ATÉ QUANDO?

Por Leandro Bertoldo Silva e Antônio Alexandre

Vejo sonhos no ar, vejo a professora ao fazer da pedra um assento de esperança, e não é a esperança que existe entre o querer e a imaginação, mas entre o acreditar mesmo no impossível.

Vejo sonhos no ar, e as crianças a esconderem sorrisos com um olhar, o mesmo que se desnuda de uma infância prometida.

Vejo sonhos no ar, mas também roubados de crianças inocentes. Vejo crianças na escuridão, vejo o futuro do futuro do amanhã ameaçado.
Mas na inocência, vejo rostos e um sorrir de crianças alegres.

Vejo sonhos no ar, vejo árvores protetoras – ao menos elas – a doarem mais do que um amparo, mas a suas raízes a fortalecerem o desejo de ensinar.

Vejo sonhos no ar, vejo o branco alvo das roupas das crianças ao contrastar ao chão de poeira amarelecida, mas soberano ao ganhar a companhia do verde dos quadros inapropriados à trabalhar.

Vejo sonhos, muitos sonhos no ar. Vejo flores, mesmo que desenhadas, a embelezarem o conhecimento em meio a um aceno franco de um menino. O que estaria a pensar?

Essas são as nossas evidências de gente pelos cantos, aglomeradas, em desalentos como o professor sem condições, o caderno sem mesa, o estudo sem teto, as folhas refletidas no chão.

Mas, mesmo assim, vejo sonhos no ar: da menina que quer ser bailarina – por que não? -, do miúdo que deseja ser astronauta e brilhar com as estrelas e de tantos outros a emanarem sombras, mas não é a sombra que você imagina, entre a tristeza e a solidão, mas aquela que do descaso se torna a vontade de um arrebol.

________________________

Esse texto é um dueto além-mar entre Brasil e Angola, que desnuda um retrato literário de um descaso ocorrido em uma escola de Lubango. Muitas realidades parecidas presenciamos por aqui também, e cabe à arte o seu papel de fala e escuta. Literatura é a arte da palavra e, como tal, é também um meio de denúncia, mas com arte-delicadeza e arte-leveza. A comunicação não violenta se faz urgente em todos os países do mundo.

Forte abraço!

Até a próxima.

PERDOE-ME PELA MINHA ANSIEDADE – UM BREVE COMENTÁRIO DA OBRA DE FABIENE LEMOS

Por Leandro Bertoldo Silva

Para que consertar algo se é possível, rapidamente, substituir pelo novo? O futuro são homens-máquinas? O caminho que se está per(correndo) o leva para qual direção?

Esses e outros questionamentos são apontados pela escritora e psicóloga Fabiene Lemos em um texto que não se propõe agredir, mas, muito antes pelo contrário, acolher e afagar as nossas mais sinceras reflexões a respeito de nós mesmos ou, sem qualquer exagero, ao futuro da humanidade. “Perdoe-me pela minha ansiedade” já traz no próprio título esse que talvez seja, sim, o mal do século apontado por tantos estudiosos, cientistas, pesquisadores, profissionais de saúde e, por que não, escritores e atores das mais variadas manifestações artísticas: a ansiedade, essa angústia perturbadora que, segundo a autora, “foi se modificando com o tempo, juntamente, com o comportamento da sociedade e se transformando quase em um arquétipo”.

É exatamente assim que acontece. É natural nos sentirmos ansiosos, como bem diz Fabiene Lemos, ao nos submetermos a um teste ou nos prepararmos para um encontro. Porém, a vida do desejo mimético ou daquilo que nem sequer necessitamos, mas nos vemos compelidos a consumir porque a sociedade nos obriga, cria em nós a desordem que nos impele ao enigma das emoções.

E é aqui que passado, presente e futuro se confundem… É preciso lançar olhos carinhosos com absoluta sinceridade de nos reconhecermos nesse jogo de verdades e ilusões para que o monstro arquetípico não consuma o humano que nós somos.

É Com esse carinho, alinhado a uma escrita afetuosa, alcançável e profundamente talentosa de quem sabe tecer as palavras certas, no tom certo e no lugar certo, que Fabiene nos presenteia e nos proporciona a oportunidade do melhor encontro possível: o encontro com nós mesmos, no nosso tempo e no nosso lugar.

________________________

Gostou dessa temática? Absolutamente atual e necessária, não é mesmo? A sociedade – e nós somos a sociedade – necessita, e muito, lançar olhos para essas questões. Por isso, convido para o lançamento desse livro que será essa semana em uma live com a autora. O horário e mais informações podem ser adquiridas no perfil https://www.instagram.com/psifabie/

Forte abraço!

Até a próxima.

SILÊNCIO É A HORA DA DESPEDIDA

Por Tomé Nasapulo.
Angola.

Caríssimos amigos leitores:
Sabemos que as nossas vidas são marcadas de encontros, despedidas e reencontros. As despedidas são momentos marcantes carregadas de emoções, se não mesmo difíceis! Algumas despedidas abrem possibilidades de próximos reencontros, mas, infelizmente, nem sempre é assim.

Daí é que neste edição das Crônicas de Domingo, apresento as emoções vivenciadas em torno destes momentos. Espero que ada um de nós se reencontre neste “SILÊNCIO É A HORA DA DESPEDIDA”.

____________________

Silêncio é a hora da despedida!

Despedidas: Em cânticos polidos
Em choros revoltos
Em gritos bramidos
Em elogios nostálgicos.

Silêncio é a hora da despedida!

Sem abraços
Sem palavras
Sem desejos de renúncia a estadia.

Silêncio é a hora da despedida!

A hora da reivindicação
Das promessas perdidas
Das vontades ruídas
Da solidariedade comprometida
Da reciprocidade falida.

Silêncio é a hora da despedida!

A hora das emoções explodidas
Da ternura ferida
Das dores colhidas
Da tranquilidade merecida.

Silêncio é a hora da despedida!

A DITADURA DAS BETERRABAS

Por Paulo Cezar S. Ventura

Paulo é Graduado e Mestre em Física, e Doutor em Ciências da Comunicação e da Informação. Publicou Mistérios de Marte (poesia) em 2015, Zorro (infantil) em 2017, Projetos Escolares para Feiras de Ciências, em 2017, e Haicais do Riobaldo (poesia), em 2022 e participou de várias Antologias.

Meu Vô Ventura era um especialista em baboseiras. Na lista das vividas por ele ao longo da vida, uma que mais fundo o marcou foi namorar a vizinha rica porque ela tinha um carro e o levava para dar um rolê pela cidade. À época pareceu-lhe uma façanha para um garoto bonito e com uma família de parcos recursos financeiros, ele mal tinha grana para o ônibus. A façanha, no entanto, custou-lhe uma surra dada pelos potenciais interessados na menina. A cicatriz em seu braço nunca o abandonou.

Outra baboseira sempre foi sua birra com beterrabas. O vermelho da beterraba manchava seus dentes, sujava sua camisa branca sempre na hora de ir para a escola ou, mais tarde, ir para o trabalho (ele sempre foi desajeitado assim). Aquela birra foi se transformando em ódio pelas beterrabas à medida que sua data de nascimento na carteira de identidade foi ficando antiga, bem antiga. Não podia nem ver.

Recentemente, após ter vivido tantos jubileus pela existência ativa e rica, sua filha o conduziu à nutricionista para acertarem sua dieta alimentar. Vô Ventura precisa de alimentos fortes, ricos em nutrientes saudáveis, para manter sua saúde, sem ganhar gorduras desnecessárias.

Imaginem sua cara amarrada, careta feia mesmo, quando a profissional da alimentação sugeriu um cardápio rico em… beterrabas.

— Beterrabas? Nem pensar!

— Mas, Sr. Ventura, beterrabas são ricas em vitamina C, cálcio, vitamina A, ácido fólico, potássio e fibras. Além disso, contém antioxidantes que previnem doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer, e auxiliam na redução do seu colesterol sanguíneo, que está bem alto.

— E afirma isso com esse prazer estampado em seu rosto? Você só pode ser uma torturadora. Abaixo a ditadura das beterrabas!

Vô Ventura pegou sua bengala, a que o mantinha ereto em situações como essa, mostrou-a para a moça com uma careta de fúria e saiu resmungando do consultório. Beterrabas não fazem parte de seu cardápio.

________________________

Aqui está um personagem fascinante! As aventuras do Vô Ventura são assim, curtinhas, e com esse toque que parece que iremos encontrá-lo logo ali na esquina. Sim, existem muitas outras! E se o Paulo consentir, o traremos mais vezes por aqui. É cada história…

Forte abraço!

Até a próxima.

UM LIVRO NUNCA TERMINA AO VIRAR DA ÚLTIMA PÁGINA

Por Leandro Bertoldo Silva

Sempre tive fascinação pelas coisas simples. Acho mesmo que sou um fazedor de miudezas. Não por acaso tenho por Manoel de Barros uma admiração profunda, na capacidade que ele tinha — ou tem, porque um poeta nunca morre — de construir pequenezas insignificantes. Insignificantes? Ha, ha, ha!…

Muitas vezes como escritor, busco o pequeno das coisas. Bartolomeu Campos de Queirós, outro que entendia a linguagem miúda da vida, chegou a escrever um livro cujas 45 páginas valiam por 450; uma página de leitura por um mês de reflexão, a iniciar pelo título: “Antes do Depois”. Hã?! Pois é… E ainda há quem avalia se um livro é bom se ele for grosso! Não recrimino. Esses, às vezes, são bons escoradores de porta.

De qualquer forma, gosto das histórias que nos fazem pensar, daquelas a nos puxarem o tapete. O resultado já sabemos: um belo tombo existencial.

Escrever bem não é escrever muito, assim como ler muito não equivale ao ler certo, e eu não estou a falar de ortografia e muito menos de pontuação. Aliás, a gramática é uma necessidade(?), não uma camisa de força. Haja vista Guimarães Rosa.

Como vê, tantos sãos os escritores e escritoras a nos ensinarem isso. Uma vez estava a ler repetidas vezes um mesmo livro: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Sim, sou uma espécie de (re)leitor. Quem me conhece sabe: prefiro reler um livro a lê-lo pela primeira vez. Estava nisso quando fui interpelado por um amigo:

— Por que lê tão repetidas vezes este livro?

— Porque nele estou quase a encontrar a minha liberdade.

— O que falta para isso?

— A próxima leitura.

— Não te angustia saber que pode novamente não encontrar?

— Me angustia mais achar que já encontrei…

Não houve mais perguntas.

Recomecei.

________________________

Então, aqui está mais um texto em que eu revelo uma pequena particularidade, como ler repetidas vezes um mesmo livro. Há pessoas que acham isso uma perda de tempo, afinal há tantos livros a serem lidos… Mas uma coisa é ler, outra coisa é… ler! Com você como é? Você costuma repetir leituras?

Forte abraço!

Até a próxima.

RECORDAÇÕES – HISTÓRIAS QUE MINHA AVÓ CONTAVA

Por Rosi Amaral

Rosi Amaral é de Belo Horizonte. Trabalha como professora na rede pública. É contadora de histórias e escritora.

Maria, nome pequeno de uma pessoa com grandeza de alma, de coração e de histórias. Vó Maria sempre tinha uma história pra contar. Mas a que eu mais gostava de ouvir era uma da cidadezinha onde ela nasceu: Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte.

Ela contava que, ainda menina, conheceu Antonieta, a moça mais bonita da cidade. Antonieta estava de casamento marcado com João, um fazendeiro muito rico. Aconteceu que, na véspera do casamento, a moça fugiu, deixando para trás o noivo, vários rapazes que alimentavam uma escassa esperança de conquistar seu coração e um bilhete dizendo que iria para a cidade grande em busca do seu sonho: ser uma cantora famosa.

Vó Maria lembrava também de Salete, a irmã mais velha de Antonieta. Era a moça mais séria da cidade. Vivia para o trabalho e para a igreja. Criticava a postura dos jovens da cidade que se entregavam aos prazeres carnais, esquecendo de preservar a moral e os bons costumes. Não gostava de falar da fuga da irmã. As mexeriqueiras da cidade diziam que ela era apaixonada pelo noivo abandonado. Mas esse, depois da partida da amada, resolveu ser padre.

A pobre moça, com o coração partido, passou a dedicar-se ainda mais à igreja e às obras de caridade. Estava sempre disponível a qualquer hora do dia ou da noite para ajudar os necessitados. Só não saía de casa em noites de lua cheia. Ela tinha medo de encontrar Maria Doida, uma jovem andarilha que, desde menina, demonstrou ser perturbada das ideias. Vivia com a cabeça na lua, literalmente. Cantava, fazia versos e até uivava para seu objeto de fascinação.

Aconteceu um dia que Salete teve que sair às pressas para ajudar umas carpideiras no velório do médico da cidade. O doutor que cuidava de todos, esqueceu de cuidar da sua própria saúde. A cidade ficou desolada. Ninguém imaginava que o doutor sofria do coração.

Salete, pega de surpresa com a notícia, esqueceu de olhar a lua e saiu de casa.

Estava passando na porta da igreja quando ouviu um uivo assustador. A pobre moça congelou no lugar que estava. Não conseguiu dar um passo. Sem ação, viu Maria Doida se aproximando, aproximando, até que, quando estava bem perto de Salete, olhou em seus olhos, pegou em suas mãos, sorriu e soltou um uivo bem suave, parecia quase uma canção. Nessa hora, Salete sorriu também, algo que não fazia há muito tempo. Depois saiu de mãos dadas com Maria Doida, uivando pela cidade. A partir desse dia, Salete passou a viver na rua junto com Maria Doida. As duas sempre eram vistas fazendo versos e uivando para a lua.

Minha avó terminava a história assim. E eu sempre perguntava: Mas, e a Antonieta?… E minha avó dizia: Durante muito tempo, nas noites de quermesse, quando o rádio da cidade tocava as músicas das paradas de sucesso, todos ficavam atentos na esperança de ouvir a voz de Antonieta…

________________________

Gostou do texto? Talvez não tenha percebido, mas ele é cheia de “ingredientes textuais” e nasceu de um exercício de criação de escrita afetiva aqui na Árvore das Letras, no curso Vivenciando a Linguagem, Leitura e Escrita, em que Rosi usa das suas memórias para costurar histórias

É assim que acontece: ingredientes estão por todos os lados, basta juntá-los e dar a eles o seu toque literário. Parabéns, Rosi. Seja, também, muito bem-vinda!

Ah! Rosi Amaral é a menininha da foto…

Curta, comente. É uma ação simples que ajuda as histórias chegarem a mais pessoas.

Forte abraço!

Até a próxima.

CONTRA RESIGNAÇÃO A ACÇÃO

Por Tomé Nasapulo

Emílio Tomé Cinco Reis, de pseudónimo Tomé
Nasapulo, de nacionalidade angolana, natural da província do Huambo, professor
do ensino secundário do 2° ciclo do liceu 4019 “24 de junho-Cacuaco”
lecciona a disciplina de Física e é graduado em geologia na opção recursos
energéticos, pela Universidade Agostinho Neto, Faculdade de Ciências Naturais.

Oprimidos
Somos!…

Desesperadas vozes
Ecoamos na escuridão
D’Alvorada almejada
Vislumbra-se o horizonte

Oprimidos
De aflição, cansados
Trémulos e ofegantes

Vai o tempo meio sem conta e a nebulosidade
Aflora esperança sucumbida ante murmúrios
Ao sucumbir da mulher da criança que chora
Da vontade de vencer
Quebrada a opressão

Resignação nunca!

 ________________________

Aqui está mais uma poesia angolana fruto do encontro dos nossos continentes. Tomé Nasapulo aqui chega onde já se encontra o professor Dr. Antônio Alexandre. É assim que ele o apresenta:

Conheci o professor Emílio Cinco Reis , no liceu 4019, no ano letivo 2021/ 22. Na altura ele declamou um dos seus textos poéticos. Daí fui acompanhando o talento dele.  E para não ficar perdido no mundo da física que é cadeira que ele leciona no liceu falei com a Gabriela Lopes no sentido de o ajudar na publicação dos textos. Sabemos todos que a Gabriela Lopes é aquela janela aberta que mesmo em altas horas não se fecha. Foi assim que para além da janela aberta encontrei um portão aberto que é Leandro Bertoldo Silva.

________________________

Ah, quem é Gabriela Lopes? Vocês também a conhecerão…

Seja bem-vindo, Tomé Nasapulo.

Forte abraço!

Até a próxima.

ENTRE O ANELO E O SUSPIRO

Por Leandro Bertoldo Silva

Aflição de ser água em meio à terra

e ter a face conturbada e imóvel.

Hilda Hilst

Tenho um gosto especial pelos diários, principalmente aqueles escritos com a mais fina pena da literatura. Como não lembrar Carolina Maria de Jesus e seu “Quarto de despejo, o diário de uma favelada”? O que falar de “Memorial de Aires”, um dos meus livros preferidos de Machado de Assis? Ou mesmo “Drácula”, de Bram Stoker, todo escrito em forma de diários pelos personagens da trama em idas e vindas, questionamentos e respostas ao tecerem um impressionante relato intercalando-se uns aos outros?

Todos esses diários são eternizados nas memórias de quem os leram, alguns ficcionais, outros reais e outros ainda mistos. Vá entender a cabeça de um escritor! Mas há um no pedestal dos apaixonados por essas linhas inicialmente pessoais e despretensiosas a chamar-me curiosa atenção: o diário de Anne Frank. Isso mesmo! É o nome do que se tornou um dos livros mais emocionantes do mundo inteiro. A história da pequena Anne, assassinada pelos nazistas depois de passar anos escondida com sua família e outras pessoas no sótão de uma casa em Amsterdã, onde funcionava a fábrica de seu pai.

Mas não irei falar aqui sobre essa triste história, que não deve ser esquecida; daí também a importância dos diários. Antes falarei de uma peculiaridade simples, mas genial: Anne não escrevia ao léu, mas para Kitty, uma amiga imaginária. O que isso tem de extraordinário? Tudo! Ao direcionar a escrita a alguém, ela se torna, além de íntima, confidencial. Ainda mais se esse “alguém” for bem construído, com uma vida pregressa, profissão, família, amizades, escolhas… Isso o torna uma pessoa em potencial de não apenas escutar a sua fala, mas dialogar com as suas alegrias e dores. Como? Nas suas próprias digressões. É possível supor qual seria a resposta, mesmo que não concorde com ela.

Por isso, não me custa nem um pouco confessar: furtei a ideia de Anne. Mas não me julgueis mal. Jorge — sim, o “meu Ktty” se chama Jorge — é alguém que conviveu e convive comigo há muitos anos. Bem antes de adentrar-me no universo dos diários já detinha com ele longas conversas. Almoçava com ele, ria com ele, chorava e até brigava. Chegamos a ficar alguns anos sem nos falarmos, embora ele sempre me aparecia em sonhos, mesmo em silêncio, a abrir-me as janelas da minha alma. Engana-se quem pensa que era eu uma criança. Estou a referir de quando já era bem crescidinho. E como foi ele a escolher-me e não eu a ele dei-lhe um presente: um romance — Janelas da Alma — no qual Jorge, com toda a sua destreza, fundiu-me ao seu modo de pensar e de sentir. Tornou-se o personagem principal.

Caso se interesse em ler ficaremos felizes. Por hora, gostaria de apresentar-lhe o nosso primeiro encontro que passou a ser, também, após o livro ser publicado, o início do nosso diário. O chamo de “Entre o anelo e o Suspiro”.

Há momentos de mais puro esquecimento, esses momentos entre os quais nossa alma se liberta em princípio de estado. Como é doce o não ter que ser… Era o pensamento de Jorge ao me olhar pela primeira vez. Queria não ter que ser sempre, entregar-se a ele mesmo como as flores se entregam ao orvalho da manhã sem trocas e sem medos.

Sempre teve [ou tive?] a visão desse encontro: ora era a flor, ora o orvalho, como ora era o escritor, ora o personagem, sem preferências ou escolhas a vir destruir os versos existentes “entre o anelo e o suspiro”, como dizia aquela poesia guardada em um naco de memória.

Já era noite e toda noite era assim: preparávamo-nos, eu e Jorge, para esquecer, nunca lembrar. No esquecimento, não há sonhos – essa arrogância do pensamento. Isso já era eu a achar, em comunhão com meu personagem, a essa altura sem saber quem era ele e quem era eu.

Não importa. Calávamos um para o outro no momento exato do esquecimento, fragrância milimétrica de tempo entre o estar acordado e o começar a dormir. Pronto. Já foi. O barulho recomeça e o sonho invade os nossos pensamentos.

Boa noite, Jorge.

Amanhã

volto

a

escrever-te.

________________________

Bem, amigos e amigas que me leem aqui neste sítio (sim, adotei este nome), foi assim o meu reinício com Jorge. Digo reinício porque passei 15 anos a escrever o tal romance que lhe dei de presente. E agora nos falamos todos os dias, eu daqui e ele de lá. desse universo extraordinário da literatura. E você? Também escreve ou já escreveu diários? Diga aí nos comentários sobre sua experiência com eles. Vou gostar muito de saber.

Curta, comente, compartilhe e, como sempre, obrigado por estar aqui.

Forte abraço!

Até a próxima.

O VENTO DA LIBERDADE

Por Antônio Alexandre

Doutor em educação, presidente do instituto superior politécnico Nelson Mandela.
Professor de língua portuguesa, literatura, inglês e sintaxe do português. Investigador, membro correspondente da ALTO, colunista do jornal Roll. Autor de vários artigos científicos, professor convidado da Fics, professor convidado da UNEC.

“Deixe-me lhe contar o seguinte:

Angola é um país que se livrou do julgo colonialismo em 1975, tornando-se independente. Depois mergulhou em guerrilha durante longos anos. O calar das armas teve lugar em Abril de 2002. Como pode ver é um país virgem, cujo povo luta pela escolarização, justiça e liberdade.
Na literatura busco despertar a consciência”.

(Antônio Alexandre)

O vento da liberdade

 Cheira, todos os dias, à chuva.

Chuva de justiça, chuva de paz e de amor.

Senti o cheiro quando à praça caminhava.

Vejo todos correndo à praça é o fim do opressor.

Chegou à praça o cheiro da liberdade

E no rosto do povo a felicidade.

Vejo o campo a crescer e a renascer a esperança.

Vejo o fim da escuridão dando lugar à justiça.

                               

Cá na praça o povo alegre agita-se pela independência.

E todos na busca da irmandade, na tolerância e na paciência.

Caminham juntos e abraçados pela mesma distancia.

Sinto o vento e o cheiro da mudança.

Uma mudança que veio para ficar.

Como a dança do carnaval e como a onda do mar.

                               ________________________

Permitam-me um compartilhamento. Nessas duas semanas que se passaram vivenciei um belo encontro (mais um) que me proporcionou um abraço cultural com nossos irmãos de África. Antônio Alexandre, confrade na Academia de Letras de Teófilo Otoni, manteve comigo breves, mas auspiciosas conversas por e-mails; eu aqui, no Vale do Jequitinhonha e ele lá, em Angola. Dentre abraços verbais e saudações literárias, eis que fizemos nascer uma parceria além-fronteiras aqui mesmo nesse sítio, como ele chama, e é sem dúvidas a melhor maneira de denominar algo a partir da nossa própria língua. Estaremos, a partir de “O vento da liberdade”, a trocar histórias: contos, crônicas, poesias, tanto minhas quanto as dele e também de nossos alunos e alunas, a serem publicadas aqui neste espaço. Espero que gostem, assim como nós, dessa novidade e continuem a compartilhar, comentar e fazer ir longe nossas letras irmãs.

Seja bem-vindo, Antônio Alexandre.

Forte abraço!

Até a próxima.

PONTOS DE VISTA

Por Leandro Bertoldo Silva

“Havia me arrumado toda. Um dia inteiro no salão de beleza”.

Pensava, pensava, pensava… Seu cabelo mais parecia uma escultura de Rodin. Unhas desenhadas, moderníssimas. A pele uma seda, e gastou uma fortuna naquele vestido dos sonhos. Ficou tão bonita que mal podia se reconhecer no espelho.

“Por que será que ele sequer me olhou?”.

Perguntava-se desiludida e triste, segurando a vassoura na pausa da casa que pedia arrumação.

O cabelo da véspera, agora volumoso e desgrenhado, estava preso no alto da cabeça por dois lápis atravessados. A maquiagem desfeita revelava as sardas abaixo dos olhos. Os óculos, de aros grossos e teimosos, escorregavam para a ponta do nariz. Os chinelos de dedo nada pareciam com os sapatos de salto de outrora.

Foi assim, com uma camiseta simples e um short desfiado, que se dirigiu à porta para atender a campainha que tocava.

Era ele! O amigo do seu irmão… O responsável por toda aquela transformação de Cinderela.

Ontem sequer a notou; hoje estava ali, bem a sua frente, vendo-a naquele estado!

Os olhos pousados nela, vidrados, pareciam não acreditar. Sua vergonha aumentava a cada silêncio do rapaz que não arredava pé, até que sua boca, num movimento de quem iria finalmente desferir a gozação, disse:

— Luiza! Você está… linda!

E o amor se indecifrou em pontos de vista…

________________________

Então, eu, particularmente, sempre prezei pela simplicidade, o que só o dia a dia pode revelar, porque ali se encontra a realidade, assim mesmo, sem máscaras ou filtros… Você enxerga beleza no natural?

Curta, comente, compartilhe e, como sempre, boa reflexão e obrigado por sua leitura.

Forte abraço!

Até a próxima.