ALÉM DA IMAGINAÇÃO

Por Leandro Bertoldo Silva

Sempre apreciei os circos mambembes, esses viajantes de uma cidade à outra com as suas lonas rasgadas, os carros adaptados com alto-falantes a percorrer as ruas e a chamar o povo para o espetáculo.

Aprecio o fato de comprar o ingresso naqueles papeizinhos cortados à tesoura e, ao entrar e se acomodar nas arquibancadas de tábuas com o cuidado de se equilibrar para não cair entre os vãos, perceber, surpreso, a contorcionista ao ser a mesma moça que acabara de vender o saquinho de pipoca na entrada.

Gosto de ver os trailers parados nas mediações da lona com roupas estendidas em varais improvisados nas janelas e, entre um e outro, a mãe bailarina a amamentar o filho recém-nascido antes de entrar no picadeiro.

Enquanto muitos veem as atrações eu também as vejo, mas preencho-me muito mais na poesia por de trás das cortinas, naquele pai que irá tirar a maquiagem, desvestir o fraque de apresentador e ir ao banco pagar as contas no dia seguinte; nos ajudantes de palco sendo eles os trapezistas e também os operários de manutenção dos equipamentos; no filho que irá lavar todas as roupas dos artistas, inclusive a sua de palhaço.

Ah, os palhaços… Meus preferidos! Como tiram risadas de dentro das almas mais amarguradas… Um dia eu conheci o Alegria — o palhaço da luz. Após a sessão, enquanto o público saía, o vi com a mesma vassoura usada na aparição de há pouco a iniciar a varredura do chão. Fui até ele e o parabenizei. Ele agradeceu com um sorriso um pouco diferente do meu. Não era assim um sorriso alegre e largo como na cena de outrora. Era, eu diria, até um tanto triste. Uma criança chegou perto com o pai e Alegria a pegou no colo, brincou com ela e a deixou feliz dando-lhe, inclusive, conselhos. Ao despedir da criança e do pai olhou para mim, fez um aceno com a cabeça, espirrou água da flor de sua lapela que mais pareceu um choro silencioso, e continuou a vassourar.

Fui embora, mas o meu pensamento ficou naquele palhaço, o mesmo visto no dia seguinte no sinal fechado no centro da cidade ao fazer malabarismo e chamar as pessoas para o circo. Enquanto ele fazia o seu trabalho, eu fiquei ali a imaginar…

Tinham-lhe tantas vezes pedido conselhos… Era o redentor de todos os sofrimentos que assolavam as almas em conflito, a ponto de impedir suicídios. Alegria – o palhaço da luz –, como era conhecido, escolheu as ruas como o seu picadeiro e nelas transformava pessoas. Agonia mudava-se em sonhos e medos em esperanças. Contudo, algo curioso acontecia: Alegria era triste… O homem por trás do palhaço não conseguia fazer consigo o mesmo que fazia com os outros, pois não tinha tido a sorte de encontrar alguém que o apresentasse a si…

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Bem, hoje deixo os pensamentos soltos com espaço para refletir naquilo que está além da imaginação…

Obrigado pela leitura e, como sempre, peço o seu comentário. Ele é muito importante para mim.

Forte abraço!

Até a próxima.

QUANDO AS LUZES SE APAGAM

Por Leandro Bertoldo Silva

Quando as luzes se apagam enxergamos com mais clareza…

Imagine uma cidade em um sábado à noite, onde, de repente, a metade de suas luzes se apagam momentos antes da chegada de amigos tão esperados para o jantar. Qual a sensação você teria?

*****

 Muitas vezes temos a tendência de enxergar somente o lado negativo de certos acontecimentos, e esse comportamento nos faz achar tudo relativamente sombrio. Isso, naturalmente, é um engano. A vida, com a sua sutileza peculiar, mostra-nos o contrário e como estamos é doente dos olhos e, por que não, dos sentidos, como bem disse Alberto Caeiro:

“O que vejo a cada momento

é aquilo que nunca antes eu tinha visto,

e eu sei dar por isso muito bem.”

Quando nos colocamos frente às situações tais quais elas se apresentam e olhamos de verdade para elas na tentativa de extrair o melhor, descobrimos a poesia antes não percebida. O que aparentemente é um transtorno, na verdade é um enorme presente embrulhado no papel das possibilidades.

Estava eu fazendo a barba após um banho num início de noite de sábado, quando subitamente a luz foi embora, não apenas da minha casa, como da metade da cidade, deixando todos na mais completa escuridão. Era possível ouvir os bramidos e lamentos ecoando de cada canto, de cada esquina e casas, como se as paredes, ao invés de ouvidos, tinham enormes bocas ao emitirem gritos à la Edvard Munch.

Pedi minha filha para trazer uma lanterna para acabar de fazer a barba tranquilamente já pensando como faríamos com a visita de dois amigos convidados para o jantar. Em momento algum, tanto eu como Geane, minha esposa, queríamos desmarcar o encontro, afinal não tinha sido a primeira vez que o tentávamos e tudo já estava adiantado desde o dia anterior, incluído os ingredientes de um delicioso yakissoba, além das jabuticabas colhidas do pé do quintal da minha casa para o preparo de um vinho frisante, sem nos importarmos se estávamos cometendo ali qualquer tipo de gafe ou incoerência culinária.

Mas o melhor mesmo estava por acontecer… Fomos os três — eu, minha esposa e minha filha — para a sala. Enquanto Geane tentava falar com os amigos pelos dados móveis do celular, e ao deixar nele a luz da lanterna acesa, esta fez refletir na parede as nossas sombras enormes. Para mim e minha filha foi um generoso convite à fantasia. Começamos a brincar de fazer animais com as mãos e a criar histórias onde a cobra de 3 metros engolia uma aranha frágil e indefesa. Certo, também criamos histórias de lindos passarinhos voando entre as flores… Lembrei-me de quando eu era criança e de como passava horas a fazer essas projeções usando o abajur da minha mãe, e só então me dei conta de que nunca as havia feito com minha filha! Larguei a reflexão de tamanha perda de tempo e mergulhei nas aventuras do cachorro que corria atrás do coelho, do jacaré ao mostrar língua para o sapo e do elefante ao se fartar de beber água no poço.

Geane confirmou a vinda dos nossos amigos mesmo sem luz. A partir daí, começamos a encher a casa de velas. Enquanto as velas eram acesas na cozinha e na sala, encarreguei-me de acendê-las na varanda para uma boa recepção de boas-vindas. Tudo começou a ficar num clima mágico, meio idade média, e nossa casa já não era casa, mas um livro de histórias onde cada cantinho guardava um capítulo surpreendente. O melhor deles aconteceu quando fomos para a cama de casal e eu perguntei para minha filha se ela queria de fato ouvir uma história, pois eu leria para ela com a luz da lanterna. Yasmin logo concordou. Eu fui até minha estante e peguei o primeiro livro que minhas mãos tocaram. O título? “O menino que perdeu a sombra”, do Jorge Fernando dos Santos. Quase não acreditei na delicada coincidência de um menino que tateava no escuro à procura de si mesmo. A diferença minha e de Yasmin estava em havermos nos encontrado naquela escuridão.

No fim da leitura, como todo bom livro a nos surpreender, a luz voltou, mas nada era como antes, tudo tinha mudado: as percepções, os sentimentos, as descobertas. As velas foram apagadas, os amigos chegaram, sorrisos e abraços em festejos de carinho, brindes erguidos. Mas dentro de mim continuava aquela doce escuridão a encher de luz as nossas sombras. E mais uma vez veio à memória o velho Caeiro e de como estava certo:

“O mundo não se fez para pensarmos nele

(pensar é estar doente dos olhos)

mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…”

Pura verdade…

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Gostou da história? Escrevi essa crônica para mostrar como tudo que nos acontece é motivo de celebração, mesmo que inicialmente possa parecer o contrário. Se olharmos com cuidado, sempre haverá uma apreciação pronta para virar lindas histórias para contar.

E você, já passou por algo parecido? Um momento que se descobriu grandioso? Agradeço mais uma vez a sua leitura e peço que comente, compartilhe as suas alegrias.

Forte abraço!

Até a próxima.

A OCASIÃO NEM SEMPRE FAZ O LADRÃO, MUITO ANTES PELO CONTRÁRIO!

Por Leandro Bertoldo Silva

Está certo. A gente tem a pré-disposição de acreditar nos antigos ditados populares como mananciais de sabedoria que os mais velhos detêm com certo ar de superioridade. Isso, naturalmente, não seria um engano se de tempos em tempos as ocorrências da vida não desmascarassem certas verdades e se associassem ao Sobrenatural de Almeida que de sobrenatural não tem nada e usa o famoso personagem de Nelson Rodrigues apenas como meio de explicar o inusitado. Vejamos o acontecimento de uma manhã de sábado, dia agradável, em que um miúdo, sozinho em casa, ouve discretamente um chamado no portão de sua casa, tão discreto que as palmas tiveram suas sequências duas vezes repetidas: tap, tap, tap, tap, tap… tap, tap, tap, tap, tap…

O senso comum seria perguntar quem era. Mas o miúdo, indiferente às precauções, foi logo abrindo e desferindo em sorriso um “pois não, o que desejam” de maneira tão natural e agradável que os dois homens ali à sua frente apenas arquearam as sobrancelhas entreolhando-se.

— Seu pai está em casa? – perguntou um deles enquanto o outro já escaneava com seus olhos treinados o interior da varanda.

— Não, senhor.

— E sua mãe?

— Também não. Saíram há pouco. Meus irmãos também não estão, de modo que estou apenas com o Policial em casa.

— Policial?!

— É, o meu coelho.

— Ah, sim… Que susto, quer dizer, que nome auspicioso…

— Os senhores conhecem os meus pais?

— Bem… Sim, conhecemos muito. Por isso viemos aqui para uma visitinha…

— E por que não mandaram uma mensagem dizendo que estavam a caminho? Certamente eles esperariam.

— É que pensamos em fazer uma surpresinha.

— Ah, claro. Vocês querem entrar e esperá-los? Aposto que eles irão gostar da surpresa.

— Não resta dúvida…

Com essa conversa os dois homens foram conduzidos ao interior da casa, onde o miúdo providenciou duas cadeiras convidando-os a se sentarem. Furtar-me-ei — para usar uma palavra bem a propósito — em descrever o ambiente, tanto porque isso nada acrescentaria ao relato. Basta saber que os convidados não sabiam se admiravam mais o que viam ou se a extrema hospitalidade daquela criança ao oferecer café e biscoitos para total desconserto de suas intenções.

— Caso o café esteja frio, faço outro rapidinho.

— Não, não se incomode – disse um deles.

— Não iremos demorar – disse o outro.

— Não é incômodo algum. Afinal, precisamos tratar muito bem os hóspedes.

— Hóspedes?! – Perguntaram os dois ao mesmo tempo.

— Sim, vocês não vieram visitar os meus pais? Pena que eles não estão.

— É, pena…

Um dos homens já achando aquela situação meio diferente, embora “estranha” seria a palavra mais adequada, perguntou ao miúdo depois de conversarem tempos a fio sobre todos os assuntos possíveis, incluindo comportamento humano e coisas cheias de sabedoria e sem compreender de onde vinha tudo aquilo, se ele não tinha medo de, bem… Ladrões.

— Bem, seu… seu… Ih, olha só: nem nos apresentamos! Eu me chamo Ricardo. Ric para os íntimos. Qual a graça dos senhores?

Os homens se olharam cada vez mais espantados.

— Eu me chamo Juvenal.

— E eu Dorival.

— Parece dupla sertaneja! Então, até era para eu ter muito medo de ladrões a considerar a minha avó.

— Sua avó roubava pessoas?

— Que malucos! — disse Ric achando graça — Não, não! Minha avó foi roubada dezessete vezes. Coitada, precisavam ver como ela ficava arrasada.

— Coitada mesmo! Não é para menos… Que malandros! — disse no impulso Juvenal se assustando com o próprio comentário e recebendo um olhar meio de estranhamento, meio de cumplicidade de Dorival.

— Mas o fato é que eu não tenho medo, sabem? Entendo que isso é um problema social e da má distribuição de emprego e renda desse país.

— Quantos Anos você tem, menino?

— Doze.

A essa altura, os dois homens já não observavam a casa da mesma forma de quando entraram e se mostravam impressionados com aquela conversa, a pouca idade de Ricardo e a naturalidade com que se expressava.

— Você acha isso mesmo? — Indagou Juvenal.

— Acho sim, você não? O que você acha Dorival?

— Eu, bem… Há controvérsias!

Juvenal olhou curioso para Dorival.

— Sim, Juvenal! O menino tem toda razão, mas tem muito gatuno por aí com instrução, boa pinta, roupas de marca, sapatos novos e tênis da moda, com toda condição de trabalho, fortes e saudáveis, que ao invés de recorrer à honestidade prefere roubar as pessoas. É um absurdo!

Silêncio.

Juvenal e Dorival olharam um para o outro, de cima a baixo, e repararam como estavam bem vestidos e calçados, barbeados e penteados. Observaram seus físicos avantajados. Olharam para Ricardo ao segurar a garrafa de café com uma das mãos enquanto com a outra oferecia mais biscoitos com um sorrisinho no canto da boca.

Que diabos significava aquele sorriso? O fato é que não saberemos. Juvenal e Dorival apressaram-se a sair, mesmo com a insistência de Ricardo para esperarem os seus pais e ficarem para o almoço. Foram embora. Mas não sem antes recomendarem ao miúdo para nunca mais abrir o portão para ninguém quando estivesse sozinho. Há muitos gatunos por aí.

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Bem, a Crônica de Domingo de hoje é algo acontecido comigo lá se vai algum tempo, que a literatura sempre dá um jeito de transformar em arte ou mesmo em livramento… Mais uma vez agradeço a sua leitura nesse nosso encontro por aqui. Mas antes de ir, curta, comente, quem sabe você não se lembre de algum momento que sentiu estar sendo protegido ou protegida? Diga aí!

Forte abraço!

Até a próxima.

AUTORRETRATO

Por Leandro Bertoldo Silva

Esta noite, nem sei… Tenho a janela aberta

e não quero dormir para sentir a vida.

[…]

Henriqueta Lisboa

Vivia em versos quando a criança que eu havia sido residia em mim sem medo de se mudar.

Vibrava quando Deus tocava tambores no céu anunciando a festa das águas que viria lavar a terra.

Nessas ocasiões, construía imensos navios e me colocava a deslizar com eles pelas encostas das esquinas, e tudo eram sonhos de papel que naufragavam na mesma proporção dos aniversários que fazia.

A vida tinha um sabor peculiar, adocicado por completo, bem diferente do agridoce inicial e do azedume final que não me permitia entender o porquê da desesperança amarga dos mais velhos.

Logo, percebi que os sabores nos ensinam onde a vida está ancorada…

Que saudades do tempo onde os muros dos jardins nos protegiam lá de fora e de quando a ameixeira, em matrimônio com a goiabeira, sustentava em seus galhos entrelaçados o meu peso irrisório de criança, “com leveza de zéfiro levantando cortinas”, enquanto a Henriqueta, irrequieta, germinava para mim e em mim em estado de poesia.

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Bem, a Crônica de Domingo de hoje é um suspiro assim bem rapidinho, desses que acontecem quando lembramos de algo que nos foi tão precioso. Às vezes, falar demais atrapalha as lembranças e é preciso dar a elas o aconchego das pausas… Mas peço, como sempre, o seu comentário carinhoso. E se desejar compartilhar também uma lembrança do seu “tempo de quintal”, do lado de dentro dos muros dos jardins, fique à vontade. Receberei com gratidão.

Forte abraço!

Até a próxima.

QUEM SÃO OS SEUS HERÓIS?

Por Leandro Bertoldo Silva

Ponte entre tempos…
Mundos que se completam…
Quem sou eu agora?

É comum termos personagens que marcam ou marcaram nossas vidas. Quem nunca se imaginou sobrevoar os arranha-céus das cidades como o Super-Homem, ou subir pelas paredes como o Homem-Aranha e até combater o crime ao usar um laço mágico como a Mulher-Maravilha? Eu também tenho os meus personagens, mas nenhum, por mais poderes existentes, me falou tão profundamente quanto um específico, e olha só: nem poder ele possui, a não ser sua inteligência… Engana-se quem pensou em Batman! O meu herói, sim, pois acabou por se transformar em um herói para mim, não era bravo, valente, nunca salvou ninguém de perigos, a não ser a mim, salvo do não saber das coisas, do não gostar de ler, de não conhecer histórias e mitologias, filosofias e inventores. O meu personagem é, e sempre foi um sábio sabugo de milho feito pelas mãos talentosas e generosas de Tia Nastácia, colhido em um milharal no Sítio do Picapau Amarelo: Visconde de Sabugosa.

Desde criança, Visconde povoa meu coração de sonhos e viagens inesquecíveis. Quantas vezes fui à lua em um foguete, ajudei Teseu a vencer o Minotauro e quase morri de susto ao ficar a poucos centímetros da boca do Boitatá! Sim, vivia as aventuras do Sítio como se fossem minhas e, embora admirado com a coragem de Pedrinho e sua música que me fazia chorar, como faz até hoje — ela, inclusive, foi o toque do meu celular por muito tempo —, diferente da maioria dos meninos da minha idade, era o Visconde que eu queria ser. Na minha imaginação, passava horas na biblioteca e os meus poucos livros reais se transformavam nas enciclopédias e compêndios lidos e estudados pelo sábio sabugo. Os pregadores de roupa da minha mãe se transformavam em máquinas e equipamentos moderníssimos capazes de nos transportar pelo tempo. Tampinhas de garrafa, alfinetes, papéis laminados de bombom, potes de vidro, tudo eu levava para o meu quarto, ou melhor, para o meu laboratório, e ficava lá inventando coisas. Afinal, eu era o Visconde!

Esse personagem vai além de um gosto de criança, de uma simpatia infantil que depois que a gente cresce desaparece. Visconde permanece em mim como uma entidade real, lúcida. Em todos os momentos da minha vida ele esteve presente, e sempre da melhor forma, silencioso, introspectivo, cúmplice… Poucas pessoas sabem disso (até agora). Até na minha história do pé de ameixa contada aos quatro cantos, Visconde estava lá. Era nele que eu me transformava ao subir na árvore e fazer de seus galhos as estantes dos meus livros. Hoje tenho uma filha já moça, e é uma das poucas a saber da minha “identidade secreta”… Ela faz os meus sonhos permanecerem acordados. Sou muito grato, pois, apesar dos tempos modernos, ela permitiu que eu a apresentasse ao meu mundo, às minhas aventuras e, além de conhecê-las, entrou nelas, compactuou com meus personagens, estendeu-lhes a mão e acolheu-os em seu coração. Não tenho dúvidas! Yasmin é uma daquelas princesas contadas pela Dona Benta e fazia com que eu, Visconde, pesquisasse a respeito nos livros de história. Mas me faltava uma coisa: faltava, além de ser o Visconde por dentro, ser também o Visconde por fora, deixá-lo se mostrar em mim assim como eu sempre me mostrei nele. E mais uma vez, foi ela, minha filha, a responsável por isso. Em seu aniversário de 11 anos onde todos podiam se fantasiar de alguma coisa, resolvi fazer o contrário; quando todos colocaram suas máscaras, resolvi tirar a minha…

O difícil foi, depois da festa, voltar à fantasia da vida. Mas qualquer dia eu volto à realidade. Obrigado, Visconde, por termos sido um só. Vamos às nossas aventuras. Elas ainda não acabaram.

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E então, gostou dessa história? Sempre que volto a ela consigo ter a sensação gostosa de ser quem sou… Agradeço por sua leitura e fico já na curiosidade de saber quem são os seus heróis… Por acaso, a história te remeteu a eles? Diga pra mim e aproveite para curtir, comentar e compartilhar com seus amigos. Você já sabe: isso é um bálsamo para um escritor.

Até a próxima.

REENCONTRO EXISTENCIAL

Por Elisa Augusta de Andrade Farina
Presidente da Academia de Letras de Teófilo Otoni
e integrante da turma Lygia Fagundes Telles
do curso Vivenciando a Linguagem, Leitura
e Escrita, da Árvore das Letras.

Não possuo uma vida ideal, pois para mim que a conceituo como a possibilidade em que se consegue uma paz interior, vivendo a maior parte do tempo com serenidade, entra em distonia com minha realidade existencial.

Para se conquistar uma vida tranquila e equilibrada é essencial que você saiba como alcançar seus objetivos. O real nunca aparece. E quando aparece, está maquiado, colorido artificialmente por filtros ideais. O grande mal é quando se exercita o ideal, nega-se a vida. Temos que fazer escolhas, mesmo que essas não tenham um resultado satisfatório. O que não pode é deixar que os sonhos sejam petrificados por convicções que não sejam nossas.

Quando idealizamos, habitamos a dimensão do futuro e não enxergamos o mundo real que nos circunda. Acabamos dessa maneira por ficar sem nada porque não há outra realidade além do que é vivida aqui e agora.

Na minha visão não existe vida ideal. É quimera. O que me impulsiona a buscá-la é a liberdade de ser eu mesma e fazer uma desconstrução de tudo que representa minha vida que não me satisfaz como deveria. É ter a coragem de ignorar tudo que é imputável e ter a consciência de que minha felicidade dependerá da extensão da minha frustração ou êxito da minha busca vital.

Desta forma para não me perder, eu brinco de ser feliz e vou de tempos em tempos me reinventando, sorrindo para exterminar a tristeza que teima em reinar e me tornar uma outra pessoa que não me representa.

Quero deixar o fluxo da vida fluir. Não posso resistir. Quero ser eu mesma com a intensidade que a vida se apresenta a cada  amanhecer. Já fui água, seiva, vegetal. Sou agora gota trêmula, raiz exposta!

Quero ser água fluída e cristalina sem limites, com a certeza a me guiar ao caudaloso curso do rio da vida.

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E então, o que achou desse pequeno e profundo texto? Em momentos de perplexidades, em que as dicotomias da vida se afloram de formas tão violentas inexplicavelmente, o que é ter uma vida ideal? Aliás, para você existe uma vida ideal? Muito obrigado por sua leitura e te desejo boas reflexões.

Forte abraço!

O VELHO QUE CONSERTAVA COISAS

Por Leandro Bertoldo Silva – do livro Entrelinhas contos mínimos.

Enquanto não atravessarmos

a dor de nossa própria solidão,

continuaremos a nos buscar

em outras metades.

– Fernando Pessoa –

Gosto muito dos velhos que consertam coisas. Eu mesmo tive um tio assim. Consertava tudo.

Uma vez pegou uma lâmpada incandescente queimada no lixo, emendou seu filamento e o pequeno bulbo de luz nunca mais deixou de acender.

Osmânio era um velho como ele: consertava ferros, rádios, relógios de corda, chuveiros, televisões velhas… Mas o que ele sabia mais consertar eram sentimentos…

Não havia um só casal que, se estivesse a ponto de separação, Osmânio não os unia. O que falar das brigas entre irmãos, pais, mães? Até os animais pareciam respeitar o dom reparador que vinha das mãos daquele velho, e a braveza instintiva se transformava em mansidão quando estavam em sua presença.

Os alaridos viravam sons de passarinhos, assim como as flores floresciam mais e os aromas ficavam ainda mais cheirosos. Osmânio era assim: consertava corações…

Mas, apesar de tanto talento naquelas mãos, a tristeza não se apartava de seus olhos. Camuflava-se nos sorrisos tímidos daquele jeito misturado de sentimentos. E isso por uma simples razão: Osmânio era homem e, como tal, havia amado, e muito, uma mulher que agora existia apenas em seu passado. Ninguém nunca soube quem era de fato ou o que acontecera para ela não ter envelhecido com ele.

O que todos sabiam, porém, era que Osmânio, o velho que consertava corações, nunca havia consertado o seu…

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Olá você que está aqui! Muito obrigado por sua leitura. Essa é uma história muito curta, mas vasta de reflexão, não é mesmo? Por isso, além de pedir, como sempre, a gentileza do seu compartilhamento e comentário, deixo uma pergunta: o que você precisa consertar em seu coração?

Não se apresse em responder…

Forte abraço e ótimas reflexões.

ESSE ANO EU QUERO O SIMPLES SEM EXCESSOS

Por Leandro Bertoldo Silva

Todo final de ano somos acometidos pelo desejo do novo. É um desejo que nos leva a fazer listas de ações —na maior parte das vezes não cumpridas — e uma infinidade de rituais na esperança de dias melhores.

Há, também, certa quantidade de gurus com suas previsões, leituras astrais, queimas de karmas e até mesmo recomendações de se usar determinadas cores de roupa, comer ou evitar essa ou aquela iguaria e outras coisas mais na intenção da boa sorte. Não sou contra nada disso. Desde que se sinta bem, vá em frente. O importante é ser feliz. Mas deixe-me dizer uma coisa…

Esse ano eu quero o simples sem excessos, só isso. Em muitas coisas, quase todas, eu desejo o menos: menos barulho, menos discurso, menos necessidade de mostrar para que os olhos possam enxergar. Quero aprender com o menino do Manoel, que falava que “os vazios são maiores e até infinitos” e me formar em desenchimentos.

Sou do tipo de pessoa apaixonada pelo pequeno, pelo pouco, pelas miudezas das coisas, e isso não quer dizer pobreza material e muito menos de espírito ou falta de crença em conquistas, muito antes pelo contrário. Coragem e uma boa dose de sensibilidade se fazem necessárias para enxergar o quanto é belo o nascer do sol, o cair de uma folha, o canto de um pássaro, o reconhecimento afetivo de um animal. Junte-se a isso o sorriso de uma criança e o afago de um idoso e o mundo desabrocha tal qual pétala de rosas.  Ainda bem não ser possível colocar tudo isso em um quadro, porque nenhuma dessas coisas nasceram para serem emolduradas. É necessário saber apreciá-las em sua liberdade. E é por isso que são preciosas e raras porque poucos sabem o gigantismo de cada uma delas.

Que possamos esvaziar-nos de ilusões, ser água para correr livremente e enxergar o aconchego do silêncio; ele até pode ser quieto, mas nos diz o certo.

Que encontremos, pois, em nossos corações, o silêncio das necessárias verdades, e que o simples nos leve às nossas letras.

Queridos amigos e amigas, desejo a todos vocês um ano de magnífica beleza. Sejamos poetas das cores, dos sabores, dos amores, dos encontros sem preconceitos. Que saibamos extrair a preciosidade da vida em seus menores detalhes. São neles que moram as essências.

Feliz 2023 e até os próximos dias em que estaremos juntos na continuidade da nossa caminhada e de nossas virtudes.

Forte abraço!

STORYTELLING

Você já passou pela experiência de desejar algo ardentemente e, de repente, perceber que já a possuía há tempos e não se dava conta disso? Pois é, isso aconteceu comigo… Eu sou fruto de uma árvore!

Sempre admirei as pessoas cuja forma de vida se assemelha intimamente com aquilo que acreditam. Quantas pessoas você conhece que vivem uma vida que não querem? Eu sempre quis ser escritor sem saber ao menos o que isso, de fato, significava. E é exatamente aqui que a minha vida se funde com um pé de ameixa…

Eu tinha 7 anos quando a minha brincadeira preferida era subir em um pé de ameixa que ficava na casa da minha avó, e lá ficar horas viajando pelas páginas dos livros que levava comigo, usando os  galhos da árvore como estantes. Eu não tinha uma ideia muito clara do que aquilo representava, mas eu também queria inventar histórias. Foi assim que se deu o meu contato com a literatura.

Para mim livros é a minha razão de vida. Os primeiros que li foram os clássicos “Cinderela” e “O Caso da Borboleta Atíria”, da antiga coleção Vaga-Lume. Lia-os de cima do pé de ameixa sempre na companhia de outros livros que, com o passar dos anos, foram ficando mais “robustos”. A partir de José Lins do Rego fui descobrindo uma infinidade de outros escritores e escritoras, e entre as muitas coisas que me ensinaram, está o fato de eu querer profundamente estar entre eles, fazendo parte do mundo das histórias, dos poemas, dos romances, dos contos, das crônicas, pois aquilo tudo me encantava. 

Embora o pé de ameixa já não exista mais, o que mais me deixa feliz é que anos depois, já formado, casado e pai, recriei o mesmo pé e dei a ele o nome de Árvore das Letras, que hoje é a minha editora sustentável, por onde confecciono e adivinhe! Publico livros…

Devo dizer que nada disso teria acontecido se não fossem muitas pessoas que entenderam o meu amor pelos livros e pelo pé de ameixa. Essa árvore me acolheu como um fruto, cuidou de mim e dos meus sonhos, afagou a minha imaginação e moldou a minha existência com livros de tal maneira que digo sem hesitação que eu sou essa árvore e essa árvore sou eu.

Essa é um pouco da minha história. Todos nós temos uma . Qual é a sua?

Forte abraço!

VERACIDADE X LUCIDEZ

Por Valéria Gurgel

A foto era nostálgica por demais para pensar sequer na possibilidade da notícia ser falsa! Porém, além daquela imagem, estava escrito ali, bem na primeira página do jornal A GAZETA LOCAL com letras graúdas:

NAMORADO FALECIDO ENVIA SUA BIKE DE PRESENTE PARA SUA NAMORADA.

Sim, diante da prova explícita estacionada bem embaixo da janela, local onde os primeiros suspiros apaixonados e lábios sussurrados de desejos cálidos se deram, impossível duvidar. Uma imagem fala mais que mil palavras! Era um fato. Diante um fato comprovado, não há nada a declarar, nem contestar. Será?

Não demorou e começou aquele zum… zum… zum e a notícia se espalhou de boca em boca pela vizinhança.

Ninguém tinha o mínimo de encorajamento lógico de bater à porta para perguntar ou de sequer ter a lucidez para refletir, pensar em outra possibilidade menos bizarra. Conferir se era a mesma bicicleta, chamar a polícia, ou passar na rua em frente a casa de Duda.

Assustados, os moradores do bairro inteiro fecharam as janelas de suas casas.

A sinistra notícia logo viralizou e foi parar nas redes sociais. Uma onda nebulosa coberta de interrogações correu mundo em fração de segundos. Não se falava de outra coisa e a foto com a matéria sendo compartilhada ininterruptamente.

Todos sabiam da paixão de José Antônio, o falecido, por aquela bicicleta antiga, que passava de geração em geração e que terminou herdada de seu tio. Ela guardava reminiscências de mais de um século. E quem daquela cidade não havia visto ele pedalando pelas ruas estreitas e praças com Duda, de vestido rodado, flor no cabelo, sentada de lado na sua garupa?

Verdade?

Mentira?

Fato!

Fake?

Verdade!

Mentira?

Fato?

Fake!

Povo dividido. Discussões, insultos, escárnios, controvérsias, apostas, chacotas, vizinhos, famílias inteiras se tornaram inimigas por uma bobagem daquela.

A casa de Duda permanecia fechada. A bicicleta estacionada a frente de sua janela.

Quinze dias depois, a jovem apareceu. Havia viajado para a casa dos avós para espairecer os ais.

A famosa bicicleta, motivo de tantos assuntos controversos já não se encontrava mais ali. E a jovem só não conseguia entender como um simples fato pôde tomar aquela proporção nacional, internacional.

A explicação era simples.

O irmão do falecido José Antônio emprestou a bicicleta para o primo dele, que necessitava um veículo para chegar até a casa de Duda e por ali se instalar. Havia sido contratado por ela para ficar na casa enquanto se ausentou, cuidando do seu imóvel, de seus gatos e de seu jardim.

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Gostou do texto? Delicioso, não é? Pois veja agora o mesmo texto sendo falado com o recurso da música no vídeo abaixo.

Este trabalho nasceu de uma dinamização do curso Vivenciando a Linguagem, Leitura e Escrita, na Árvore das Letras, no qual a Valéria Gurgel é uma das integrantes da turma Lygia Fagundes Telles.

A propósito, siga a Valéria em seu espaço no Recanto das Letras clicando AQUI! Vale muito a pena…

Forte abraço!

Até a próxima.