O COLORIR DE UMA FLOR

Por Leandro Bertoldo Silva

Levantou cedo. Enquanto a água fervia para o café, se arrumou e verificou se estava tudo certo com o material da escola. Era o seu primeiro dia de aula e não tinha a menor ideia do que encontraria, principalmente após a recomendação da diretora dias antes: “Não vá puxar muito dos alunos, professor. Eles não estão acostumados. Além do mais, estamos no interior…”.

O fato de ter vindo da capital nunca fora para Isidoro preceito de ser diferente. E daí estar no interior? Muito estranho. Mas lá foi Isidoro com uma diferença, sim, ao menos estrutural. Ele não tinha uma pasta ou bolsa, como os outros professores; ao contrário, ele tinha uma mala repleta de livros e carregava às costas um violão. E foi assim que adentrou pela primeira vez aquele portão escuro como o novo professor de Português.

Embora e escola estivesse toda pintada e com panos esticados em formato de grandes triângulos em tons diferentes, a falta de cor era evidente, não uma cor física, mas uma cor de alma, de falta de sorrisos reforçada pelo cinza do piso o qual gritava aos seus olhos. Sempre pensou: “As escolas nunca deveriam ser cinza, nem mesmo onde pisamos.” No entanto, estava ele ali em meio a uma a esperar pacientemente o seu momento de conhecer os alunos.

Feitas as apresentações, os alunos foram para as suas salas desanimados e desbotados, enquanto os professores, em desmaio de cores a reclamarem do fim das férias, foram pegar os seus pincéis. Isidoro não precisava deles, a não ser para pintar o chão, onde um rolo seria mais adequado.

Nem pinceis e nem rolo. Adivinhou-se na entrada de cada turma o que Isidoro trazia de novidade. No lugar do “bom-dia, vamos sentar nos seus lugares”, o novato professor sentava-se em cima das carteiras junto aos alunos, ou no chão os convidando a fazerem o mesmo, sacando o violão e contando-lhes histórias.

Os dias foram passando e o professor seguiu a sua tentativa de colorir a escola. Entendia agora o porquê em tempos meninos, ainda no jardim da infância, quando seus pais perguntavam o que ele havia feito, ele respondia: “Eu só coloro”. Essa sempre foi a sua missão, ainda mais do que ensinar as próprias letras.

Porém, o empreendimento era árduo. Não contava com os outros professores e muitos alunos não compreendiam nem o vermelho, nem o azul ou qualquer outra cor de suas palavras. Sentia-se na superfície, não havia profundidades. Lembrou-se da sentença da diretora ao recomendá-lo cautelas. Estaria ela com a razão?

Isidoro foi para casa. Pensativo. Queria tanto colorir se não a escola, ao menos o coração daquelas crianças e jovens! Em sua biblioteca buscava nos livros a cor perfeita a salvar do desbotamento contagiante aqueles que se acinzentavam.  De repente seus olhos pousaram em um pequeno livro de capa preta, sem atrativos e muito sem graça em meio a tantos outros volumosos. No título lia-se: “O coração escuta pela boca”, de Silvana de Menezes. Tratava-se da biografia romanceada de Freud. Será?… Nunca acreditou em julgar um livro pela capa. Pegou-o e o guardou em sua mala. No dia seguinte o apresentaria para os alunos na berma de um pensamento: “as pessoas são como os livros; algumas serão tocadas, lidas e descobertas enquanto outras permanecerão fechadas”.

Tal pensamento se refletiu na realidade quando, em meio a vários alunos e alunas, Isidoro viu brilhar um amarelo diferente, um ponto de luz nos olhos de uma menina. Nenhum livro havia conseguido tal feito. E fora justamente aquele de capa preta a ganhar variedades de belezas como um caleidoscópio a fazer nascer alguns anos mais tarde uma profissão.

A menina, miúda ainda de idade, cresceu com o passar dos anos, os mesmos anos que fizeram Isidoro não estar mais naquela escola, pois o tempo não havia colorido os seus despropósitos.

Sentado junto à janela a olhar uma flor prestes a abrir em seu jardim, ouve um toque de mensagem em seu telefone:

“Oi, professor, tudo bem? Hoje é o lançamento do meu trabalho, do meu projeto como psicóloga e eu postei um vídeo explicando o motivo de ter escolhido a psicologia. Obviamente você fez parte disso, fez parte lá das raízes até as folhas e as flores dessa árvore linda que eu construí. E não tem como falar desse projeto sem me lembrar de você. Foi por causa do livro que você passou, “O coração escuta pela boca”, que esse amor nasceu em meu coração. Estou te mandando essa mensagem para te agradecer. Essa vitória não é só minha, essa vitória é nossa. Muito obrigada mesmo por ter feito parte disso”.

Ao escutar a mensagem e com os olhos marejados, viu que a flor, em um colorido intenso e cintilante, acabara de se abrir.

*A mensagem descrita acima é real e dedico essa história à Fabiene Lemos, antes uma aluna, hoje uma amiga.

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Obrigado por sua leitura. É ela a incentivadora de toda escrita. Espero ter gostado dessa história inspirada em um fato real. Peço a gentileza de curtir, comentar e compartilhar com seus amigos. Para um escritor não há presente mais valioso.

Até a próxima.

UM BOM COMEÇO PARA INÍCIO DE CONVERSA: UMA SINGELA RELAÇÃO PARA SE CONHECER A LITERATURA BRASILEIRA

Por Leandro Bertoldo Silva

Você consegue definir?

Imagine um mundo formado por pedaços coloridos de vidro, sendo estes refletidos por espelhos, a ocasionar, por meio de sua movimentação, imagens coloridas e diferentes em contínuas transformações…

Certamente, você associou essa descrição a um caleidoscópio, correto?

Correto. Mas não estou falando de um caleidoscópio comum, este do objeto cilíndrico, embora seja cilíndrico o mundo em que vivemos.

O que quero dizer?

Bem, imagine que você tenha olhos de vidros multifacetados, suas opções são inúmeras e o simples fato de saber que você pode mudar a realidade o fascina. Seu espírito é inquietante, corajoso e determinado, um desbravador de sentimentos que tem na palavra sua força de transformação.

Você sente as ideias fervilharem dentro de você. Sabe que o seu trabalho é libertá-las, pois o mundo depende disso e um dia o reconhecerá, mas, mesmo não reconhecendo, você precisa escrever… E cada palavra, cada frase, cada pensamento constrói uma época, um estilo, uma era…

Suas palavras ganham os livros, suas ideias ganham o mundo, às vezes aplaudidas, às vezes contestadas, e as páginas, manuseadas, se transformam num gigantesco caleidoscópio da humanidade…

Sabe do que estou falando?

Simplesmente de uma das artes mais fascinantes da humanidade, exatamente porque, como os pedacinhos de vidro que mudam o tempo todo, vai se formando nas indefinições, nos contrastes, nas inquietações… E são desses estímulos, alimentados por mentes talentosas e um profundo senso crítico e estético de sua época – e são muitas – que ela surgiu desde os primórdios de nossa descoberta: a literatura!

Essa arte magnífica, responsável por pensamentos como de Oswald de Andrade, ao afirmar, que “antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.”

E isso nos impulsiona a pensar, a refletir… E a devida inserção desses pensamentos vai, como foi, construindo nossa realidade e moldando nossa existência.

Mas deixe-me dizer uma coisa…

Você provavelmente já deve ter lido a seguinte frase atribuída à Bill Gates:

“Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever — inclusive a sua própria história.”

Pois bem, uso desse pensamento para dizer que devemos, sim, ler os grandes clássicos e autores estrangeiros, assim como os seus contemporâneos, mas antes precisamos conhecer a nossa própria literatura.

Para mim, não há nada mais lindo e importante no mundo das letras do que a nossa literatura brasileira: Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, Fernando Sabino, Manoel de Barros, João Cabral de Melo Neto, Lygia Fagundes Telles, Marina Colasanti, Murilo Rubião, Maria Clara Machado, Jorge Amado e tantos nomes que já foram referências para além-fronteiras.

Foram?!

Sim, foram! Não são mais, pelo menos como outrora.

E talvez por lerem, claro, os grandes clássicos e nunca deixarem de valorizar não apenas a própria língua, mas a própria arte em prosa e verso do seu país, tantos outros autores e autoras surgiram alcançando igualmente lugares de referência.

Sinto que vivemos hoje uma escassez de grandes escritores e escritoras, como vemos surgir em África, por exemplo. Isso muito se deve à mídia ceifadora e interesseira do comércio e à falta de verdadeiro incentivo à nossa literatura.

Mas nada está perdido!

Vemos crescer o movimento da literatura independente em nosso país, construindo caminhos sustentáveis e promissores. No entanto, para que isso possa acontecer com mais propriedade e força, há de voltarmos os olhos para o que nós produzimos.

Por isso, este texto é um guia, ou mesmo um mapa que, como tal, pode e deve ser acrescido de novos caminhos e até atalhos que as mãos e olhos deste que vos escreve porventura não mencionou.

O que eu quero dizer?

Na sequência vai uma relação da nossa história literária em obras e autores que tive o cuidado de traçar certa linha do tempo, desde o Romantismo — por ser a primeira grande ruptura com a Corte em busca de uma literatura genuinamente nossa, com espírito nacionalista — até os nossos dias. Embora bastante incompleta, é um bom começo para quem se aventurar a conhecer a melhor e mais vasta literatura do mundo: sim, a nossa! Para que eu não caia naquela velha máxima do “faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”, devo dizer que sim, eu li todas as obras relacionadas aqui, e muitas delas eu revisitei, como revisito constantemente. É por isso mesmo que elas estão aqui…

Mas aqui vai um pedido, não sem antes de duas ressalvas!

A primeira é que me furtarei da responsabilidade de escrever aqui neste blog o que já se encontra facilmente em centenas de outros sites pela internet, ou seja, as considerações e resumos de cada obra. “Copiar e colar” definitivamente não… Irei simplesmente citá-las, assim como os seus autores, e inseri-las nos seus respectivos momentos históricos numa espécie de linha do tempo.

A segunda ressalva é que trago tão somente as obras lidas e apreciadas por mim em minha caminhada, o que se junta ao pedido a seguir… 

Caso, porventura, tenham outros títulos que não estão mencionados na relação a seguir, fique à vontade de acrescentar nos comentários, e assim vamos aumentando essa lista que é cada vez mais infinita. No mínimo isso será um bom serviço prestado.

Vamos lá?

UM BOM COMEÇO…

ROMANTISMO

  • Suspiros Poéticos e Saudades – Gonçalves de Magalhães (1836).
  • A Moreninha – Joaquim Manuel de Macedo (1844).
  • Memórias de um Sargento de Milícias – Manuel Antônio de Almeida (1854).
  • Cinco Minutos – José de Alencar (1856).
  • A Viuvinha – José de Alencar (1857).
  • O guarani – José de Alencar (1857).
  • Iracema – José de Alencar (1865).

REALISMO/NATURALISMO

  • Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis (1881).
  • Quincas Borba – Machado de Assis (1891)
  • Dom Casmurro – Machado de Assis (1899).
  • Memorial de Aires – Machado de Assis (1908).
  • O Ateneu – Raul Pompeia (1888).
  • O Cortiço – Aluísio Azevedo (1890).

PRÉ-MODERNISMO

  • Os Sertões – Euclides da Cunha (1902).
  • Triste fim de Policarpo Quaresma – Lima Barreto (1911/1915).
  • Eu – Augusto dos Anjos (1912).

MODERNISMO/PÓS-MODERNISMO

  • O Quinze – Raquel de Queiroz (1930).
  • São Bernardo – Graciliano Ramos (1934).
  • Capitães da areia – Jorge Amado (1937).
  • Vidas Secas – Graciliano Ramos (1938).
  • Morte e Vida Severina – João Cabral de Melo Neto (1955)
  • Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa (1956).
  • O Encontro Marcado – Fernando Sabino (1956).
  • Quarto de despejo: diário de uma favelada – Carolina Maria de Jesus (1960).
  • O Pirotécnico Zacarias – Murilo Rubião (1974).
  • A hora da Estrela – Clarice Lispector (1977).
  • Olhos D’Água – Conceição Evaristo (2015).
  • Ponciá Vicêncio – Conceição Evaristo (2017).

Gostou de acompanhar essa evolução histórica das letras? Que tal, então, como disse acima, mencionar nos comentários quais obras e escritores fariam parte da “sua” lista? Isso irá aumentar ainda mais as indicações e o nosso panorama literário.

E lembre-se!

COMPARTILHAR É SE IMPORTAR!

Compartilhe esse conteúdo e vamos valorizar ainda mais a nossa literatura brasileira.

Forte abraço!

UM RECADO BEM CARINHOSO

Relicário Pessoal – haicais
Número de páginas: 90
Edição: 1º (2018)
ISBN: 978-85-53047-06-2

Você já teve a oportunidade de ter um livro sustentável feito um a um, desde o corte do papel, passando pela costura à mão, colagem, prensagem em prensa de madeira até o acabamento da capa?

Ter um livro assim é, além da arte e da literatura, uma escolha e um respeito ao meio ambiente.

E como estamos em setembro, o mês da primavera, venho oferecer com muito carinho o meu livro Relicário Pessoal – haicais. Isso porque os haicais dialogam com a natureza interna e externa de todas as coisas, inclusive nossas; falam das flores, essas dádivas da criação, das estações e do florescer de um novo tempo. Tudo isso em pequenos versos como gotas de sensibilidade que nos levam a um estado de reflexão e presença.

As páginas do livro podem ser aromatizadas com essência de lavanda, menta ou canela à sua escolha, o que te proporciona uma experiência sensitiva e agradável além da leitura.

Portanto, se desejar ter essa arte com você, é só me dizer que eu terei o maior prazer de enviá-la em uma embalagem igualmente sustentável e com muito significado.

Leia, medite, esvazie-se das ilusões e faça das expectativas um brincar de árvores…

O valor do livro é de R$35,00 + R$10,00 de envio módico pelo Correio. Este preço ficará válido até o dia 30 de setembro.

UMA ROTINA SAUDÁVEL

Peço licença para compartilhar uma vivência com você.

Hoje, dia 30 de agosto, levantei às 5h. da manhã com a decisão tomada de ser este o horário para iniciar o meu dia e fazer tudo o que desejo e preciso.

Entendi que, como escritor, sou um operário e tenho com as letras o compromisso do trabalho e do servir, e escritor escreve todos os dias, (nem tão) simples assim, mas é o nosso ofício.

Assim, com tudo que tenho a realizar durante o dia, estabeleci que estarei escrevendo de 7h. às 9h., impreterivelmente, com sol ou chuva, frio ou calor, e isso é inegociável. Mesmo que o tempo seja pouco, adotarei Hemingway e deixarei para o dia seguinte o auge da vontade, embora bem aproveitado todo minuto é uma eternidade.

O levantar às 5h da manhã é que necessito me preparar e cuidar das minhas meninas – esposa e filha. Inicio o dia com minhas meditações e visualizações, preparo o café delas para que possam ir para o trabalho e escola e, assim, poder estar totalmente disponível também para o meu trabalho. A partir das 9h. lanço-me à confecção dos livros e cadernos para à noite poder estar com meus alunos no curso Vivenciando a Linguagem, Leitura e Escrita e finalizar a travessia com uma bela, prazerosa e necessária leitura.

Hoje fui organizar os textos a fazerem parte do meu próximo livro “O pé de ameixa da casa da minha avó e outras crônicas” que, por motivo de agenda, será lançado em 2023. Mas é necessário deixa-lo pronto, e é incrível! É só começar a mexer que o livro acontece dentro da gente…

Mas vamos caminhando.

E você, qual é a sua rotina saudável?

Forte abraço!
Leandro Bertoldo Silva.

POR QUE BATIZEI AS MINHAS PRENSAS DE “PAULA BRITO”?

Francisco de Paula Brito (1809-1861), afrodescendente como Machado de Assis, foi figura importante nos primórdios do mercado editorial no país. Segundo Machado de Assis, “o primeiro editor digno desse nome que houve entre nós”. Pioneiro no ramo tipográfico no Brasil, facilitou e promoveu a publicação de escritos de jovens autores que buscavam oportunidades, incentivou a leitura, a circulação de ideias e os contatos entre figuras notórias da vida social do Rio de Janeiro. A tipografia de Paula Brito era responsável não apenas pela impressão de diversos escritos, mas também pela produção editorial de muitos deles. Além de ter sido a primeira a publicar um livro de autoria de Machado de Assis – Desencantos: fantasia dramática (1861) – foi o local onde o jovem Machado de Assis conheceu muitos escritores, artistas e políticos importantes, alguns dos quais se tornariam seus incentivadores e amigos.

Para quem é um escritor artífice como eu que edita e publica os seus próprios livros e também de amigos escritores, como Ricardo Albino, Armando Ribeiro, Antonia Aleixo, Valéria Cristina da Costa, Bhuvi Libanio, Araci Cachoeira e Lívia Ferreira, creio estar bem respondido.

O que mais me deixa estimulado neste trabalho de escrever e fazer nascerem outros autores e autoras é ver fortalecida a literatura independente e a possibilidade de novos caminhos porque, sim, eles existem, e se não existirem podemos construí-los.

Caso queira conhecer os meus livros, saber mais sobre as prensas, o selo Alforria Literária da Árvore das Letras e o nosso conceito de publicação sustentável, entre e fique à vontade. Visite este site. Quem sabe você não possa fazer parte desse processo?

Forte abraço!
Leandro Bertoldo Silva.

FAZER 50 ANOS

Fazer 50 anos não é um aniversário como os outros, não que os outros não tiveram importância. Afinal, só chegamos aos 50 por causa deles. Mas fazer 50 anos é a junção de dois momentos: um que se fecha e outro que se abre. É aquele momento exato entre o final do dia e o início da tarde. Também poderia ser da tarde para a noite ou da noite para o dia. É a pausa da inspiração para a expiração. E embora tudo possa parecer imperceptível, a mudança acontece trazendo as marcas do tempo, as consequências das escolhas, as palavras ditas, os olhares revelados, os abraços dados, os encontros realizados.

Fazer 50 anos é poder, sim, olhar para trás, avaliar, analisar com minúcias. É poder se dar o direito de sentar à sombra da árvore, afiar o machado da vida com mais paciência, sem correria, pois o ritmo pode ser mais lento, o que não significa ser menos eficaz, mas dosado com mais calma, com mais inteligência.

Fazer 50 anos é estar à porta de onde moram as pessoas que já passaram por tudo que passamos até então e que sabem que todas as experiências são válidas, mas que muitas delas não precisam ser levadas tão a sério. Aliás, brincar é abandonar qualquer tristeza e adquirir a qualidade da inocência sem ser infantil.

Fazer 50 anos é engravidar de si mesmo e renascer criança madura.

Obrigado a todos e todas que me acolheram em suas vidas. Obrigado por fazerem parte da minha. Gratidão pelas palavras de carinho. A história continua agora em outras páginas.

E ASSIM VÃO NASCENDO ESCRITORES

A Árvore das Letras através do selo Alforria Literária concluiu mais um projeto de livro: “Histórias de um rapidinho em quarentena”, do escritor, jornalista e contador de histórias Ricardo Albino.

Como eu digo sempre, o prazer de ler é resultado de estímulos constantes, que aos poucos se torna uma questão de gosto, escolha e atitude. E para isso é necessário ter acesso aos livros. E esse acesso precisa ser facilitado não apenas para o leitor, mas também para o escritor a fim de produzi-lo.

Eu como escritor independente por opção e convicção sei bem disso e resolvi assumir há alguns anos a missão de fazer nascer livros e autores. Seja bem-vindo, Ricardo. Que o seu livro possa levar luz ao coração das pessoas.

Se você é escritor, escritora e deseja ter o seu livro publicado de forma justa, sustentável e ecológica entre em contato com a Árvore das Letras. Se você é um leitor, uma leitora consciente dos novos talentos valorize a literatura independente.

Para adquirir o livro “Histórias de um rapidinho em quarentena” entre em contato com  Ricardo Albino no https://www.facebook.com/ricardoflavio.mendlovitzalbino

O NASCIMENTO DE UM LIVRO

“Certa vez, eu e meu amigo Leandro ouvimos em uma live da Árvore das Letras a seguinte frase de Dona Araci: ‘O bom de ser escritor(a) é que primeiro a gente engravida das ideias e depois pari as histórias'”.
(Ricardo Albino)

Pois é, essa é uma semana muito especial, onde o meu amigo Ricardo Albino apresentará oficialmente o seu primeiro livro Histórias de um rapidinho em quarentena, que tive a alegria e o prazer de confeccionar aqui na Árvore em mais uma publicação da Alforria Literária. Será no “Trilhas da Palavra”, na próxima quinta-feira, às 19 horas. Mas até lá, vejam como nascem os livros da Alforria e, claro, o livro do nosso grande amigo Ric.

Saiba mais sobre as publicações da Alforria Literária e o seu conceito sustentável clicando AQUI.

APESAR DO TEMPO, PAI.

Por Leandro Bertoldo Silva

Desculpe, pai, mas desconfio que não lhe obedeci. Nem ao senhor nem à mãe. Lembra aquele dia quando eu tinha 5 anos? Tudo bem, faz muito tempo, mas o senhor há de lembrar. Foi aquele dia que eu vi outras crianças pegando papel na rua e colocando dentro de um saco para levá-lo a um depósito, onde era pesado e o seu peso pago em moedas. Pai do céu! O senhor não imagina como os meus olhos brilharam. Não sei se pela oportunidade de ganhar dinheiro, pois era muito bom quando o moço do depósito nos entregava as moedas, ou pela própria ação de juntar-me às outras crianças no trabalho de vender papéis. Acredito que eram as duas coisas, acrescido de ainda poder levar recursos para casa, afinal eu já estava me tornando um homem!  Lembro-me bem da sensação… “Uau! Ganhar dinheiro é tão fácil e tão gostoso!” O senhor não me reconheceu na rua. Tudo bem, pai, não há nenhum mal nisso. Não tinha mesmo como me reconhecer, eu estava todo sujo. Lembra como foi? O senhor estava a voltar do trabalho quando em uma das inúmeras idas e vindas minhas com o saco às costas cheio de papel a caminhar até o depósito,  passou por mim.

— Oi, pai.

— Oi, filho. Oi, filho?!

Pois é, naquele momento o senhor me levou embora e junto com a mãe, depois dela ter me dado um banho daqueles, sentaram para conversar comigo. Nossa! Como me lembro dos olhos da minha mãe, olhos de ternura. Os do senhor também. Só não entendi muito bem o sorrisinho que estava junto deles quando eu disse estar trabalhando para ajudar nas despesas da casa. O quê? Eu não disse isso a vocês? Mas eu deveria. Então digo agora, mais de 40 anos depois. Engraçado, eu sempre achei que tinha dito isso… Porque lembro bem o senhor e a mãe — ah, os olhos da minha mãe… —, dizerem que eu não precisava fazer aquilo, que nesse ponto eu era diferente das outras crianças. Diferente como, pai? Porque elas eram pobres e a gente não? Sabe de uma coisa, pai, descobri que na vida existem vários tipos de pobreza e de riqueza, e aquelas crianças eram muito ricas. Puxa vida, como eram ricas em liberdade e alegria. O senhor precisava ver como ficávamos alegres no meio da rua, quando encontrávamos um papelão mais grosso que ia render boas moedas. As risadas, pai… Quanta riqueza naquelas risadas! Mas o senhor tem razão em um ponto… Pai, eu vou te contar um segredo que eu nunca contei para ninguém. Eu fiz uma coisa errada. Senti-me tão mal, pai! Era como se o senhor e a mãe nunca fossem me perdoar. Sabe, essa sensação era muito pior do que pensar no castigo de Deus que falavam nas igrejas. Nesse ponto eu fui mesmo diferente das outras crianças. Sabe o que elas faziam? Elas pegavam uma pedra bem grande e colocavam dentro do saco no meio dos papéis que era para pesar mais na hora da balança. Então… Eu fiz isso também. Mas foi uma tentativa só. Foi muito esquisito. Porque enquanto os meninos riam lá fora eu achava que aquilo não estava certo. Mas eles me chamavam de bobo. Ah, isso não! Aí fui provar que eu não era bobo. Peguei uma pedra bem pesada e coloquei no saco. Ela era tão pesada que foi parar lá no fundo. Bem, o moço do depósito logo achou algo estranho, porque eu mal conseguia carregar o saco. Além disso, eu tremia igual vara verde, e os meus olhos faltavam saltar do rosto de tanto medo. O meu coração batia de um jeito que dava para ver no peito sem camisa. O moço fez uma cara desconfiada, pegou o saco e pôs na balança. Pois é, deu para ouvir um “pléim” bem alto, o barulho da pedra no fundo ao bater no ferro. Que vergonha! Ele pegou a pedra, olhou e disse: “Ah, seu moleque…”. Ser chamado de moleque foi a pior coisa que já me aconteceu na vida. Os meninos tinham razão. Eu fui mesmo muito bobo, mas não por ter colocado a pedra no fundo e não no meio dos papéis, como eles disseram, mas por ter cedido àquela manobra. Não se preocupe, pai, o senhor e a mãe ensinaram direitinho, o erro foi todo meu. Mas valeu. Só não valeu o fato de não ter lhe obedecido, e aí voltamos ao início. Sabe o que é, pai? O tempo passou, não foi? E por mais que eu tenha estudado e formado no almejado curso superior, graças a vocês, com tanto sacrifício, eu queria mesmo era vender papéis. Desculpe, pai, mas aquele menino de 5 anos sempre cresceu dentro de mim. Ou melhor, eu crescia e ele vinha junto. Aí, no lugar do saco fiz uma prensa de madeira e nela colo e costuro papéis transformados em livros, que são pesados em uma balança um tanto diferente daquela de antigamente e enviados pelo Correio às pessoas. Está assim confessada a minha desobediência. Pois é, pai, precisava dizer isso ao senhor. Apesar de tudo, sou um vendedor de papéis. A diferença é que eles são escritos. Só não uso pedras; prefiro a poesia.

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Mais uma vez, obrigado por sua leitura. Ela é sempre importante e incentivadora da minha escrita. Espero ter gostado dessa história que me conectou ainda mais ao meu pai. Peço a gentileza de curtir, comentar e compartilhar com seus amigos. Você já sabe: Para um escritor é um presente valioso.