PARA LÁ DESSE QUINTAL

Para lá desse quintal

Quando a pátria que temos não a temos

perdida por silêncio e por renúncia

até a voz do mar se torna exílio

e a luz que nos rodeia é como grades.

 – Sophia de Mello Breyner Andresen –

Para lá desse quintal, sempre houve uma noite infinita. Contudo, agora que o transpôs, não sabia se deveria. Talvez fosse melhor imaginá-la pelo rádio ao debruçar-se sobre a mesa a ouvir aquela música e deixar-se fazer dela – a noite – o que as suas lágrimas sugerissem. Mas a curiosidade o abateu como estrelas cadentes a viajarem em excessos. Era evidente a sua felicidade na simples-cidade em que vivia: meiga, pequena, pacata, protegida dos adereços que tornam cheios os nossos pensamentos. E quão mais confortável era a vida pouca neste quintal vazio que o tempo ainda não preenchera… Tudo era tão cheio de nada a sua volta, que a falta, além de não se fazer presente, apresentava-se como possibilidades. Um banho quente em noite fria era um bálsamo de abundância! O que dizer da velha bicicleta que o ajudava a vencer a longa distância entre a casa e a escola e ainda emprestava-lhe a suave carícia do vento? Mas o menino cresceu… E o quintal não mais lhe cabia. Não se arrependia de ter desejado o infinito, mas de tê-lo deixado ser ilusão…

(Do livro Entrelinhas Contos mínimos)

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