PALAVRAS

Uma vez, quando me perguntado qual a palavra que eu mais gosto de pronunciar, respondi sem hesitar: a palavra PALAVRA.

Na turma Paulina Chiziane, da Vivência Novos Autores, formada por nossos amigos e irmãos angolanos, uma proposta foi lançada: escrever, a partir da história “A grande fábrica de palavras”, de Agnés de Letrasde e Valeria Docampo, que conta a saga de um país onde as pessoas quase não falam, pois, para isso, seria preciso comprar as palavras e engoli-las para poder pronunciá-las, António Alexandre e Tome Nassapulo mostram o quanto é preciso ousar e acreditar porque, no fundo, as palavras não podem se calar.

A coragem de falar, seja pela oralidade, seja pela escrita, é matéria de fortalecimento, de justiça e de necessidade para o surgimento da consciência em que a poesia é berço que se estende, é flor que desabrocha.

António Alexandre e Tomé Nassapulo nos brinda, pois, com suas palavras:  EMPATIA e ESTÁVEL.

Que tenham um ótimo despertar…
(Leandro Bertoldo Silva).

ESTÁVEL

Do magro salário sobrevivo

Numa terra onde tudo é caro

Onde tudo cresce.

Do meu trabalho árduo fico desanimadamente alegre

Neste mundo de injustiça salarial.

Procuro viver dele, porém apenas sobrevivo na paz.

Ele no bolso não resiste, pois também é para os filhos e os pais.

Magro salário deixa- me em bairro escuro.

Magro salário deixa- me inseguro

Para feijão, arroz, leite, pão e açúcar.

Ah!

Continuo professor com salário estável.

Por António Alexandre

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SOU UM POETA

Sou um poeta

Empunhando uma caneta

Floreio as feridas abertas

Enxergo as teias

Tecidas nas vidas alheias

Retalho corações em fatias enfartadas de dores

Saro as almas quebradas nas patias com empatia

Sem sintonia com físico recolho-me na metafísica

E vivo sonhos numa telepatia cósmica.

Por: Tomé Nassapulo

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Quarta Literária é uma ação da árvore das Letras de fomento à literatura independente.

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HAICAI A ARTE DA POESIA – QUANDO O DISCÍPULO ESTÁ PRONTO, O MESTRE APARECE

Por Leandro Bertoldo Silva

Hoje eu quero falar com vocês sobre como se deu o meu encontro, ou melhor dizendo, o meu enlace matrimonial com a poesia. Mas não é qualquer poesia, estou falando dos haicais, aqueles micro poemas que tentam captar a essência de um momento, como se fossem um flash, um instantâneo, o momento exato de uma fotografia.

Bem, antes de falar desse meu encontro, eu preciso dizer algo para vocês: muita gente fala não gostar de poesia, que acha a poesia algo difícil, quando na verdade é o oposto, ou seja, é natural gostar de poesia. Isso eu aprendi com Carlos Felipe Moisés, e eu concordo plenamente com ele, quando em um livro chamado “Poesia não é difícil”, ele desmistifica essa história de poesia inalcançável e diz que isso só existe na poesia de sala de aula, ou seja, quando as pessoas, no caso os alunos, são obrigados a entender e explicar a poesia de forma racional, de forma acadêmica, às vezes até pra ganhar uma nota, e que isso não existe, ou pelo menos não poderia existir, porque poesia não se explica, poesia se sente.

Então é dentro desse universo que eu chego aos haicais.

Existe um antigo ditado chinês que diz: “Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece”.

Bem, foi mais ou menos isso que aconteceu comigo, embora não havia nenhum mestre em questão, mas sim uma ocasião muito específica e eu tive a sorte de estar no lugar certo na hora certa.

O ano era 2012. Aquele ano fora mágico em todos os sentidos. Entre algumas coisas, conheci jovens fascinantes na escola onde dava aulas, hoje todos adultos; fui convidado a integrar a Academia de Letras de Teófilo Otoni como membro correspondente, hoje ocupo a cadeira 27 como membro titular, e muitas outras coisas dignas de boas memórias. Mas uma delas marcou profundamente a minha vida e me ajudou a marcar a vida de muita gente também.

Por motivo de um projeto de leitura muito bem sucedido no qual organizei e me dediquei ao longo de todo aquele ano, fui convidado a apresentar o resultado do mesmo em um evento em Belo Horizonte chamado “Boas Práticas Educacionais”. Lá estavam os melhores projetos de escolas credenciadas de uma referida rede de ensino, desenvolvidos e executados em várias cidades do Brasil. Tudo caminhava para esse lado exclusivamente acadêmico não fosse um projeto específico a me arrebatar para outro lugar o qual não desejei mais sair, como, de fato, não saí até hoje e nem pretendo. Uma das escolas presentes desenvolveu com seus alunos a escrita de haicais, aqueles micro poemas de 3 versos e 17 sílabas. Eu já havia ouvido falar e até lido aqui e ali alguns haicais, mas, até aquele momento eu nuca tinha parado para apreciar. Apreciar…

O projeto consistia em fotografar a própria escola em ângulos sutis, como a folha de uma árvore na quadra da escola em dia de chuva, a marca do escorregador após o recreio, a caixa de giz do professor em contraste com o quadro negro ou a borracha gasta no caderno de um aluno e outros momentos do dia a dia, coisas simples do cotidiano.

Cada momento desse era ilustrado, além das fotografias transformadas em cartões postais, com os surpreendentes versos a fazer emocionar e estremecer cada parte do meu ser. Não, não estou a exagerar. O efeito que aqueles poemas causaram em mim foi algo como abrir as portas de uma nova existência. Nem mais lembrava o motivo de estar ali, embora, segundo relatos de colegas, a minha apresentação causou emoção e aplausos nas pessoas.

Mas sinceramente o meu mundo não mais pertencia àquele lugar de falas, debates acadêmicos e de universo escolar, mas sim àqueles versos que começaram a eclodir dentro de mim, da minha cabeça e do meu coração. Passei a escrever as flores, os ventos, os animais, as árvores, assim como os cheiros e os sabores. Escutei os passarinhos e senti o perfume das manhãs. Galopei em nuvens e contemplei o pôr do sol.  Observei um banco vazio em uma praça e enchi-me de versos. Tudo isso depois daquele dia memorável para mim e assim permaneço até hoje.

Não me lembro de mais nada daquele dia após o meu encontro com os haicais. Só sei que naquele exato momento eu havia encontrado um mestre. Ele me conduziu a muitos versos e eu os escrevia e publicava nas redes sociais. Daí a sair publicado o meu primeiro livro de haicais não houve muita demora. Nascia assim o Relicário Pessoal – haicais, um dos meus livros mais vendidos.

Passei a ensinar a arte do haicai para muitas pessoas entre alunos e amigos; muitos se tornando igualmente apaixonados haicaístas. O meu amor por esses pequenos versos é tamanho que anos depois do primeiro encontro, mais um tanto após o meu livro, mais um pouco ao incentivar muitas pessoas neste encontro de sílabas poéticas e gramaticais, criei com um profundo carinho um E-book chamado Haicai A Arte da Poesia. Trata-se de um guia passo a passo para quem desejar se aventurar ou se aprimorar na escrita do haicai.

Mas não é só isso!

Nele é possível entender a essência da poesia e saber o porquê é natural todos a amarem, muito diferente de achá-la difícil ou de não ter sido feita para você. Fala da natureza do haicai e a sua relação com nós mesmos, com as estações do ano, até mesmo de como usar os pequenos versos como prática de meditação. Fala de muitas outras coisas e tudo a partir de uma pequena história.

É um livrinho mágico que escrevi, como disse, com muito carinho, pensando em propagar a sutil arte da delicadeza e a força de bem-estar contida nessa poesia tão apaixonante. Se me fez tão bem eu sei que pode fazer bem também para muitas pessoas. Por isso, vou deixar aqui logo abaixo o link de onde você pode encontrar este E-book a um valor super acessível e de forma muito segura. E espero que ao adquiri-lo, caso sinta esse desejo, possa também escrever os seus versos e entrega-los ao mundo. Tenho certeza que eu algum lugar alguém se sentirá acolhido com eles e terá, quem sabe, como aconteceu comigo, sua vida transformada.

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Pessoal, acho que esse é o primeiro texto que finalizo fazendo uma venda tão direta. Sim, é uma venda, mas uma venda do bem, porque eu sei do valor contido nesse trabalho. E é natural querer oferecer aquilo que nos fez tão bem. Espero que isso chegue até você de uma forma carinhosa e muito respeitosa. O link está aqui e se for do seu desejo, seja bem-vindo, seja bem-vinda ao mundo maravilhoso do haicai, a arte da poesia.

Adquira o E-book aqui: https://chk.eduzz.com/2297573

Agradeço do fundo do coração.

Forte abraço!
Até a próxima.

CONTADOR DE HISTÓRIA JÁ TEM FAMA DE CONTAR UNS TROÇO DIFÍCIL DE ACREDITAR, NÉ MESMO?

Hoje, dia 20 de março, é o Dia do Contador de Histórias. E como tenho muitos amigo e amigas a fazerem jus a esse dia tão lindo onde os causos ganham personagens e estes alimentam nossos sonhos, trago um deles a representar todos: Ricardo Albino, nosso querido Ric. A escolha, além do grande carinho que eu tenho por este irmão de alma, passa por mais um acontecimento digno de um contador de histórias: hoje é também o aniversário de 3 anos da Ricontar histórias, o canal do Ric no You Tube. Não por acaso, como ele mesmo diz em seu livro “Histórias de um rapidinho em quarentena”, que eu tive o privilégio de publicar aqui na Árvore das Letras, “contador de história já tem fama de contar uns troço difícil de acreditar, né mesmo?”

Por isso, em nome de todos os contadores e contadoras de histórias desse país e desse mundo, e a abençoar mais um ano do canal Ricontar, trago essa história que começa exatamente assim…

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Contador de história já tem fama de contar uns troço difícil de acreditar, né mesmo? Imagina só quando o sujeito que nasceu em Minas e sai da capital para passar um tempinho mais comprido com os pais na roça.

Os dias vão passando e a tal quarentena vai aumentando e deixando os parafusos da cuca meio abilolado e o menino começa a ouvir a voz de coisa sem proseado. É bicho, flor, o sol. Todo mundo ganha vida em miolo de maluco.

Aqui tem muitas árvores chamadas Cambuí  que o pai Sebastião escolheu para batizar o Sítio. Já teve inté chalana de garrafa pet com remo e tudo. Sucedeu que antes de eu subir nela de cadeira e colete pra mode não afundar, São Pedro deve de ter sentido mais que eu e decidiu suas torneiras fechar. As lagoas choraram tanto que acabaram por minguar. O passeio que eu queria não pude pilotar, dirigir a possante para um fato importante  acompanhar. Meus sobrinhos foram juntos mudas de Pau Brasil  plantar. Minha sobrinha Alice que nasceu pouco depois deixou seu umbiguinho junto da sua plantinha para adubar e ela crescer sem parar. O Felipe seu irmão, grande e desajeitado, enfiou o pé na cova e quase largou o tênis lá enterrado. A minha mãe gosta de fazer três coisas  que começam com a letra C: comida, crochê e conversar com as flores do jardim. E as belezuras parecem gostar do papo. As orquídeas estão tão metidas que ganharam até cestinhas de crochê pra descansar. 

O problema de esconder no mato é que a gente tampa na caneca e entra na comilança, já toma café da manhã pensando no cardápio do almoço, no lanche e na janta. Graças a Deus que eu não consigo subir sozinho na balança. Em época de jogos olímpicos e pandemia surgem novas modalidades e possibilidades profissionais para o mundo animal. Os miquinhos são excelentes na escalada de fio por equipe. O tucano é uma espécie de Big Brother da bicharada. Usa seu bico doce e voz rouca para colocar os adversários no paredão. Os canarinhos ensaiam para a disputa do “Animal Voice” que terá ainda a ilustre orquestra Sapônica  e o uivante lobo guará.

Os preparativos do evento que antecede as competições esportivas do Alçapão do Cambuí seguem acelerados com o trabalho constante da CSC Companhia de Sapos Construtores, um time que nunca dorme em serviço e é exemplo também na luta contra o vírus. Os verdinhos que convenceram o Sapeca a não mudar de cor estão felizes porque as lagoas agora estão lotadas e assim poderão lavar o pé, a mão e o corpo inteiro e sair da água com cheirinho de álcool em gel.

No parque aquático do vovô acontece a emocionante disputa de histórias de pescador. O Senhor Sebastião foi um dos últimos competidores a garantir presença após afirmar que foi nocauteado por uma banana após ela  ter seu coração também conhecido como umbigo da banana arrancado por ele com a mão e não com uma faca conforme as regras. Além do aposentado barbudo, o Jacaré que comeu a noite, Pinóquio, o grilo falante e Emília, a boneca de pano, prometem comparecer. Enquanto isso, as Seriemas chegam na maior gritaria para a  batalha pela  conquista de território. O Dom Ratão encara o Alma de gato ou pássaro que voa e o Manhã Eu Vô e nunca chega na hora certa no torneio de subida no telhado.

Quando a lua caipira iluminar a varanda da casa, o Tiú, a Paca, o Gavião, o Boi Bandido e o cavalo Campeão partem em busca do milho perdido. O vencedor da prova ganha um saco de fubá. A Alice disse que se o Corona já tiver morrido  vem  ver de pertinho, mas, de carro porque a pé cansa.

Ricardo Albino*, em Uns causos de quarentena, do livro “Histórias de um rapidinho em quarentena”.

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Ricardo Albino, nascido e criado em Belo Horizonte, é jornalista formado em 2006, pelo Centro Universitário de Belo Horizonte – UNI BH, contador de histórias formado pelo Instituto Cultural Aletria, em 2015, criador da página Ricontar Histórias, em 2017, e do canal de mesmo nome no You Tube, em 2021. Cadeirante, idealizou no canal o podcast Ricontar para unir histórias, seu amor pelo rádio, acessibilidade e inclusão.

Acompanhe o canal Ricontar no You Tube, no link: https://www.youtube.com/@ricontarhistorias9462

Forte abraço!
Até a próxima.

O TOCADOR DE SILÊNCIOS

Por Leandro Bertoldo Silva

Todo silêncio é música em

estado de gravidez.

Mia Couto

Desferir é fazer vibrar… Vibrar o silêncio de nós próprios é alcançar o voo perfeito do que desejamos.

            Tinha chegado ao máximo da execução que pensava poder possuir. Tocava acariciando as cordas do seu violino retirando delas o som preferido dos anjos e dos deuses. Mas, mesmo com os frenéticos aplausos, sabia que não havia alcançado a música que desejava. Isso só aconteceu quando, num dia de descuido, roubaram-lhe o instrumento, e ele, despojado do que sustentava sua ilusão, passou a tocar no ar, ouvindo, inalterado no silêncio, a essência de suas notas. Tornara-se música…

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Hoje não há comentários. Deixo que o silêncio fale…

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Um forte abraço!
Até a próxima.

QUAIS MALAS VOCÊ CARREGA?

Por Leandro Bertoldo Silva

Você Já parou para pensar no quanto nos prendemos na vida? Prendemo-nos a relacionamentos não desejados, a trabalhos insatisfatórios, a pensamentos inadequados, a crenças que nem são nossas… Somos carcereiros de nós mesmos. E mais! Somos acumuladores disso tudo e a nossa existência é um depósito emocional. Jorge que o diga.

Quem é Jorge?

Jorge é um personagem que escrevi. Tenho uma história íntima com ele, mas um dia eu conto. Por hora, basta saber que é um jovem publicitário a viver as pressões implacavelmente impostas a todos: a necessidade quase obrigatória de sermos perfeitos. Até a felicidade é uma obrigação! Amargurado e cansado, resolve sair em uma viagem de férias porque não a tirava há muito tempo, para aliviar sua angústia. No caminho do aeroporto, se depara com um acidente e isso mudará completamente a sua vida.

Essa é a síntese do meu livro Janelas da Alma, escrito e publicado em 2018. Em uma passagem, Jorge nos faz questionar sobre o peso das coisas e a necessidade atribuída a elas, ou melhor, temos necessidade delas? Novamente voltamos ao questionamento inicial. Ele me tocou profundamente ao relatar o episódio da mala e ao me fazer questionar sobre a liberdade e o pertencimento das coisas.

O que vai na sequência foi dito por ele ao longo do capítulo 3 ao andar pelas ruas após uma noite memorável. Nada demais se ele não tivesse perambulando para cima e para baixo carregando uma mala. Uma mala…

Assim disse ele:

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A mala era tudo o que eu possuía naquele momento. Não passava pela minha cabeça a vontade de voltar para casa. Estranho sentir que todo o meu mundo, conquistas, pertences estavam devidamente resumidos dentro daquele objeto quadrado meio abaloado. Mais estranho ainda era sentir que o pouco que eu tinha me incomodava bastante. Como as coisas nos pesam! E que coisas? Roupas, sapatos, escova e pasta de dentes… Somos presos a tão pouco! Nada me impedia de deixá-la ali mesmo onde estava e seguir a minha vida sem ela. Ao mesmo tempo, tudo me impedia… Ideia estúpida essa de acharmos que as coisas nos pertencem, principalmente, porque não é assim que acontece. Somos nós que pertencemos às coisas, pois elas não têm vontades nem desejos de nós. Se as deixarmos em qualquer canto, elas ficam tranquilamente e não sentem a falta que nós sentimos delas. Se entrarem na vida de outras pessoas, entram com a mesma indiferença com a qual saem da nossa. Elas são livres, desapegadas, enquanto nós somos presos, acorrentados a uma vida de ilusões. Arrasto a mala como um preso arrasta uma bola de ferro e se alguém a rouba ainda seria capaz de perder a vida na tentativa de reaver minha prisão, não abrindo mão do meu fardo e das minhas mazelas.

As ruas já estavam cheias. Gente se esbarrando, olhares sumidos, perdidos cada qual em interesses próprios sem sinal de um afeto comum. Um mundo lotado de singularidades e ausências se confundia comigo mesmo que via nos rostos das pessoas marcas do tempo esgotado e às vezes sem sentido algum. Era assim que eu estava. Andando sem sentido, sem direção, sem vontade. Somente a mala, incômoda, que me prendia a nada. Tudo estranho. Sensação de estar onde não deveria. Pensava que naquele momento outra pessoa deveria estar ocupando aquele espaço que meu corpo ocupava e, contrariamente, eu deveria estar ocupando em outro lugar o espaço que, naquele instante, outro me furtava. Tudo é uma questão de momentos. E a vida passa sem pensarmos nela. Apenas passa como a dor quando nos acostumamos com sua presença, embora não percebamos os estragos em nossa alma causados pelas ausências. Foi assim que cheguei à porta de um café e me dei conta de que não comia havia muitas horas.

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Bem, fiquemos por aqui. Deixemos Jorge e seus dilemas. Sim, ele entrará no café e encontrará por lá algo magnífico. Você pode ler, se desejar, continuar a sua saga em busca de… Ora, você saberá.

Por hora, deixo apenas um questionamento trazido por meu amigo, uma vez que somos acumuladores de coisas e muitas vezes essas coisas nem são palpáveis, mas sim moradoras em nossos corações: afinal, elas nos pertencem ou somos nós a pertencermos a elas?

Ótima reflexão para você.

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Bem, se chegar a alguma conclusão, ou não, deixe aqui nos comentários.

Caso queira ler este livro é só adquiri-lo clicando AQUI.

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Um forte abraço!
Até a próxima.

SONHOS

Por Tomé Nassapulo*
(Angola)

Sonho perdido em mim.
Despido, de alma inglória,
Incorporando uma natureza desprovida de requintes da carne.

Sem cerne, sonhei recebendo sermão,
Aí Senhor dono de mim
Em pele de servidão!

Sofri na solidão sonhada,
Apunhalado de sentimentos de orfandade.
Deambulante,
Senti-me indigente,
Que nem só sobrinho em sua vida vivente.

Sem perdão,
Procurei amparo
Excluído em meu sonho sonhado.

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* Tomé Nassapulo é de Angola e é correspondente literário da Árvore das Letras.

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UM LIVRO NUNCA TERMINA AO VIRAR DA ÚLTIMA PÁGINA

Por Leandro Bertoldo Silva

Li uma vez uma frase de Thomas Mann.

“Longa é a viagem rumo a si próprio.

Inesperada é sua descoberta”.

Como pode algo tão curto arrebatar a nossa alma? Duas frases, nada mais além disso, ali despretensiosas (?) a tirar-me o chão e encher-me de perguntas cujas respostas ficam naquele estado latente, prontas a eclodir, mas, por alguma razão, ainda falta.

Se já teve a sensação de bastar olhar para o lado e enxergar o que supõe estar ali, mas logo vir o sentimento de “e se não estiver, como será?”, sabe bem o que quero dizer.

Será esse o motivo de eu gostar tanto de reler um livro ao ponto de preferir essa prática ao lê-lo pela primeira vez?

Seja como for, um livro nunca termina ao virar da última página…

            — Por que lê tão repetidas vezes este livro? — perguntou-me uma voz.

            — Porque nele estou quase a encontrar a minha liberdade.

            — O que falta para isso?

            — A próxima leitura.

            — Não te angustia saber que pode novamente não encontrar?

            — Me angustia mais achar que já encontrei…

E não houve mais perguntas.

Muito menos respostas.

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Muitas vezes são nas miudezas da vida que escondem enormes transformações. Espero que esse brevíssimo diálogo possa trazer frutíferas reflexões.

Estamos com turma aberta para a Vivência Novos Autores. Saiba mais clicando AQUI ou entre em contato no WhatsApp (33)98462-7055.

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Forte abraço!
Até a próxima.

BANALIDADES TRIDIMENSIONAIS

Por Patrícia Vaucher*

Chegavam animadas todas as terças-feiras ao atelier. Seria mais uma tarde de produção artística regada a conversas e desabafos. Já sabia cada detalhe dos conflitos familiares, desconfianças, angústias, queixas e mais queixas.

Isso sem contar as confidências, histórias secretas compartilhadas sigilosamente, inflamáveis. Poderiam implodir casamentos caso fossem divulgadas.

Aqueles celulares que não paravam de notificar, a tarde inteira, fofocas, solicitações dos maridos, demandas dos filhos, brigas entre vizinhos. Deixavam-me frustrada. E quando vinham com seus ipads, então! Sentia-me fracassada!

O processo criativo exige mergulho dentro de si. É uma conversa íntima que necessita tempo e espaço para acontecer.

Esse retiro interior é o local de recolhimento das imagens que compõem o mais secreto do nosso viver. É onde nascem as formas das emoções. E sim, elas querem vir ao mundo. Aliás, elas precisam vir para dar voz às dores que muitas vezes ficam abafadas, encolhidinhas num cantinho desse espaço tão escuro e assustador.

Nada disso acontecia. Nasciam figuras pré-moldadas de um imaginário social pobre e repetitivo. Silhuetas previsíveis. Objetos utilitários.

E a alma continuava ali, invisível, ignorada e esmagada por transtornos diários da vida ordinária de um feminino enfraquecido.

Aquela sombria luz prevalecia. Ficava acesa durante a aula exibindo suas cores radiantes e formas sedutoras que saltavam das telas e se transformavam, ficando tridimensionais e imortalizadas na argila.

No final do dia, a pobre alma desincorporada mais uma vez voltava pra casa, oculta, incógnita, inexplorada. Perdia mais uma vez a oportunidade de se mostrar ao mundo e revelar segredos que poderiam acalmar os corações explosivos daquelas mulheres.

Acessar conteúdos interiores exige coragem, determinação e até um pouco de maturidade. Isso não se faz com a ponta dos dedos.

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Patrícia Vaucher é Bacharel em Administração de Empresas, pós graduada em Arteterapia e  em  Psicologia Analítica. Facilitadora de Soulcollage. Trabalhou com cerâmica artística por mais de vinte anos em atelier próprio.  Conduz grupos de mulheres através do trabalho terapêutico com argila e Soulcollage. Pesquisa o Feminino na individuação e sua influência no processo de ampliação da consciência..

Patrícia é integrante da Turma Lygia Fagundes Telles, da Vivência Novos Autores, da Árvore das Letras.

Clicando AQUI você encontra informações sobre a Vivência e como participar. Estamos com turmas abertas.

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Forte abraço!
Até a próxima.

COMO NASCE UM LIVRO!

Por Leandro Bertoldo Silva

Você já parou para pensar qual o caminho que um livro percorre até chegar em suas mãos?

Bem, tudo parte de um princípio, ainda mais os livros da Árvore que são ecológicos e sustentáveis. É comum aos escritores considerarem os seus livros como filhos e, como tais, precisam ser concebidos. Sim, um livro nasce da cabeça de seu autor. É a concepção originária. Sem ela nenhuma etapa seguinte existirá. Siga a sequência que os nossos livros são feitos e se delicie com o que tanto defendemos: “a liberdade de ser do seu jeito”!

Eu tenho uma particularidade! É comum eu fazer os meus primeiros esboços à mão. É a minha forma de sentir a escrita de maneira completa, que antes é preciso ser minha para só depois ser dos outros. Escrever à mão, além de movimentar as áreas do cérebro e estimular a criação e a criatividade, é também uma forma de demonstrar carinho e guardar lembranças. Mesmo com a tecnologia, há muitos escritores que ainda escrevem os seus livros à mão. Eu sou um deles. Se você é escritor ou escritora, como é com você?

Em seguida a história é reescrita no computador. É o meu primeiro namoro com o texto já o percebendo em formas mais elaboradas. É onde há cortes, mudanças e aconchego com as palavras.

Aqui inicia a artesania do livro, ou, como queira, a alquimia do que é imaginado ao que é palpável. Após o livro ser escrito, digitado, revisado, formatado e diagramado — o que vai aí alguns meses e até anos — é o momento da impressão feita com cuidado e carinho, afinal ele está vindo ao mundo. No caso da Árvore, os livros são impressos em folhas soltas.

Uma vez impresso, entra em cena pela primeira vez a “Paula Brito”, nossa prensa de madeira. Por que do nome “Paula Brito”? Você pode saber lendo AQUI. É ela que dá suporte à cola na lombada do livro para que a mesma seja preparada para a furação.

Uma vez colada, a lombada é demarcada com 14 furos, usando, para isso, uma furadeira de mão com broca bem fininha para facilitar a passagem da agulha para receber a linha com cera de abelha.

Todos os processos são especiais, mas é na costura que eu mais sinto o livro nascendo em minhas mãos. Nesse momento sou o escritor, mas também o artesão; o genitor e o parteiro ao unir pensamentos às palavras que ganham formas palpáveis.

Como todo recém-nascido, é preciso agasalhá-lo. É aí que entra a capa com papel ecológico. É o segundo momento da “Paula Brito”, que faz o seu trabalho originário de prensar. O livro fica na prensa por aproximadamente 3 a 4 horas, até que união capa-lombada seja um verdadeiro enlace matrimonial de arte e palavras.

E para dar ao livro sua identidade visual e seu lugar no mundo de forma ainda mais autêntica, fazemos o acabamento com materiais alternativos, utilizando componentes metálicos, superposição de imagens e o que a criatividade permitir, fazendo do livro em si um objeto de arte.

Sabemos que um livro nasceu quando é entregue às mãos dos leitores. Essa é a cereja do bolo, o grande momento da vida do criador e da sua criatura.
De nada adianta ser escrito, colado, costurado, prensado, publicado se em algum lugar uma pessoa não abri-lo e lê-lo. É na leitura que ele se faz, que se coloca na condição de existir. Enquanto isso não acontece, o livro é só um objeto qualquer. Mas quando é aberto, lido e saboreado, o sopro da vida invade a suas páginas.

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Bem, é assim que nasce um livro aqui na Árvore das Letras. Espero que tenha gostado dessa sequência e convido para conhecer todos os outros livros que, como esse, surgiram assim, de um pensamento, de um sonho, de uma vontade e de uma costura…

Clicando AQUI você encontra todos eles. Que tal dar uma passadinha por lá?

Saiba, também, sobre as nossas Vivências Literárias

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Forte abraço!
Até a próxima.

INTERTEXTUALIDADE – AO DESCONCERTO DA MINHA TERRA

Por Manuel Afonso*
(Angola)

No dia 7 de fevereiro, o professor e poeta angolano António Alexandre publicou aqui neste blog o poema “Ao desconcerto da minha terra”, tratando-se de uma situação social em África que há muito reclama por intervenção e justiça social (você pode conferir clicando AQUI).

Após a publicação, outro professor — Manuel Afonso —, também de Angola, fez uma linda intertextualidade que, claro, não poderíamos deixar de trazê-la aos olhos dos leitores e leitoras.

Boa leitura e ótima reflexão.

Sou, sim, filho de um camponês que não tem campo próprio para cultivar, e nem mesmo um cantinho junto a sua cabana que construiu com muito orgulho.

Nada tenho para comer
Sabem quem está farto de comida? É o filho daquele burguês que até os outros já lhe deram bué de nomes.

Sou filho de um pescador da Comuna de Cacuaco.
Da pesca nada vejo se não os velejadores burgueses, nada como assim como aquela que está a ler este adaptado ao desconcerto da nossa banda.

Do fiscal sinto pena, ele é filho da coitada vizinha Ndonkola que sempre vê o seu negócio de ganha pão de faz de conta (negócio que não dá lucro), a ser jogado no chão e pisado pelo colega do filho.

Sou filho de um professor.
Sei ler, escrever e falar.
Mas quem manda em todos que sabem ler e escrever é o opressor que foi ensinado pelo meu pai.

Sou filho de um operário acabado.
Trabalho duro para a minha querida terra, para os meus pais que foram enganados pelo burguês.
E do trabalho só vejo percevejos a aumentar na cama que adquiri há 20 anos. Salário que é bom, nada.

E assim está a minha querida terra que tem rumo mas que poderá se tornar muro, e todos, um dia desses,  darão um murro nesse muro.

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* Manuel Afonso é Professor de Língua Inglesa, Tradutor e Gestor escolar.

Trabalha no Liceu nº 4019 (escola pública do ensino secundário) e é sócio-gerente da IQ-International Ltda. Possui mestrado em gestão de empresa (Cambridge International College) e pós-graduado em gestão educacional (Universidade Católica de Brasília). Professor com Certificação Internacional – CELTA (Cambridge University) e TESOL Methodology (Maryland University).

É palestrante em workshops e/ ou seminários sobre liderança e ensino. Membro ativo da Associação Angolana dos Professores de Língua Inglesa (ANELTA – sigla em Inglês) e Membro fundador da Associação dos Tradutores e Intérpretes de Angola (ATIA). Dirige projetos comunitários de índole educacional.

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