considerações: primeiro, a história em si não é de fantasma, como devem ter percebido, a história me foi contada por um; segundo, e eis o motivo de eu pensar que poderiam me achar louco, uma coisa é contar histórias de assombração, como nossos avós nos contavam e hoje fariam as crianças rirem ao invés de terem medo, outra é contar histórias contadas por um fantasma, isto é bem diferente. E a terceira é a que segue…

Xavier de Novais

*Hipérion significa o Alto: é o epíteto a Hélio, o Sol.

E assim inicia o livro que guarda muitas surpresas que, a partir de maio, estará à disposição dos leitores e leitoras. Mas disso eu falo em outra publicação…

Forte abraço!
Leandro Bertoldo Silva.

CANÇÃO PARA ÁLBUM DE MOÇA

Existem poesias que, por algum motivo, “pegam a gente” na primeira leitura. É quando acontece aquela velha máxima dos contadores de história: “não é você quem escolhe a história, mas a história é que te escolhe”. O mesmo, portanto, vale para a poesia.

Foi o que aconteceu comigo com essa poesia de Carlos Drummond de Andrade, e que deixo aqui para você ler e depois ouvir o quanto e como ela me tocou.

E como o mundo da poesia não é para ser nada explicado, mas sim sentido, vamos logo à ela

Forte abraço!
Leandro Bertoldo Silva.

Bom dia: eu dizia à moça
que de longe me sorria.
Bom dia: mas da distância
ela nem me respondia.
Em vão a fala dos olhos
e dos braços repetia
bom dia a moça que estava
de noite como de dia
bem longe de meu poder
e de meu pobre bom dia.

Bom dia sempre: se acaso
a resposta vier fria ou tarde vier,
contudo esperarei o bom dia.
E sobre casas compactas
sobre o vale e a serrania
irei repetindo manso
a qualquer hora: bom dia.
Nem a moça põe reparo
não sente, não desconfia
o que há de carinho preso
no cerne deste bom dia.

Bom dia: repito à tarde
à meia-noite: bom dia.
E de madrugada vou
pintando a cor de meu dia
que a moça possa encontrá-lo
azul e rosa: bom dia.

Bom dia: apenas um eco na mata
(mas quem diria)
decifra minha mensagem,
deseja bom o meu dia.
A moça, sorrindo ao longe
não sente, nessa alegria,
o que há de rude também
no clarão deste bom dia.
De triste, túrbido, inquieto,
noite que se denuncia
e vai errante, sem fogos,
na mais louca nostalgia.
Ah, se um dia respondesses
Ao meu bom dia: bom dia!
Como a noite se mudara
no mais cristalino dia!