A LITERATURA É UMA ESCADA MUITO ALTA

Por Leandro Bertoldo Silva

Uma das condições que nos faz ser humanos é a nossa capacidade de ler. Ser leitor é estar inserido, não em um universo, mas em algo maior, uma espécie de pluriverso que é, ainda, mais vasto. Gosto dessa palavra: “Vasto”. Lembro-me de Drummond ao escrever: “Mundo, mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não uma solução”. Bem, não me chamo Raimundo, mas supondo ser esse o nome de todos os alunos e alunas que dizem ter horror à leitura por não entenderem como, ao ler, somos transportados aos vastos mundos, conscientes e inconscientes, reais ou imaginários, busquemos a solução com licença ao poeta.

Antes, o que nos faz verdadeiramente humanos em nossa experiência leitora é perceber que não lemos somente as palavras. Há algo a mais nessa experiência que reflete a nossa condição lúcida de seres racionais dotados de uma inteligência superior. Sempre digo: precisamos aprender a ler a verdadeira natureza íntima de todas as coisas. Eu, como escritor, gosto dos leitores que leem os cheiros, os sabores, as lembranças, as saudades, as esperanças, as suposições… As letras são materializações do que sentimos, mas não devemos ficar presos nelas, pois se assim acontece, ficamos na superficialidade, no espelho das águas e perdemos a oportunidade de desfrutar o encontro das profundidades. É como a árvore; vemos o seu tronco, galhos, folhas e frutos, mas não enxergamos o mais importante: suas raízes. Na escrita se dá o mesmo. É preciso ler as raízes, o que está “escondido”, pois são elas a sustentar sua existência.

Mas deixemos as digressões. Até porque estava nelas quando um aluno levantou a mão no meio da sala.

— É o seguinte, fessô — disse ele coçando a cabeça. Eu sei que o senhor é escritor e fala essas coisas aí, mas eu não consigo entender essas paradas de ler o que não tá escrito. Como isso é possível?

— Ora, Raimundo, você ouviu o que eu falei sobre a árvore?

— Ouvi, fessô, mas isso tudo é poético demais… Falando assim até dá pra entender, mas sei lá…

— Certo. Vou te explicar de outra forma. Vamos fazer uma pequena viagem mental.

— Fazer o quê?

— Um faz de conta, vou contar uma história e você vai se vendo dentro dela.

— Pô, fessô, maneiro. A galera pode vir junto?

— Pode. Mas você precisa se concentrar, pode ser?

— Pode crer.

— Vamos lá. Imagina que você está indo para uma cachoeira com alguns amigos.

— Maneiro.

— Porém, durante o trajeto e ao chegar lá o sol foi se escondendo e dando lugar a um tempo nublado e até com alguns pingos de chuva, poucos, mas suficientes para turvar a água e impedir a sua bela visão cristalina.

— Pô, fessô, sacanagem…

— Concentra, Raimundo.

 — Vai nessa.

— Se algum de seus amigos falasse para você pular na água de cabeça, você pularia?

— Com a água turva? Tá doido, fessô, de jeito nenhum!

— Ora, e por quê?

— Por quê?! Cê tá doido mesmo! Com a água turva não dá pra ver o fundo e nem onde as pedras estão. É perigoso pacas!

— Pedras? Mas que pedras? Eu não falei em pedras! Além do mais, você nem as viu! Como sabe que tem pedras?

— Ô, fessô, se liga! Cachoeiras são lugares de pedras a contar pelas que existem nas margens. A gente pode até não tá vendo, mas isso porque a chuva que o senhor falou fez mexer as paradas lá embaixo da água e a lama subiu pra superfície. Mas que tem pedra, ah isso tem. E vai que tem uma exatamente onde eu pularia…

— Hummm… Sabe o que você fez, Raimundo?

— Me livrei de uma?

— Isso também. Mas você acabou de fazer uma leitura perfeita da natureza e das suposições.

— Hã?!

— Sim, Raimundo, percebe! Você leu a água, a lama, a chuva… E não havia palavras aí, ou seja, as pedras. Você enxergou o que não estava visível, exatamente como devemos fazer em uma leitura: ler nas entrelinhas, nos espaços vazios onde as palavras já não são necessárias… Entendeu?

Nem era mais preciso perguntar. A sua expressão disse tudo. Ele ficou satisfeito com a explicação. Eu mais ainda por ter, talvez, despertado mais um leitor crítico. Ao vê-lo com seu ar alegre e orgulhoso de si mesmo e em meio à algazarra da turma que o saudava, fiquei a pensar… É, a literatura é mesmo uma escada muito alta e para se chegar ao topo é preciso subir degraus.

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Pois é, essa é uma fala corriqueira minha. Quem me conhece sabe disso. Infelizmente, tem muita gente adepta ao salto à distância e quer alcançar, de um pulo só, o último degrau. Vemos isso muito nas escolas quando “obrigam” alunos a lerem autores e obras que ainda não estão preparados e, além de não prepará-los, ainda dão prova de livros, prática que eu nunca fui adepto, pois acredito mesmo que há muitas outras maneiras de se avaliar uma leitura… E você, o que acha disso? Obrigado mais uma vez por estar aqui. E não deixe de curtir, deixar seu comentário, compartilhar com um amigo ou amiga. Já disse, mas vale repetir: para mim é precioso.

Forte abraço!

NA CLÍNICA

Por Leandro Bertoldo Silva

Estava eu com minha esposa em uma clínica para acompanhar a minha sogra em um exame médico, quando uma atendente chamou uma paciente em espera. Logo eu soube ser Sosléia Leão de Almeida, graças à demora da senhora perceber a chamada e fazer a atendente repetir o nome antes escutado por mim como Sossega Leão de Almeida. Pronto! A troca fonética na minha cabeça foi o suficiente para começar a imaginar histórias. O que levaria um pai e uma mãe a batizar uma filha com o nome de Sossega Leão? Para as crianças de hoje em dia até seria uma boa pedida e faria jus ao termo usado no estado do Ceará como espaço gradeado no qual se colocam os pequenos e pequenas para que fiquem em segurança; no popular, cercadinho ou, ainda, chiqueirinho. Não há referência pior e embora muita gente seja contra essa terminologia, inclusive eu, o fato é que as crianças de hoje… Misericórdia! Seja como for, a senhora já passava dos 70 anos, provavelmente criada na rigidez da época. Por que então se chamaria assim? Não fazia o menor sentindo.

Nisso uma outra senhora saiu pelo corredor possessa, soltando fogo pelas ventas e, aos berros, dizia ser a médica a tomar naquele lugar sugerido. Que absurdo, meu Deus! Como alguém estudada poderia dizer aquela barbaridade? O mundo estava mesmo perdido. Assim bradava a mulher a chorar desesperadamente até vir a mesma atendente de antes com a receita da médica nas mãos ao tentar sem sucesso explicar a senhora que ali estava escrito: “Tomar Novalgina de 6 em 6 horas”. Não adiantou. O dito não encontrou outro significado e a senhora, que, aliás, se chamava Ava Gina da Silva e usava um aparelho de surdez, saiu aos prantos a defender sua pureza.

Passada a confusão e ânimos serenados, apesar dos risos de uns e protestos de outros, ambos camuflados, veio novamente a atendente para mais uma chamada.

— Amado Pinto de Oliveira… É esse mesmo o nome?! — já perguntou receosa.

— Por quê? Tem alguma coisa de errado com ele? — levantou um homem dirigindo-se à atendente.

— O senhor é o senhor Amado?

— Amado da minha mãe e Pinto do meu pai, que se chama Oliveira. Sou eu sim, senhora.

— Não há nada de errado, senhor Amado. Queira me acompanhar, sim?

— Não.

— Como não?

— A senhora acha que tem alguma coisa de errado com o meu nome.

— Eu não acho nada, senhor.

— Acha, sim. Por que então ao me chamar a senhora ficou arrastando o meu Pinto? A senhora disse assim: Amado Piiiinnnnto de Oliveira?! E ainda colocou uma interrogação velada no final! Pois saiba que na minha família todos temos Pinto, tanto os homens quanto as mulheres.

— Não há nada de errado com o seu Pinto, Senhor Amado. Posso lhe assegurar isso! — falou mais alto a atendente no exato momento em que entrava uma mãe com sua filha pré-adolescente já a jogar a bolsa para cima e correr a tampar os ouvidos da menina, porém tarde demais, pois se todos gargalhavam copiosamente, a menina certamente havia escutado. O senhor Amado ficou ofendidíssimo por ver todos rindo do seu Pinto, inclusive a filha da mãe, enquanto essa já arrastava a menina para fora, levantava os braços e gritava “valha-me Deus”!

A atendente quis cancelar todas as consultas e a confusão se instalou entre risos e xingamentos. A médica ao ouvir aquela balbúrdia saiu da sua sala e foi ela mesma tomar conta da situação. Enquanto ela tentava acalmar novamente os ânimos, a mãe e a filha pré-adolescente voltaram com um policial.

— É essa a pervertida, seu policial. E essa outra deve ser a chefe dela. Essas mulheres devem ser presas.

— Calma – disse a médica — tudo não passou de um mal entendido. Podemos explicar.

Depois de um tempo considerável tudo se aquietou. A médica resolveu continuar o atendimento e ela mesma fazer as chamadas. Porém, ao passar os olhos pelas fichas e verificar todos os nomes ali escritos chamou a atendente no canto e segredou:

— Vamos precisar de reforços… O policial que saiu daqui não deve estar longe. É melhor chamá-lo de volta ou então é bom preparar um sossega-leão bem forte.

— Sim, senhora.

Ô complicação é nome de gente!  A situação mal tranquilizou e eu fiquei ali a imaginar a Sosléia distribuindo bolsada para todo lado. Cabeça de escritor é coisa muito perigosa…

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* Obrigado mais uma vez por sua leitura. E não deixe de curtir, deixar seu comentário, compartilhar com um amigo ou amiga. Já disse, mas vale repetir: para mim é precioso.

Forte abraço!