TEATRO, MEMÓRIAS, ENCONTROS E REENCONTROS

Por Leandro Bertoldo Silva

O teatro foi a primeira grande mudança nos rumos da minha vida. Foi ele o responsável por apresentar pessoas até hoje presentes ao fazer de mim quem eu sou. Sou filho do antes e do depois dessa existência. Nele soube até mesmo o significado do amor mais verdadeiro. Foi em uma sala de ensaio que adentrou quem hoje é minha esposa – Geane Matos – e com ela e nossa filha formamos, junto aos amigos e amigas, uma imensa família.

Mas o tempo passou, outras mudanças ocorreram até mesmo de cidade, outras artes vieram e o teatro, tão amado, ficou apenas na lembrança.

Doce engano!

Quando menos se espera, aquilo já considerado passado mostra que nunca deixou de estar ali, só ganhou alguns ajustes.

Antes eu representava personagens. Vivia os acontecimentos pelo lado do ator, mergulhava na consciência das nuances mais profundas por quem os escrevia; hoje passei eu a escrever historias, me sentir criador de existências, relações, conexões e magias. Transformei-me em escritor.

E não é que a vida ainda tinha mais um capítulo a apresentar?

— Leandro, quero que vocês dirijam o nosso próximo espetáculo.

— O quê?

— O que você ouviu. Precisamos de um novo espetáculo infantil e quero que você e Geane dirijam.

Foi o que me disse André Luiz, o diretor do Grupo In-Cena de Teatro, de Teófilo Otoni.

Assim, em 5 meses, O menino que aprendeu a imaginar – a minha escrita de estreia literária – ganhou os palcos levando-me de volta a eles, agora como dramaturgo e diretor, tendo junto de mim a mesma menina da salinha de ensaio…

Ver ganhar vida o que há muito tempo existiu apenas na minha imaginação é algo difícil de ser explicado. O menino que havia virado livro agora virou cena, ganhou cores, figurinos, iluminação, músicas e até uma carroça de histórias.

A magia do teatro acordou fortalecida pela literatura.

Trabalhamos muito para chegarmos até aqui. Ver essa arte pulsando, transbordando de dentro de nós a ganhar o coração das pessoas é maravilhoso demais! Estou muito feliz por cada um dos atores: Saulo, Lívia, Júnior e Keven, Marcela – diretora musical – o pessoal da produção e da técnica, cenografia, Alisson – nosso figurinista – e todos que ajudaram a construir esse espetáculo, como Gildásio Jardim, com sua arte linda do Vale do Jequitinhonha formando os painéis do cenário. Tenho em mim um sentimento enorme de amor e gratidão.

Quero agradecer ao amigo e irmão Pierre André, pela construção da nossa carroça, que é de onde o espetáculo acontece, e também por estar comigo no lançamento do livro “O menino que aprendeu a imaginar”, encerrando o “Sábados Literários” de 2023. Estendo a minha gratidão à amiga Luzia, que trouxe o maravilhoso coral Ase de BH para deixar ainda mais lindo esse momento. E, claro, um agradecimento muito, muito especial às amigas Rosi e Maria de Almeida, nossa Mariquinha, e Regina pela presença nas ações que dedicamos tanto para fazer acontecer. Obrigado pelo dia incrível que passamos juntos. Incluo no agradecimento todos os amigos e amigas que há tempos não encontrava e que a arte teve a generosidade de reunir no local mágico do teatro.

E há uma pessoa que quero deixar também o meu agradecimento e um carinho muito especial: André Luiz! André, muito obrigado pela confiança, pelo acolhimento pela paciência e por essa amizade imensa. Obrigado por enxergar em nós, eu e Geane, aquela história de que por mais que andamos nunca saímos das palmas das mãos de Deus…

________________________

Pois é, sempre que criamos um trabalho vem logo à cabeça um monte de questionamentos: “será que está bom? Será que vai chegar nas pessoas? Aquela cena irá funcionar? E aquela outra?”

E aí aparece como vindo de Dioniso o comentário de uma professora de que foi o espetáculo mais lindo que ela viu em toda sua vida… Bem, é a resposta que precisávamos. Concordo: agora é ganhar estrada e cada vez com mais magia. Nasceu!!

Forte abraço!

Até a próxima.

DOS VALES DO JEQUITINHONHA E MUCURI PARA BELO HORIZONTE E ALÉM FRONTEIRAS

Por Leandro Bertoldo Silva

O menino que aprendeu a imaginar nascido nas páginas das revistas em Belo Horizonte, em 2009, foi para o Vale, virou livro, foi transformado em peça de teatro pelo Grupo In-Cena, de Teófilo Otoni, agora ganha sua segunda edição com nova história, mantendo as lindas ilustrações conceituais de Adilson Amaral e retorna a BH para o lançamento que acontecerá no dia 25 de novembro/2023, às 18 horas, no Teatro Raul Belém Machado, um dia após a pré-estreia do espetáculo no mesmo teatro.

É muito bacana ver a trajetória de um livro e de como as artes vão se agregando e transformando tudo em um lindo sonho acordado.

Todo esse trabalho legitima não só a força da literatura independente, a qual chamamos de literatura de identidade própria, mas a realidade da produção sustentável no mercado editorial, a utilizar papel ecológico e reciclado em prensa de madeira e costura à mão a base de linha e cera de abelha.

Sim, deu certo! Toda essa técnica é uma nova forma de fazer literatura criada pela Árvore das Letras, através do selo Alforria Literária, a tornar claro que caminhos existem para serem construídos. Este é o papel da arte: mostrar as possibilidades de criar e recriar maneiras de existir. Tudo é possível quando se tem forte comprometimento e propósito de acreditar.

Venham conhecer o menino que aprendeu a imaginar, os cadernos artesanais, a “Paula Brito”, nossa prensa de madeira, e todo esse trabalho nascido nos Vales do Jequitinhonha e Mucuri para todos o Brasil.

Então anote aí! Dia 24 de novembro, às 14h, será a pré-estreia do espetáculo O menino que aprendeu a imaginar, e dia 25 de novembro, às 18h, o lançamento da segunda edição do livro, onde teremos uma roda de conversa comigo, Geane Matos e a apresentação do Coral Ase MG.

Acontecerá no Teatro Raul Belém Machado, R. Jauá, 80 – Alípio de Melo, Belo Horizonte – MG.

Será lindo! Esperamos vocês.

________________________

Cada história que eu trago,

em páginas viradas, reluz

aos olhos da imaginação.

São viagens de sabores,

todas as cores,

arco-íris no ar…

Veja, menino, o mundo que se abre!

Ei, está vendo lá? É só querer viver.

Você vai ver!

Você pode, vai conseguir!

Eu vou ajudar você…

É só abrir esse livro e ler…

Forte abraço!

Até a próxima.

CAIXA DE BRINQUEDOS

Por Elisa Augusta de Andrade Farina

A menina que fui, onde está? Mora dentro de mim, ou se foi?

Procuro a sineta que soava meus sonhos… Está perdida no âmago do meu ser, ou ainda soa vibrando minhas quimeras?

Será que reaparece quando inspirada, deixo-me levar pelo ritmo de um poema que exorciza meus medos, minhas frustrações, meus (des)encantos! Ou (re)surge nos sorrisos dos meus netos chamando-me para brincar, fazendo-me mais próxima da criança que fui um dia?

Quero me envolver de corpo e alma com a seriedade de criança ao brincar. Numa atitude brincante, repleta de encantamento, de espanto diante da possibilidade de magia, viver um mundo de encantamento.

Preciso recuperar o estágio brincante de ser. Recuperar a minha capacidade de rir, gargalhar, de maravilhar-me com as coisas simples e nem por isso, menos importante.

Deixar-me levar pela magia…. Concordar com o poeta Manoel de Barros de que:” as coisas que não existem são mais bonitas”. São elas que nos fazem viver, imaginar, sonhar, criar e mergulhar no mundo das histórias e brincadeiras infantis que celebram a nossa pureza. A gente ri, sofre, se encanta, vive tudo que está ali na imaginação através dos livros, das brincadeiras, da empolgação de uma história bem elaborada.

Preciso buscar a “caixa de brinquedos” da minha memória infantil e soltar todas as brincadeiras que ficaram presas num tempo que eu achava perdido. Nessa caixa, estão todas as coisas inúteis, que não serve para nada no mundo adulto: pular amarelinha, empinar pipas, jogar bola, brincar de roda, pique esconde, um poema, uma música, uma foto de um país distante…

Reaprender a usar a “caixa de brinquedos” para ter prazer, alegria e reviver o tempo pretérito.

Apesar do peso da idade e dos cabelos brancos, posso gritar ao vento: ” mais respeito, eu sou criança”.

UMA FLOR NASCEU

Por Leandro Bertoldo Silva

A história de hoje me foi inspirada em um acontecimento real. Há um tempo, em uma cidade do sul de Minas Gerais, eu estava a ministrar uma oficina de transposição poética, cujo tema era “as rosas”. Ao final dela, percebo uma pessoa em choro convulsivo. O que ela relatou, não só a mim, mas a todos, me fez ter a certeza do imenso poder da poesia…

________________________

Seu coração estava dilacerado e queria pôr fim à sua vida, acabar com aquele sofrimento, pois imaginava ser isso possível por esse caminho, já que era o único que conhecia. Preparou todas as coisas que julgou serem necessárias para a aguardada despedida; e já era próximo de meio dia…

Na sexta hora, quando nada mais restava a fazer a não ser saltar para o destino imaginado, uma rosa, até então despercebida, chamou-lhe a atenção no momento exato que se desfolhou à sua frente.

Ao ver as pétalas espalhadas daquela rosa, não duvidou de que, um dia, não importa se há muito tempo ou segundos antes, aquela bela flor teve forma, perfume e função de ser bela, doando, assim, o seu amor.

Olhou para as pétalas que um dia formaram uma flor e que, mesmo naquele estado, continuavam sendo uma flor, porque ainda tinham a capacidade de oferecer a beleza e o prazer do seu perfume…

Foi quando compreendeu que o amor, antes de ser sentido, deve ser manifestado, mesmo que dilacerado, pois está aí a natureza de transformar-se.

Como orvalhos naquelas mesmas pétalas, lágrimas sublinharam seus olhos, mas já eram de agradecimento, não apenas por ter sido salvo por uma flor, mas por ter se convertido em uma; e já era um minuto depois do meio dia…

________________________

Bem, deixo para você supor o que, de fato, aconteceu àquela tarde…

Forte abraço!

Até a próxima.

UM RECADO PARA VOCÊ! O MUNDO NÃO SE FEZ PARA ESTARMOS LONGE UNS DOS OUTROS.

Por Leandro Bertoldo Silva

Desde 2020, os trabalhos da Árvore das Letras, antes presenciais, passaram a acontecer essencialmente de forma on-line. Nesse período, fortaleci minha presença digital com destaque especial ao blog, o qual passou a ter uma frequência de leitura e adesão de pessoas a contar hoje com 4.669 seguidores, a incluir leitores e colaboradores de Angola e Moçambique. O curso Vivenciando a Linguagem, Leitura e Escrita, origem de todo esse trabalho, transformou-se também em uma Vivência on-line, onde conheci muitas pessoas e estreitei laços profissionais e afetivos com elas.

Uma das ações realizadas na Vivência é o Clube de Leitura. A proposta diferenciada a partir de uma Transposição Literária, que nos permite ir além do livro, é um dos pontos mágicos dos nossos encontros.

Aqui quero compartilhar uma experiência.

Ao longo desse período, mesmo ao estar conectado, eu não perdi a condição totalmente humana de ser, muito em decorrência dos meus livros e do meu trabalho como artesão da arte da encadernação. Tanto os livros como os cadernos são feitos, produzidos e publicados através do meu ofício do fazer à mão e, levá-los para as feiras e mostras ou enviá-los fisicamente para os leitores, me manteve dentro da minha natureza primordial e do lugar de antes, ou seja, o mundo real.

Quero deixar claro que o trabalho on-line irá continuar. A Vivência on-line permanecerá ativa, afinal é um formato no qual fronteiras são desfeitas e muros passaram a ser inexistentes e a nos permitir estar, ao mesmo tempo, com pessoas em diversas localidades diferentes, do sul ao norte, do leste ao oeste e até de outros países, e isso é maravilhoso.

Porém, aquele lugar do real já me puxava e começava a gritar dentro de mim. Assim, foi estender o Clube de Leitura para a volta ao presencial que algo incrível aconteceu: uma profunda sensação de “estar de volta ao mundo”.

Por mais que eu seja e sempre serei grato à tecnologia, pois permitiu a continuidade do meu trabalho em um dos momentos mais difíceis da humanidade e achar que ela ainda vai nos levar a muitos outros lugares fantásticos, proporcionar experiências ainda inimagináveis e, claro, eu estarei presente como estou aqui agora, mas o contato com o outro de maneira presencial, o olhar nos olhos, o tocar, o abraçar, o experimentar ao vivo e a cores momentos com outras pessoas, não há inteligência artificial no mundo que supere.

Por isso, em 2024, exatos 4 anos depois, a Árvore das Letras, manterá, sim, a conquista alcançada com toda a experiência adquirida com a tecnologia e suas redes, mas estará de volta em comunhão ao presencial, ao verdadeiramente humano, ao que nos faz sermos a razão de existir.

Aos amigos e amigas conhecidas virtualmente por ação das nossas vivências, leituras, trocas e descobertas ao longo desses anos, muito obrigado e vamos em frente, mas com aquela deliciosa certeza de, juntamente com tudo isso, ter chegado a hora igualmente edificante do abraço real. Que este aconteça continuamente, porque é um dos maiores acordos da humanidade.

Parafraseando Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, deixo um recado e uma reflexão: “o mundo não se fez para estarmos longe uns dos outros (estar longe é estar doente dos abraços), mas para olharmos para ele e estarmos irmanados”.

________________________

Bem, se você gostou desse recado, de saber que a Árvore das Letras estará de volta de forma também presencial a partir do Clube de Leitura, curta a publicação, deixe seu comentário. Isso é muito importante para nós. Se já teve alguma vivência conosco ou deseja ter, estaremos sempre de galhos abertos para você. Vamos em frente.

Forte abraço!

Até a próxima.

AMOR PROIBIDO

Por Antònio Alexandre
(Angola)

Vejo no seu andar uma alegria
Um amor que fala
Um andar que escreve
Um andar que parte pescoço.

.

Vejo em si um repasto
E de tanta ansiedade de a comer
O arroto em atrapalha
Ante as suas lindas pernas arqueadas.

.

De nada vale escapar de mim
O meu sofrimento está identificado
E o seu ágape por mim é infalível.

.

Ah!
Como sinto isso no seu olhar!
Sinto a tara do seu amor camuflado
Sinto a firmeza dos seus seios.

BIBLIOTECA, TABERNÁCULO DOS SABERES

Por Leandro Bertoldo Silva e Valéria Gurgel

Alguma vez você já parou para pensar no quanto um livro pode mudar uma vida? Não é por acaso que aqui mesmo na Árvore das Letras mantivemos ao longo desse ano de 2023 um Clube de Leitura bem diferente… Porque, para nós, não basta só ler e debater um livro, isso seria muito pouco. Nós sempre queremos mais.

Rubem Alves dizia que “ler com rapidez o que o autor levou anos para escrever é um desrespeito”. O mesmo vale para falar sobre os livros. E assim criamos a Transposição Literária, que nos permite “entrar nas histórias”. Bem, o ano vai se aproximando do final e já estamos nos organizando para o próximo, em que, além do Clube on-line, ele também será presencial.

Viva!! Já estava na hora!

Inclusive, você pode saber de tudo isso clicando AQUI.

E para celebrar esse acontecimento tão maravilhoso, no qual os livros nos conduzem a verdadeiros encontros de almas, ilustro com uma narrativa poética da Valéria Cristina Gurgel — uma das integrantes do Clube —na qual ela traz a presença da biblioteca, tabernáculo dos saberes.

Desejo a todos e todas uma ótima leitura…

________________________

Biblioteca, tabernáculo dos saberes

Sou Pronto Socorro das enfermidades desconhecidas.

Tesouro guardado dos remédios da alma, receptáculo de emoções sentidas.

Cartório de registros das inspirações dos mortais.

Sou hospedeira daquilo que o mundo viveu.

Olhos impressos do que a vida não viu, uma farmácia com bulas de indicação de cápsulas vocálicas e exclamações diluídas.

Biblioteca, um cenário de papel, ou simplesmente casa contada

para aqueles que almejam o conhecimento e desejam, entre vírgulas e interrogações, o aprendizado.

“Aspas” em negrito para a mestra sabedoria.

Sou “Biblion e Theca” vindas do grego e dos primórdios de uma era.

Dos primeiros registros impressos da Bíblia, por Gutemberg.

Guardo diversos contos bem contados, amores revelados no calor da poesia.

O mundo dentro de um livro, uma ilustração cravada na capa.

A história da vida enciclopedista.

Hospedo pessoas simples e célebres nesse paraíso de histórias que bailam no papel.

E autores diversos disputam um lugar nesse céu.

Sou aconchego bem alojado dos escritores, dos simplórios aos mais conceituados.

Ainda que não sejam observados, lidos, folheados, compreendidos,

identificados ou bem interpretados.

Títulos renomados buscam sobreviver em meio à ignorância pagã do conhecimento universal.

Dos destaques nas prateleiras da informatização, dos rebuscados aos anônimos ou independentes.

Vitrines terapêuticas nos convidam a saltar, abrir os olhos e admirar essa farmácia, emblemático cenário de papel.

Absorver a essência curativa das letras, sentar e se deliciar, não ver o tempo passar.

Curar almas doentias por desconhecimentos e, por tudo isso, seguirei sendo esse relicário de registros dos autores de hoje e do passado, como mostruário cognitivo de cada imaginação.

________________________

Maravilhoso, não é? Com esse lindo texto da Valéria te convido a vir ler conosco. Venha fazer parte do nosso Clube, seja presencial ou on-line, ou mesmo os dois, por que não? O mundo precisa de mais leitura, de mais poesia, de mais histórias edificantes. O mundo não é um lugar de guerras como estamos vendo, porque esse sim é um lugar de ilusões. O mundo é um lugar onde a literatura nos dá o caminho da paz, porque quem lê verdadeiramente entende a essência da alma humana e de todas as coisas da natureza. E se assim é, somos paz. Vamos lá? Te espero no Clube.

Forte abraço!

Até a próxima.

O CADERNO DE RECEITAS DA MINHA MÃE

Por Regina Lúcia Caminha Tôrres

Buscava um fio de meada para tecer uma história sobre delícias da minha infância.

Buscava algo novo no meu baú de memórias e, de repente, aflorou!  Quantos momentos deliciosos compartilhei com minha mãe Efigênia em volta do seu cadernão de receitas escritas a mão, recortes de jornais e revistas. O caderno está agora em minhas mãos,

É um caderno 23X32 cm, capa grossa, forrado de pano grosso, costurado com barbante e tem um selo “ Índice do Imposto Territorial Rural da Coletoria Estadual”. Suas páginas têm linhas para a escrita e linhas vermelhas separando para contabilidade e em cada pág. está escrito:           “nome do contribuinte, número do livro, folhas do livro, no. da inscrição”. Deve ter sobrado no almoxarifado da Coletoria Estadual, após a introdução do primeiro computador na Secretaria da Fazenda de MG que, tenho notícia, foi implantado por meu pai Afonso Soares Caminha na década de 50 ou 60. Disseram-me que era imenso e ocupava uma sala inteira!

Só agora percebi o invólucro ou capa que narrei para vocês. O caderno já está esbeiçado, o urdume está se desfazendo, as folhas estão amareladas e rasgadas em vários pontos pelo uso. A maior parte das receitas estão escritas a lápis, com a linda caligrafia de minha mãe, e tem muitos papéis de receitas agregados de forma desordenada.

As folhas têm manchas diversas de gordura, manteiga, farinhas… São lembranças de muitas comidas gostosas compartilhadas ao lado dela. Como não lembrar do pé de moleque e eu, ao lado, com uma xícara com água esperando para provar o ponto? E as balas delícias sendo puxadas para dar o ponto para serem enroladas no formato de cobra e cortadas? E as balas de cachaça e gelatina cortadas e passadas no açúcar depois de esperar um dia no tabuleiro? Era o céu na boca saborear suas balas de licor…  Se esmerava nas tantas tortas doces e salgadas, pães, biscoitos e bolos. Naquela época, não havia padarias como as de hoje.

Numa primeira página, tem um recorte do “Jornal de casa” sem data. Debaixo dele encontrei o que, talvez, tenha sido uma das muitas festas que preparou para nós. É de lamber os beiços… está escrito:

“ Encomendei: pastéis de nata, brigadeiros, bombons de uva, bombons de figo, bombons de mandita, bombom da fábrica, olho de sogra” Ao lado acho que são as coisas que ela deve ter feito “ empadinhas, enrolados de salame (também chamados de sacanagem), pãezinhos de batata, rocambole de queijo, barquetes, pastel português”. Com certeza, também deve ter encomendado bolinho de feijão de uma senhora lá do alto do bairro Santo Antônio, marca registrada de suas festas.

Adorava a gelatina rosa e a mosaico com várias cores. Os bolos decorados  com glacê de cores diferentes eram sempre gostosos e maravilhosos. Fez aulas com a doceira Dona Madalena, que morava defronte à nossa casa na rua Carangola. Tinha todos os bicos para fazer os “ Bolos Artísticos” do grosso livro da Dolores Botafogo. Fazia também glacês e flores com massa de araruta com fécula.

Tinha nove anos mas lembro-me do bolo de Bodas de Ouro dos meus avós Judith e Sô Dinho, feito no formato de um livro aberto com dizeres das datas. Foi uma linda festa com muita cantoria afinada de minha mãe e meus tios. Uma destas músicas habita meu coração até hoje. É “Bodas de Prata”, de Carlos Galhardo:

“Estavas vestida de noiva

Sorrindo e querendo chorar

Feliz, assim, olhando para mim

Que nunca deixei de te amar…”

Comemoramos muitos aniversários (éramos 4 filhos) e fez bolo com casebre da roça, gata borralheira, jogo de futebol para meus irmãos, corações unidos, leque e outros. Fez cestas de flores com sanduiches primorosamente recortados e multicores, com sabores diferentes feitos com produtos naturais como beterraba, cenoura e espinafre.

Fez também o bolo de casamento de meu padrinho tio Pedro e Tia Alzira. Tinha 8 anos mas lembro-me que alguns enfeites foram recortados em cartolina e revestidos de glacê e açúcar cristal. Consegui hoje com minha prima a foto do álbum. Nem sabia que tinha sido feito por minha mãe. Um espanto a delicadeza artística!

Tinha formas de bolo diferentes: sino, leque, coração, retangulares, redondos com furo no meio etc. Os biscoitos eram recortados com carinha de gato e estrela (tenho estas formas até hoje).  O mais fofo é lembrar que tinha forminhas bem pequenas de alumínio e juntava às fornadas estes pequenos bolos, com furo no meio, que formavam o banquete para os nossos batizados de bonecas para os quais ela costurava roupas novas, fazia Q-suco e nos permitia chamar as amigas para as festinhas, que também traziam suas bonecas.

Algumas receitas têm os nomes das donas das receitas originais: “ Pão de queijo da Rosa, Bolo da Tina, Bom Bocado Da. Judith, Mãe Benta da Dona Mariquinha, Amendoim do Francisco, Pão de Ló da Leonor, entre outros.

Explorar estas tantas receitas que marcaram minha infância e a convivência com minha Mãe Efigênia, pessoa que AMO profundamente e da qual tenho imensas saudades, vai se fazer necessário…

Tenho que terminar este texto incompleto, que abriu um grande portal em meus tesouros da memória. Vou fazê-lo citando um escrito com minha letra e colado na última contracapa do livro de receitas da minha Mãe.

Lá estão escritos os nomes das bonecas de minha madrinha e avó Judith, que se casou em 1910, aos 16 anos de idade.

¨Ambira- asiática

Dejanira- europeia

Paraguaçu –índia

Ambá- crioulinho¨. 

Tem também o que deve ser o que dizíamos quando batizávamos nossas bonecas: 

¨Eu te batizo pela tua formosura

Não te dou os santos óleos

Porque não és criatura”.

________________________

Texto elaborado na Oficina literária de Leandro Bertoldo “ Novos Autores”, em outubro de 2023.

UMA CERTA DONA NICINHA

Por Leandro Bertoldo Silva

Uma homenagem a todas as professoras e professores de verdade…

Dona Nicinha era uma professora diferente. Se estivesse na sala de aula, tratava logo de organizar as carteiras em círculo. Preferia mesmo que as salas tivessem almofadas no lugar de cadeiras duras e desconfortáveis. Mas, vá lá… Nada que não se pudesse improvisar. Por isso mesmo, Dona Nicinha gostava mesmo era de dar aulas na praça ao som dos passarinhos ou mesmo na quadra da escola, onde tudo era motivo de tornar as aulas mais interessantes, ou surpreendentes, já que era uma professora de Geografia e não de Educação Física.

Dona Nicinha tinha muitos alunos e gostava muito deles. A recíproca era verdadeira, pois os alunos adoravam a professora e seu jeito simples e diferente de os tratarem. Afinal, ela chegava perto deles e os ouvia com atenção…

Como dito, Dona Nicinha tinha muitos alunos, mas havia um em especial, um tal José de apelido “Desatento”. Acabou ficando conhecido como José Desatento. Ele não gostava muito de estudar. Até que Matemática ele gostava por ser uma matéria mais… Digamos… Absoluta, concreta mesmo. O negócio ficava complicado é quando ele tinha que imaginar… Não que ele não soubesse, pelo contrário, ele imaginava até demais. Aí sobrava exatamente para as aulas de Dona Nicinha. Como seria o tal fuso horário? Será que ele tinha ponteiros na ponta do nariz que indicavam as horas? E fuso horário tem nariz? Bem, deve ter. E ainda por cima deve combinar com os braços longitudinais e as pernas em latitudes de 15º, uma a leste e a outra a oeste…

— José, está prestando atenção?

— Estou fessora!

— O que eu disse, então?

— Que o fuso horário de tanto variar as horas e alternar o dia e a noite sem parar e a todo o momento, deve ter pegado um baita de um resfriado!

Pronto. Era gargalhada geral…

José Desatento não fazia por mal. Gostava de Dona Nicinha.

— Sabe o que é, fessora, eu não consigo entender esse negócio de geografia, sabe? Mapas, escalas… Daí eu começo a pensar e quando dou por mim já estou imaginando histórias…

Hummmm…. Já que José Desatento gostava de histórias, Dona Nicinha teve uma grande ideia! Propôs à turma uma aula na biblioteca da escola, em que deixou tudo muito bem preparado para levar a cabo seu intento. No dia seguinte, tudo combinado, os alunos dirigiram-se à biblioteca e estranharam, já que Dona Nicinha nunca havia se atrasado. Ao chegarem, viram que a biblioteca estava vazia. Entre os murmurinhos, risadas e brincadeiras que logo começaram a surgir, eis que uma voz exuberante, alta e vibrante se fez ouvir vinda de trás de um grande Atlas, cuidadosamente colocado em cima de uma das estantes bem ao alcance dos olhos das crianças. Os alunos logo perceberam que se tratava de mais uma invenção de Dona Nicinha, mas, seja como for, dessa vez estava muito real, pois a voz não parecia a dela e, ainda por cima, ela não estava atrás da estante. Dona Nicinha havia preparado tudo. Amarrara um microfone de tal maneira que não deixou à mostra nenhum fio que, passando pelos vários livros e estantes, permitia que ela falasse de outro lugar da biblioteca onde mantinha uma visão perfeita dos alunos sem que estes a vissem. Coisas de Dona Nicinha…

— Muito bem, crianças… Cheguem aqui perto de mim! Eu sou o Geógrafo e quero levá-los a uma viagem inesquecível! Mas… — começou a chorar. José Desatento achou aquilo fabuloso. Puxa! Um Atlas que fala! E ainda chora?! Como é que pode? Sua imaginação logo deu sinais de ação. Bingo! O plano estava dando certo… José colocou-se à frente do grupo e percebeu uma pocinha de água perto do Atlas (cuidadosamente colocada por Dona Nicinha).

— Ei, por que você está chorando? — perguntou José Desatento.

— Porque você não me usa! — disse o Atlas.

— Ah! Desde quando preciso te usar? Aliás, de onde está saindo essas lágrimas?

— Elas? São do oceano Atlântico! Tem também um pouco do Pacífico e um tantinho do Índico.

— Ai, ai! Você é maluco! Desde quando o oceano Atlântico, Índico ou Pacífico é feito de lágrimas?

— Desde quando você não percebeu que eu sou um Atlas!

E assim, Dona Nicinha, ou melhor, Geógrafo, foi dando toda a aula do dia, pedindo ora um, ora outro que folheasse uma parte do Atlas à medida que ela ia explicando e fazendo os alunos “viajarem” em suas páginas.

José Desatento estava agora mais atento do que nunca. A cada explicação do Geógrafo, ele se imaginava numa verdadeira aventura. Em seus pensamentos, à medida que Geógrafo ia articulando as palavras, ele ia ficando pequenininho e descobrindo várias coisas viajando de um lugar a outro na companhia do novo amigo. De repente, estava lá na Espanha descobrindo várias coisas, mais precisamente as touradas e, também, que lá tem um dos times de futebol mais ricos do mundo. Isso ele gostou à beça, pois adorava vários esportes, principalmente futebol. Depois ele voltou aqui mesmo para o Brasil e viu que no Nordeste tem duas danças chamadas frevo e axé e, no Rio de Janeiro, tem o samba. Em Minas Gerais tem uma comida típica que é o feijão tropeiro, que os turistas adoram, e também o pão de queijo. Na Argentina conheceu uma dança muito querida pelos hermanos, que é o tango. Ficou sabendo que na Itália inventaram duas comidas deliciosas que ele adora: a pizza e o macarrão. E assim, ele foi conhecendo o mundo pelas páginas do Geógrafo como nunca havia conhecido.

No fim da aula, Dona Nicinha deixou seu esconderijo e fingiu entrar na biblioteca se desculpando pelo atraso. Os alunos até sabiam que se tratava de uma grande brincadeira, mas tudo tinha sido tão bem articulado e conduzido pela professora, que eles não quebraram o encanto. Contaram a ela o que tinham aprendido e a respeito do Geógrafo de tal forma e com tanta verdade, que ela mesma quase acreditou na própria história. Quem mais falava era José Desatento, que mostrava a cada frase um grande aproveitamento. Dona Nicinha ouvia tudo com atenção. Sentia-se satisfeita, pois achava que tinha conseguido tocar o coração de seus alunos, principalmente de José, e fazer com que ele encarasse a Geografia com outros olhos. A confirmação disso se deu uma semana depois, quando José, ao apresentar um trabalho, falou tudo o que aprendeu nas páginas de seu “amigo” Geógrafo. Falou tão bem que foi aplaudido pelos colegas e pela professora Nicinha. Ao soar o sinal para ir embora, Dona Nicinha juntou suas coisas e saiu da sala satisfeita. Quando foi virar o corredor, ela ouviu José gritando para ela:

— Valeu, Geógrafo!

Dona Nicinha nada falou. Apenas sorriu e foi entrar em outra sala para mais uma de suas aulas inesquecíveis…

________________________

Pois é… Eu tive algumas Donas Nicinhas na minha vida, as quais tenho por elas uma imensa gratidão, pois pegaram na minha mão e me conduziram até aqui. E você? Qual a Dona Nicinha da sua lembrança? Comente, diz o nome dela, compartilhe essa história. Quem sabe não chegue até ela?

Forte abraço!

Até a próxima.

A DOR DE UMA CRIANÇA

Por Tomé Nasapulo
(Angola)

Sou uma criança

            Que almeja crescer e tornar-se grande

            Mas as vezes me pergunto:

.

            Com que nome?

            Com que história?

            Com que conto?

            Em que canto?

.

            Se fui abandonado ao nascer

            Negado ao registro

            Nem meus pais conheço.

.

            Com que nome?

            Com que história?

            Com que conto?

            Em que canto?

.

            Se estou sem lar

            Parido na rua

            A cuidado da rua

            Com inocência pura

            Acredito  no futuro

            Mesmo no mundo impuro.

.

            Com que nome?

            Com que história?

            Com que conto?

            Em que canto?

.

            Se me negam a educação

            E a única coisa que tenho são os sonhos

.

            Me a dote, por favor!

            Me dê um nome

            Me legue uma história

            Me conte um conto no canto

________________________

Em um mês que se comemora no Brasil o mês das crianças, em que presentes são ofertados, satisfação de tantas vontades, muitas de forma até excessiva, às vezes outros olhos precisam ser abertos. O poeta Tomé Nasapulo nos chama à reflexão.

Forte abraço!

Até a próxima.