SOMOS TODOS POLICARPOS?

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Por Leandro Bertoldo Silva

Ao final do mês de outuro, estivemos juntos eu, Adelson e Tité – grandes amigos – para trocarmos impressões sobre este que foi o nosso terceiro livro lido no grupo NOVOS LEITORES. Triste Fim de Policarpo Quaresma, do “Policarpo” Lima Barreto, nos levou a muitas reflexões, inclusive quanto ao próprio ato de acreditar na leitura…

Policarpo Quaresma era um visionário por acreditar que poderia viver integralmente os seus ideais. Vimos isso logo na primeira parte do livro quando ele busca adequar seu dia a dia a tudo que é tipicamente brasileiro: comidas, música, roupas e se aproxima até mesmo da cultura indígena e do tupi-guarani.

Fica muito evidente a crítica política e social presente no livro, quanto da tentativa do Major, que não era assim militar, mas apenas um homem culto que tinha muitos livros (por que alguém deveria ter tantos livros em casa?…), que acreditava no Brasil e que em nossas terras nunca haveria de ter seres humanos sem escrúpulos e que seriam capazes de fazer as coisas “do seu jeitinho”, ou, pelo menos, fingindo fazer…

Navegar por esses mares é dizer o que está evidente: Quaresma – o nosso “Dom Quixote” brasileiro por acreditar que “em se plantando tudo dá”, pois, afinal, vivemos em um país tropical e amável, rico e perfeito e com pessoas que levam a integridade como forma de vida, era mesmo de ser chamado de louco. Será?

Oh, Quaresma… Aí está o seu triste fim ao descobrir, abandonado, que as coisas não são exatamente como parecem ou como gostaríamos…

Aqui fizemos um recorte triste de um fim evidenciado – mas não aceitável – dos leitores do Brasil. Curioso pensar que um dos elementos mais importantes do livro é exatamente a biblioteca do Major, pois nela Quaresma passa a maior parte do seu tempo “isolado” em anos de leitura e estudo que vai fazendo crescer o seu nacionalismo, mas… Para quê? Livros são mesmo muito perigosos…

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Mas não foi bem esse o recorte que nos levou à reflexão quanto a acreditar na leitura como fator essencial e prioritário de nossos afazeres. Talvez a vontade de ler e criarmos grupos com esse propósito seja apenas uma bobagem… Talvez esses livros sejam péssimos. Talvez sejamos todos Policarpos ao achar que livros mudam pessoas e que possamos mudar o mundo…

Nessa altura o vinho já havia acabado e um silêncio profundo nos levou cada qual à sua cela à espera que uma melodia – não a “modinha” da leitura – mas talvez o rock pesado do incômodo barulho possa nos colocar de frente ao espelho de nossas escolhas e atingirmos com verdade o “coração dos outros”…

Vamos à Clarice…