[INFOGRÁFICO] O PODER DA PALAVRA: 30 FRASES DE ESCRITORES QUE FARÃO VOCÊ PENSAR E ENXERGAR A VIDA COM OUTROS OLHOS

Você já se deparou com a situação de se ver balançado com uma frase que tenha lido?

Seja em um livro aberto ao acaso, seja naquele cartaz pregado no ponto do ônibus ou num panfleto perdido na mesa do bar…

Penso que todos nós já passamos por isso, e muitos têm aquela frase preferida que, de tanto ler, já está decorada, passando a ser como um mantra, uma referência daquilo que se acredita ser o melhor como conduta.

Mesmo os mais céticos, sempre têm aquela frase que melhor adapta à sua personalidade. Se você ainda não tem uma frase preferida, ou ainda não pensou nisso, recolhi 30 frases de escritores e escritoras consagradas em língua portuguesa e disponibilizei-as em um infográfico para você. Muitas delas me dizem muito forte na alma. Quem sabe podem dizer a você também?

Mas antes, quero chamar atenção para uma coisa…

Palavra tem poder! E a maneira como lidamos com elas, com os seus significados e significantes, além de dizer muito a nosso respeito, influencia muito no nosso destino, afinal, como diz Henry Ford, um grande inventor que revolucionou a história do automóvel:

“se você pensa que pode ou se pensa que não pode, de qualquer forma você está certo”…

Isso porque somos 100% responsáveis por nossos pensamentos e, consequentemente, pelo que eles ocasionam…

Da mesma forma que todo texto reflete o pensamento de quem o escreveu, a leitura pode exercer influência positiva ou negativa na vida de quem o leu. Daí a grande responsabilidade dos escritores…

Mas não só deles! Partindo da ideia de que todo leitor é um coautor, a responsabilidade também passa a ser nossa à medida que optamos por acreditar ou não naquilo que lemos.

Sendo assim, convido você a refletir em cada uma das 30 frases escolhidas no infográfico abaixo. Quem sabe não encontrará a tão procurada solução que estava precisando?

Parece interessante? Então leia as frases e tenha uma ótima experiência!

O poder da palavra - 30 frases...

Gostou do infográfico? Então aproveito para fazer um pedido: seja altruísta e compartilhe esse infográfico com seus amigos. Eles, assim como você, podem encontrar aqui grandes insights.

O MUNDO ENCANTADOR DO HAICAI: A ARTE DA POESIA

Holidays! (1)

Por Leandro Bertoldo Silva

José levantou cedo naquele dia, sentindo um impressionante chamado de Deus. Dentro dele, algo acontecia que o impulsionava a sair em busca de inusitado encontro. Uma vez que não sabia aonde ir, logo veio em sua mente o óbvio: iria à igreja. Mas qual?

Fosse qual fosse, centenas de milhares de pessoas não poderiam estar erradas. As músicas altíssimas, cantadas num frisson de louvor, e os gritos de adoração contemplados à palavra amor, deveriam estar certos, afinal. Assim, andou. Quanto mais andava, mais se avolumavam igrejas e, junto delas, opiniões, palavras, homilias, baterias, gritos, violões, mas…

Seu coração não se preenchia. Porém, o vazio que antes incomodava passou a ser um estranho conforto, pois, ao viver o vazio, o silêncio o despreenchia, e ele achou isso bom. No entanto, o reconforto vinha com a culpa de ser diferente, de não ter seguido o chamado… Via a alegria dos outros, mas o incomodava a verdade que ali não sentia como sua, e essa culpa o fez gritar ainda mais alto, internamente.

Nesse momento, um simples jardineiro que o observava, pois José estava sentado no banco de uma praça, aproximou-se, despertando-lhe os olhos para as flores de que cuidava. Com seu semblante e seus gestos livres e despertos, disse:

Contemple uma flor…

Viu? Deus está nos silêncios…

Por que o grito?

Naquele momento, José percebeu que havia, há muito, obedecido ao chamado e que, com o auxílio daquele jardineiro que estava a semear, todo o barulho cessou em sua alma, fazendo de sua vida uma comunhão ao silêncio e dele um testemunho íntimo em cada flor que passou a admirar. (conto extraído do livro “Entrelinhas Contos mínimos”). Saiba mais AQUI.

Achou essa história interessante? Talvez você não tenha reparado, mas ela traz a essência da poesia. Foi ela a razão da transformação de José, e tudo se deu num flash, num instantâneo…

contemple uma flor

E essa poesia, especificamente, tem um nome: Haicai, podendo ser grafada Haikai, ou mesmo ser chamada de Haiku.

Talvez você não saiba do que estou falando. Talvez saiba, já ouviu dizer. Talvez tenha pensado: poesia? E com esse nome estranho? Eu não gosto de poesia… Acho difícil.

Bem, eu não sei qual foi o seu pensamento, mas uma coisa eu acredito: essa história e esse nome lhe trouxeram curiosidade.

Então, continue lendo este artigo para saber mais sobre:

Por que poesia não é difícil e é mais próxima de você do que você pensa.

O que é, afinal, haicai.

O haicai, a natureza e nós.

O haicai e as estações do ano.

O haicai e a métrica.

Os haicais rimados.

E ao final dele, você verá como é possível usar o haicai como prática meditativa, trazendo a poesia para o nosso dia a dia.

POR QUE POESIA NÃO É DIFÍCIL E ESTÁ MAIS PRÓXIMA DE VOCÊ DO QUE VOCÊ PENSA (do livro Poesia não é difícil, de Carlos Felipe Moisés)

palavra escrita

A maioria das pessoas acha que poesia é difícil e, por causa disso, dizem não gostar dela. Mas isso pode ser um mito, uma falsa verdade. Isso porque podemos colocar esse mito em confronto com outra verdade universal, que de mito não tem nada: o que as pessoas podem não gostar, isso sim, é estudar poesia, ler poesia com o propósito ou a obrigação de analisar, compreender, explicar. Quando solicitadas a fazê-lo, fogem arrepiadas, isto é, fogem de algo que apreciam. Por trás do mito, como se vê, existe um contrassenso: por que as pessoas repudiam aquilo que ao mesmo tempo as atrai? Sim, porque é natural ser atraído pela poesia.

Quando falo da poesia repudiada, refiro-me à poesia em sala de aula, onde deve, acima de tudo, ser tratada de modo adequado, ou seja, como experiência afetiva, espiritual e artística que as pessoas naturalmente amam e à qual deveriam dedicar-se por prazer, não por obrigação. Quando o jovem leitor se depara com a perspectiva de provas, testes e exames, e com a necessidade de “tirar uma nota”, nem sempre verdadeira, às vezes até despropositada, o resultado, já sabemos, é fugir da poesia. E, com isso, privar-se de uma rara oportunidade de enriquecimento humano e intelectual.

Não há idade mais propícia à poesia do que a juventude!

É a idade da autodescoberta e da descoberta do mundo, da curiosidade ilimitada, da imaginação generosa, do desejo de compreender, e também do espírito crítico aguçado, das dúvidas e incertezas, das experiências decisivas, que costumam marcar para o resto da vida. Não é de surpreender, portanto, que todos amem poesia, pelo menos na juventude. É que as inquietações enumeradas coincidem, em geral, com a matéria preferida de quase todos os poetas, de todos os tempos. As pessoas amam encontrar, nos poemas que leem, um eco, um reflexo das suas inquietações.

O que o jovem sente é a matéria-prima da poesia…

Para gostar de poesia algumas coisas são necessárias. Uma delas está ligada à leitura.

Poesia se lê em voz alta…

E é recomendável que o mesmo poema seja lido mais de uma vez para ser sorvido, apreciado. A cada leitura, uma tentativa diferente de dar a cada verso, a cada frase e a cada palavra, a entonação adequada. Isso fará você, mais do que entender poesia, “sentir” a poesia. O mesmo serve para ouvir.

A poesia é a arte da subjetividade, onde o respeito às opiniões, às divergências é fundamental. Poesia exige relativização dos juízos, respeito às intuições de cada um. Se estivéssemos lidando com matemática, digamos, a situação seria outra. Diante, por exemplo, de “O quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos”, você se limitaria a demonstrar que A² = B² + C² e não perderia tempo se perguntando “O que acho disso?” ou “Que sentido tem isso para mim?” ou “Qual é a minha opinião a respeito?”

Mas diante de “Amor é fogo que arde sem se ver” são exatamente essas perguntas que devem ser feitas, e muito longe de achar que elas teriam apenas uma resposta…

Bem, se o nosso ponto de partida, então, é o fato de todas as pessoas serem propensas a gostarem de poesia, o que fatalmente acontecerá se não formos desencorajados por obrigações burocráticas, é inevitável deduzir que extrairemos tanto prazer da leitura de poesia quanto da sua escuta e da tentativa de criar nossos próprios poemas, fazendo, assim, com que a poesia cumpra o seu papel representando uma das dimensões mais significativas da sociedade em que vivemos e da humanidade em que participamos. Vamos ver como isso é possível através de uma forma poética milenar: o haicai. Para isso, veja e ouça o vídeo a seguir.

O QUE É, AFINAL, HAICAI?

O dia amanhece

Haicai é um micro poema que tenta captar a essência do momento. É um flash, um instantâneo… É preciso muita sensibilidade para apreciar o haicai, tamanha a sutileza de seus três versos que contam, em poucas palavras, o sentimento do poeta frente a diversos desdobramentos da natureza.

Arte originalmente japonesa, o haicai é uma arte milenar e obedece a um padrão métrico próprio de três versos de 5, 7 e 5 sílabas, respectivamente, totalizando 17 sílabas, o que o diferencia de outras formas poéticas.

Por ter uma acentuação mais flutuante, o Japão consegue manter a contagem gramatical na composição dos haicais. Na Língua Portuguesa, entretanto, devido a sua grande riqueza e variação, costuma-se usar, além da contagem gramatical, a contagem poética, por levar em conta também o ritmo. Sendo assim, outras regras se fazem presentes como junções de algumas sílabas e supressão de outras dentro de critérios próprios estabelecidos, para obedecer a forma original de 17 sílabas. Esta é a razão de alguns haicais parecerem ter mais sílabas do que o permitido.

Há pessoas que defendem a ausência dessa métrica, obedecendo apenas os três versos, alegando liberdade criativa. Bem, não quero sugestionar ninguém, mas defendo também minha opinião que a métrica é justamente o exercício poético que se transforma no desafio apaixonante de dizer o que se deseja, não com qualquer palavra, mas com a palavra certa.  É apenas uma questão de opinião e escolha do fazer poético.

De qualquer forma, o haicai é uma arte apaixonante, tanto para quem aprecia e tenta captar o sentimento do poeta, como para quem o compõe e se aventura na busca da palavra certa e indispensável para transmitir o que sente e deseja. Essa busca pode levar horas, dias, meses e até anos, o que torna o haicai uma arte impar no campo da literatura e o diferencia como arte verdadeiramente elevada.

O HAICAI, A NATUREZA E NÓS

Penso a vida

O haicai estabelece uma grande ligação com a natureza, e essa ligação está intrínseca em nós à medida que necessitamos voltar os nossos olhos para ela, isto é, estabelecer uma reconexão com as nossas essências, principalmente em momento de muita valorização para o que é virtual. Olhando a natureza e tentando extrair dela sentimentos e emoções, é o mesmo que reverberar os nossos próprios, lançando, também, um novo olhar para nós mesmos de uma forma dinâmica e sensitiva, cujo exercício é proporcionar vivências pessoais.

Baseado no processo de reconexão com a natureza, o haicai tem como objetivo oferecer subsídios que levem à valorização do essencial, do que está a nossa volta, criando, estimulando e aprimorando o gosto pela observação através das percepções, tendo na palavra sua forma de expressão.

Os haicais clássicos trazem elementos contidos na natureza, como um gato, uma flor, uma estrela, a noite, o dia, etc…

O HAICAI E AS ESTAÇÕES DO ANO

As flores silvestres

Geralmente, os haicais têm a ver com as estações do ano. Um haicai pode ser de primavera, verão, outono ou inverno.

Neste caso, a estação do ano está explícita. Entretanto, podemos deixar as estações do ano subtendidas, usando, para isso, um kigô, isto é, um termo próprio da estação.

O fruto maduro

As folhas caem em maio, no outono. Portanto, esse é um haicai outonal. No Japão, as estações do ano são bem definidas e determinam o modo de viver da população, enquanto que no Brasil nossa vida gira mais em torno de eventos, como Natal, festa junina, Semana Santa, Páscoa, Carnaval, Entre outros. Sendo assim, podemos utilizar estes eventos para indicar a estação.

Como achar facilmente um kigô outonal? Em seus livros, bons autores têm explorado: orvalho, libélula, crisântemo, grilo, flor-de-maio, estrela cadente, vento de outono, caqui, tempo de colheita, quaresmeira, etc.

O HAICAI E A MÉTRICA

Como foi dito, na Língua Portuguesa encontramos uma variação métrica para os haicais. Podemos nos basear em três aspectos:

  1. Quando uma palavra acaba em vogal átona, ambas formam uma só sílaba:
  • Ouviram do Ipiranga = ou-vi-ram-doi-pi-ran-ga;
  • Aberto o portão = a-ber-too-por-tão.
  1. Se a vogal da sílaba final for tônica, não ocorre a junção:
  • Você acertou = vo-cê-a-cer-tou.
  1. Na palavra final de um verso não se contam as sílabas que se encontram após a sílaba tônica. Se a palavra “refúgio” figurar no fim de um verso, só contaremos até essa sílaba, desprezando as demais:
  • Um gato busca refúgio = um-ga-to-bus-ca-re-fú (gio) – 7 sílabas;
  • O vento do outono = o-ven-to-doou-to (no) – 5 sílabas.
OS HAICAIS RIMADOS

Embora não muito comuns, os haicais podem ser rimados e trazem uma beleza imensa a essa arte e oferecem um desafio ainda maior, pois o primeiro verso rima com o terceiro e, além disso, no segundo verso, a segunda sílaba rima com a última. Pode ser esquematizado assim:

__ __ __ __ x

__ y __ __ __ __ y

__ __ __ __ x

Na cidade a rua

Entretanto, toda essa engenharia poética tem o dom de fornecer uma dica importante: Não é preciso que cada verso seja completo. Ele pode, perfeitamente, encerrar-se no verso seguinte:

Vejo a natureza

USANDO O HAICAI COMO PRÁTICA MEDITATIVA

A poesia convida-nos à meditação, inspirando-nos à interiorização e consciência dos nossos sentimentos. Um estado de presença calma e profundo relaxamento, diferente de deixar-nos desatentos, auxiliam-nos no processo de conexão com a nossa verdade, enriquecendo a nossa vida diária.

Este é o princípio da meditação: “abrir-se a cada momento com consciência calma”, isto é, agir com lucidez a cada momento da vida, o que acarreta felicidade, paz mental e serenidade, independente do tanto de trabalho e tarefas que temos a fazer.

Engana-se quem acha que meditar é não pensar em nada e apenas ficar horas a fio em um mosteiro desligado do mundo, ou que essa prática necessariamente tem a ver com aspectos religiosos.

Pelo contrário, meditar, principalmente em tempos modernos, é estar atento a tudo que acontece, porém tendo uma relação de amor e calma com os acontecimentos, inclusive os desagradáveis. Para quem se interessa, indico o livro “O Melhor Guia para a Meditação”, de Victor N. Davich, editora Pensamento, em que ele desmistifica, esclarece e ensina o processo, ou arte, da meditação.

Sim, pois ao estar lúcido a cada acontecimento do dia a dia, aquietamos a nossa consciência, geralmente tão atarefada, e atingimos uma clareza mental que impede esforços desnecessários. É a tão desejada busca pela calma, pela diminuição do estresse, e tudo por estar presente em seu momento e afazeres, ou seja, a possibilidade de lidarmos melhor com o que nos envolve é muito maior.

As possibilidades de meditação são inúmeras: através da respiração, da música, a meditação orientada, e muitas outras. Aqui, quero compartilhar uma experiência através da poesia, ou sendo mais específico, através do haicai.

Chamei de O JOGO DAS REFLEXÕES, e permite que o leitor possa interagir com os haicais de uma forma dinâmica e sensitiva, cuja leitura proporciona vivências pessoais, onde o objetivo não é vencer nenhum adversário, mas conhecer a si mesmo(a).

Meditar com o JOGO DAS REFLEXÕES é um mergulho passando pela leitura, não para aumentar conhecimento, mas para encontrar você mesmo(a) na poesia; pela meditação, deixando a poesia cair no coração, aceitando-a simplesmente; gestação, que, através da meditação, faz com que a poesia germine e frutifique; e por último a contemplação, para não mais raciocinar a poesia, mas vivê-la no silêncio.

Para isso, você irá escolher alguns haicais – um mínimo de 12 – que, por si mesmo, já proporciona tudo isso através da sua simplicidade. Você pode escrevê-los em um pedaço de papel, em uma plaquinha leve de madeira, ou no que a sua imaginação e criatividade sugerir. Você, também, pode escrever os seus próprios haicais…

Eu fiz os meus em pequenas cartas de papel, utilizando outra técnica japonesa – o Origami –, para envolvê-las como num livro de páginas soltas. Além disso, associei uma bela imagem a cada carta (página) e sugeri uma palavra que sintetiza o sentimento exposto para auxiliar na reflexão.

jogo das reflexões

Caso se interesse por este modelo do JOGO DAS REFLEXÕES e queira adquiri-lo, é só enviar um contato por este blog.

REGRA SUGERIDA: Reserve um tempo de 5 a 10 minutos para essa prática. Misture os haicais que você previamente escolheu ou escreveu e retire 3 deles ao acaso. Leia cada um atentamente e escolha apenas um para proceder aos passos descritos: Leitura – Meditação – Gestação – Contemplação. Guarde os outros e somente escolha um novo haicai após se sentir satisfeito(a) com sua reflexão. Não tenha pressa. Leve dias, horas, meses e até anos…

E então, gostou de conhecer o universo mágico dos haicais? Viu como é possível estabelecer uma nova relação com a poesia e trazê-la para o nosso dia a dia?

Então, compartilhe esse artigo, ajude outras pessoas a conhecerem essa arte tão singela e ao mesmo tempo tão transformadora, como foi com José, por ser tocado pela natureza íntima ao contemplar uma singela flor, mostrada pelo jardineiro, e encontrar nela a natureza divina.

E se chegar a fazer o JOGO DAS REFLEXÕES (o que sugiro e espero que faça, pelo grande benefício que terá), não se esqueça de deixar um comentário contando da sua experiência.

A TERRA VIVA NA NARRATIVA DE MIA COUTO: UMA LEITURA DE UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA

Você é bom em suposições? Boa em decifrar evidências?

Então, vejamos… Observe esta descrição:

“Filho de portugueses, abandonou o curso de medicina para trabalhar como jornalista. Foi militante da Frente de Libertação de Moçambique. É formado em Biologia e dedica-se a estudos de impactos ambientais.”

Perfeitamente possível pensarmos se tratar de um cientista ou pesquisador, correto? Bem, também… Afinal de contas, este é o trabalho dele. O que talvez você não imagine é que estamos falando de um dos maiores nomes da literatura africana em língua portuguesa – o escritor moçambicano mais traduzido no mundo, Antônio Leite Couto, ou, melhor dizendo, Mia Couto.

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Mia é uma espécie de “mágico da língua”, criando, apropriando, recriando, renovando a língua portuguesa em novas e inesperadas direções.

Tem, devido a essa autêntica revolução de inventiva linguística, sido muito apropriadamente comparado a outro grande mágico da Língua, o escritor brasileiro João Guimarães Rosa, por quem tece claros elogios.

E mais ainda…

Em 2013 foi agraciado com o Prêmio Camões. Em 2014 recebeu o Prêmio International Neustadt de Literatura. Em 2015, Mia Couto fez parte dos dez finalistas do Man Booker International Prize, um dos prêmios mais importantes do mundo literário.

Bem, percebe-se que falamos de uma pessoa muito especial, e falamos mesmo. Porém, mais do que os seus prêmios, Mia Couto merece nossa total atenção pelo que escreve, pelas ideias que defende e pelo humano que existe em si. Para ele, “a escrita é necessidade absoluta” para “transpor as fronteiras da realidade”. E duas das realidades mais defendidas por ele é a Terra e a vida. Talvez por também ser biólogo. Talvez por ser um ativista ambiental. Talvez por ser um homem que não se divide, mas se reparta…

Aliás, Mia disse certa feita em uma entrevista ao ser perguntado como ele se dividia entre a biologia e a literatura (Imagem da Palavra – junho de 2013), que repartia-se e distribuía-se de uma maneira que nem ele mesmo sabia qual era a fronteira. Isso por descobrir na biologia algo muito literário, uma espécie de revelação do mundo, de linguagem, em que havia uma espécie de aproximação com a árvore, com a planta e com o animal e aquilo que chamamos Natureza. Fazer biologia, para Mia Couto, é recolher histórias, e principalmente a história da vida, que é a história mais fascinante que podemos ter.

Apaixonante, não? Então, continue lendo esse artigo para saber um pouco mais sobre:

A terra viva na narrativa de Mia Couto. E para isso, a Árvore das Letras convidou a estudante do 7º período de Letras – Keily Martins Francisco – da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), sob a orientação da professora Heloisa Helena Sequeira, Doutora da UNIR e líder do Grupo de Pesquisa em Estudos Literários, para ilustrar o assunto através da leitura da obra Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, do escritor moçambicano, para ver como ele lida com a necessidade da reconexão que estamos vivenciando com a nossa Mãe-Terra. Necessidade esta oriunda de um afastamento não apenas físico, com o desrespeito à nossa fauna e flora, mas um afastamento emocional dessa ligação intrínseca da Terra como gestora, origem de nossas origens.

Antes, porém, vejamos um breve release de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra.

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O estudante universitário Marianinho volta à ilha de Luar-do-Chão depois de anos de ausência. Seu retorno é um imperativo: ele fora incumbido de comandar as cerimônias fúnebres do avô Dito Mariano, de quem recebera o mesmo nome. Neto favorito do patriarca, o rapaz chega à ilha e se vê no centro de uma série de intrigas e de segredos familiares, que envolvem seu pai, Fulano Malta, a avó Dulcineusa, os tios Abstinêncio, Ultímio e Admirança, e também as nebulosas circunstâncias em torno da morte de sua mãe, Mariavilhosa.

Marianinho logo descobre que o falecimento do avô permanece estranhamente incompleto e esconde desígnios que escapam à força dos homens – como tudo nessa enigmática Luar-do Chão.

A TERRA VIVA NA NARRATIVA DE MIA COUTO: UM LEITURA DE UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA

 Por Keily Martins Francisco

 AS LITERATURAS AFRICANAS: A ESCOLHA DE MIA COUTO

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Grande parte das literaturas africanas surgiu por meio da oralidade, como ressalta Maria Aparecida Santilli: “As nações de Angola, Cabo Verde e Moçambique eram originariamente ágrafas, não tinham escrita, embora houvessem cultivado uma literatura oral.” (SANTILLI, 1985, p.7). Essas literaturas eram passadas de geração a geração até surgir a escrita, eram histórias ricas em elementos fantásticos e provérbios, muitos escritores africanos herdaram essas características em sua escrita.

As culturas e literaturas africanas sempre foram muito marginalizadas no Brasil e em todo o mundo, conforme discorre Carmen Lucia Tindó Secco em A magia das letras africanas: ensaios sobre as literaturas de Angola e Moçambique e outros diálogos (2008):

[Quando se pensa em África] duas imagens costumam surgir com freqüência: a da Mãe – África idealizada pelos lugares-comuns de uma mítica “africanidade imaginada”, configurada por sons de tambores, danças sensuais, avós contadoras de histórias; e a da África dizimada por doenças, misérias e guerras. (SECCO, 2008, p. 24)

A imagem do continente tornou-se homogênea e estereotipada, como se houvesse uma única África e as culturas, crenças e literaturas não variassem de um país para outro.

No cenário literário africano, Mia Couto (António Emílio Leite Couto, Beira, 1955) é uma das grandes vozes contemporâneas, formado em biologia e filho de portugueses, o moçambicano tem obras traduzidas para diversas línguas, grande parte delas encontradas no Brasil. Autor de uma prosa poética que, segundo o próprio, recebeu influência do escritor angolano Luandino Vieira e do brasileiro João Guimarães Rosa.

Em entrevista a Vera Maquêa, o moçambicano afirma que “[…] para ganhar existência na actualidade, no terreno da modernidade, Moçambique deve caminhar pela via da escrita. Entramos no mundo pela porta da escrita, de uma escrita contaminada (ou melhor fertilizada) pela oralidade.” (COUTO, 2005, p. 208). Logo, a escrita de Couto recebe influências da literatura oral tão presente nas culturas africanas.

Dentre a vasta quantidade de obras do moçambicano escolhemos, o romance Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2003) para refletirmos sobre a terra e sua relação com as personagens da obra.

 UM RIO, UMA CASA: MARIANINHO E A TERRA/CASA

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Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2003) é uma obra narrada em primeira pessoa por seu personagem central, Marianinho, que após um período estudando na cidade regressa à Luar-do-Chão, ilha em que nasceu, para fazer as cerimônias fúnebres de seu avô Dito Mariano, anfitrião da família. No artigo O ponto de vista na ficção (2002), Norman Friedman nomeia esse tipo de narrador como narrador protagonista, que segundo o estudioso, “[limita a narrativa] a seus próprios pensamentos, sentimentos e percepções. […] O ângulo de visão da narrativa é fixo.” (FRIEDMAN, 2003, p. 177). Na obra em análise os acontecimentos são narrados pelo ponto de vista do protagonista Marianinho.

Marianinho é o narrador de um romance e isto nos leva imediatamente para a questão do gênero textual. Ian Watt em seu livro A ascensão do romance (1990) dedica um dos capítulos à busca por alguma característica capaz de distinguir essa forma literária das demais e ao mesmo tempo agraciar as particularidades de cada autor, segundo ele:

[O critério] fundamental [do romance é] a fidelidade à experiência individual – a qual é sempre única e, portanto, nova. Assim, o romance é o veículo literário lógico de uma cultura que, nos últimos séculos, conferiu um valor sem precedentes à originalidade, à novidade. (WATT, 1990, p. 15)

Segundo Watt, uma das grandes características do romance e o que o diferencia de outros gêneros narrativos como a epopeia, por exemplo, é a fidelidade à experiência individual, no romance o autor não precisava mais trazer temas e relatos de um povo. Na narrativa em análise é apresentada a experiência individual de Marianinho ao regressar à ilha na qual nascera.

Regressar à terra natal traz ao narrador-personagem uma série de questionamentos sobre sua relação com aquele lugar, logo ao chegar a Nyumba-Kaya, casa de sua família, o narrador confessa que “[…] se confirma a verdade das palavras do velho Mariano: [ele] teria residências, sim, mas casa seria aquela, única, indisputável” (COUTO, 2003, p. 29, grifo nosso), ou seja, o afastamento de Marianinho não faria com que ele perdesse o vínculo com aquele lugar.

André Pinheiro (2009) faz uma leitura de alguns poemas da obra Raiz de orvalho e outros poemas (2001) do moçambicano à luz dos elementos terrestres, tanto nos poemas analisados pelo estudioso quanto na narrativa em análise:

[…] A imagem da terra é de fundamental importância para a composição desse cenário, já que ela é simultaneamente uma entidade materna (ligada, portanto, ao sentimento) e uma base sólida para o homem (responsável pela sua força e equilíbrio). (PINHEIRO, 2009, p. 17) e [esse] espaço só [pode] ser definido em função das relações humanas desenvolvidas nele. (p. 16).

Portanto, para Marianinho, regressar àquele lugar era regressar à sua casa, dessa vez com uma visão mais amadurecida da realidade. Pode-se afirmar, baseado nos estudos sobre o mito de Mircea Eliade, que o narrador-personagem se sente “gente daquele lugar” (ELIADE, 1992, p. 118) e ao mesmo tempo tem consciência de que se tornara um estranho para aqueles que o circulam: “há anos que não visito a Ilha. Vejo que se interrogam: eu, quem sou? Desconhecem-me. Mais do que isso: irreconhecem-me” (COUTO, 2003, p. 29). O que os unia era a dor do luto e não os laços familiares. Em entrevista concedida a Vera Maquêa, Mia Couto fala sobre a obra em analise, segundo ele:

Neste meu livro […] está presente, sim, aquilo que são dois universos bem claros que é Moçambique: o universo urbano e o universo rural. E já tem muitos moçambicanos que são urbanos e que, quando saem dessa região urbana e se adentram no mundo rural é como se tivessem chegando a uma outra nação. E constroem fantasmas e recriam mitos antigos. (COUTO, 2005, p. 207).

Marianinho é essa personagem que teve contato com o universo urbano e que quando regressa ao ambiente rural não se reconhece mais naquele lugar, sua identidade assim como sua relação com Luar-do-Chão estão em transição. Recordando as lembranças de sua partida da terra natal, a personagem confirma: “[…] o velho Mariano sabia: quem parte de um lugar tão pequeno, mesmo que volte, nunca retorna. Aquele não seria o lugar de minhas cinzas. Assim fora com os outros, assim seria comigo. E o vaticínio dele se foi cumprindo.” (COUTO, 2003, p. 45).

O narrador-personagem está ao mesmo tempo ligado e desligado de Luar-do-Chão, aquela era sua terra natal, sua “única casa” (COUTO, 2003, p. 29), mas ele havia partido dali, entrado em contato com outra cultura e perdido o vínculo com aquele lugar: como era possível estar tão próximo e ao mesmo tempo tão distante da Ilha?

Após se reencontrar com os familiares e recordar sua infância na Ilha, Marianinho passa a, misteriosamente, receber cartas do anfitrião, seu avô supostamente morto, na primeira delas o mais velho dos Marianos escreve que:

Você não veio a esta Ilha para comparecer perante um funeral. Muito ao contrário, Mariano. Você cruzou essas águas por motivo de um nascimento. Para colocar o nosso mundo no devido lugar. Não veio salvar o morto. Veio salvar a vida, a nossa vida. (COUTO, 2003, p. 64)[1]

Segundo Dito Mariano, Marianinho estava ali para vivenciar um (re)nascimento e salvar Luar-do-Chão com o auxílio do anfitrião. Seria possível alguém que passara tanto tempo fora, com a ajuda de um “morto pela metade”, salvar a Ilha? O que havia para se salvar naquele lugar? Ao observar a situação de Luar-do-Chão o narrador afirma:

“Dói-me a Ilha como está, a decadência das casas, a miséria derramada pelas ruas. Mesmo a natureza parece sofrer de mau-olhado. […] À primeira vista, tudo definha.” (COUTO, 2003, p 28).

Aquela, certamente, não era a Ilha de suas lembranças, o processo de colonização assolara aquele lugar e isso causava dor no narrador da obra. Moçambique, juntamente com Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau integram os PALOPs[2] que foram colonizados por Portugal. Para conseguir a independência foi necessária muita luta e após a tão almejada liberdade restaram apenas países a serem reconstruídos, Luar-do-Chão na obra é um reflexo desse processo. Como afirma Dito Mariano em sua primeira carta ao neto:

Todos aqui estão morrendo não por doença, mas por desmérito de viver (COUTO, 2003, p. 64). Porque todos estavam morrendo eles, juntos, teriam que se unir e salvar aquele lugar.

DITO MARIANO E A TERRA FECHADA

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Dito Mariano é o mais velho de sua família e como tal tem um papel importante na narrativa, Secco em seu artigo “Luandino Vieira e Mia Couto: intertextualidades” argumenta sobre a importância dos anciões para a cultura africana, segundo ela: “Os velhos têm um papel importante na filosofia de vida africana: são os guardiões da memória, os griots, ou seja, os velhos contadores de histórias que passam aos mais jovens a tradição e os conhecimentos ancestrais.” (SECCO, 2008, p. 62).

O mais velho dos Marianos é descrito como uma personagem curiosa que segundo o narrador-personagem “enquanto vivo se dizia morto. Agora que falecera ele teimava em não morrer completamente” (COUTO, 2003, p. 37), homem famoso por seus muitos envolvimentos amorosos e que após morto, resolve dentre outras coisas, “salvar Luar-do-Chão” com o auxílio do neto, para isso ele passa a se comunicar sobrenaturalmente com o neto através de cartas, nas quais  coloca Marianinho em dia com os acontecimentos da Ilha durante sua ausência e lhe passa orientações de como deve proceder com sua família.

A escrita dessas cartas é um tanto quanto intrigante para Marianinho e para o leitor da obra, após ler a primeira delas o narrador questiona: “quem escrevera aquilo? Quando tento reler uma tontura me atravessa: aquela é a minha própria letra com todos os tiques e retiques. Quem fora, então? Alguém com a letra igual a minha.” (COUTO, 2003, p. 56) em outra carta Dito Mariano confessa ser ele o seu autor, Marianinho escrevia as cartas por intermédio do anfitrião que afirma que os dois, juntos, salvarão a Ilha:

Estas cartas, Mariano, não são escritos. São falas. […]

É por isso que visitará estas cartas e encontrará não a folha escrita mas um vazio que você mesmo irá preencher, com suas caligrafias. […] Esse é o serviço que vamos cumprir aqui, você e eu, de um e outro lado das palavras. Eu dou as vozes, você dá a escritura. Para salvarmos Luar-do-Chão, o lugar onde ainda vamos nascendo. E salvarmos nossa família, que é o lugar onde somos eternos. (COUTO, 2003, p. 64-65)

Marianinho oscila entre acreditar ou não acreditar no que a carta dizia, mas logo acaba aceitando o que nela estava escrito e começa a seguir as orientações que lhe são dadas.

Além de atribuir à terra a posse da força da vida e de muitos significados, a narrativa também elege o rio como um elemento fundamental, figura carregada de simbologias que está presente desde o nome da obra e perpassa toda a narrativa. Eliade (1992) trata da simbologia das águas, segundo ele:

As águas simbolizam a soma universal das virtualidades: são fons et origo, o reservatório de todas as possibilidades de existência; precedem toda forma e sustentam toda criação. […]

Em qualquer conjunto religioso em que as encontremos, as águas conservam invariavelmente sua função: desintegram, abolem as formas, “lavam os pecados”, purificam e, ao mesmo tempo, regeneram. (ELIADE, 1992, p. 110)

Luar-do-Chão é uma ilha, segundo Eliade uma ilha é “uma das imagens exemplares da Criação […] que subitamente se “manifesta” no meio das vagas” (ELIADE, 1992, p. 110), estar em um lugar cercado por águas abre caminho para infinitas possibilidades de existências e é ali, naquela ilha, que Marianinho viverá um renascimento.

O fato mais marcante da obra envolvendo Dito Mariano, além das cartas escritas de forma sobrenatural, é o momento de seu suposto enterro. Estando toda a família há muito tempo na Ilha à espera do inevitável, resolvem antecipar a despedida do mais velho dos Marianos, entretanto no momento em que Curozero Muando, o coveiro da cidade, começa a abrir a cova do anfitrião algo incomum acontece:

O coveiro levanta a pá com um gesto dolente. O metal rebrilha, fulguroso, pelos ares, flecha rumo ao chão. Contudo, em lugar do golpe suave se escuta um sonoro clinque, o rasposo ruído de metal contra metal. A pá relampeja, escoiceia como pé de cavalo e, veloz, lhe escapa da mão. Ou fosse o pássaro ndlati despenhando-se no solo terrestre? Certo é que a pá tinha embatido em coisa dura, tanto que a lâmina vinha entortada. (COUTO, 2003, p. 178)

A terra havia se fechado, para o espanto de uns e a loucura de outros, o resultado do encontro entre a pá e a terra é tão agressivo que a primeira entorta. Curozero faz outras tentativas de cavar o solo, todas elas em vão. Que fenômeno incomum era aquele? Teria alguma relação com Dito Mariano? Por que a terra se recusava a recebê-lo? Algumas suposições são levantadas pelas próprias personagens da narrativa, Curozero acreditava ser vingança da terra contra toda a poluição, as guerras e derramamentos de sangue inocente, essa seria uma forma da terra protestar contra todo o mal que o ser humano estaria fazendo a ela ou sua própria morte.

No livro A fidelidade à terra: assim falou Nietzsche IV (2003), organizado por Charles Feitosa está presente o artigo de Willis Santiago Guerra Filho intitulado “A última aventura humana sobre a terra”, no qual  reflete:

A fidelidade à terra e à vida que se tem sobre (uber) ela vem nos cobrando, exigindo, reclamando a preservação delas, que é a nossa também, isto é, uma proteção contra nós mesmos, os humanos, cada vez menos “super”, e, portanto, cada vez mais “sub”, já que o demasiado humano é desumano. (GUERRA FILHO, 2003, p. 156)

Estaria realmente a terra se vingando do humano por sua má conduta diante dela? Após tantos e tantos anos sem se importar com a preservação da terra, o humano poluiu, queimou, matou; estaria agora a terra pagando com a mesma moeda? Ou estaria sucumbindo, morrendo ou já teria morrido de uma vez por todas? Questões como essas perpassam as mentes das personagens da obra de Couto. Conforme Guerra Filho (2003) a fidelidade à terra tem nos cobrado sua preservação, entretanto, o humano tem ignorado isso; quais serão as consequências ? Curozero Muando tem suas suposições.

Reação minimamente estranha diante do fechamento da terra mostra a personagem Fulano Malta, filho de Dito Mariano e pai de Marianinho, após as tentativas fracassadas de Curozero, ele: “[…] fora dos eixos, desata a vociferar: não se devia cavar com um instrumento de metal. Isso feria a terra. Dito isso, ele se ajoelha e desata a cavar com as mãos.” (COUTO, 2003, p. 179) Fulano cava até seus dedos sangrarem e ficarem em carne viva.

Eliade em seu livro O sagrado e o profano (2001) apresenta o mito da Terra Mãe, segundo o qual  alguns povos se recusavam a trabalhar a terra com receio de ferir a sua própria mãe:

O profeta indiano Smohalla, da tribo Unatilla, recusava-se a trabalhar a terra. “É um pecado”, dizia, “ferir ou cortar, rasgar ou arranhar nossa mãe comum com trabalhos agrícolas.” E acrescentava: “Vós pedis-me que trabalhe o solo? Iria eu pegar uma faca e cravá-la no seio de minha mãe? Mas então, quando eu já estiver morto, ela não me acolherá mais em seu seio. (ELIADE, 2001, p. 116)

Postura menos radical que a do profeta indiano toma Fulano Malta, não se devia ferir a Terra com instrumento de metal, segundo a personagem, sua atitude de jogar fora o instrumento e usar as mãos para cavar, porém, não mostra resultado algum: a terra continuava fechada.

Os tios de Marianinho começam a discutir e a supor que toda aquela situação era feitiço: Ultímio acreditava que era por causa de sua aparente prosperidade financeira  e Abstinêncio supunha que era porque o irmão “traiu os mandamentos” se envolvendo na política e esquecendo a família. Problemas familiares à parte, o acontecimento permanece inexplicável e sem reversão até certo momento.

Sem cova, sem enterro: a família retorna à Nyumba-Kaya e naquela noite o narrador tem um sonho no qual “[em todo o mundo] a terra negava abrir seu manto aos humanos desígnios” (COUTO, 2003, p. 187). Em todo o mundo a terra estava fechada e ele acrescenta: “[…] ninguém fazia ideia que a raiz de tão grave desequilíbrio se localizava, afinal, na nossa pequena Ilha. Ninguém sabia que tudo começara na pessoa do avô Mariano.” (COUTO, 2003, p. 188). Logo, o narrador acreditava que o fenômeno tinha relação com o avô. Estaria Dito Mariano fechando a terra? Ou ela se recusava a aceitá-lo? Teria relação com as cartas ao neto e o fato dos dois, juntos, salvarem aquele lugar?

NYEMBETI E A RELAÇÃO DA MULHER COM A TERRA

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Outra personagem que logo nos chama atenção por sua forte relação com a terra é Nyembeti, irmã do coveiro Curozero Muando. A princípio ela aparece como a mulher por quem o protagonista da obra se interessa, segundo Curozero, seu irmão: “[…] Até dói a beleza dela. O problema sabe qual é? É que essa moça não fala direito, a língua tropeça na boca, a boca tropeça-lhe na cabeça.” (COUTO, 2003, p. 160). A moça era bonita, mas não sabia falar e nem se comunicar com as pessoas.

Após o episódio da terra fechada, Marianinho regressa a Nyumba-Kaya e durante a noite tem um sonho no qual Nyembeti aparece com a solução para o problema de ordem sobrenatural. No sonho, os dois fazem amor em uma caverna e após isso a jovem começa a cavar no lugar em que fizeram amor, segundo o narrador:As mãos em concha, escavaram a terra. […] O solo ali era fofo, minhocável, esfarelento. Nyembeti descobrira onde se podia cavar a sepultura do Avô.

Como é que você encontrou esse lugar?

Mas ela negou. Os lugares não se encontram, constroem-se. A diferença daquele lugar não estava na geografia. Apontou para nós dois e embrulhou as mãos para, em seguida, as levar ao coração. Ela queria dizer que a terra ficou assim porque nela nos amáramos? Seria o amor que reparara a terra?  (COUTO, 2003, p. 189, grifo nosso).

Tendo levantado esses questionamentos, Marianinho recorda do lençol de amores de Dito Mariano: “as amantes todas, sem exceção, ele as desfrutara na mesma cama, sobre o mesmo lençol” (COUTO, 2003, p. 43), seria realmente o amor que restauraria a terra? Eliade (2001) explica a relação da mulher com a terra:

A mulher relaciona-se, pois, misticamente com a Terra: o dar à luz é uma variante, em escala humana, da fertilidade telúrica. […] A sacralidade da mulher depende da santidade da Terra. A fecundidade feminina tem um modelo cósmico: o da Terra Mater, da Mãe universal. (ELIADE, 2001, p. 121)

Seria a fertilidade da mulher e o ato de fazer amor que abririam o solo? Nyembeti teria realmente encontrado o segredo da terra? Marianinho acorda do sonho sem saber se ele deveria ser levado a sério. O que é real e o que não é, levando em consideração que tantas coisas aparentemente “sobrenaturais” estavam acontecendo desde que o jovem retornara à Ilha?

MARIANINHO E NYEMBETI: PARTIR OU PERMANECER NA ILHA?

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Marianinho nascera em Luar-do-Chão e partira dali após a morte de sua mãe Mariavilhosa, seu vínculo com aquele lugar era muito forte, mas ali não seria o lugar de suas cinzas. Por outro lado temos Nyembeti, que ali nascera e ali morreria. Levando em consideração que são da mesma idade, podemos comparar a relação de ambos com a Ilha.

Antes de partir da Ilha, Marianinho vai ao cemitério encontrar a jovem que agora era a nova coveira da cidade, eles fazem amor em um cenário muito parecido com o do sonho que o narrador tivera e ali ele constata: “Afinal, entendo: eu não podia possuir aquela mulher enquanto não tomasse posse daquela terra. Nyembeti era Luar-do-Chão.” (COUTO, 2003, p.253). Ela era parte daquele lugar e para possuí-la, ele teria que morar na Ilha.

Qual é relação que uma pessoa tem com sua terra natal? Até que ponto uma pessoa que nunca saiu de determinado lugar está vinculada a ele? Como afirma Dito Mariano “[…] os lugares são bons e ai de quem não tenha o seu, congênito e natural. Mas os lugares nos aprisionam, são raízes que amarram a vontade da asa.” (COUTO, 2003, p. 65).

Até que ponto um determinado lugar é bom? Quando ele se torna uma prisão? Quais são as relações que uma pessoa pode ter com um determinado lugar?

TERRA: SEGREDO E FIDELIDADE

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Cada pessoa desenvolve uma relação diferente com seu lugar de origem: quem nasceu, cresceu e permaneceu sempre ali tem uma relação de certo teor; quem partiu ainda jovem por certo tem outro tipo de relação e quem simplesmente nasceu e não manteve contato tem outra relação, completamente diferente. Assim acontece com as personagens de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2003).

Marianinho sentia que Luar-do-Chão não seria o local de suas cinzas, quem mudara: ele ou a Ilha? Ou ambos? Que (re)nascimento, afinal, ele vivenciara ali? No final da narrativa ele descobre que era, não neto, mas filho do anfitrião dos Marianos. Fruto de um amor proibido entre Mariano e Admirança, irmã mais nova de sua esposa.

Afinal, é “descoberto” o mistério da terra fechada: Dito Mariano não podia levar esse segredo para o túmulo, a terra não o aceita. Após a revelação do segredo ao filho, Dito Mariano finalmente morre e a terra volta a se abrir.

Na narrativa, os questionamentos parecem respondidos, mas ela possibilita várias leituras que nos levam para questões como: o que estamos fazendo com o nosso planeta? A obra Zaratustra (2011) de Friedrich Nietzsche já nos alertava sobre a fidelidade que devemos ter com relação à terra e sua preservação. Até que ponto as guerras e a poluição ferem a terra? Precisaria ela se fechar para o Homem tomar consciência de suas responsabilidades perante o planeta? Existem coisas (mentiras/pecados) que a terra não consegue engolir?

Em sua última carta ao filho antes de sua morte definitiva, Dito Mariano revela o segredo da terra fechada e pede para que seu corpo seja jogado no rio sem que ninguém, além de Curozero Muando, veja: “[…] lembra onde foram enterrados as águas de sua mãe e o corpo de seu pequeno irmão, o pré-falecido? Junto à lagoa que nunca seca. Pois eu quero ser enterrado junto do rio.[…] Eu sou um mal-morrido. Já viu chover nesses dias? Pois sou eu que estou travando a chuva.” (COUTO, 2003, p. 238) Dito Mariano ainda acrescenta: “[…] me faça um favor: meta no meu túmulo as cartas que escrevi, deposite-as sobre o meu corpo. Faz conta me ocuparei em ler nessa minha nova casa.” (COUTO, 2003, p. 238).

Marianinho realiza os últimos desejos do pai e juntamente com Curozero Muando:

Levamos o corpo para o rio, enrolado em seu velho lençol. […] Começa a chover assim que descemos o avô à terra. Conservo as cartas em minhas mãos. Mas as folhas tombam antes de as conseguir atirara para dentro da cova.

– Curozero, ajude-me a apanhar esses papéis.

– Quais papéis?

Só eu vejo as folhas esvoando, caindo e se adentrando no solo. […] vou apanhando as cartas uma por uma. É então que reparo: as letras se esbatem, e o papel se empapa, desfazendo-se num nada. Num ápice, meus dedos folheiam ausências.

Quais papéis? – insiste Curozero. (COUTO, 2003, 239-240)

As cartas haviam se desfeito e Marianinho mergulha no rio: “ […]  não sei do que nos lavamos. Para mim, o rio, de tão sujo, só nos pode conspurcar. Todavia, cumpro o ritual, preceito a preceito.” (COUTO, 2003, p. 240) Após o fim do ritual Curozero Muando afirma: “[…] seu Avô está abrindo os ventos. A chuva está solta, a terra vai conceber.” (COUTO, 2003, p. 240).

Chove durante muitos dias na Ilha e a terra finalmente se abre. Marianinho se despede dos moradores da Ilha e termina a narrativa lendo a última carta do Avô (pai), na carta o agora falecido Mariano afirma: “[…] você, meu neto, cumpriu o ciclo das visitas. E visitou casa, terra, homem, rio: o mesmo ser; só diferindo em nome. Há um rio que nasce dentro de nó, corre por dentro da casa e deságua não no mar, mas na terra. Esse rio uns chamam de vida.” (COUTO, 2003, p. 258) Dito Marino batiza de vários nomes a vida e confessa o alívio que sente por ter finalmente conseguido atravessar a fronteira vida/morte.

Marianinho agora seguiria sua vida ciente de sua verdadeira identidade e sua relação com Luar-do-Chão. Ele voltaria para a cidade? Provavelmente. Certo é que ele realmente vivenciara um (re)nascimento ali e ainda visitara o mundo dos mortos através das cartas de Mariano, vivenciara ainda uma série de experiências mágicas que tornavam sua vida completamente diferente da cotidiana na cidade.

A relação entre uma pessoa e a sua terra de origem é muito particular: existem pessoas para as quais não faz a menor diferença estar em seu lugar de origem ou não, enquanto outras têm um forte vínculo com a terra natal.

Ser ou não ser fiel a terra? Preservá-la ou não? Quebrar ou fortalecer vínculos com o seu local de origem? A terra também protesta? Ela se recusa a receber certos segredos e mentiras?

[1]Em seus contos e romances, Mia Couto grafa sempre os diálogos com uma fonte destacada, não só para distingui-los no corpo do texto, mas também para dar relevo à palavra falada – afinal, é no mundo da oralidade que Mia Couto recolhe as tradições africanas que deseja ver preservadas. (SILVA, 2008, p. 315).

[2] Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.

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A PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO: UMA PERSPECTIVA DO VAZIO – UM LANÇAR DE OLHOS SOBRE JOÃO CABRAL DE MELO NETO

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Por Leandro Bertoldo Silva

Você já sentiu isso?

Aquele estado de profunda beleza que te deixa imóvel por alguns segundos?

Você percebe que alguma coisa modificou seus sentimentos, te provocou, te fez sair do lugar comum e que você já não é mais o mesmo. Todas as suas convicções, suas certezas, seus conceitos foram revirados, mexidos, tocados…

E você acha isso bom…

Embora ainda não saiba como explicar, nem mesmo compreender tudo que leu, sabe que ali, naquelas linhas, naqueles versos há um pluriverso de possibilidades que podem se transformar em outras verdades…

Aliás, há outras verdades?

Sim, há! Todas “escondidas” entre os versos de um poema que, por si mesmo, nos incita, adverte, desafia, contradiz, antecipa-nos as dúvidas, dialetiza nossas certezas…

É dentro desta contemplação que vive o poema. Esta é a sua casa, o seu lugar. E um dos maiores anfitriões deste espaço de tudo e nada, daquilo que nos prende por um detalhe à primeira vista insignificante, mas que na verdade é o ápice das considerações dinâmicas do todo, é o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, que teve a coragem de rejeitar os “excessos” e caminhar na contramão dos sentimentos para elaborar uma poesia crua e disciplinada, nos mostrando um caminho antirromântico e ao mesmo tempo profundamente encantador.

É este o tema desse artigo. Partindo do poema A PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO, de João Cabral, o artigo (na verdade um ensaio) tende a mostrar a compreensão do que seja tal psicologia que se arboriza e se ramifica em questões complexas e muitas vezes paradoxais que, antes de se rejeitarem, se completam, revelando a genialidade e a pura arte de lidar com a palavra.

Este artigo é um pequeno ensaio para quem gosta não apenas de poesia, mas da poesia de João Cabral de Melo Neto, que é bem diferente…

Está preparado(a) para uma experiência ainda não imaginada? Então vamos lá…

Continue lendo para saber mais sobre:

  • As considerações essenciais da psicologia da composição, extraídas do poema de mesmo nome
  • Como a psicologia da composição contribuiu e contribui para a ruptura com o lirismo em busca da comunicação poética

Se você já gostou do assunto desse artigo, não deixe de compartilhá-lo com seus amigos para que cada vez mais pessoas possam se inteirar do universo de João Cabral de Melo Neto e de sua “psicologia” que se arboriza e se ramifica em questões complexas, muitas vezes paradoxais, que terá na linguagem grandes achados gerais de comunicação.

Mas antes mesmo de qualquer coisa, conheçamos o poema A Psicologia da Composição, de João Cabral de Melo Neto.

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A Psicologia da Composição

(João Cabral de Melo Neto)

Saio de meu poema

como quem lava as mãos.

Algumas conchas tornaram-se,

que o sol da atenção

cristalizou; alguma palavra

que desabrochei, como a um pássaro.

Talvez alguma concha

dessas (ou pássaro) lembre,

côncava, o corpo do gesto

extinto que o ar já preencheu;

talvez, como a camisa

vazia, que despi.

Esta folha branca

me proscreve o sonho,

me incita ao verso

nítido e preciso.

Eu me refugio

nesta praia pura

onde nada existe

em que a noite pouse.

Como não há noite

cessa toda fonte;

como não há fonte

cessa toda fuga;

como não há fuga

nada lembra o fluir

de meu tempo, ao vento

que nele sopra o tempo.

Neste papel

pode teu sal

virar cinza;

pode o limão

virar pedra;

o sol da pele,

o trigo do corpo

virar cinza.

(Teme, por isso,

a jovem manhã

sobre as flores

da véspera.)

Neste papel

logo fenecem

as roxas, mornas

flores morais;

todas as fluidas

flores da pressa;

todas as úmidas

flores do sonho.

(Espera, por isso,

que a jovem manhã

te venha revelar

as flores da véspera.)

O poema, com seus cavalos,

quer explodir

teu tempo claro; rompendo

seu branco fio, seu cimento

mudo e fresco.

(O descuido ficara aberto

de par em par;

um sonho passou, deixando

fiapos, logo árvores instantâneas

coagulando a preguiça.)

Vivo com certas palavras,

abelhas domésticas.

Do dia aberto

(branco guarda-sol)

esses lúcidos fusos retiram

o fio de mel

(do dia que abriu

também como flor)

que na noite

(poço onde vai tombar

a aérea flor)

persistirá: louro

sabor, e ácido

contra o açúcar do podre.

Não a forma encontrada

como uma concha, perdida

nos frouxos areais

como cabelos;

não a forma obtida

em lance santo ou raro,

tiro nas lebres de vidro

do invisível;

mas a forma atingida

como a ponta do novelo

que a atenção, lenta,

desenrola,

aranha; como o mais extremo

desse fio frágil, que se rompe

ao peso, sempre, das mãos

enormes.

É mineral o papel

onde escrever

o verso; o verso

que é possível não fazer.

São minerais

as flores e as plantas,

as frutas, os bichos

quando em estado de palavra.

É mineral

a linha do horizonte,

nossos nomes, essas coisas

feitas de palavras.

É mineral, por fim,

qualquer livro:

que é mineral a palavra

escrita, a fria natureza

da palavra escrita.

Cultivar o deserto

como um pomar às avessas.

(A árvore destila

a terra, gota a gota;

a terra completa

caiu, fruto!

Enquanto na ordem

de outro pomar

a atenção destila

palavras maduras.)

Cultivar o deserto

como um pomar às avessas:

então, nada mais

destila; evapora;

onde foi maçã

resta uma fome;

onde foi palavra

(potros ou touros

contidos) resta a severa

forma do vazio.

 

AS CONSIDERAÇÕES ESSENCIAIS DA PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO, EXTRAÍDAS DO POEMA DE MESMO NOME

palavra

Depuramento, equilíbrio, controle racional, poiesis que favorece a construtividade do poema, escala reflexiva e metalinguística, mutilação do sentimento, secura emocional. Aqui reside a Psicologia da Composição, de João Cabral de Melo Neto, que se estende por questões altamente complexas. Partiremos exatamente da poiesis, pois, a partir dela, todas as outras questões irão se encaixando como num verdadeiro quebra-cabeça ou, já reportando a metáforas, como num prédio em construção cuja matéria prima – o tijolo – é nada mais, nada menos, do que a palavra.

A preocupação de João Cabral com a construtividade do poema é tão grande, que é evidente em sua produção poética um despojo de sentimentalismo, graças à preocupação formal que lhe é inerente. Essa preocupação formal, a qual é necessária para que aconteça de fato a comunicação poética através da seleção vocabular, faz com que a sua poesia seja limpa, sem excesso de verbalismo, essencialmente visual e, por isso mesmo, beirando a prosa. Sendo assim, João Cabral é um poeta antirromântico e antissentimental, o qual defende que a essência da arte está na palavra objetivada pura e crua e não no que ela invoca, ou melhor dizendo, no seu sentimento.

De fato, se observarmos, tal preocupação construtivista se faz presente no próprio título “A PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO”. Psicologia vem do grego psyche, elemento comparativo de psiqu(e), que significa alento, sopro de vida, alma. A princípio, os estudiosos de João Cabral podem se assustar, ou no mínimo, estranhar, pois, como foi dito, o poeta é um antissentimental, ou seja, para ele a poesia não existe na emoção, mas na razão, e ‘alma’ nos remete a um estado comum de sentimentalismo e transcendência.

Porém, composição vem de compor, que é produzir, inventar, dar feitio ou forma, isto é, exatamente construir. Assim, para João Cabral a alma da poesia vem da construção, do pensamento racional, o que vem comprovar e ratificar a sua posição antirromântica contra aqueles que acham que a poesia está na emoção.

Essa psicologia cabralina está presente em todos os momentos da segunda fase do poeta que, a partir daí, sela, num laço matrimonial, uma união sólida e sem risco de separação. Torna-se um processo criativo de produção poética que culminará às vezes de forma isolada, outras vezes cotejada, mas sempre diferenciada em seus modos de compor. É onde a linguagem se apresenta ora de forma salientada, outra ora implícita e alegoricamente fechada em matérias diversas e, ainda, embutida num assunto mais específico.

A Psicologia da Composição, como disse, traz fatos paradoxais, mas o que vem a ser isso? São os contrastes que encontramos em sua construção poética. Tais contrastes evidenciam-se em ações redutivas como as de lavar e de despir para a busca do vazio, não para se anular, mas para preencher. Escreve João Cabral:

 “saio do meu poema como quem lava as mãos”.

Repare que o Poeta se mantém fora de seu próprio poema com intuito de anular toda uma emoção criadora que, por ventura, possa existir. É interessante observar que Cabral, no ato de ‘lavar’ as mãos, constrói uma das mais antigas tradições imaginárias da simbologia da água e, portanto, neste caso, a mais coerente também, que é o fato de purificar-se dos seus sentimentos e regenerar-se através da água, massa indiferenciada com o poder de desintegração, condicionando uma fase progressiva de reintegração. Isso significa um retirar da subjetividade para o acréscimo da linguagem formadora. Evidencia-se, portanto, a busca de um somatório a partir de operações diminutivas. É como dizer que o fogo queima sem arder ou que suas chamas ardem sem queimar. Isso faz parte de uma ascese intelectual carregada de negatividade, cuja depuração dos sentimentos se exterioriza de forma dialética, isto é, uma forma que está sempre em movimento (água) como num “fazer que desfaz e num desfazer que refaz” (“A máquina do poema”).

Ainda sobre a água, na Ásia, ela é a forma substancial da manifestação, o símbolo da fertilidade e da sabedoria, da coesão e da coagulação. Interessante notar que na continuação do poema, Cabral diz:

 “Algumas conchas tornaram-se, que o sol da atenção cristalizou (…)”.

Se associarmos o ato de cristalizar da concha com a coagulação da água, veremos que a idéia construída é a da secura e do menos, que se associa à negatividade, cujo sol se manifestou como princípio e razão. Repare que o sol nos remete à clareza que está no mesmo campo semântico da objetividade que se diferencia, portanto, da noite que é o seu oposto, ou seja, a subjetividade e a emoção.

Vale dizer que na tradição oriental, o dia e a noite representados, respectivamente, pelo sol e a lua, confere a essa o significado de empurrar, afastar, enquanto ao sol cabe-lhe a tarefa de puxar, atrair, ou seja, em nosso raciocínio, é o mesmo que dizer que ‘afastando’ a emoção (lavando as mãos), ‘atrairemos’ a razão, isto é, a objetividade do poema. Se atentarmos para o fato de que na simbologia a lua também se liga à água e o sol se liga ao fogo e que, por sua vez, a água se liga ao pulmão pelo seu processo de absorção e purificação do ar, cujas partículas de água se faz presente, e o fogo ao estômago pelo processo de retenção onde é atraído o alimento para a retirada do que é substancial, veremos que realmente João Cabral é um poeta da construção, do pensamento, da perspicácia, da coerência e da objetividade, sempre a favor de uma preocupação formal e metalinguística, pois ele sempre utiliza de um ato para explicar outro.

É o signo dentro do signo (significante) que se refere a um significado comum. Até mesmo a concha possui o seu sentido se a olharmos como algo vazio a qual foi preenchida pelo vento:

“Talvez alguma concha dessas (ou pássaro) lembre, côncava, o corpo do gesto extinto que o ar já preencheu (…)”.

Repare que o poeta assemelha a concha ao pássaro. É perfeitamente compreensivo se observarmos que o pássaro quando voa preenche as sua asas com o vento…

Assim, entramos num ponto crucial da Psicologia da Composição – a negação, por completo, da forma encontrada pela forma preenchida. Isso quer dizer que para o autor de Morte e vida severina, a poesia não é obra do acaso ou obtida por intervenção divina, como pensavam os românticos. Antes disso, a poesia, como vimos, é construída e, por isso, é necessário paciência, esforço, inteligência, perseverança e atenção.

Farei aqui um recorte para a questão da ‘atenção’, pois ela é um fator extremamente importante para compreendermos a poesia de João Cabral. É ela que irá retirar a emoção e guiar o Poeta que terá, na folha de papel, seu canal para a injeção de imagens em busca da poesia construída.

“Esta folha branca me proscreve o sonho, me incita ao verso nítido e preciso.”

Cabral ainda escreve:

“Eu me refugio nesta praia pura onde nada existe em que a noite pouse.”

Observe que o poeta associa a folha branca do papel com a praia pura onde nada existe em que a noite pouse, ou seja, além da evidência metalinguística – um signo e ideia que se refere a um outro signo e ideia para a construção de um único sentido – João Cabral usa de metáforas inusitadas e cotidianas para dizer que a folha, por ser branca, está vazia como a praia onde nada existe para que a noite venha.

Assim, predomina a imagem novamente do sol que se harmoniza com a ideia de clareza embutida na folha branca (repare que não é escura) diferenciando com a noite. É exatamente aqui que a ‘atenção’ prevalecerá, pois ela fará com que o poeta se fixe na folha de papel, que por ser branca, o ajudará a não se desvencilhar e se perder no escuro das emoções… E ainda continua:

“Como não há noite cessa toda fonte; como não há fonte cessa toda fuga; como não há fuga nada lembra o fluir de meu tempo, ao vento que nele sopra o tempo”.

Repare que Cabral se refere à ‘fonte’ como a inspiração, cuja essência é negada, da mesma forma que nega o tempo em que sua poesia era fluida (como a água), sem a ‘atenção’ da racionalidade. É novamente a presença da metalinguagem, a qual critica até mesmo a sua forma de escrever, ou melhor dizendo, a sua antiforma. A ‘atenção’, assim, é responsável pela sabedoria de João Cabral, que enxerga o positivo dentro do negativo, ou seja, vislumbra a poesia dentro do vazio, do menos, do nada.

É por isso que João Cabral ainda escreve:

“Neste papel logo fenecem as roxas, mornas flores morais; todas as fluidas flores da pressa; todas as úmidas flores do sonho”.

É a forma utilizada pelo poeta de ir contra a poesia solta, sem reflexão, fluida e sem preocupação formal que dilacera a verdadeira arte de escrever e de compor. Levando-se em conta que, embora cada flor possua, pelo menos secundariamente, um símbolo próprio, ela não deixa de ser, de maneira geral, símbolo do princípio passivo (a mulher) e, como tal, não corresponde à poesia construída e pensada que, ao contrário, clama pelo princípio ativo da racionalidade.

É curioso observar que pela significação (simbologia), o cálice da flor é o receptáculo da Atividade Celeste, entre cujos símbolos estão a chuva e o orvalho e, como já sabemos, para João Cabral a poesia não é alcançada pela providência divina, ou seja, ele não concebe o poeta como um ser iluminado, o que faz com que essa simbologia da flor como significação celeste seja realmente negada. Interessante ainda notar que essa simbologia continua se referindo à umidade (água) fluida, também negada completamente em razão da poesia objetiva.

Todo esse esmero cuidadoso dispensado à arte de compor, vem do pressuposto que, se assim não for, o descuido e o acaso podem vir fortuitamente e fazer com que a emoção supere a razão, fazendo, por sua vez, com que a poesia se desestruturalize e, por conseguinte, passe a se encontrar mutilada ou, até mesmo, morta.

Por isso, faz-se necessário domar as palavras como a um cavalo e impedir a emoção.

 “O poema, com seus cavalos, quer explodir teu tempo claro; romper seu branco fio, seu cimento mudo e fresco”.

Repare a ideia de enclausuramento existente no ‘cimento mudo e fresco’ em que a poesia é forçada a ficar para que sua existência permaneça. Repare, igualmente, que o cimento é fresco e não endurecido, o que significa que há sempre o risco de ser transposto e invadido pela emoção representada, metaforicamente, pelo cavalo. O cavalo é um animal cuja força é superior a do homem, e uma crença, que parece estar fixada na memória de todos os povos, associa originalmente o cavalo às trevas. Ele é o filho da noite e do mistério. Todos esses atributos relacionados ao cavalo são tudo o que João Cabral renega: trevas = noite; mistério = subjetividade, em contraposição de clareza = dia; verdade = objetividade. É por esse motivo que o ‘cavalo’ precisa ser domado, pois:

“O descuido ficará aberto de par em par; um sonho passou, deixando fiapos, logo árvores instantâneas coagulando a preguiça”.

O risco, pois, é enorme. O ‘sonho’ que, de um fiapo, pode se transformar em grandes árvores, ou seja, a emoção, que tudo pode, pode também tomar conta da razão.

Assim, é preciso que a ‘atenção’ permaneça viva para que sua existência aja sob as palavras, a fim de ‘domesticá-las’ como se faz com as abelhas:

“Vivo com certas palavras, abelhas domésticas. Do dia aberto (branco guarda-sol) esses lúcidos fusos retiram o fio do mel (do dia que abriu também como flor) (…)”.

Nessa passagem, as palavras se encontram no mesmo campo semântico das abelhas que picam e incomodam, mas produzem mel. Elas constroem o casulo e, pela flor, dá origem ao mel que é agradável. É, antes de tudo, um símbolo vasto de riqueza, de coisa completa e, sobretudo, de doçura. O mel (emoção) se opõe ao amargo do fel (palavra pura). Segundo Dionísio, o mel designará a cultura religiosa, o conhecimento místico, os bens espirituais, a revelação ao iniciado. Virgílio chamará o mel de dom celeste do orvalho. O mel designará a beatitude suprema do espírito e o estado de Nirvana, que é o símbolo de todas as doçuras. O mel realiza a abolição da dor.

Dito isso, continua sendo tudo ao contrário do que pensa João Cabral, pois, mais uma vez, para ele a inspiração e a emoção não existem e, sendo assim, a poesia não vem de Deus. Muito pelo contrário, a poesia causa dor e sofrimento em seu processo de criação e produção. É por isso que para João Cabral, o poeta deve se postar acima das palavras, a fim de domesticá-las, sempre.

Relacionadas todas essas questões, evidenciarei a importância “não da forma encontrada como uma concha, perdida nos frouxos areais” ou da “forma obtida em lance santo ou raro (…)” que, creio, está bem entendida através de seus códigos marítimo e religioso negados por João Cabral. Tratarei, pois, do código da construção propriamente dita que mantém no ‘novelo’ e na ‘aranha’ a sua razão de ser.

Assim, temos:

“Não a forma encontrada (…); não a forma obtida (…); mas a forma atingida como a ponta do novelo que a atenção, lenta, desenrola, aranha; como o mais extremo desse fio frágil, que se rompe ao peso, sempre, das mãos enormes”.

 Observe que a ideia que se evidencia é da atividade de tecer em que a ponta do novelo vai se desenrolando lentamente a fim de se construir algo. É como a aranha que tece a sua teia, sempre movida pela atenção para que aja perfeita igualdade simétrica em sua forma. Porém, a teia, de fios frágeis, se rompe, sempre, ao peso das mãos enormes. Se observarmos, será sempre um processo de desfazer para fazer e refazer, sempre assim. Repare que, em relação ao novelo, esse, primeiro, terá que se desfazer para que seu fio se faça em alguma coisa. Já em relação à aranha, essa estará sempre buscando uma forma que, certamente, diferenciará de uma para a outra, sempre que seus fios se romperem pelo peso das mãos e serem refeitos.

A preocupação enquanto forma simétrica, cuja relação encontra-se no ato de tecer, vem de encontro à preocupação da elaboração formal que João Cabral despende à sua poesia pois, para ele, deve-se desconfiar da espontaneidade ou de tudo que não tenha sido submetido, antes, a uma elaboração cuidadosa. E, de fato, se olharmos com atenção a forma final da teia da aranha ou o produto proveniente de um fio de lã, eles serão sempre diferentes de um para outro, mas existirá nesses atos uma razão lógica de ser, não sendo, portanto, sua confecção simplesmente por acaso.

E é esse fazer e desfazer que acabará por criar um ciclo inacabado onde, tratando o fio do novelo ou da teia como poesia, o poeta estará sempre buscando uma forma nova e criadora, o que significa que ele terá, sim, a sua poesia percebida e perseguida, mas nunca completamente alcançada. E será exatamente este não alcançar que irá gerar angústia e sofrimento evidenciado, no caso de João Cabral, em sua produção poética. Tudo isso diz respeito ao seu estilo quanto à sua atitude criadora, ou seja, é o estilo cauteloso, lento, de avanço e de recuo, de paciência e de atenção como quem enrola e desenrola, em movimentos de ida e volta, nos fios do discurso que os fusos das palavras tramam a rede verbal das coisas.

Tanto a angústia como o sofrimento pode ser visto como um estado de negação, em que a felicidade, com toda sua emoção e sentimentalismo associados, não só ao homem, como também às flores, aos animais, ao horizonte e, por fim, à natureza, é posta em segundo plano, ou melhor dizendo, não se manifesta frente à crueza fria das palavras. Neste sentido, João Cabral associa a palavra ao mesmo universo da pedra, isto é, para ele a palavra não passa de um objeto inerte, frio e destituído de sentimentos. Pode-se verificar isso ao observar a seguinte passagem de sua Psicologia da Composição:

“São minerais as flores e as plantas, as frutas, os bichos quando em estado de palavra. É mineral a linha do horizonte, nossos nomes, essas coisas feitas de palavras. É mineral, por fim, qualquer livro: que é mineral a palavra escrita, a fria natureza da palavra escrita”.

Observe que para João Cabral tudo é mineral – as plantas, os bichos, nossos nomes, as palavras, etc. Mineral vem de minério que, por sua vez, nos remete à pedra. Essa é tida como elemento de construção e está ligada ao sedentarismo dos povos e a uma espécie de cristalização cíclica. Isso significa que, cristalizada a pedra, essa ficará cada vez mais sólida e se assemelhará à ideia do objetivismo, diferentemente do líquido (fluido) que encontramos, por vez, numa ideia subjetiva. Para o Poeta, tudo que existe enquanto palavra é sólido, frio e bruto como a pedra. Até mesmo o papel, morada da palavra, é essencialmente pedra:

“É mineral o papel onde escrever o verso; o verso que é possível não fazer”.

Por fim, este estado de crueza e melancolia pelo vazio, cuja essência do sentimento se faz necessário, é evidenciado na última parte da Psicologia da Composição, quando João Cabral diz:

“Cultivar o deserto como um pomar às avessas”, ou seja, tudo precisa ser vazio, sem nenhuma emoção como ‘um pomar sem frutos’. Esses, quando existem, caem ao chão e apodrecem. É preciso, portanto, cultivar um pomar utilizando-se da atenção para impedir o nascimento do fruto e incentivar a permanência do vazio, pois aí reside o verdadeiro pomar, isto é, a verdadeira poesia destituída de inspiração e sentimento.

Assim, o pomar é constituído de palavras que renega o fruto e se saboreia com sua ausência:

“então, nada mais destila; evapora; onde foi maçã resta uma fome; onde foi palavra (potros ou touros contidos) resta a severa forma do vazio”.

Interessante notar que touro, nas religiões indo-mediterrâneas, representa os deuses celestes, ideia religiosa ligada à espiritualidade e sentimento e negada por João Cabral o tempo todo em sua criação poética e, por isso mesmo, devendo ficar contida no vazio.

COMO A PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO CONTRIBUIU E CONTRIBUI PARA A RUPTURA COM O LIRISMO EM BUSCA DA COMUNICAÇÃO POÉTICA

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 A Psicologia da composição, enquanto poética negativa, em que João Cabral constrói toda uma forma própria de pensar e sentir, caracteriza a ruptura com o romântico tradicional, pois, como já vimos, a poesia cabralina visa às palavras e não os sentimentos. Esses são neutralizados pela intelectualidade racional em que a secura emocional inviabiliza o eu lírico e todas as suas expressividades, numa espécie de epoqué, que é o que determina uma troca de valores daquilo que é posto em evidência. Essa troca de valores quer dizer que, na verdade, os sentimentos não são anulados por completo, e sim percebidos de formas diferentes e reduzidos (poética negativa) de acordo com a nossa liberdade.

Assim, podemos dizer que a poesia de João Cabral de Melo Neto, é uma poesia em constante luta entre a razão e a emoção, ou seja, na realidade ele nem supera e nem liquida de todo o lirismo. O que acontece não é uma anulação total, mas um esvaziamento sentimental que caracterizará numa perda de efetividade empírica.

Essa tão caótica situação é compreendida a partir de duas premissas: a primeira é que João Cabral não rompe com as formas tradicionais do verso, pois ele inventa a sua linguagem a partir delas. É, portanto, a constatação do paradoxo da obra de João Cabral que se mantém no seu estado de construção aliado ao verso do qual não se abdica, embora o modifique em relação ao seu estado sentimental e romântico. É por isso que disse sempre que João Cabral de Melo Neto é considerado um poeta antissentimental e antirromântico. É a partir dessa modificação que poderemos vislumbrar a segunda premissa, onde os versos e estrofes mais tradicionais são, para o autor de O cão sem plumas, os menos literários possíveis. Cabral prefere que seus versos atinjam uma esfera bem mais popular para que aja comunicação poética. Ainda defende que para haver essa comunicação, a qual é uma das razões primeiras da poesia, o objetivismo precisa tomar o lugar do subjetivismo, ou seja, é preciso modernizar o poema quanto à sua estrutura, métrica, enfim, colocá-lo mais próximo das pessoas. Tudo isso é notado na própria Psicologia da Composição, quando o poeta utiliza-se de formas e nomes comuns que fazem parte do cotidiano das pessoas como cavalo, aranha, novelo, abelha, e outras mais.

Porém, nossa atenção é chamada para percebermos o descomprometimento da tendência moderna típica que, segundo sua percepção, também não atingiu uma condição comunicativa exata. Em relação a isso, são as próprias palavras do Poeta:

“O poema moderno típico é um híbrido monólogo interior e discurso de praça, de diário íntimo e de declaração de princípio, de balbucio e de hermenêutica filosófica, monotonamente linear e sem estrutura discursiva ou desenvolvimento melódico, escrito quase sempre na primeira pessoa e usado indiferentemente para qualquer espécie de mensagem que o seu autor possa enviar.(…) Esse tipo de poema é a própria ausência de construção e organização; é o simples acúmulo de material poético, rico, é verdade, em seu tratamento de verso, da imagem e da palavra, mas atirado desordenadamente, numa caixa de depósito”.

Assim, a falta de preocupação organizacional e de construção, isto é, a liberdade pura e simples observada na tendência moderna, também desfavorece a comunicação poética. Portanto, para João Cabral é necessário que o poeta não renuncie o espírito de pesquisa formal da linguagem com suas respectivas técnicas, mas, no entanto, não pode deixar que essa linguagem, ou mais precisamente, essa preocupação formal, o enclausure e o pode enquanto sujeito criativo.

São por esses motivos que a poesia de João Cabral de Melo Neto é, ao mesmo tempo, percebida e buscada intensamente, porém jamais alcançada por completo. É a perspectiva do vazio, a luta incansável, sofrida, angustiante e interminável, que faz da Psicologia da Composição a maneira complexa, intrigante e instigante de ser do poeta pernambucano.

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E então, você gostou de conhecer um pouco mais sobre a Psicologia da Composição, de João Cabral de Melo Neto? Intrigante, não?

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[INFOGRÁFICO] MACHADO DE ASSIS: A ALMA HUMANA DECIFRADA COM SUTIL IRONIA

Por Leandro Bertoldo Silva

Imagine um garoto mulato, pobre, gago e epilético, filho de pai pintor e mãe lavadeira num Brasil colônia da segunda metade do século XIX…

Uma pessoa assim teria todas as prerrogativas de não se dar bem na vida, certo?

Nem tanto!

As tendências às vezes são só tendências e caem frente às grandes almas…

Estamos falando de Joaquim Maria Machado de Assis, para muitos (inclusive para mim) o maior escritor brasileiro de todos os tempos e um dos mais notáveis escritores do mundo, que revolucionou as nossas letras e a nossa maneira de enxergar a vida.

Contrariando a normalidade, Machado de Assis teve uma existência relativamente estável e conheceu, em vida, o prestígio e a fama que lhe cabiam. Foi um dos fundadores, em 1897, da Academia Brasileira de Letras – ABL e eleito seu presidente vitalício. Ao morrer, em 1908, recebeu honras fúnebres de chefe de Estado.

Nada poderia contrastar mais vivamente com seu nascimento, em 1839, no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, e com sua infância de menino órfão e pobre (sua mãe morreu quando ele tinha 10 anos de idade e seu pai casou-se novamente, vindo morrer pouco tempo depois), sendo criado pela madrasta (felizmente boa, para diferenciar das histórias e contos de fadas…).

Entre nascimento e morte, Machado percorreu um duro caminho de quem se faz pelas próprias mãos – mulato pobre de subúrbio, ele se transformaria num dos mais respeitados intelectuais da corte.

Pelo que indicam os registros, Machado de Assis não frequentou a escola, embora tivesse aprendido a ler antes dos 10 anos. Ainda criança, vendeu doces na rua para ajudar a sustentar a casa. Caixeiro de uma livraria, tipógrafo e revisor foram algumas profissões que exerceu antes de se tornar jornalista e escritor.

A estabilidade econômica, porém, veio de outras fontes. Como uma boa parcela da intelectualidade brasileira da época, Machado ingressou no funcionalismo público. Chegou a fazer carreira, foi oficial-de-gabinete de ministro e diretor de órgão público. Em 1889, ano da Proclamação da República, dirigia a Diretoria do Comércio. Nessa época já era um escritor consagrado.

Costuma-se dividir a obra de Machado de Assis em duas fases bem distintas: a primeira apresenta o autor ainda preso a alguns princípios da escola romântica, sendo por isso chamado de fase romântica ou de amadurecimento; a segunda apresenta o autor completamente definido dentro das ideias realistas, sendo, portanto, chamada de fase realista ou de maturidade.

Em 1904, a vida de Machado de Assis é abalada pela morte da esposa – Carolina Augusta Xavier de Novaes – uma base sólida para a sua carreira de escritor e sua companheira por 35 anos, e de quem ele nutria um amor incondicional.

Cultuado em seu tempo (e até hoje) como escritor “clássico”, representante máximo de nossa “boa literatura”, Machado de Assis soube, como nenhum outro escritor brasileiro, revelar os meandros da alma humana e combater, pela ironia sutil, as mazelas de nossa sociedade, ainda colonial, escravocrata e autoritária.

Parece interessante?

Então veja abaixo, no infográfico, um panorama geral para conhecer toda a brilhante trajetória de Machado de Assis – o bruxo do Cosme Velho, algumas de suas ideias e um cronograma básico com as suas principais obras para quem quer se deliciar nessa leitura, que é um verdadeiro mergulho nas profundezas da alma pelo viés da literatura.

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Gostou de conhecer a história de Machado de Assis, esse grande escritor brasileiro? Então compartilhe esse infográfico e ajude a divulgar essa informação!

A prpósito, que tal mencionar logo abaixo nos comentários qual obra de Machado mais lhe marcou? Se ainda não leu, é um bom momento para começar!  E para te ajudar, veja um pequeno vídeo-resumo de Memórias Póstumas de Brás Cubas, uma de suas principais obras!

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A LITERATURA E A MÚSICA RAIZ:A HARMONIA DO CORAÇÃO

Por Leandro Bertoldo Silva

Você já viveu isso?

Uma cozinha grande, aquele cheirinho de café misturado com biscoito frito na hora feito no fogão de lenha encerado com barro branco, crianças brincando ao redor, cachorros e galinhas esperando as migalhas do bolo de fubá que, certamente, cairão no chão, enquanto uma roda de conversa vai se intercalando com histórias e canções ganhando a noite, até que os cachorros vão dormir, as galinhas empoleirar, os gatos partirem para suas aventuras noturnas e tudo se mistura ao coaxar dos sapos e a sinfonia dos grilos…

E a viola não para e a cantoria não cessa…

E as histórias continuam nas letras das músicas…

E aquele momento vai se eternizando entre acordes e causos…

Se fecharmos os olhos agora e concentrarmos, dá até para ouvir os estalos da lenha queimando e o dó maior da viola executado nas mãos extremosas dos violeiros…

Se fecharmos os olhos agora, dá até para ouvir aquela história de amor à natureza, do valor da amizade e até mesmo tragédias amorosas, todas embaladas à harmonia dos cantadores…

Se fecharmos os olhos tudo se encanta e canta, como na música de Ilton Mourão, um grande artista emergente da nossa música raiz. Clique abaixo para ouvir enquanto acompanha a poesia da letra tão bem harmonizada à melodia que embala….

COM VOCÊ EU TOPO

Fala bem baixinho em meu ouvido

Bem daquele jeito

Que emociona, dói o peito

Pede que eu me ajeito

Tudo que quiser aceito

Quero ser feliz enfim

Toca de mansinho o coração

Já sabe que é encanto

É por isso que eu canto

Seu riso ou seu pranto

Feito um desencanto

Meu amor, te quero assim

Mexe com esse seu jeitinho

De envolver meu corpo

Sabe, eu não resisto

O que vier em nome do amor

Com você eu topo

Não é linda? Sentiu o cheirinho de café no ar, o gostinho do bolo, daquele aconchego gostoso em nome do amor? Então continue lendo para saber mais sobre a literatura e a música raiz e temas como:

– A verdadeira música raiz

– As origens da música rural brasileira

– Como a literatura contribuiu e contribui para o surgimento e riqueza da música e seus violeiros

E uma surpresa! Uma entrevista com Ilton Mourão – este grande artista da viola!

Se você gostou, aproveite para enviar este artigo para aquele amigo ou amiga que, como você, já gosta ou quer saber mais sobre estas duas artes que se completam, encantando nossos olhos e ouvidos, e fazendo vibrar os nossos corações, como nas cordas da viola… ai, ai…

A VERDADEIRA MÚSICA RAIZ

Falar de música raiz é falar dos movimentos rurais, que são manifestações culturais baseados em usos e costumes populares e regionais, ilustrando a vida e o pensamento da população do campo no interior do país.

Não poderia haver termo mais apropriado do que RAIZ, pois a verdade é que as manifestações dessa música, tão rica popularmente, diz respeito aos nossos sentimentos interiores, às nossas verdades, ou seja, às nossas raízes…

Aqui já encontramos um paralelo com a literatura, porque ela, assim como a música da terra, surgiu de uma necessidade de expressar, através da arte, nossas venturas e desventuras, alegrias e tristezas, prazeres e dores. E o que faz a música se não evidenciar esses sentimentos internos? Veja bem, “interno” tem a ver com “interior” = “terra” = “raiz”, que, no caso da música, vem acompanhado de “princípios” éticos, religiosos e morais, em que a natureza externa e interna se completa, em busca de melhores condições de vida.

Esses princípios são inerentes tanto à música quanto à literatura. Não é á toa que Castro Alves – poeta romântico nascido em 1847 e representante da poesia social – retrata esse modo de vida associado à natureza em seu poema Crepúsculo Sertanejo:

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Crepúsculo Sertanejo

A tarde morria! Nas águas barrentas
As sombras das margens deitavam-se longas;
Na esguia atalaia das árvores secas
Ouvia-se um triste chorar de arapongas.

A tarde morria! Dos ramos, das lascas,
Das pedras, do líquen, das heras, dos cardos,
As trevas rasteiras com o ventre por terra
Saíam, quais negros, cruéis leopardos.

A tarde morria! Mas funda nas águas
Lavava-se a galha do escuro ingazeiro…
Ao fresco arrepio dos ventos cortantes
Em músico estalo rangia o coqueiro.

Sussurro profundo! Marulho gigante!
Talvez um – silêncio!… Talvez uma – orquestra…
Da folha, do cálix, das asas, do inseto …
Do átomo – à estrela… do verme – à floresta!…

As garças metiam o bico vermelho
Por baixo das asas – da brisa ao açoite;
E a terra na vaga de azul do infinito
Cobria a cabeça co’as penas da noite!

Somente por vezes, dos jungles das bordas
Dos golfos enormes daquela paragem,
Erguia a cabeça surpreso, inquieto,
Coberto de limos – um touro selvagem.

Então as marrecas, em torno boiando,
O vôo encurvavam medrosas, à toa…
E o tímido bando pedindo outras praias
Passava gritando por sobre a canoa!..

AS ORIGENS DA MÚSICA RURAL BRASILEIRA

Voltando um pouco mais no tempo, o Brasil do Quinhentismo (Séc. XVI), tinha, como se sabe, uma população indígena, com a qual os “descobridores” tiveram que se defrontar no processo de povoação…

quinhentismo

Tudo bem, pessoalmente, prefiro o pensamento de Oswald de Andrade, ao afirmar que “antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.” (veja o infográfico do Panorama geral da literatura brasileira – de 1500 até os nossos dias, aqui neste blog).

Mas deixemos essa eterna discussão de lado e vamos à música…

O certo é que a exploração das riquezas da terra estava no intuito dos colonizadores, visto que viviam do comércio e, além do mais, a convivência com os nativos era necessária, até mesmo para o surgimento de lavouras, desenvolvimento de engenhos e fazendas, voltadas, além da subsistência, para a exportação de recursos.

O fato, é que essa relação – colonizadores e colonizados, com toda sua cultura indígena – chegou às manifestações musicais uma vez que, segundo a história, o Padre Anchieta, considerado o Apóstolo do Brasil, teria se valido de uma dança religiosa indígena, de origem tupi, chamada “cateretê”, para converter os índios ao cristianismo. Padre Anchieta teria introduzido essa dança nas festas de Santa Cruz, Espírito Santo, Conceição e Gonçalo, num hábito que até hoje existe nos estados de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Pará e Amazonas, sob o nome de catira, cujos elementos rítmicos da viola e do sapateado lhe foram acrescentados ao longo dos anos.

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Importante ressaltar que o cateretê era cantado em versos, propiciando o surgimento de cantores e trovadores populares, remontando ao Trovadorismo Português, onde a literatura era, antes de escrita, cantada.

Ao passar dos anos, e com todo o processo de miscigenação, surgiram grupos distintos, entre eles os caboclos, concentrados nas regiões Centro-oeste, Sudeste e Sul, generalizando o que se convencionou chamar de caipira, uma denominação tipicamente paulista. Contrariando muitos filólogos, Silveira Bueno defende que o vocábulo caipira é o resultado da contração das palavras tupis caa (mato) e pir (que corta), vindo a resultar em “cortador de mato”, o que evidencia várias formas de gêneros musicais oriundos do campo, onde famílias, nas festas de São Pedro, acendiam fogueiras, soltavam rojões, disparavam morteiros, tudo ao som de acordeão, viola e um instrumento que viria a ser o nosso cavaquinho.

A literatura, por sua vez, começa a mencionar em suas obras danças como o recortado (derivado do cateretê), o fandango e a toada, dando ainda mais força à música rural, criativa, evolutiva, diversificada, contrapondo-se aos modismos musicais das capitais, sempre importados do exterior, principalmente da Europa.

COMO A LITERATURA CONTRIBUIU E CONTRIBUI PARA O SURGIMENTO E RIQUEZA DA MÚSICA E SEUS VIOLEIROS

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Podemos dizer que a literatura é uma das fortes responsáveis para a valorização da música raiz, tradicionalmente chamada de música caipira. Infelizmente, nem sempre essa concepção foi verdadeira, tamanha a desvalorização do “caipira” em nossa sociedade.

Para Câmara Cascudo, caipira é o “homem ou mulher que não mora na povoação, que não tem instrução ou tratado social, que não sabe vestir-se ou apresentar-se em público”…

Assim também posicionou-se Monteiro Lobato, ao criar o seu famoso personagem Jeca Tatu, a princípio chamado de vagabundo e indolente. Só mais tarde, o autor toma consciência da realidade daquela população subnutrida, socialmente marginalizada, sem acesso à cultura, acometida de toda a sorte de doenças endêmicas. Jeca Tatu é, assim, símbolo do atraso e da miséria do caboclo brasileiro, o que aumentou de forma estereotipada o preconceito especificamente em relação ao caipira. Mostra disso que, até hoje, nas festas juninas, o “caipira” sempre é identificado usando roupas rasgadas, remendadas, dentes podres e falando “errado”, ou seja, uma imagem totalmente pejorativa da cultura rica que, na verdade, ele representa.

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Mas que cultura seria essa?

Talvez a melhor delas seja a cultura da denúncia, do exemplo, que faz com que o sertão seja percebido pelas pessoas. E se isso acontece, a música caipira deve ser desmistificada de algo inferior ou medíocre – assim como a literatura de Euclides da Cunha ao escrever Os Sertões, Graciliano Ramos ao defender o Regionalismo em suas obras, como São Bernardo e Vidas Secas – mas, ao contrário, ser elevada ao patamar da linguagem mais autêntica e crua, sem aforismos midiáticos e superficiais.

Quanto à sonoridade, a música caipira se aproxima dos cantos da literatura oral; e no que se refere à temática, ao imaginário e às tendências românticas e realistas da literatura nacional.

Dessa forma, o homem e a mulher do interior, com suas tradições, representam manifestações da cultura e de uma identidade pessoal e peculiar, fazendo com que as raízes de um povo e de uma história não sejam esquecidas.

A partir do momento que essa história é valorizada, ela é ao mesmo tempo protegida e preservada com seus cantos e violas, tendo na música e nas palavras sua forma de perpetuação.

E nada melhor que as canções caipiras, que indicam a voz da gente simples representando, pelas letras e melodias, nossas angústias, discursos reprimidos, princípios morais, e outros sentimentos íntimos que traduzem a história de cada um, ou seja, nossas próprias raízes…

Achou interessante?

Para entendermos melhor este universo, vamos conhecer um representante deste gênero musical em sua história pessoal.

Assim, veja abaixo uma belíssima entrevista com Ilton Mourão, um nome da música raiz, de Belo Horizonte, que acabou de ser condecorado como um dos destaques de 2016. Vale à pena conhecer sua história e ouvir suas canções! Não há nada melhor do que saber sobre a relação música/literatura através de quem as vive intensamente em seu dia a dia.

Mas, antes, conheça mais uma de suas pérolas musicais neste delicioso vídeo de imagens e poesia! Oh, Minas Gerais…

Árvore das Letras:   Quem é Ilton Mourão?

Ilton Mourão:   Sou mineiro da cidade de Peçanha, Vale do Rio Doce. Sou o oitavo em uma família de 12 filhos. Passei a minha infância em Peçanha, mas fui para um seminário interno em 1980, aos doze anos, onde permaneci até aos 17. Voltei para Peçanha em 1985 e terminei o segundo grau no colégio Doutor Antônio da Cunha. Vim para Belo Horizonte em 1988, já trabalhando com música, dando aulas de violão, tocando em vários bares e outros eventos. Fui levado a fazer o curso de filosofia na Faculdade Jesuíta, onde me formei em 2007. Uma das melhores épocas da minha vida…

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AL:   O que é a música para você?

IM:   A música é o meu resgate. Sou muito tímido. Consegui me superar com a música. Tudo que fiz até hoje tem a música como referência. As mais variadas situações pelas quais passei sempre me remeteram à música. Houve caso de colegas de escola que me viram em um show e se assustaram porque eu quase nem falava na escola… Quando me viram em um palco não conseguiram entender como eu podia fazer aquilo. Eu só consegui superar a minha timidez pela música. Isso é só um exemplo do que a música faz comigo…

AL:   Você é um músico apaixonado pelo que faz. Olhando para você, percebe-se um estilo forte da música raiz. Foi ela o seu primeiro contato musical?

IM:   Sim, a música raiz foi o meu primeiro contato musical. Uma das melhores lembranças que tenho da infância é uma cena da minha mãe colocando roupa para secar na cerca de arame do terreiro e cantando… “Sertaneja, se eu pudesse, se papai do céu me desse o espaço pra voar…”. Havia algumas rádios que marcaram muito: Inconfidência Am, Radio Aparecida e outras. Meu pai fazia parte da diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e ouvia todos os domingos o programa da Fetaemg – um programa voltado para o homem do campo. Aí, só dava música boa. Programas como Zé Bettio, Delmário. Foi quem nos entretiveram e acalentaram esse gosto pela música raiz.

AL:   Quem são os seus músicos de referência?

IM:   Eu ouvia os famosos pelo rádio, mas minhas principais referências são três vizinhos que adoravam cantar e tocar. Meus irmãos e eu, quando recebíamos alguma incumbência de nossos pais, éramos constantemente arrebatados pelas músicas que vinham da casa deles. Eram o ‘Véio’ (Ari), Zezé (José Monteiro) e Zé ‘Quem Dera’ (cunhado do Ari). Quando assustávamos, o tempo tinha ido embora e, às vezes, nem lembrávamos exatamente qual era a incumbência. Minhas primeiras referências de músicos foram esses três e alguns outros que faziam alguma participação nas cantorias que faziam na casa deles, inclusive os meus irmãos começaram a aprender com eles. Havia outros músicos ótimos na cidade, mas eu saí muito cedo e tive pouco contato. Uma pessoa que me marcou muito foi uma senhora muito linda tocando piano em uma solenidade na Escola Doutor Antônio da Cunha, onde eu fazia o primário. Depois, descobri que se tratava da Dona Vanda Rocha. Fiquei maravilhado.  Até então, eu não sabia que o meu pai tocava violão. Minha irmã mais velha começou a trabalhar como professora. Logo comprou uma radiola e alguns Lps: Amado Batista, Roberto Leal, Paulo de Paula, Negro Gato… Aprendi a tocar algumas músicas desses Lps e outras que ouvia meus irmãos e os vizinhos cantarem. No tempo de seminário não tinha muito tempo para aprender músicas novas, mas mesmo assim, através de fitas cassetes que novos seminaristas levavam, fui descobrindo outros músicos.Voltando do seminário pra Peçanha, meus irmãos já tinham avançado bem com a música e tive que correr para lcança-los. Assim, tínhamos repertório sempre igual porque tudo que um aprendia o outro corria e aprendia também. Mas chegou um momento que começamos a ser despertados para outros horizontes e tomamos rumos diferentes… Voltando, então, do seminário, fui somando outras referências. Para citar algumas: É uma salada de referências… Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho, Sergio Reis, Roberto Carlos, Fernando Mendes, Zé Ramalho, Zé Geraldo, Alceu Valença, Fagner, Chitãozinho e Xororó, Almir Sater, Renato Teixeira… Graças a Deus, são muitas e muito boas. Atualmente, tenho me dedicado muito mais à viola. Nesse caso, a minha referência hoje se afunilou. Confiro nossos grandes violeiros aqui de Minas que, graças a Deus, são muitos e o estilo inconfundível de Almir Sater. Sempre dando uma conferida em muitos meninos muito feras na viola que tem surgido…

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AL:   A partir do momento que você descobriu a música, como se deu a sua trajetória até se tornar um músico profissional?

IM:   Eu ouvia constantemente os vizinhos e gostava, mas o que me chamou mais a atenção para o violão foi quando descobri que o meu pai tocava violão. Foi um grande incentivo. Entretanto, foi a insistência do meu irmão Chico que me fez começar aprender violão mais ou menos em 1978, não me lembro exatamente. Ele que me iniciou no aprendizado do violão… Eu não tinha pretensão de ser profissional da música, talvez mesmo por causa da timidez. Após a volta do seminário, estudei dois anos em Peçanha. Nesse tempo conheci uma pessoa que trabalhava com eletrônica e coisas afins: o Beto Led. Ele resolveu montar uma banda e cismou que eu teria que participar. Eu usei todos os recursos possíveis para recusar e ele sempre dava um jeito. Eu não tinha guitarra e ele conseguiu uma. Quando me vi apertado por isso, me armei dos meus melhores argumentos para tirar isso da cabeça dele e fui conversar com ele. Argumentei com todas as minhas forças que eu não tinha como participar; não conhecia as músicas. O Beto combinou com o Humberto Caldeira, que tinha uma boate, e gravou todas as músicas pra mim. Eu me senti um pouco mais apertado, mas eu não tinha toca fitas e esse era um trunfo para reafirmar que não poderia participar. Eu havia me esquecido que o Beto trabalhava com eletrônica. Ele montou um toca fita de carros, acoplou a um móvel de madeira com alto falantes e levou lá pra minha casa… Aí, sucumbiram todas as minhas tentativas de fuga. Comecei a tocar com eles em Peçanha e região. Com o tempo, fomos juntando os irmãos e fizemos alguns shows. Com a vinda para Belo Horizonte, conheci novos músicos, casas diferentes, aprendi outros estilos musicais e a aprovação das pessoas me levou a assumir a música como profissão. Por causa de alguns problemas, eu fiquei um bom tempo sem tocar e cantar; permaneci apenas com aulas de violão. Inclusive, foi uma das coisas que me animaram a fazer o curso de filosofia (a minha ideia era dar aulas) até o dia 06 de maio de 2007 quando ouvi o Breno Barreto tentando aprender o solo da música Caminheiro na viola e ela me conquistou de vez. Aí começou tudo outra. Era preciso…

AL: Como você, que se formou em contato com grandes músicos, compositores, intérpretes, vê a música na atualidade, principalmente para os jovens?

IM:   Penso que antigamente a informação demorava bem mais para chegar até nós. Assim, muitas coisas não interferiam tanto em nosso cotidiano porque quando chegavam, já tinham perdido um pouco do seu efeito. Assim, era muito comum pessoas com estilos de músicas muito bem definidos e, às vezes havia tanta intransigência que quase se chegava às vias de fato por causa de gosto musical. A cultura de determinados grupos normalmente era difundida dentro do próprio grupo e, só quem tinha acesso a algum desses grupos, assimilava a sua cultura. Hoje a informação anda a uma velocidade estonteante. Assim, uma determinada coisa de um grupo alcança outros grupos muito rapidamente. Assim, tenho visto choques de pessoas que não tinham acesso a culturas diferentes e mesmo choque de pessoas que tentam impor sua cultura a qualquer custo. Para mim, esse é o problema hoje. Há pessoas que cresceram ouvindo músicas que remetiam a determinados aspectos do seu cotidiano e, para eles, é muito normal tudo que acontece nessas músicas: melodia, letra, arranjos… Mas, para quem nunca teve contato com essa realidade, pode parecer absurdo. Eu vejo estilos de músicas que agradam a muitos por algum detalhe e desagradam a muitos outros pelo mesmo detalhe. Eu penso que o problema é que a média é que define o que é ‘bom’. Assim, causa esse tipo de problema porque quando pegam um determinado estilo, bombardeiam esse estilo à exaustão. Eu penso que todos têm direito de se manifestar. A questão é que eu não deveria ser obrigado a engolir qualquer coisa que alguém define como bom. Há modos diferentes de fazer música e cada um com o seu papel e sua intenção: Mpb, com todas as variações, Sertanejo raiz, Axé, sertanejo universitário, Funk, etc. Assim, como uma pessoa que gosta de Axé, por exemplo, não deveria ser forçado a ouvir João Gilberto, quem não gosta de Axé não deveria ser forçado a ouvir Axé. Há músicos ótimos no Axé, principalmente os antigos, mas penso que isso não é motivo de saturar o ouvido de todos. Assim se dá com todos os outros estilos. Hoje ficou mais fácil fazer música. A internet dá a todos a possibilidade da divulgação. Quem quer aprender consegue muito mais fácil hoje com os inúmeros sites e programas para isso. A questão é a cultura de quem faz e de quem recebe. Se alguém faz uma obra de arte e quem tem cultura não valoriza, ele não vai em frente. Se alguém faz qualquer porcaria e é apoiado por quem tem o seu mesmo gosto, vai adiante. O que está sendo tocado hoje encontrou pessoas que aderiram a esse estilo; por isso o sucesso. Eu, como um bom amante da música raiz, só espero, sinceramente, que o espaço adquirido por uns não elimine o espaço que essa música raiz sempre teve. Por isso a minha dedicação e de muitos outros para ampliar esse espaço. Uma coisa eu acredito: a música sempre se supera…

AL:   Você poderia apontar uma característica fundamental no seu trabalho que constitua a sua identidade?

IM:   Eu nunca fui um virtuose com o violão, assim como não chego nem perto disso com a viola. Simplesmente, eu sempre cantei e me acompanhei com violão. Depois que descobri a viola, passei a cantar e me acompanhar com a viola. Assim, transferi muitas músicas que eu cantava e tocava violão para a viola. Isso tem sido a principal característica, tocar estilos variados, como o fazem outros. Uma vez participei do programa Viola Brasil do meu amigo Chico Lobo e ele falou uma coisa muito bacana do meu trabalho; mais ou menos assim: “O bacana desse trabalho é que vocês cantam a nossa música raiz passeando com a viola pela Mpb”. Isso tem caracterizado o meu trabalho.

AL:  Você teve uma experiência com o teatro, mais especificamente um espetáculo em que você transitava entre o músico e o contador de histórias, ou seja, entre a música e o texto. Conte como se deu a interação entre esses dois universos.

IM:   Esse foi um espetáculo do grupo ContaeenCanta do qual eu participo, dirigido pelo nosso amigo Alan Najara. O espetáculo se chamou “Que trem danado”.  O Alan acabou achando um jeito de trabalhar duas coisas, que foram sempre muito importantes para mim desde a infância: A música e o texto. Eu ganhei um prêmio no primeiro ano primário por ter lido muito bem um livro do Monteiro Lobato. Eu o devorei várias vezes (risos)… E devorava tudo que pudesse ser lido. Sempre amei ler. Ao mesmo tempo que aprendia a tocar violão, meu pai assinou uma minienciclopédia chamada Nosso Amiguinho. Eu comecei a ter contato com mitologia grega, romana e outros assuntos variados. Eu a devorava várias vezes até chegar a próxima. Era uma revista mensal. Acontecia algo muito interessante, pois a minha linguagem sempre foi a musical, mas as informações que estavam guardadas pelas inúmeras leituras feitas se aliaram nessa hora e eu me surpreendi e surpreendi os meus amigos do grupo me saindo muito bem. O texto esclareceu a música e a música harmonizou a melodia e ritmo do texto…

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AL:   No que essa experiência foi fundamental para o seu trabalho hoje?

IM:   Quando fui convidado para participar do grupo ContaeenCanta eu relutei porque nunca tinha participado de contação de histórias e não tinha jeito pra isso. O grupo é muito bom e Alan foi tão competente ao nos dirigir que conseguiu tirar leite de pedra. Ele foi dando sugestões, como se não fossem interessantes, ao mesmo tempo que fazia de conta que queria que eu atrapalhasse o grupo. Quando todos nós descobrimos, era tudo plano dele e estávamos ensaiando o roteiro que ele havia preparado. No meu caso, ele descobriu a maneira como eu poderia aprender, me fez trilhar por esse caminho e me ajudou a trabalhar o meu show com muito mais profundidade e, ao mesmo tempo, com mais leveza. Inclusive, a primeira música que compus foi para esse espetáculo, à qual eu dei o nome de “Com você eu topo”.

(Escute a música acima)

AL:   Como você percebe a relação música/literatura, palavra/ritmo e como você a utiliza em seus shows?

IM:   Como eu disse há pouco, pelo menos no meu caso, o texto esclarece a música e a música harmoniza a melodia e ritmo do texto. As duas coisas caminham juntas. Há músicas bonitas que chamam a atenção pela melodia, harmonia e ritmo e a letra é legal, mas há músicas que têm essas três características específicas da música e têm uma métrica tão perfeita que chama atenção mesmo de pessoas que não têm um ouvido tão apurado, mas têm a percepção do texto como um ser vivo que pode se juntar a outro e formar outra vida, ou simplesmente ser vida sozinho. Palavra/ritmo – tudo em nossa vida depende do tempo. Qualquer coisa que vamos fazer depende disso. Se eu começar isso vou conseguir terminar a tempo? Se eu tentar atravessar a rua agora, vou chegar ao outro lado antes que o carro, que está vindo a alguns metros, chegue? Se eu colocar feijão para cozinhar agora, em alguns minutos ele estará cozido? Se eu não tomar a providência corretava, vai dar problema? Assim por diante. Se conferirmos a literatura, veremos que filósofos utilizaram Logos de maneiras diversas (Todas as coisas acontecem de acordo com o Logos; seria Logos argumento da razão; Princípio gerador do universo; etc.)… A Eliza (Elisa Augusta de Andrade Farina – Presidente da Academia de Letras de Teófilo Otoni. Veja entrevista neste blo) pode nos ajudar mais quanto a isso. (risos…). Mas uma das traduções de Logos é esse nosso termo palavra. Por isso, o poder que tem a palavra; Quando alguém é preso, o policial lhe diz: “Você tem direito de ficar calado; tudo o que disser pode ser usado contra você no tribunal…” Palavras ditas com determinado ritmo e entonação dizem uma coisa; se mudarmos o ritmo ou a entonação, pode mudar radicalmente o sentido. Assim, palavra e ritmo podem dizer e fazer coisas do arco da velha… A mesma palavra que em um show com determinado público leva pessoas a se envolverem com a música e com o músico, em outro show pode levar a outro entendimento totalmente diferente, e o músico até ser odiado por isso.

AL:   Você, que hoje é um artista experimentado, vivido, sabedor dos prazeres, mas também dos suores necessários para se manter firme no caminho, o que diria aos jovens músicos que viessem lhe pedir um conselho?

IM:   Eu digo sempre que essa é uma vida muito árdua, mas fantástica. Há coisas que nos acontecem nesse percurso que não têm preço. A necessidade é tentar se preparar para perceber essas situações que podem valer o tempo dedicado, os sapos engolidos. Inclusive uma coisa que eu sempre falei foi a importância de andar sempre com um frasco de azeite, porque engolir sapo seco pode ser complicado. Daí, um pouco de azeite ajuda. (risos…). Eu pauto a minha vida mais pelo prazer de ver pessoas envolvidas com a música, revivendo momentos especiais, pessoas transformadas pela música, ou seja, pra mim, o mais importante da música é o fato de eu poder fazer bem a mim e às pessoas, fazendo algo que amo fazer. O dinheiro será consequência disso. Por isso, eu vejo como imprescindível a presença de alguém que conheça e goste do trabalho do músico, mas consiga pensar o lado prático e empresarial disso.

AL:   Fale do seu atual trabalho.

IM:   A partir de 2007 eu me dediquei à viola e o meu show passou a tê-la constantemente como base. Fiz shows com uma grande banda: viola, violão, baixo, bateria, acordeão e flauta; fiz com viola, baixo e bateria; Viola e violão, muitas vezes viola e voz…

Agora estou repaginando o show e vou relançá-lo dia 07 de abril, às vinte horas no Teatro Valourec, antigo cine Brasil. Esse show será uma simples homenagem aos artistas do Vale do Rio Doce. Assim, haverá três participações de músicos do Vale do Rio Doce e, além dos clássicos da música raiz, eu cantarei nove canções de músicos desse Vale, inclusive uma música que o meu pai compôs para a minha mãe aos 55 anos de casados, à qual ele chamou “A minha rainha do lar”. Enquanto isso, quem quiser cantar umas modas comigo, me encontra todas as quintas a partir das 20 horas, no Vila Serrana Steak House, na Av. Henfil, 560, bairro Serrano, em Belo Horizonte.

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E então, gostou de conhecer o cantor, compositor e violeiro Ilton Mourão? 

Então comente, compartilhe essa entrevista e ajude a divulgar os seus shows, a sua história, as suas ideias.

E abra seu coração e seus ouvidos para a música raiz, pois, como vimos, ela é parte de nossa vida e de nossa existência cantada em versos e histórias por esse Brasil afora…

Obrigado, Ilton! Vamos juntos…

 

 

[ENTREVISTA] A VITÓRIA DA VONTADE DE ELISA AUGUSTA DE ANDRADE FARINA: A ESCRITORA E SEU TEMPO

Por Leandro Bertoldo Silva

“Você já foi à Bahia, nêga? Não? Então vá!”

Assim perguntou Dorival Caymmi, inspirando, posteriormente, Lenine em sua emblemática canção Lá e Cá. E é parafraseando esses dois ícones da música popular brasileira que eu inicio este artigo-entrevista, perguntando:

Você conhece Elisa Augusta de Andrade Farina? Não? Então conheça…

Elisa Augusta… A menina da Fazenda Tabatinga, em Teófilo Otoni, Minas Gerais, que aprendeu a magia de juntar palavras e sonhava em ser ouvida…

A mulher que tem na escrita o seu oxigênio e alimento…

A escritora que aprendeu com Clarice, Cecília, Adélia, Rachel, a essência de ser mulher das letras e dar voz à luta compartilhada e nunca dissociada de gêneros…

A menina, mulher, escritora que é hoje a Presidente da Academia de Letras da cidade onde nasceu, mostrando que os sonhos é o caminho da construção…

Foi sobre essas vertentes e verdades, entre poesias e memórias, lembranças e sonhos – sempre filtrados por um profundo senso de carinho nas palavras e no trato com elas – que Elisa Augusta de Andrade Farina nos falou nesta entrevista à Árvore das Letras.

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Árvore das Letras:   Quem é Elisa Augusta de Andrade Farina?

Elisa Augusta de Andrade Farina:   Nasci em Teófilo Otoni. Sou a quarta filha de dez irmãos. Tive uma infância feliz e cheia de peripécias, a maior parte dela vivida no campo, entre brincadeira e muito exemplo de trabalho e disciplina. Até os sete anos, morei na Fazenda Tabatinga, lá pras bandas de Valão. Depois mudei para Teófilo Otoni onde fui alfabetizada aos 8 anos no Grupo Escolar Teófilo Otoni. Sempre estudei em escola pública, do ginásio ao clássico, no Colégio Estadual Alfredo Sá. Prestei vestibular na UFMG, graduando-me em Filosofia. Morei em Belo Horizonte até 1999, retornando a Teófilo Otoni até os dias de hoje.

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AL:   Você sempre teve inclinação para a escrita? Fale um pouco da sua trajetória até chegar à presidência da Academia de Letras de Teófilo Otoni.

EAAF:   A maior conquista da minha vida foi quando consegui juntar sílabas e formar palavras. Foi mágico e essa magia se arrasta até hoje. Sinto um prazer incrível em produzir conhecimento, seja através dos meus escritos ou histórias que eu conto. A minha trajetória cultural não foi fácil… Tudo que conquistei foi com muito empenho e esforço. Sempre acreditei que um dia eu seria ouvida, que as minhas ideologias seriam respeitadas e serviriam de influência para aqueles que gostam das palavras. Ser membra da Academia de Letras de Teófilo Otoni foi a realização de um sonho que sempre acalentei, e acreditava bem distante da minha realidade. Quando surgiu a oportunidade de criar uma Academia de Letras, trabalhei arduamente, juntamente com alguns companheiros de sonho para a sua concretização. Sou membra fundadora da ALTO. O amor, compromisso e dedicação foram as molas propulsoras para a minha conquista à presidência dessa ilibada Instituição Cultural. Como bem disse Clarice Lispector: “Ainda bem que sempre existe outro dia. E outros sonhos. E outras pessoas. E outras coisas.”

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AL:   Para você, qual a responsabilidade do escritor diante da realidade presente do país? O que a preocupa?

EAAF:   Como disse anteriormente, nós escritores fomentamos ideologias, que podem ser acatadas ou refutadas de acordo com o interesse daqueles que estão sendo formados. O Brasil de hoje é muito complicado de se analisar sobre o ponto de vista do conhecimento ideológico, social e político. O nosso papel como formadores de opinião é de suma importância. Podemos escolher o que semear, mas somos obrigados a colher aquilo que plantamos. Temos que ter a consciência de que não podemos perder o foco dos valores que servem para humanizar uma sociedade narcísica e consumista.

AL:   Essa atitude de falar sobre questões do seu tempo, remonta ao Romantismo. Castro Alves fazia isso ao proclamar a respeito da liberdade dos escravos, o que demonstra uma participação social muito grande do escritor. Você acha que o escritor de hoje está omisso?

EAAF:   O tempo vivenciado acarreta consigo implicações na vida intelectual de um povo. A vida transforma as palavras e as palavras transformam o mundo. E no centro dessas transformações estão os escritores, esses artífices da linguagem que, em acaloradas discussões, descobrem identidades e diferenças, unem-se em grupos e criam então os chamados movimentos literários. Dessa forma, sempre estão atuando, não importa se no passado ou na atualidade sempre encontram uma maneira de se expressarem disseminando, assim, as mais diversas formas de expressão e ações conscientes.

AL:   Historicamente, o número de escritores sempre foi maior do que o número de escritoras, embora todas as pesquisas mostram que o número de leitoras é muito maior que o número de leitores. Como você enxerga a linguagem feminina na literatura brasileira hoje?

EAAF:   Em uma sociedade machista, a mulher sempre terá que lutar para conseguir alcançar a sua meta, não importando em que área atue. Na literatura não foi diferente. Somente no século XX que o povo viu surgir as grandes escritoras. Graças a elas, muitas mulheres hoje podem escrever seus veros, seus sonhos e seus livros sem serem julgadas injustamente. As estatísticas comprovam que existem mais leitoras que leitores e a única explicação plausível é o fato de a mulher estar mais propensa a mudar seu estilo de vida e estar mais aberta para ideias novas.

AL:   No seu livro ANTES DE TUDO, MULHER, você diz que “ser mulher é, antes de tudo, uma visão que envolve todas numa luta tão própria do sexo feminino”. Que luta é essa? É possível mensurá-la?

EAAF:   Esse livro nasceu da minha experiência ideológica de enfrentamento ante a posição de inferioridade intelectual da mulher e sua luta de coibir essa defasagem. Mostro, de forma poética, que essa luta pode ser compartilhada sem distinção de gênero através do amor, companheirismo e, acima de tudo, do respeito.

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AL:   Você também escreveu o livro infantil REINO FELIZ. Como foi a experiência de escrever para criança? O que a motivou?

EAAF:   Sempre sonhei com um mundo melhor e priorizei a imaginação como forma de minimizar o sofrimento e a injustiça. Por que não caminhar pelas veredas da magia e da criatividade como forma de educação e do resgate literário? Foi gratificante a minha experiência porque “podemos escolher o que semear, mas somos obrigados a colher aquilo que plantamos”, e o produto que colhi foi edificante e me move a investir na área literária infantil.

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AL:   Escrever é algo diferente para cada escritor/escritora. Para alguns, curiosamente, é árduo, insano, torturante; para outros é altamente prazeroso. Para você, como é? Por que você escreve?

EAAF:   Sempre amei escrever, faz parte do meu dia a dia. Através das letras, vou construindo um mundo mais justo, com mais ética e humanidade. Sinto a vida, vejo as pessoas e as formas… A magia se instaura e o amor explode de todas as formas detalhando toda a diferença. Escrever é o meu oxigênio, meu alimento, minha força, meu refúgio…

AL:   A tecnologia ajudou muito o surgimento de novos escritores e escritoras. Muitos jovens estão indo por esse caminho, o que é bom, porque nunca se escreveu tanto como agora. Um dos caminhos utilizados por eles são aplicativos e redes sociais, como o wattpad, onde o usuário pode publicar histórias, contos, romances e poemas online. Porém, curiosamente, o número de escritores cresce proporcionalmente ao número de não leitores, ou seja, estamos vivendo uma geração de contrastes, onde quem deveria ler cada vez mais para escrever, está lendo cada vez menos. Especialistas chegaram a dizer que se as pessoas lessem apenas um terço do que deveriam para escrever, estaria resolvido o problema do mercado editorial brasileiro. O que você tem a dizer sobre isso? Você também acha que para escrever bem é preciso ser um bom leitor, ou uma coisa não tem nada a ver com a outra?

EAAF:   A tecnologia é uma realidade irrefutável. Temos que ter em mente de que ela nos favorece se usada corretamente. Estamos num mundo mediático, vivemos uma relação de aldeia global. Tudo é exposto, natural… Mas para escrever dentro dos preceitos gramaticais e cultos temos que ler os clássicos, até mesmo como forma de analisar a época que foi vivenciada e sua influência na ideologia expressada. Não quero dizer que temos que abandonar as formas literárias populares como a de cordel, contações de histórias, quadrinhos. O respeito por essas formas literárias tão prazerosas e ricas de conteúdos é fundamental num país como o nosso tão diversificado e multifacetado.

AL:   Mia Couto, um escritor moçambicano, diz que os escritores nascem de outros escritores. Isso nos leva a crer em pais escritores e mães escritoras. Quem são os seus pais literários?

EAAF:   Eu tive uma formação acadêmica clássica. Bebi, em várias fontes, as águas do conhecimento. É claro que sofri influência literária de Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Adélia Prado, Cora Coralina, Cecília Meireles, dentre outras. Emergi-me nos seus ditos, absorvi os seus versos numa troca de mulher para mulher. A minha vida literária sofreu influências diversas: dos filósofos que tive que estudar e entender, perpassando por todas as Escolas Literárias até os dias atuais. Cada autor que lia era uma paixão que se tornava amor e me levava a produzir e a sonhar no mergulho da imaginação.

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AL:   Num mundo tão degradado por consumismos desenfreados, qual seria a importância, ou a função, ou o sentido da literatura, da poesia, da narrativa?

EAAF:   A sua função primordial seria de humanização. Estamos em um mundo de consumo exacerbado, em que o ser humano se coisificou. Precisamos da poesia como forma de minimizar essa triste realidade que é expressa a todo o momento, daquilo que vemos, sentimos e nunca vamos entender.

AL:   Vivemos num tempo em que parece que as pessoas buscam o tempo todo a perfeição: o corpo perfeito, o trabalho perfeito, a casa perfeita… Como você lida com o erro?

EAAF:   Apesar da sensibilidade humana de oposição ao erro e ao mal, na verdade não podemos dizer que o homem se incline naturalmente a assumir uma posição de luta contra os erros. A luta pela verdade deve ser positiva. E deve ser verdadeira, isto é, inteligente. A inteligência é a faculdade de aprender o real. O real é concreto, é singular. Devemos, portanto, realizar o esforço de apreender e circunscrever o caso particular. Se existem erros, na ordem prática é necessário cuidar dos que erram. E quem somos nós, em nossas deficiências, para pontuar erros e mais erros? Se os mesmos sempre foram relativizados? E a perfeição é uma questão de visão? E se estivermos míopes? Eis a questão…

AL:   O que é memória para você e quais são as suas memórias?

EAAF:   Em consonância com o dicionário Aurélio, memória é a faculdade de reter as ideias, impressões e conhecimentos adquiridos. Um povo sem memória não constrói sua história. A mesma é uma prática social, construída na vida real por homens e mulheres. As minhas memórias são constituídas por reminiscências alegres ou tristes que fizeram e fazem parte da minha vida. São tantas as minhas memórias que estou estruturando-as e em breve serão apresentadas num livro que será lançado este ano, aguardem…

AL:   Do que você tem saudade?

EAAF:   Tenho saudade dos tempos idos da minha vida, dos momentos que se perderam, quer por fragilidade ou desconhecimento de fazer uma leitura de que a felicidade preenchia todas as lacunas que eu pensava estarem vazias… Tenho saudade do aconchego de colo de mãe, do amor que, como chama, queimava dando-me forças para buscar o desconhecido… Ah, são tantas… Se fosse enumerá-las dariam páginas e páginas perdidas no tempo…

AL:   Nesse mundo de hoje, você acha que ainda há lugar para os sonhos?

EAAF:   Sim. Sem os sonhos não construímos. Se pararmos de sonhar nos perdemos em nós mesmos.

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Gostou de conhecer a escritora Elisa Augusta de Andrade Farina? Então comente, compartilhe essa entrevista e ajude a divulgar os seus livros, a sua história, as suas ideias. Principalmente você, professora, diretora de escola, coordenadora pedagógica, construa uma relação de proximidade entre escritores contemporâneos e seus alunos, dê a eles a oportunidade do encontro. Como muito bem disse Elisa: “A magia se instaura e o amor explode de todas as formas detalhando toda a diferença..”

Leve um escritor, uma escritora em sua sala de aula e verá essa magia acontecer…

Obrigado, Elisa!