PERDOE-ME PELA MINHA ANSIEDADE – UMA CONVERSA COM FABIENE LEMOS

Uma criança que aos 10 anos de idade teve sua primeira crise existencial sobre o amor; que cresceu e teve no papel e na caneta seu “porto seguro” para se entender; uma adolescente brilhante que soube lidar com suas exigências para se tornar, hoje, uma jovem mulher adulta que encontrou na psicologia sua grande razão de existir e contribuir com o mundo, tendo a literatura como companheira.

Essa é a psicóloga e escritora Fabiene Lemos, que teve com a Árvore das Letras uma conversa deliciosa. A propósito, a Árvore sempre foi a sua casa. Para nós é uma alegria compartilhar um pouquinho da enormidade da trajetória dessa pessoa incrivelmente talentosa e humana.

Autora de dois livros — Cartas ao Tempo, o primeiro do selo Alforria Literária, da editora Árvore das Letras, e o mais recente Perdoe-me pela minha ansiedade, Fabiene nos brinda ao discorrer sobre a temática desse livro nos dias de hoje, e também sobre tecnologia, literatura, lembranças e sentimentos.

Uma conversa ao pé da Árvore que temos o prazer de trazer até você.

Árvore das Letras: Quem é Fabiene Lemos por ela mesma?

Fabiene lemos: Fabiene Lemos desde criança sempre foi uma menina tímida e introspectiva. Recordo-me da minha primeira crise existencial sobre ‘o que é o amor?’ aos dez anos de idade. A partir desse acontecimento, emergiram vários confrontos comigo mesma em busca de compreender as idiossincrasias da vida. Ainda hoje me vejo mergulhada em pensamentos, dúvidas e especulações que crio para tentar explicar um pouco da complexidade que é o comportamento humano. Durante um bom tempo, tive dificuldades em me expressar discursando, pois o fluxo de ideias que invadiam a minha mente era completamente desordenado e, somado a minha dicção que não era tão boa, saia uma cacofonia. Entretanto, existiam (e ainda existem) anseios de exteriorizar a energia e o sentimento das minhas observações sobre as miudezas da vida que me atravessam. A escrita se apresentou para mim como um bálsamo. Com o papel e a caneta eu me entendia, ficava à vontade até comigo mesma para poder, simplesmente, ser. Os diários e as cartas que escrevi se transformaram na parte de mim que eu mais gostava. Era uma menina e suas amantes: as palavras escritas. O hábito de escrever me trouxe uma sensação de alívio e de estar sendo fiel a quem eu sou.

AL: Olhando para a sua vida hoje e tendo a total noção da sua trajetória até aqui, você poderia dizer que sempre teve inclinação para a psicologia? Conte um pouco como isso aconteceu.

FL: Aos treze anos tive contato com uma literatura fenomenal escrita por Suzana de Menezes, O coração escuta pela boca. Essa obra foi indicada na época de escola pelo meu professor Leandro Bertoldo que hoje é o meu grande amigo e colega de trabalho. Antes eu não sabia o que eu queria ser, sabia o que eu não queria. Não sentia inclinação para quase nenhuma profissão. A leitura foi o meu despertar, era exatamente aquilo que eu queria fazer: escutar pessoas, não ouvir. Mas escutar. Entender. Compreender. Estar presente. Acolher. Foi o meu evento canônico! Uma das minhas maiores certezas. Até hoje essa certeza vem se confirmando a cada atendimento que este é o meu caminho. O meu chamado que sempre esteve em mim.

AL: Fabiene, a psicologia, de um modo geral, trata do comportamento humano e das interações das pessoas com o meio em que vivem, tanto ambiental como social. Hoje vivemos uma realidade extremamente virtual com tudo, inclusive em nossas interações com o outro e com nós mesmos. Para você, qual a responsabilidade da psicologia diante dessa realidade? O que a preocupa?

FL: Com essa explosão de coaches, pseudociências e terapias alternativas, a psicologia mais do que nunca tem a responsabilidade de se manter firme e não ceder as “instantaneidades” pregadas pela Pós-Modernidade. É um risco para a psicologia se perder como ciência na tentativa de seguir padrões que soam mais afáveis (rápido e prático) que atendem as pseudonecessidades urgentes da sociedade. A ciência está para investigar e comprovar fatos baseados em estudos sérios, não está solidificado em opiniões e crenças. Nos tempos de hoje, é difícil alguém buscar um recurso que não seja muleta, nem guru, nem manual de instruções, e que, infelizmente ou felizmente, irá fazer com que você mesmo encontre as respostas que procura. O que me preocupa é a irresponsabilidade de pessoas que propagam inverdades sem conhecimentos de fala e que tratam assuntos tão sérios ligados ao comportamento humano reduzindo todas as realidades a uma só, desconsiderando todos os pormenores que consiste cada história de vida.

AL: Existem aspectos muito positivos na tecnologia. Você, inclusive, optou por um modelo em que a utiliza no seu trabalho; você faz atendimentos on-line, o que facilita questões até mesmo geográficas com as pessoas permitindo um alcance muito maior. Como você transita nessas duas realidades, a real com o cliente e o virtual no processo?

FL: Eu percebi depois de um tempo que a linha entre o virtual e o real deveria ser a mais estreita possível, pois isso cria conexões autênticas. Hoje quando alguém me procura para os atendimentos, geralmente, já tem uma imagem preestabelecida sobre mim, através das redes, conhecem as minhas preferências e os meus anseios. O posicionamento traz essa proximidade e até uma afinidade. No decorrer dos encontros, não destoa quem eu sou das minhas colocações midiáticas, porém, obviamente, é um contato mais profundo.

AL: Fale um pouco sobre a sua linha de abordagem. No que você acredita?

FL: A minha abordagem, Existencial Humanista, consiste numa epistemologia que compreende o ser humano como um ser livre para decidir o que deseja fazer da sua existência. A vida é a conjuntura de uma porção de escolhas. A todo o momento somos convidados a escolher. O sabor e a cor da nossa trajetória correspondem na forma como olhamos e lidamos acerca das complexidades e simplicidades que nos atravessam a todo instante. A psicoterapia é um instrumento científico e até artístico (pois oferece um colorido à vida) que possibilita o sujeito expandir o conhecimento sobre as suas possibilidades. Ele aprende sobre si, assumindo a consciência das suas potencialidades e deficiências. Sendo assim, acredito que todo o ser humano que tiver uma atmosfera acolhedora e empática, ele tenderá a se atualizar e, constantemente, alcançar suas melhores versões.

AL: A psicologia sempre andou de mãos dadas com a literatura. Machado de Assis e Clarice Lispector são exemplos disso. Você sempre gostou de ler? Qual a sua relação com a leitura e como ela influencia o seu trabalho de psicóloga?

FL: O meu hábito de ler surgiu na pré-adolescência, me apaixonei pela escrita de Clarice Lispector. Entrei no curso de psicologia sem pretensão em conciliá-la com a literatura. A minha leitura se voltou completamente para artigos científicos e livros didáticos. Entretanto, quando me formei e retomei a leitura de literatura brasileira entre outras, percebi algo: os dilemas dos personagens literários também são os dilemas que se apresentam durante a vida. E ainda mais, a sensibilidade, as janelas de possibilidades e as mensagens trazidas nos livros têm a magia de nos propiciar acalento e conforto. Pode-se concluir que os amantes de literatura passam pelos dramas, pelas angústias e dores da vida com mais leveza e menos pesar, entendendo que as adversidades e os conflitos que enfrentamos, fazem parte do processo de existir. Os livros são complementos da minha prática clínica, tanto são essenciais para o aprimoramento das minhas habilidades na compreensão do ser humano como também são recursos utilizados para que os meus pacientes possam desenvolver uma leitura de modo terapêutico.

AL: Você também é escritora. Acabei de mencionar Clarice e Machado que permearam a escrita do seu primeiro livro, ainda em conjunto com outras pessoas, que foi o Cartas ao Tempo. Fale um pouco sobre esse livro e o que ele significa para você.

FL: Cartas ao tempo tem um significado intimo e especial para mim. Quando eu escrevi tinha apenas dezessete anos e um tanto de melancolias para sublimar. Num período de dúvidas, inseguranças e incertezas a escrita se apresentou como endorfina. O livro em algumas partes se assemelha a um desabafo, tão profundo que as palavras parecem ser tiradas das entranhas da alma. Ele é emoção, sensibilidade e juventude. Tem um toque do drama juvenil, apesar de se tratar de grandes escritores brasileiros. Conseguimos preservar caraterísticas marcantes do estilo literato de cada autor. Tendo o erudito e a elegância na construção das frases para Machado de Assis. E a sensibilidade e o lírico atribuídos às palavras para Clarice Lispector.

AL: Você tem uma ligação muito forte com a Clarice Lispector. Por quê?

FL: A ligação tem haver com a comunicação. O seu modo de se expressar beirando o enigmático e hermético, e mesmo assim, sensível e doce conversou com a minha personalidade. Clarice é uma ambiguidade que não é confusa. Outra ambiguidade dentro da própria explicação. Ela não é óbvia, mas nunca foi evasiva. Gosto de como ela se expressa fazendo com que o leitor compreenda a sua escrita com sua própria percepção de acordo com a sua realidade. E a cada releitura uma nova compreensão. Ela não se limita a uma verdade só. Todo ser que ler sentirá e criará uma ideia diferente do que foi lido, mesmo sendo as mesmas palavras. Na adolescência, ela esteve presente para mim como uma fada madrinha. Como dizia que a escrita dela era para ser sentida, eu sentia tudo e era como se fosse para mim. Me tocava. Havia uma comunicação que trazia acalento. E ainda hoje, ela é a minha escritora favorita! Estou amadurecendo, todavia a escrita dela acompanha as minhas fases.

AL: Vamos falar do seu segundo livro, porém o primeiro como autora independente e que tem total ligação com o seu trabalho hoje. Refiro-me ao livro Perdoe-me pela minha ansiedade. O que a levou querer escrever esse livro e como foi o seu processo de escrita?

FL: Escrevendo o meu artigo científico para o TCC da faculdade sobre “A influência das mídias no processo de formação da subjetividade” tive alguns insights. Uns pensamentos que tinham urgência de serem colocados em palavras escritas. Após um ano, comecei a escrever. Mas não foi uma escrita contínua, vários hiatos surgiram. Organizando as minhas ideias a partir de estudos, surgiu a compreensão do constructo que causa e mantém a ansiedade. Confesso que senti ansiedade ao falar de ansiedade. E pensei diversas vezes em não publicar. Contudo, acredito que a escrita foi resoluta, breve e objetiva. Atravessando o científico para o lírico.

AL: No livro você diz que a ansiedade se tornou sinônimo de patologia, de sofrimento e de um mal comum. De fato, muita gente se diz ansiosa nos dias de hoje. Mas você faz uma distinção entre dois tipos de ansiedade e que um dele é até natural. Quais são esses dois tipos? Você acha que as pessoas os confundem ao ponto de supervalorizar uma situação?

FL: A ansiedade é uma emoção como o medo, a raiva e a tristeza. Seria impossível evitá-la, pois consiste numa reação humana inerente. Ela se manifesta em inúmeras situações durante o nosso cotidiano. Seja movida por um desejo de saber um resultado ou que algo tão esperado aconteça. Seja pelo medo e receio de não conseguir ser bom o suficiente ao desempenhar algum papel. A ansiedade faz parte do estar vivendo e isso é completamente normal. Nela tem afeto, portanto tem significado. A ansiedade patológica – Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) – já é constituída por excessos, na qual a pessoa não consegue identificar facilmente os reais motivos. Seria como se o botão de alerta tivesse sido apertado e ficasse emperrado ali. Como se os sintomas de sudorese, frequência cardíaca e pensamentos acelerados, respiração alterada, tônus muscular enrijecido, fadiga, inquietude e, até em alguns casos, alergias pelo corpo não cessarem, causando uma exaustão mental na pessoa. Certamente, as pessoas confundem, acreditando que em qualquer situação na qual se sintam ansiosas, necessariamente, seja um problema e algo que não deveria ocorrer. Suprimir emoções pode ser um risco, uma vez que elas existem com o propósito de expressar nossas reações internas. É importante examinar o que sentimos e o que causa tais sentimentos. Mas não tentar afogá-los. Pois este equívoco nos deixaria no escuro sem saber o que aquela emoção estaria nos comunicando sobre nós mesmos.

AL: Você também faz uma menção às redes sociais. Como e por que elas contribuem para o desenvolvimento da ansiedade?

FL: Para Soren Kierkegaard ”A raiz da infelicidade humana está na comparação”. E o que mais as pessoas fazem nas redes sociais a não ser se comparar? A fantasia das redes sociais: o mundo perfeito e mágico, onde todos são sempre bonitos, ricos e felizes e nunca têm problemas. Esta invenção ilusória em que é mais importante parecer do que realmente ser, provoca nas pessoas sentimentos de que elas nunca são boas o suficiente em nada que propõem a fazer. Porque sempre há um perfil com alguém que se destaca mais e faz melhor. Criamos crenças a partir de uma tela, desprezando nossas potencialidades e superestimando quem nem conhecemos. Tendemos a não saber mais dissociar o que real e sólido do que é virtual e postiço. A ansiedade iminente se configura na sensação de que estamos sempre para trás e que há uma urgência em ser feliz. A dicotomia geradora de angústia se instala no fato de que as redes sociais são espaços de pessoas completas em todas as esferas. Em contrapartida, o ser humano real é um ser faltoso que é acompanhado por um vazio existencial impreenchível.

AL: Há uma expressão muito interessante em seu livro; você fala na “coisificação das pessoas”. O que seria essa coisificação?

FL: Coisificação consiste na forma como a sociedade está tratando as suas relações interpessoais. Assim como os objetos são facilmente substituídos, pois já é previsto um prazo de validade e o novo sempre tem um espaço de destaque, as relações também se mantem num formato semelhante. Uma vez que nada foi feito para durar. As pessoas são tratadas como coisas. Hoje é supervalorizada. Amanhã está no esquecimento. O conserto, a remediação e o zelo estão no campo arcaico, desatualizado.

AL: Em uma parte do livro, você se refere à ansiedade como um mecanismo de alerta. Pode-se pensar, assim, em um lado positivo da ansiedade?

FL: A ansiedade não existe como carrasco para nos fazer sofrer. Certamente, ela se configura como um sinal vermelho para demonstrar que algo não está bem. Pensando assim, pode-se considerar como um viés positivo. E se alcançássemos a maturidade de em vez de calar a ansiedade, olhássemos para dentro para se perceber e se conhecer. Descobriríamos um tanto sobre nós. O autoconhecimento é o maior poder que podemos ter: saber o que nos afeta, o que nos move, o que é indiferente e o que nos transcende.

AL: Com tudo isso exposto, você é otimista em relação a essa questão?

FL: Acredito que irá chegar um momento em que estaremos exauridos de procurar tantos recursos para suprimir a ansiedade. Quando percebermos que não adianta fugir, mas que a resposta é encarar. Penso que o olhar diante à ansiedade mudará. Não será mais “O que vou fazer para ficar menos ansioso?” a indagação será mais próxima de “O que essa ansiedade está comunicando comigo?”. Afinal, todas as emoções estão falando algo para nós, só precisamos querer ouvir e entender. Porém, olhar para dentro não é fácil.

AL: Fabiene, eu não poderia deixar de finalizar com a pergunta que vou fazer agora. O fato é que a sua história é muito ligada à história da Árvore das Letras e vice versa. Você fez parte da primeira turma da Árvore em 2014, ficando até 2016. Na verdade, vocês construíram esse trabalho e eu tenho comigo uma gratidão eterna. Como foi esse momento da sua vida? O que ele representou e até representa, uma vez que essa ligação continua presente?

FL: Participar do curso Árvore das letras foi um marco para mim. Posso dizer com toda veemência que a passagem por esse grupo me atravessou de tal maneira que eu me transformei, me aprimorei quanto ser. A adolescência sempre é uma fase difícil, de transição e descoberta, apesar disso, eu tive a dádiva de ter um lugar onde eu me sentia acolhida e pertencida. Durante nossos encontros, por diversas vezes, aquele espaço assumiu um caráter terapêutico e reconfortante. Éramos jovens cheios de sonhos e medos, mas Leandro e Geane nunca ceifaram nossos almejos e idealizações. Pelo contrário. Eles nutriam cada um de nós com esperança e afeto. As minhas energias se renovavam toda semana. Eu sabia que naquele lugar, poderia assumir a minha forma mais autêntica. As minhas melhores lições não diz respeito na construção semântica de frases. Tem mais haver com determinação, persistência e um toque mágico (em tudo que eu me propuser a fazer, que eu possa deixar um pouco de mim). Essa lição eu aprendi nas entrelinhas! Sendo assim, Árvores das Letras representa a minha formação de personalidade e a minha casa. E esta casa, se trata de pessoas. 

AL: Você será empossada em breve como membra correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni – ALTO. Futuramente, quando alguém reler ou ler essa entrevista, você já será uma confreira da Academia. O que isso representa para você?

FL: Ser membra da Academia de Letras significa a confirmação dos meus anseios. A minha tendência afetuosa pela literatura me acompanha no meu desenvolvimento pessoal e profissional. Acredito que pessoas que leem, abraçam o conhecimento seja qual for e tornam-se pessoas melhores. Os livros são remédios e a escrita é o passaporte para a liberdade de ser quem é. Uma vez, Clarice Lispector disse que escrevia como se fosse para salvar a vida de alguém, que provavelmente seria a dela. Sendo membra da Academia tenho um papel especial de contribuir para que o legado deixado pelos escritores seja disseminado. E que as pessoas possam ter a oportunidade de se deleitar na leitura, e por que não, se salvar?

AL: Bem, estamos chegando ao fim da nossa conversa. Muito obrigado pela confiança e pela presença de sempre aqui na Árvore das Letras, esse espaço que também sempre foi seu. Como as pessoas podem adquirir o seu livro e também entrar em contato com você para saber sobre os atendimentos?

FL: As pessoas podem adquirir o e-book Perdoe-me pela minha ansiedade e entrar em contato comigo para mais informações sobre os atendimentos e agendamentos através do link na minha bio do instagram @psifabie.

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O blog da Árvore das Letras é um espaço de literatura de identidade própria, organizado pelo escritor Leandro Bertoldo Silva. Acompanhe todos os domingos e quartas-feiras entrevistas, poesias, crônicas autorais e de colaboradores e demais conteúdos literários e arte da encadernação e produção sustentável de livros.

MARCHINHAS DE CARNAVAL EM HAICAIS

Por Pierre André*

Quem nunca ouviu as marchinhas de Carnaval? Você certamente já as ouviu muitas vezes, e muitas delas podem ter feito parte da sua história. Ah, quantos casamentos, quantas aventuras! O Carnaval é uma festa popular de movimentar milhões de pessoas e milhões de corações!

Mas garanto que você nunca teve contato com as marchinhas da forma que aqui vai, em haicais, pequenos poemas de 3 versos e 17 sílabas poéticas e/ou gramaticais .

A poesia já está nas letras das músicas que você conhece, mas quando lapidadas pelo olhar brincante e pela brilhante criatividade de Pierre André, um verdadeiro contador de histórias, escritor e haicaísta, as marchinhas ganham um novo lugar, não só na escuta, mas também na leitura. É o que irá encontrar na sequência nos belíssimos versos dos Haicais do Pi.

Viva o Carnaval!

Oh, tanto riso,
Oh, quanta alegria
Quantos palhaços

Muito mais de mil
Espalhados no salão
Cheios de confetes

Mas o Arlequim
Por causa da Colombina,
Está chorando

Pelo seu amor
No meio da multidão
Ah, Colombina

Já faz um ano
Foi bom te ver outra vez
Bom e mágico

Ano passado
No carnaval que passou
Está lembrada?

Sou o Pierrô
Aquele que te abraçou
Que te beijou

Lembro, meu amor,
Dessa máscara negra
Parece a mesma

Que tenta esconder
Esse seu lindo rosto
Mas não consegue

Essa saudade…
Que tal darmos um jeito
Agora mesmo?

Não me leve a mal
Vou beijar-te agora
Hoje é carnaval

Quem parte leva
Leva saudades de alguém
Que fica triste

Chorando de dor
Só pensando no amor
Que partiu, se foi

Não quero lembrar
do meu grande amor
De quando partiu

Ai, ai, ai, ai, ai…
Tenho que ir embora
Está na hora

O dia já vem
Sol raiando, meu bem
Eu tenho que ir

Ai, ai, ai, ai, ai…
Tenho que ir embora
Está na hora

Mamãe, eu quero
Mamãe, eu quero mamar
Dá a chupeta

Dá a chupeta
Para o bebê não chorar
Mamãe, eu quero

Dá a chupeta
Ma-ma-mamãe, eu quero
Mamãe, eu quero

Dorme, filhinho
Filhinho do meu coração
Quer mamadeira?

Entra no cordão
Pega a mamadeira
Anda depressa

Tenho uma irmã
O nome dela é Ana
E pisca muito

De tanto piscar
Ficou sem a pestana
Pode acreditar

Eu quero mamar
Ma-ma-mamãe, eu quero
Dá a chupeta

Olho as pequenas
Mas é daquele jeito
Dá pra imaginar?

E tenho pena
Não ser criança de peito
Pois é, não sou não

Tenho uma irmã
Ela é da bossa nova
E é fenomenal

Mas o marido
Eu nem queria falar
Ele é um boçal

Mamãe, eu quero
Ma-ma-mamãe, eu quero
Eu quero mamar

Dá a chupeta
Para o bebê não chorar
Mamãe, eu quero


Allah-la-ô, ô-ô-ô
Mas que calo, ô-ô-ô
Allah-la-ô, ô-ô-ô

Atravessamos
O deserto do Saara
Sol tava quente

Mas muito quente
E queimou a nossa cara
Cadê o protetor?

Allah-la-ô, ô-ô-ô
Mas que calor, ô-ô-ô
Allah-la-ô, ô-ô-ô

Lá do Egito
É de onde viemos
Oh, lugar longe

E muitas vezes
Nós tivemos que rezar
Allah, bom Allah

Oh, meu bom Allah
Mande água pro Ioiô
Mande, por favor

Oh, meu bom Allah
Mande água pra Iaiá
Por favor, mande

Allah-la-ô, ô-ô-ô
Mas que calor, ô-ô-ô
Allah-la-ô, ô-ô-ô.

Tá pensando o quê?
Que cachaça é água?
Cê tá é doido

Preste atenção
Cachaça não é água, não
Onde já se viu?

Cachaça da boa
Vem lá do alambique
Tá entendendo?

Agora, a água
Ela vem do ribeirão
Não confunda mais

Pode me faltar
De tudo nessa vida
Arroz, feijão e pão

Pode me faltar,
Que não vai me fazer falta,
Até manteiga

Pode me faltar
Sério, até o amor
Acho até graça

Mas eu imploro,
A danada da cachaça
Não deixe faltar

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Pierre André é contador de histórias, escritor e haicaísta. Criador de um estilo brincante, se diverte e nos diverte com seus versos inspirados no cotidiano, na literatura, na música e nas artes em geral. É integrante da Turma Manoel de Barros, da Vivência Novos Autores, da Árvore das Letras, um encontro online semanal de leitura e produção literária. Você também pode participar. Saiba mais AQUI.

E se quer mais Haicais do Pi, segue o Instagram https://www.instagram.com/haicaisdopi/
Tenho certeza que você vai se deliciar!!

Forte abraço!
Até a próxima.

AO DESCONCERTO DA MINHA TERRA

Por António Alexandre*
(Angola)

Sou filho de um de um camponês.
Mas nada tenho para comer.
Quem está farto de comida é o filho do Burguês.

Sou filho de um pescador.
Da pesca nada vejo, nada como.
Do fiscal apanho purrete e sinto dor.

Sou filho de um professor.
Sei ler e escrever e falar.
Mas quem manda em todos que saber ler e escrever é o opressor.

Sou filho de um operário.
Trabalho duro para a minha terra, para os meus pais.
Mas do trabalho não vejo salário .
E assim está a minha terra sem paz.

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* António Alexandre é de Angola e é correspondente literário da Árvore das Letras.

Quarta Literária é uma ação da árvore das Letras de fomento à literatura independente.

Você também pode ser um correspondente literário. Participe da Vivência Novos Autores, um encontro on-line semanal de leitura e produção literária. Saiba mais AQUI.

ERA UMA VEZ… UMA NOVA JORNADA JÁ VAI COMEÇAR.

Por Leandro Bertoldo Silva

Acordei cedo. Aquela sexta-feira haveria de ser diferente. Já em minha caminhada matinal fui absorvendo as boas energias daquele dia ao pressentir encontros e abraços antigos e a alegria comovente dos novos. Era o dia do reencontro. Mais a tarde seria o retorno da turma Lygia Bojunga, a reunião semanal de leitura com as crianças.

Não por acaso, o nome da turma ser exatamente da autora do livro A Bolsa Amarela, onde Raquel guardava todas as suas vontades e personagens inventados que iam crescendo, crescendo até a bolsa engordar. A turma, antes com Beatriz, Isabelle e Lorenzo, passou a ter a companhia de Júlia, Lara e Gabriela.

Preparamos, eu e Geane, tudo com muita calma, a sala, os livros, o violão para a nossa receptividade e relaxamento inicial, o tapete para as crianças se sentarem, os jogos associados às histórias e, claro, muito, muito carinho e alegria para que elas pudessem absorver e verdade daquele lugar de um modo diferente.

Talvez a nossa pretensão seja romântica demais. Talvez seja exagerada ou até louca para os dias de hoje. Não importa. Tudo o que desejamos é perceber as crianças enxergarem a leitura como um divertimento, como algo que vale a pena se debruçar, como um gosto do mais delicioso doce sem exagerar no açúcar e poder ser degustada sem moderação, uma amiga, uma companheira com as páginas sempre disponíveis a levá-las a um mundo mágico a fazer toda a diferença em seus futuros. Já nos damos por satisfeitos.

Bem-vindas, crianças! Era uma vez… Uma nova jornada já vai começar.

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É isso que acontece quando crianças descobrem a leitura e como ela é a coisa mais divertida do mundo. É preciso proporcionar outra forma de se relacionar com os livros e com as histórias… Acredite, isso é possível!

Forte abraço!
Até a próxima.

MINHA VIDA NA VIDA DE CATHAR BLUE

Por Luzia Maria de Souza*

Há alguns anos vivi uma experiência maravilhosa que mudou meu conceito a respeito das coisas e dos bichos. Não me lembro qual era a minha idade, era bem jovem, mas já era independente. Conhecia pouco da vida, mas me virava bem sozinha.

Porém, se aproximava o dia em que eu descobriria a coisa mais importante da minha vida.

Naquele ano, se aproximava a primavera, e seria a mais linda primavera desde meu nascimento. Estava ansiosa, pois sabia que algo novo sempre acontecia naquela estação. Mas aquele ano parecia que seria diferente. Era a época da reprodução. Amava ver os bichos se encontrando e se reconhecendo em meio àquela multidão de pretendentes. Meus olhinhos brilhavam ao ver os ovos que minhas amigas já acasaladas botavam nas pedras e grutas. Gostava de assistir aquele milagre. Sim, milagre! Pois surgia uma vidinha daquele ovo e isso nos fazia chorar de emoção. Pois é, temos sentimentos também.

Naquelas paragens por onde eu vivia, sempre cercada de companheiros da minha espécie, era muito seguro e tranquilo de se viver. Alimento não nos faltava! Um belo pôr do sol sempre nos brindava. E o nascer do sol era pura esnobação. Acho que minha espécie é a que mais se aproxima de Deus e daquele azul infinito e maravilhoso. Abríamos nossas asas de enorme envergadura e ali ficávamos tomando o primeiro banho de sol do dia.

Vez ou outra saia para uma refeição rápida e tendo o privilégio de um olfato bem apurado, logo encontrava alimento. Mas essa não era minha única habilidade. Podia enxergar também a quilômetros de distância meu prato favorito.  O que me valia sempre a companhia de outros da minha espécie, que não foram abençoados com as mesmas habilidades, pois não pertenciam à família real.

Apesar de sentir-me segura, faltava-me alguma coisa ou alguém. Não que eu precisasse, pois já era feliz por demais na vida que eu tinha. E mesmo não vivendo em bandos era comum que pensássemos em perpetuar nossa espécie e para isso buscávamos parceiro para reprodução. Parceiro este que seria para a vida toda. E naquele ano, na primavera eu encontrei o amor. Meu parceiro. Aquele que seria daquele dia em diante meu maior companheiro.

Pois não é que eu encontrei o mais lindo, gentil e corajoso planador dos ares?! 

Não temos inimigos naturais. As outras espécies mal se aproximam de nós. Não disputam conosco nosso alimento e nem somos prato predileto de ninguém. Não somos ameaça para humanos, muito pelo contrário. Nem tão pouco dependemos da ação humana para sobreviver. Há segurança, sem predadores, comida com fartura e da melhor qualidade e sem concorrência. Nos alimentamos do lixo produzido ou deixado pelo homem.

Mas os humanos nos desdenham e nos rotulam como imundos e malcheirosos. Somos vistos como a escória do mundo animal.

Eles desconhecem o fato de que nossas asas são mais limpas e desinfetadas que as mãos deles! O próprio sol realiza esse trabalho todos os dias. E olhe que minha espécie pode viver até 40 anos.

Será que os humanos sabem que o que lhes causa repulsa é justamente o que os livra de um grande problema ambiental e sanitário?

Será que desconhecem que nosso corpo é preparado para realizar a digestão de qualquer alimento, por mais putrefeito que esteja, sem que nada nos cause doenças?

Será que sabem da nossa grande habilidade em economizar energia em nossos voos?   Sim, voamos tão alto que muitos nem podem imaginar e sabemos, como nenhuma outra ave, planar nas correntes de ar sem qualquer esforço.

Na verdade, nós prestamos com primazia um trabalho para a humanidade. Somos responsáveis pela eliminação de 95% daquilo que o homem não sabe o que fazer.

Conseguimos evitar que grandes epidemias aconteçam causadas pela ação de decomposição de restos de animais, carcaças largadas em qualquer lugar… E a nós, quanto mais apodrecida estiver, mais saborosa nos parece.

Sou a Cathar Blue, e vivo com meu parceiro Uru Blue nos picos nevados do Chile.

Sim, eu sou da família dos corvos, mais popularmente conhecidos como Urubus. Somos parentes dos Condores e pertencemos todos à grande família Cathartidae. Somos muitos ao redor do mundo. Uru Blue e eu somos da espécie Urubu-rei e como tal vivemos. Seguros, sem necessidade de caçar, sempre temos alimento, seja em qualquer estação ou lugar. Nenhuma outra espécie nos persegue e somos da paz, não incomodamos ninguém.  Ninguém nos coloca arreios nem nos prende em gaiolas ou chiqueiros. A verdade mesmo é que ninguém nos quer por perto. Sorte nossa, pois temos o mundo como morada e o céu como estrada. Temos uns aos outros e reconhecemos nossa utilidade. E assim vivemos, felizes e livres nesse mundão de meu Deus!

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* Luzia Maria de Souza é integrante da Turma Manoel de Barros, da Vivência Novos Autores, da Árvore das Letras, um encontro online semanal de leitura e produção literária. Você também pode participar. Saiba mais AQUI.

DE CARTA EM CARTA, HISTÓRIAS QUE CONTAM HISTÓRIAS

Por Leandro Bertoldo Silva
(Agradecimento especial a Adriana Freitas por compartilhar conosco uma vivência)

As histórias contidas em um livro vão muito além dele. Quando um autor escreve, ele nem imagina onde suas criações e personagens podem chegar e o que podem causar na vida das pessoas.

O maravilhoso livro De Carta em Carta, de Ana Maria Machado, uma das maiores e mais queridas escritoras brasileiras, com as lindas ilustrações de Nelson Cruz, protagonizou em nosso Clube de Leitura uma linda história de amor entre a realidade e a ficção.

Antes de contar, deixe-me falar do livro.

De Carta em Carta narra a comovente história de um avô e de um neto ao possuírem em comum muitas semelhanças: a teimosia, a implicância e o fato de não saberem ler e nem escrever.

O avô, Seu José, era um velho jardineiro; Pepe, um neto briguento e malcriado, não gostava de ir à escola.

Seu José e Pepe viviam a se desentender. Um dia, Pepe, ao sair de casa, chega à Praça dos Escrevedores, e lá conhece Seu Miguel, um dos escrevedores que trabalha na praça e transforma as palavras ditadas em palavras escritas em folhas de papel.

Pepe então tem a ideia de pedir a Seu Miguel para escrever uma carta ao seu avô e dita verdadeiros xingamentos. E assim começa uma intensa troca de cartas entre o avô e o neto.

Acontece que Seu Miguel sabia bem as palavras que o destinatário precisava ouvir…

Bem, não vou contar toda a história do livro, até porque não tirarei a bela surpresa do final! Mas contarei o desmembramento a partir dela.

Em nosso Clube de Leitura temos a prática de sempre buscarmos algo além do livro. Chamamos essa prática de transposição literária, isto é, a partir de cada enredo propomos alguma ação para fazer a leitura ganhar mais sentido. Como o grupo é bastante heterogêneo geograficamente, combinamos de escrever cartas uns para os outros e enviá-las por Correio, coisa obviamente rara nos dias de hoje.

Assim, uma das integrantes do grupo relatou a dúvida de sua filha em querer saber como uma carta era postada.

— Venha, vou lhe apresentar o Correio.

Uma vez lá, o carteiro estranhou aquela ação. Afinal, aquilo ainda existia? Pessoas a se corresponderem por cartas? Ao falar sobre o livro e explicar a proposta, aconteceu algo incrível! O carteiro achou aquela história tão linda, mas tão linda, e ele, o qual nunca havia escrito uma carta na vida ou provavelmente não o fazia há muito tempo, escreveu uma para e esposa e a postou com o intuito de chegar a sua própria casa. Segundo relato da nossa amiga, dias mais tarde, vinda do próprio carteiro, a esposa veio a chorar de emoção. E o melhor? Ele continua a lhe enviar cartas… Tudo isso por causa de um livro!

Não vou me estender, não é necessário… Só quero dizer algo muito sério: é isso o que a literatura faz. Quando me refiro ser ela uma das formas de salvar o mundo não estou a exagerar. É a mais pura realidade.

Essa história dentro da história termina aqui. A do carteiro com sua esposa continua. E quantas ainda estão por vir só na espera de alguém abrir um livro e ler?

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Caso tenha gostado dessa história e se interessado no nosso Clube de Leitura, saiba que você pode fazer parte dele. É só enviar uma mensagem. Terei o maior prazer em conversar com você.

Forte abraço!
Até a próxima.

O DIÁRIO DE UM APAIXONADO

Por Tomé Nasapulo*
(Angola)

Oh morena!

Apaixonei-me no bamboleado da tchianda

Provei o seu mel, fiquei sério, o pequena

Diz-me aonde tu andas.

.

Me leva em sua terra no Luena

Não diga que não!

Sei que aí tem caqueia

Faça-me provar tudo sem medida, nem pena.

.

Quero sentir-me indígena

Ensina-me tchokue

Para dizer o quanto amo-te em sua língua materna.

.

Hum receias, que seja tratado kamukakuisa!

Não me importo com quem ajuíza

Só sei que não sairei desta cena.

SIGNIFICADO DE ALGUMAS PALAVRAS DO TEXTO

Luena: Capital da Província do Moxico, situada no leste de Angola.

Tchianda: Dança folclórica do leste de Angola.

Caqueia: Peixinho saboroso, pescado nas chanas do leste de Angola.

Tchokue: Língua nacional falada no leste de Angola.

Kamukakuisa: Termo pejorativo que alguns do povo do leste de Angola usam para referir-se a quem não é nato da região.  

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* Tomé Nasapulo é de Angola e é correspondente literário da Árvore das Letras.

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Quarta Literária é uma ação da árvore das Letras de fomento à literatura independente.

Você também pode ser um correspondente literário. Participe da Vivência Novos Autores, um encontro on-line semanal de leitura e produção literária. Saiba mais AQUI.

NOVOS AUTORES – A INCRÍVEL ARTE DE CELEBRAR A LITERATURA

Por Leandro Bertoldo Silva

Imagine fazendo parte de um grupo de pessoas amigas e acolhedoras de várias partes do Brasil em um ambiente leve, descontraído e saudável, extremamente respeitoso, que amam escrever, compartilhar seus textos e leituras e ainda publicar suas histórias.

Imaginou?

Pois esse grupo existe e você pode fazer parte dele.

Estou falando da Vivência Novos Autores, da Árvore das Letras, uma imersão de sentimentos por meio da leitura e escrita, que tem o objetivo de aprimorar a percepção literária e metafórica das histórias que lemos e ouvimos, e aplicar técnicas criativas e afetivas na produção de narrativas e poesias.

Não é maravilhoso para quem tem a escrita como paixão?

Tudo bem! Eu sei que o ofício de escrever geralmente é muito solitário. O escritor ou escritora trabalha de maneira independente, passa horas no computador ou, se você for como eu que ama escrever os primeiros esboços à mão, passa muito tempo em companhia da folha em branco. E muitas vezes não tem com quem se consultar ou a quem recorrer em momentos de dúvidas e incertezas e, também, compartilhar o que escreveu, ouvir opiniões construtivas que podem dar ainda mais direção a sua história ou poesia.

A Vivência Novos Autores proporciona exatamente este lugar.

E sabe o que é melhor?

Não importa se você está no início da sua jornada de escrita ou se já é um autor ou autora experiente, a Vivência é um lugar de trocas construtivas, onde todos e todas se respeitam acerca do fazer literário.

Fantástico, não é?

Aqui mesmo neste blog você encontra tudo sobre a Vivência: como funciona, o dia do encontro, nossas ações, sorteios de livros, nosso Clube de Leitura e, principalmente, como participar. É só clicar AQUI. Qualquer dúvida estou à disposição.

Por hora, quero apresentar para você algumas das muitas pessoas que fazem parte da Vivência e faz desse lugar tudo o que ele representa. Mas não se engane! Para que tudo isso pudesse existir, foram necessários 10 anos de história, muita estrada, muita formação, muitas experiências e muita, muita gente bacana que passou e continua passando por aqui. Por isso, veja só o que algumas delas têm a dizer:

VALÉRIA CRISTINA GURGEL . Escritora e musicaterapeuta – Nova Lima/MG.

A Vivencia Novos Autores criada e administrada por nosso Mestre Leandro, da Árvore das Letras, tem sido muito prazerosa e divertida. Cada semana uma surpresa, um desafio, uma proposta, um tema instigante, um debate e sempre com aquele propósito inteligente e carinhoso de convidar-nos a uma nova reflexão e uma nova escrita. Sem contar as indicações de livros, um Clube de leitura onde a gente discute um universo paralelo a partir de nossas observações por esse intercâmbio literário.  Essa troca tentadora de opiniões, percepções e inspirações que acontece é algo magnífico. Poder oferecer e receber indicações de diversas obras, ler, conhecer novos autores e seus respectivos livros que vão sendo sugeridos a cada mês por um membro de nosso grupo. Tudo flui de forma passiva, deliciosa, em meio a uma amizade bonita, sincera, afetuosa que vem se consolidando entre todos nós, tornando-nos sem nenhuma dúvida uma Família Literária! Gratidão Mestre e amigo Leandro por nos proporcionar esse espaço precioso e ao mesmo tempo tão simples e pleno de arte e sabedoria compartilhadas!  Um forte abraço da escritora e amiga Valéria Gurgel.

PIERRE ANDRÉ . Contador de histórias e escritor – Belo Horizonte/MG.

A Vivência novos Autores me deu, literalmente, vida em relação à escrita e à leitura. Me fez descobrir que podemos, sim, escrever algo que jamais poderíamos imaginar. Como aconteceu comigo e os Haicais, os escrevendo como tradicionalmente são e inventando maneiras diversas, diferentes e brincantes. O que já me rendeu material para pelo menos três livros distintos sobre haicais.

Mas o mais importante é poder fazer isso compartilhando com os colegas, nos nossos encontros semanais, às vezes até criando textos, uns para os outros.

Só posso dizer:

Vivência Novos Autores,

Minha Gratidão!

.

Leandro, meu “fii”,

Sobre a sua pessoa:

Você é o cara.

ELISA AUGUSTA DE ANDRADE FARINA . Escritora e Presidente da Academia de Letras de Teófilo Otoni – Teófilo Otoni/MG.

A Vivência Novos Autores, excedeu minhas expectativas  pela gama de conhecimentos que foram disponibilizados.

Foi um UP para minha carreira de escritora, enriqueceu meus conhecimentos, estreitou laços de amizade e companheirismo entre todos envolvidos nessa grande teia literária e poética.

O bom professor, e o Leandro o é, promove a circulação  do conhecimento  aguçando  a curiosidade  que proporciona a reflexão  e o diálogo.

MARAVILHOSO!

CAROLINA BERTOLDO . Professora e escritora – Pompéia/SP.

A Vivência literária chegou para agregar muito na minha experiência com a escrita. Desde adolescente escrevo trechos, contos e crônicas, mas só quando passei a fazer parte do grupo dos Novos Autores  eu me reconheci como escritora.

Sempre gostei de literatura, desde a época da escola. Até mesmo de alguns dos clássicos! Mas sou muito grata por essa grande e especial permissão de a cada encontro do grupo me conectar mais ainda com o universo da literatura livre!

LUZIA MARIA DE SOUSA . Escritora e amante da reciclagem e das letras – Belo Horizonte/MG.

O trabalho desenvolvido na Vivência Novos Autores tem a cada dia despertado a leitora feliz que há em mim. E para minha surpresa veio junto um desejo enorme de escrever, colocar no papel minhas memórias. E numa linha mais romântica e divertida tenho criado textos que me agradam muito. Feliz demais com o resultado desse processo. Gratidão!

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É isso aí! Junte-se ao nosso grupo.

A temporada 2024 já começou!

Forte abraço!
Até a próxima.

UM AMOR SEM IGUAL

Por Elisa Augusta de Andrade Farina*

Ah! O amor!…  O amor é um dos grandes temas para filmes, novelas, teatros e propagandas. Onde está o amor verdadeiro? Como definir o amor? Como saber amar?

Guimarães Rosa disse que “o amor é passo de contemplação “. Decidi embrenhar-me no filosofar para conhecer a plenitude do viver e do amor. Busco dar sentido e ver sentido nas coisas, nas palavras, nas pessoas, poetizar…

Sou um ser despreparado com relação ao amor; quando ele entrou em minha vida não fui avisada, não pediu-me licença, pegou-me desprevenida. Fez questão de chegar de mansinho para não ser notado. Apaixonei-me pela vida, pelas pessoas, pelas flores e os pássaros em seus voos  livres e felizes. Sonhei… Fiz dos sonhos poesia. O amor estava em toda parte, saciava minha fome. Estava em tudo e ao mesmo tempo no nada, busquei as estrelas mais brilhantes para povoarem o meu céu de amor.

Das asas da liberdade fiz um trampolim para alcançar o inalcançável.  Vi no amor a possibilidade de me conservar viva e atuante.

Quando observo as pessoas na sua luta diária, pergunto-me se sabem o sentido do amor, do existir, da importância de amar e saber ser amado.

O amor que está estampado aos quatro ventos é um amor raso, imediatista, sem profundidade, egoísta e impregnado de falsas ilusões.  O verdadeiro amor reside no âmago da alma, no cerne do ser, pronto para encontrar ressonância  em outra alma. Não adianta ter o amor, se não tiver a quem amar. O amor é troca, é busca, é  renúncia.  Necessita-se do outro com todas as suas especificidades e defeitos para que haja a comunhão.  Não estou falando do amor carnal, este já se banalizou, falo do amor ágape.  O amor que sentimos pelo nosso próximo, um amor generoso, sem limites, puro, livre de amarras. Para amar dessa maneira é necessário abandonar os adornos, esquecer-se de seu ego que necessita de atenção e aplausos.

Coisificamos o homem através do consumismo exacerbado. Para libertar -se dessa teia avassaladora é  necessário  fazer o caminho inverso do que trilhamos. Precisamos ir além do que os nossos olhos veem, a capacidade de ver além do que possamos captar através  dos sentidos. É preciso penetrar o recôndito  do nosso coração  e escutar a linguagem dos sentimentos, encontrar a simplicidade, amar como o Criador nos ama e cuida. O amor é ação.  É movimento. É (re)encontro. O amor dá significado às relações e nos torna mais dóceis,  mais comprometidos com o outro. Deixa-nos mais sensibilizados e preparados para enfrentar a dor e as mazelas que surgem em nossas vidas.

Não temos tempo para o cultivo de uma vida interior. É mais fácil a superficialidade. Não experienciamos as realidades que nos levam a uma transcendência para poder acessar cada vez mais a nossa verdade pessoal, possibilitando a posse de nós mesmos, favorecendo relacionamentos mais saudáveis.

Só quando conseguimos enxergar o outro como possibilidade de complemento, seremos capazes de amar. Aí sim, seremos como a fragrância de um perfume que exala e deixa o seu  cheiro modificando nossa jornada chamada vida!

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* Elisa Augusta de Andrade Farina nasceu e cresceu na cidade de Teófilo Otoni. Morou em Belo Horizonte, onde graduou-se em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, constituindo família. Após 30 anos retornou com sua família à cidade Natal, onde tornou-se integrante da Academia de Letras e concretizou o seu sonho de escritora lançando seu primeiro livro: Antes de tudo, mulher. Após novas publicações, Elisa hoje é presidente da Academia de Letras de Teófilo Otoni – ALTO, exercendo um trabalho de fundamental importância para difusão da literatura nos Vales do Mucuri e Jequitinhonha, em Minas Gerais e no mundo.

Elisa é integrante da Vivência Novos Autores da Árvore das Letras, um encontro on-line semanal de leitura e produção literária. Você também pode participar. Saiba mais AQUI.

MATURIDADE AMORES E DORES AO ENVELHECER – UMA CONVERSA COM PAULO CEZAR S. VENTURA

Neste ano de 2024, a Árvore das Letras estará trazendo mensalmente entrevistas com pessoas e personalidades reais da vida em diversas áreas do conhecimento e da arte, como a literatura, contação de histórias, psicologia, filosofia, pedagogia e outras tão importantes para o desenvolvimento humano. O diferencial e, ao mesmo tempo, o grande prazer e por que não dizer orgulho, é que todas as entrevistas serão com gente da gente, ou seja, pessoas que estão a passar ou passaram pela Árvore das Letras deixando suas presenças nessa verdadeira troca de talentos, conhecimentos e carinhos.

Para abrir mais esse grande momento da existência desse espaço, a Árvore das Letras conversou com Paulo Cezar Santos Ventura, poeta, cronista e contista. Professor aposentado do CEFETMG, é graduado em Física pela USP-São Carlos e Doutor em Ciências da Comunicação e Informação pela Universidade de Bourgogne, em Dijon, França. Enquanto professor e pesquisador, orientou mais de 1000 projetos de Engenharia e Educação em nível de graduação, pós-graduação e mestrado. Além de leitor e escritor apaixonado pela obra de João Guimarães Rosa, que o inspirou nos “Haicais do Riobaldo”, Paulo Cezar Santos Ventura é membro da Academia Novalimense de Letras, da cidade de Nova Lima, onde reside. Seu mais novo livro é “Maturidade amores e dores ao envelhecer”, publicado pela Biblio editora e apoio cultural da Rolimã editora.

Árvore das Letras: Quem é Paulo Cezar S. Ventura por ele mesmo?

Paulo Cezar S. Ventura: Pensava ser um camaleão mutante, de tantas mudanças pelas quais passei durante minha vida. Hoje sei que essas mudanças são naturais, mesmo diferenciando-me por isso, pois muitas pessoas nunca mudam. Cresci menino de interior, desde cedo trabalhei na lavoura, criei calos definitivos de tanto capinar. Mas estudei muito na vida, sou leitor desde muito cedo, e aos quinze anos comecei a escrever poesia. Li um poema em uma enciclopédia e pensei que também poderia fazer isso. Comecei e nunca mais parei. Uma de minhas características é ser muito observador do que se passa em meu entorno e aprender com isso. Outra é ser bem humorado. Meu slogan é “sou feliz por opção e bem humorado por obrigação”.  Sempre pensei que um olhar nos olhos dos outros, um aperto de mão afetuoso e um sorriso são atitudes inesperadas e que podem surpreender os interlocutores e abrir caminhos importantes em sua vida. Uso isso o tempo todo.

AL: Você sempre teve inclinação para a escrita? Conte um pouco da sua trajetória na literatura.

PCSV: Sempre gostei de escrever, era um hobby importante. Mas nunca encarei a escrita como profissão antes. Precisava trabalhar para meu sustento desde muito cedo e mais tarde para sustentar uma família. Fui ser professor. No entanto, eu tinha em mente a ideia de que um dia seria escritor. Que escrever era uma necessidade, publicar era um sonho. Meus textos acadêmicos sempre foram considerados de ótima qualidade, minha tese de doutorado foi elogiada como um relatório de pesquisa de alto nível, e exigia que meus alunos escrevessem com qualidade, com boa legibilidade. Participei de alguns concursos literários sem grandes chances e sem ter um trabalho no qual pudesse acreditar. Mas o germe da escrita estava presente em tudo que eu fazia e ela vinha naturalmente. Em 2008 escrevi, durante um ano, uma série de poemas que viriam a ser meu primeiro livro, Mistérios de Marte, publicado de forma independente em 2015. A partir daí não parei mais de escrever. Muitos de meus poemas e crônicas foram publicados em Antologias e Coletâneas, mais de 10. Em 2017 publiquei o livro infantil Zorro, pela Rolimã Editora, sobre um cachorrinho e suas peraltices em seu quintal. Depois veio Haicais do Riobaldo, publicado em 2022 pela Literíssima Editora. Em seguida veio Encontro das Improbabilidades, em 2023, pela Árvore das Letras, uma edição limitada que será republicado em 2024 pela Rolimã Editora. Recentemente, em dezembro de 2023, publiquei Maturidade: Amores e Dores ao Envelhecer, um livro de crônicas sobre o processo de amadurecimento sob um ponto de vista bem pessoal.  Publiquei também na Amazon KDP, que pode ser baixado e lido em tela de celular ou computador mais dois livros de poemas: um se chama Felicidade Ficção do Futuro, o outro é um livro de poemas eróticos com o título de Cinquenta Cores de Mulher. Terei ainda outras publicações em 2024, que estão a caminho.

AL: Você também é Físico e construiu toda uma carreira como professor e orientador de mestrado e doutorado, ministrando palestras e viajando para fora do país. Como você “se distribui” entre a Física e a Literatura? Como uma complementa a outra?

PCSV: Durante o tempo em que atuei como professor eu escrevia muito, principalmente poesia e crônicas, mas não tinha um método pessoal de escrita e publicava apenas em blogues (https://poesiasparabeber.blogspot.com/ e https://cronicasdamaturidade.blogspot.com/). Passei a escrever com a pretensão de me tornar um escritor apenas ao final de minha carreira de professor, pouco antes da aposentadoria. E aí fui estudar para isso. No entanto, o que aprendi com cursos sobre criatividade dos quais participei, é que o processo de criação na Ciência e na Tecnologia não difere do processo de criação nas Artes, entre elas, a Literatura. Criamos a partir dos questionamentos que fazemos diante das possibilidades da vida e na resolução dos problemas que nos surgem cotidianamente. Nem é uma questão de complementaridade. Criar exige um repertório de conhecimento, imaginação e avaliação constante daquilo que estamos realizando.

AL: Para você, qual a responsabilidade do escritor diante da realidade do nosso país? O que o preocupa?

PCSV: A responsabilidade do escritor é a mesma de qualquer profissional neste país. Trabalhar com ética e contribuir para o desenvolvimento sustentável do país, para a democracia, para a igualdade de condições de desenvolvimento pessoal e diminuição das desigualdades sociais.

AL: Essa atitude de falar sobre questões do seu tempo, remonta ao Romantismo. Castro Alves fazia isso ao proclamar a respeito da liberdade dos escravos, o que demonstra uma participação social muito grande do escritor. Como você vê o engajamento social do escritor de hoje? Ele existe?

PCSV: Acredito ser a mesma coisa em todas as profissões. Alguns profissionais são altamente engajados socialmente, outros não e só produzem pensando em ganhos pessoais. Evidentemente que os ganhos pessoais são muito importantes. Quero ser valorizado e reconhecido como escritor, mas pensar em soluções coletivas para a nossa sociedade também é muito importante. Quando escrevemos uma ficção nossos personagens são representativos da sociedade no momento; quando escrevemos um poema também registramos emoções que se conectam com o que acontece na realidade. Isso é escrever sobre temas que se perpetuam.

AL: Escrever é algo diferente para cada escritor/escritora. Para alguns, curiosamente, é árduo, insano, torturante; para outros é altamente prazeroso. Para você, como é? Você tem algum ritual? Por que você escreve?

PCSV: A escrita, para mim, é prazerosa e, ao mesmo tempo, árdua. Escrever exige foco, concentração, treinamento, muita leitura, conhecimento, etc. É trabalho. Não acredito em dom. Escrevo porque treinei muito, dediquei muito, estudei muito. É muito mais trabalho que inspiração. A escrita, para mim, é uma necessidade. O dia que não escrevo sinto falta de alguma coisa. É como se tivesse uma tarefa a realizar e não a concretizei. E finalizar um texto é altamente gratificante.

AL: Mia Couto, um escritor moçambicano, diz que os escritores nascem de outros escritores. Isso nos leva a crer em pais escritores e mães escritoras. Quem são os seus pais literários?

PCSV: Temos muitos pais e mães literários, alguns definitivos outros temporários. Eu bebi nas fontes de Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Thiago de Melo, Lima Barreto, Machado de Assis, Paulo Leminsk, Ferreira Goulart, Augusto de Campos, Rainer Maria Rilker, Konstantino Kaváfis, para citar uns mais antigos. Mais recentemente me inspirei em José Saramago, Guimarães Rosa, Oswald de Andrade, Mário Faustino, Fernado Pessoa, Mia Couto. Como sou muito ligado ao cinema, os grandes diretores de filmes de arte sempre me inspiraram também. Bem como grandes músicos e letristas. Tenho certeza que estou deixando de citar muitos outros, principalmente estrangeiros.

AL: Fale um pouco sobre os seus livros. Embora a pergunta a seguir para um escritor possa ser perturbadora, mas há algum preferido?

PCSV: Realmente eu gosto de todos, mas os preferidos são sempre os últimos. Assim, cito Haicais do Riobaldo, Maturidade: Amores e Dores ao Envelhecer e Cinquenta Cores de Mulher. Estou trabalhando em novos livros com muito afinco e prazer. Tem alguns de poemas para breve e a reedição de Encontro das Improbabilidades, que espero publicar em março.

AL: Vamos falar sobre o seu mais recente livro publicado: “Maturidade: amores e dores ao envelhecer”. O que o levou a escrevê-lo e como foi o seu processo de escrita?

PCSV: Os tempos de pandemia me trouxeram muitas reflexões sobre o processo de envelhecimento. Nos primeiros momentos da Covid-19, os principais casos de hospitalização e mortes atingiam as pessoas idosas. Eu, hoje com 70 anos, fui infectado e por uns 30 dias vivi a preocupação com a infecção. Felizmente não fui hospitalizado e a virose passou sem me deixar sequelas físicas, apenas psíquicas. E uma das questões que me vieram à cabeça era: o que ainda tenho a perder? Comecei, então, a refletir sobre perdas e ganhos acumulados em nossa vida e aquelas que ainda virão no futuro. Como resultado dessas reflexões fiz um inventário sobre quais são meus principais patrimônios imateriais. Mesmo sabendo que as perdas desses patrimônios são irreversíveis, outra pergunta era: o que fazer para adiá-las o máximo possível? É sobre isso que trata o livro, quais são meus patrimônios e o que fazer e como fazer para não os perder ou, pelo menos, adiar as perdas. Perguntando de outra maneira, como podemos viver longa e saudavelmente nos dias de hoje? A escrita teve início ainda no sossego amedrontado da pandemia e as ideias e os textos, em forma de crônicas, foram se juntando até formar um corpo compacto como foi publicado.

AL: No livro você fala sobre os seus cinco patrimônios? O que são esses patrimônios e como você lida com eles? É possível discorrer resumidamente sobre cada um deles?

PCSV: Os cinco “patrimônios” discorridos no livro são imateriais. São aquisições reunidas durante a vida em função do conhecimento, da maturidade e do trabalho. Representam aquilo que obtive na vida e não quero perdê-los facilmente. Quero que perdurem enquanto eu viver. O primeiro deles é o tempo. Tenho tempo e não quero gastá-lo com veleidades fazendo coisas que não quero e não gosto. Sei que é difícil porque nos relacionamos com as pessoas, então só admito gastar meu tempo com pessoas que são importantes para mim. O segundo tem a ver com meu propósito de vida e com a motivação que tenho para executá-lo com alegria. E meu propósito hoje, que considero uma missão de vida, é escrever histórias que tenham significado para muita gente e as ajude a se transformarem em pessoas melhores. Escrever, publicar e vender minhas histórias é meu propósito. O terceiro patrimônio são os afetos. Quero aumentar o número de afetos e trazer de volta afetos perdidos, aqueles reversíveis. O quarto patrimônio é a saúde financeira. No meu caso é recuperar minha saúde financeira, tão negligenciada em meus anos anteriores. E o quinto é minha sabedoria. Essa ninguém, nem nada nesse mundo, me tiram. Para conversar todos esses patrimônios devo seguir um modo de vida sustentável, dentro desses princípios.

AL: Paulo, você faz parte da Vivência Novos Autores, da Árvore das Letras, que é um encontro semanal juntamente com outros autores e autoras e até mesmo aspirantes à escrita. Como foi e está sendo para você essa experiência?

PCSV: Tem sido uma experiência fantástica. Nem sei quantas páginas já escrevi nesses dois anos de experiência com a Árvore das Letras. Porque ela, a Árvore, através da interação entre os participantes, nos trás temas para a exploração da criatividade e para a discussão entre os escritores do grupo. E o mais importante para os meus “patrimônios”: ganhei novos afetos, novos amigos que entraram para a minha lista de amigos imperdíveis.

AL: Ler é…

PCSV: Primordial para o aumento de nosso repertório linguístico tão necessário à nossa criatividade. Ler abre as cortinas das janelas e portas que nos permitem entrar em outros mundos, imaginários ou reais. É a leitura a ferramenta mais importante para a aquisição e manutenção do patrimônio “sabedoria”.

AL: Escrever é…

PCSV: Uma necessidade fisiológica, como comer e beber. As quatro necessidades básicas do ser humano são: viver, amar e ser amado, aprender e deixar um legado. Ler e escrever são atividades importantes para o atendimento dessas quatro necessidades.

AL: Ser escritor hoje no Brasil significa…    

PCSV: Significa trabalhar duro, muita transpiração para cada inspiração. Significa garimpar leitores com bateias gigantes, significa ensinar a ler primeiro para depois apresentar seu livro, significa correr muitos riscos de se expor e não ter o retorno almejado, significa batalhar muito para mudar este quadro. O número de leitores, no Brasil, tem até aumentado, mas a qualidade da leitura ainda está muito aquém da desejada e necessária.

AL: Paulo, muito obrigado por sua presença aqui nesse espaço. Como as pessoas podem entrar em contato com você, comprar os seus livros, convidá-lo para eventos?

PCSV: Além dos comentários nos blogues colocados acima e também no site www.paulocezarsventura.com, pode ser também através do Instagram @paulocezarsventura bem como @rolimaeditora, do WhatsApp 31-995722702, e através do e-mail pcventura@gmail.com. Estou disponível para palestras e conversas com leitores principalmente nas escolas.