RECORTES

Recortes

Não podemos exigir o amor de ninguém.

Podemos apenas dar bons motivos para que

gostem de nós, e ter paciência… para que a vida

faça o resto.

 (Clarice Lispector)

Desiludido, escreveu num pedaço de papel: “Meu amor não tem rosto nem nome…”. Aquilo o incomodou até que o tempo anestesiou sua dor. Por alguns anos, até que procurou a dona daquelas palavras que saíram de si. Já tinha uma pequena caixa de recortes, na qual moravam imagens de mulheres sem nudez ou sequer sensualidade. Vestidos em bustos, braços, pernas, todas elas comuns e sem rosto, faziam-se companheiras dos papéis já amarelados e esquecidos, quase que com suas letras desbotadas. A inércia daquele encontro e a insistência da sua impossibilidade fizeram com que desistisse de vez e aposentasse suas imaginações por anos, vivendo apenas em sua companhia. Já idoso, porém, ao limpar sua estante, deparou com aquelas lembranças e quis jogá-las fora. À porta de sua casa, abriu a tampa do coletor e, no derradeiro movimento, ouviu uma voz que lhe disse:

“Meu nome é Judite. Preciso de uma informação…”.

Ao fitar a senhora que sorria, seu rosto se desenhou em cada pedacinho de papel que segurava e, junto com o nome, preencheu o que faltava…

Ouça o conto narrado:

Acompanhe essa e outras histórias no nosso canal do Youtube no Literatura em Áudio.

https://www.youtube.com/channel/UCQogOcP-pTO9eMGlk4QHAGA?view_as=subscriber

Assista, dê um like, faça seus comentários, se inscreva e ajude a divulgar cada vez mais a literatura!

RESUMO DA ÁRVORE – 01 A 08 DE JUNHO

Olá!

Abri essa semana com um haicai que dizia:

Ponte entre tempos…

Mundos que se completam…

Quem sou eu agora?

De fato, esses dias que passaram foram como pontes que me conectaram a vários lugares diferentes, mas que se completaram em mim, contribuindo para que eu cada vez mais afirmasse em mim mesmo quem sou e o que eu faço.

Aconteceram muitos encontros com gente bacana no espaço físico da Árvore das Letras, muitos abraços e muitas esperanças de um mundo melhor, com mais leitura e mais consciências.

Foi linda a visita que fiz na Escola Municipal José Rodrigues da Silva, na Vila dos Posseiros, dando sequência em minha jornada de levar literatura pelo Vale do Jequitinhonha e Mucuri. O Menino que Aprendeu a Imaginar – Oswaldo e o palhacinho de chapéu de guizos – estão andando bastante e conhecendo muita gente legal! Ainda quero visitar muitas outras escolas e instituições, principalmente como essas onde a simplicidade nos alimenta de maneira tão rica e autêntica. Estive com alunos, pais, professores e fui tão bem recebido que me senti até no Sítio do Picapau Amarelo ao me encontrar com a Emília. Um dia ainda volto lá como Visconde…

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Outra coisa muito legal dessa semana nasceu com uma pergunta:

VOCÊ JÁ OUVIU LITERATURA?

Com essa pergunta publiquei aqui no blog e nas redes sociais um pequeno áudio de 2 minutos e 20 segundos contando a história de Pedro e João, dois amigos que se conhecem desde a infância e passam 86 anos juntos até que a separação é inevitável, mesmo que por instantes… Você pode ler e ouvir a história no post abaixo.

O que me deixou muito feliz é que recebi muitas mensagens de várias pessoas que ouviram e não só gostaram, mas deram a ideia de que eu criasse um canal no youtube, onde eu pudesse ir publicando as histórias. Como o canal já existe, mas estava meio parado, resolvi reativá-lo, porém direcioná-lo para esse trabalho, inclusive pensando em gravar alguns contos de Machado de Assis e outros textos de domínio público. Ok, embora o audiolivro já exista na internet, sempre achei as narrações um pouco frias e monótonas… Assim, penso em fazer do meu jeito, dando à leitura e aos personagens um pouco de interpretação, usando efeitos e trilha sonora para conectar com a atmosfera da história, como nas novelas de rádio e nos antigos discos de contos.

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Agradeço as mensagens e as sugestões, inclusive podemos atender, assim, os portadores de deficiência visual, o que é muito bacana.

Bem, então é isso! Vamos em frente divulgando a literatura cada vez mais e por todas as formas possíveis!

Forte abraço, vamos para mais uma semana e fique ligado no que vem por aí!

Leandro Bertoldo Silva.

CUMPLICIDADE

algodão doce

Por Leandro Bertoldo Silva

[…]

A morte apenas existe por uma brevíssima

troca de ausências.

[…]

Mia Couto

O momento havia chegado. “Todo encontro está fadado à separação”, não é assim? Na vida daqueles dois amigos, não era diferente. Apenas havia o entendimento de que era por um breve instante, tão breve como o bater de asas de uma borboleta, como aquela do parque onde, pela primeira vez, quando crianças, comeram juntos os primeiros algodões-doces: branquinhos, felpudos. A novidade transformara-se em símbolo de amizade nascida junta na mesma maternidade e perpetuada até ali, 86 anos depois.

            Agora, nos derradeiros minutos em que apenas a espera separava aquele encontro terreno, o velho amigo doente, perante os olhares condolentes, viu, pela janela, uma frestinha do céu repleto de nuvens branquinhas e felpudas e, num filete de voz quase sumida, disse ao amigo outro que se mantinha ao seu lado:

            — Pedro… Olhe… Está vendo? Algodões-doces…

            E, junto com os seus olhos que se encontraram num último sorriso de cumplicidade, veio a resposta calma, serena:

            — É sim, João… E não se esqueça… Quando você chegar lá, guarde um pedacinho pra mim…

Clique para ouvir o conto narrado

O INCENTIVO NASCE DE NOSSAS AÇÕES

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Esta é uma publicação de agradecimentos! Agradecimento a todos que compareceram ao lançamento do livro O Menino que Aprendeu a Imaginar no dia 30 de abril, em Padre Paraíso, demonstrando o seu carinho e principalmente a sua valorização pela leitura, pela arte e cultura. Não citarei aqui nomes porque não seria possível dizer todos e, para mim, todos que lá estiveram são especiais, assim como os que não puderam estar presentes, mas que enviaram palavras de apoio e até mesmo orações que muito me fortaleceram. Muito obrigado!

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Mas essa é também uma publicação de reflexão! Reflexão pela ausência de muitos professores e demais profissionais da educação que trabalham com o incentivo à leitura, que não medem esforços, ou pelo menos assim é para ser, para fazer com que um aluno, uma criança ou jovem valorize o livro, os autores, os ilustradores e todo um trabalho que é feito com muito empenho e responsabilidade. É preciso pensar que o incentivo nasce de nossas ações; que precisamos retribuir aquilo que muitas vezes solicitamos num pedido de visita a uma escola, a uma contação de histórias ou mesmo uma presença ou palavra em um projeto de leitura.

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Estamos vivendo um momento crucial em nossa existência social, cultural, educacional, moral, onde não é mais possível viver sem a verdade dos nossos sentimentos, em agir por forma e diferentemente daquilo que dizemos. Mas como aquela história de um menino que andando em uma praia repleta de estrelas do mar, pegava uma a uma e a jogava de volta à água para salvá-la, e ao ser criticado por alguém por haver milhões delas e ele não ter condições de salvar todas, fico com a resposta do menino ao olhar bem para a pessoa, se abaixar, pegar mais uma, jogá-la na água e dizer: “para essa eu fiz a diferença…”

Que bom que tivemos muitos meninos e meninas jogando estrelas do mar de volta ao oceano neste dia…

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COM-FLUÊNCIAS – PÉTALAS POÉTICAS

Quando nos deparamos com algo assim é que enxergamos o valor de acreditar em todas as possibilidades; é quando o que para muitos é uma obrigação ou mesmo uma tarefa, para eles é um convite e para nós uma realização ao ver jovens acreditando em si mesmos e indo muito, mas muito além de muitos com o dobro ou o triplo de oportunidades. Isso, sim, é verdade, é respeito um pelo outro, isso é inclusão por quem sabe fazer, é cultura, é educação que vale a pena, é Vale do Jequitinhonha. Parabéns a ASCAI – Associação da Criança e do Adolescente de Itaobim e muito obrigado pela oportunidade e por acreditarem na Árvore das Letras e na Alforria Literária. Ver estes jovens com os livros nas mãos e os olhos brilhando, livros que eles escreveram na oficina de (Re)Construção Poética e que tivemos a oportunidade de produzir e publicar é uma felicidade sem tamanho. Que prazer este encontro!

GENTE, QUE LOUCURA!

LISTA DE TRANSMISÃO.

Por Leandro Bertoldo Silva

 

Estava sentado no sofá da minha casa pensando nos livros que coloquei como meta este ano para ler, quando comecei a conversar comigo mesmo… Na verdade não era bem comigo que eu conversava, mas com o personagem que estou escrevendo no livro das histórias de Aarão Reis – Xavier de Novais. Não seria nada demais se levando em conta que ele, na minha história, é o segurança de uma livraria; nada estranho, portanto, de estar falando com o nobre amigo sobre livros.

Acontece que ele começou a ter opiniões próprias, tecendo comentários sobre livros que eu ainda não li e ele sim… A propósito, Xavier de Novais é um exímio leitor, como se verá no meu livro quando eu o terminar.
Mas isso me fez pensar sobre o que é ser um personagem. Talvez para ele o personagem fosse eu… Pensando na teoria de que às vezes são os livros que nos escrevem e não o contrário, é bem possível que fosse mesmo. Mas para maior compreensão, se é que é possível, deixo que ele próprio se explique e se apresente.

Oi, o meu nome é Xavier de Novais. Não sou propriamente um personagem. Personagem tem uma personalidade; eu não tenho uma personalidade, tenho várias, ou melhor, tenho tantas quantas forem os olhos de quem me leem. Isso porque posso estar em um poema, mas também em um romance, quem sabe em um conto, ou mesmo num ensaio. Ora, se não sou um personagem, também não o deixo de ser, e muitos! Posso até ser você neste momento. Na verdade, eu preciso de você para existir, mas você não precisa de mim para viver, mas se me ter e ouvir minha voz, sendo ‘um’ comigo e abrir as portas do seu coração, posso lhe abrir mais do que isso, posso lhe abrir estradas. Não quero agora lhe dizer mais do que poderei falar em versos e histórias. Despeço-me, então, para nelas me fazer presente, se assim me permitir. Até breve!

É nessa antítese, nessa espécie de mundo dos contrários que vivi essa experiência inusitada e que peço agora a gentileza da sua atenção para aliá-la à sensibilidade das percepções poéticas e literárias para, junto com Xavier de Novais, adentrarmos os caminhos por onde é possível sonhar.

Para isso, além de o estar escrevendo no livro Histórias de um certo Aarão e outros casos contados: das histórias e lendas de Belo Horizonte recontadas por um segurança que recebia, em seu serviço, a visita ilustre do fantasma de Aarão Reis, resolvi dar a ele existência própria e fora do livro.

Assim, a partir de agora é ele quem irá se encarregar de uma lista de transmissão que mantenho no WhatsApp, o que será ótimo, pois vai me desafogar um pouco nas tarefas que tenho que fazer. E vamos ver no que isso vai dar…

Se você já faz parte da lista, ótimo! Se ainda não e deseja fazer e receber folhetins literários, indicação de livros, autores, matérias, informações de feiras e eventos culturais, seja bem-vindo(a). É só enviar uma mensagem no whatsapp no número (33)98437-0072, dizendo: EU QUERO FAZER PARTE DA LISTA. Divulgue também para os seus amigos!

Venha fazer parte dessa experiência literária!

Forte abraço!
Leandro Bertoldo Silva.

ANO NOVO, VIDA NOVA, TUDO NOVO!

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A ÁRVORE DAS LETRAS passa a incorporar em sua identidade o nome ESCOLA ATELIÊ. Para isso foi feita uma reformulação em seu espaço que estará oferecendo novos cursos, oficinas e atividades, como encontros de leitores e autores, oficinas de arte, artesanato e poesia.

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O espaço conta ainda com um showroom, onde é possível comprar peças de arte, mandalas e livros do selo Alforria Literária.

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E as mudanças não param por aí!

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Além disso, a ÁRVORE DAS LETRAS ATELIÊ está indo para além das fronteiras do Vale, levando seus trabalhos para outras cidades e regiões. Agora, você que não é de Padre Paraíso pode contratar oficinas, palestras e ter as nossas sementes plantadas para fazer florescer arte onde estiver!

Onde a literatura e a arte se completam!

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LIVRE COMO UM PASSARINHO

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Por Leandro Bertoldo Silva, do livro Entrelinhas Contos mínimos

“Algumas lembranças são confusas: umas me

fazem rir, quando lembro que chorei. Outras me

fazem chorar, quando lembro que rimos juntos”.

(Bob Marley)

“Pronto! Todo o esforço valeu a pena! Cheguei neste auditório como Alvinho e saio como Doutor Alvarenga Peixoto! As intermináveis provas, as leituras que me tiraram o sono… Tudo aqui neste diploma. Agora é ir para a advocacia e ser livre como um passarinho…”.

Recordar-se dessas palavras ditas há vinte anos, naqueles minutos fugidos para o café, enquanto olhava a rua pelas grades da janela de seu escritório, fazia-o lembrar do amigo de infância de quem um dia sentiu pena por não ter, como ele, estudado as letras. Agora, sentia pena de si no meio daquelas repartições, petições e processos igualmente intermináveis, enquanto, em algum lugar lá fora, talvez em alguma praia ouvindo o barulho do mar e sentindo a leve brisa do vento em seus cabelos, Tonho, o amigo iletrado, vendia seus biscoitos da sorte. Assim pensava quando foi interrompido por ter sido chamado, às pressas, para mais uma audiência, no mesmo instante em que um passarinho voou do peitoral da janela levando no bico um pedacinho de “sonho”…

Ouça a baixo a história narrada

O QUE A LITERATURA FAZ COM A GENTE…

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Por Leandro Bertoldo Silva

Acabei de ler o meu primeiro livro de 2019, precisamente dia 06 de janeiro, às 9h15 de um domingo, o livro 3 – O Bebedor de Horizontes – da trilogia As Areias do Imperador, de Mia Couto. Arrepio enquanto escrevo e não sei porque seguro o choro… Não li um livro, li centenas de vidas que se desanuviaram em minha frente perante os meus olhos. Se as lágrimas não saem por eles é porque lavam-me a alma… Estou em outro lugar que sei que irei revisitar sempre que me lembrar desta história e da maneira com que foi escrita. O que a literatura faz com a gente não dá para explicar…

SEJAMOS ROSAS HUMANAS – ENCONTROS POÉTICOS

A PINTURA FEITA POR IURY PLENUS REPRESENTA A CHEGADA DA CULTURA NO VALE DO JEQUITINHONHA. ASSIM, A ÁRVORE DAS LETRAS FOI LEVANDO A ARTE DA POESIA ATRAVÉS DA OFICINA DE (RE)CONSTRUÇÃO POÉTICA, MINISTRADA NA CASINHA DE CULTURA PARA JOVENS DA ASCAI – ASSOCIAÇÃO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, NA CIDADE DE ITAOBIM, MINAS GERAIS. O RESULTADO DAS POESIAS ESCRITAS PELOS JOVENS, CUJO TEMA PARTIU DAS ROSAS, SERÁ A PUBLICAÇÃO DE UM LIVRO FEITO E EDITADO PELA ALFORRIA LITERÁRIA. LEIA ABAIXO COMO FOI ESSE ENCONTRO ARTÍSTICO, POÉTICO E ESPECIAL.

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Por Leandro Bertoldo Silva

Logo na chegada fomos recebidos, eu, Geane, minha esposa e Yasmin, minha filha, por Carlos Carmona e Geovana Pinheiro, que ficaram responsáveis por prepararem o local da oficina. Embora a sala destinada com ar condicionado para amenizar o forte calor do Vale do Jequitinhonha estava nos esperando com direito a balas de boas-vindas, agradecemos, organizamos os materiais, mas deixamos claro que utilizaríamos outros espaços da casinha, pois, afinal, um lugar daqueles precisava ser bem explorado já que era de poesia que iríamos falar, e poesia respira em cada metro quadrado daquele lugar… As pinturas na parede, o parquinho, os balanços na árvore, a amarelinha desenhada na rampa que dá acesso ao espaço do palco e do lanche, tudo já era e é poesia como um mundo que se abre ao transpor o portal da imaginação e dos versos que estavam por vir.

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Com tudo pronto – cadeiras em círculo e o centro cuidadosamente preparado com uma rosa na garrafa escrita com um haicai em cima de um tapete de flor feito de fuxico, os jovens foram chegando um a um, em duplas, em trios, naquele clima gostoso das incertezas, onde o nervosismo e a vergonha típica das idades se disfarçam e ganham nas risadas altas o seu refúgio. As incertezas ganharam alento e logo foram substituídas por encanto e brincadeiras na dança de roda que abriu o dia e os trabalhos.

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Como tudo é mágico no mundo da poesia e os deuses da arte parecem estar presentes, foi logo após a dança de roda, quando os jovens começaram a se apresentar, cada qual trazendo sua história de vida, li em seus rostos e gestos a curiosidade ilimitada, a imaginação generosa, o desejo de compreender, mas com espírito crítico e aguçado, cheios de dúvidas, contudo com a coragem de expor experiências decisivas que costumam marcar para o resto da vida. E dessa leitura tive a experiência gratificante de vivenciar a concepção do livro que virá a nascer. O seu nome, como um sopro suave e calmo, me veio à mente ao saborear aquelas confluências de vidas tão ricas que se desdobravam aos nossos olhos. E como tudo fluía ao ritmo deles, estava batizado o filho que ganhava gestação e que saberão ao final da leitura.

A partir daí tudo ganhava dimensão e formas ao mostrar a eles que não existe apenas um caminho para chegar a algum lugar, principalmente à poesia, e muitos jovens que diziam não ter com a leitura e com a escrita uma relação mais íntima, foram descobrindo ao terem contato com elas por meio da brincadeira, do lúdico, da liberdade – bem diferente dos padrões preestabelecidos com regras quase sempre inúteis e desnecessárias para um primeiro contato – que sempre gostaram de ler e escrever e não sabiam.

Tudo que é feito com harmonia segue o caminho das flores e, assim, após um momento necessário de exercício e meditação para que cada um voltasse a atenção para si mesmo, mesmo estando com os outros, todos eles tiveram um primeiro contato com as poesias deixando com que elas escolhessem cada um deles, e não o contrário, fortalecendo a ideia de que na arte tudo pode ser diferente, desde que seja com arte-delicadeza e arte-ternura.

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Tendo sido escolhidos pelas poesias, alguns retribuíram o carinho da escolha pela leitura compartilhada, e entre aplausos e tributos aos poetas, partimos para a escrita dos próprios poemas. Mas, como os sonhos que escondem surpresas, era necessário um tema já previsto por todos nas rosas do centro do círculo, no cheiro perfumado que exalava na sala e no pequeno haicai escrito na garrafa…

No meio de cem

Cada rosa exala

O seu perfume.

Como toda palavra faz parte de textos diferentes, e qualquer palavra pode fazer parte de um poema, três textos de diferentes gêneros foram apresentados a eles dentro de balões para associarem que fazer poesia é brincar com as palavras, exatamente quando Mário Quintana nos diz que “eles passarão, eu passarinho…”

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Com os textos em mãos e de volta à sala em grupos de quatro e cinco, brincamos novamente com as palavras agora escritas no papel e com as cores, e dessa brincadeira surgiram pequenos embriões poéticos em que, cada qual, a sua maneira, deu forma e sentido nascendo, assim, a poesia de cada um, linda, perfeita por si só, magnífica como a rosa que simboliza a taça de vida, a alma, o coração, o amor.

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Estava terminado o primeiro dia… Mas, como diz Drummond, “Vamos a outra parte, com engenho e arte…”

O segundo dia, direcionado pela artista Geane Matos, iniciou como o primeiro: brincando, pois o brincar é o combustível dos sorrisos, da alegria e do retorno a casa, onde encontramos o melhor de nós, sem medos, sem preconceitos e nos abrimos para as possibilidades.

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Após a alegria de voltar a ser criança, dos sorrisos e da descontração, era o momento de cada um compartilhar a sua poesia agora sim acabada, lapidada. A cada leitura todos se surpreendiam com a sua própria capacidade e com a capacidade do outro de fazer poesia. Em cada aplauso acendia no rosto do agora poeta e poetisa o orgulho e a felicidade de ter conseguido o que antes não imaginava ser possível. Mas era real. As poesias eram lidas e declamadas e o respeito que cada um acolhia o outro também era poesia de novo aos nossos olhos. Mas ainda foi dada a eles uma última tarefa… Transpor para outra forma de arte a sua poesia e o seu sentimento. Com delicadeza e generosidade, Geane os conduziu à transposição poética dando a cada um dele um pedaço de argila para que moldassem nela, a partir do que haviam escrito, a sua conexão com a natureza.

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Os trabalhos foram expostos e, da mesma forma, víamos em cada um a alegria da conquista. Estava completo. O que houve em seguida foi ouvirmos o que cada um tinha a dizer de sua experiência e as confluências se fortaleceram nas novas amizades criadas em um laço de respeito e admiração uns pelos outros.

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O resultado físico de toda essa magia poética estará no livro “COM-FLUÊNCIA: PÉTALAS POÉTICAS” a ser lançado no início de 2019, onde cada autor e autora terão a oportunidade de autografar a sua obra, abrindo um ano magnífico no coração de todos.

Assim, fechando os trabalhos de 2018 com muita gratidão e alegria, agradecemos a todos os envolvidos no projeto, principalmente a Leandro Gomes por fazer a ponte entre nós e esta instituição mais que especial! A Andrette Ferraz, gestor da Casinha de Cultura e da ASCAI em Itaobim e a Carlos Carmona pela acolhida. Foi um belo encerramento, embora seja também o início de uma nova etapa.