A menina que fui, onde está? Mora dentro de mim, ou se foi?
Procuro a sineta que soava meus sonhos… Está perdida no âmago do meu ser, ou ainda soa vibrando minhas quimeras?
Será que reaparece quando inspirada, deixo-me levar pelo ritmo de um poema que exorciza meus medos, minhas frustrações, meus (des)encantos! Ou (re)surge nos sorrisos dos meus netos chamando-me para brincar, fazendo-me mais próxima da criança que fui um dia?
Quero me envolver de corpo e alma com a seriedade de criança ao brincar. Numa atitude brincante, repleta de encantamento, de espanto diante da possibilidade de magia, viver um mundo de encantamento.
Preciso recuperar o estágio brincante de ser. Recuperar a minha capacidade de rir, gargalhar, de maravilhar-me com as coisas simples e nem por isso, menos importante.
Deixar-me levar pela magia…. Concordar com o poeta Manoel de Barros de que:” as coisas que não existem são mais bonitas”. São elas que nos fazem viver, imaginar, sonhar, criar e mergulhar no mundo das histórias e brincadeiras infantis que celebram a nossa pureza. A gente ri, sofre, se encanta, vive tudo que está ali na imaginação através dos livros, das brincadeiras, da empolgação de uma história bem elaborada.
Preciso buscar a “caixa de brinquedos” da minha memória infantil e soltar todas as brincadeiras que ficaram presas num tempo que eu achava perdido. Nessa caixa, estão todas as coisas inúteis, que não serve para nada no mundo adulto: pular amarelinha, empinar pipas, jogar bola, brincar de roda, pique esconde, um poema, uma música, uma foto de um país distante…
Reaprender a usar a “caixa de brinquedos” para ter prazer, alegria e reviver o tempo pretérito.
Apesar do peso da idade e dos cabelos brancos, posso gritar ao vento: ” mais respeito, eu sou criança”.
A história de hoje me foi inspirada em um acontecimento real. Há um tempo, em uma cidade do sul de Minas Gerais, eu estava a ministrar uma oficina de transposição poética, cujo tema era “as rosas”. Ao final dela, percebo uma pessoa em choro convulsivo. O que ela relatou, não só a mim, mas a todos, me fez ter a certeza do imenso poder da poesia…
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Seu coração estava dilacerado e queria pôr fim à sua vida, acabar com aquele sofrimento, pois imaginava ser isso possível por esse caminho, já que era o único que conhecia. Preparou todas as coisas que julgou serem necessárias para a aguardada despedida; e já era próximo de meio dia…
Na sexta hora, quando nada mais restava a fazer a não ser saltar para o destino imaginado, uma rosa, até então despercebida, chamou-lhe a atenção no momento exato que se desfolhou à sua frente.
Ao ver as pétalas espalhadas daquela rosa, não duvidou de que, um dia, não importa se há muito tempo ou segundos antes, aquela bela flor teve forma, perfume e função de ser bela, doando, assim, o seu amor.
Olhou para as pétalas que um dia formaram uma flor e que, mesmo naquele estado, continuavam sendo uma flor, porque ainda tinham a capacidade de oferecer a beleza e o prazer do seu perfume…
Foi quando compreendeu que o amor, antes de ser sentido, deve ser manifestado, mesmo que dilacerado, pois está aí a natureza de transformar-se.
Como orvalhos naquelas mesmas pétalas, lágrimas sublinharam seus olhos, mas já eram de agradecimento, não apenas por ter sido salvo por uma flor, mas por ter se convertido em uma; e já era um minuto depois do meio dia…
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Bem, deixo para você supor o que, de fato, aconteceu àquela tarde…
Desde 2020, os trabalhos da Árvore das Letras, antes presenciais, passaram a acontecer essencialmente de forma on-line. Nesse período, fortaleci minha presença digital com destaque especial ao blog, o qual passou a ter uma frequência de leitura e adesão de pessoas a contar hoje com 4.669 seguidores, a incluir leitores e colaboradores de Angola e Moçambique. O curso Vivenciando a Linguagem, Leitura e Escrita, origem de todo esse trabalho, transformou-se também em uma Vivência on-line, onde conheci muitas pessoas e estreitei laços profissionais e afetivos com elas.
Uma das ações realizadas na Vivência é o Clube de Leitura. A proposta diferenciada a partir de uma Transposição Literária, que nos permite ir além do livro, é um dos pontos mágicos dos nossos encontros.
Aqui quero compartilhar uma experiência.
Ao longo desse período, mesmo ao estar conectado, eu não perdi a condição totalmente humana de ser, muito em decorrência dos meus livros e do meu trabalho como artesão da arte da encadernação. Tanto os livros como os cadernos são feitos, produzidos e publicados através do meu ofício do fazer à mão e, levá-los para as feiras e mostras ou enviá-los fisicamente para os leitores, me manteve dentro da minha natureza primordial e do lugar de antes, ou seja, o mundo real.
Quero deixar claro que o trabalho on-line irá continuar. A Vivência on-line permanecerá ativa, afinal é um formato no qual fronteiras são desfeitas e muros passaram a ser inexistentes e a nos permitir estar, ao mesmo tempo, com pessoas em diversas localidades diferentes, do sul ao norte, do leste ao oeste e até de outros países, e isso é maravilhoso.
Porém, aquele lugar do real já me puxava e começava a gritar dentro de mim. Assim, foi estender o Clube de Leitura para a volta ao presencial que algo incrível aconteceu: uma profunda sensação de “estar de volta ao mundo”.
Por mais que eu seja e sempre serei grato à tecnologia, pois permitiu a continuidade do meu trabalho em um dos momentos mais difíceis da humanidade e achar que ela ainda vai nos levar a muitos outros lugares fantásticos, proporcionar experiências ainda inimagináveis e, claro, eu estarei presente como estou aqui agora, mas o contato com o outro de maneira presencial, o olhar nos olhos, o tocar, o abraçar, o experimentar ao vivo e a cores momentos com outras pessoas, não há inteligência artificial no mundo que supere.
Por isso, em 2024, exatos 4 anos depois, a Árvore das Letras, manterá, sim, a conquista alcançada com toda a experiência adquirida com a tecnologia e suas redes, mas estará de volta em comunhão ao presencial, ao verdadeiramente humano, ao que nos faz sermos a razão de existir.
Aos amigos e amigas conhecidas virtualmente por ação das nossas vivências, leituras, trocas e descobertas ao longo desses anos, muito obrigado e vamos em frente, mas com aquela deliciosa certeza de, juntamente com tudo isso, ter chegado a hora igualmente edificante do abraço real. Que este aconteça continuamente, porque é um dos maiores acordos da humanidade.
Parafraseando Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, deixo um recado e uma reflexão: “o mundo não se fez para estarmos longe uns dos outros (estar longe é estar doente dos abraços), mas para olharmos para ele e estarmos irmanados”.
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Bem, se você gostou desse recado, de saber que a Árvore das Letras estará de volta de forma também presencial a partir do Clube de Leitura, curta a publicação, deixe seu comentário. Isso é muito importante para nós. Se já teve alguma vivência conosco ou deseja ter, estaremos sempre de galhos abertos para você. Vamos em frente.
Alguma vez você já parou para pensar no quanto um livro pode mudar uma vida? Não é por acaso que aqui mesmo na Árvore das Letras mantivemos ao longo desse ano de 2023 um Clube de Leitura bem diferente… Porque, para nós, não basta só ler e debater um livro, isso seria muito pouco. Nós sempre queremos mais.
Rubem Alves dizia que “ler com rapidez o que o autor levou anos para escrever é um desrespeito”. O mesmo vale para falar sobre os livros. E assim criamos a Transposição Literária, que nos permite “entrar nas histórias”. Bem, o ano vai se aproximando do final e já estamos nos organizando para o próximo, em que, além do Clube on-line, ele também será presencial.
Viva!! Já estava na hora!
Inclusive, você pode saber de tudo isso clicando AQUI.
E para celebrar esse acontecimento tão maravilhoso, no qual os livros nos conduzem a verdadeiros encontros de almas, ilustro com uma narrativa poética da Valéria Cristina Gurgel — uma das integrantes do Clube —na qual ela traz a presença da biblioteca, tabernáculo dos saberes.
Desejo a todos e todas uma ótima leitura…
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Biblioteca, tabernáculo dos saberes
Sou Pronto Socorro das enfermidades desconhecidas.
Tesouro guardado dos remédios da alma, receptáculo de emoções sentidas.
Cartório de registros das inspirações dos mortais.
Sou hospedeira daquilo que o mundo viveu.
Olhos impressos do que a vida não viu, uma farmácia com bulas de indicação de cápsulas vocálicas e exclamações diluídas.
Biblioteca, um cenário de papel, ou simplesmente casa contada
para aqueles que almejam o conhecimento e desejam, entre vírgulas e interrogações, o aprendizado.
“Aspas” em negrito para a mestra sabedoria.
Sou “Biblion e Theca” vindas do grego e dos primórdios de uma era.
Dos primeiros registros impressos da Bíblia, por Gutemberg.
Guardo diversos contos bem contados, amores revelados no calor da poesia.
O mundo dentro de um livro, uma ilustração cravada na capa.
A história da vida enciclopedista.
Hospedo pessoas simples e célebres nesse paraíso de histórias que bailam no papel.
E autores diversos disputam um lugar nesse céu.
Sou aconchego bem alojado dos escritores, dos simplórios aos mais conceituados.
Ainda que não sejam observados, lidos, folheados, compreendidos,
identificados ou bem interpretados.
Títulos renomados buscam sobreviver em meio à ignorância pagã do conhecimento universal.
Dos destaques nas prateleiras da informatização, dos rebuscados aos anônimos ou independentes.
Vitrines terapêuticas nos convidam a saltar, abrir os olhos e admirar essa farmácia, emblemático cenário de papel.
Absorver a essência curativa das letras, sentar e se deliciar, não ver o tempo passar.
Curar almas doentias por desconhecimentos e, por tudo isso, seguirei sendo esse relicário de registros dos autores de hoje e do passado, como mostruário cognitivo de cada imaginação.
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Maravilhoso, não é? Com esse lindo texto da Valéria te convido a vir ler conosco. Venha fazer parte do nosso Clube, seja presencial ou on-line, ou mesmo os dois, por que não? O mundo precisa de mais leitura, de mais poesia, de mais histórias edificantes. O mundo não é um lugar de guerras como estamos vendo, porque esse sim é um lugar de ilusões. O mundo é um lugar onde a literatura nos dá o caminho da paz, porque quem lê verdadeiramente entende a essência da alma humana e de todas as coisas da natureza. E se assim é, somos paz. Vamos lá? Te espero no Clube.
Buscava um fio de meada para tecer uma história sobre delícias da minha infância.
Buscava algo novo no meu baú de memórias e, de repente, aflorou! Quantos momentos deliciosos compartilhei com minha mãe Efigênia em volta do seu cadernão de receitas escritas a mão, recortes de jornais e revistas. O caderno está agora em minhas mãos,
É um caderno 23X32 cm, capa grossa, forrado de pano grosso, costurado com barbante e tem um selo “ Índice do Imposto Territorial Rural da Coletoria Estadual”. Suas páginas têm linhas para a escrita e linhas vermelhas separando para contabilidade e em cada pág. está escrito: “nome do contribuinte, número do livro, folhas do livro, no. da inscrição”. Deve ter sobrado no almoxarifado da Coletoria Estadual, após a introdução do primeiro computador na Secretaria da Fazenda de MG que, tenho notícia, foi implantado por meu pai Afonso Soares Caminha na década de 50 ou 60. Disseram-me que era imenso e ocupava uma sala inteira!
Só agora percebi o invólucro ou capa que narrei para vocês. O caderno já está esbeiçado, o urdume está se desfazendo, as folhas estão amareladas e rasgadas em vários pontos pelo uso. A maior parte das receitas estão escritas a lápis, com a linda caligrafia de minha mãe, e tem muitos papéis de receitas agregados de forma desordenada.
As folhas têm manchas diversas de gordura, manteiga, farinhas… São lembranças de muitas comidas gostosas compartilhadas ao lado dela. Como não lembrar do pé de moleque e eu, ao lado, com uma xícara com água esperando para provar o ponto? E as balas delícias sendo puxadas para dar o ponto para serem enroladas no formato de cobra e cortadas? E as balas de cachaça e gelatina cortadas e passadas no açúcar depois de esperar um dia no tabuleiro? Era o céu na boca saborear suas balas de licor… Se esmerava nas tantas tortas doces e salgadas, pães, biscoitos e bolos. Naquela época, não havia padarias como as de hoje.
Numa primeira página, tem um recorte do “Jornal de casa” sem data. Debaixo dele encontrei o que, talvez, tenha sido uma das muitas festas que preparou para nós. É de lamber os beiços… está escrito:
“ Encomendei: pastéis de nata, brigadeiros, bombons de uva, bombons de figo, bombons de mandita, bombom da fábrica, olho de sogra” Ao lado acho que são as coisas que ela deve ter feito “ empadinhas, enrolados de salame (também chamados de sacanagem), pãezinhos de batata, rocambole de queijo, barquetes, pastel português”. Com certeza, também deve ter encomendado bolinho de feijão de uma senhora lá do alto do bairro Santo Antônio, marca registrada de suas festas.
Adorava a gelatina rosa e a mosaico com várias cores. Os bolos decorados com glacê de cores diferentes eram sempre gostosos e maravilhosos. Fez aulas com a doceira Dona Madalena, que morava defronte à nossa casa na rua Carangola. Tinha todos os bicos para fazer os “ Bolos Artísticos” do grosso livro da Dolores Botafogo. Fazia também glacês e flores com massa de araruta com fécula.
Tinha nove anos mas lembro-me do bolo de Bodas de Ouro dos meus avós Judith e Sô Dinho, feito no formato de um livro aberto com dizeres das datas. Foi uma linda festa com muita cantoria afinada de minha mãe e meus tios. Uma destas músicas habita meu coração até hoje. É “Bodas de Prata”, de Carlos Galhardo:
“Estavas vestida de noiva
Sorrindo e querendo chorar
Feliz, assim, olhando para mim
Que nunca deixei de te amar…”
Comemoramos muitos aniversários (éramos 4 filhos) e fez bolo com casebre da roça, gata borralheira, jogo de futebol para meus irmãos, corações unidos, leque e outros. Fez cestas de flores com sanduiches primorosamente recortados e multicores, com sabores diferentes feitos com produtos naturais como beterraba, cenoura e espinafre.
Fez também o bolo de casamento de meu padrinho tio Pedro e Tia Alzira. Tinha 8 anos mas lembro-me que alguns enfeites foram recortados em cartolina e revestidos de glacê e açúcar cristal. Consegui hoje com minha prima a foto do álbum. Nem sabia que tinha sido feito por minha mãe. Um espanto a delicadeza artística!
Tinha formas de bolo diferentes: sino, leque, coração, retangulares, redondos com furo no meio etc. Os biscoitos eram recortados com carinha de gato e estrela (tenho estas formas até hoje). O mais fofo é lembrar que tinha forminhas bem pequenas de alumínio e juntava às fornadas estes pequenos bolos, com furo no meio, que formavam o banquete para os nossos batizados de bonecas para os quais ela costurava roupas novas, fazia Q-suco e nos permitia chamar as amigas para as festinhas, que também traziam suas bonecas.
Algumas receitas têm os nomes das donas das receitas originais: “ Pão de queijo da Rosa, Bolo da Tina, Bom Bocado Da. Judith, Mãe Benta da Dona Mariquinha, Amendoim do Francisco, Pão de Ló da Leonor, entre outros.
Explorar estas tantas receitas que marcaram minha infância e a convivência com minha Mãe Efigênia, pessoa que AMO profundamente e da qual tenho imensas saudades, vai se fazer necessário…
Tenho que terminar este texto incompleto, que abriu um grande portal em meus tesouros da memória. Vou fazê-lo citando um escrito com minha letra e colado na última contracapa do livro de receitas da minha Mãe.
Lá estão escritos os nomes das bonecas de minha madrinha e avó Judith, que se casou em 1910, aos 16 anos de idade.
¨Ambira- asiática
Dejanira- europeia
Paraguaçu –índia
Ambá- crioulinho¨.
Tem também o que deve ser o que dizíamos quando batizávamos nossas bonecas:
¨Eu te batizo pela tua formosura
Não te dou os santos óleos
Porque não és criatura”.
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Texto elaborado na Oficina literária de Leandro Bertoldo “ Novos Autores”, em outubro de 2023.
Uma homenagem a todas as professoras e professores de verdade…
Dona Nicinha era uma professora diferente. Se estivesse na sala de aula, tratava logo de organizar as carteiras em círculo. Preferia mesmo que as salas tivessem almofadas no lugar de cadeiras duras e desconfortáveis. Mas, vá lá… Nada que não se pudesse improvisar. Por isso mesmo, Dona Nicinha gostava mesmo era de dar aulas na praça ao som dos passarinhos ou mesmo na quadra da escola, onde tudo era motivo de tornar as aulas mais interessantes, ou surpreendentes, já que era uma professora de Geografia e não de Educação Física.
Dona Nicinha tinha muitos alunos e gostava muito deles. A recíproca era verdadeira, pois os alunos adoravam a professora e seu jeito simples e diferente de os tratarem. Afinal, ela chegava perto deles e os ouvia com atenção…
Como dito, Dona Nicinha tinha muitos alunos, mas havia um em especial, um tal José de apelido “Desatento”. Acabou ficando conhecido como José Desatento. Ele não gostava muito de estudar. Até que Matemática ele gostava por ser uma matéria mais… Digamos… Absoluta, concreta mesmo. O negócio ficava complicado é quando ele tinha que imaginar… Não que ele não soubesse, pelo contrário, ele imaginava até demais. Aí sobrava exatamente para as aulas de Dona Nicinha. Como seria o tal fuso horário? Será que ele tinha ponteiros na ponta do nariz que indicavam as horas? E fuso horário tem nariz? Bem, deve ter. E ainda por cima deve combinar com os braços longitudinais e as pernas em latitudes de 15º, uma a leste e a outra a oeste…
— José, está prestando atenção?
— Estou fessora!
— O que eu disse, então?
— Que o fuso horário de tanto variar as horas e alternar o dia e a noite sem parar e a todo o momento, deve ter pegado um baita de um resfriado!
Pronto. Era gargalhada geral…
José Desatento não fazia por mal. Gostava de Dona Nicinha.
— Sabe o que é, fessora, eu não consigo entender esse negócio de geografia, sabe? Mapas, escalas… Daí eu começo a pensar e quando dou por mim já estou imaginando histórias…
Hummmm…. Já que José Desatento gostava de histórias, Dona Nicinha teve uma grande ideia! Propôs à turma uma aula na biblioteca da escola, em que deixou tudo muito bem preparado para levar a cabo seu intento. No dia seguinte, tudo combinado, os alunos dirigiram-se à biblioteca e estranharam, já que Dona Nicinha nunca havia se atrasado. Ao chegarem, viram que a biblioteca estava vazia. Entre os murmurinhos, risadas e brincadeiras que logo começaram a surgir, eis que uma voz exuberante, alta e vibrante se fez ouvir vinda de trás de um grande Atlas, cuidadosamente colocado em cima de uma das estantes bem ao alcance dos olhos das crianças. Os alunos logo perceberam que se tratava de mais uma invenção de Dona Nicinha, mas, seja como for, dessa vez estava muito real, pois a voz não parecia a dela e, ainda por cima, ela não estava atrás da estante. Dona Nicinha havia preparado tudo. Amarrara um microfone de tal maneira que não deixou à mostra nenhum fio que, passando pelos vários livros e estantes, permitia que ela falasse de outro lugar da biblioteca onde mantinha uma visão perfeita dos alunos sem que estes a vissem. Coisas de Dona Nicinha…
— Muito bem, crianças… Cheguem aqui perto de mim! Eu sou o Geógrafo e quero levá-los a uma viagem inesquecível! Mas… — começou a chorar. José Desatento achou aquilo fabuloso. Puxa! Um Atlas que fala! E ainda chora?! Como é que pode? Sua imaginação logo deu sinais de ação. Bingo! O plano estava dando certo… José colocou-se à frente do grupo e percebeu uma pocinha de água perto do Atlas (cuidadosamente colocada por Dona Nicinha).
— Ei, por que você está chorando? — perguntou José Desatento.
— Porque você não me usa! — disse o Atlas.
— Ah! Desde quando preciso te usar? Aliás, de onde está saindo essas lágrimas?
— Elas? São do oceano Atlântico! Tem também um pouco do Pacífico e um tantinho do Índico.
— Ai, ai! Você é maluco! Desde quando o oceano Atlântico, Índico ou Pacífico é feito de lágrimas?
— Desde quando você não percebeu que eu sou um Atlas!
E assim, Dona Nicinha, ou melhor, Geógrafo, foi dando toda a aula do dia, pedindo ora um, ora outro que folheasse uma parte do Atlas à medida que ela ia explicando e fazendo os alunos “viajarem” em suas páginas.
José Desatento estava agora mais atento do que nunca. A cada explicação do Geógrafo, ele se imaginava numa verdadeira aventura. Em seus pensamentos, à medida que Geógrafo ia articulando as palavras, ele ia ficando pequenininho e descobrindo várias coisas viajando de um lugar a outro na companhia do novo amigo. De repente, estava lá na Espanha descobrindo várias coisas, mais precisamente as touradas e, também, que lá tem um dos times de futebol mais ricos do mundo. Isso ele gostou à beça, pois adorava vários esportes, principalmente futebol. Depois ele voltou aqui mesmo para o Brasil e viu que no Nordeste tem duas danças chamadas frevo e axé e, no Rio de Janeiro, tem o samba. Em Minas Gerais tem uma comida típica que é o feijão tropeiro, que os turistas adoram, e também o pão de queijo. Na Argentina conheceu uma dança muito querida pelos hermanos, que é o tango. Ficou sabendo que na Itália inventaram duas comidas deliciosas que ele adora: a pizza e o macarrão. E assim, ele foi conhecendo o mundo pelas páginas do Geógrafo como nunca havia conhecido.
No fim da aula, Dona Nicinha deixou seu esconderijo e fingiu entrar na biblioteca se desculpando pelo atraso. Os alunos até sabiam que se tratava de uma grande brincadeira, mas tudo tinha sido tão bem articulado e conduzido pela professora, que eles não quebraram o encanto. Contaram a ela o que tinham aprendido e a respeito do Geógrafo de tal forma e com tanta verdade, que ela mesma quase acreditou na própria história. Quem mais falava era José Desatento, que mostrava a cada frase um grande aproveitamento. Dona Nicinha ouvia tudo com atenção. Sentia-se satisfeita, pois achava que tinha conseguido tocar o coração de seus alunos, principalmente de José, e fazer com que ele encarasse a Geografia com outros olhos. A confirmação disso se deu uma semana depois, quando José, ao apresentar um trabalho, falou tudo o que aprendeu nas páginas de seu “amigo” Geógrafo. Falou tão bem que foi aplaudido pelos colegas e pela professora Nicinha. Ao soar o sinal para ir embora, Dona Nicinha juntou suas coisas e saiu da sala satisfeita. Quando foi virar o corredor, ela ouviu José gritando para ela:
— Valeu, Geógrafo!
Dona Nicinha nada falou. Apenas sorriu e foi entrar em outra sala para mais uma de suas aulas inesquecíveis…
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Pois é… Eu tive algumas Donas Nicinhas na minha vida, as quais tenho por elas uma imensa gratidão, pois pegaram na minha mão e me conduziram até aqui. E você? Qual a Dona Nicinha da sua lembrança? Comente, diz o nome dela, compartilhe essa história. Quem sabe não chegue até ela?
Em um mês que se comemora no Brasil o mês das crianças, em que presentes são ofertados, satisfação de tantas vontades, muitas de forma até excessiva, às vezes outros olhos precisam ser abertos. O poeta Tomé Nasapulo nos chama à reflexão.
Essa semana, no dia 12 de outubro, comemorou-se o Dia das Crianças. E foi exatamente nessa semana que nasceu a segunda edição do livro “O menino que aprendeu a imaginar”, com novo projeto, nova capa e nova história. O livro que virou peça de teatro do grupo In-Cena, de Teófilo Otoni, a partir da parceria com meu amigo Pierre André, com minha direção e também de Geane Matos — a primeira direção externa do grupo após 15 anos de existência — ganhará em breve os palcos e ruas desse nosso Brasil.
E já temos data do nosso primeiro ensaio aberto, que acontecerá em Belo Horizonte, nos dias 24 e 25 de novembro, no teatro Raul Belém Machado.
Como se não bastasse, acontecerá, também, o evento “Sábados Literários” em BH, cujo tema não poderia deixar de ser “O menino que aprendeu a imaginar”, onde estarei em roda de conversa sobre o livro, todo esse processo criativo e a autografar exemplares dessa obra pela qual eu tenho muito carinho.
Este é um livro escrito com o coração e com muitas lembranças, mas também com muita imaginação… Quer saber como? Vem que vou te contar. Vamos voltar um pouquinho no tempo…
É bem verdade que é fruto de um sonho que já existia. Os personagens dessa história — Oswaldo e seu brinquedo — bateram em minha porta há alguns anos e, como quem não queriam nada, apresentaram-se e disseram:
“Ei, você precisa nos soltar! Que história é essa de ficar nos guardando em seus sonhos?”
E, a partir daí, fizeram-me a mais maluca proposta que já recebi até hoje. Lembro-me que olharam bem nos meus olhos e dispararam:
“VAMOS ACORDAR OS SONHOS?”
De fato, acordei sobressaltado com aquela pergunta estranha e me sentei na cama. Ufa! Estava dormindo… Será? Ainda era madrugada e, seja como for, não mais preguei os olhos, pois aquela pergunta também não mais saía da minha cabeça. Corri para o computador e comecei a escrever… Foi assim que Oswaldo e o palhacinho de chapéu de guizos, que você está prestes a conhecer, ganharam vida e foram parar nas páginas de uma conceituada revista de educação.
O interessante é que, por algum tempo, Oswaldo, incentivado pelo brilhante amiguinho, pegou um livro que ganhara de presente, sentou no tapete de seu quarto e, pela primeira vez, abriu e começou a ler as histórias… Mas que histórias eram essas? Eu não sabia. Curioso como sou, perguntava a Oswaldo e ele falava que ainda não era hora de saber. Coisa estranha… E o tempo passou. Entrei para uma escola e fui dar aulas de Português, conheci muitas pessoas, fiz muitas outras coisas e criei o meu próprio trabalho que é hoje a Árvore das Letras, escrevi e publiquei os meus primeiros livros, entrei para a Academia de Letras de Teófilo Otoni, em Minas Gerais, e fiz amizade com muitos escritores e escritoras, criei a minha própria produção sob demanda e o selo Alforria Literária através de prensa de madeira, a “Paula Brito”, onde os meus livros são feitos.
Até que um belo dia estava cortando alguns papeis para as capas de um livro, quando Oswaldo e seu amigo entraram sala adentro dizendo:
“Quer mesmo saber quais eram as histórias que eu lia? Elas estão aqui!”
Ao me refazer do baita susto que levei, olhei ao redor e só via os meus livros, os papeis, a “Paula Brito”, a Árvore das Letras. Aí perguntei:
“Aqui onde?”
E a resposta veio:
“Assim como os escritores nascem de outros escritores, as histórias nascem de outras histórias! E mais… Nascem das nossas experiências e dos nossos sonhos. Você já devia saber… Tudo o que tem a fazer é dar forma aos seus pensamentos, emendar um no outro, colocar os ‘pingos nos is’. Faça isso e irá se surpreender!”
Bem, foi assim que o livro surgiu. Das minhas lembranças de infância, das minhas leituras, fui juntando palavras, fatos, ideias, nomes daqui e dali como numa gostosa e divertida brincadeira. Dessa brincadeira juntei peças, troquei personagens de lugar, tornei a trocar, misturei um com o outro e consegui algo extraordinário: não apenas uma, mas várias histórias!
Ao término desse trabalho, Oswaldo e o palhacinho viraram para mim e disseram:
“Agora está pronto!”
Aí foi a minha vez de falar:
“Não está! Ainda falta uma coisa…”
E assim nasceu o epílogo do livro ao contar o que aconteceu após Oswaldo ter lido as histórias que seguiam…
Agora é com você! Leia-as e abra-se para o mundo dos sonhos e da imaginação, pois, tenha certeza, todas as possibilidades vivem guardadas lá…
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Pois é, pessoal, esse papo gostoso abre o livro “O menino que aprendeu a imaginar” que, como eu disse, tem nova capa e nova história. Agora, todos poderão encontrar, além do Oswaldo e o palhacinho de chapéu de guizos, outros personagens como o Vovô Teobaldo, a Vovó Cabrocha, o Tio Gerônimo e até o Fernando Luiz! Esse dá o que falar… Mas lá também estão a Dona Nicinha, a professora mais legal do mundo; o Mapinguari, o menino-bicho e até o Pedrinho da pedra lascada cara de gente mas olho de fada com a bola no pé não tem nem mané não anda descalço que é pra não se sujar e adora um cheirinho de sorvete no ar da Silva, que foi parar na capa do livro! É cada uma…
Deixe o seu comentário e aproveite para responder: qual dos seus sonhos você já acordou?
Forte abraço e até o nosso encontro!
Ah! Faça logo o seu pedido, hein, porque a produção dos livros já começou… kkkkk!!!
Letra de Ricardo Albino / Música de Leandro Bertoldo Silva
Se você tem de Zero a mais de 100 anos tenha um feliz Dia das Crianças hoje e sempre. Para comemorar, eu, Leandro, e os amigos Ricardo Albino e Pierre André fizemos nascer da nossa parceria de sempre uma música que está aqui para você ler, ouvir e cantar. A letra é do Ricardo, a melodia é minha e a edição do vídeo logo abaixo é do Pierre. Cante, dance, compartilhe com todo mundo o amor da eterna criança que mora no seu coração pela arte de viver, amar e ser feliz.