LINHA DIRETA COM O FANTASMA DE AARÃO REIS – UMA EXPERIMENTAÇÃO LITERÁRIA

Por Leandro Bertoldo Silva

Bem, antes de mais nada…

Agradeço a sua atenção de estar aqui! Já há algum tempo, venho realizando um trabalho que se chama Folhetim Literário, em que envio para as pessoas, por email, contos e crônicas dos nossos escritores nacionais, tanto clássicos quanto contemporâneos, como Machado de Assis, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Graciliano Ramos, Fernando Sabino, Luís Fernando Veríssimo e muitos outros…  Não vou esconder: esperava que o resultado fosse realmente bacana como está sendo, pois acredito que quem tem o gosto pelas letras, adoraria receber estes pequenos textos do melhor da nossa literatura, fazendo o seu próprio tempo de leitura.

Talvez você já conheça os folhetins e saiba do que estou falando. Se sim, ótimo e muito obrigado pela adesão; se ainda não e gostaria de recebê-los, é só clicar e cadastrar o seu email.

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CLIQUE AQUI para receber!

O que digo, é que está tão legal, que me ocorreu uma ideia como escritor independente que sou: Quero usar dos folhetins, hoje, como eram usados no século passado…

Bem, antes de mais nada, não estou aqui vendendo o folhetim, ele é gratuito e sempre será. Não quero usar este canal como “gatilhos mentais”, como dizem os profissionais de marketing, com o claro propósito de “dar” algo aqui para “vender” ali. Não mesmo! Mas como escritor, sim, eu quero ser lido, claro!

Assim, estou planejando um novo projeto de livro. Para mim é um projeto ousado, mas como diz José Eduardo Agualusa, “os melhores livros são aqueles que achamos que não daremos conta de escrever…” Então, vamos lá! Mas antes de apresentar o projeto, deixe-me apresentar a ideia.

LINHA DIRETA

A ideia é simples, assim como os folhetins. Iniciarei a escrita desse livro que se chamará:

HISTÓRIAS DE UM CERTO AARÃO E OUTROS CASOS CONTADOS: DAS HISTÓRIAS E LENDAS DE BELO HORIZONTE RECONTADAS POR UM SEGURANÇA QUE RECEBIA, EM SEU SERVIÇO, A VISITA ILUSTRE DO FANTASMA DE AARÃO REIS”.

Bem, essa História já foi iniciada há alguns anos, mas devido ao trabalho e outros projetos prioritários, eu a deixei descansando logo que a criei. Mas acho que é o momento de acordá-la de um modo diferente, e é aí que você entra…

A minha ideia, então, é escrevê-la em capítulos (ou parte deles) e, à medida que for escrevendo, ir enviando diretamente para as pessoas que queiram lê-la, como e no formato dos folhetins. A diferença é que é uma história “em criação”, que irá se desenvolvendo a partir dos comentários que, porventura, for recebendo (e eu adoraria receber), opiniões e até sugestões. Seria, assim, uma espécie de “novela”, em que os personagens podem ter destinos até então completamente desconhecidos por mim mesmo…

Gostaria muito (MAS GOSTARIA MESMO) de saber se você toparia essa ideia de ir recebendo e acompanhando uma história de um escritor , tendo a oportunidade de estar diretamente com o seu leitor, numa espécie de wattpad pessoal, mas com pessoas maduras e direcionadas.

E então, você topa?

Pergunto, pois poderia simplesmente enviar o email para você, sem você sequer saber do que se trata, encher a sua caixa (e a sua paciência) e me iludir achando que você está lendo. Não é isso que desejo. Desejo que você leia, claro, mas realmente querendo ler.

Então, se você achou interessante e topar me ajudar, por favor, envie-me um email para que eu inclua o seu nome na lista dos que receberão as histórias do fantasma de Aarão Reis. Meu email é:

leandrobrsilva@hotmail.com

SE PREFERIR, VOCÊ PODE SE CADASTRAR DIRETAMENTE CLICANDO NO LINK ABAIXO:
HTTP://EEPURL.COM/COF1EL

Ah, um detalhe importantíssimo!

Não quero me comprometer em enviar toda semana, assim como ocorre com os contos e crônicas que são enviados no Folhetim Literário toda sexta-feira (e irão continuar, sempre). O ritmo da minha escrita vai depender do meu tempo e, claro, das respostas que for recebendo.

Bem, dito isso, vamos à proposta da história. Espero que ache interessante e aceite meu convite. Para mim, como escritor, é muito importante.

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Nessa obra há o deslocamento do foco de interesse da escrita. Não se trata diretamente da biografia real de Aarão Reis, mas da forma como ele enxerga as circunstâncias em que vive após a sua morte. Em vez de trabalhar os espaços externos e sociais do personagem, investe na caracterização ficcional do mesmo a partir do momento em que Aarão Reis, agora um fantasma, conta suas histórias para Xavier de Novais — o segurança de uma livraria —, em nosso século, que é o personagem-narrador do livro.

                AARO_R-1Aarão Reis carrega, sim, a estigma de grande homem importante que foi em vida (Engenheiro que arquitetou a chamada Nova Capital, hoje a cidade de Belo Horizonte, em Minas Gerais), mas o que importa para ele é a sua existência após a morte e a liberdade de fazer o que mais gosta: contar histórias.

                A estrutura de “Histórias de um certo Aarão e outros casos contados” tem uma lógica narrativa inovadora. A sequência do livro não é determinada pela cronologia dos fatos que o envolvem, mas pelo encadeamento das histórias de Aarão Reis recontadas pelo segurança da livraria. Uma história puxa a outra e, entre elas, de forma paralela, a nova existência de Aarão Reis vai sendo revelada ao leitor – pura ficção.

Organizado em contos, a obra flui segundo o ritmo da fala de Xavier de Novais – o narrador, que não é o personagem principal. A aparente falta de coerência da narrativa, permeada pelos contos, revela uma forte coerência interna. Vale lembrar que os contos são as histórias contadas pelo fantasma – ele, sim, o personagem principal – ao amigo.

Em síntese: É um romance (a história fictícia de Aarão Reis no além, após a sua morte) permeado por contos (as histórias contadas ao segurança e recontadas, por este, ao leitor).

A ideia é que as histórias contadas passem  pelo imaginário popular, sendo levadas ao leitor – além de algumas criações genuínas – releituras de lendas urbanas de Belo Horizonte, como “A loira do Bonfim”, “O fantasma do Palácio da Liberdade”, “O mistério do tesouro da Serra do Curral”, entre outras.

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Dentro do pensamento de que “quem conta um conto aumenta um ponto”, alguns desses personagens seriam amigos de Aarão Reis que poderiam, inclusive, contar as suas próprias versões das lendas, ou seja, a história por trás das histórias, fazendo com que os leitores tenham uma experiência diferente ao que sempre ouviram e busquem as várias versões das mesmas, fazendo um paralelo entre o que é contado e o que pode ser criado.

Essa é a proposta narrativa que ainda reserva outras surpresas, como, quem sabe, um encontro inusitado com Brás Cubas, ou mesmo com o seu criador… Tudo é possível no além…

Dom Casmurro Amostra

Está aqui, portanto, uma oportunidade diferente para todos nós!

Convido você a essa jornada de experimentação e criação literária, remontando aos tempos dos folhetins. Isso se não tiver medo de fantasma… 😉

Mande um email para leandrobrsilva@hotmail.com

ou cadastre diretamente clicando em http://eepurl.com/cOF1eL

Muito obrigado!

COMO LIMPAR E CONSERVAR SEU LOCAL DE INFORMAÇÕES VARIADAS, REUTILIZÁVEIS E ORDENADAS – L.I.V.R.O

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Por Leandro Bertoldo Silva

Ser um leitor vai muito além da leitura propriamente dita. Ser um leitor passa pelo amor aos livros e o prazer de tê-los. Ser um leitor é realmente muito diferente de um não leitor…

Tudo bem! Vivemos uma era de modernidade impossível de ignorar (e nem podemos e queremos), em que os livros eletrônicos — os chamados ebooks — com diferentes formatos de arquivos de leitura e programas estão em evidência, deixando os livros tradicionais com os dias contados.

Será mesmo?

Machado de Assis, no célebre conto A igreja do Diabo, diz:

“As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão”.

Isso nos leva a pensar, e no meu caso ter a certeza, de que o velho e bom livro de papel… Ah, esses sempre irão existir… Há quem acredite que não; felizmente, tanto como leitor e também como escritor, não faço parte dessa opinião.

Para fortalecer e sustentar a tese dos que acreditam na continuidade da espécie, leia a deliciosa crônica de Millôr Fernandes, que vem ilustrar muito bem o que quero dizer.

Vamos lá…

L.I.V.R.O

“Existe entre nós, muito utilizado, mas que vem perdendo prestígio por falta de propaganda dirigida, e comentários cultos, embora seja superior a qualquer outro meio de divulgação, educação e divertimento, um revolucionário conceito de tecnologia de informação.

Chama-se de: Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas – L.I.V.R.O.

L.I.V.R.O. que, em sua forma atual vem sendo utilizado há mais de quinhentos anos, representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, nem pilhas. Não necessita ser conectado a nada, ligado a coisa alguma – nem mesmo à internet (grifo meu). É tão fácil de usar que qualquer criança pode operá-lo. Basta abri-lo!

Cada L.I.V.R.O. é formado por uma sequência de folhas numeradas, feitas de papel (atualmente reciclável) que podem armazenar milhares, e até milhões, de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantém permanentemente em sequência correta. Com recurso do TPOTecnologia do Papel Opaco – os fabricantes de L.I.V.R.O.S podem usar as duas faces (páginas) da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os custos à metade!

Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para se fazer L.I.V.R.O.S com mais informações, basta se usar mais folhas. Isso, porém, os tornam mais grossos e mais difíceis de serem transportados, atraindo críticas dos adeptos da portabilidade do sistema, visivelmente influenciados pela nanoestupidez.

Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, no próprio cérebro, sem qualquer formatação especial. Lembramos que, quanto maior e mais complexa a informação a ser absorvida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.

Vantagem imbatível do aparelho é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite o acesso instantâneo à próxima página. E a leitura do L.I.V.R.O. pode ser retomada a qualquer momento, bastando abri-lo. Nunca apresenta “ERRO FATAL DE SENHA”, nem precisa ser reinicializado. Só fica estragado ou até mesmo inutilizável quando atingido por líquido – caso caia no mar, por exemplo. Acontecimento raríssimo, que só acontece em caso de naufrágio.

O comando adicional moderno chamado ÍNDICE REMISSIVO, muito ajudado em sua confecção pelos computadores (L.I.V.R.O. se utiliza de toda tecnologia adicional), permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder na busca com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda já vem com esse FOFO (softer) instalado.

Um acessório opcional, o marcador de páginas, permite também que você acesse o L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização, mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou tipo de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração. Todo L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso o usuário deseje manter selecionados múltiplos trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com a metade do número de páginas do L.I.V.R.O.

Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O. por meio de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada – L.A.P.I.S.

Elegante, durável e barato, o L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro, como já foi de todo o passado ocidental. São milhões de títulos e formas que anualmente programadores (editores) põem à disposição do público utilizando essa plataforma.

E, uma característica de suma importância: L.I.V.R.O. não enguiça!”

Fantástico, não é?

Sei que como eu, existem muitas pessoas que amam seus livros, que se sentem bem simplesmente estando na companhia deles, sentindo o seu cheiro, o prazer de passar as páginas, namorando cada folha, cada detalhe numa espécie de ritual mágico para a leitura…

Mas o livro, como qualquer objeto, principalmente valioso, precisa de cuidados… Muitos cuidados…

Você que está lendo esse artigo e, que como eu e muitos, ama os seus livros, responda rápido:

 Você limpa os seus livros? Conserva-os? Sabe como fazer isso?

Bem, conheço muita gente que nunca ou raramente se predispõe a esse serviço…

Mas como quem “ama, cuida”, resolvi publicar esse artigo mostrando como é possível fazer a limpeza dos seus livros de maneira correta e eficiente.

Na verdade, a ideia veio a partir de uma coleção de Jorge Amado que ganhei recentemente… Os livros são editados pela Livraria Martins Editora, capa dura, marrom, tipo couro, uma verdadeira relíquia. Para os amantes dos livros e da boa, boa não, ótima literatura, não poderia haver presente maior!

Porém, como os livros estavam um tanto velhos, alguns mofados e estragados, parti para uma busca pela internet de como poderia limpá-los da melhor forma. Encontrei muitas dicas aqui e ali, lá e acolá…

Prece interessante? Então continue lendo para saber mais sobre:

  • O material necessário para a limpeza dos livros;
  • O passo a passo de uma limpeza correta e eficaz de seu livro;
  • Alguns cuidados e dicas essenciais;
  • Um conselho final, que faz toda a diferença na conservação do seu livro.

Como sei que essas informações também podem ser de muita valia para muitas pessoas, resolvi reunir as melhores dicas que encontrei em um único lugar e publicar este conteúdo aqui no blog. O resultado gerou o infográfico abaixo e que tenho o prazer de compartilhar com você. Espero que goste.

Como limpar e higienizar os seus livros

E então, gostou do conteúdo? Viu como é fácil e possível cuidar dos seus livros?

Então, compartilhe esse artigo e ajude outras pessoas que também amam os seus livros a saberem a melhor maneira de limpá-los e conservá-los. Os livros agradecem e a cultura também…

DOSTOIÉVSKI: O ESCRITOR DAS REDENÇÕES

Por Leandro Bertoldo Silva

Será que investir na leitura dos clássicos é uma atitude inteligente e necessária para o leitor moderno?

E para você?

Ser considerado um leitor, uma leitora crítica, preparada para tecer argumentos quanto a construções semânticas das obras, as estruturações psicológicas humanas dos personagens relacionadas à época, ao momento contextual social são grandes feitos, concorda?

No mesmo caminho, conhecer as grandes vozes que arquitetaram verdadeiras obras-primas, saber de suas histórias, de seus trajetos, que os colocaram no patamar de grandes influenciadores do pensamento moderno, é um atributo do homem e da mulher culta, e é inegável que essa cultura influencia, por sua vez, diretamente a vida de quem as aprecia e cuida.

Segundo o professor Paulo Venturelli, a leitura do literário é altamente transformadora e fundamental, pois ela faz com que a vida muda, uma vez que mudamos a sensibilidade, a visão de nós mesmo e do mundo, a percepção do outro, tendo, portanto, mais elementos para pensar-se e pensar a própria vida.

E se assim é, e é, conhecer os clássicos é fundamental, pois é possível traçar uma linha cronológica da evolução da humanidade e entender muito melhor o nosso processo de estar no mundo, com suas contradições, encontros, harmonias, paz, guerras, fazendo com que entendamos tudo isso de uma forma dialógica, sendo possível, inclusive, “prever” determinados pensamentos e tendências futuras a partir do acontecido…

Olhando por este ponto, percebemos que a leitura como um todo, e especialmente os clássicos, é mais do que uma questão de gosto, mas uma providencia e uma questão de necessidade e sobrevivência, fazendo com que essa importância ultrapasse, e muito, os bancos escolares. Ainda bem…

Mas esse reconhecimento não acontece da noite para o dia

É necessária uma mudança de atitude com o livro e com a leitura.

Ainda segundo o professor Venturelli, a partir do momento que uma pessoa se torna um leitor consciente, ela passa a absorver uma série de ideias, absorvendo uma série de ideias ela consegue metabolizar tudo em sua cabeça e começa a ter ideias próprias, pois, para isso, a cabeça precisa ser “alimentada”, e o resultado que disso provém, é a autonomia e independência de cada um.

Não é fantástico?

Quem não deseja tal autonomia? E ela é possível! Mas é preciso, como dito, mudar a relação com a leitura, tirá-la do campo da obrigação e acolhê-la como uma amiga que te conforta e te conduz a um mundo melhor.

Mesmo que você não queira ser um crítico literário, como o professor Paulo Venturelli, investir na sua leitura pode trazer muitos outros benefícios para sua vida, inclusive profissional. Por exemplo, se você está interessado em:

  • Despertar o interesse prazeroso e consciente da leitura;
  • Provocar o gosto pela diversidade literária;
  • Familiarizar com o melhor da literatura clássica e seus escritores;
  • Ser visto(a) como alguém culto(a);
  • (Re)construir uma relação de amor com os livros…

Você precisa elaborar sua estratégia de leitura pessoal.

Portanto, a Árvore das Letras passará a trazer mensalmente, em um de seus conteúdos, a vida e obra dos grandes escritores da literatura universal, com o intuito de ajudá-lo(a) a conhecê-los e a reverberar a cultura no que consideramos ser de extrema importância para o conhecimento humano.

Em posse desse “dossiê” que será formado, você pode, a partir das curiosidades, semelhanças, afinidades e gostos, ir estruturando uma agenda de leitura daquilo que você quer conhecer melhor.

A partir daí é encontrar o seu tempo, pois, sim, ele existe — nem eu, como escritor e professor de literatura teria tempo de ler se eu não me planejasse para isso — e se aventurar por caminhos até então inexplorados, e se explorados, revisitá-los, que é também uma prática recomendável…

Gostou do que vem por aí? Então já compartilhe com seus amigos para que eles, também, possam conhecer essa nova referência de leitura e, quem sabe, adotá-la em suas vidas fazendo crescer o coro de leitores mais conscientes.

E para abrir esta porta, ou melhor, para construir esta ponte, iniciamos com ele: FIÓDOR MIKHÁILOVITCH DOSTOIÉVSKI: O ESCRITOR DAS REDENÇÕES…

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Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski é conhecido como o escritor do excesso, em que toda sua ficção é povoada por personagens que vãos às situações-limites, aos extremos – crimes, sobretudo –, que beiram o abismo e tremem de vertigem.

Mas há muito mais na história de Dostoiévski. Além de cristão, ele tinha profundo interesse em profetas e reservou longas passagens em seus romances para pregações.

Não há livro de Dostoiévski que não ofereça redenção. De Recordação da Casa dos Mortos e Notas do Subterrâneo a Os Possessos e Os Irmãos Karamásov, passando por Crime e Castigo e O Idiota, há sempre um personagem santo ou que será santificado.

Há leitores que se chateiam com o remoer interminável dos personagens de Dostoiévski, com a obsessão da culpa a fim de redimir seus atos anticristãos. Mas Dostoiévski não seria Dostoiévski sem os seus excessos que retratam a sociedade colocando-a em frente ao espelho…

Como Dostoiévski, temos tantos outros gênios da literatura universal que, com seus talentos e determinações, sonhos, controles e descontroles, prazeres e dores, glórias e até suicídios, vieram tecendo a cultura de nosso mundo e influenciando gerações de leitores e escritores entre tempos.

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Em junho de 1812, a Rússia é invadida pelas tropas napoleônicas e a elas se rende após sangrenta batalha. Após cinco semanas numa Moscou incendiada, abandonada por seus moradores, tem início a famosa retirada do Grande Exército, ordenada por Napoleão. Mas as tropas russas seguem-lhe as pegadas até a Alemanha, e nesse país travam diversas batalhas. A perseguição continua até Paris, onde, no mês de março de 1814, Alexandre I entra triunfalmente.

De volta à Rússia, jovens oficiais se impressionam com os abusos da burocracia, com a arbitrariedade do governo, com o sofrimento dos servos, com juízes corruptos, entre outros desmandos. Algumas sociedades secretas começam a se organizar para reverter a situação, e até 1820 ocorrem vários movimentos revolucionários por todo o país.

Nessa Rússia conturbada, na cidade de Moscou, nasce Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski, em outubro de 1821, descendente de uma aristocrática família lituana, porém agora sem fortuna alguma.

O pequeno Dostoiévski cresce em meio à pobreza e a pessoas doentes: seu pai é médico em um sanatório para pobres em Moscou, e é aí que reside a família. Além das condições materiais bastante adversas, ainda lhe amarguram a vida o temperamento despótico e brutal do pai, que vive aos gritos com ele, e a passividade triste e nervosa de sua mãe, Maria Fiódorovna Nietcháieva. Martirizado, o menino alimenta a esperança de que o pai morra, o que chega a pedir a Deus em suas preces. Contudo, quem morre é sua mãe, que não resiste a tantos sofrimentos.

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Viúvo, Mikhail dedica-se com mais afinco ao trabalho e resolve mandar o filho para a escola militar de engenharia em São Petersburgo, atual Leningrado. E é ali, entre exercícios de campanha e cálculos matemáticos que o adolescente Fiódor descobre o prazer da literatura.

Entrega-se febrilmente à leitura e fica impressionado com Schiller, Dickens, George Sand e Balzac. As ideias de muitos escritores de séculos anteriores, como Byron, Shakespeare e Cervantes, e de seu contemporâneo Victor Hugo, mais tarde influenciam suas obras.

A inesperada notícia do assassinato do pai, em 1839, acaba pesando na consciência do jovem Fiódor, que tanto rezara para ver-se livre dele. Amargurado, angustiado pelo remorso, sentindo-se responsável por toda a miséria do ser humano, ele busca se redimir por meio da criação literária. Aos vinte anos, começa a escrever Bóris Gudunov e Maria Stuart, que não só refletem a preocupação de seguir a moda romântica, como também sua problemática pessoal: o primeiro é a história de um tirano, como seu pai, e o segundo é o drama de uma rainha infeliz e injustiçada, como sua mãe. Fiódor não conclui nenhuma das duas obras.

Em 1843 termina os estudos e vai servir como alferes na seção de Engenharia de São Petersburgo. Nessa mesma época, traduz duas obras românticas: Eugênia Grandet, de Victor Hugo, e a peça Dom Carlos, de Schiller.

No ano seguinte, ainda tentando seguir os padrões do romantismo, Dostoiévski começa a elaborar Pobre Gente, novela que descreve o ambiente medíocre em que vive. Por fim, cada vez mais fascinado pela literatura, demite-se do cargo público para dedicar-se inteiramente à carreira de escritor.

Publicada em 1845, Pobre Gente transforma-se em grande sucesso de público e de crítica, o que o encoraja a escrever com mais afinco. Em 1847, ano em que sai a segunda edição de Pobre Gente, sofre uma séria crise de epilepsia. No ano seguinte, publica O Duplo, romance que não obtém o mínimo sucesso literário.

A fase de glória parece estar chegando ao fim, a fama começa a declinar: os críticos e autoridades literárias russas que tanto o haviam elogiado, chegam a confessar de público que se enganaram e que haviam exaltado equivocadamente seu talento literário.

Tão inesperada mudança de opinião isola Dostoiévski do convívio geral. É tomado então por repentinas dúvidas a respeito da própria capacidade e de qual seria sua real vocação.

Em 1848, Dostoiévski, aos 21 anos, começa a frequentar um grupo socialista revolucionário em São Petersburgo, do qual passa a fazer parte. Mais tarde, no entanto, no livro Os Possessos, denunciaria o clima de violência e niilismo vigente entre os revolucionários, acusando-os de agir, sobretudo, movidos pelo tédio e de viverem inutilmente à custa dos servos.

Antes do rompimento com o grupo, porém, o escritor já se havia comprometido em favor do socialismo, em seus discursos públicos. Denunciado juntamente com os companheiros de grupo, é preso e condenado à morte por fuzilamento.

Já no patíbulo, no momento em que se iria cumprir a sentença, um toque de clarim interrompe a execução. Para incredulidade e imenso alívio dos réus, o auditor imperial anuncia que Nicolau I mudara de ideia e que a pena de morte fora comutada em prisão perpétua com trabalhos forçados na Sibéria.

Para lá segue o escritor, então, na véspera do Natal de 1849. Na bagagem que leva é pouco o peso: um exemplar do Evangelho – só! Mas quanto alento, força e inspiração lhe dá a leitura desse único livro. Daí a certeza renovada de que os sofrimentos são o preço necessário da redenção.

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Na convivência com ladrões, criminosos e prostituas no exílio, Dostoiévski jamais põe em dúvida a bondade humana. No livro Recordações da Casa dos Mortos, ele registraria:

“Posso testemunhar que no ambiente mais ignorante e mesquinho encontrei sinais incontestáveis de uma espiritualidade extremamente viva”.

Após cinco intermináveis anos de trabalhos forçados, em 1854, com 33 anos, Dostoiévski é incorporado como soldado raso em uma guarnição siberiana, onde passa outros cinco anos. Não tem amigos nem família, tampouco dinheiro. Na fria solidão da Sibéria, sofre o suplício de apaixonar-se por uma mulher casada, Maria Dimítrievna Issáievna. Seu sofrimento aumenta quando ela se muda para outra cidade, mas depois de alguns meses, para sua alegria, ele vislumbra uma esperança: Maria fica viúva. Em menos de um ano, passado o período de luto, eles se casam, em 1857.

O casamento, porém, não tem um bom começo. Na noite de núpcias Dostoiévski sofre uma violenta crise de epilepsia, como já tivera anos antes. A mulher apenas o observa, com o espanto estampado nos olhos.

Não há consolo na Sibéria: a desolação da paisagem o deprime, sua saúde é péssima, o casamento revela-se um fracasso. Tudo que lhe resta é escrever um novo romance, Recordações da Casa dos Mortos, e esperar que o czar lhe dê permissão para voltar a São Petersburgo.

Nicolau I já está morto, e seu sucessor, Alexandre II, atende-lhe o pedido. Em novembro de 1859, o escritor volta à cidade que tão bem retrataria em seus contos e romances.

O retorno, porém, é melancólico e solitário: os amigos já o esqueceram, o público também. Com o irmão Mikhail, funda um periódico, O Tempo, em 1861. A publicação de Recordações da Casa dos Mortos, nesse mesmo ano, ajuda-o a fazer ressurgir seu nome, mas a fama não é suficiente para livrá-lo das graves dificuldades financeiras. Tudo o que ganha, Dostoiévski gasta com o jornal e com a mulher doente, contrai empréstimos que não consegue pagar, e, por fim, ao ver-se ameaçado por credores, foge para o exterior, em 1862. Deixa a mulher em São Petersburgo e, com recursos obtidos na Caixa de Socorros a Escritores Necessitados, percorre a Alemanha, Itália, Suíça, França e Inglaterra, levando consigo uma jovem estudante, partidária do feminismo, entusiasta da literatura e candidata a romancista: Polina Súslova, que posteriormente seria a musa inspiradora das personagens de O Jogador, O Idiota e Os Irmãos Karamázovi, entre outros. No entanto, gasta no jogo tudo o que lhe resta e mais o que consegue ganhar com a penhora de seus pertences e os de Polina.

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De volta a Petersburgo, em 1863, Dostoiévski encontra Maria agonizante e o jornal fechado por ordem do governo. No ano seguinte, encontra ânimo e funda então outro periódico, A Época. Ainda em 1864, num período de três meses, morrem Maria e Mikhail, ficando a seu encargo a sobrevivência da cunhada viúva e dois sobrinhos. É e meio a esse sentimento de angústia que Dostoiévski inicia a redação de Memórias do Subterrâneo, obra que marca o completo amadurecimento literário do escritor. A partir desse livro, ele superaria os modismos românticos que marcaram as obras anteriores, passando a interessar-se pela sondagem dos mistérios da existência e da complexidade da alma humana, pelo refortalecimento das qualidades essenciais do povo russo e pela busca do homem bom.

Entretanto, embora tenha encontrado o caminho para se realizar como escritor, Dostoiévski é um homem solitário e infeliz. Polina, que ele deixara em Paris, recusa seu pedido de casamento, e ele se afunda mais e mais em dívidas de jogo. Quando seu editor exige que ele cumpra o prazo para a conclusão do manuscrito de Crime e Castigo, ele contrata a estenógrafa Ana Grigórievna para ajudá-lo, e finalmente encontra na jovem de 21 anos a companheira que procurara por toda sua vida.

Casa-se com ela em 1867, aos 46 anos. A paixão pelo jogo, porém, só faz aumentar-lhe as dívidas. Os credores voltam com as ameaças de cadeia, e Dostoiévski emigra com Ana para a Europa Ocidental. Um adiantamento do editor permite-lhe fixar-se em Genebra. Mas o vício o persegue… Tudo empenha — da aliança ao capote — e tudo perde.

A morte da primeira filha em 1868, com três meses de idade, ameaça comprometer sua sanidade mental, o que é agravado pelo sentimento de culpa por privar a amada esposa do conforto e dos bens materiais. Sem filha, sem paz, o casal abandona Genebra e a literatura. Vagueia pela Itália, atormentado pela solidão, curtindo a saudade da pátria distante e da filha morta.

Amigos compadecidos e o editor mandam-lhe da Rússia uma ajuda financeira, que, mais uma vez, esvai-se nos cassinos. A Dostoiévski não resta escolha senão voltar a escrever, e o faz sem cessar, procurando ganhar o mínimo para o sustento doméstico. O nascimento da segunda filha, em 1869, vem atenuar um pouco a rudeza da vida.

Com ânimo renovado, o casal retorna à Rússia em 1871, ano em que publica Os Possessos. Dois anos depois, Dostoiévski assume o cargo de redator-chefe em O Cidadão. E é a partir dessa época que escreve algumas de suas obras-primas. Em 1874 publica O Adolescente e Diário de um Escritor, e em 1880 Os Irmãos Karamázovi. Torna-se ídolo de seus leitores, guia espiritual, exemplo de força e coragem, o “Escritor da Rússia”, que, ao retratar a alma de seu povo, evidenciara a própria condição humana.

As aspirações de Dostoiévski estão, enfim, realizadas. Não só o escritor alcança seus intentos: o homem encontra o amor sofridamente buscado, a alegria de ter os filhos que quis e a paz que tanto almejara.

Mas já não há tempo para ser feliz. Num dia nevado de 1881, vítima de uma hemorragia, morre aos sessenta anos Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski, consagrado até hoje como um dos mestres da literatura universal.

♣ ♣ ♣ ♣

Gostou de acompanhar a vida de Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski? Então compartilhe esse artigo e ajude a divulgar a literatura.

Confira abaixo um infográfico cronológico resumido da vida de Dostoiévski. Que tal salvá-lo e ir colecionando com os próximos escritores que publicaremos? Assim, você terá uma lista de consulta pessoal. Acredite, valerá a pena!

Cronologia - Dostoiévski

[INFOGRÁFICO] O PODER DA PALAVRA: 30 FRASES DE ESCRITORES QUE FARÃO VOCÊ PENSAR E ENXERGAR A VIDA COM OUTROS OLHOS

Você já se deparou com a situação de se ver balançado com uma frase que tenha lido?

Seja em um livro aberto ao acaso, seja naquele cartaz pregado no ponto do ônibus ou num panfleto perdido na mesa do bar…

Penso que todos nós já passamos por isso, e muitos têm aquela frase preferida que, de tanto ler, já está decorada, passando a ser como um mantra, uma referência daquilo que se acredita ser o melhor como conduta.

Mesmo os mais céticos, sempre têm aquela frase que melhor adapta à sua personalidade. Se você ainda não tem uma frase preferida, ou ainda não pensou nisso, recolhi 30 frases de escritores e escritoras consagradas em língua portuguesa e disponibilizei-as em um infográfico para você. Muitas delas me dizem muito forte na alma. Quem sabe podem dizer a você também?

Mas antes, quero chamar atenção para uma coisa…

Palavra tem poder! E a maneira como lidamos com elas, com os seus significados e significantes, além de dizer muito a nosso respeito, influencia muito no nosso destino, afinal, como diz Henry Ford, um grande inventor que revolucionou a história do automóvel:

“se você pensa que pode ou se pensa que não pode, de qualquer forma você está certo”…

Isso porque somos 100% responsáveis por nossos pensamentos e, consequentemente, pelo que eles ocasionam…

Da mesma forma que todo texto reflete o pensamento de quem o escreveu, a leitura pode exercer influência positiva ou negativa na vida de quem o leu. Daí a grande responsabilidade dos escritores…

Mas não só deles! Partindo da ideia de que todo leitor é um coautor, a responsabilidade também passa a ser nossa à medida que optamos por acreditar ou não naquilo que lemos.

Sendo assim, convido você a refletir em cada uma das 30 frases escolhidas no infográfico abaixo. Quem sabe não encontrará a tão procurada solução que estava precisando?

Parece interessante? Então leia as frases e tenha uma ótima experiência!

O poder da palavra - 30 frases...

Gostou do infográfico? Então aproveito para fazer um pedido: seja altruísta e compartilhe esse infográfico com seus amigos. Eles, assim como você, podem encontrar aqui grandes insights.

O MUNDO ENCANTADOR DO HAICAI: A ARTE DA POESIA

Holidays! (1)

Por Leandro Bertoldo Silva

José levantou cedo naquele dia, sentindo um impressionante chamado de Deus. Dentro dele, algo acontecia que o impulsionava a sair em busca de inusitado encontro. Uma vez que não sabia aonde ir, logo veio em sua mente o óbvio: iria à igreja. Mas qual?

Fosse qual fosse, centenas de milhares de pessoas não poderiam estar erradas. As músicas altíssimas, cantadas num frisson de louvor, e os gritos de adoração contemplados à palavra amor, deveriam estar certos, afinal. Assim, andou. Quanto mais andava, mais se avolumavam igrejas e, junto delas, opiniões, palavras, homilias, baterias, gritos, violões, mas…

Seu coração não se preenchia. Porém, o vazio que antes incomodava passou a ser um estranho conforto, pois, ao viver o vazio, o silêncio o despreenchia, e ele achou isso bom. No entanto, o reconforto vinha com a culpa de ser diferente, de não ter seguido o chamado… Via a alegria dos outros, mas o incomodava a verdade que ali não sentia como sua, e essa culpa o fez gritar ainda mais alto, internamente.

Nesse momento, um simples jardineiro que o observava, pois José estava sentado no banco de uma praça, aproximou-se, despertando-lhe os olhos para as flores de que cuidava. Com seu semblante e seus gestos livres e despertos, disse:

Contemple uma flor…

Viu? Deus está nos silêncios…

Por que o grito?

Naquele momento, José percebeu que havia, há muito, obedecido ao chamado e que, com o auxílio daquele jardineiro que estava a semear, todo o barulho cessou em sua alma, fazendo de sua vida uma comunhão ao silêncio e dele um testemunho íntimo em cada flor que passou a admirar. (conto extraído do livro “Entrelinhas Contos mínimos”). Saiba mais AQUI.

Achou essa história interessante? Talvez você não tenha reparado, mas ela traz a essência da poesia. Foi ela a razão da transformação de José, e tudo se deu num flash, num instantâneo…

contemple uma flor

E essa poesia, especificamente, tem um nome: Haicai, podendo ser grafada Haikai, ou mesmo ser chamada de Haiku.

Talvez você não saiba do que estou falando. Talvez saiba, já ouviu dizer. Talvez tenha pensado: poesia? E com esse nome estranho? Eu não gosto de poesia… Acho difícil.

Bem, eu não sei qual foi o seu pensamento, mas uma coisa eu acredito: essa história e esse nome lhe trouxeram curiosidade.

Então, continue lendo este artigo para saber mais sobre:

Por que poesia não é difícil e é mais próxima de você do que você pensa.

O que é, afinal, haicai.

O haicai, a natureza e nós.

O haicai e as estações do ano.

O haicai e a métrica.

Os haicais rimados.

E ao final dele, você verá como é possível usar o haicai como prática meditativa, trazendo a poesia para o nosso dia a dia.

POR QUE POESIA NÃO É DIFÍCIL E ESTÁ MAIS PRÓXIMA DE VOCÊ DO QUE VOCÊ PENSA (do livro Poesia não é difícil, de Carlos Felipe Moisés)

palavra escrita

A maioria das pessoas acha que poesia é difícil e, por causa disso, dizem não gostar dela. Mas isso pode ser um mito, uma falsa verdade. Isso porque podemos colocar esse mito em confronto com outra verdade universal, que de mito não tem nada: o que as pessoas podem não gostar, isso sim, é estudar poesia, ler poesia com o propósito ou a obrigação de analisar, compreender, explicar. Quando solicitadas a fazê-lo, fogem arrepiadas, isto é, fogem de algo que apreciam. Por trás do mito, como se vê, existe um contrassenso: por que as pessoas repudiam aquilo que ao mesmo tempo as atrai? Sim, porque é natural ser atraído pela poesia.

Quando falo da poesia repudiada, refiro-me à poesia em sala de aula, onde deve, acima de tudo, ser tratada de modo adequado, ou seja, como experiência afetiva, espiritual e artística que as pessoas naturalmente amam e à qual deveriam dedicar-se por prazer, não por obrigação. Quando o jovem leitor se depara com a perspectiva de provas, testes e exames, e com a necessidade de “tirar uma nota”, nem sempre verdadeira, às vezes até despropositada, o resultado, já sabemos, é fugir da poesia. E, com isso, privar-se de uma rara oportunidade de enriquecimento humano e intelectual.

Não há idade mais propícia à poesia do que a juventude!

É a idade da autodescoberta e da descoberta do mundo, da curiosidade ilimitada, da imaginação generosa, do desejo de compreender, e também do espírito crítico aguçado, das dúvidas e incertezas, das experiências decisivas, que costumam marcar para o resto da vida. Não é de surpreender, portanto, que todos amem poesia, pelo menos na juventude. É que as inquietações enumeradas coincidem, em geral, com a matéria preferida de quase todos os poetas, de todos os tempos. As pessoas amam encontrar, nos poemas que leem, um eco, um reflexo das suas inquietações.

O que o jovem sente é a matéria-prima da poesia…

Para gostar de poesia algumas coisas são necessárias. Uma delas está ligada à leitura.

Poesia se lê em voz alta…

E é recomendável que o mesmo poema seja lido mais de uma vez para ser sorvido, apreciado. A cada leitura, uma tentativa diferente de dar a cada verso, a cada frase e a cada palavra, a entonação adequada. Isso fará você, mais do que entender poesia, “sentir” a poesia. O mesmo serve para ouvir.

A poesia é a arte da subjetividade, onde o respeito às opiniões, às divergências é fundamental. Poesia exige relativização dos juízos, respeito às intuições de cada um. Se estivéssemos lidando com matemática, digamos, a situação seria outra. Diante, por exemplo, de “O quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos”, você se limitaria a demonstrar que A² = B² + C² e não perderia tempo se perguntando “O que acho disso?” ou “Que sentido tem isso para mim?” ou “Qual é a minha opinião a respeito?”

Mas diante de “Amor é fogo que arde sem se ver” são exatamente essas perguntas que devem ser feitas, e muito longe de achar que elas teriam apenas uma resposta…

Bem, se o nosso ponto de partida, então, é o fato de todas as pessoas serem propensas a gostarem de poesia, o que fatalmente acontecerá se não formos desencorajados por obrigações burocráticas, é inevitável deduzir que extrairemos tanto prazer da leitura de poesia quanto da sua escuta e da tentativa de criar nossos próprios poemas, fazendo, assim, com que a poesia cumpra o seu papel representando uma das dimensões mais significativas da sociedade em que vivemos e da humanidade em que participamos. Vamos ver como isso é possível através de uma forma poética milenar: o haicai. Para isso, veja e ouça o vídeo a seguir.

O QUE É, AFINAL, HAICAI?

O dia amanhece

Haicai é um micro poema que tenta captar a essência do momento. É um flash, um instantâneo… É preciso muita sensibilidade para apreciar o haicai, tamanha a sutileza de seus três versos que contam, em poucas palavras, o sentimento do poeta frente a diversos desdobramentos da natureza.

Arte originalmente japonesa, o haicai é uma arte milenar e obedece a um padrão métrico próprio de três versos de 5, 7 e 5 sílabas, respectivamente, totalizando 17 sílabas, o que o diferencia de outras formas poéticas.

Por ter uma acentuação mais flutuante, o Japão consegue manter a contagem gramatical na composição dos haicais. Na Língua Portuguesa, entretanto, devido a sua grande riqueza e variação, costuma-se usar, além da contagem gramatical, a contagem poética, por levar em conta também o ritmo. Sendo assim, outras regras se fazem presentes como junções de algumas sílabas e supressão de outras dentro de critérios próprios estabelecidos, para obedecer a forma original de 17 sílabas. Esta é a razão de alguns haicais parecerem ter mais sílabas do que o permitido.

Há pessoas que defendem a ausência dessa métrica, obedecendo apenas os três versos, alegando liberdade criativa. Bem, não quero sugestionar ninguém, mas defendo também minha opinião que a métrica é justamente o exercício poético que se transforma no desafio apaixonante de dizer o que se deseja, não com qualquer palavra, mas com a palavra certa.  É apenas uma questão de opinião e escolha do fazer poético.

De qualquer forma, o haicai é uma arte apaixonante, tanto para quem aprecia e tenta captar o sentimento do poeta, como para quem o compõe e se aventura na busca da palavra certa e indispensável para transmitir o que sente e deseja. Essa busca pode levar horas, dias, meses e até anos, o que torna o haicai uma arte impar no campo da literatura e o diferencia como arte verdadeiramente elevada.

O HAICAI, A NATUREZA E NÓS

Penso a vida

O haicai estabelece uma grande ligação com a natureza, e essa ligação está intrínseca em nós à medida que necessitamos voltar os nossos olhos para ela, isto é, estabelecer uma reconexão com as nossas essências, principalmente em momento de muita valorização para o que é virtual. Olhando a natureza e tentando extrair dela sentimentos e emoções, é o mesmo que reverberar os nossos próprios, lançando, também, um novo olhar para nós mesmos de uma forma dinâmica e sensitiva, cujo exercício é proporcionar vivências pessoais.

Baseado no processo de reconexão com a natureza, o haicai tem como objetivo oferecer subsídios que levem à valorização do essencial, do que está a nossa volta, criando, estimulando e aprimorando o gosto pela observação através das percepções, tendo na palavra sua forma de expressão.

Os haicais clássicos trazem elementos contidos na natureza, como um gato, uma flor, uma estrela, a noite, o dia, etc…

O HAICAI E AS ESTAÇÕES DO ANO

As flores silvestres

Geralmente, os haicais têm a ver com as estações do ano. Um haicai pode ser de primavera, verão, outono ou inverno.

Neste caso, a estação do ano está explícita. Entretanto, podemos deixar as estações do ano subtendidas, usando, para isso, um kigô, isto é, um termo próprio da estação.

O fruto maduro

As folhas caem em maio, no outono. Portanto, esse é um haicai outonal. No Japão, as estações do ano são bem definidas e determinam o modo de viver da população, enquanto que no Brasil nossa vida gira mais em torno de eventos, como Natal, festa junina, Semana Santa, Páscoa, Carnaval, Entre outros. Sendo assim, podemos utilizar estes eventos para indicar a estação.

Como achar facilmente um kigô outonal? Em seus livros, bons autores têm explorado: orvalho, libélula, crisântemo, grilo, flor-de-maio, estrela cadente, vento de outono, caqui, tempo de colheita, quaresmeira, etc.

O HAICAI E A MÉTRICA

Como foi dito, na Língua Portuguesa encontramos uma variação métrica para os haicais. Podemos nos basear em três aspectos:

  1. Quando uma palavra acaba em vogal átona, ambas formam uma só sílaba:
  • Ouviram do Ipiranga = ou-vi-ram-doi-pi-ran-ga;
  • Aberto o portão = a-ber-too-por-tão.
  1. Se a vogal da sílaba final for tônica, não ocorre a junção:
  • Você acertou = vo-cê-a-cer-tou.
  1. Na palavra final de um verso não se contam as sílabas que se encontram após a sílaba tônica. Se a palavra “refúgio” figurar no fim de um verso, só contaremos até essa sílaba, desprezando as demais:
  • Um gato busca refúgio = um-ga-to-bus-ca-re-fú (gio) – 7 sílabas;
  • O vento do outono = o-ven-to-doou-to (no) – 5 sílabas.
OS HAICAIS RIMADOS

Embora não muito comuns, os haicais podem ser rimados e trazem uma beleza imensa a essa arte e oferecem um desafio ainda maior, pois o primeiro verso rima com o terceiro e, além disso, no segundo verso, a segunda sílaba rima com a última. Pode ser esquematizado assim:

__ __ __ __ x

__ y __ __ __ __ y

__ __ __ __ x

Na cidade a rua

Entretanto, toda essa engenharia poética tem o dom de fornecer uma dica importante: Não é preciso que cada verso seja completo. Ele pode, perfeitamente, encerrar-se no verso seguinte:

Vejo a natureza

USANDO O HAICAI COMO PRÁTICA MEDITATIVA

A poesia convida-nos à meditação, inspirando-nos à interiorização e consciência dos nossos sentimentos. Um estado de presença calma e profundo relaxamento, diferente de deixar-nos desatentos, auxiliam-nos no processo de conexão com a nossa verdade, enriquecendo a nossa vida diária.

Este é o princípio da meditação: “abrir-se a cada momento com consciência calma”, isto é, agir com lucidez a cada momento da vida, o que acarreta felicidade, paz mental e serenidade, independente do tanto de trabalho e tarefas que temos a fazer.

Engana-se quem acha que meditar é não pensar em nada e apenas ficar horas a fio em um mosteiro desligado do mundo, ou que essa prática necessariamente tem a ver com aspectos religiosos.

Pelo contrário, meditar, principalmente em tempos modernos, é estar atento a tudo que acontece, porém tendo uma relação de amor e calma com os acontecimentos, inclusive os desagradáveis. Para quem se interessa, indico o livro “O Melhor Guia para a Meditação”, de Victor N. Davich, editora Pensamento, em que ele desmistifica, esclarece e ensina o processo, ou arte, da meditação.

Sim, pois ao estar lúcido a cada acontecimento do dia a dia, aquietamos a nossa consciência, geralmente tão atarefada, e atingimos uma clareza mental que impede esforços desnecessários. É a tão desejada busca pela calma, pela diminuição do estresse, e tudo por estar presente em seu momento e afazeres, ou seja, a possibilidade de lidarmos melhor com o que nos envolve é muito maior.

As possibilidades de meditação são inúmeras: através da respiração, da música, a meditação orientada, e muitas outras. Aqui, quero compartilhar uma experiência através da poesia, ou sendo mais específico, através do haicai.

Chamei de O JOGO DAS REFLEXÕES, e permite que o leitor possa interagir com os haicais de uma forma dinâmica e sensitiva, cuja leitura proporciona vivências pessoais, onde o objetivo não é vencer nenhum adversário, mas conhecer a si mesmo(a).

Meditar com o JOGO DAS REFLEXÕES é um mergulho passando pela leitura, não para aumentar conhecimento, mas para encontrar você mesmo(a) na poesia; pela meditação, deixando a poesia cair no coração, aceitando-a simplesmente; gestação, que, através da meditação, faz com que a poesia germine e frutifique; e por último a contemplação, para não mais raciocinar a poesia, mas vivê-la no silêncio.

Para isso, você irá escolher alguns haicais – um mínimo de 12 – que, por si mesmo, já proporciona tudo isso através da sua simplicidade. Você pode escrevê-los em um pedaço de papel, em uma plaquinha leve de madeira, ou no que a sua imaginação e criatividade sugerir. Você, também, pode escrever os seus próprios haicais…

Eu fiz os meus em pequenas cartas de papel, utilizando outra técnica japonesa – o Origami –, para envolvê-las como num livro de páginas soltas. Além disso, associei uma bela imagem a cada carta (página) e sugeri uma palavra que sintetiza o sentimento exposto para auxiliar na reflexão.

jogo das reflexões

Caso se interesse por este modelo do JOGO DAS REFLEXÕES e queira adquiri-lo, é só enviar um contato por este blog.

REGRA SUGERIDA: Reserve um tempo de 5 a 10 minutos para essa prática. Misture os haicais que você previamente escolheu ou escreveu e retire 3 deles ao acaso. Leia cada um atentamente e escolha apenas um para proceder aos passos descritos: Leitura – Meditação – Gestação – Contemplação. Guarde os outros e somente escolha um novo haicai após se sentir satisfeito(a) com sua reflexão. Não tenha pressa. Leve dias, horas, meses e até anos…

E então, gostou de conhecer o universo mágico dos haicais? Viu como é possível estabelecer uma nova relação com a poesia e trazê-la para o nosso dia a dia?

Então, compartilhe esse artigo, ajude outras pessoas a conhecerem essa arte tão singela e ao mesmo tempo tão transformadora, como foi com José, por ser tocado pela natureza íntima ao contemplar uma singela flor, mostrada pelo jardineiro, e encontrar nela a natureza divina.

E se chegar a fazer o JOGO DAS REFLEXÕES (o que sugiro e espero que faça, pelo grande benefício que terá), não se esqueça de deixar um comentário contando da sua experiência.

A TERRA VIVA NA NARRATIVA DE MIA COUTO: UMA LEITURA DE UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA

Você é bom em suposições? Boa em decifrar evidências?

Então, vejamos… Observe esta descrição:

“Filho de portugueses, abandonou o curso de medicina para trabalhar como jornalista. Foi militante da Frente de Libertação de Moçambique. É formado em Biologia e dedica-se a estudos de impactos ambientais.”

Perfeitamente possível pensarmos se tratar de um cientista ou pesquisador, correto? Bem, também… Afinal de contas, este é o trabalho dele. O que talvez você não imagine é que estamos falando de um dos maiores nomes da literatura africana em língua portuguesa – o escritor moçambicano mais traduzido no mundo, Antônio Leite Couto, ou, melhor dizendo, Mia Couto.

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Mia é uma espécie de “mágico da língua”, criando, apropriando, recriando, renovando a língua portuguesa em novas e inesperadas direções.

Tem, devido a essa autêntica revolução de inventiva linguística, sido muito apropriadamente comparado a outro grande mágico da Língua, o escritor brasileiro João Guimarães Rosa, por quem tece claros elogios.

E mais ainda…

Em 2013 foi agraciado com o Prêmio Camões. Em 2014 recebeu o Prêmio International Neustadt de Literatura. Em 2015, Mia Couto fez parte dos dez finalistas do Man Booker International Prize, um dos prêmios mais importantes do mundo literário.

Bem, percebe-se que falamos de uma pessoa muito especial, e falamos mesmo. Porém, mais do que os seus prêmios, Mia Couto merece nossa total atenção pelo que escreve, pelas ideias que defende e pelo humano que existe em si. Para ele, “a escrita é necessidade absoluta” para “transpor as fronteiras da realidade”. E duas das realidades mais defendidas por ele é a Terra e a vida. Talvez por também ser biólogo. Talvez por ser um ativista ambiental. Talvez por ser um homem que não se divide, mas se reparta…

Aliás, Mia disse certa feita em uma entrevista ao ser perguntado como ele se dividia entre a biologia e a literatura (Imagem da Palavra – junho de 2013), que repartia-se e distribuía-se de uma maneira que nem ele mesmo sabia qual era a fronteira. Isso por descobrir na biologia algo muito literário, uma espécie de revelação do mundo, de linguagem, em que havia uma espécie de aproximação com a árvore, com a planta e com o animal e aquilo que chamamos Natureza. Fazer biologia, para Mia Couto, é recolher histórias, e principalmente a história da vida, que é a história mais fascinante que podemos ter.

Apaixonante, não? Então, continue lendo esse artigo para saber um pouco mais sobre:

A terra viva na narrativa de Mia Couto. E para isso, a Árvore das Letras convidou a estudante do 7º período de Letras – Keily Martins Francisco – da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), sob a orientação da professora Heloisa Helena Sequeira, Doutora da UNIR e líder do Grupo de Pesquisa em Estudos Literários, para ilustrar o assunto através da leitura da obra Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, do escritor moçambicano, para ver como ele lida com a necessidade da reconexão que estamos vivenciando com a nossa Mãe-Terra. Necessidade esta oriunda de um afastamento não apenas físico, com o desrespeito à nossa fauna e flora, mas um afastamento emocional dessa ligação intrínseca da Terra como gestora, origem de nossas origens.

Antes, porém, vejamos um breve release de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra.

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O estudante universitário Marianinho volta à ilha de Luar-do-Chão depois de anos de ausência. Seu retorno é um imperativo: ele fora incumbido de comandar as cerimônias fúnebres do avô Dito Mariano, de quem recebera o mesmo nome. Neto favorito do patriarca, o rapaz chega à ilha e se vê no centro de uma série de intrigas e de segredos familiares, que envolvem seu pai, Fulano Malta, a avó Dulcineusa, os tios Abstinêncio, Ultímio e Admirança, e também as nebulosas circunstâncias em torno da morte de sua mãe, Mariavilhosa.

Marianinho logo descobre que o falecimento do avô permanece estranhamente incompleto e esconde desígnios que escapam à força dos homens – como tudo nessa enigmática Luar-do Chão.

A TERRA VIVA NA NARRATIVA DE MIA COUTO: UM LEITURA DE UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA

 Por Keily Martins Francisco

 AS LITERATURAS AFRICANAS: A ESCOLHA DE MIA COUTO

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Grande parte das literaturas africanas surgiu por meio da oralidade, como ressalta Maria Aparecida Santilli: “As nações de Angola, Cabo Verde e Moçambique eram originariamente ágrafas, não tinham escrita, embora houvessem cultivado uma literatura oral.” (SANTILLI, 1985, p.7). Essas literaturas eram passadas de geração a geração até surgir a escrita, eram histórias ricas em elementos fantásticos e provérbios, muitos escritores africanos herdaram essas características em sua escrita.

As culturas e literaturas africanas sempre foram muito marginalizadas no Brasil e em todo o mundo, conforme discorre Carmen Lucia Tindó Secco em A magia das letras africanas: ensaios sobre as literaturas de Angola e Moçambique e outros diálogos (2008):

[Quando se pensa em África] duas imagens costumam surgir com freqüência: a da Mãe – África idealizada pelos lugares-comuns de uma mítica “africanidade imaginada”, configurada por sons de tambores, danças sensuais, avós contadoras de histórias; e a da África dizimada por doenças, misérias e guerras. (SECCO, 2008, p. 24)

A imagem do continente tornou-se homogênea e estereotipada, como se houvesse uma única África e as culturas, crenças e literaturas não variassem de um país para outro.

No cenário literário africano, Mia Couto (António Emílio Leite Couto, Beira, 1955) é uma das grandes vozes contemporâneas, formado em biologia e filho de portugueses, o moçambicano tem obras traduzidas para diversas línguas, grande parte delas encontradas no Brasil. Autor de uma prosa poética que, segundo o próprio, recebeu influência do escritor angolano Luandino Vieira e do brasileiro João Guimarães Rosa.

Em entrevista a Vera Maquêa, o moçambicano afirma que “[…] para ganhar existência na actualidade, no terreno da modernidade, Moçambique deve caminhar pela via da escrita. Entramos no mundo pela porta da escrita, de uma escrita contaminada (ou melhor fertilizada) pela oralidade.” (COUTO, 2005, p. 208). Logo, a escrita de Couto recebe influências da literatura oral tão presente nas culturas africanas.

Dentre a vasta quantidade de obras do moçambicano escolhemos, o romance Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2003) para refletirmos sobre a terra e sua relação com as personagens da obra.

 UM RIO, UMA CASA: MARIANINHO E A TERRA/CASA

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Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2003) é uma obra narrada em primeira pessoa por seu personagem central, Marianinho, que após um período estudando na cidade regressa à Luar-do-Chão, ilha em que nasceu, para fazer as cerimônias fúnebres de seu avô Dito Mariano, anfitrião da família. No artigo O ponto de vista na ficção (2002), Norman Friedman nomeia esse tipo de narrador como narrador protagonista, que segundo o estudioso, “[limita a narrativa] a seus próprios pensamentos, sentimentos e percepções. […] O ângulo de visão da narrativa é fixo.” (FRIEDMAN, 2003, p. 177). Na obra em análise os acontecimentos são narrados pelo ponto de vista do protagonista Marianinho.

Marianinho é o narrador de um romance e isto nos leva imediatamente para a questão do gênero textual. Ian Watt em seu livro A ascensão do romance (1990) dedica um dos capítulos à busca por alguma característica capaz de distinguir essa forma literária das demais e ao mesmo tempo agraciar as particularidades de cada autor, segundo ele:

[O critério] fundamental [do romance é] a fidelidade à experiência individual – a qual é sempre única e, portanto, nova. Assim, o romance é o veículo literário lógico de uma cultura que, nos últimos séculos, conferiu um valor sem precedentes à originalidade, à novidade. (WATT, 1990, p. 15)

Segundo Watt, uma das grandes características do romance e o que o diferencia de outros gêneros narrativos como a epopeia, por exemplo, é a fidelidade à experiência individual, no romance o autor não precisava mais trazer temas e relatos de um povo. Na narrativa em análise é apresentada a experiência individual de Marianinho ao regressar à ilha na qual nascera.

Regressar à terra natal traz ao narrador-personagem uma série de questionamentos sobre sua relação com aquele lugar, logo ao chegar a Nyumba-Kaya, casa de sua família, o narrador confessa que “[…] se confirma a verdade das palavras do velho Mariano: [ele] teria residências, sim, mas casa seria aquela, única, indisputável” (COUTO, 2003, p. 29, grifo nosso), ou seja, o afastamento de Marianinho não faria com que ele perdesse o vínculo com aquele lugar.

André Pinheiro (2009) faz uma leitura de alguns poemas da obra Raiz de orvalho e outros poemas (2001) do moçambicano à luz dos elementos terrestres, tanto nos poemas analisados pelo estudioso quanto na narrativa em análise:

[…] A imagem da terra é de fundamental importância para a composição desse cenário, já que ela é simultaneamente uma entidade materna (ligada, portanto, ao sentimento) e uma base sólida para o homem (responsável pela sua força e equilíbrio). (PINHEIRO, 2009, p. 17) e [esse] espaço só [pode] ser definido em função das relações humanas desenvolvidas nele. (p. 16).

Portanto, para Marianinho, regressar àquele lugar era regressar à sua casa, dessa vez com uma visão mais amadurecida da realidade. Pode-se afirmar, baseado nos estudos sobre o mito de Mircea Eliade, que o narrador-personagem se sente “gente daquele lugar” (ELIADE, 1992, p. 118) e ao mesmo tempo tem consciência de que se tornara um estranho para aqueles que o circulam: “há anos que não visito a Ilha. Vejo que se interrogam: eu, quem sou? Desconhecem-me. Mais do que isso: irreconhecem-me” (COUTO, 2003, p. 29). O que os unia era a dor do luto e não os laços familiares. Em entrevista concedida a Vera Maquêa, Mia Couto fala sobre a obra em analise, segundo ele:

Neste meu livro […] está presente, sim, aquilo que são dois universos bem claros que é Moçambique: o universo urbano e o universo rural. E já tem muitos moçambicanos que são urbanos e que, quando saem dessa região urbana e se adentram no mundo rural é como se tivessem chegando a uma outra nação. E constroem fantasmas e recriam mitos antigos. (COUTO, 2005, p. 207).

Marianinho é essa personagem que teve contato com o universo urbano e que quando regressa ao ambiente rural não se reconhece mais naquele lugar, sua identidade assim como sua relação com Luar-do-Chão estão em transição. Recordando as lembranças de sua partida da terra natal, a personagem confirma: “[…] o velho Mariano sabia: quem parte de um lugar tão pequeno, mesmo que volte, nunca retorna. Aquele não seria o lugar de minhas cinzas. Assim fora com os outros, assim seria comigo. E o vaticínio dele se foi cumprindo.” (COUTO, 2003, p. 45).

O narrador-personagem está ao mesmo tempo ligado e desligado de Luar-do-Chão, aquela era sua terra natal, sua “única casa” (COUTO, 2003, p. 29), mas ele havia partido dali, entrado em contato com outra cultura e perdido o vínculo com aquele lugar: como era possível estar tão próximo e ao mesmo tempo tão distante da Ilha?

Após se reencontrar com os familiares e recordar sua infância na Ilha, Marianinho passa a, misteriosamente, receber cartas do anfitrião, seu avô supostamente morto, na primeira delas o mais velho dos Marianos escreve que:

Você não veio a esta Ilha para comparecer perante um funeral. Muito ao contrário, Mariano. Você cruzou essas águas por motivo de um nascimento. Para colocar o nosso mundo no devido lugar. Não veio salvar o morto. Veio salvar a vida, a nossa vida. (COUTO, 2003, p. 64)[1]

Segundo Dito Mariano, Marianinho estava ali para vivenciar um (re)nascimento e salvar Luar-do-Chão com o auxílio do anfitrião. Seria possível alguém que passara tanto tempo fora, com a ajuda de um “morto pela metade”, salvar a Ilha? O que havia para se salvar naquele lugar? Ao observar a situação de Luar-do-Chão o narrador afirma:

“Dói-me a Ilha como está, a decadência das casas, a miséria derramada pelas ruas. Mesmo a natureza parece sofrer de mau-olhado. […] À primeira vista, tudo definha.” (COUTO, 2003, p 28).

Aquela, certamente, não era a Ilha de suas lembranças, o processo de colonização assolara aquele lugar e isso causava dor no narrador da obra. Moçambique, juntamente com Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau integram os PALOPs[2] que foram colonizados por Portugal. Para conseguir a independência foi necessária muita luta e após a tão almejada liberdade restaram apenas países a serem reconstruídos, Luar-do-Chão na obra é um reflexo desse processo. Como afirma Dito Mariano em sua primeira carta ao neto:

Todos aqui estão morrendo não por doença, mas por desmérito de viver (COUTO, 2003, p. 64). Porque todos estavam morrendo eles, juntos, teriam que se unir e salvar aquele lugar.

DITO MARIANO E A TERRA FECHADA

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Dito Mariano é o mais velho de sua família e como tal tem um papel importante na narrativa, Secco em seu artigo “Luandino Vieira e Mia Couto: intertextualidades” argumenta sobre a importância dos anciões para a cultura africana, segundo ela: “Os velhos têm um papel importante na filosofia de vida africana: são os guardiões da memória, os griots, ou seja, os velhos contadores de histórias que passam aos mais jovens a tradição e os conhecimentos ancestrais.” (SECCO, 2008, p. 62).

O mais velho dos Marianos é descrito como uma personagem curiosa que segundo o narrador-personagem “enquanto vivo se dizia morto. Agora que falecera ele teimava em não morrer completamente” (COUTO, 2003, p. 37), homem famoso por seus muitos envolvimentos amorosos e que após morto, resolve dentre outras coisas, “salvar Luar-do-Chão” com o auxílio do neto, para isso ele passa a se comunicar sobrenaturalmente com o neto através de cartas, nas quais  coloca Marianinho em dia com os acontecimentos da Ilha durante sua ausência e lhe passa orientações de como deve proceder com sua família.

A escrita dessas cartas é um tanto quanto intrigante para Marianinho e para o leitor da obra, após ler a primeira delas o narrador questiona: “quem escrevera aquilo? Quando tento reler uma tontura me atravessa: aquela é a minha própria letra com todos os tiques e retiques. Quem fora, então? Alguém com a letra igual a minha.” (COUTO, 2003, p. 56) em outra carta Dito Mariano confessa ser ele o seu autor, Marianinho escrevia as cartas por intermédio do anfitrião que afirma que os dois, juntos, salvarão a Ilha:

Estas cartas, Mariano, não são escritos. São falas. […]

É por isso que visitará estas cartas e encontrará não a folha escrita mas um vazio que você mesmo irá preencher, com suas caligrafias. […] Esse é o serviço que vamos cumprir aqui, você e eu, de um e outro lado das palavras. Eu dou as vozes, você dá a escritura. Para salvarmos Luar-do-Chão, o lugar onde ainda vamos nascendo. E salvarmos nossa família, que é o lugar onde somos eternos. (COUTO, 2003, p. 64-65)

Marianinho oscila entre acreditar ou não acreditar no que a carta dizia, mas logo acaba aceitando o que nela estava escrito e começa a seguir as orientações que lhe são dadas.

Além de atribuir à terra a posse da força da vida e de muitos significados, a narrativa também elege o rio como um elemento fundamental, figura carregada de simbologias que está presente desde o nome da obra e perpassa toda a narrativa. Eliade (1992) trata da simbologia das águas, segundo ele:

As águas simbolizam a soma universal das virtualidades: são fons et origo, o reservatório de todas as possibilidades de existência; precedem toda forma e sustentam toda criação. […]

Em qualquer conjunto religioso em que as encontremos, as águas conservam invariavelmente sua função: desintegram, abolem as formas, “lavam os pecados”, purificam e, ao mesmo tempo, regeneram. (ELIADE, 1992, p. 110)

Luar-do-Chão é uma ilha, segundo Eliade uma ilha é “uma das imagens exemplares da Criação […] que subitamente se “manifesta” no meio das vagas” (ELIADE, 1992, p. 110), estar em um lugar cercado por águas abre caminho para infinitas possibilidades de existências e é ali, naquela ilha, que Marianinho viverá um renascimento.

O fato mais marcante da obra envolvendo Dito Mariano, além das cartas escritas de forma sobrenatural, é o momento de seu suposto enterro. Estando toda a família há muito tempo na Ilha à espera do inevitável, resolvem antecipar a despedida do mais velho dos Marianos, entretanto no momento em que Curozero Muando, o coveiro da cidade, começa a abrir a cova do anfitrião algo incomum acontece:

O coveiro levanta a pá com um gesto dolente. O metal rebrilha, fulguroso, pelos ares, flecha rumo ao chão. Contudo, em lugar do golpe suave se escuta um sonoro clinque, o rasposo ruído de metal contra metal. A pá relampeja, escoiceia como pé de cavalo e, veloz, lhe escapa da mão. Ou fosse o pássaro ndlati despenhando-se no solo terrestre? Certo é que a pá tinha embatido em coisa dura, tanto que a lâmina vinha entortada. (COUTO, 2003, p. 178)

A terra havia se fechado, para o espanto de uns e a loucura de outros, o resultado do encontro entre a pá e a terra é tão agressivo que a primeira entorta. Curozero faz outras tentativas de cavar o solo, todas elas em vão. Que fenômeno incomum era aquele? Teria alguma relação com Dito Mariano? Por que a terra se recusava a recebê-lo? Algumas suposições são levantadas pelas próprias personagens da narrativa, Curozero acreditava ser vingança da terra contra toda a poluição, as guerras e derramamentos de sangue inocente, essa seria uma forma da terra protestar contra todo o mal que o ser humano estaria fazendo a ela ou sua própria morte.

No livro A fidelidade à terra: assim falou Nietzsche IV (2003), organizado por Charles Feitosa está presente o artigo de Willis Santiago Guerra Filho intitulado “A última aventura humana sobre a terra”, no qual  reflete:

A fidelidade à terra e à vida que se tem sobre (uber) ela vem nos cobrando, exigindo, reclamando a preservação delas, que é a nossa também, isto é, uma proteção contra nós mesmos, os humanos, cada vez menos “super”, e, portanto, cada vez mais “sub”, já que o demasiado humano é desumano. (GUERRA FILHO, 2003, p. 156)

Estaria realmente a terra se vingando do humano por sua má conduta diante dela? Após tantos e tantos anos sem se importar com a preservação da terra, o humano poluiu, queimou, matou; estaria agora a terra pagando com a mesma moeda? Ou estaria sucumbindo, morrendo ou já teria morrido de uma vez por todas? Questões como essas perpassam as mentes das personagens da obra de Couto. Conforme Guerra Filho (2003) a fidelidade à terra tem nos cobrado sua preservação, entretanto, o humano tem ignorado isso; quais serão as consequências ? Curozero Muando tem suas suposições.

Reação minimamente estranha diante do fechamento da terra mostra a personagem Fulano Malta, filho de Dito Mariano e pai de Marianinho, após as tentativas fracassadas de Curozero, ele: “[…] fora dos eixos, desata a vociferar: não se devia cavar com um instrumento de metal. Isso feria a terra. Dito isso, ele se ajoelha e desata a cavar com as mãos.” (COUTO, 2003, p. 179) Fulano cava até seus dedos sangrarem e ficarem em carne viva.

Eliade em seu livro O sagrado e o profano (2001) apresenta o mito da Terra Mãe, segundo o qual  alguns povos se recusavam a trabalhar a terra com receio de ferir a sua própria mãe:

O profeta indiano Smohalla, da tribo Unatilla, recusava-se a trabalhar a terra. “É um pecado”, dizia, “ferir ou cortar, rasgar ou arranhar nossa mãe comum com trabalhos agrícolas.” E acrescentava: “Vós pedis-me que trabalhe o solo? Iria eu pegar uma faca e cravá-la no seio de minha mãe? Mas então, quando eu já estiver morto, ela não me acolherá mais em seu seio. (ELIADE, 2001, p. 116)

Postura menos radical que a do profeta indiano toma Fulano Malta, não se devia ferir a Terra com instrumento de metal, segundo a personagem, sua atitude de jogar fora o instrumento e usar as mãos para cavar, porém, não mostra resultado algum: a terra continuava fechada.

Os tios de Marianinho começam a discutir e a supor que toda aquela situação era feitiço: Ultímio acreditava que era por causa de sua aparente prosperidade financeira  e Abstinêncio supunha que era porque o irmão “traiu os mandamentos” se envolvendo na política e esquecendo a família. Problemas familiares à parte, o acontecimento permanece inexplicável e sem reversão até certo momento.

Sem cova, sem enterro: a família retorna à Nyumba-Kaya e naquela noite o narrador tem um sonho no qual “[em todo o mundo] a terra negava abrir seu manto aos humanos desígnios” (COUTO, 2003, p. 187). Em todo o mundo a terra estava fechada e ele acrescenta: “[…] ninguém fazia ideia que a raiz de tão grave desequilíbrio se localizava, afinal, na nossa pequena Ilha. Ninguém sabia que tudo começara na pessoa do avô Mariano.” (COUTO, 2003, p. 188). Logo, o narrador acreditava que o fenômeno tinha relação com o avô. Estaria Dito Mariano fechando a terra? Ou ela se recusava a aceitá-lo? Teria relação com as cartas ao neto e o fato dos dois, juntos, salvarem aquele lugar?

NYEMBETI E A RELAÇÃO DA MULHER COM A TERRA

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Outra personagem que logo nos chama atenção por sua forte relação com a terra é Nyembeti, irmã do coveiro Curozero Muando. A princípio ela aparece como a mulher por quem o protagonista da obra se interessa, segundo Curozero, seu irmão: “[…] Até dói a beleza dela. O problema sabe qual é? É que essa moça não fala direito, a língua tropeça na boca, a boca tropeça-lhe na cabeça.” (COUTO, 2003, p. 160). A moça era bonita, mas não sabia falar e nem se comunicar com as pessoas.

Após o episódio da terra fechada, Marianinho regressa a Nyumba-Kaya e durante a noite tem um sonho no qual Nyembeti aparece com a solução para o problema de ordem sobrenatural. No sonho, os dois fazem amor em uma caverna e após isso a jovem começa a cavar no lugar em que fizeram amor, segundo o narrador:As mãos em concha, escavaram a terra. […] O solo ali era fofo, minhocável, esfarelento. Nyembeti descobrira onde se podia cavar a sepultura do Avô.

Como é que você encontrou esse lugar?

Mas ela negou. Os lugares não se encontram, constroem-se. A diferença daquele lugar não estava na geografia. Apontou para nós dois e embrulhou as mãos para, em seguida, as levar ao coração. Ela queria dizer que a terra ficou assim porque nela nos amáramos? Seria o amor que reparara a terra?  (COUTO, 2003, p. 189, grifo nosso).

Tendo levantado esses questionamentos, Marianinho recorda do lençol de amores de Dito Mariano: “as amantes todas, sem exceção, ele as desfrutara na mesma cama, sobre o mesmo lençol” (COUTO, 2003, p. 43), seria realmente o amor que restauraria a terra? Eliade (2001) explica a relação da mulher com a terra:

A mulher relaciona-se, pois, misticamente com a Terra: o dar à luz é uma variante, em escala humana, da fertilidade telúrica. […] A sacralidade da mulher depende da santidade da Terra. A fecundidade feminina tem um modelo cósmico: o da Terra Mater, da Mãe universal. (ELIADE, 2001, p. 121)

Seria a fertilidade da mulher e o ato de fazer amor que abririam o solo? Nyembeti teria realmente encontrado o segredo da terra? Marianinho acorda do sonho sem saber se ele deveria ser levado a sério. O que é real e o que não é, levando em consideração que tantas coisas aparentemente “sobrenaturais” estavam acontecendo desde que o jovem retornara à Ilha?

MARIANINHO E NYEMBETI: PARTIR OU PERMANECER NA ILHA?

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Marianinho nascera em Luar-do-Chão e partira dali após a morte de sua mãe Mariavilhosa, seu vínculo com aquele lugar era muito forte, mas ali não seria o lugar de suas cinzas. Por outro lado temos Nyembeti, que ali nascera e ali morreria. Levando em consideração que são da mesma idade, podemos comparar a relação de ambos com a Ilha.

Antes de partir da Ilha, Marianinho vai ao cemitério encontrar a jovem que agora era a nova coveira da cidade, eles fazem amor em um cenário muito parecido com o do sonho que o narrador tivera e ali ele constata: “Afinal, entendo: eu não podia possuir aquela mulher enquanto não tomasse posse daquela terra. Nyembeti era Luar-do-Chão.” (COUTO, 2003, p.253). Ela era parte daquele lugar e para possuí-la, ele teria que morar na Ilha.

Qual é relação que uma pessoa tem com sua terra natal? Até que ponto uma pessoa que nunca saiu de determinado lugar está vinculada a ele? Como afirma Dito Mariano “[…] os lugares são bons e ai de quem não tenha o seu, congênito e natural. Mas os lugares nos aprisionam, são raízes que amarram a vontade da asa.” (COUTO, 2003, p. 65).

Até que ponto um determinado lugar é bom? Quando ele se torna uma prisão? Quais são as relações que uma pessoa pode ter com um determinado lugar?

TERRA: SEGREDO E FIDELIDADE

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Cada pessoa desenvolve uma relação diferente com seu lugar de origem: quem nasceu, cresceu e permaneceu sempre ali tem uma relação de certo teor; quem partiu ainda jovem por certo tem outro tipo de relação e quem simplesmente nasceu e não manteve contato tem outra relação, completamente diferente. Assim acontece com as personagens de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2003).

Marianinho sentia que Luar-do-Chão não seria o local de suas cinzas, quem mudara: ele ou a Ilha? Ou ambos? Que (re)nascimento, afinal, ele vivenciara ali? No final da narrativa ele descobre que era, não neto, mas filho do anfitrião dos Marianos. Fruto de um amor proibido entre Mariano e Admirança, irmã mais nova de sua esposa.

Afinal, é “descoberto” o mistério da terra fechada: Dito Mariano não podia levar esse segredo para o túmulo, a terra não o aceita. Após a revelação do segredo ao filho, Dito Mariano finalmente morre e a terra volta a se abrir.

Na narrativa, os questionamentos parecem respondidos, mas ela possibilita várias leituras que nos levam para questões como: o que estamos fazendo com o nosso planeta? A obra Zaratustra (2011) de Friedrich Nietzsche já nos alertava sobre a fidelidade que devemos ter com relação à terra e sua preservação. Até que ponto as guerras e a poluição ferem a terra? Precisaria ela se fechar para o Homem tomar consciência de suas responsabilidades perante o planeta? Existem coisas (mentiras/pecados) que a terra não consegue engolir?

Em sua última carta ao filho antes de sua morte definitiva, Dito Mariano revela o segredo da terra fechada e pede para que seu corpo seja jogado no rio sem que ninguém, além de Curozero Muando, veja: “[…] lembra onde foram enterrados as águas de sua mãe e o corpo de seu pequeno irmão, o pré-falecido? Junto à lagoa que nunca seca. Pois eu quero ser enterrado junto do rio.[…] Eu sou um mal-morrido. Já viu chover nesses dias? Pois sou eu que estou travando a chuva.” (COUTO, 2003, p. 238) Dito Mariano ainda acrescenta: “[…] me faça um favor: meta no meu túmulo as cartas que escrevi, deposite-as sobre o meu corpo. Faz conta me ocuparei em ler nessa minha nova casa.” (COUTO, 2003, p. 238).

Marianinho realiza os últimos desejos do pai e juntamente com Curozero Muando:

Levamos o corpo para o rio, enrolado em seu velho lençol. […] Começa a chover assim que descemos o avô à terra. Conservo as cartas em minhas mãos. Mas as folhas tombam antes de as conseguir atirara para dentro da cova.

– Curozero, ajude-me a apanhar esses papéis.

– Quais papéis?

Só eu vejo as folhas esvoando, caindo e se adentrando no solo. […] vou apanhando as cartas uma por uma. É então que reparo: as letras se esbatem, e o papel se empapa, desfazendo-se num nada. Num ápice, meus dedos folheiam ausências.

Quais papéis? – insiste Curozero. (COUTO, 2003, 239-240)

As cartas haviam se desfeito e Marianinho mergulha no rio: “ […]  não sei do que nos lavamos. Para mim, o rio, de tão sujo, só nos pode conspurcar. Todavia, cumpro o ritual, preceito a preceito.” (COUTO, 2003, p. 240) Após o fim do ritual Curozero Muando afirma: “[…] seu Avô está abrindo os ventos. A chuva está solta, a terra vai conceber.” (COUTO, 2003, p. 240).

Chove durante muitos dias na Ilha e a terra finalmente se abre. Marianinho se despede dos moradores da Ilha e termina a narrativa lendo a última carta do Avô (pai), na carta o agora falecido Mariano afirma: “[…] você, meu neto, cumpriu o ciclo das visitas. E visitou casa, terra, homem, rio: o mesmo ser; só diferindo em nome. Há um rio que nasce dentro de nó, corre por dentro da casa e deságua não no mar, mas na terra. Esse rio uns chamam de vida.” (COUTO, 2003, p. 258) Dito Marino batiza de vários nomes a vida e confessa o alívio que sente por ter finalmente conseguido atravessar a fronteira vida/morte.

Marianinho agora seguiria sua vida ciente de sua verdadeira identidade e sua relação com Luar-do-Chão. Ele voltaria para a cidade? Provavelmente. Certo é que ele realmente vivenciara um (re)nascimento ali e ainda visitara o mundo dos mortos através das cartas de Mariano, vivenciara ainda uma série de experiências mágicas que tornavam sua vida completamente diferente da cotidiana na cidade.

A relação entre uma pessoa e a sua terra de origem é muito particular: existem pessoas para as quais não faz a menor diferença estar em seu lugar de origem ou não, enquanto outras têm um forte vínculo com a terra natal.

Ser ou não ser fiel a terra? Preservá-la ou não? Quebrar ou fortalecer vínculos com o seu local de origem? A terra também protesta? Ela se recusa a receber certos segredos e mentiras?

[1]Em seus contos e romances, Mia Couto grafa sempre os diálogos com uma fonte destacada, não só para distingui-los no corpo do texto, mas também para dar relevo à palavra falada – afinal, é no mundo da oralidade que Mia Couto recolhe as tradições africanas que deseja ver preservadas. (SILVA, 2008, p. 315).

[2] Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.

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A PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO: UMA PERSPECTIVA DO VAZIO – UM LANÇAR DE OLHOS SOBRE JOÃO CABRAL DE MELO NETO

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Por Leandro Bertoldo Silva

Você já sentiu isso?

Aquele estado de profunda beleza que te deixa imóvel por alguns segundos?

Você percebe que alguma coisa modificou seus sentimentos, te provocou, te fez sair do lugar comum e que você já não é mais o mesmo. Todas as suas convicções, suas certezas, seus conceitos foram revirados, mexidos, tocados…

E você acha isso bom…

Embora ainda não saiba como explicar, nem mesmo compreender tudo que leu, sabe que ali, naquelas linhas, naqueles versos há um pluriverso de possibilidades que podem se transformar em outras verdades…

Aliás, há outras verdades?

Sim, há! Todas “escondidas” entre os versos de um poema que, por si mesmo, nos incita, adverte, desafia, contradiz, antecipa-nos as dúvidas, dialetiza nossas certezas…

É dentro desta contemplação que vive o poema. Esta é a sua casa, o seu lugar. E um dos maiores anfitriões deste espaço de tudo e nada, daquilo que nos prende por um detalhe à primeira vista insignificante, mas que na verdade é o ápice das considerações dinâmicas do todo, é o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, que teve a coragem de rejeitar os “excessos” e caminhar na contramão dos sentimentos para elaborar uma poesia crua e disciplinada, nos mostrando um caminho antirromântico e ao mesmo tempo profundamente encantador.

É este o tema desse artigo. Partindo do poema A PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO, de João Cabral, o artigo (na verdade um ensaio) tende a mostrar a compreensão do que seja tal psicologia que se arboriza e se ramifica em questões complexas e muitas vezes paradoxais que, antes de se rejeitarem, se completam, revelando a genialidade e a pura arte de lidar com a palavra.

Este artigo é um pequeno ensaio para quem gosta não apenas de poesia, mas da poesia de João Cabral de Melo Neto, que é bem diferente…

Está preparado(a) para uma experiência ainda não imaginada? Então vamos lá…

Continue lendo para saber mais sobre:

  • As considerações essenciais da psicologia da composição, extraídas do poema de mesmo nome
  • Como a psicologia da composição contribuiu e contribui para a ruptura com o lirismo em busca da comunicação poética

Se você já gostou do assunto desse artigo, não deixe de compartilhá-lo com seus amigos para que cada vez mais pessoas possam se inteirar do universo de João Cabral de Melo Neto e de sua “psicologia” que se arboriza e se ramifica em questões complexas, muitas vezes paradoxais, que terá na linguagem grandes achados gerais de comunicação.

Mas antes mesmo de qualquer coisa, conheçamos o poema A Psicologia da Composição, de João Cabral de Melo Neto.

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A Psicologia da Composição

(João Cabral de Melo Neto)

Saio de meu poema

como quem lava as mãos.

Algumas conchas tornaram-se,

que o sol da atenção

cristalizou; alguma palavra

que desabrochei, como a um pássaro.

Talvez alguma concha

dessas (ou pássaro) lembre,

côncava, o corpo do gesto

extinto que o ar já preencheu;

talvez, como a camisa

vazia, que despi.

Esta folha branca

me proscreve o sonho,

me incita ao verso

nítido e preciso.

Eu me refugio

nesta praia pura

onde nada existe

em que a noite pouse.

Como não há noite

cessa toda fonte;

como não há fonte

cessa toda fuga;

como não há fuga

nada lembra o fluir

de meu tempo, ao vento

que nele sopra o tempo.

Neste papel

pode teu sal

virar cinza;

pode o limão

virar pedra;

o sol da pele,

o trigo do corpo

virar cinza.

(Teme, por isso,

a jovem manhã

sobre as flores

da véspera.)

Neste papel

logo fenecem

as roxas, mornas

flores morais;

todas as fluidas

flores da pressa;

todas as úmidas

flores do sonho.

(Espera, por isso,

que a jovem manhã

te venha revelar

as flores da véspera.)

O poema, com seus cavalos,

quer explodir

teu tempo claro; rompendo

seu branco fio, seu cimento

mudo e fresco.

(O descuido ficara aberto

de par em par;

um sonho passou, deixando

fiapos, logo árvores instantâneas

coagulando a preguiça.)

Vivo com certas palavras,

abelhas domésticas.

Do dia aberto

(branco guarda-sol)

esses lúcidos fusos retiram

o fio de mel

(do dia que abriu

também como flor)

que na noite

(poço onde vai tombar

a aérea flor)

persistirá: louro

sabor, e ácido

contra o açúcar do podre.

Não a forma encontrada

como uma concha, perdida

nos frouxos areais

como cabelos;

não a forma obtida

em lance santo ou raro,

tiro nas lebres de vidro

do invisível;

mas a forma atingida

como a ponta do novelo

que a atenção, lenta,

desenrola,

aranha; como o mais extremo

desse fio frágil, que se rompe

ao peso, sempre, das mãos

enormes.

É mineral o papel

onde escrever

o verso; o verso

que é possível não fazer.

São minerais

as flores e as plantas,

as frutas, os bichos

quando em estado de palavra.

É mineral

a linha do horizonte,

nossos nomes, essas coisas

feitas de palavras.

É mineral, por fim,

qualquer livro:

que é mineral a palavra

escrita, a fria natureza

da palavra escrita.

Cultivar o deserto

como um pomar às avessas.

(A árvore destila

a terra, gota a gota;

a terra completa

caiu, fruto!

Enquanto na ordem

de outro pomar

a atenção destila

palavras maduras.)

Cultivar o deserto

como um pomar às avessas:

então, nada mais

destila; evapora;

onde foi maçã

resta uma fome;

onde foi palavra

(potros ou touros

contidos) resta a severa

forma do vazio.

 

AS CONSIDERAÇÕES ESSENCIAIS DA PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO, EXTRAÍDAS DO POEMA DE MESMO NOME

palavra

Depuramento, equilíbrio, controle racional, poiesis que favorece a construtividade do poema, escala reflexiva e metalinguística, mutilação do sentimento, secura emocional. Aqui reside a Psicologia da Composição, de João Cabral de Melo Neto, que se estende por questões altamente complexas. Partiremos exatamente da poiesis, pois, a partir dela, todas as outras questões irão se encaixando como num verdadeiro quebra-cabeça ou, já reportando a metáforas, como num prédio em construção cuja matéria prima – o tijolo – é nada mais, nada menos, do que a palavra.

A preocupação de João Cabral com a construtividade do poema é tão grande, que é evidente em sua produção poética um despojo de sentimentalismo, graças à preocupação formal que lhe é inerente. Essa preocupação formal, a qual é necessária para que aconteça de fato a comunicação poética através da seleção vocabular, faz com que a sua poesia seja limpa, sem excesso de verbalismo, essencialmente visual e, por isso mesmo, beirando a prosa. Sendo assim, João Cabral é um poeta antirromântico e antissentimental, o qual defende que a essência da arte está na palavra objetivada pura e crua e não no que ela invoca, ou melhor dizendo, no seu sentimento.

De fato, se observarmos, tal preocupação construtivista se faz presente no próprio título “A PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO”. Psicologia vem do grego psyche, elemento comparativo de psiqu(e), que significa alento, sopro de vida, alma. A princípio, os estudiosos de João Cabral podem se assustar, ou no mínimo, estranhar, pois, como foi dito, o poeta é um antissentimental, ou seja, para ele a poesia não existe na emoção, mas na razão, e ‘alma’ nos remete a um estado comum de sentimentalismo e transcendência.

Porém, composição vem de compor, que é produzir, inventar, dar feitio ou forma, isto é, exatamente construir. Assim, para João Cabral a alma da poesia vem da construção, do pensamento racional, o que vem comprovar e ratificar a sua posição antirromântica contra aqueles que acham que a poesia está na emoção.

Essa psicologia cabralina está presente em todos os momentos da segunda fase do poeta que, a partir daí, sela, num laço matrimonial, uma união sólida e sem risco de separação. Torna-se um processo criativo de produção poética que culminará às vezes de forma isolada, outras vezes cotejada, mas sempre diferenciada em seus modos de compor. É onde a linguagem se apresenta ora de forma salientada, outra ora implícita e alegoricamente fechada em matérias diversas e, ainda, embutida num assunto mais específico.

A Psicologia da Composição, como disse, traz fatos paradoxais, mas o que vem a ser isso? São os contrastes que encontramos em sua construção poética. Tais contrastes evidenciam-se em ações redutivas como as de lavar e de despir para a busca do vazio, não para se anular, mas para preencher. Escreve João Cabral:

 “saio do meu poema como quem lava as mãos”.

Repare que o Poeta se mantém fora de seu próprio poema com intuito de anular toda uma emoção criadora que, por ventura, possa existir. É interessante observar que Cabral, no ato de ‘lavar’ as mãos, constrói uma das mais antigas tradições imaginárias da simbologia da água e, portanto, neste caso, a mais coerente também, que é o fato de purificar-se dos seus sentimentos e regenerar-se através da água, massa indiferenciada com o poder de desintegração, condicionando uma fase progressiva de reintegração. Isso significa um retirar da subjetividade para o acréscimo da linguagem formadora. Evidencia-se, portanto, a busca de um somatório a partir de operações diminutivas. É como dizer que o fogo queima sem arder ou que suas chamas ardem sem queimar. Isso faz parte de uma ascese intelectual carregada de negatividade, cuja depuração dos sentimentos se exterioriza de forma dialética, isto é, uma forma que está sempre em movimento (água) como num “fazer que desfaz e num desfazer que refaz” (“A máquina do poema”).

Ainda sobre a água, na Ásia, ela é a forma substancial da manifestação, o símbolo da fertilidade e da sabedoria, da coesão e da coagulação. Interessante notar que na continuação do poema, Cabral diz:

 “Algumas conchas tornaram-se, que o sol da atenção cristalizou (…)”.

Se associarmos o ato de cristalizar da concha com a coagulação da água, veremos que a idéia construída é a da secura e do menos, que se associa à negatividade, cujo sol se manifestou como princípio e razão. Repare que o sol nos remete à clareza que está no mesmo campo semântico da objetividade que se diferencia, portanto, da noite que é o seu oposto, ou seja, a subjetividade e a emoção.

Vale dizer que na tradição oriental, o dia e a noite representados, respectivamente, pelo sol e a lua, confere a essa o significado de empurrar, afastar, enquanto ao sol cabe-lhe a tarefa de puxar, atrair, ou seja, em nosso raciocínio, é o mesmo que dizer que ‘afastando’ a emoção (lavando as mãos), ‘atrairemos’ a razão, isto é, a objetividade do poema. Se atentarmos para o fato de que na simbologia a lua também se liga à água e o sol se liga ao fogo e que, por sua vez, a água se liga ao pulmão pelo seu processo de absorção e purificação do ar, cujas partículas de água se faz presente, e o fogo ao estômago pelo processo de retenção onde é atraído o alimento para a retirada do que é substancial, veremos que realmente João Cabral é um poeta da construção, do pensamento, da perspicácia, da coerência e da objetividade, sempre a favor de uma preocupação formal e metalinguística, pois ele sempre utiliza de um ato para explicar outro.

É o signo dentro do signo (significante) que se refere a um significado comum. Até mesmo a concha possui o seu sentido se a olharmos como algo vazio a qual foi preenchida pelo vento:

“Talvez alguma concha dessas (ou pássaro) lembre, côncava, o corpo do gesto extinto que o ar já preencheu (…)”.

Repare que o poeta assemelha a concha ao pássaro. É perfeitamente compreensivo se observarmos que o pássaro quando voa preenche as sua asas com o vento…

Assim, entramos num ponto crucial da Psicologia da Composição – a negação, por completo, da forma encontrada pela forma preenchida. Isso quer dizer que para o autor de Morte e vida severina, a poesia não é obra do acaso ou obtida por intervenção divina, como pensavam os românticos. Antes disso, a poesia, como vimos, é construída e, por isso, é necessário paciência, esforço, inteligência, perseverança e atenção.

Farei aqui um recorte para a questão da ‘atenção’, pois ela é um fator extremamente importante para compreendermos a poesia de João Cabral. É ela que irá retirar a emoção e guiar o Poeta que terá, na folha de papel, seu canal para a injeção de imagens em busca da poesia construída.

“Esta folha branca me proscreve o sonho, me incita ao verso nítido e preciso.”

Cabral ainda escreve:

“Eu me refugio nesta praia pura onde nada existe em que a noite pouse.”

Observe que o poeta associa a folha branca do papel com a praia pura onde nada existe em que a noite pouse, ou seja, além da evidência metalinguística – um signo e ideia que se refere a um outro signo e ideia para a construção de um único sentido – João Cabral usa de metáforas inusitadas e cotidianas para dizer que a folha, por ser branca, está vazia como a praia onde nada existe para que a noite venha.

Assim, predomina a imagem novamente do sol que se harmoniza com a ideia de clareza embutida na folha branca (repare que não é escura) diferenciando com a noite. É exatamente aqui que a ‘atenção’ prevalecerá, pois ela fará com que o poeta se fixe na folha de papel, que por ser branca, o ajudará a não se desvencilhar e se perder no escuro das emoções… E ainda continua:

“Como não há noite cessa toda fonte; como não há fonte cessa toda fuga; como não há fuga nada lembra o fluir de meu tempo, ao vento que nele sopra o tempo”.

Repare que Cabral se refere à ‘fonte’ como a inspiração, cuja essência é negada, da mesma forma que nega o tempo em que sua poesia era fluida (como a água), sem a ‘atenção’ da racionalidade. É novamente a presença da metalinguagem, a qual critica até mesmo a sua forma de escrever, ou melhor dizendo, a sua antiforma. A ‘atenção’, assim, é responsável pela sabedoria de João Cabral, que enxerga o positivo dentro do negativo, ou seja, vislumbra a poesia dentro do vazio, do menos, do nada.

É por isso que João Cabral ainda escreve:

“Neste papel logo fenecem as roxas, mornas flores morais; todas as fluidas flores da pressa; todas as úmidas flores do sonho”.

É a forma utilizada pelo poeta de ir contra a poesia solta, sem reflexão, fluida e sem preocupação formal que dilacera a verdadeira arte de escrever e de compor. Levando-se em conta que, embora cada flor possua, pelo menos secundariamente, um símbolo próprio, ela não deixa de ser, de maneira geral, símbolo do princípio passivo (a mulher) e, como tal, não corresponde à poesia construída e pensada que, ao contrário, clama pelo princípio ativo da racionalidade.

É curioso observar que pela significação (simbologia), o cálice da flor é o receptáculo da Atividade Celeste, entre cujos símbolos estão a chuva e o orvalho e, como já sabemos, para João Cabral a poesia não é alcançada pela providência divina, ou seja, ele não concebe o poeta como um ser iluminado, o que faz com que essa simbologia da flor como significação celeste seja realmente negada. Interessante ainda notar que essa simbologia continua se referindo à umidade (água) fluida, também negada completamente em razão da poesia objetiva.

Todo esse esmero cuidadoso dispensado à arte de compor, vem do pressuposto que, se assim não for, o descuido e o acaso podem vir fortuitamente e fazer com que a emoção supere a razão, fazendo, por sua vez, com que a poesia se desestruturalize e, por conseguinte, passe a se encontrar mutilada ou, até mesmo, morta.

Por isso, faz-se necessário domar as palavras como a um cavalo e impedir a emoção.

 “O poema, com seus cavalos, quer explodir teu tempo claro; romper seu branco fio, seu cimento mudo e fresco”.

Repare a ideia de enclausuramento existente no ‘cimento mudo e fresco’ em que a poesia é forçada a ficar para que sua existência permaneça. Repare, igualmente, que o cimento é fresco e não endurecido, o que significa que há sempre o risco de ser transposto e invadido pela emoção representada, metaforicamente, pelo cavalo. O cavalo é um animal cuja força é superior a do homem, e uma crença, que parece estar fixada na memória de todos os povos, associa originalmente o cavalo às trevas. Ele é o filho da noite e do mistério. Todos esses atributos relacionados ao cavalo são tudo o que João Cabral renega: trevas = noite; mistério = subjetividade, em contraposição de clareza = dia; verdade = objetividade. É por esse motivo que o ‘cavalo’ precisa ser domado, pois:

“O descuido ficará aberto de par em par; um sonho passou, deixando fiapos, logo árvores instantâneas coagulando a preguiça”.

O risco, pois, é enorme. O ‘sonho’ que, de um fiapo, pode se transformar em grandes árvores, ou seja, a emoção, que tudo pode, pode também tomar conta da razão.

Assim, é preciso que a ‘atenção’ permaneça viva para que sua existência aja sob as palavras, a fim de ‘domesticá-las’ como se faz com as abelhas:

“Vivo com certas palavras, abelhas domésticas. Do dia aberto (branco guarda-sol) esses lúcidos fusos retiram o fio do mel (do dia que abriu também como flor) (…)”.

Nessa passagem, as palavras se encontram no mesmo campo semântico das abelhas que picam e incomodam, mas produzem mel. Elas constroem o casulo e, pela flor, dá origem ao mel que é agradável. É, antes de tudo, um símbolo vasto de riqueza, de coisa completa e, sobretudo, de doçura. O mel (emoção) se opõe ao amargo do fel (palavra pura). Segundo Dionísio, o mel designará a cultura religiosa, o conhecimento místico, os bens espirituais, a revelação ao iniciado. Virgílio chamará o mel de dom celeste do orvalho. O mel designará a beatitude suprema do espírito e o estado de Nirvana, que é o símbolo de todas as doçuras. O mel realiza a abolição da dor.

Dito isso, continua sendo tudo ao contrário do que pensa João Cabral, pois, mais uma vez, para ele a inspiração e a emoção não existem e, sendo assim, a poesia não vem de Deus. Muito pelo contrário, a poesia causa dor e sofrimento em seu processo de criação e produção. É por isso que para João Cabral, o poeta deve se postar acima das palavras, a fim de domesticá-las, sempre.

Relacionadas todas essas questões, evidenciarei a importância “não da forma encontrada como uma concha, perdida nos frouxos areais” ou da “forma obtida em lance santo ou raro (…)” que, creio, está bem entendida através de seus códigos marítimo e religioso negados por João Cabral. Tratarei, pois, do código da construção propriamente dita que mantém no ‘novelo’ e na ‘aranha’ a sua razão de ser.

Assim, temos:

“Não a forma encontrada (…); não a forma obtida (…); mas a forma atingida como a ponta do novelo que a atenção, lenta, desenrola, aranha; como o mais extremo desse fio frágil, que se rompe ao peso, sempre, das mãos enormes”.

 Observe que a ideia que se evidencia é da atividade de tecer em que a ponta do novelo vai se desenrolando lentamente a fim de se construir algo. É como a aranha que tece a sua teia, sempre movida pela atenção para que aja perfeita igualdade simétrica em sua forma. Porém, a teia, de fios frágeis, se rompe, sempre, ao peso das mãos enormes. Se observarmos, será sempre um processo de desfazer para fazer e refazer, sempre assim. Repare que, em relação ao novelo, esse, primeiro, terá que se desfazer para que seu fio se faça em alguma coisa. Já em relação à aranha, essa estará sempre buscando uma forma que, certamente, diferenciará de uma para a outra, sempre que seus fios se romperem pelo peso das mãos e serem refeitos.

A preocupação enquanto forma simétrica, cuja relação encontra-se no ato de tecer, vem de encontro à preocupação da elaboração formal que João Cabral despende à sua poesia pois, para ele, deve-se desconfiar da espontaneidade ou de tudo que não tenha sido submetido, antes, a uma elaboração cuidadosa. E, de fato, se olharmos com atenção a forma final da teia da aranha ou o produto proveniente de um fio de lã, eles serão sempre diferentes de um para outro, mas existirá nesses atos uma razão lógica de ser, não sendo, portanto, sua confecção simplesmente por acaso.

E é esse fazer e desfazer que acabará por criar um ciclo inacabado onde, tratando o fio do novelo ou da teia como poesia, o poeta estará sempre buscando uma forma nova e criadora, o que significa que ele terá, sim, a sua poesia percebida e perseguida, mas nunca completamente alcançada. E será exatamente este não alcançar que irá gerar angústia e sofrimento evidenciado, no caso de João Cabral, em sua produção poética. Tudo isso diz respeito ao seu estilo quanto à sua atitude criadora, ou seja, é o estilo cauteloso, lento, de avanço e de recuo, de paciência e de atenção como quem enrola e desenrola, em movimentos de ida e volta, nos fios do discurso que os fusos das palavras tramam a rede verbal das coisas.

Tanto a angústia como o sofrimento pode ser visto como um estado de negação, em que a felicidade, com toda sua emoção e sentimentalismo associados, não só ao homem, como também às flores, aos animais, ao horizonte e, por fim, à natureza, é posta em segundo plano, ou melhor dizendo, não se manifesta frente à crueza fria das palavras. Neste sentido, João Cabral associa a palavra ao mesmo universo da pedra, isto é, para ele a palavra não passa de um objeto inerte, frio e destituído de sentimentos. Pode-se verificar isso ao observar a seguinte passagem de sua Psicologia da Composição:

“São minerais as flores e as plantas, as frutas, os bichos quando em estado de palavra. É mineral a linha do horizonte, nossos nomes, essas coisas feitas de palavras. É mineral, por fim, qualquer livro: que é mineral a palavra escrita, a fria natureza da palavra escrita”.

Observe que para João Cabral tudo é mineral – as plantas, os bichos, nossos nomes, as palavras, etc. Mineral vem de minério que, por sua vez, nos remete à pedra. Essa é tida como elemento de construção e está ligada ao sedentarismo dos povos e a uma espécie de cristalização cíclica. Isso significa que, cristalizada a pedra, essa ficará cada vez mais sólida e se assemelhará à ideia do objetivismo, diferentemente do líquido (fluido) que encontramos, por vez, numa ideia subjetiva. Para o Poeta, tudo que existe enquanto palavra é sólido, frio e bruto como a pedra. Até mesmo o papel, morada da palavra, é essencialmente pedra:

“É mineral o papel onde escrever o verso; o verso que é possível não fazer”.

Por fim, este estado de crueza e melancolia pelo vazio, cuja essência do sentimento se faz necessário, é evidenciado na última parte da Psicologia da Composição, quando João Cabral diz:

“Cultivar o deserto como um pomar às avessas”, ou seja, tudo precisa ser vazio, sem nenhuma emoção como ‘um pomar sem frutos’. Esses, quando existem, caem ao chão e apodrecem. É preciso, portanto, cultivar um pomar utilizando-se da atenção para impedir o nascimento do fruto e incentivar a permanência do vazio, pois aí reside o verdadeiro pomar, isto é, a verdadeira poesia destituída de inspiração e sentimento.

Assim, o pomar é constituído de palavras que renega o fruto e se saboreia com sua ausência:

“então, nada mais destila; evapora; onde foi maçã resta uma fome; onde foi palavra (potros ou touros contidos) resta a severa forma do vazio”.

Interessante notar que touro, nas religiões indo-mediterrâneas, representa os deuses celestes, ideia religiosa ligada à espiritualidade e sentimento e negada por João Cabral o tempo todo em sua criação poética e, por isso mesmo, devendo ficar contida no vazio.

COMO A PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO CONTRIBUIU E CONTRIBUI PARA A RUPTURA COM O LIRISMO EM BUSCA DA COMUNICAÇÃO POÉTICA

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 A Psicologia da composição, enquanto poética negativa, em que João Cabral constrói toda uma forma própria de pensar e sentir, caracteriza a ruptura com o romântico tradicional, pois, como já vimos, a poesia cabralina visa às palavras e não os sentimentos. Esses são neutralizados pela intelectualidade racional em que a secura emocional inviabiliza o eu lírico e todas as suas expressividades, numa espécie de epoqué, que é o que determina uma troca de valores daquilo que é posto em evidência. Essa troca de valores quer dizer que, na verdade, os sentimentos não são anulados por completo, e sim percebidos de formas diferentes e reduzidos (poética negativa) de acordo com a nossa liberdade.

Assim, podemos dizer que a poesia de João Cabral de Melo Neto, é uma poesia em constante luta entre a razão e a emoção, ou seja, na realidade ele nem supera e nem liquida de todo o lirismo. O que acontece não é uma anulação total, mas um esvaziamento sentimental que caracterizará numa perda de efetividade empírica.

Essa tão caótica situação é compreendida a partir de duas premissas: a primeira é que João Cabral não rompe com as formas tradicionais do verso, pois ele inventa a sua linguagem a partir delas. É, portanto, a constatação do paradoxo da obra de João Cabral que se mantém no seu estado de construção aliado ao verso do qual não se abdica, embora o modifique em relação ao seu estado sentimental e romântico. É por isso que disse sempre que João Cabral de Melo Neto é considerado um poeta antissentimental e antirromântico. É a partir dessa modificação que poderemos vislumbrar a segunda premissa, onde os versos e estrofes mais tradicionais são, para o autor de O cão sem plumas, os menos literários possíveis. Cabral prefere que seus versos atinjam uma esfera bem mais popular para que aja comunicação poética. Ainda defende que para haver essa comunicação, a qual é uma das razões primeiras da poesia, o objetivismo precisa tomar o lugar do subjetivismo, ou seja, é preciso modernizar o poema quanto à sua estrutura, métrica, enfim, colocá-lo mais próximo das pessoas. Tudo isso é notado na própria Psicologia da Composição, quando o poeta utiliza-se de formas e nomes comuns que fazem parte do cotidiano das pessoas como cavalo, aranha, novelo, abelha, e outras mais.

Porém, nossa atenção é chamada para percebermos o descomprometimento da tendência moderna típica que, segundo sua percepção, também não atingiu uma condição comunicativa exata. Em relação a isso, são as próprias palavras do Poeta:

“O poema moderno típico é um híbrido monólogo interior e discurso de praça, de diário íntimo e de declaração de princípio, de balbucio e de hermenêutica filosófica, monotonamente linear e sem estrutura discursiva ou desenvolvimento melódico, escrito quase sempre na primeira pessoa e usado indiferentemente para qualquer espécie de mensagem que o seu autor possa enviar.(…) Esse tipo de poema é a própria ausência de construção e organização; é o simples acúmulo de material poético, rico, é verdade, em seu tratamento de verso, da imagem e da palavra, mas atirado desordenadamente, numa caixa de depósito”.

Assim, a falta de preocupação organizacional e de construção, isto é, a liberdade pura e simples observada na tendência moderna, também desfavorece a comunicação poética. Portanto, para João Cabral é necessário que o poeta não renuncie o espírito de pesquisa formal da linguagem com suas respectivas técnicas, mas, no entanto, não pode deixar que essa linguagem, ou mais precisamente, essa preocupação formal, o enclausure e o pode enquanto sujeito criativo.

São por esses motivos que a poesia de João Cabral de Melo Neto é, ao mesmo tempo, percebida e buscada intensamente, porém jamais alcançada por completo. É a perspectiva do vazio, a luta incansável, sofrida, angustiante e interminável, que faz da Psicologia da Composição a maneira complexa, intrigante e instigante de ser do poeta pernambucano.

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