LITERATURA EM ÁUDIO: A RETOMADA DA ESCUTA E DA IMAGINAÇÃO

Por Leandro Bertoldo Silva

Quem foi criança nas décadas de 60 e 70 há de se lembrar da “Coleção Disquinho” da Gravadora Continental. Eram discos de vinil compactos e coloridos, e cada um trazia uma história cheia de músicas compostas e adaptadas por Braguinha (João de Barro), orquestradas por Radamés Gnattalli e narradas por Sônia Barreto.

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Eram histórias como A Dona Baratinha, Pedro e o Lobo, A Festa no Céu, Soldadinho de Chumbo, entre outras, e até clássicos como Branca de Neve e Chapeuzinho Vermelho.

02-dona-baratinhaO que era mais impressionante é que o que tínhamos de elemento visual era somente as capas dos discos; tudo ficava mesmo para a arte de escutar as histórias e imaginá-las à medida que iam sendo narradas na voz doce e melodiosa de Sônia, o que fazia com que desenvolvêssemos uma enorme capacidade criativa a partir da fantasia.

braguinha
Braguinha
Radames-Gnattali
Radamés Gnatalli
sonia-barreto
Sônia Barreto

Hoje tenho absoluta certeza que muito da minha formação, primeiro como leitor e depois como escritor, se deve a essa época.

Com o passar dos anos, a capacidade de escutar foi sendo substituída por inúmeros apelos visuais, que também são importantes, mas, às vezes, deixa uma lacuna no imaginário, uma vez que tudo está ali, pronto para ser servido.

A escuta é diferente. Através dela, saímos da passividade e passamos a produzir uma visão autentica de nós mesmos e do mundo que nos cerca, não sendo tão influenciados por visões externas ou, pelo menos tendo mais espaços para as nossas próprias construções e reflexões e resolver nossos conflitos.

Digo isso porque naquela época muitas das histórias continham traços do que hoje chamamos de “politicamente incorreto”, como a Dona Galinha e seus Pintinhos, que abandona os seus ovinhos e vai para uma festa e, quando volta, os filhotes já haviam nascido… Há também o caso do Burrinho Trololó, em que todos riam do seu rabinho, o que hoje seria considerado como bullyng… Não que eu seja a favor desses comportamentos, é claro que não, mas o fato é que isso não influenciava tão negativamente as crianças naquela época da mesma maneira que hoje, onde é preciso, em alguns casos, até de punições, mesmo com todo o nível de informação. Será que a chamada inocência se perdeu? O que será que mudou na nossa sociedade de lá para cá? Talvez seja a própria capacidade de escutar histórias e saber diferenciar o lúdico…

Literatura em Áudio é um resgate dessa escuta, não apenas a partir de histórias infantis, mas também através de textos da nossa literatura clássica e contemporânea e também de minha escrita, tornando-se um grande laboratório de sensações e emoções.

Vocês podem conferir esse trabalho que está sendo criado aos poucos aqui mesmo no blog ou mesmo no canal do Youtube clicando AQUI.

O melhor de tudo é que eu não estou sozinho. Há hoje muita gente boa, como naquela época, muitos artistas gravando suas histórias e de autores consagrados, com a diferença que tudo está mais fácil, tanto tecnicamente por causa da tecnologia, como na capacidade de difusão dessas narrativas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAÉ o caso do escritor e contador de histórias Pierre André (puxando aí a Carroça de Histórias comigo vindo logo atrás com o guarda-chuva colorido), de Belo Horizonte, que, com muita satisfação, é um grande amigo e parceiro de muitos anos nesse mundo das letras, da oralidade e da escrita e que desenvolve um belíssimo trabalho chamado PodContos do Pierre André, que você pode conhecer clicando AQUI e seguir este artista e seu encantador trabalho.

E já que estamos falando de histórias e da arte de escutar, vamos ouvir histórias? Abaixo deixo duas delas, uma minha – “Mapinguari” –, que é parte do meu livro O Menino que Aprendeu a Imaginar, e uma história cheia de intertextualidade belissimamente escrita e narrada pelo Pierre chamada “Vamos brincar de roda?” em seu canal do Youtube.

E como ele mesmo diz…

“E essa história entrou pela porta da sala e saiu pela janela. Se você gostou, aguarde a próxima… Quem sabe mais bela?”

 

SABER SE REINVENTAR É NÃO TER MEDO PARA FAZER AS MUDANÇAS QUE A VIDA PEDE

 

Saber se reinventar2

Por Leandro Bertoldo Silva

 

Há 7 anos venho ministrando ininterruptamente o curso Vivenciando a Linguagem, Leitura e Escrita na Árvore das Letras.

Muitos foram e são os alunos de todas as idades que se beneficiaram e se beneficiam desse trabalho.

Mesmo agora com o que estamos passando, vivendo esses momentos de grande incerteza e angústia diante de uma crise econômica e de saúde mundial sem precedentes, que testa a nossa capacidade de adaptação, reinvenção e resiliência, não deixei os nossos alunos. Eles continuam os seus estudos de leitura e escrita através de videoaulas, audioaulas que passei a produzir, gravar e editar e também em aulas on-line, onde nos encontramos todos em horários específicos de estudo. Até a nossa meditação inicial não deixamos de fazer.

Esse é o verdadeiro poder do amor, onde é preciso se reinventar em uma proporção jamais vista. E isso é o que nos faz ser seres vivos, como a própria língua, mutável em sua natureza.

Será isso o prenúncio de uma nova abordagem?

O fato é que eu não quero mais voltar… É como se o que estamos vivendo fosse um grande divisor de águas. O que está acontecendo não me permite simplesmente voltar ao que era antes, ter a mesma rotina, o mesmo padrão de pensamentos e fazer tudo exatamente da mesma maneira, tanto porque acho que não será mais possível nos posicionarmos perante as coisas do mundo da mesma forma.

No que concerne ao meu trabalho de educação, o meu pensamento está daqui para frente; para trás não cabe mais. Não me vejo nos mesmos padrões repetitivos de uma sala de aula comum muitas vezes engessada em conceitos ultrapassados. Isso é velho ciclo, velha cultura. O mundo está pedindo mudanças e o novo está pedindo passagem. Só assim viveremos a pureza da nossa natureza em prol de criarmos um mundo mais fraterno, justo e igualitário a começar por nós mesmos e com as nossas verdades.

Neste momento, o mais importante é pensar em nos cuidarmos, tanto fisicamente quanto emocionalmente e fortalecer a nossa espiritualidade acreditando que tudo isso é uma mudança necessária. O mal vai passar e acredito que irá levar com ele tudo o que é velho e ultrapassado, seja nas relações humanas seja nos nossos trabalhos e a maneira com que enxergamos a vida. É claro que ainda continuarão existindo escolhas…

É preciso pensar que novas abordagens não são mais apenas um desejo, mas uma necessidade e que é preciso muita coragem para fazê-las com leveza, sim, mas com força e propósito.

Sigamos em frente. Sigamos atentos. Mudanças estão sendo feitas.

Enxerguemos.

O TOCADOR DE SILÊNCIO

O tocador de silêncio

Todo silêncio é música em

estado de gravidez.

 – Mia Couto –

Desferir é fazer vibrar… Vibrar o silêncio de nós próprios é alcançar o voo perfeito do que desejamos.

Tinha chegado ao máximo da execução que pensava poder possuir. Tocava acariciando as cordas do seu violino retirando delas o som preferido dos anjos e dos deuses. Mas, mesmo com os frenéticos aplausos, sabia que não havia alcançado a música que desejava. Isso só aconteceu quando, num dia de descuido, roubaram-lhe o instrumento, e ele, despojado do que sustentava sua ilusão, passou a tocar no ar, ouvindo, inalterado no silêncio, a essência de suas notas. Tornara-se música…

REINVENÇÕES: A NECESSIDADE DA SOBREVIVÊNCIA EM UM MUNDO QUE PEDIU PARA PARAR

Black, Blue and Orange Earth Hour Instagram Post

Que momento estamos vivendo! É engraçado (sim, há “graça” em tudo isso) pensar que a única certeza que temos são as incertezas.

Sou do tipo de pessoa que sempre acreditou naquele ditado: “se a vida te deu um limão, faça uma limonada”. Pois é, a vida não nos deu um limão, mas uma plantação inteira.

Estou falando dessa medonha pandemia que em momento algum da humanidade a história registrou algo tão surpreendente. Mas não quero ficar falando aqui mais do que os jornais, os especialistas e as autoridades já estão noticiando; quero ir além do medo, se é que é possível, e pensar nisso tudo como um grande presente, uma grande oportunidade de uma mudança absurdamente necessária em nossas vidas, pelo menos na minha.

Há tempos vinha sentindo uma angústia por não conseguir expressar o que sentia ao olhar para as coisas do mundo, a maneira que as pessoas, e até mesmo eu, iam dispondo suas vaidades, suas “certezas” e opiniões em um mundo que me parecia tão superficial. De repente a felicidade passou a ser medida pela nossa popularidade, pela quantidade de “amigos” que possuímos e, depois, nem isso – bastam as curtidas, o resto não interessa.

Num mundo onde tudo virou marketing – e da pior espécie – ao ponto de nos vermos invadidos por uma onda de propagandas de produtos e serviços que sequer necessitamos ou temos interesse, num mundo em que até os sorrisos são vendidos por uma camuflada onda de “gatilhos mentais” para capturar a sua atenção e vender felicidade de forma fácil, para não dizer mágica, a custo da inocência do desejo, vem a vida e nos obriga a parar com tudo isso e a pensar unicamente em sobreviver.

Mas sobreviver para quê?

Para voltar ao que era antes? Voltar ao trabalho da mesma maneira como se nada tivesse acontecido ou simplesmente termos tirado umas férias inesperadas? Voltar às enxurradas de postagens marqueteiras e à vida superficial das redes sociais? Voltar a tratar o outro como inimigo porque pensa diferente, embora também não sejamos obrigados a ser cordiais com quem nos faz mal e termos o direito de nos afastar? E por que não fazemos? Porque temos medo de sermos sinceros com nós mesmos e, por isso, suportamos o insuportável? Sabe aquele pensamento de que “eu te respeito, mas isso não significa que eu tenho que ser seu amigo?” Sabe aquele trabalho (novamente o trabalho) que você realiza porque é obrigado a ganhar dinheiro, pois se não fosse isso você não o faria? Sabe tantas outras coisas que acreditamos ser verdade pelos olhos dos outros?

Pois é… Para esse mundo eu não quero mais voltar.

Quero o mundo onde eu continue escrevendo, porque escrever é a minha sobrevivência, mas sem me ver preso nas correntes ocultas que me diz que é preciso divulgar para todo mundo. Deixa-me falar uma coisa: estou compreendendo que o que fazemos não é para todo mundo… Este blog não é para todo mundo, os meus livros não são para todo mundo, nem mesmo este texto é para todo mundo, mas para quem, por alguma razão, se alinha com o meu estado de espírito e com a minha energia, que não é melhor e nem pior do que a de ninguém, é simplesmente minha e nossa para quem nos irmanamos. Acredito que quando fazemos algo por paixão, isso, de alguma forma, se comunica com alguém e encontra seus caminhos. E isso basta.

Quero o mundo onde a obrigação de trabalhar não destrua o prazer que o trabalho me traz e nem mesmo faça parte da minha vida, e que as pessoas entendam que eu tenho o meu jeito de fazer as coisas, que pode não ser o delas, e está tudo bem.

Quero o mundo onde eu tenha menos amigos virtuais e mais amigos reais. O mundo que a tecnologia seja usada a meu favor e não o contrário. O mundo que não seja preciso me afastar das pessoas que amo para dizer o quanto gosto delas e futuramente eu me arrepender de não tê-lo feito. Quero um mundo tão diferente… Mas na mesma proporção do que ele sempre foi, mas eu simplesmente não estava enxergando.

Sabe o que eu mais penso de tudo isso?

Que para esse mundo que eu tanto quero poder existir eu terei que me reinventar dentro dele. Não é ele que precisa mudar, mas eu na minha ignorância de me fechar em meus medos por achar que não daria conta dos desafios que é não pertencer a lugares, relacionamentos, formas de trabalho que há muito não acreditava e não acredito.

E aqui está a “graça”, não hilária, mas da permissão de sermos autênticos e fazermos diferente, pois, embora a palavra mudança traga calafrios gigantescos em nossos corações, nos colocamos nessa situação de ter nela a única forma de salvar a nós mesmos e os outros, nos olhando de verdade e transformando as incertezas em possibilidades.

E VOCÊ, QUAL O MUNDO QUE VOCÊ QUER?

PONTOS DE VISTA

menina

Por Leandro Bertoldo Silva

Por caminhos tortos, viera

a cair num destino

de mulher.

[…]

– Clarice Lispector –

 

“Havia me arrumado toda. Um dia inteiro no salão de beleza”.

Pensava, pensava, pensava… Seu cabelo mais parecia uma escultura de Rodin. Unhas desenhadas, moderníssimas. A pele uma seda, e gastou uma fortuna naquele vestido dos sonhos. Ficou tão bonita que mal podia se reconhecer no espelho.

“Por que será que ele sequer me olhou?”.

Perguntava-se desiludida e triste, segurando a vassoura na pausa da casa que pedia arrumação. O cabelo da véspera, agora volumoso e desgrenhado, estava preso no alto da cabeça por dois lápis atravessados. A maquiagem desfeita revelava as sardas abaixo dos olhos. Os óculos, de aros grossos e teimosos, escorregavam para a ponta do nariz. Os chinelos de dedo nada pareciam com os sapatos de salto de outrora. Foi assim, com uma camiseta simples e um short desfiado, que se dirigiu à porta para atender a campainha que tocava. Era ele! O amigo do seu irmão… O responsável por toda aquela transformação de Cinderela. Ontem sequer a notou; hoje estava ali, bem a sua frente, vendo-a naquele estado! Os olhos pousados nela, vidrados, pareciam não acreditar. Sua vergonha aumentava a cada silêncio do rapaz que não arredava pé, até que sua boca, num movimento de quem iria finalmente desferir a gozação, disse:

— Luiza! Você está… linda!

E o amor se indecifrou em pontos de vista…