“Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, como as outras, ridículas”.
Mas deixa claro…
“Só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas”.
Concordo tanto com Fernando Pessoa que já me dava por escrevedor de cartas de amor antes mesmo de conhecê-lo. Não porque elas eram direcionadas a alguém, pois as escrevia para que alguém tomasse posse delas e preenchesse o que faltava. Assim, andava a escrever aos ventos, às árvores, aos pássaros e algo curioso aconteceu: ninguém veio ocupar o seu lugar. Com isso, elas se perderam. Mas o tempo, seja lá o que ele for, é generoso, e no dia 18 de março do ano 2000, um mês após estar com quem estou há 23 anos, descobri que todas as cartas viraram poesia. A diferença é que elas, sim, tinham um destino: Geane Matos. Deixo aqui o que foi dito naquele dia, não sem antes uma advertência!
Poderia muito bem fazer várias emendas de linguagem e outras alterações para darem às palavras um estilo mais afeito ao que hoje se tornou a minha escrita. Mas iria junto a feição do sentimento o qual tive no momento em que as compus. Por isso, perdoem-me pelo que achardes ridículo, mas as manterei tal qual as fiz, pois, se assim não fosse, não seria uma carta de amor…
E assim escrevi:
Nem o sol, nem as flores ostentam maior beleza. Por mais que tentasse dissimular, já não mais conseguiria. Meus pensamentos me traem ao perceber que são os seus olhos e sorriso que os conduzem a um mundo de sonhos e cores, tal qual o sonho do artista que o induz à chama medrosa de encontros coloridos ao coração que aquece palavras graciosas.
O que dizem os sábios a respeito das paixões? O que dizem os cavalheiros e até mesmo os menestréis? Cantaram as rosas de todos os corações, viveram seus poemas de amor com doçura e imaginações, e escreveram metáforas, lindas e inesquecíveis metáforas.
Ah, o amor… Corda de mil nós, música de mil tons! Renasceste de entre as linhas, ressurgiste ébrio de encanto e brilhaste como um arsenal de fogos induzindo o céu a chorar, feliz, lágrimas de mil anos.
E eu, de baixo, olho, absorto em pensamentos, o céu afoguear. E sorrio como uma criança ao imaginar, inocente, um corpo de mulher, lívido de alvura e livre a voar… Até se encontrar com as águas, até se misturar com o mar.
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Essas palavras foram entregues em um cartão há 23 anos (o mesmo da foto), um mês após nosso encontro, o qual esperei por 10 anos que acontecesse… Hoje temos 21 anos de casados.
Palavras para mim são o poder criativo pelo qual me expresso.
Sou costureira das palavras…
Pego um papel em branco e vou medindo, alinhavando as frases, remendando afetos, bordando palavras…
Assim, vou costurando rimas nos versos que serão poemas.
Se as palavras que brotam em minha mente não manifestam o que sinto, corto-as imediatamente com a exatidão das minhas mãos, como tesouras afiadas.
Olho no entorno… Procuro uma fita métrica para medir meus pensamentos. Eles fluem pela força criadora de minha vontade.
Vejo o céu na sua imensidão…
O brilho que apreendi é como um tecido valioso que precisa de minha habilidade para moldar o modelo a ser confeccionado.
Corto as palavras que não condizem com o modelo desejado. Alinhavo, alfineto, meço de novo os pensamentos… Agora sim, o meu modelo ganha forma, força, emoção, que se traduzem pela vontade de fazer diferente com coesão, determinação e amor.
Vou costurando a peça almejada que vai se transformando na habilidade criativa da minha intenção poética.
Olho satisfeita para minha peça…
Está da maneira que sonhei… Impecável, bela, ressalta toda a força da magia poética que me impulsiona a tecer e costurar palavras… Missão inspiradora de uma alma livre e sonhadora…
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Elisa Augusta de Andrade Farina, professora, filósofa, escritora, contadora de histórias, cronista e poetisa teófilo-otonense é graduada em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais, com pós-graduação em Docência do Ensino Superior pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Sócia efetiva do Instituto Histórico e Geográfico do Mucuri e Membro fundadora da Academia de Letras de Teófilo Otoni, titular da cadeira 6 e atual presidente. Em 2018, recebeu do Governo de Minas Gerais a Comenda Teófilo Otoni, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados na área da Educação e Cultura no Vale do Mucuri.
“Minhas costuras de palavras” é um dos textos que dá título ao seu mais recente livro publicado pela Árvore das Letras, através do selo Alforria Literária. O livro é mais um fruto da Vivência Novos Autores, uma imersão de sentimentos por meio da leitura e escrita que tem o objetivo de aprimorar a percepção literária e metafórica das histórias que lemos e ouvimos.
Será possível a um personagem sair do livro e manter com o seu autor momentos de conversa acerca da vida, da morte, de questões existenciais? Calma! Não se trata de paranormalidade, muito menos de psicografia. Ora, Xavier, você é um personagem, não uma entidade. Não se pode confundir o fato de ter tido longos colóquios com o fantasma de Aarão Reis – o livro em questão – com fenômenos do espírito aqui onde você é um interlocutor por meio de cartas em diário. Ou de um diário em cartas? Isso ainda veremos. Seja como for, sim, é possível, e trata-se de uma fusão interessante a fazer de nossas conversas momentos de mais puro esquecimento, esses momentos da liberdade da alma em princípio de estado.
Como é doce o não ter que ser. Pensávamos assim, Xavier. Queríamos não ter que ser sempre, entregar-nos a nós mesmos como as flores se entregam ao orvalho sem trocas e sem medos. Sempre tivemos a visão desse encontro, lembra? Ora éramos a flor, ora o orvalho, como ora éramos o escritor, ora o personagem, sem preferências ou escolhas a destruírem os versos existentes “entre o anelo e o suspiro”, como dizia aquela poesia guardada em um naco de memória. Já era noite e toda noite era assim: preparávamos-nos, eu e você, para esquecer, nunca dormir. No esquecimento não há sonhos – essa arrogância do pensamento. Isso já era eu a achar ou você? A essa altura já não sabíamos. Não importa. Calávamos um para o outro no momento exato do esquecimento, fragrância milimétrica de tempo entre o estar acordado e o começar a dormir. Pronto, já foi. O barulho recomeça e o sonho invade os nossos pensamentos.
Boa noite, Xavier. Amanhã voltamos a nos escrever. A partir de agora teremos uma longa conversa.
Xavier de Novais aos 22 anos, época em que mantinha longas conversas com o fantasma de Aarão Reis.
Xavier de Novais nasceu em Belo Horizonte no dia 13 de abril de 1952. Teve uma infância generosa, alternando entre estudar na cidade e passar férias na roça. Brincou na rua, colheu café, andou a cavalo e pegou bicho-de-pé. Seu primeiro trabalho, logo após os primeiros anos da adolescência, foi como segurança de uma livraria, lugar onde o seu gosto pelos livros ganhou contornos expressivos. Lia de tudo, do clássico ao contemporâneo. Sempre teve uma predileção por duas obras: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, e “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes. O momento em que conviveu com o fantasma de Aarão Reis nos encontros na livraria narrados no livro “Histórias de um certo Aarão e outros casos contados – das histórias e lendas de Belo Horizonte recontadas por um segurança que recebia, em seu serviço, a visita ilustre do fantasma de Aarão Reis” o fez se apaixonar pelas narrativas e acontecimentos, vindo a ingressar, em 1975, no curso de História na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Em 1979, já formado, conseguiu um cargo de professor substituto em uma conceituada escola da capital mineira. Seu sucesso com os alunos foi imediato. Porém, ao receber o convite da direção da escola para se tornar professor titular, Xavier se casa e resolve se mudar com a esposa, com quem vem a ter uma filha, para o Vale do Jequitinhonha em busca de qualidade de vida, deixando para trás as loucuras da cidade grande sem, no entanto, deixar de amá-la. Apenas sente que sua vida pede outras estradas. Na nova cidade de Águas Vermelhas, atua como professor de História em uma escola na qual foi uma das lideranças na sua construção, onde veio a se aposentar. Hoje, aos 71 anos, vive em um sitio na mesma região do Vale. Não colhe mais café. Ao invés disso, navega em um barco a remo em um lago próximo. Continua andar a cavalo, mas sem pegar bicho-de-pé.
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Bem, aqui está o embrião do que pode vir a ser uma história ou até mesmo se tornar um livro. Mas não decidirei isso sozinho, é preciso ter o consentimento de Xavier. Andamos a conversar por meio de cartas que vez ou outra, caso ele autorize, publicarei aqui neste blog. Mas quero pedir a você um grande favor! Suponhamos que ele consinta e que eu resolva deixar público essas conversas em uma obra, qual título você sugeriria?
No mais, obrigado por sua leitura e atenção. Aguardo sua sugestão.
Quem cochicha, o rabo espicha! Quem não conta, ele estoura! Psiu! Cuidado com ela! Quem? A vaca amarela! Quem falar primeiro come… Sabem o que né? E alguém gritava: chega! Não aguento mais ficar calado! Como tudo sozinho! É hora da gargalhada! Vamos brincar de telefone sem fio. Eu falo no seu ouvido e você conta baixinho a fofoca para o outro espalhar até cansar! Mas diz que é segredo tá? A gente cresceu e sabe onde fomos parar? Eu conto, você conta? Nós podemos contar? Sim. Então 1 ,2 ,3 e já!
Numa cidade onde quase tudo é segredo, inclusive o nome do lugar que nem hotel tem para ninguém descobrir o maior segredo de lá! Quando eu e Patrícia fomos num casório na roça do Senhor Pedro Calado tivemos que ficar hospedados na cidade vizinha, curiosamente chamada de Boca Fechada, lembra? O evento do momento era a união do galo Segredo com a galinha Fofoca. Estranho, né? Nunca imaginei que Segredo e Fofoca fossem se bicar um dia. E você ainda percebeu nos bastidores da festança segredos dos noivos que viraram história na tv e agitaram a vizinhança, né?
Sim, lembro-me como se fosse ontem! A Fofoca toda emplumadinha colocando seu vestido de noiva e as damas de honra auxiliando. Nem nessa hora a Fofoca parava de fofocar. Contava pra todos que tinha visto o marido da vizinha com uma franguinha no cinema, falava mal da cor nova da pena da tia Cocotinha que tinha usado um tonalizante caju radiante que ficou horroroso. Não concordo, achei até bonitinho! E assim, foi falando mal da cidade inteira até ficar pronta! E olha, nunca tinha visto uma noiva tão linda!!! Estava encantadora!!!
Pois é! Eu tenho outro segredo sobre o Segredo. Na verdade, dois. O primeiro é que a verdadeira identidade dele é Chico, o Cocoricovo. Chico é galo hermafrodita. Quando as galinhas fazem greve, o bicho vira a chavinha e é obrigado a botar os ovos sem reclamar. Como prêmio, além de não virar galinhada ou molho pardo no panelão vermelhão, desfila e ganha cachê de milhão. Com o dinheiro pediu para o patrão construir um galinheiro de dois andares para o momento de relaxar. Para completar, corre em segredo de justiça um processo movido por fofoca, por calúnia e difamação. Segundo uma fonte, que pediu para ser mantida em segredo, a atual primeira dama do Galináceos Mol, conhecida como Fofoca só canta, não cacareja porque senão gagueja. Não sabemos se é fato ou fake. O casório dos segredos deu até conto e quem quiser que aumente um ponto.
Pior de tudo é que ouvi por aí que o tal galo gostosão já é casado com duas galinhas. Uma mora em Boca Fechada e a outra no município de Calados. Como ninguém pode falar nada, a coisa vai ficando por isso mesmo. E o galo só se dando bem!!!
Sabe o aconteceu quase na hora do nosso último ponto final? Quem pagou o pato na cozinha foi o porquinho que virou lombinho assado. Sem nem desconfiar daquele trem, o pai comeu seu animal de estimação, encheu o barrigão e nos contou histórias de montão!
Você sabia que…
* Texto escrito a quatro mãos entre Ricardo Albino e Patrícia Vaucher.
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Ricardo Albino é jornalista, escritor e contador de histórias. Além disso, é um grande amigo que se fez irmão. Eu tive com ele uma conversa pra lá de agradável e publico aqui em forma de entrevista para que você também possa conhecer um pouquinho do nosso querido Ric.
Árvore das Letras: Oi, Ric, que prazer poder falar com você! Conte um pouquinho da sua história, da sua infância?
Ricardo Albino: Sou natural de Belo Horizonte, tenho 45, quase 46 anos e nasci prematuro de 6 meses. Tive parada cardiorrespiratória que afetou a parte motora e a visão. Enxergo metade da vista esquerda, nada da direita, mas aprendi a ver a vida pelo lado bom e as pessoas pelo coração. Já usei aparelho nas pernas ,andador ,bengala canadense e em 1997 fui pra cadeira de rodas. Com minhas possantes, pois tive algumas até hoje, ganhei asas e voei rumo aos sonhos.
AL: De onde veio a sua escolha pelo jornalismo?
Ricardo Albino: Ser jornalista era um grande sonho e nasceu aos 6 anos de idade por amar os esportes, a música, o rádio e a escrita. Na infância até a adolescência era narrador de jogo de botão e corridas de autorama, jogos de vôlei e queimada com os vizinhos. Cheguei a jogar também como goleiro ajoelhado. Participei de shows de calouros e peças de teatro na escola. Em festa junina fui até um balão. Sempre amei cantar e decorar escalação de times e seleções. Ainda na época escolar, fiz uma montagem da Escolinha do professor Raimundo na qual fiz papel do próprio e ganhei o prêmio de melhor redação da turma com o livro “Vida de um repórter” . Estudei em escolas com menos alunos em sala, o chamado ensino especial até o segundo ano do ensino médio e no terceiro ano fui pra escola regular integrada. Estudei em casa sozinho para o vestibular, passei em 2002 e durante 4 anos gravei as aulas para escutar e passar o conteúdo pra o caderno depois. Em 2006 formei e criei um blog. Em 2010, no hospital Sarah em BH ,na educação física e aula de artes, além de fazer alguns esportes paraolímpicos , escrevi programa de rádio e duas peças de teatro.
AL: Quando você percebeu que era um contador de histórias e quis se profissionalizar nessa arte?
Ricardo Albino: Foi na roça, em 2009, quando criei a primeira história para minha sobrinha que pediu uma história pra dormir, em que nós, eu e ela fossemos personagens. Cada noite, inventava novos personagens e aventuras da Bia e do tio Ric. Em 2015 fiz o curso de contadores de histórias do Instituto Cultural Aletria e dois anos depois criei a página “Ricontar Histórias” no Facebook. Em 2021 veio o canal no YouTube. Brinco que a contação de histórias é minha pós de jornalismo.
AL: Você tem um estilo muito peculiar de escrita. Você escreve como quem conta de fato uma história. Como é isso?
Ricardo Albino: Meu jeito de escrever eu encontrei nas crônicas. Texto mais curto, de linguagem leve, bem humorada e que se encaixa bem na contação de histórias. Eu digo atualmente que não me sinto mais jornalista e nem um escritor, mas sempre um ouvinte e criador de histórias que me ensinam que a verdadeira acessibilidade e inclusão nascem dos bons sentimentos.
AL: Você tem dois livros publicados que nós brincamos ao falar que são os dois irmãos: “Histórias de um rapidinho em quarentena” e “Antologia da psicaneta – calmaria sem ponto final”. Apresente cada um deles pra gente.
Ricardo Albino: Meu primeiro livro foi escrito entre 2019 e 2021 no período da pandemia de COVID que passei Com meus pais em isolamento na roça. Quando voltamos para BH, após um ano e meio, conheci o seu trabalho e publicamos pela árvore das Letras o “Histórias de um Rapidinho em Quarentena”. Depois participei do curso de Linguagem, Leitura e Escrita, que hoje é o Novos Autores, onde convivi com os amigos da minha família calmaria. Toda segunda feira a noite havia um encontro e novas vivências e descobertas da arte do viver e conviver comigo e com o outro através da escrita e da liberdade de emoções. Assim nasceu a “Antologia da psicaneta – calmaria sem ponto final”.
AL: Conte um pouquinho sobre o seu processo criativo.
Ricardo Albino: Sobre o meu processo criativo eu tento escrever de uma maneira simples, leve e que leitor, em cada história lida, sinta como se eu estivesse ao lado dele contando aquela história ou buscando nele, sendo eu um ouvinte, motivação, inspiração, alegria e calmaria para o coração. Gosto muito de criar a noite e pela manhã e busco inspiração na simplicidade do amor pela vida.
AL: Que recado você deixa para quem tem o sonho de escrever?
Ricardo Albino: Para você que tem o sonho de escrever e ainda não sabe como começar pense que a arte da vida é fazer da vida uma arte e a arte da escrita é uma constante declaração de amor do pensamento para o coração.
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“Título tem, mas é segredo” é uma das histórias do livro “Antologia da psicaneta – calmaria sem ponto final”, do escritor, jornalista e contados de histórias Ricardo Albino. A obra, publicada pela Árvore das Letras, através do selo Alforria Literária, é fruto da Vivência Novos Autores, uma imersão de sentimentos por meio da leitura e escrita que tem o objetivo de aprimorar a percepção literária e metafórica das histórias que lemos e ouvimos, e ainda aplicar técnicas criativas e afetivas na produção de narrativas e poesias.
Gabi guardava um segredo. Bem, segredo é uma maneira de dizer, porque ela o contava para todas as pessoas, pelo menos para quem quisesse ouvir; ouvir e ler, pois a menina o escrevia em formas multifacetadas de poesia. Toda ela era um brincar de versos. Havia palavras em seus cabelos, rimas em seus gestos cheios de sossegos, métricas em seu olhar. Ninguém entendia a simplicidade em que vivia , mas Gabi naquele seu versejar de oásis repetia, repetia: “sensação de veludo. Lembrem-se! Sensação de veludo”.
O tempo passava descompassado e ninguém sabia o significado daquelas palavras. Gabi sorria, Gabi corria, Gabi dançava. Não sei se os segredos têm os seus métodos, como diziam os incrédulos, mas não havia pessoa a duvidar da felicidade daquela miúda. Como podia? Na cidade dos Afazeres não cabia sorrisos. Trabalhava-se de manhã à noite. Isolavam-se nas fábricas de tecnologia, inventavam-se inteligências, criavam-se máquinas, tudo para resolver o grande problema: onde estaria a felicidade que não vinha? Na falta de resposta e na tentativa de encontrá-la, lá se iam mais máquinas cada vez mais potentes e portáteis para facilitar o manejo e as pessoas as adquiriam ao preço do seu próprio tempo.
Enquanto isso, Gabi sorria, Gabi corria, Gabi dançava. “Sensação de veludo. Lembrem-se! Sensação de veludo” — repetia.
O caso de Gabi foi parar na cúpula de Afazeres. A menina mantinha junto de si um caderno. Há tempos não se via um daqueles. Capa de couro com fitas trançadas como fecho. Uma coisa daquela tão antiga só poderia guardar o tão almejado segredo. Mas como algo tão importante estaria em posse de tão pouca criatura? Chegava a ser infâmia. Cientistas, engenheiros, designers, programadores, até influenciadores debruçavam-se dia e noite na tarefa de buscar a felicidade, mas era em vão. Interrogada pelas autoridades, Gabi apenas sorria sem entender muito a razão de tanto alvoroço e seguia a escrever sua dança e seus movimentos. Todo o seu tempo era destinado às palavras que brotavam de si e também àquelas percebidas em meio a outros, como o cair da folha e o nascer do fruto, a gota de chuva a navegar na janela em sonho de barco, o voo da ave a colocá-la em estado de garça e tantas outras coisas que ela colhia e outras mais que só ela sabia.
Um dia o caderno foi confiscado. Seria analisado pelas autoridades competentes de Afazeres, assim disseram. Contudo, algo curioso aconteceu: o tempo passava e passou também para Gabi, que já não era mais uma criança. O caderno nunca fora aberto. Gabi havia sido proibida de escrever. O motivo ninguém dizia, só não entendiam a felicidade que ainda fazia morada dentro dela ao vê-la pescar luzes e a colorir a vida de pássaros em meio à natureza da alma ecoada pelo mundo.
Sem suportarem mais a curiosidade e ao desistirem de inúteis tentativas de descobrirem por si o segredo de Gabi, um decreto foi instaurado: que fosse aberto o caderno! Alvoroço geral, mídias e redes sociais não noticiavam outra coisa. E assim foi feito. Em posse de tanta euforia, lá se depararam com as coisas simples da vida. Com letra de poeta, lia-se:
“As coisas simples parecem bobas.
Mas deveriam ser percebidas de modo genuíno.
O trigo em embalagem de papel
pode parecer estranho,
mas gosto da textura do papel na mão,
do aconchego da receita naquele contato.
.
Ah! E o café coado fresquinho?
O cheiro da terra que a chuva desperta.
O som de um bando de aves voando ao entardecer.
A água do chuveiro caindo na cabeça,
de olhos fechados e corpo submerso.
.
Andar de meias em dias frios.
Tomar água com muita sede.
Conseguir pegar o pão
que acabara de sair do forno na padaria.
Passar a sola dos pés em um tapete fofinho.
Respirar fundo e soltar o ar.
.
Cada detalhe desses traduzem o que chamo de
sensação de veludo.
É quando viver preenche tanto os tatos da vida
que na maciez dos sentidos
contemplo o belo do existir.”
.
Assinado: Gabriela Lopes.
E não houve mais segredos.
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Essa história foi escrita inspirada na poesia “As coisas simples da vida”, que está no livro Versos, dores e cores, da poetisa Gabriela Lopes. Nasceu de uma proposta da Vivência Novos Autores de escrever prosa a partir da poesia. Como escritor, gosto de ler poesia para escrever prosa, pois muitas são as histórias contidas nos versos. E o melhor de tudo é que as histórias sempre são outras a partir de cada olhar… Gratidão à Gabriela por permitir essa troca. E você, gosta de poesia? Curta, comente. Essa ação é muito valiosa para mim.
“Quem experimenta a beleza está em comunhão com o sagrado” (Rubem Alves).
Tão logo raiava o dia, em fila, desciam o morro cantando. Passos firmes equilibrando suas bacias, sem titubearem. Elas se reuniam à beira do Rio das Velhas. Quanta ironia! Elas eram jovens e belas donzelas, em sua maioria. Elas amavam, elas sorriam, elas viviam. Os pés descalços ziguezagueavam entre as pedras e a correnteza cristalina.
Não deviam esmorecer o labor, traziam no rosto o fervor, e na pele essa marca da raça, da estranha alegoria que trazia fé para a vida. Não sentiam o frio e rodopiavam leve e soltas, esnobando a alvura dos lençóis bailando às seis da matina.
Suas jovens mães e avós, precocemente viúvas, permaneciam em casa cuidando dos filhos menores, dos netos, sempre numa escala acirrada de zero a dez. Os mineiros morriam jovens, enterravam a dura ilusão trabalhando na Mina chamada Morro Velho, fatídica dicotomia. Os órfãos amineiravam sonhos de pedra de minério, que viravam pó, sem brilho de valor. Cresciam soltos brincando de alegria pueril e disputando um lugar ao sol.
Mas as mulheres não se queixavam da escassez de futuro. Ali havia excesso de presente. Era preciso ter força, ter garra, ter gana sempre, pois, a labuta diária nas águas daquele rio caudaloso lavava o suor e até os pensamentos insalubres. Esfregavam as roupas e os problemas com sabão de cinza, o que estivesse mais encardido quaravam e batiam na pedra e, aos poucos, como uma magia, as manchas iam se desfazendo em cada peça e também no coração.
O rio seguia seu curso, desviando obstáculos, sem alterar a rotina das lavadeiras. Lave Maria, lave Maria era o som, era o dom e o canto das corredeiras. Elas lavavam as roupas e as dores da alma e enxaguavam o destino atentas aos redemoinhos.
Elas contavam histórias, as suas, as delas, as nossas. Elas cantavam cantigas de roda, religiosas, folclóricas, inventadas, inspiradas nas dores, nos amores, nas glórias. Lave Maria, lave Maria, lave Maria.
Lavar roupa todo dia, não era uma agonia para essas Marias: andorinhavam a paz do azul celeste sobrevoada no leito do rio.
São todas Marias protagonistas da vida ganhando o sustento de suas famílias.
Lave Maria, Lave Maria, Lave Maria…
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Lave Marias é uma das histórias do livro “Guirlanda das Emoções”, da escritora Valéria Cristina Gurgel. A obra, publicada pela Árvore das Letras, através do selo Alforria Literária e parceria da Editora Rolimã, é fruto da Vivência Novos Autores, uma imersão de sentimentos por meio da leitura e escrita que tem o objetivo de aprimorar a percepção literária e metafórica das histórias que lemos e ouvimos, e ainda aplicar técnicas criativas e afetivas na produção de narrativas e poesias.
A caminho, para Sequele musseque, vi-a cantar vitória.
Porém era uma vitória sem glória.
Numa manhã de ditadura
Vi cavalos e cavalaria em aventura.
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A vitória era doce como o mel.
E por ser bom demais
Os abutres deram-lhe o fim
Tão doce tão curto e tão ruim.
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A vitória era como a ereção do desejo
Tão doce, que vi o chão perdendo o fundo.
E os olhos também se foram embora para longe.
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A vitória também era como o solo
Hoje pilhado e seminu ficou para os pés descalços.
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Cada um de nós têm as suas lembranças e afaga as suas memórias. O poeta António Alexandre nos traz as lembranças de um chão que pisou. Qual a memória do seu chão?
O pernoitar das reflexões profundas Sintoniza-nos a ritmos, sons e danças Que o real nos nega.
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Viajando no além, Com a estrela polar Sem chegar à Belém.
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Perscrutando o murmurar do conhecimento corcunda E nos perdemos! Nos perdemos numa viagem sem volta Realismo suplantado pelo imaginário Onde o tempo não se sobrepõe as circunstâncias Só as energias importam.
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Veem-se comportas Abrem-se e inundam o vazio do pensamento.
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Não sabemos!
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Não sabemos se fugimos do real ou do imaginário.
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Não sabemos!
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Não sabemos o sentido da vida Buscámo-la a qualquer custo na alma ferida Quando nos demos por conta Láureas manhãs! E as almofadas de ar fresco Aliviam a dor profunda.
Descobri mais uma função da literatura além de nos salvar de nós mesmos: nos salvar da modernidade! Pelo menos a se tratar de uma aqui, outra ali, ou seja, de todas. Misericórdia! Assim fui eu a mais uma história de ônibus! Já estou a pensar no tamanho dessa coleção. Vamos lá!
Ao me aproximar da rodoviária de Padre Paraíso com destino a Teófilo Otoni, vejo, de longe, uma grande aglomeração. Gestos, falas, algumas mais exaltadas, gritos de absurdo e muita, muita gente sem saber o que fazer. Pela quantidade de pessoas, algo não muito normal para a cidade, ainda mais naquele horário de 15h, tive certeza: tem coisa aí. Não demorou a ver dois viajantes sem direito a embarcar e depois mais um, mais outro e outro mais, inclusive eu, igualmente posto na mesma situação.
— Mas, moço, eu nem tenho passagem ainda!
— Não tem e nem vai ter — disse para mim o atendente com a maior cara de enfado por quem já repetiu o motivo dezenas de vezes: “Não há sinal de internet e sem internet não é possível emitir o ticket de passagem”.
— Como é que é?
Eu tenho que viajar, não posso perder o ônibus, tem gente me esperando, minha mulher vai me matar… Começou a enumerar o atendente todas as objeções ouvidas e ainda repetidas pelas pessoas em minha volta.
— Mas isso é um absurdo!
— Essa é a campeã. Estão me dizendo isso desde ao meio dia.
— Meio dia? Está sem internet desde meio dia?
— Para o senhor ver como estão os meus ouvidos.
— E dentro do ônibus? Não é possível comprar a passagem dentro do ônibus?
— O senhor tem dinheiro?
— Ora, mas é claro! Como o senhor acha que eu compraria a passagem? Com dinheiro!
— De papel? É, porque dentro do ônibus só com dinheiro de papel, porque no cartão não tem conexão…
Foi quando reparei toda aquela gente esbaforida a lançar impropérios com seus cartões na mão. Como é possível? “Cadê o dinheiro que estava aqui”? Não era assim a brincadeira do toucinho com o gato quando éramos crianças? Seja como for, não mais falei nada e fiquei a admirar toda aquela confusão ao constatar o preço da modernidade. Além do toucinho, onde andaria o kichute a fazer às vezes da chuteira nas peladas no campinho de terra? Os álbuns de fotografias, a latinha de quitute com a chavinha para abrir, o radinho de pilhas recarregadas no congelador, o copo sanfonado de plástico fácil de ser transportado e tantas outras coisas sempre a nos atender muito bem? Cogitei seguir viagem de carro. Mas isso também já não era possível! Eu não tenho carro, e seria preciso pegar um taxi, porém os motoristas só viajam pela manhã.
Sem dinheiro de papel, sem carro, sem nada das minhas lembranças e agora também sem celular, pois, ao pegá-lo para avisar às pessoas, sim, a minha esposa também, o acontecido, a bateria acabou…
Aí não teve jeito. O pensamento veio forte! Fosse no tempo das cartas e as passagens emitidas à mão ou até em maquininhas, mas sem internet, nada disso teria acontecido. E ainda há aqueles a dizerem que o mundo de hoje é muito melhor ao do passado! Ah, quanta saudade dos orelhões e dos telefones de discar…
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Muito obrigado mais uma vez por sua leitura. Espero que essa história contribua para a sua nostalgia ou pelo menos para refletir do como a vida, mesmo menos moderna, era mais funcional em muitas coisas… Você lembra de alguma?
Querida Anne Frank. Hoje é o meu aniversário. 04 de agosto de 2023. Exatamente no mesmo dia que há 79 anos foi o pior momento da sua vida. Fecho os olhos e tento imaginar o horror daquele acontecimento em que os soldados da Schutzstaffel, do Partido Nazista alemão, juntamente com outros policiais invadiram o anexo secreto na rua Prinsengracht, 263, em Amsterdã, e descobriram onde estava escondida há 2 anos com sua família e amigos, levando-os para os campos de concentração de Auschwitz e posteriormente a Bergen-Belsen naquela segunda guerra mundial, onde veio a nos deixar. A liberdade estava tão perto! Foi por tão pouco, meu Deus… Como o medo deve ter paralisado a sua alma! Você tinha apenas 15 anos… Pois vim ao mundo 28 anos depois desse dia terrível ao da descoberta. Ao saber disso fiquei muito triste, principalmente porque essa data sempre foi uma celebração para mim. Como pode um dia ser tão pavoroso para alguns e tão maravilhoso para outros?
Sabe, Anne, tenho comigo um sentimento estranho. Desde quando soube disso, mesmo nascido em outro país tão distante do seu e em outra época, sinto-me com uma espécie de dívida, não histórica, mas minha mesmo, pessoal, de transmutar esse dia em luz. Redimir um ato o qual não provoquei ou sequer participei – assim espero e imploro – torna-se um compromisso a fim de não destruir a minha humanidade. As daqueles militares foram destruídas, como cada vida ceifada pelo ódio obediente e inexplicável; outras tantas foram condenadas como a sua.
Desculpe, Anne, por fazer desse 04 de agosto de hoje — o meu 04 de agosto — sorrisos, tão diferente do seu de lamentos e perdas e choros e sombras. Mas sabe de uma coisa? São neles, nos sorrisos, a morada de fazer do meu destino o melhor a cada dia. E não digo isso por mim, mas por você e por cada pessoa abandonada na sua dignidade de existir, independente de tempo e espaço. Venho nesse 04 de agosto a servir, a fazer o bem a quem necessitar, a reconstruir almas e oferecer possibilidades. Toda a minha vida tem sido assim.
Anne Frank, se for possível, perdoe a minha felicidade. Em troca dou ao mundo, principalmente pela palavra, a qual você tão bem conhece, a minha entrega e o meu servir.