VIVENCIANDO A LINGUAGEM, LEITURA E ESCRITA

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Por Leandro Bertoldo Silva

Mais um ano concluído!

No final de novembro, finalizamos com muito proveito o nosso curso Vivenciando a Linguagem, Leitura e Escrita e ficamos muito felizes com a presença de todos os alunos, dos pais, inclusive, que é o nosso maior elo na construção da aprendizagem.

Ficamos muito satisfeitos por verificarmos o quanto os resultados foram perceptíveis pelos pais e quanto os alunos se desenvovleram dentro do que foi proposto para cada turma.

Para que todos saibam o que de fato é este curso e o porquê já estamos entrando no sexto ano consecutivo deste trabalho com um índice de satisfação imensa por todos que passaram, que passam e estão passando por ele, resolvi falar um pouquinho aqui sobre tudo isso. Tenho certeza que entenderão o motivo de tanto prazer…

O QUE É ESCREVER?

Escrever é uma habilidade necessária para todas as pessoas e, particularmente, para quem estuda. Para escrever com clareza é necessária uma anterior organização lógica do pensamento, podendo-se concluir que sem o pensamento logicamente ordenado não pode haver redação clara, inteligível. Isso significa que ensinar a escrever equivale a ensinar a pensar, tarefa obviamente impossível; no entanto, sugerir técnicas ou práticas que favoreçam o desenvolvimento do processo de redação é tarefa possível.

A redação de um bom texto exige grande domínio do pensamento sobre as palavras. É preciso “capturá-las”, escolhê-las adequadamente, dominá-las para ordená-las em frases e parágrafos, como quem monta uma espécie de quebra-cabeça.

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É com este objetivo que o curso Vivenciando a Linguagem, Leitura e Escrita propõe-se a estudar e discutir as etapas a serem seguidas na elaboração de um texto, analisando suas partes constituintes, a construção dos parágrafos, as estruturas frasais, o uso do vocabulário adequado, bem como o caminho para a solução dos erros gramaticais e as impropriedades de vocabulário mais comuns encontradas nas redações.

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Porém, antes disso, faz-se necessário voltarmos nossos olhos para a leitura, que é a “matéria-prima” de nossas ideias, da riqueza de nossos pensamentos e fortalecimento de nossa visão de mundo. É ela que nos mune de “ferramentas” para um bom texto. Tão importante quanto escrever é saber ler e interpretar para que, através dessa prática, possamos alcançar qualidade em nossos argumentos e transpô-los para o papel.

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A ênfase do curso, portanto, privilegia a leitura, a interpretação e a redação de diversos tipos de textos. No entanto, para atingir esse objetivo, tomamos o caminho inverso do comumente usado, isto é, ao invés de partirmos das técnicas para alcançarmos o prazer da escrita, iniciamos exatamente utilizando o prazer das palavras para encontrarmos o caminho das técnicas, preparando o aluno para alcançar resultados satisfatórios e práticos na arte de escrever bem. Para isso, utilizamos vários exercícios práticos de escrita orientada para que o aluno perceba as artimanhas da escrita e seus diversos caminhos ou, como diz Ronald Claver, autor do livro A Arte de escrever com Arte, as artes e manhas do gato. Por isso é que antes das palavras ganharem o papel elas são literalmente desenhadas, além de servirem como fonte de dinâmica e de brincar.

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O curso conta ainda, além de um estudo específico de ortografia e frase, oração e período, com diversas dinâmicas de leitura individual e em grupos com o objetivo de estimular essa prática, auxiliar o desenvolvimento de habilidades de atenção e observação, incentivar a organização e a expressão de ideias, estimular o aumento e a fixação de vocabulário e incentivar a criatividade; tudo isso para alcançar o seu objetivo final, que é levar o aluno a produzir com mais propriedade redações de cunho narrativo, descritivo, dissertativo, informativo, publicitário, acadêmico e literário.

MAS O MAIS IMPORTANTE DE TUDO!

Todos que passam pela Árvore das Letras aprendem que escrevemos não para fazer uma prova no final de ano ou melhorar as notas na escola…

ESCREVEMOS POR QUE SOMOS SERES HUMANOS E, COMO TAIS, TEMOS A NECESSIDADE DE CONTAR E DEIXAR REGISTRADAS NOSSAS HISTÓRIAS!

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MUITO ALÉM DO TEXTO!

 

Levando-se em conta que o resultado de um texto está intimamente ligado com a qualidade emocional e vivencial de quem o escreve, leva-nos a certificar que o ser humano é feito de corpo e alma e, sendo assim, não podemos manter, nos tempos atuais, a ideia de mente separada do corpo e das emoções. Portanto, durante o curso, os alunos contam com o apoio da Terapeuta Floral e artista Geane Matos que, através dos florais, atua no equilíbrio mental e emocional dos alunos em encontros agendados.

Nossa experiência mostra que essa prática apresenta resultados significativos em nossos alunos, como é em várias partes do mundo. A terapia com flores é um tratamento natural que utiliza a essência retirada das flores, usado por via oral, para auxiliar em várias questões. Como não é medicamento, não possui contraindicações nem efeitos colaterais. A fórmula base utilizada é a fórmula do estudante que estimula a concentração no aprendizado, a memória e a força de vontade, além da organização e da perseverança nos estudos.

E VAMOS ALÉM…

No início de cada aula, que tem a duração de uma hora e meia, passamos pela prática da meditação como forma de buscar a concentração e o estado ideal para que os conteúdos, as dinâmicas, as leituras e as escritas a seresm realizadas sejam vivenciadas de maneira profunda e atenta, mantendo os alunos presentes e com a consciência calma. Só assim atingimos a concentração ideal para a aprendizagem.

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Este é o curso Vivenciando a Linguagem, Leitura e Escrita! Ficamos muito felizes com tudo isso… E vamos em frente!

Forte abraço!

Leandro Bertoldo Silva

TEMPO FUTURO

ALGUNS AMIGOS SABEM QUE DIMINUÍ CONSIDERAVELMENTE A MINHA PRESENÇA NAS REDES SOCIAIS. PARA UM ESCRITOR INDEPENDENTE ISSO SERIA PÉSSIMO, CERTO? BEM, NEM TANTO! TUDO É UMA QUESTÃO DE PENSAR FORA DA CAIXINHA… LEIA A SEGUIR O QUE ME MOTIVOU A ISSO E ALGUMAS IDEIAS DE PESSOAS RELEVANTES QUE VALE A PENA REFLETIR SOBRE ELAS. E APÓS A LEITURA, PENSE: COMO É A SUA RELAÇÃO COM AS REDES? ELAS TRABALHAM PARA VOCÊ OU É VOCÊ QUE TRABALHA PARA ELAS?

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Por Leandro Bertoldo Silva

Muitas vezes o que pensamos ser a liberdade, o viver sem fronteiras, o estarmos conectados ao mundo é, no fundo, no fundo, o contrário do que acreditamos. Estou vivendo um momento de muita reflexão, se não quanto aos rumos em que a sociedade está caminhando no clássico “e assim caminha a humanidade”, pelo menos no bite que me cabe neste latifúndio. Estou me referindo às redes sociais, essa bolha na qual estamos cada vez mais imersos e segmentados e à necessidade que elas têm em minha vida. Aliás, este é o pensamento que me vem: até onde elas têm necessidade em minha vida? Não sei na sua, mas na minha é o que se segue.

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CAL NEWPORT (FOTO: REPRODUÇÃO)

Confesso que fiquei muito impactado com as ideias extraídas do livro Deep Work: Rules for Focused in a Distracted World, de Cal Newport, além de uma palestra do TEDx  do mesmo autor sobre as redes sociais, em que ele defende a total inutilidade dessas redes e o porquê todas as pessoas deveriam abandoná-las. Calma, sem radicalismo, mas a ideia é interessante. Impressionou-me ainda mais o fato de ser quem ele é, um Millenial, cientista da computação, escritor e que nunca teve uma sequer conta nas redes sociais.

Antes de citar alguns dos vários argumentos apontados por Newport, digo que cheguei até ele depois de um tempo considerável pensando sobre o assunto e assustado por me achar não pertencente ao mundo moderno. Mas como assim se aqui estou eu utilizando da internet para divulgar o meu trabalho?

Uma coisa é importante que se diga: internet e redes sociais são duas coisas completamente diferentes, embora muitas empresas bilionárias insistem em uni-las na tentativa de aprisionar a todos dentro da caixa ou mesmo de um grande buraco negro. “Quer ver um vídeo? Veja aqui! Quer saber sobre as notícias da sua cidade? Saiba aqui! Quer vender algo? Venda aqui!” Conhece algo assim? Qualquer semelhança não é mera coincidência… Opa! Onde está o mundo sem fronteiras?! E se são os famosos e incompreensíveis algoritmos que determinam o que e quem eu vejo, não há liberdade nessa história, e isso, além de bizarro, me fez entrar em crise.

Há algum tempo, sem mesmo conhecer as ideias de Newport, já havia tomado a decisão de fazer a experiência de desativar a minha conta no facebook por não estar mais me sentindo à vontade por lá. Por vários motivos que não cabem aqui agora, passei a achá-lo um lugar desagradável, inconveniente e a balança pesou muito para uma despedida e, sem me arrepender – pelo contrário, experimentei um enorme sentimento de alívio, liberdade e recuperação da minha autonomia e autoestima – os argumentos de Newport vieram ratificar a minha decisão. Para elucidar alguns, simulei uma conversa com Cal Newport a partir do que ele diz na palestra do TDx e que você pode verificar clicando AQUI. Vamos lá!

Cal, O que as redes sociais realmente representam?

Cal Newport: “As redes sociais são apenas produtos, desenvolvidos por empresas privadas, amplamente financiados, cuidadosamente comercializados e projetados principalmente para capturar e vender suas informações pessoais e sua atenção para anunciantes”.

Mas, Cal, as redes sociais estão entre as tecnologias fundamentais do século 21. Rejeitá-las seria um ato de extremo arcaísmo…

Cal Newport: “As redes sociais não são uma tecnologia fundamental. Elas influenciam algumas tecnologias fundamentais, mas são melhores compreendidas como uma fonte repugnante de entretenimento, como máquina caça-níqueis, que te oferecem agrados brilhantes em troca de minutos de sua atenção e bites dos seus dados pessoais, que podem depois serem empacotados e vendidos.”

Está certo, cal, mas não posso abandonar as redes sociais porque elas são vitais para o meu sucesso. Se eu não tiver uma marca bem cultivada nas redes sociais, as pessoas não vão saber quem eu sou, não vão conseguir me encontrar, oportunidades não virão ao meu encontro e vou efetivamente desaparecer! (Essa é forte!)

Cal Newport: “Isso é uma bobagem. Na competitiva economia do século 21, o que o mercado valoriza é a habilidade de produzir coisas raras, valiosas, e rejeita, na maior parte, atividades que são fáceis de serem replicadas e que produzem pouco valor. Qualquer criança de seis anos com um smartphone pode criar um post viral… O mercado valoriza coisas raras. Se você conseguir extrair soluções que mudarão uma estratégia de negócio e atividades de alta concentração, produzindo resultados raros e valiosos, você criará as próprias oportunidades e as pessoas irão te encontrar independente de quantos seguidores você tiver no Instagram.”

Fim da simulação com respostas verdadeiras.

Esses e outros argumentos você pode conferir clicando no link da palestra. Muitos outros livros e profissionais ligados à tecnologia, ou não, como o caso do professor André Azevedo da Fonseca, foram me mostrando que a quantidade de pessoas que começam a despertar a consciência para uma nova forma de viver sem as redes, ou pelo menos repensando sua postura dentro delas, se reinventando frente a esse mar (in)navegável é muito maior do que eu presumia e que eu não estou assim tão sozinho como imaginava. Ufa, ainda bem, pois, afinal de contas, não estou querendo dizer que não devemos buscar por oportunidades e mostrar o nosso trabalho; o que estou querendo dizer é que não dependemos exclusivamente das redes sociais para isso.

Porém, um pensamento também me faz presente: sempre busquei viver bem na sociedade sem que eu precisasse me render às coisas fúteis da vida, acreditando ser possível vencer o grande desafio de estar no mundo sem me deixar influenciar pelo supérfluo, pelo que não vale a pena e me concentrar em coisas e pessoas valiosas. Também, e especificamente sobre o trabalho, não precisamos vendê-lo o tempo todo, mas compartilhá-lo como fonte de inspiração para as outras pessoas. E, se assim é na vida real, por que não na virtual? Esse pensamento não me fez querer voltar ao facebook como antes. Mantenho apenas a página da Árvore das Letras para chamadas bem pontuais. O Instagram ainda acho que vale a pena, porém, estabeleci uma regra pessoal de postagem que conta com três perguntas essenciais. Aí estão elas:

  • O que estou postando é relevante?
  • O que estou postando faz sentido para as pessoas ou só para mim?
  • O que estou postando é essencial e agrega valor ou é algo apenas para obter likes e, portanto, para satisfazer o meu ego?

Essas perguntas são mais pertinentes do que podem parecer. Está certo que o que eu posto nas redes – na sua imensa maioria sobre leitura – você pode até não gostar. Ninguém é obrigado a gostar de ler, de literatura e desse universo que tanto me encanta, mas uma coisa é indiscutível: fútil não é. Digo isso porque chega a ser inacreditável as coisas que vemos nas redes sociais, como fotos de xícaras de café em balcão de livraria, livros abertos (geralmente grossos; será que a pessoa leu?) com um gato em cima ou simplesmente a foto da própria pessoa no espelho – o maior e mais autêntico narcisismo – além da cegueira, pois, como diz Mia Couto: “cego é quem só abre os olhos quando a si mesmo se contempla”, sem contar os sem sentidos “quiz”: as dez coisas que eu comprei, os dez livros que eu li, as dez viagens que eu fiz, e por aí vai… E a pergunta se faz: “o que essas coisas mudam efetivamente para melhor a minha vida ou de quem quer que seja?”

Chega a ser assustador a quantidade desse descarte virtual e sem sentido impregnado na internet e, consequentemente, na vida das pessoas que ficam vulneráveis como se fossem grandes receptáculos de qualquer coisa.

Como sempre digo, não estou querendo influenciar ninguém, cada qual sabe onde a sua inteligência é melhor moldada e respeitada. Mas, por outro lado, também não é possível continuar apático a tanta barbaridade e não expressar o que sinto, até mesmo para alguns amigos entenderem minhas escolhas.

E para encerrar, quero ficar com mais um pensamento de Cal Newport que achei extraordinário:

“Se você está comprometido em criar impacto no mundo, desligue seu celular, feche as abas do seu computador, arregace suas mangas e vá trabalhar”.

Mas se tiver que usar o computador para divulgar o seu trabalho, ok, use as redes sociais se for tão impossível para você deixá-las, mas reserve a “cereja do bolo” para os blogs – pense neles – pois uma coisa é certa: você irá desenvolver muito a sua criatividade em algo que é realmente seu e, sendo assim, é você quem manda na caixinha…

Forte abraço!

Leandro Bertoldo Silva

MEMÓRIAS DE UM TEMPO

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Por Leandro Bertoldo Silva

A Alforria Literária deu mais um grande passo na sua proposta de se consolidar como uma alternativa sustentável e de qualidade na produção de livros ecológicos, mostrando que é possível abrir novo mercado editorial através de novas possibilidades mais justas, tanto para quem escreve como para quem consome.

Na noite do dia 23 de novembro de 2018 aconteceu em Padre Paraíso, Minas Gerais, mais um lançamento e noite de autógrafos do novo livro “Memórias de um Tempo”, resultante do projeto de leitura e escrita da Árvore das Letras, realizado na Escola Orlando Tavares no Vale do Jequitinhonha, transformando alunos em autores.

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Foi uma noite belíssima em que os novos autores receberam seus convidados e autografaram os seus livros que tiveram como tema suas próprias memórias e de suas famílias, mostrando que todos temos histórias para contar e compartilhar.

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Com isso, a Alforria Literária como selo da Árvore das Letras, já contabiliza em sua recente história 5 obras publicadas somente neste ano de 2018, sendo elas: “Janelas da Alma: uma tempestade íntima, um conflito, um retorno”, “Entrelinhas Contos mínimos” e “Relicário Pessoal-Raicais” – todas como resultado do meu trabalho como escritor, e as obras “Cartas ao Tempo”, dos alunos da primeira turma da Árvore das Letras, e o atual “Memórias de um Tempo”, dos alunos da Escola Orlando Tavares.

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Isso nos enche de alegria e esperança de vermos mais literatura em nossas vidas, fazendo com que a leitura ganhe aspecto de protagonista em nossas famílias e comunidades construindo um mundo mais culto e menos violento.

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Transcrevo abaixo o prefácio do novo livro “Memórias de um Tempo”, um vez que ele reflete uma visão de educação que eu, como escritor e professor, prezo como alicerce em meu trabalho e que levo como sonho realizado, porém com muito ainda a fazer.

Estamos prontos para novos voos! Que venha 2019!

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Para mim há uma grande diferença entre estudo vivo e estudo morto. Estudo vivo é aquele que pauta sua existência na produção de ideias e não apenas na repetição do que já existe, ainda mais o disfarçando sob o viés do conhecimento. Estudo vivo privilegia o compartilhamento, mesmo que o mundo muitas vezes nos leva a acreditar no contrário e nos faz criar escolas que são regimentos de competições, mas, pelo estudo vivo, aprendemos que há lugar para todos, pois ele cria e vive nas asas das possibilidades. Estudo vivo respira e se pergunta sempre “por que não?”, ao invés de conservar-se no abafamento das respostas prontas que nos faz ter vidas prontas, permanecidas em si mesmas, cinzas, sem perfume e cor. Sempre duvidei das escolas cinza… Não, não pintem suas salas de aula de cinza. Se for para tê-las, tenha-as coloridas.

Acho que sempre fui indisciplinado, uma espécie de inconformado social, a ponto de não aceitar verdades verdadeiras; elas podem ser falsas e perigosamente destruidoras de sonhos. Também sempre acreditei que uma escola não pode motivar os seus alunos utilizando apenas o velho recurso de provas e notas. Uma escola assim tem algo de muito, muito errado, e alguma coisa precisa ser feita. Este livro é a tentativa dessa coisa, como é a tentativa de tudo o que eu faço, pois livros mudam vidas.

Quando fiz aos alunos a proposta de escreverem um livro, li em seus rostos uma certa descrença. Mas já esperava por isso. Minha tarefa não era apenas concretizar o que eu sabia que eles poderiam, mas tocar-lhes o coração. E isso foi acontecendo gradativamente, até que todos perceberam que sim, era verdade, escreveríamos um livro e que eu não iria desistir.

Uau!! É mesmo verdade! Vamos escrever um livro! Sobre o quê? Aqui entra uma outra coisa que acredito: a família. Sem ela não existimos. É ela que nos nutre, que nos acontece. Precisava envolver não apenas os alunos, mas as suas famílias nas páginas do que seria escrito, confiando que desse encontro surgiriam lembranças, memórias, aproximações e curas, sim, curas, pois a busca de memórias escondidas pode sarar muitas distâncias…

E como diz Bartolomeu Campos Queirós, um escritor que soube muito bem entender como as lembranças moram em nós e delas surgem histórias, “a memória é um espaço interno onde a fantasia conversa com a realidade”, ou seja, “o que não foi esquecido merece ser relembrado”.

Pronto. Estava tudo exposto. Agora era trabalhar, fornecer aos alunos o que precisavam para escrever. Algumas técnicas, umas dinâmicas, um pouco de experiência, um tantinho de informação e muita, muita leitura e uma dose imensa de vontade. O resultado? Bem, está aqui em suas mãos ao alcance de seus olhos. É só virar as páginas e permitir-se ir nessa viagem, que não há feio nem errado; há histórias lindas, reais e imaginadas, também há as misturadas saídas de cada um a sua maneira e que, por isso, já bastam.

Quanto a mim, sigo o meu caminho com um profundo sentimento de gratidão. Obrigado aos alunos, à escola e às famílias por acreditarem que sonhos foram feitos para serem sonhados e muito mais para serem realizados.

Leandro Bertoldo Silva

Escritor, professor e membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni/MG.

DESPEDIDA

_A vida é sempre a mesma para todos_rede de ilusões e desenganos. O quadro é único, a moldura é que é diferente_(Florbela Espanca)

Por Leandro Bertoldo Silva, do livro Entrelinhas Contos mínimos

Levantou cedo. Era seu último domingo naquela casa de roça em que viveu desde que nasceu. Planejara, com o irmão mais novo, fazer tudo como de costume para sua despedida. O irmão, com uma tristeza n’alma, nada dizia, só acompanhava. Subiram em árvores, comeram frutas do pé, deitaram na rede e escutaram os passarinhos, correram na chuva e caçaram borboletas quando o sol sorriu trazendo o arco-íris. Andaram a cavalo, comeram bolo de fubá e guardaram as migalhinhas para pescar…

A tarde já findava quando, na beira do lago, o irmão mais novo, quebrando o silêncio do dia, perguntou para o irmão mais velho por que ele estava indo embora. Ante a resposta de que era para ganhar muito dinheiro, ele ainda quis saber para quê. Após jogar a última isca na água, veio a derradeira resposta: “para um dia ter uma vida tranquila”. E não houve mais perguntas…

*A múcica abaixo é Clair de lune, de Claude Debussy. Ela foi minha fonte de inspiração para esse mini conto. Ouçam como é linda!

 

ESPERAS QUE CHEGAM

Esperas que chegam

Por Leandro Bertoldo Silva, do livro Entrelinhas Contos mínimos

“Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais” (Clarice Lispector)

Quanta espera… Entrou no quarto e se sentou à penteadeira da mãe. Batom, brincos, sombra, blush – um arsenal de feminilidade que ela agora percebia; afinal, a idade estava aí! “Será que o Guto vai notar na escola?”. Aquilo tudo brilhava a seus olhos, tão ao alcance de suas mãos… E agora ela podia. Sentia-se no direito de ser mulher tão linda como sua mãe. São assim as transformações do tempo… Invadem, sem pedir licença, os nossos anos, compactuando com os nossos aniversários. Mas faltava uma coisa, quer dizer, faltava mesmo… Pois agora já não falta mais! Os sapatos de saltos da mãe. Finalmente, nos seus pés! Ela se aprontou toda e se mirou no espelho… Linda, perfeita, adulta. A campainha toca. Chegou a hora…

            — Filha, a Aninha chegou.

            — Aninha?! Oba! Já não sabia mais o que inventar para te esperar! Trouxe a Barbie? A casinha já está pronta no meu quarto. Já estou indo…

Ouça abaixo a história narrada

 

RÉVEILLON

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Por Leandro Bertoldo Silva, do livro Entrelinhas Contos mínimos

“Escuto, mas não sei se o que ouço é silêncio”
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Dia 31 de dezembro. Quase tudo pronto para o réveillon. Depois de anos desejando passar esse momento com alguém que aliviasse minha insistente solidão, encontro o fim desse tormento. Repasso pela última vez os itens cuidadosamente preparados antes da chegada de ilustre persona: mesa posta para a ceia, champanhe, tudo para duas pessoas. As horas passam rápidas. Os primeiros fogos espocam no ar, anunciando os novos tempos. Quase não percebo a chegada tão sonhada da pessoa esperada. Sento-me à cabeceira da mesa e, no exato instante em que o novo ano marca sua presença, olho para o grande espelho da sala à minha frente e saúdo meu convidado. E uma lágrima escorre de meus olhos no mesmo instante dos dele…

Ouça abaixo a história narrada

 

 

E ASSIM NASCE UM LIVRO

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Apresento a terceira “Paula Brito”, esta com sistema de alavanca para prensagem dos livros. Toda feita em madeira reaproveitada e material reciclado, como é a proposta sustentável da Alforria Lterária, a produção dos livros ganha mais autonomia e agilidade.

É muito emocionante ver o desenvolvimento e a evolução desse trabalho. Sou muito grato às pessoas que o estão apoiando, acreditando que é sim possível abrirmos novos caminhos. Tenho gratidão especial e admiração pelo luthier Egídio Alves de Souza, que é quem constrói com suas mãos habilidosas e talentosas a “Paula Brito” e por sua paciência e humildade de escutar os meus “pitacos”. Essa é uma parceria que está indo longe e ainda tem muito mais para evoluir.

Aos leitores de tantos lugares que estão adquirindo os meus livros também o meu muito obrigado. É um sentimento de alegria indescritível dar forma ao próprio livro após o mesmo ter levado tempo em seu processo de gestação e nascimento da escrita. Todo esse trabalho é em prol de arquitetar uma nova consciência não apenas literária, mas cultural e de consumo, em que o respeito pela arte, pelo outro e pela natureza é o que determina todas as ações.

Há muito por vir…

Forte abraço!

Leandro Bertoldo Silva.

MENTIROSO PROFISSIONAL… QUEM?

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           Uma vez fui arrebatado por um pensamento de João Ubaldo Ribeiro: “todo escritor é um mentiroso profissional”! Logo me lembrei de alguns, cuja vida – ou fim dela – já parecia uma embustice. Guimarães Rosa, por exemplo, ao ser aceito na Academia Brasileira de Letras, levou 4 anos para tomar posse com medo de morrer, pois foi advertido por um pai de santo que seu exício se daria logo após um grande acontecimento. Morreu sozinho em seu apartamento, no Rio de Janeiro, de um infarto fulminante dois dias depois a tão adiada posse… O que dizer de Monteiro Lobato? Uma boneca de pano falante e um sabugo de milho sabido, vá lá! Mas um porco marquês?! Bem, levando-se em conta que sempre inventamos histórias e até quando as recontamos fazemos jus àquela velha máxima de “quem conta um conto aumenta um ponto”, quem sabe até dois ou três, é bem possível que isso seja verdade. Mas nada se compara ao que um dia me aconteceu…

            Estava eu em meu computador enveredando-me por entre palavras e acentuações, pondo pontos semânticos em ilusões gramaticais à espera de uma história que teimava em não vir, quando ouço um chamado no portão. Justo agora em que uma vírgula brigava com os dois pontos e a enfastiada história esperava inerte a sua vez quase desistindo de vir á luz? Mesmo assim, dei cabo à discussão e não muito com vontade fui ver quem era.

            — Bom dia! — disse-me uma voz vinda de um homem não muito alto, não muito baixo, de bigodes e barba bem aparadas aparentando seus 45 anos de idade de uma vida que, se bem vivida, não daria para afirmar.

            — Bom dia. O que deseja?

            — O senhor é escritor, não é?

            A pergunta veio direta, firme, sem rodeios. Reparei que o homem trazia um livro nas mãos: “As Areias do Imperador”, de Mia Couto. Antes mesmo que eu pudesse responder, ele se adiantou:

            — Na verdade, seu Mia, fiz essa pergunta apenas para dar início ao motivo pelo qual vim a sua casa. Sei muito bem quem é o senhor. Acabei de ler este seu livro e o achei magnífico.

            Tive um sobressalto. Por alguns segundos que mais me pareceram horas, não sabia o que dizer nem o que fazer; se olhava para o senhor, se olhava para o livro. Certamente fiz as duas coisas seguida de uma puxada de ar preparando-me para desfazer a ilusão maluca daquele pobre homem que, só não era lunático, pelo fato desse acontecimento de sermos confundidos ser algo até natural entre os escritores, acredite se quiser.

            A bem da verdade isso já havia acontecido comigo outras vezes, o que jogou outra ideia semântica na minha puxada de ar de há pouco, dando a ela um tantozinho de raiva somente abrandada por ter sido confundido não com um escritorzinho qualquer… O peixe dessa vez era bem grande! Confesso que fiquei até lisonjeado pela patuscada criada pelo homem, tanto porque tenho muita fé no meu taco, mas daí a ser o Mia morando no Brasil… E, assim, era preciso jogar o peixe de volta ao mar. Mas antes mesmo de abrir o anzol, o homem já havia recolhido a vara – era rápido o danado – e, enumerando comentários e passagens do livro, já foi entrando portão adentro, acomodando-se na cadeira da varanda e convidando-me a fazer o mesmo. Não pude deixar de lembrar-me mais uma vez do João Ubaldo ao dizer que “não há de haver profissão mais louca do que a de escritor”.

            Aquele homem já estava me parecendo um personagem. E eu ali estranho em minha própria casa. Como isso era possível, como é que eu era dono da casa um minuto antes e visita um minuto depois? O fato é que ali estava eu sendo convidado a me sentar por um homem que, cordialmente, me pedia para ficar a vontade. Por um milésimo de segundo achei-o cretino, irresistivelmente cretino e resolvi naquele instante devolver a cretinice assumindo quem ele me delegava. Aquilo já me parecia um enredo de uma história, dessas tiradas não se sabe de onde nem por que, mas com um personagem que começava a ditar a ordem dos acontecimentos. Como é assim mesmo que me acontece ao escrever, indo sempre os cavalos a frente do imperador, resolvi dar sequência à situação:

            — Muito bem… Quer dizer que gosta mesmo do que escrevo? – perguntei fazendo a maior cara de escritor.

            — Oh, muito! Já li todos os seus livros. O acompanho há bastante tempo.

            — Não diga…

            Aquele homem não era cretino, era louco e aquilo uma maluquice de pedra. Tinha mesmo uma pedra em meu caminho ou no meu caminho tinha uma pedra? Sei lá, mas sei que entre eu e o homem tinha um livro que era tido como meu sem nunca ter sido. Não sabia bem por que não acabava logo com aquilo, não jogava ao vento toda aquela história e dizia logo ao homem: “meu filho, eu não sou quem você pensa!” Misericórdia! Isso soava terrivelmente clichê, bem aos moldes de novela mexicana e isso eu não podia admitir. Começava ali um verdadeiro pesadelo, pois desistira completamente da brincadeira cretina e tudo o que eu mais desejava era me ver livre do homem. Porém, o fato de vê-lo magoado em sua fantasia reprimia-me, sem dizer que o pobre coitado ficaria extremamente sem graça. O que fazer? Eis que veio uma luz! A foto! Na orelha dos livros do Mia sempre tem a sua foto. Era só o homem comparar e estava tudo resolvido. Mas um outro pensamento me ocorreu… Era bem provável que acontecesse uma inversão de constrangimentos, pois seria ele a ficar sem jeito de ter que reconstruir aquela bagatela achando que seria eu o magoado. Mas vá lá! É assim ou de jeito nenhum…

            — O senhor vai me desculpar, mas…

            Já disse que o homem era rápido? Pois parecia a fome com a vontade de comer. No que eu estava pronunciando o “mas”, o sujeito sacou do bolso uma caneta, abriu o livro e quis me ditar enternecido uma dedicatória – sim, isso acontece – algumas pessoas ditam o que querem que escrevamos para elas, como se fôssemos grandes amigos. E agora? Frente à alegria do homem que me tinha como alguém que ele acreditava que eu fosse, poderia escrever a tal dedicatória e educadamente dizer que estava ocupado, que ele me desculpasse… Ele entenderia, sairia feliz e eu me livraria daquela fantasia paranoica de uma vez por todas.

            — Certo! – disse decidido para o homem – vamos lá…

            — Escreva aí! – sentenciou ele – “para o meu grande amigo Bartolomeu, companheiro de muitas batalhas, lembrando dos tempos em Moçambique…”

            Ah, não! Já era demais! Eu nunca havia ido a Moçambique, aquilo não estava certo e definitivamente já tinha passado dos limites. Diplomacia à parte, mas, embora um “mentiroso profissional”, uma coisa era inventar gente que não existia, outra era me passar por alguém que não fosse. Enchi-me de coragem e disse finalmente:

            — Olha, você vai me desculpar, mas eu vou ter que ser franco com você. Eu não sou o Mia Couto.

            O homem ficou meio assim… Arqueou a sobrancelha, e após um breve silêncio, num gesto de desembaraço olhando para mim, arrematou:

            — Ora, não faz mal! Eu também não sou o Bartolomeu…

FOI LÁ NA VENDA DO SEU LIDIRICO

Seu Gelsonsogro

Foi lá na Venda do Seu Lidirico que eu conheci uma das lendas vivas da nossa história. Lidirico Almeida, atleticano, nascido em Novo Cruzeiro (?!), no ano de 1927, chegou na cidade de Araçuaí, no Norte de Minas Gerais, em meados da década de 40 e, como ele mesmo me disse, se voltou a sua cidade de cinco a seis vezes ao longo de todos esses anos foi muito. Desde então, ele mantém um dos pontos comerciais mais tradicionais do lugar: a Venda do Seu Lidirico, “que tem de tudo e cada coisa que tem eu explico”… E ele também! E como explica…

Sentado em uma cadeira simples de bar ao lado da neta atrás do balcão, Seu Lidirico chegou a levantar quando nos viu – eu, minha esposa, minha filha, minha sogra e meu sogro Gelson Pinheiro, outra lenda viva da nossa história que merece capítulo especial.

Tínhamos ido de Padre Paraíso a Araçuaí para conhecermos dois lugares muito comentados: uma “flor e cultura”, que não floresce apenas flores e transpira cultura, como tudo naquela cidade, e… a Venda do Seu Lidirico.

A floricultura era o primeiro destino. Por isso, Seu Lidirico sentou-se pacientemente como se soubesse que o melhor sempre fica por último, afinal o apressado come cru, como diz o bom mineiro. Acenei para ele como quem falasse “estou indo aí” e podia ver as histórias e causos se ajeitando em sua cabeça para serem contados, como se já não tivessem sido centenas de vezes…

A conversa de mineiro de que um lugar fica bem pertinho um do outro, “bem ali”, esticando o beiço, nesse caso era verdade. Era só atravessar a rua. Quem vai em um tem que ir no outro. E Seu Lidirico estava lá, nos esperando certo da nossa visita.

Nunca havia conhecido uma celebridade de verdade, porque as falsas se acham; as verdadeiras acham as pessoas, no carinho das mãos que recebem, no afeto do aperto que sentimos na verdade do coração como uma ponte que liga pessoas. Foi assim, nesse bem-querer, que fomos recebidos por Seu Lidirico e sua esposa, Dona Iaiá, chamada por sua neta a pedido dele.

Não sabíamos para quem olhar. Os casos se misturavam e se completavam sempre com precisão de datas e uma memória invejável de quem a própria história pedia licença. O início da venda, as primeiras casas da rua, os únicos dez carros da cidade, se muito, quando chegaram, a data do casamento (1948), o número de filhos – quinze no total – e os mais de 30 netos somando, ao todo, 98 pessoas vivas, excetuando uma nora que morreu intoxicada na fazenda – “só morreu essa nora nesses anos todos”, explicava Seu Lidirico, eram algumas das muitas histórias que se sucediam.

Esses e outros causos, até a partida do Atlético contra o São Paulo na noite anterior vencida pelo time mineiro com gol contra, eram contados, comentados e explicados enquanto apresentava as famosas cachaças produzidas por um dos filhos na região que, claro, provamos, eu e meu sogro, e levamos dois litros, enquanto Dona Iaiá dividia a conversa entre o engarrafar outros dois litros de cloro para a venda e as fotos tiradas sempre atrás do balcão, como se aquela amizade nascente já fosse antiga.

Fico feliz em encontrar pessoas assim em que a simplicidade é verdadeira e que a história também se faz verdadeira e espontânea na hora, sabendo que está sendo escrita e conhecida não apenas nas páginas dos livros, mas ali, ao vivo, porque se tem um lugar que tem história para contar é mesmo lá na Venda do Seu Lidirico.

Para que possam conhecer mais do que tem na Venda do Seu Lidirico, passa lá, é bem ali… Pertin, pertin, um tirin de bala de bodoque, no Norte de Minas Gerais, em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha. Mas se não der para ir, se avexe não, como dizem por lá, ouça abaixo a música, pois até música feita por Miltinho Edilberto e Xangai, apresentada no programa Sr. Brasil, do Rolando Boldrim, Seu Lidirico tem, afinal, é a venda do Seu Lidirico, “que tem de tudo e cada coisa que tem eu explico…”. E ele também! E como explica…

ÁRVORE DAS LETRAS DESENVOLVE PROJETO LITERÁRIO EM ESCOLA NO VALE DO JEQUITINHONHA E TRANSFORMA ALUNOS EM AUTORES

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Tudo começou com uma pergunta: como fazer os jovens se interessarem mais pela leitura? E a resposta apareceu muito clara e direta: colocá-los do outro lado da história, ou seja, do lado de quem escreve.

Pimba!

A partir daí, o escritor e professor Leandro Bertoldo Silva procurou a escola Orlando Tavares, a qual já havia lecionado há 5 anos, e fez a proposta à diretora Jussara Pinheiro Paiva que, prontamente, acatou a ideia abrindo as portas da escola para que o projeto acontecesse. Tal aprovação é externada em sua fala:

 

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Jussara Pinheiro Paiva. Diretora da Escola Orlando Tavares

É de uma imensa alegria compartilhar desse projeto com os alunos, professores e demais profissionais da escola. Foi desenvolvido pelo escritor, professor e amigo Leandro Bertoldo Silva atividades em sala de aula que acabaram aguçando a imaginação dos nossos discentes, nos mostrando como são habilidosos.

Acredito que a escola seja um lugar para construir prazerosamente o conhecimento integrado com afeto, valorizando a leitura e a escrita. Este livro proporcionou exatamente isso: possibilitou aos nossos alunos a elaboração de textos partindo de uma história de cada família. Durante esse trabalho fica claro que o entendimento literário pode ser prazeroso quando se trata do que se vive e é nessa pequena/grande diferença que mora o segredo para (des)costurar pensamentos com a ajuda da entrelinha.

Quero parabenizar a iniciativa do escritor e professor Leandro e a cada aluno que aceitou esse desafio. Que seja o primeiro de muitos livros publicados pelos alunos da EOT”.

Para isso, Leandro assumiu as aulas de redação da escola, levando aos alunos todo o conhecimento adquirido em seu curso Vivenciando a Linguagem, Leitura e Escrita na cidade de Padre Paraíso e região (ver matéria no site LiteralmenteUai clicando AQUI), oferecendo aos alunos uma forma pragmática de estudo.

O projeto foi dividido em 4 etapas – uma para cada bimestre – onde, em cada um deles, os alunos do ensino fundamental 2 (6º ao 9º anos) foram sendo orientados a partir de dinâmicas de escrita criativa e conhecimentos técnicos da escrita narrativa a entrarem em contato com o texto literário.

A proposta foi a escrita de um livro em conjunto – uma coletânea de mini contos – na qual cada aluno escreveria uma história partindo da concepção da escrita concisa, bem aos moldes do livro Entrelinhas Contos mínimos, escrito pelo próprio professor e escritor Leandro, e que todos tiveram acesso de forma online, juntamente com outro livro do autor (esse físico) – Janelas da Alma: uma tempestade íntima, um conflito, um retorno – como forma de mostrar na prática o processo de escrita e publicação de uma obra.

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Faltava o fio condutor do livro, e este ficou por conta das memórias de família, que acabou sendo a temática do trabalho como mais uma estratégia de envolver as famílias dos alunos aproximando-as ainda mais do projeto, da escola e deles mesmos, pois, segundo o escritor Bartolomeu Campos Queirós em uma das unidades de um dos livros didáticos dos próprios alunos, “o que não foi esquecido merece ser repensado”.

Como mostra do envolvimento dos alunos, leia a seguir alguns depoimentos bem emocionantes!

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Ana Esther Alvim de Godoy – Aluna do 6º ano.

“Essa aventura começou quando tivemos que levar um objeto antigo de família para a escola. Na hora fiquei um pouco preocupada, pois pensei que em casa não teria nada para levar. Fiquei a aula toda pensando sobre aquilo. Chegando em casa comentei com minha mãe e meu pai. Ao entardecer, meu pai chegou em casa falando que tinha pensado em uma coisa com bastante história, e eu fiquei muito empolgada. Era um rádio bem velho, mas em bom estado. Achei muito interessante, pois vinha do passado, o que seria bom, pois estávamos falando de lembranças, não é mesmo?”

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Igor Gomes da Silva – aluno do 7º ano.

“Antes de relatar minha experiência com esse projeto, gostaria de parabenizar o meu professor Leandro pela iniciativa, pois estar à frente da construção de um livro requer muita coragem, esforço, dedicação e amor. Quanto a experiência, o tempo que passei com a minha mãe e irmão em busca do material foi muito importante, pois juntos percebemos que naquelas fotografias estavam registrados momentos que eu não teria como me recordar porque era muito pequeno. A fotografia escolhida retratava uma viagem que fiz com toda minha família para um hotel fazenda próximo de Governador Valadares, um lugar lindo, com tirolesa, piscina, sinuca, animais como cavalos e aves”.

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Renato Santos Silva – aluno do 8º ano.

“Minha busca pelo objeto foi muito interessante, pois fui à casa da minha bisavó procurar algumas lembranças significativas na minha família para levar à escola. Chegando lá, minha bisavó começou a contar histórias da sua infância e de toda sua vida através dos objetos que tive curiosidade de conhecer. Dentre tantos, optei por dois, sendo eles o cassetete de quando o meu bisavô era soldado, da Polícia Militar de Minas Gerais, o qual minha bisavó sempre guardou com muito carinho para lembrar dele, que infelizmente faleceu. O outro foi o telefone que a esposa do Dr. Domingos Savio, grande médico que teve em Padre Paraíso, havia dado para ela. Minha bisavó gostava muito dele e ele a admirava muito. Sempre que podia, o médico a visitava, e ela, esperta como sempre, aproveitava para fazer uma consulta. Prova disso é que ela tem várias receitas guardadas até hoje”.

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Vitória Amaral Neves – aluna do 9º ano.

“Desde que nos foi feita a proposta, questionei-me inúmeras vezes de como a mesma seria realizada, pois cada aluno teria que escrever uma história a curto prazo direcionadas para um livro. Confesso que passou em minha cabeça a possibilidade de que o projeto não seria concluído, mas agora vejo que nada está sendo em vão. Com a procura dos objetos e fotos foi possível que um vínculo fosse criado em nossa família. Relembrar as histórias fez com que criássemos um momento particular entre nós, além do que pudemos nos aproximar de outros alunos e contar o trajeto das fotos e dos objetos levados por nós. Vejo que com o andamento das histórias irá ser um trabalho de incrível repercussão, podendo servir de inspiração para outras escolas, assim ampliando e fortalecendo ainda mais a literatura brasileira”.

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Fabiene Ramalho Lopes Dutra, mãe da aluna Hanna Ramalho Dutra, do 6º ano.

“Penso que a leitura tem que fazer parte da educação da criança, e sempre incentivei Hanna a ler, mostrando a ela o quanto podemos aprender com um bom livro. Quando fiquei sabendo do projeto de escrever um livro, achei muito interessante. Uma forma de incentivar os alunos, a desenvolver a leitura e a escrita. O processo de pesquisa e a busca por informações envolveu a família e amigos. Recordamos momentos alegres e tristes, mas que faz parte da nossa história”.

A publicação do livro ficou por conta da Árvore das Letras, através do selo Alforria Literária, também desenvolvido pelo escritor e professor, no qual a publicação obedece a um conceito de sustentabilidade, onde os livros são publicados sob demanda produzidos com capa de papel ecológico inteiramente personalizado com fibras de material orgânico e tinta natural, numa verdadeira artesania literária, sendo o miolo do livro de papel reciclado, demonstrando um valor importante na preservação do meio ambiente, através do uso de recursos renováveis. (Clique AQUI para conhecer os livros e saber mais sobre a Alforria Literária).

A culminância do projeto, como não poderia deixar de ser, será uma noite de lançamento, com data já marcada para o mês de novembro, onde os alunos/escritores irão receber seus convidados e autografar os seus livros, fazendo desse momento mais uma realidade literária de nossas letras, valorizando o que de melhor existe em Padre Paraíso e no Vale do Jequitinhonha: sua própria gente e suas próprias histórias.

Até lá, leia, como um gostinho especial, o prefácio do livro que não poderia deixar de ter outro nome: MEMÓRIAS DE UM TEMPO.

Para mim há uma grande diferença entre estudo vivo e estudo morto. Estudo vivo é aquele que pauta sua existência na produção de ideias e não apenas na repetição do que já existe, ainda mais o disfarçando sob o viés do conhecimento. Estudo vivo privilegia o compartilhamento, mesmo que o mundo muitas vezes nos leva a acreditar no contrário e nos faz criar escolas que são regimentos de competições, mas, pelo estudo vivo, aprendemos que há lugar para todos, pois ele cria e vive nas asas das possibilidades. Estudo vivo respira e se pergunta sempre “por que não?”, ao invés de conservar-se no abafamento das respostas prontas que nos faz ter vidas prontas, permanecidas em si mesmas, cinzas, sem perfume e cor. Sempre duvidei das escolas cinzas… Não, não pintem suas salas de aula de cinza. Se for para tê-las, tenha-as coloridas.

Acho que sempre fui indisciplinado, uma espécie de inconformado social, a ponto de não aceitar verdades verdadeiras; elas podem ser falsas e perigosamente destruidoras de sonhos. Também sempre acreditei que uma escola não pode motivar os seus alunos utilizando apenas o velho recurso de provas e notas. Uma escola assim tem algo de muito, muito errado, e alguma coisa precisa ser feita. Este livro é a tentativa dessa coisa, como é a tentativa de tudo o que eu faço, pois livros mudam vidas.

Quando fiz aos alunos a proposta de escreverem um livro, li em seus rostos uma certa descrença. Mas já esperava por isso. Minha tarefa não era apenas concretizar o que eu sabia que eles poderiam, mas tocar-lhes o coração. E isso foi acontecendo gradativamente, até que todos perceberam que sim, era verdade, escreveríamos um livro e que eu não iria desistir.

Uau!! É mesmo verdade! Vamos escrever um livro! Sobre o quê? Aqui entra uma outra coisa que acredito: a família. Sem ela não existimos. É ela que nos nutre, que nos faz acontecer. Precisava envolver não apenas os alunos, mas as suas famílias nas páginas do que seria escrito, confiando que desse encontro surgiriam lembranças, memórias, aproximações e curas, sim, curas, pois a busca de memórias escondidas pode sarar muitas distâncias…

E como diz Bartolomeu Campos Queirós, um escritor que soube muito bem entender como as lembranças moram em nós e delas surgem histórias, “a memória é um espaço interno onde a fantasia conversa com a realidade”, ou seja, “o que não foi esquecido merece ser relembrado”.

Pronto. Estava tudo exposto. Agora era trabalhar, fornecer aos alunos o que precisavam para escrever. Algumas técnicas, umas dinâmicas, um pouco de experiência, um tantinho de informação e muita, muita leitura e uma dose imensa de vontade. O resultado? Bem, está aqui em suas mãos ao alcance de seus olhos. É só virar as páginas e permitir-se ir nessa viagem, que não há feio nem errado; há histórias lindas, reais e imaginadas, também há as misturadas saídas de cada um a sua maneira e que, por isso, já bastam.

Quanto a mim, sigo o meu caminho com um profundo sentimento de gratidão. Obrigado aos alunos, à escola e às famílias por acreditarem que sonhos foram feitos para serem sonhados e muito mais para serem realizados.

 Leandro Bertoldo Silva

2017-01-01_12.12.07Escritor, professor, criador da Árvore das Letras e desse blog, e membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni/MG.