O pernoitar das reflexões profundas Sintoniza-nos a ritmos, sons e danças Que o real nos nega.
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Viajando no além, Com a estrela polar Sem chegar à Belém.
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Perscrutando o murmurar do conhecimento corcunda E nos perdemos! Nos perdemos numa viagem sem volta Realismo suplantado pelo imaginário Onde o tempo não se sobrepõe as circunstâncias Só as energias importam.
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Veem-se comportas Abrem-se e inundam o vazio do pensamento.
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Não sabemos!
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Não sabemos se fugimos do real ou do imaginário.
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Não sabemos!
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Não sabemos o sentido da vida Buscámo-la a qualquer custo na alma ferida Quando nos demos por conta Láureas manhãs! E as almofadas de ar fresco Aliviam a dor profunda.
Descobri mais uma função da literatura além de nos salvar de nós mesmos: nos salvar da modernidade! Pelo menos a se tratar de uma aqui, outra ali, ou seja, de todas. Misericórdia! Assim fui eu a mais uma história de ônibus! Já estou a pensar no tamanho dessa coleção. Vamos lá!
Ao me aproximar da rodoviária de Padre Paraíso com destino a Teófilo Otoni, vejo, de longe, uma grande aglomeração. Gestos, falas, algumas mais exaltadas, gritos de absurdo e muita, muita gente sem saber o que fazer. Pela quantidade de pessoas, algo não muito normal para a cidade, ainda mais naquele horário de 15h, tive certeza: tem coisa aí. Não demorou a ver dois viajantes sem direito a embarcar e depois mais um, mais outro e outro mais, inclusive eu, igualmente posto na mesma situação.
— Mas, moço, eu nem tenho passagem ainda!
— Não tem e nem vai ter — disse para mim o atendente com a maior cara de enfado por quem já repetiu o motivo dezenas de vezes: “Não há sinal de internet e sem internet não é possível emitir o ticket de passagem”.
— Como é que é?
Eu tenho que viajar, não posso perder o ônibus, tem gente me esperando, minha mulher vai me matar… Começou a enumerar o atendente todas as objeções ouvidas e ainda repetidas pelas pessoas em minha volta.
— Mas isso é um absurdo!
— Essa é a campeã. Estão me dizendo isso desde ao meio dia.
— Meio dia? Está sem internet desde meio dia?
— Para o senhor ver como estão os meus ouvidos.
— E dentro do ônibus? Não é possível comprar a passagem dentro do ônibus?
— O senhor tem dinheiro?
— Ora, mas é claro! Como o senhor acha que eu compraria a passagem? Com dinheiro!
— De papel? É, porque dentro do ônibus só com dinheiro de papel, porque no cartão não tem conexão…
Foi quando reparei toda aquela gente esbaforida a lançar impropérios com seus cartões na mão. Como é possível? “Cadê o dinheiro que estava aqui”? Não era assim a brincadeira do toucinho com o gato quando éramos crianças? Seja como for, não mais falei nada e fiquei a admirar toda aquela confusão ao constatar o preço da modernidade. Além do toucinho, onde andaria o kichute a fazer às vezes da chuteira nas peladas no campinho de terra? Os álbuns de fotografias, a latinha de quitute com a chavinha para abrir, o radinho de pilhas recarregadas no congelador, o copo sanfonado de plástico fácil de ser transportado e tantas outras coisas sempre a nos atender muito bem? Cogitei seguir viagem de carro. Mas isso também já não era possível! Eu não tenho carro, e seria preciso pegar um taxi, porém os motoristas só viajam pela manhã.
Sem dinheiro de papel, sem carro, sem nada das minhas lembranças e agora também sem celular, pois, ao pegá-lo para avisar às pessoas, sim, a minha esposa também, o acontecido, a bateria acabou…
Aí não teve jeito. O pensamento veio forte! Fosse no tempo das cartas e as passagens emitidas à mão ou até em maquininhas, mas sem internet, nada disso teria acontecido. E ainda há aqueles a dizerem que o mundo de hoje é muito melhor ao do passado! Ah, quanta saudade dos orelhões e dos telefones de discar…
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Muito obrigado mais uma vez por sua leitura. Espero que essa história contribua para a sua nostalgia ou pelo menos para refletir do como a vida, mesmo menos moderna, era mais funcional em muitas coisas… Você lembra de alguma?
Querida Anne Frank. Hoje é o meu aniversário. 04 de agosto de 2023. Exatamente no mesmo dia que há 79 anos foi o pior momento da sua vida. Fecho os olhos e tento imaginar o horror daquele acontecimento em que os soldados da Schutzstaffel, do Partido Nazista alemão, juntamente com outros policiais invadiram o anexo secreto na rua Prinsengracht, 263, em Amsterdã, e descobriram onde estava escondida há 2 anos com sua família e amigos, levando-os para os campos de concentração de Auschwitz e posteriormente a Bergen-Belsen naquela segunda guerra mundial, onde veio a nos deixar. A liberdade estava tão perto! Foi por tão pouco, meu Deus… Como o medo deve ter paralisado a sua alma! Você tinha apenas 15 anos… Pois vim ao mundo 28 anos depois desse dia terrível ao da descoberta. Ao saber disso fiquei muito triste, principalmente porque essa data sempre foi uma celebração para mim. Como pode um dia ser tão pavoroso para alguns e tão maravilhoso para outros?
Sabe, Anne, tenho comigo um sentimento estranho. Desde quando soube disso, mesmo nascido em outro país tão distante do seu e em outra época, sinto-me com uma espécie de dívida, não histórica, mas minha mesmo, pessoal, de transmutar esse dia em luz. Redimir um ato o qual não provoquei ou sequer participei – assim espero e imploro – torna-se um compromisso a fim de não destruir a minha humanidade. As daqueles militares foram destruídas, como cada vida ceifada pelo ódio obediente e inexplicável; outras tantas foram condenadas como a sua.
Desculpe, Anne, por fazer desse 04 de agosto de hoje — o meu 04 de agosto — sorrisos, tão diferente do seu de lamentos e perdas e choros e sombras. Mas sabe de uma coisa? São neles, nos sorrisos, a morada de fazer do meu destino o melhor a cada dia. E não digo isso por mim, mas por você e por cada pessoa abandonada na sua dignidade de existir, independente de tempo e espaço. Venho nesse 04 de agosto a servir, a fazer o bem a quem necessitar, a reconstruir almas e oferecer possibilidades. Toda a minha vida tem sido assim.
Anne Frank, se for possível, perdoe a minha felicidade. Em troca dou ao mundo, principalmente pela palavra, a qual você tão bem conhece, a minha entrega e o meu servir.
Neste momento, fiquei sabendo que você está mais uma vez internado. Fiquei triste. Passou mal, mais uma vez, dos efeitos colaterais dos remédios imunossupressores que toma devido aos dois transplantes (de rins e pâncreas) a que se submeteu há alguns anos. Pena que o Diabetes voltou depois de 1 ano e 8 meses do transplante. Você gosta de se vangloriar que foi o primeiro transplantado de 2 órgãos ao mesmo tempo. Olha você FAZENDO história!
É bonito de se ver o quanto é guerreiro e ainda agradece a Deus por dispor de um remédio que médico algum coloca nas receitas, que é o seu trabalho de CRIAR, ESCREVER e CONTAR HISTORIAS. Sua forma de contar histórias é cheia de encantamento e alegria, brindando a todos com poesia, cantigas, brincadeiras, dancinhas e bonecos arteiros como o Pitoco, que vive dentro de um tambor com vários apetrechos de histórias de seu companheiro de jornada. Necessário também dizer, como é criativo com mídia! Seus podcast ou programas de rádio são deliciosos. Agora inventou o lambe lambe e histórias da Disney. Na lojinha do Mestre Pierre André, tem múltiplos talentos, tem teatro, cenografia, figurino, música, carroça e invencionices mil, inclusive muita poesia!
Quem te viu e quem te vê, não imagina como sua saúde é frágil desde pequenino e que toma injeções de insulina várias vezes ao dia. TRABALHADOR que é, enfrenta estas tantas pedras pelo caminho com tal desenvoltura e MAESTRIA, que chega a ser inacreditável! Chega a ser invejável!
Conheci você em 2014 lá em Lagoa Santa, num curso de Contação de Histórias com Beatriz Myrrha. Havia um incêndio próximo e nossa motorista desistiu, retornando a BH. Eu e Simone Santos descemos na rodoviária e voltamos de táxi para assistir sua apresentação de manejo de bonecos, que foi super divertida.
Eu me lembro que você era chamado de “contador de 3 histórias”. De repente, houve uma virada. Não sei precisar as datas, mas fui assistir à formatura de uma nova turma sua de contadores de histórias. Lembro-me de você dizer que não ensinava nada, apenas permitia que o contador de histórias que há em cada um de nós desabrochasse… Em meio às apresentações, verdadeiros diamantes se mostraram à nossa escuta apurada. Você chegou a desenvolver toda a família da Simone Santos como contadores de histórias. Bernardo brilha como uma constelação!
Você organizava apresentações em hospitais, no Parque Municipal, criou, junto com Beatriz Myrrha o Encontrão, 24 horas de Contação de Histórias narradas voluntariamente, com gente de todo o Brasil! Um sucesso repetido! Uniu, transmitiu e revelou muitos de nós! Uma belezura de se ver!
Parece que você também desabrochou e a criatividade foi crescendo… crescendo… que nem a árvore do João e o Pé de Feijão! Chegou até o céu!
No início de agosto de 2022, Leandro Bertoldo criou a “Turma Manoel deBarros”, do Vivenciando a Linguagem, Leitura e Escrita e tivemos a oportunidade de trilhar e abrir estradas através de nossas memórias afetivas, leitura de textos, músicas, poesias, fotografias, dobraduras, cartas e intimidades trocadas. Nossa turma incluía você, meu Mestre Pierre André, Rosi Amaral, Carolina Bertoldo e Luzia Maria de Souza.
Tenho muito a agradecer a cada um, em especial a outro Mestre da Literatura – Leandro Bertoldo, que criou um espaço para trocas que enriqueceram a caminhada literária de cada um de nós. Aprendemos muito uns com os outros e, tenho certeza que muitas sementes germinaram e hão de dar muitos frutos.
Teria muito a falar de todos, muitas mudanças aconteceram através das palavras ditas ou escritas, mas esta carta é para você, caro amigo Mestre Pierre André.
Em 15 de agosto de 2022, Pierre André diz: “ Transplagiei o haicai do Leandro em Aldravia. (Alguém teve a curiosidade de saber o que é?). Como Manoel de Barros, desandou a “preencher vazios com peraltagens com as palavras”, abrindo portas para o infinito do imaginário e do brincar.
“ Tempo, seu bobo!
Quer me “des-Criançar, é?
Vai querendo, viu!…”( haicai do pi)
A poesia arrepia e, de madrugada, “ debaixo das cobertas entre o frio e os garranchos”, sonhando talvez e tentando “guardar o tempo”, você começou a escrever sobre lembranças e objetos de uma caixa chamada coração, cheia de lembranças como “pai, mãe, Pretinha, fuxicos, latinhas e penico esmaltado”. Os mais de 100 textinhos poéticos saíram da caixinha e foram revelados a nossos olhares curiosos e divertidos.
‘Querendo voar
Contando histórias
Voei de balão” (Pierre André)
A professora Rosi Amaral lhe enviou uma carta dizendo que só ela sabia do segredo: Manoel de Barros estava participando de nossas oficinas, disfarçado de Pierre!! A carta tinha até um xique-xique lá dentro! Manuel de Barros respondeu a carta de Rosi Amaral, anotando o nome no remetente. Foi algo extraordinário, até transcendental, quando a moça do correio chamou você pelo nome do remetente: Manoel de Barros.
Você se disse estar “contaminado” por uma doença, que revelou o PIERRE MANOEL e criou “inventações”.
“Estou des-sofrendo de
Manoelsisse.
Se tiver remédio para isso,
não me deem a receita”. ( Pierre André)
Questionei no ZAP: “ Maravilhosa doença esta.100 haicais publicados no face e ainda consegue trabalhar, comer e dormir? ”
Mas a resposta veio breve:
“O alfaiate
Costurando palavras
Doce feito mel” (Pierre Manoel)
“ Conjugação do verbo
Manoelar
EU MA, tu NOEL
Ele, nós, voz, eles, cadê?
DE BARROS, uai. ” (Pierre Manoel)
Está me parecendo, que com a força criativa que te contagiou, logo terei o meu amigo reconhecido como grande escritor, até premiado! Quero te agradecer por ter me permitido participar da intimidade deste des-velar do ESCRITOR que há em você. Foi divertido e até fascinante, participar de momentos tão fortes e “ crianceiros”, ver você sendo MESTRE PIERRE ANDRÉ, “ sentindo borboletas na imaginação”.
Gratidão a você e aos novos amigos PARA SEMPRE! Esta carta visa fixar para a posteridade, estes momentos da TURMA MANOEL DE BARROS. coordenada pelo também Mestre Leandro Bertoldo. Momentos que ficarão em minha CAIXINHA DE MEMÓRIAS! Fotografei um poeta sensível, fotografei um artista desabrochando aos cântaros. O mundo está mais rico!
Abraços carinhosos, querido amigo.
Regina Lúcia Caminha Tôrres
Belo Horizonte, 22 de julho de 2023, às 22,55 horas.
Tem coisa que acontece e parece mentira. Quantas vezes você já ouviu alguém dizer isso? Eu mesmo já ouvi muitas vezes. Ouvi e presenciei.
Outro dia estava na varanda da minha casa com a Rocinante – minha bicicleta de livros. Para quem não sabe, Rocinante é uma bicicleta cargueira retrô, usada como bancada de trabalho, onde, além de escrever, confecciono livros e cadernos em uma prensa de madeira, a qual chamo de “Paula Brito” em homenagem a Francisco de Paula Brito, tipógrafo do século XIX, contemporâneo de Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho. Para isso, adaptei em sua garupa uma mesa também de madeira com gaveta, pois serve não apenas para guardar linhas, agulhas e outros apetrechos de artesania, como dinheiro, sim, dinheiro, já que é também uma loja itinerante graças à mala aberta cheia de livros prontos cuidadosamente dispostos para venda na parte da frente da carga. Com ela eu vou às feiras literárias, praças de eventos e onde mais é possível.
Mas nesse dia estava mesmo era na varanda de casa. Iria receber uma turma de alunos de uma escola com mais ou menos 40 jovens, moças e rapazes, ávidos por conhecerem o processo de fabricação de um livro, coisa rara, só possível mediante a ação de uma boa professora.
Preparei a Rocinante com todo o cuidado sem deixar faltar nada, nem mesmo o pano bordado de tecido fino debaixo da mala, o chaveirinho de filtro dos sonhos no guidom e o lencinho amarelo com uma rosa vermelha para dar aquele charme poético e especial, afinal ela não é qualquer bicicleta, é a Rocinante e precisa ficar bem bonita.
Hora marcada e lá chegavam os alunos com a professora naquela algazarra tradicional e prazerosa dos adolescentes, principalmente ao saírem de sala de aula e estarem em um lugar diferente.
O momento era simples: consistia em mostrar aos meninos e meninas todo o processo de confecção dos livros na “Paula Brito”, desde a colagem da lombada e, principalmente, a costura à mão com linha e cera de abelha para receber a capa de papel ecológico. Assim estava eu nesse trabalho minucioso ao explicar cada detalhe. E como cada detalhe é de fato minucioso a justificar até mesmo a redundância, pois vai agulha e vem linha, torna a passar e torna a ir, os alunos, agora atentos em silêncio raro, se aglomeraram bem perto da bancada com olhos e ouvidos atentos. Pela posição da bancada todos olhavam para baixo com a atenção total em minhas mãos. Nisso entra uma senhora manhosamente do nada a pedir passagem em meio aos jovens. Vem com um arrastar de chinelas e um pescoço esticado a fazer companhia aos olhos compridos. Mas tal foi sua surpresa ao constatar a razão da reunião, que soltou em alto e bom som:
— Ah, não! Pensei que fosse um velório…
E saiu tão desapontada quanto brava, pois onde já se viu aglomerar tanta gente em silêncio em uma casa a olhar para baixo em torno de uma mesa se não fosse para ser um velório e dos bons? Alguns jovens seguravam para não rir, outros não se davam a esse sacrifício e riam à solavancos enquanto a pobre senhora, decepcionada e sozinha, se afastava irritada por não ter uma boa historia para contar sem imaginar que deixava uma muito melhor para trás.
Não foi fácil retomar a atenção. Ora, também pudera! O fato havia sido inusitado por demais para fingir normalidades. Uma senhora não se sabe quem, surgida não se sabe de onde a falar uma patuscada daquelas. Ainda bem estarmos no final da apresentação. Quando os alunos foram embora, fiquei eu e a Rocinante a refletir o acontecido durante um tempo e a certeza de um velho ditado: É cada uma que parece duas… Já ouviu isso também?
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Obrigado por sua leitura! Espero que tenha gostado dessa história. Elas acontecem comigo em toda parte. Curta, comente, compartilhe. Para nós escritores isso é muito importante. A propósito, você já viveu alguma situação inusitada, dessas inesperadas? Conte pra gente.
Por Luzia Maria. Integrante da Vivência Novos Autores. De uma viagem feita a Óbidos em Portugal em 2022.
Reza a lenda ou a história, não sei bem, que havia uma princesa que se tornou rainha de um reino tão, tão distante nos arredores de Portugal. Ela de chamava Isabel!
A menina ainda jovem já era pretendida por vários reis, devido a sua formosura e bondade.
O Rei Don Dinis apaixonou-se perdidamente pela bela princesa e foi o escolhido para com ela se casar.
Isabel, agora rainha, além de bela e formosa era de extrema bondade e simpatia.
Todos a admiravam e diziam:
— Nossa rainha Isabel é uma santa!
— Ela é misericordiosa com os que sofrem…
Outros ainda diziam:
— Ela dá de comer aos pobres e trata com carinho e respeito os mais humildes e necessitados.
— Parece uma criança feliz em meio aos miúdos, diziam.
E Isabel era assim mesmo, desse jeitinho. Alegre, caridosa, inteligente e muito bem quista por todos.
Todos os dias recolhia pães e outros alimentos do castelo, enchia sua cesta e saia feliz para distribuí-los a quem necessitava.
Afinal era o certo a fazer. Se o povo trabalhava para que o rei e a rainha fossem alimentados, nada mais justo que eles, o povo, também fossem sustentados pelo próprio trabalho.
Porém, o rei que não era muito sensível às demandas dos seus súditos, não se agradava desse gesto de sua amada rainha e passou a proibi-la de levar alimento do castelo para o povo…
— Minha amada rainha, doravante (afinal ele era um bom e velho português), não sairás mais do castelo a levar nosso alimento para o povo. Põe-te a meu lado sempre e esquece esse povo.
Isabel não era muito de aceitar ordens, mas era doce e ponderada. Ela encontraria uma forma de continuar alimentando o povo.
— Meu amado rei e senhor, temos tanto e nosso povo padece de fome. Crês que isso é justo? Enquanto temos tanta fartura o povo que nos alimenta nada tem para comer. Tudo lhes é tirado para que nós possamos nos esbaldar.
— Minha ingênua Isabel, sempre foi assim. E povo não pereceu. É a lei!
Mas a bela e bondosa rainha continuou seu trabalho de alimentar os mais necessitados. Sempre que podia e com ajuda de alguns empregados do castelo dava um jeito de estar com o povo alimentando-os.
Estes quando a viam se aproximar, choravam de alegria e lhes beijavam as mãos e os pés.
Isabel era, de fato, muito amada pelos súditos.
Um dia, já muito bravo com o comportamento da rainha, o rei resolveu seguir sua amada. E tão logo ela saíra do castelo o rei saiu sorrateiro atrás dela.
Isabel levava cestos e o avental repletos de pães, frutas e carnes
Em dado momento ele a alcançou e muito determinado lhe disse:
— Tantas vezes pedi, tantas outras ordenei e nada de me ouvires. Serei obrigado a mandar matar-te se estiveres em posse de alimentos do castelo. O que tens nos cestos e no avental? Vamos, dize já!
— Isabel, com receio de declarar que carregava alimentos tão aguardados pelo povo, pediu a Deus em uma breve prece e um olhar ao céu que a protegesse… Nesse instante saiu de sua boca…
— Meu senhor e rei, são flores.
Ao que o rei indagou
— Em pleno inverno? Onde ainda há flores em pleno inverno?
Ela, buscando as palavras disse.
— Certamente foram a últimas que tive a felicidade de encontrar e colher nos jardins ao redor do castelo, meu rei.
O rei não satisfeito quis ver e pediu que ela lhe mostrasse.
Ao que ela, sem hesitar, e não se importando com o que aquilo significaria, deixou cair o conteúdo do seu avental… e para surpresa de todos, inclusive da bela e bondosa rainha, caíram flores, as mais lindas e perfumadas já vistas naquele reino. E qual não foi a alegria, e o contentamento de Isabel e do seu rei.
Afinal o rei amava sua linda rainha. E de fato não desejava matá-la. O rei apenas não havia aprendido a compartilhar. Às vezes precisamos do exemplo que nos ensina.
E foi aprendida a lição. Milagres acontecem sim! Quando acreditamos e fazemos o que é certo os milagres acontecem.
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Sobre Santa Isabel
Menina Isabel,
Rainha Isabel,
Isabel de Aragão, Rainha de Portugal,
Rainha Santa Isabel.
Reinou como rainha consorte de Don Dinis entre os anos de 1282 e 1325, em cujo castelo conheci na cidade murada de Óbidos em Portugal em 2022.
Foi beatificada em 1516 pelo Papa Leão X e canonizada em 1625 pelo Papa Urbano VIII e hoje é a padroeira da cidade de Coimbra.
Texto inspirado em canções de Chico Buarque e da tela Acidente de Trabalho, de Sigaud.
O operário que todo dia fazia tudo sempre igual achou um destino diferente…
Francisco escolhera o branco para se parecer com os pássaros que via em voos tão de perto por cima daquele andaime pingente. Juntou parte de suas economias, meteu-se em uma camisa de cambraia branca e saiu daquela loja como se fosse a última. Andava pelas ruas sentindo-se livre. Todo ele era um sorriso de passarinhar. Sentia que seus braços eram asas e as penas dos dedos tocavam o firmamento. Lembrou-se da história da cidade iluminada a qual por tempos não recordava o nome, mas havia lido em uma revista aberta ao acaso na espera do barbeiro, e quis tocar o céu, fazer um buraquinho nele para deixar passar o facho de luz brilhante. Logo ele a passar dias e dias como se fosse náufrago das alturas ao estar tão perto e tão longe do que desejava. Desejava? Ele não sabia, apenas sentia (que é bem diferente) um leve desprendimento.
Andava como se fosse sábado por aquelas ruas de segunda-feira. Como um aluno travesso, só que adulto, matava o dia de trabalho sem se importar com as consequências. Só gargalhava como se ouvisse música, aquela do farfalhar do princípio de um sorriso flácido de quem nasceu para olhar. Só olhar. Mas agora ele deseja voar como seus amigos das alturas; os pássaros, naturalmente, porque os outros eram operários como ele, com as mesmas mãos grandes e pés enormes contrapondo-se com as cabeças pequenas sem pensação.
Nisso, passou por aquelas ruas poetizando o tráfego sem se dar conta para onde ia. Não carregava pastas, documentos, celular, caderneta, patuá, nada para o identificar ou que lhe fizesse lembrar o desarranjo do uniforme azul marinho da firma. Ao menor sinal de memória corria a distrair-se em olhar para a cambraia branca e novamente se passarinhava.
Desejou tomar sorvete e comer cachorro-quente sem implicar de melar os dedos e os cantos da boca. E daí? Era só limpar! Não entendia a recriminação de sua mãe em tempos meninos e depois de sua esposa sempre tão arbitrária em questões de prazer. Ela era capaz de dizer que não ficava bem a um homem pai de família abocanhar um pão no meio da rua. E assim era por tudo: pela risada mais alta que a gente tem que engolir, pelo grito de gol que a gente tem que encobrir, pela alegria fortuita de nunca sentir. Arree!
Mal começa o sol se pôr, ouve-se o badalar do relógio da matriz. “Os carros avançam os sinais na hora da Ave-Maria”, já dizia a canção plácida de um amigo. “Seria o momento de sair do trabalho” — pensa Francisco — no exato instante em que ouve, vindo do alto dos andaimes, os operários o chamarem, clamarem, gritarem por cuidado. Nem se dera conta de como foi parar ali em frente à construção. Certamente o costume a direcionar a alma distraída para a obrigação de todo dia. A partir daí tudo foi lento e rápido. Rápido para a multidão que se aglomerava e maravilhosamente lento para ele ao sair da noite infinita e retornar à quietude do quintal como numa roda-gigante. Tudo, absolutamente tudo rodou num instante. De repente uma freada. Uma buzina. Um baque. Olhos assustados. Gritos. Muitos olhos. Mais gritos. Rostos disformes. Mãos na cabeça. Nas bocas. Tempo. Paz. Quanto tempo? Não sabia. Quanta paz? Ela agora existia. A sexta badalada do relógio. Silêncio.
Olhou para o vermelho da sua cambraia — não era branco? — e sentiu-se flutuando naquele chão de dormir. Ouviu novamente o farfalhar de asas por cima de sua cabeça ao som longe da Ave-Maria que lá vem, que lá vem, que lá vem…
Lá estavam eles, os pássaros, a esperá-lo…
Apenas sorriu…
Agora…
Podia…
Voar.
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“Amou daquela vez como se fosse a última”. As músicas de Chico sempre me fizeram pensar. Pensar em acontecimentos, pensar em situações, pensar em histórias… Essa é uma delas, e juntamente com a tela de Sigaud nos conduz a um desprendimento perfeitamente possível à suavidade. Por que não? Para uma experiência ainda maior, ouça e depois deixe seus comentários, eles são muito importantes.
É com quase pesar que noticio uma tentativa de assassinato. Calma, deixe-me explicar. Refiro-me ao assassinato (mais uma vez) da nossa língua, da nossa cultura, da nossa história. Digo “quase” porque não chegou às vias de fato, mas nos abriu uma chaga desoladora.
O CASO
Ganhei de uma amiga uma coleção de Jorge Amado em capa dura com detalhes dourados das casas e ruas de Salvador/BA. Uma coleção de 1980. Pasme! Estava dentro de uma sacola jogada no lixo! Essa amiga carinhosamente os entregou a mim. Eu os peguei, limpei um a um e os acolhi em minha casa. Esse é o triste retrato de parte da nossa sociedade, a mesma que joga livros fora enquanto muitos se ocupam em demasia a produzirem dancinhas em redes sociais e são tidos como influenciadores, quando não chamados de heróis.
Livros encontrados no lixo.
Detalhes dourados das casas e ruas de Salvados/BA
“Que tempos! Que tempos!”
A CARTA
Querido Jorge Amado,
Quero lhe pedir desculpas. Posso imaginar a sua tristeza ao ver os seus livros dentro de um saco plástico jogados no lixo. Talvez você até saiba quem praticou essa tentativa de assassinato, eu nunca vou saber. Não, não é exagero meu e você bem sabe disso. Dentro daquele saco estava Gabriela e todos os capitães da areia, o Pedro Bala, o Sem Pernas, o Pirulito, o Boa Vida… Coitado do Boa Vida! Conheceu mais essa nesse nosso “País do Carnaval”. Lá também estava o Quincas Berro Dágua a morrer mais uma vez nessas “Terras do sem fim” quase sem ver “A luz no túnel” sem a ajuda do “Cavaleiro da esperança” porque todos eles estavam lá também sem esperança alguma. Enfim, Jorge Amado, estavam dentro daquele saco de lixo uma infinidade de personagens gestados ao suor de sua pena. Toda essa gente nasceu e fez nascer uma enorme quantidade de pessoas, artistas, atores, diretores de teatro, telenovelas, maquiadores, cenógrafos, figurinistas, até mesmo o baleiro da esquina e das casas de espetáculo e cinema cuidou da sua família por causa da sua obra, ou melhor, das suas obras. Muitos, muitos escritores e escritoras, inclusive este que lhe redige essa carta, não apenas em nosso Brasil, mas em outros países, como em África, foram influenciados pelo turbilhão de páginas criadas e recriadas por essa cabeça de cabelos fartos. Gente como Mia Couto, Pepetela, Agualusa, Ondjaki, Paulina Chiziane, entre outros e outras bebedores e bebedoras de sua fonte estavam ali a morrerem um pouquinho. Uma chacina.
Mas isso ainda diz pouco. Quase assassinaram dias, noites, madrugadas a fio em que se debruçou em sua máquina de escrever para dar vida à nossa cultura, esperança às vendedoras de acarajé, dignidade ao povo brasileiro, da Bahia de todos os santos para o mundo inteiro. Tudo jogado dentro de um saco e posto sem dor e sem consciência no lixo. No lixo…
Caro Jorge Amado, tentei resgatar as suas palavras, limpá-las em meio a páginas manchadas e amarelecidas, muitas estragadas. Estive em companhia de Tieta e com muito cuidado passei de leve o pano embebido em solução de compressa sobre ela para trazê-la à convalescença. Fiz o mesmo com muitos outros. Alguns recuperaram mais prontamente, teve aqueles mais necessitados e também os mais delicados. A vida é assim, cada qual com sua sorte e destino. Eu tentei.
Jorge Amado, desculpe a intimidade de chamá-lo assim em palavras sem saber se atrapalho o seu descanso (ou trabalho?). Atrapalho? Seja sincero. Principalmente por ser a primeira vez a fazê-lo de forma tão assim direta. Mas eu lhe digo: antes fosse apenas essa desculpa e não àquela, motivo dessa carta, isto é, a tentativa de assassinato. O meu pedido é porque eu como escritor e professor, ainda mais de literatura, em algum momento falhei. Poderia ter feito um pouquinho mais, falado mais de você para alguém, apresentado a sua obra, contado as suas historias. Talvez ao fazer isso tivesse chegado a quem teve a estupidez de fechar naquele saco plástico a riqueza que poderia ter lhe salvo a vida, não a sua ou a minha; a sua já está salva, a minha em tentativa, mas a dele mesmo ou dela e de tantos deles e delas nesse mundo, porque, infelizmente, em nosso país isso é fato corriqueiro e se a literatura é uma escada muito alta, e eu sempre acreditei nisso, mais vale deixar os degraus intactos a remendá-los. A subida é muito mais certa e segura contra a ignorância.
Bem, caro Jorge, nome de santo, Amado, nome do que mais se deve propagar nesse momento, como bem disse Angelo Campos, um amigo filósofo, fico por aqui, não sem antes enaltecer em alto e bom som que os livros estão comigo agora em ambiente seguro, não se preocupe.
Poderia acrescentar aqui nessas linhas a espera de sua resposta. Não acrescento. Deixo-o livre. Há de ter afazeres muito mais importantes por aí.
Cordialmente,
Leandro Bertoldo Silva.
P.S. Não poderia deixar passar a oportunidade de pedir-lhe que envie um abraço meu ao Graciliano, à Clarice, ao Carlos, ao Manoel, aos nossos Joões – o Cabral, o Guimarães e o Ubaldo -, ao Fernando, à Lygia, ao Gullar, Cecília, Henriqueta, Raquel, a sua saudosa Zélia e a tantos outros que foram em suas existências por aqui e ainda o são por aí autênticos e verdadeiros “influenciadores”, esses sim.
Que tempos! Que tempos!
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Bem, essa é uma daquelas histórias que nos fazem pensar: o que andamos a fazer com a nossa cultura, com os nossos valores? Livros não são amontoados de papel a jogar no lixo, são memórias a guardar na alma e a compartilhar com o mundo. O que acha disso? Comente. Compartilhe.
Desde garoto Colombo gostava de subir qualquer coisa escalável. Com menos de um ano, engatinhando, subiu em uma cadeira à beirada de uma mesa, depois na mesa e chegou à janela. Com grades, ainda bem. Aos dois anos foi pego no alto da cortina da sala, escalou-a como se fosse uma corda. Daí a subir as torres da Cemig, para desespero de sua mãe, foi um pulo, quase literalmente.
Subiu montanhas, escalou falésias, se equilibrou em corda bamba, trabalhou no circo, suas ocupações sempre traziam esse interesse quase obsessivo pelas alturas. Quando foi procurar trabalho obviamente escolheu um que lhe permitia olhar as pessoas de cima, do alto de seu pedestal, como se fossem formigas carregando os jardins para casa, cada um a seu jeito. Ele sempre imaginava que, como pequenas formigas, as pessoas carregavam suas pequenas conquistas para casa e as guardavam como se fungos se tornassem e o bolor consequente os alimentasse ou os entorpecesse.
Não era exatamente a vida que queria. Só lhe faltavam asas para sua transformação em um ser humano da categoria dos himenópteros, ou dos columbídeos, bastando decidir se preferia ser inseto ou ave. Imaginava que seus pais já decidiram por ele. Colombo deve ser uma palavra derivada de columbídeo, pois, em língua francesa “colombe” é aquela ave universal conhecida no Brasil como pombo. Então, por que não voar como uma columbídea? Ou paloma, em língua espanhola? Gostava da expressão “paloma mensajera”, ou pombo-correio.
Em sua maturidade Colombo foi trabalhar na construção civil. Percebeu que suas habilidades alpinísticas o diferenciavam na profissão. Rapidamente subia nas alturas dos prédios em andamento, mesmo carregando um saco de cimento nas costas. Um empregado modelo, preferido pelos mestres de obra. Era querido também pelos colegas, que achavam diferente, um voado, sempre alegre. Tinha uma qualidade rara, intrínseca à sua personalidade: era querido pelas aves. Sempre haviam pássaros em seu entorno. Ele os alimentava, óbvio. Alguns pássaros o acompanhavam de uma obra à outra. Principalmente aquela pomba azul.
Pomba azul? Existe isso? Tal como o cisne negro, a gente pensa que não existem até vermos um. A partir dessa visão, essas raridades passam a nos acompanhar pela vida. Colombo deu até um nome para a pomba azul. Era Colombina. Formavam uma dupla, Colombo e Colombina. Ele até aprendeu a falar arrulhez, para emitir arrulhos tais que a Colombina. Deu certo, pois ela sempre aparecia quando ele começava a arrulhar.
Um dia, a Colombina azul não apareceu o que deixou Colombo preocupado. Não conseguiu trabalhar direito naquele dia. Recebeu com mau humor, raro mau humor, os deboches dos colegas.
— Está solteiro hoje, Colombo? Sua Colombina arrumou outro marido?
Fingiu não ligar, mas seu mutismo não era normal. Estava deveras preocupado. Passou o dia olhando o horizonte, arregalando os olhos na tentativa de ver ao longe se sua ave se aproximava. Nada. O sol já estava no meio de sua descida para se esconder atrás das montanhas distantes, desenhando no céu o pedaço diário de seu analema, quando ela chegou, machucada. Colombo tentou cuidar da bichinha, mas ela se manteve distante, ferida, dolorida.
De repente surgiu uma ave de rapina, um gavião ou um carcará, provavelmente o mesmo que a ferira, e desferiu mais um golpe em suas asas já sangrentas. Colombina tentou voar e caiu das alturas do prédio em construção. Colombo não teve dúvidas. Saltou, sem as asas dos columbídeos ou dos himenópteros. Esqueceu-se deste pequeno detalhe: suas asas eram apenas imaginárias e não suportavam o peso da queda. Morreu na contra mão sob os olhares assustados dos colegas peões da construção. A luz do sol do fim de tarde deu um colorido especial à cena, digna de um Sigaud, quiçá um Portinari, já que os dois eram amigos. De místico, virou música, do Buarque, que não sabia dessa Colombina, apenas de outra, da Noite dos Mascarados.