O HOMEM QUE TECIA BOLSAS

Por Leandro Bertoldo Silva

Ele havia aprendido com a sua mãe que as bolsas servem para guardar histórias.

Elena aprendera desde cedo a arte da costura. Menina ainda e, naquele tempo, trabalhou em uma fábrica de sapatos. Como era muito pequena, era colocada pelos adultos dentro de uma caixa, onde separava os pares entre pequenos, médios e grandes.

Mas não eram os sapatos a ser a razão do que a acompanharia pelo resto de sua vida.

Com o tempo aprendera a cortar, e aqueles pedaços de retalhos de couro que diziam não servirem para nada, eram emendados um no outro com desenvoltura pela menina que fez nascer de suas mãos de criança uma linda e encantadora bolsa.

Todos ficaram maravilhados com o prodígio de Elena. Mas o que ninguém sabia é que não era o couro a preencher o coração da menina, mas a linha. Era com ela, em laçadas mágicas em pontos e costuras, que o tempo passou para ela, deixando pelo caminho de sua existência centenas de bolsas tecidas de todos os tipos: grandes, pequenas, brancas ou pretas, de adultos e crianças a serem preenchidas com histórias, histórias que nem mesmo ela sabia que tinha, mas continuava, ano após ano, tempo após tempo, linha após linha a tecer, tecer e tecer.

Antes que Elena partisse, as pessoas imploravam: “vende as bolsas, Elena!” Mas Elena não vendia. Seus próprios filhos e netos não entendiam e também pediam. Seus amigos repetiam palavras ao vento: “vende as bolsas, Elena!” Mas Elena não vendia, apenas dizia: “Eu sei o momento”.

Elena passou como o tempo. E o “momento” ninguém sabia, ninguém via. Seus cabelos brancos e finos que um dos seus filhos tão bem conhecia, ficou na lembrança de uma saudade que doía. O filho, agora homem feito, recordava do dia que sua mãe, pouco tempo antes de partir, abrira na cama todas as bolsas e as mostrava uma por uma. E agora lá estavam elas guardadas pela casa: bolsas de todos os tipos e cores, lisas, felpudas, abertas, fechadas, com cascas, almíscar, fechos e presilhas.

Para as pessoas era apenas um tempo perdido, um trabalho em vão. Mas para o filho que aprendeu a observar, cada bolsa era um afago de existência. Ele vira a mãe tecer muitas delas e trouxe à memória de como as suas mãos pareciam não segurar a linha e a agulha, mas a magia do invisível que logo se formava em mais uma reminiscência. Viu a bolsa de linhas azuis e lembrou de quando  ela o apresentou ao mar pela primeira vez; vira-a tantas vezes em volta de linhas amarelas a tecer o sol para aquecer o dia; afagou a bolsa bebê e imaginou como teria sido o dia em que ele mesmo dera os primeiros passos. Cada ponto, cada laço, do primeiro ao último, contava histórias. E ele estava ali com todas elas a sua frente. Mas as mãos de sua mãe não mais teciam, descansavam no silêncio que já não mais existia.

Com o tempo, sempre o tempo, uma aglomeração de vozes foi se formando. Para todos os cantos, para todos os lados, o filho parecia ouvir uma legião de pessoas, colecionadores, curiosos, palpiteiros a clamar: “vende as bolsas, Elena!” Mas Elena, agora ele próprio, não vendia. O que ele fez, porém, ninguém podia imaginar. Ele chamou as pessoas e dispôs todas as centenas de bolsas a frente delas, assim como sua mãe lhe havia feito. E foi aí que o “momento” que Elena tanto esperava, aconteceu.

O homem começou a abrir bolsa por bolsa diante da multidão que se aglomerava como num teatro. Curiosamente, à medida que eram abertas, o lugar se poetizava em afinidades. Ao abrir a primeira bolsa, um som suave de canção de ninar tomou o coração dos filhos que ali se encontravam a lembrar dos pais. A segunda fez surgir o aroma delicioso das manhãs de domingo quando o café coado exalava o gosto de bom dia. Da terceira saiu o barulho da chuva na telha de barro quando o sol dava lugar a outros espetáculos. Lembrou também de um livro que lera, onde o tempo era guardado em uma caixa e as palavras dançavam em sua mente… “Na caixinha iam parar a folha da árvore que caía, a gota da chuva que chovia, o medo que ela escondia, os bilhetes que ela escrevia, os desenhos que ela fazia, um tempo que ela sabia que não perdia, a imensidão dos sentimentos que ela vivia e a história da vida que ela tecia”. Mas ele tinha mais do que caixas; tinha bolsas tecidas à mão, as mãos de Elena, as mãos de sua mãe, que estava certa, afinal.

Que momento sublime ao mostrar que o mundo é efêmero e que os afetos precisam de um lugar para morar. Agora sabia. Elena desde cedo tecia não objetos, mas abrigos seguros para acolher os deslumbramentos de um primeiro beijo, as alegrias das famílias em noites de festa, as dores dos que perdiam seus entes queridos, os medos e descobertas da primeira infância, o perdão entre gerações. Cada bolsa era uma casa; cada casa uma vida na imensidão dos dias.

O homem então convidou um a um a se aproximar, e cada qual, ao abrir pela ressonância a sua bolsa, encontrava suas histórias e o que lhe definia. Saía feliz. Até que ele mesmo abriu a sua, uma bolsa simples lhe dada de presente pela própria mãe. Ao abri-la, encontrou a saudade. Essa apertava tanto! Mas junto dela encontrou também um desejo imenso do amanhã a partir do qual ele também começaria a tecer.


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2 comentários em “O HOMEM QUE TECIA BOLSAS”

  1. Que texto maravilhoso! As bolsas como registros de emoções vividas, de tempos vividos. Uma a uma, alinhada lado a lado, podemos dizer que formam uma linha do tempo, do tempo infinito, pois essa linha pode ser continuada em novas bolsas, ou poemas, textos como este, etc… E, com certeza, essa linha do tempo continua também de uma outra forma, em uma outra dimensão, que por hora não podemos alcançar… Mas vejo que este texto certamente saiu de uma dessas bolsas tecidas com os mais belos fios de emoções. Parabéns, Leandro! Muito lindo e muito emocionante!

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