VAMOS ACORDAR OS SONHOS?

Por Leandro Bertoldo Silva

Essa semana, no dia 12 de outubro, comemorou-se o Dia das Crianças. E foi exatamente nessa semana que nasceu a segunda edição do livro “O menino que aprendeu a imaginar”, com novo projeto, nova capa e nova história. O livro que virou peça de teatro do grupo In-Cena, de Teófilo Otoni, a partir da parceria com meu amigo Pierre André, com minha direção e também de Geane Matos — a primeira direção externa do grupo após 15 anos de existência — ganhará em breve os palcos e ruas desse nosso Brasil.

E já temos data do nosso primeiro ensaio aberto, que acontecerá em Belo Horizonte, nos dias 24 e 25 de novembro, no teatro Raul Belém Machado.

Como se não bastasse, acontecerá, também, o evento “Sábados Literários” em BH, cujo tema não poderia deixar de ser “O menino que aprendeu a imaginar”, onde estarei em roda de conversa sobre o livro, todo esse processo criativo e a autografar exemplares dessa obra pela qual eu tenho muito carinho.

Este é um livro escrito com o coração e com muitas lembranças, mas também com muita imaginação… Quer saber como? Vem que vou te contar. Vamos voltar um pouquinho no tempo…

É bem verdade que é fruto de um sonho que já existia. Os personagens dessa história — Oswaldo e seu brinquedo — bateram em minha porta há alguns anos e, como quem não queriam nada, apresentaram-se e disseram:

“Ei, você precisa nos soltar! Que história é essa de ficar nos guardando em seus sonhos?”

E, a partir daí, fizeram-me a mais maluca proposta que já recebi até hoje. Lembro-me que olharam bem nos meus olhos e dispararam:

“VAMOS ACORDAR OS SONHOS?”

De fato, acordei sobressaltado com aquela pergunta estranha e me sentei na cama. Ufa! Estava dormindo… Será? Ainda era madrugada e, seja como for, não mais preguei os olhos, pois aquela pergunta também não mais saía da minha cabeça. Corri para o computador e comecei a escrever… Foi assim que Oswaldo e o palhacinho de chapéu de guizos, que você está prestes a conhecer, ganharam vida e foram parar nas páginas de uma conceituada revista de educação.

O interessante é que, por algum tempo, Oswaldo, incentivado pelo brilhante amiguinho, pegou um livro que ganhara de presente, sentou no tapete de seu quarto e, pela primeira vez, abriu e começou a ler as histórias… Mas que histórias eram essas? Eu não sabia. Curioso como sou, perguntava a Oswaldo e ele falava que ainda não era hora de saber. Coisa estranha… E o tempo passou. Entrei para uma escola e fui dar aulas de Português, conheci muitas pessoas, fiz muitas outras coisas e criei o meu próprio trabalho que é hoje a Árvore das Letras, escrevi e publiquei os meus primeiros livros, entrei para a Academia de Letras de Teófilo Otoni, em Minas Gerais, e fiz amizade com muitos escritores e escritoras, criei a minha própria produção sob demanda e o selo Alforria Literária através de prensa de madeira, a “Paula Brito”, onde os meus livros são feitos.

Até que um belo dia estava cortando alguns papeis para as capas de um livro, quando Oswaldo e seu amigo entraram sala adentro dizendo:

“Quer mesmo saber quais eram as histórias que eu lia? Elas estão aqui!”

Ao me refazer do baita susto que levei, olhei ao redor e só via os meus livros, os papeis, a “Paula Brito”, a Árvore das Letras. Aí perguntei:

“Aqui onde?”

E a resposta veio:

“Assim como os escritores nascem de outros escritores, as histórias nascem de outras histórias! E mais… Nascem das nossas experiências e dos nossos sonhos. Você já devia saber… Tudo o que tem a fazer é dar forma aos seus pensamentos, emendar um no outro, colocar os ‘pingos nos is’. Faça isso e irá se surpreender!”

Bem, foi assim que o livro surgiu. Das minhas lembranças de infância, das minhas leituras, fui juntando palavras, fatos, ideias, nomes daqui e dali como numa gostosa e divertida brincadeira. Dessa brincadeira juntei peças, troquei personagens de lugar, tornei a trocar, misturei um com o outro e consegui algo extraordinário: não apenas uma, mas várias histórias!

Ao término desse trabalho, Oswaldo e o palhacinho viraram para mim e disseram:

“Agora está pronto!”

Aí foi a minha vez de falar:

“Não está! Ainda falta uma coisa…”

E assim nasceu o epílogo do livro ao contar o que aconteceu após Oswaldo ter lido as histórias que seguiam…

Agora é com você! Leia-as e abra-se para o mundo dos sonhos e da imaginação, pois, tenha certeza, todas as possibilidades vivem guardadas lá…

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Pois é, pessoal, esse papo gostoso abre o livro “O menino que aprendeu a imaginar” que, como eu disse, tem nova capa e nova história. Agora, todos poderão encontrar, além do Oswaldo e o palhacinho de chapéu de guizos, outros personagens como o Vovô Teobaldo, a Vovó Cabrocha, o Tio Gerônimo e até o Fernando Luiz! Esse dá o que falar… Mas lá também estão a Dona Nicinha, a professora mais legal do mundo; o Mapinguari, o menino-bicho e até o Pedrinho da pedra lascada cara de gente mas olho de fada com a bola no pé não tem nem mané não anda descalço que é pra não se sujar e adora um cheirinho de sorvete no ar da Silva, que foi parar na capa do livro! É cada uma…

Deixe o seu comentário e aproveite para responder: qual dos seus sonhos você já acordou?

Forte abraço e até o nosso encontro!

Ah! Faça logo o seu pedido, hein, porque a produção dos livros já começou… kkkkk!!!

SE EU VOLTASSE A SER CRIANÇA

Letra de Ricardo Albino / Música de Leandro Bertoldo Silva

Se você tem de Zero a mais de 100 anos tenha um feliz Dia das Crianças hoje e sempre. Para comemorar, eu, Leandro, e os amigos Ricardo Albino e Pierre André fizemos nascer da nossa parceria de sempre uma música que está aqui para você ler, ouvir e cantar. A letra é do Ricardo, a melodia é minha e a edição do vídeo logo abaixo é do Pierre. Cante, dance, compartilhe com todo mundo o amor da eterna criança que mora no seu coração pela arte de viver, amar e ser feliz.

Se eu voltasse a ser criança,

Só mais uma vez,

Chamaria uma dama

Pra aprender a jogar xadrez.

.

Se eu voltasse a ser criança,

Na maquininha do tempo,

Meu relógio estragaria

Nos momentos de alegria.

.

Um dos ponteiros diria:

Eu quero brincar também,

Enquanto o outro sorria

Doido pra viajar de trem.

.

Se voltasse a ser criança,

Só mais uma vez,

Já ia nascer falando

Só pra assustar vocês.

.

Se eu voltasse a ser criança,

Prestem muita atenção,

Acabariam as tardes,

Toda segunda era feriadão.

.

Se eu voltasse a ser criança,

Não queria mais crescer,

Por isso é que conto histórias

Pra alma não envelhecer.

.

Mesmo de cabelos brancos,

Tocando o meu violão,

Sempre levarei comigo

O menino que joga botão.

.

Terminando essa história

Em forma de cantoria,

Seja uma eterna criança

Cheia de amor e magia.

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VAMOS A OUTRA PARTE COM ENGENHO E ARTE

Por Leandro Bertoldo Silva

Inicialmente, quero agradecer a Deus, razão maior de todas as conquistas. Quero externar meus agradecimentos a todos os colegas acadêmicos, confrades e confreiras da ALTO, todos representados e representadas na pessoa da excelentíssima presidente Elisa Augusta de Andrade Farina, do acadêmico e professor Wilson Colares da Costa. Cumprimento as senhoras Maria Beatriz Cunha Cicci Neves, e Íris Soriano Nunes Migio. E não poderia jamais deixar de externar de forma muito especial, com minha mais profunda admiração, o meu agradecimento à escritora e também acadêmica e amiga, Marlene Campos Vieira, para quem eu peço uma salva de palmas, por favor. Pessoa que primeiro viu em mim uma condição de poder estar aqui nessa casa tão importante, vindo a se tronar minha madrinha acadêmica quando da minha posse, há 11 anos, como membro correspondente, e assim será sempre; a bênção, minha madrinha.

Agradeço também de forma muito especial a minha esposa, Geane Matos, e minha filha Yasmin Bertoldo Silva Matos, pelo amor, pelo carinho, pela compreensão e pela parceria que vivemos cotidianamente por todos esses anos, e que assim permaneça e continue ao longo de nossas vidas, muito obrigado.

Agradeço de forma muito carinhosa a todos os meus familiares, em nome dos meus pais – Aniel e Maria Elena, que pela distância física não foi possível as suas presenças dessa vez, mas elas existem dentro do meu coração e em cada parte da minha alma. Agradeço, também em nome de Elisa, aos queridos amigos do grupo Novos Autores, que é o grupo que nos reunimos semanalmente na Árvore das Letras, minha escola-editora-ateliê. E por fim, e não menos importante, agradeço aos meus amigos e amigas aqui presentes, Fabiene, Alice, Solange e Cleiton, que muito contribuíram e contribuem para a construção da minha história.

Quando olho o tempo pretérito da vida, de 2012 para cá, as pessoas conhecidas a tornarem-se amigas, outras a chegarem e assumirem o seu lugar em mim e tantas coisas a poetizar caminhos escritos, vejo que tudo tem o seu momento. Foi preciso amadurecer letras e prosas para poder sentir a vida e fazer brotar um novo impulso para o futuro.

Há 11 anos tomava posse nesta Academia como membro correspondente, título esse que busquei honrar com muita gratidão e dedicação até o dia de hoje, fazendo jus quando à época disse que vinha para somar. Não sei se a matemática assim se fez, mas sei que busquei com afinco o estado de pertencimento. Fico realmente agradecido por fazer parte dessa Academia de Letras tão atuante em seus encontros, solenidades, publicações, concursos que nem uma pandemia conseguiu recuar nossas ações, porque mesmo on-line mantivemos nossos encontros, e foram muitos. E isso graças a uma presidente verdadeiramente atuante, que é um exemplo admirável de conduta, presença, capacidade de estar sempre vivendo o presente sem se furtar de absolutamente nada e que, para mim, é uma das minhas maiores inspirações.

Hoje, quando o sol de todos esses anos se põe, deixa em nossa alma marcas do que foi. E a partir de agora – o nascer de um novo sol – e que não sabemos quais dias serão esses, apenas apostamos nas doces incertezas da poesia e vamos a outras páginas, agora como membro titular.

Por isso, assumo essa cadeira com imensa responsabilidade e, principalmente, com muito respeito à memória de quem outrora a ocupou. Refiro-me, claro, a nossa querida professora, poetisa, cronista e contista Maria Laura Pereira da Silva Couy, que exerceu tão significativos trabalhos nesta e em outras Academias e que com sua vasta obra muito contribuiu para as nossas letras e cultura, não somente em Teófilo Otoni, mas em Minas Gerias e no mundo, porque, a partir do momento que aquilo que escrevemos é entregue ao mundo, a ele pertence: é assim que nos tornamos imortais.

Com a mesma responsabilidade e respeito, me refiro ao patrono dessa cadeira, o também professor, cronista, escritor, poeta e radialista Luiz Gonzaga de Carvalho, na promessa de fazer deste lugar um lugar não apenas de memórias, mas de ações vivas e construtivas a partir da nossa arte de escrever em busca de uma sociedade mais consciente, igualitária e feliz.

Finalizo com o que disse há 11 anos, como prova de que a literatura sempre estará atual:

Escrever… Dizer o que está por dentro, juntando sentimentos em palavras alucinadas, loucas, desvairadas que, quando encontradas, se acalmam. Será? Não sei… O que sei é que assim, minha vida, como a de um livro, vai se escrevendo – páginas ao vento, palavras ao ar.

Obrigados a todos e está dito o necessário.

Muito obrigado.

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Discurso de posse como membro titular da Academia de Letras de Teófilo Otoni / MG. na noite de 07 de outubro de 2023. Mais uma página escrita neste grande livro da vida. Vamos a outras.

Forte abraço!

Até a próxima.

LÍNGUA PORTUGUESA

Por Tomé Nasapulo
(Angola)

Quanto tempo não te vejo
Nos passeios
Nas brincadeiras
A volta da fogueira

.

Agora se tronaste bandeiro
Te escondes em mosteiro
Te envaideces ou envelheceste?

.

Pareces tímido
Nos calões
E nos palavrões

.

Já não te contextualizas
Tratas toda gente de você
Não importa a idade ou posição
Ficaste com as mamoites e com os papoites

.

Que pena!
Até quando os senhores e as senhoras!
Que saudades tuas!E dos tempos!
Volta já!
Já estás sem tempo.

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A expressão, mamoites e papoites é a gíria que se usa para dirigir-se as pessoas mais velhas.  Os termos derivam das palavras pai e mãe respectivamente. (NA)

Forte abraço!

Até a próxima.

A MOÇA FANTASMA

Por Leandro Bertoldo Silva

Há muitos anos existia uma mulher tão linda que fazia estremecer de inveja as ricas filhas dos homens mais ricos da recém-fundada Belo Horizonte. Eu disse “filhas”? Não somente elas, mas as mães também. Estamos no ano 1899, mais precisamente no dia 1º de janeiro, na inauguração de uma das entidades recreativas mais auspiciosas da nova capital — o clube Rose, no Palácio da Liberdade, sob os cuidados de D. Ester Brandão, nada menos do que a primeira dama do Estado e, portanto, a esposa do presidente Silviano Brandão. Que festa! Belo Horizonte acabava de completar o primeiro aniversário.

A causadora de tanta inveja chamava-se Magnólia, outros a conheciam Jasmine, pela semelhança alva que possuía. De qualquer forma era mesmo uma flor cândida e pura. Não me alongarei na descrição da adorável criatura, basta saber que sua beleza cegava os homens de tal maneira que não importava serem casados. Eram atraídos como ímãs e perdiam a noção do espaço e do tempo, o que causava óbvios constrangimentos às senhoras. Na festa, até mesmo as melhores artistas de então, justamente por serem mulheres, ficavam incomodadas em perder a majestade da presença. Ora, o que valia a “Serenata”, de Schubert, até mesmo “Fantasie-Impromptu”, de Chopin ou “Dance des Sylphes”, de Berlioz tão bem executadas pelas artistas? Nada disso apagava o brilho de Magnólia (ou Jasmine).

Vale lembrar que a capital, com pouco mais de um ano, tinha uma população ainda muito escassa, aumentando sobremaneira a fama de Jasmine (ou magnólia), e o ciúme das senhoras, filhas e artistas da cidade já estavam à flor da pele. Então concluíram: Era preciso que a moça se mudasse dali, ou qualquer outra coisa que lhe fizesse desaparecer. Porém, demitir a moça de seus serviços domésticos e festivos não diminuiria sua atração ao passear pelas ruas. Fazia-se necessária uma atitude mais drástica como o caso exigia. Calma lá! Nada de violência… Isso não fazia o feitio das senhoras, donzelas e moças casadoiras da sociedade que se iniciava na capital mineira. Mas uma coisa seria a vingança perfeita: ela que cegava os homens com a sua beleza incutindo-lhes desejos e, por isso mesmo, poderia ter o namorado, noivo e esposo que quisesse, ficaria impedida de amar quem quer que fosse. Mas como? 

Bem, como dito, a população era pequena e qualquer coisa que se fizesse ficaria logo à vista de todos. Era preciso uma ocasião propícia. E ela veio: O carnaval!

Nos primeiros anos do século passado, essa festa era uma das principais realizações de rua da cidade, em que um préstito com pomposos carros de tração animal, ricamente decorados, desfilavam pelas ruas centrais da cidade, para alegria das famílias que faziam verdadeiras batalhas de confetes e atiravam das janelas das casas flores e serpentinas. Era uma grande festa, ideal para o intento de um grupo de senhoras que necessitavam que todos, principalmente os maridos, estivessem entretidos com o alarido. Nesse dia, o cortejo partiu do barracão do Congresso. Essa casa legislativa situava-se entre a rua da Bahia e a rua Tupis e a avenida Afonso Pena. O barracão referido ficava nos fundos desse prédio, lugar perfeito para atrair a moça sem riscos de serem vistas tão logo a festa ia adiante. Uma das senhoras, com a desculpa de pedir Jasmine para ir ao barracão buscar mais serpentinas, providenciou que as outras já estivessem lá quando da chegada da moça. Foi a última vez que Jasmine ou Magnólia, seja como for, fora vista, para o lamento dos homens e felicidade das mulheres… 

A moça, mantida presa nesse barracão, fora transferida na quarta-feira de cinzas para um outro cárcere ao pé da Serra do Curral, de onde só saía a noite, sem mais ter o direito de ver a luz do dia. Inocente e obediente — e não se sabe por qual razão — voltava sempre antes dos primeiros raios da manhã, de forma que toda a sua formosura foi se misturando com o negrume da noite até que a morte veio selar seu destino: tornou-se aquela que, por falta de amar e sendo filha da solidão, descia em branco desespero as mediações do bairro dos Funcionários, pois fora ela uma funcionária obediente e infeliz, a recolher os amores nascidos na iminência de se separarem para nunca mais se encontrarem. Era mesmo, como disse Carlos Drummond de Andrade: “um vapor que dissolve quando o sol rompe na Serra”.

É por isso que até hoje quem passa pelo bairro dos Funcionários em madrugadas sem neblina sente, vindo do sopé da Serra, o rastro frágil e hesitante da Moça Fantasma em um aroma característico de dama-da-noite, às vezes jasmim outras vezes magnólia, a perfumar os amores perdidos…

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Pois é… Arthur Azevedo, durante sua viagem a Minas Gerais, por volta de 1902, já dizia: “Ao lado do brilho, os detritos. As ruínas de uma dúzia de velhos bairros se amontoavam no chão. Para onde iria toda essa gente?” E assim, Belo Horizonte é conhecida como a capital dos fantasmas: o Avantesma da Lagoinha, a Loira do Bonfim, Maria Papuda e tantos outros; inclusive, a Moça Fantasma que trago aqui nessa história a fazer parte do meu livro “Histórias de um certo Aarão e outros casos contados – das histórias e lendas de Belo Horizonte recontadas por um segurança que recebia, em seu serviço, a visita ilustre do fantasma de Aarão Reis”, com um tantinho assim de que quem conta um conto aumenta um ponto…. A propósito, você já viu ou conhece alguém que tenha visto algum deles? Eita… Diz aí!

Forte abraço!

Até a próxima.

OUTONO DE CHOPIN

Por Cecília Andrés Caram

Gostaria de plainar acima dessas folhas outonais, em vez de craquela-las com meus passos.

Cobrem toda a terra e não me deixam brechas entre elas.

Vou devagar e longe de meus 9 amigos, entretidos com selfies, no parque da casa onde nasceu Chopin.

Tarde gelada e vento que desnuda as castanheiras. Pingos finos como fios de seda vindos enviesados das escuras nuvens não me incomodam.

As folhas são tapetes no solo polonês de Zelazowa Wola, vilarejo com 65 habitantes, perto de Varsóvia.

Apanho uma… outra… depois outra. Sinto o aroma úmido segurando algumas, as mais inteiras. Têm a mesma forma dos maples, que sempre me causam espanto e fascinação.

Entregue ao momento, começo a escutar músicas advindas das árvores.  Caminho e o som me acompanha. Demoro a assimilar o que mais me parece ser um passe de mágica: TODAS elas tocam Chopin.

Já não distingo se escuto sonata, polca ou réquiem…

Não importa. Agora predomina meu lado direito do cérebro: pura sensibilidade. Como a dele, que dizia não saber exprimir sua intimidade de outra maneira.

Vislumbro ao fundo a casinha pequena e clara, que abre as portas para nós, tão somente.

Atravesso uma ponte, prossigo. Quero deitar nas folhas, meditar. Mas urge o tempo.

Já na porta de entrada perco o fôlego ao me deparar com o último piano tocado por Chopin em sua maestria, especialmente com a mão esquerda, tendo composto desde os 8 anos de idade.

Meus olhos percorrem cada detalhe, não ficando alheia à lareira e a 2 poltronas de veludo azul-piscina junto a ela, naquela sala sob medida e pra nada mais. Qualquer móvel adicional desvirtuaria seu clima uterino, aconchegante e protetor – aliás, Chopin nascera exatamente ali em 1810.

Polonês da gema, morando em Viena e Paris, pediu à sua irmã que levasse seu coração para sua terra natal, depois que despedisse de suas músicas nesse universo.

Ela o lacrou num cristal com conhaque, e lá está ele, habitando às escondidas, numa das colunas da Igreja de Santa Cruz, em Varsóvia.

Eu rezei ali. Quis vê-lo com suas veias e partituras ali gravadas, pulando com destreza pelo teclado Pleyel.

Lembrei que seus amigos poloneses levaram e espalharam um pote de terra até seu túmulo em Paris. Assim ele dormiria no Père Lachaise, mas com terras polonesas.

Voltando à casinha, visitei todos os mini cômodos, visualizando a família de 4 irmãos, o pai professor de origem polonesa e a mãe pianista.

Fechei os olhos, colocando as sensações em minha memória.

Levando o piano em mim, recolhi algumas folhas. Aconcheguei-as  em meu cachecol. Preferi o frio e os fios do chuvisco, a não levá-las comigo.

Agora, despeço do jardim, céu escuro e clarão na alma, reconhecendo a “Heroica”, vinda das castanheiras, sendo a cada instante mais e mais desnudadas, para hibernarem nas raízes, suas seivas, até a próxima primavera.

Saindo, a igreja que batizou Chopin nos convidou a participar de uma missa. Ajoelhei. Apertei minhas folhas nas mãos e viajei pelo tempo: Chopin abandonara a religião e, já quase à morte, aos 39 anos, sofrendo de problemas respiratórios, pedira a um padre em Paris que o aceitasse como católico novamente.

Continuei absorta pela experiência vivida, setembro de 2018, espalhando as relíquias para secarem no quarto do hotel.

Em que salas de concertos e em que escolas sobrevivem mundo afora os “nocturnes”, os “etudes”, as ” sonatas”, os “preludes”, as “polonaises”, as “barcarolles”?

“Onde meu tesouro está, estará também seu coração”.

Chopin está vivo.

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O outono de Chopin é uma história do livro “Terna Memória – descobrindo artistas em viagens”, da escritora Cecília Andrés Caram. A obra relata memórias de viagens da autora. As folhas da imagem foram colhidas no jardim da casa de Chopin, quando lá esteve, e carinhosamente doadas pela Árvore das Letras. A publicação do livro foi feita pelo selo Alforria Literária e é fruto da Vivência Novos Autores, uma imersão de sentimentos por meio da leitura e escrita que tem o objetivo de aprimorar a percepção literária e metafórica das histórias que lemos e ouvimos.

Para saber mais sobre a vivência, clique AQUI.

Para entrar em contato com a autora, acesse:
https://www.instagram.com/ceciliaandrescaram/

Forte abraço!

Até a próxima.

DEUS TE LIVRE, LEITOR, DE UMA IDEIA FIXA – ASSIM DISSE BRÁS CUBAS

Por Leandro Bertoldo Silva

Machado de Assis foi, se não o primeiro, sem dúvidas o principal responsável por fazer explodir em mim a vontade de escrever. Já trouxe o bruxo do Cosme Velho aqui nos primórdios desse blog. Você pode conferir um artigo dedicado a ele clicando AQUI.

Mas volto a Machado por duas razões: primeiro para dizer algo curioso para alguém que, como eu, o tenho como um dos meus pais literários.

O meu primeiro contato com o bruxo foi igual ao de muitas e muitas pessoas, ou seja, traumático. Não tinha como ser diferente. Um pré-adolescente mal saído das fraldas do ensino fundamental, não tem a mínima condição de ler e muito menos de compreender seja lá o que for de literatura clássica, ainda mais em se tratando de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Pois foi justamente esse o primeiro livro de Machado de Assis caído em minhas mãos. Quanta loucura de uma professora ou professor, já não me lembro, mas recordo das noites mal dormidas por achar a literatura um monstro horripilante a puxar-me os pés por debaixo da cama.

Antes de continuar, permita-me um desabafo não muito carinhoso, mas necessário. A literatura é uma escada muito alta e para se chegar até o topo é preciso subir degraus. Não se lança uma criança do primeiro ao último degrau de uma só vez ao exigir a leitura de obras clássicas no inicio do ensino fundamental. Isso só serve para desconstruir leitores e fazer do aluno e aluna pessoas a odiarem os livros. Deixem, portanto, de arbitrariedade, professores e professoras. Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, assim como Drummond, Clarice e tantos nomes maravilhosos das nossas letras, são degraus a serem subidos com calma e inteligência. Seus alunos chegarão lá naturalmente. Caso consigam terão feito o trabalho ao qual foram chamados a fazer. Fim do desabafo.

No entanto, seja pelos deuses ou deusas da literatura ou uma professora mais sensível, preparada e inteligente, fui uma das crianças resgatadas do fundo do abismo. E imagine! Logo o autor que eu tinha tanto para odiar é hoje o meu escritor de referência. E sabe qual o meu livro de cabeceira, aquele revisitado tantas e tantas vezes e assim ainda será outras tantas? Justamente! Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Como não ficar fascinado, não com um autor defunto, “mas com um defunto autor para quem a campa foi outro berço”? Imaginar um personagem voltar do além para contar as suas historias enquanto aqui vivia, além de inspirar-me outros causos e memórias, fez tudo passar a ter sentido, inclusive os capítulos outrora indecifráveis. Não, não foi de uma hora para outra, foi necessário ser conduzido, e bem conduzido, como eu disse há pouco, por uma mestra. E quando eu consegui vislumbrar tal obra de arte, eis que acontece comigo o mesmo ocorrido a Brás Cubas: uma ideia fixa! Valha-me Deus! “Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa”, assim disse Brás Cubas ao cabo do capítulo IV de suas memórias. Para saber qual é, vá, pois, ao capítulo e ao romance. Aqui expressarei a minha ideia fixa, tão fixa que convivi com ela durante anos. Tempo suficiente para sentir-me preparado, embora saiba do longo caminho a percorrer de agora em diante.

O que estou a dizer?

Aqui vai a segunda razão! Algum tempo hesitei se deveria ou não reescrever Memórias Póstumas de Brás Cubas em haicais! Aí está, sem mais nem menos. Minto, vou um pouco além para que perceba a loucura em que me meto.

Haicai é um micro poema de apenas 3 versos, ao perfazer um total de 17 sílabas gramaticais ou poéticas, sendo o primeiro verso de 5 sílabas, o segundo de 7 e o terceiro novamente de 5, salvo algumas regras permitidas pela nossa Língua Portuguesa. Ora, reescrever todo o romance em poesias minúsculas, com início, meio e fim, parece pouco se não fossem 160 capítulos, curtos na verdade, uma das características do Realismo, mas lá se vão algo em torno de 200 páginas…

Não sei quanto tempo levarei nessa empreitada, mas sei como é prazeroso um desafio literário. O melhor disso é conviver de perto com este ícone das nossas letras, lê-lo, relê-lo, ler novamente e sorver de sua pena a arte mais pura e genuína, transformando-a em algo a poder conduzir naquela escada cheia de degraus alguém a ser salvo ou salva do fundo do abismo…

Minha escrita terá outros suportes antes do livro. Aqui deixo, em vídeo, o primeiro capítulo, onde se trata do óbito do autor.

Desejo-lhe boa leitura e convido a vir comigo nesse delicioso passeio.

Forte abraço.

Até a próxima.

O TAMANHO DOS SONHOS

Por Paulo Cezar S. Ventura

Sonhos não devem ser espalhados. Só podem ser cochichados em orelhas amorosas e amigas.

Depois do acidente com o componente da banda Paralamas de Sucesso, Herbert Viana, que o deixou paralítico e matou sua esposa, os voos de ultraleve saíram de moda. Quase não se fala mais neles. Talvez a modernidade aeronáutica tenha decretado sua falência, afinal, espera-se por voos individuais com um motor às costas e propulsor nos pés, não se sabe.

Vô Ventura(eu) sempre gostou de voar. Tem mais horas de voo que urubu de meia idade e pensa em abrir uma escola de pilotagem para pássaros jovens. Se será um sucesso nunca se sabe. Os empreendedores de carteirinha sempre dizem que um bom começo é a ideia original. Mais original que isso?

O fato é que os voos foram diminuindo e hoje, para visitar a filha custa uns dois mil reais, ida e volta, mais deslocamentos aos aeroportos, mais o lanche nas horrorosas horas de espera no aeroporto de conexão, esses e outros voos se tornaram impossíveis. Voar, só em sonhos.

Já que é assim, Vô Ventura sonha e voa. A ordem dessas ações não importa: sonha e voa tanto quanto voa e sonha. Acordado e dormindo. Voos imaginários, porque o que faz, de fato, é caminhar. Não pode ver uma montanha que sonha em voar sobre ela. O problema, um grande problema: as montanhas, hoje, têm donos. As mineradoras são donas de metade delas e fecham suas entradas; os condomínios são donos da outra metade e também fecham suas entradas. A última vez que passou por debaixo de uma cerca encontrou um cão bravo e um vigia atrás dele. Ainda bem que o vigia foi esperto e mandou o cão parar. Só pegou o bolso traseiro de sua bermuda.

O que sobrou, Vô Ventura? Apenas as caminhadas urbanas e algumas caminhadas em grupo pagando um tanto pelas pousadas e pela segurança. Pagar para caminhar, é o que resta aos caminhantes de hoje. Ou simplesmente seguir pelas estradas sob o risco de atropelamentos. Cadê São Cristóvão, o padroeiro dos caminhantes? Perdeu o emprego. E nossos sonhos diminuíram de tamanho! Mas ainda são sonhos e eu os coloco do tamanho que quero.

Abaixo todas as cercas e todas as fronteiras!

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O tamanho dos sonhos é uma história do livro “O encontros das improbabilidades”, do escritor Paulo Cezar S. Ventura. A obra, publicada pela Árvore das Letras, através do selo Alforria Literária e parceria da Editora Rolimã, é fruto da Vivência Novos Autores, uma imersão de sentimentos por meio da leitura e escrita que tem o objetivo de aprimorar a percepção literária e metafórica das histórias que lemos e ouvimos.

Para saber mais sobre a vivência, clique AQUI.

Para adquirir o livro “O encontro das improbabilidades”, entre em contato com a autor no perfil https://www.instagram.com/paulocezarsventura/

Forte abraço!

Até a próxima.

COM A PALAVRA *

* Título da publicação especial dos discursos acadêmicos Vol. 1 – 2006-2013, da Academia de Letras de Teófilo Otoni.

Por Leandro Bertoldo Silva

Dia 07 de outubro de 2023 estarei tomando posse como membro titular da Academia de Letras de Teófilo Otoni, onde irei ocupar a cadeira nº 27, cujo patrono é Luiz Gonzaga de Carvalho.

Essa honraria veio 11 anos após a minha nomeação, na mesma Academia, de onde jamais me afastei, como membro correspondente.

Quando olho o tempo pretérito da vida, de 2012 para cá, as pessoas conhecidas a tornarem-se amigas, outras a chegarem a assumirem o seu lugar em mim e tantas coisas a poetizar caminhos escritos e versejados, vejo que tudo tem seu momento. Foi preciso amadurecer letras e prosas para poder sentir a vida e fazer brotar um novo impulso para o futuro.

O nascer do sol…

Que dia será esse?

Apostas incertas…

Sim, este ainda virá, mas o que vivo hoje é fruto destas palavras compartilhadas no dia 15 de dezembro de 2012, na sessão solene de posse, como então membro correspondente, onde, na ocasião, disse assim:

Inicialmente, quero agradecer a Deus, razão maior de todas as conquistas. Quero saudar e agradecer aos acadêmicos e confrades da ALTO – Academia de Letras de Teófilo Otoni, na pessoa do acadêmico e professor Wilson Colares da Costa e professora Elisa Augusta de Andrade Farina, presidente desta tão importante instituição. Quero externar minha mais alta gratidão à escritora e também acadêmica e amiga, Marlene Campos Vieira, de onde partiu minha indicação para ser agraciado com este título que muito me responsabiliza, e também à acadêmica e amiga Neuza Ferreira Sena, que fortaleceu e consolidou esta indicação tornando-a realidade. […]

À minha querida esposa, Geane Matos, e minha filha Yasmin Bertoldo Silva Matos, pelo amor, pelo carinho, pela força, pelas renúncias e compreensão de meu trabalho e amor pelas letras.

Por fim, agradeço a todos os meus familiares, presentes e ausentes. Mas quero agradecer especialmente e dedicar esta conquista a duas pessoas de extrema importância em minha vida. Pessoas que foram responsáveis por eu estar aqui nesse lugar de honra tão abençoado. Pessoas que se doaram, literalmente, e não mediram esforços para que eu me tornasse um ser humano digno e um homem de bem; que me ensinaram o valor do estudo, do esforço, da fé em Deus e na vida. Pessoas que, por mais que eu agradecesse, ainda ficaria em débito e que por isso, e muito mais, os tenho como heróis: meus pais – Aniel Rocha da Silva e Maria Elena Bertoldo da Silva. Pai, mãe, muito obrigado do fundo da minha alma.

Estar aqui hoje é como um sonho acordado. Esses são os melhores, pois não acabam, permanecem. Ser um acadêmico é ter o seu nome registrado para a eternidade. Olavo Bilac, quando perguntado por que os acadêmicos são chamados de imortais, em resposta ele disse “porque eles não têm onde cair mortos”, mostrando a irreverência de um grande poeta. De qualquer forma, esta condição traz a responsabilidade perene desta honraria. Talvez eu devesse proferir belos poemas ou frases memoráveis, referindo-me a alguns gigantes da literatura que me encantam tanto. Mas creio ser mais sincero e autêntico comigo mesmo e com todos se em vez de belas citações, abrir meu coração e deixar transbordar meus mais sublimes sentimentos de emoção. […]

Neste momento em que passo a integrar esta instituição como um de seus membros correspondentes, explode em mim a vontade de transformar meus escritos, artigos, contos e publicações em algo mais substancial, pois, afinal, encontro-me na presença de ilustres acadêmicos e personalidades, em sua grande maioria com obras já consolidadas e devidamente reconhecidas como parte da história literária e cultural de Teófilo Otoni. De tudo uma certeza: venho para somar. Mas certamente ganho o presente da aprendizagem e bênção de fazer parte deste seleto mundo dos escritores que tem, nesta casa, grandes representantes. Este é o sonho realizado e a oportunidade que me é dada, a qual devo honrar como um de seus filhos. É bem verdade que as oportunidades não acontecem por acaso ou de uma hora para outra. Tenho consciência que elas foram sendo construídas ao longo de muitos anos à base de muito esforço e trabalho. Essa condição, inclusive, nunca acaba; continua sendo necessário o empenho diário. E é bom que seja assim. É o lado positivo da insatisfação, do querer ir além, do não acomodar, do querer aprender por saber que, assim, podemos nos doar mais, com mais qualidade.

Muitas coisas eu ainda poderia dizer, muitas pessoas eu poderia citar, mas como se trata de um espaço predominantemente literário, deixarei que as palavras falem por mim de agora em diante.

Escrever… Dizer o que está por dentro, juntando sentimentos em palavras alucinadas, loucas, desvairadas que, quando encontradas, se acalmam. Será? Não sei… O que sei é que assim, minha vida, como a de um livro, vai se escrevendo – páginas ao vento, palavras ao ar.

Obrigados a todos de coração e está dito o necessário.

Muito obrigado.

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Bem, aí está. Agora, 11 anos depois, deixo aqui o convite para a solenidade de posse para membro titular, a acontecer no dia 07 de outubro, às 19 horas, na Câmara Municipal, em Teófilo Otoni. Viva as letras! Viva a literatura! Viva a ALTO!

Saudações acadêmicas.

Forte abraço!

Até a próxima.

É COMO SE

Por Patrícia Vaucher

Há momentos em que somos provocados a escrever um novo capítulo de nossas vidas. Isso surge quando o que estamos vivendo não faz mais sentido para uma alma que cresceu além dos limites impostos. Com o passar dos anos as coisas que foram vividas vão repousando suavemente no passado, encontrando seu assento. Mas vivemos montados em dias que correm, deslizam na rapidez das horas deixando escapar no movimento a paisagem que muda incessantemente cumprindo seu papel impermanente, e quando nos olhamos no espelho vemos alguém que já não é mais quem era. Esse é o ponto, essa é a hora. Hora de confrontar quem realmente está ali a nos mirar, quem é ela/ele?

Foi assim que aconteceu naquele final de inverno. Chovia muito naquela noite. Ela dormia profundamente. De repente parecia que tinha saltado da cama com uma carga extra de energia, coisa rara. Estranhou, mas não questionou, queria mesmo era aproveitar as horas para colocar em ordem os amontoados de estudos, leituras e demais afazeres do dia a dia. Correu até o banheiro jogou um pouco de água gelada nas faces. Secou o rosto e ao olhar-se viu refletida no espelho a imagem de uma mulher. Quem era ela? Parecia indagar-lhe algo. Olhou detidamente aqueles olhos misteriosos que brilhavam num tom azulado como o oceano. Não hesitou nem por um instante, mergulhou em águas profundas.

A partir dali assistiu várias cenas de sua vida como num filme. Algumas eram fiéis aos fatos, outras pareciam um pouco distorcidas, as melhores eram aquelas que contavam sua história como ela desejaria que tivesse sido. Riu, chorou, desesperou, esperançou. A cada imagem que assistia seu corpo ia se transformando e junto a ele, algo do lado de dentro também precisava se encaixar à nova forma do corpo. O processo era bastante dolorido.

Então sonhou… No sonho ela era aquela mulher do espelho. Entendia a vida de outra forma. Parecia que tudo tinha se invertido, sentia as coisas com o coração. Enxergava o mundo através das essências e não mais a partir dos olhos do ego. Entendeu que todas as coisas eram exatamente como tinham que ser e foi aí que tudo começou a fazer sentido para ela. Entendeu finalmente o verdadeiro motivo de estar viva.

Acordou sabendo que tinha sonhado com algo muito especial apesar de não lembrar muita coisa. Inconscientemente inspirada, viveu a partir daquele dia com uma enorme sensação de pertencimento, apesar da pacata vida social que levava. Nunca tinha vivido algo assim. Nada mais lhe faltava. Tampouco tinha necessidades. Sonhava em compartilhar com as pessoas sua descoberta. E deve ter sonhado muito desde então, inspirou milhares a seguirem seus corações, enfrentando seus medos, superando desafios, entusiasmados pelo simples ato de viver sonhando acordado.

Acredite! É muito mais simples do que parece, dizia ela.

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Nascituro é um livro de Patrícia Vaucher, fruto da Vivência Novos Autores, uma imersão de sentimentos por meio da leitura e escrita que tem o objetivo de aprimorar a percepção literária e metafórica das histórias que lemos e ouvimos. Patrícia traz em sua obre uma interatividade inovadora: cada história é acompanhada por uma consigna, que é uma forma de promover o aprendizado e a reflexão a partir de um caminho sugerido. A consigna dessa história é a que vem a seguir:

Sonhar! Quando somos provocados a sonhar geralmente imaginamos coisas mirabolantes que gostaríamos de fazer ou possuir. Porém a vida exige mais de nós. Qual seria o verdadeiro sonho a ser sonhado?

Você pode escrever, caso queira, aqui nos comentários, ou enviar também para a autora.

Para saber mais sobre a vivência, clique AQUI.

Para adquirir o livro “Nascituro”, entre em contato com a autora no perfil https://www.instagram.com/patricia_vaucher/

Forte abraço!

Até a próxima.