EU SOU A ÁRVORE E A ÁRVORE SOU EU

Árvore

Por Leandro Bertoldo Silva

Você já passou pela experiência de desejar algo ardentemente e, de repente, perceber que já a possuía há tempos e não se dava conta disso? Pois é, isso aconteceu comigo…

Sempre admirei as pessoas cuja forma de vida se assemelha intimamente com aquilo que acreditam. Isso pode parecer simples e óbvio, mas não é tanto assim. Quantas pessoas você conhece que vivem uma vida que não querem? Seja no trabalho, no casamento, na família, ou com elas mesmas… Acontece que isso é muito comum.

Eu sempre quis ser escritor sem saber ao menos o que isso, de fato, significava. E é exatamente aqui que a minha vida se funde com um pé de ameixa…

Eu tinha 7 anos quando a minha brincadeira preferida não era jogar bola ou brincar de carrinho, como os outros meninos da minha idade, mas subir em um pé de ameixa que ficava ao lado de um pé de goiaba na casa da minha avó, e lá ficar horas viajando pelas páginas dos livros que levava comigo, usando os  galhos da árvore como estantes. Era a minha primeira biblioteca. Eu não tinha uma ideia muito clara do que aquilo representava, mas eu também queria inventar histórias. Foi assim que se deu o meu contato com a literatura.

SítioNaquele tempo passava um programa na televisão: O Sítio do Picapau Amarelo e, igualmente, de todos os lugares do Sítio, como o poço dos desejos da Emília, a cabana do Tio Barnabé e dos inesquecíveis Zé Carneiro e Malazarte, a cozinha da Tia Nastácia, a gruta da Cuca, a casa de bambu do Saci, a venda do Seu Elias no Arraial dos Tucanos, o que eu mais gostava, o que fazia mesmo os meus olhos de criança brilharem era a biblioteca da Dona Benta, quando o Visconde – o meu herói – aparecia lendo aqueles fantásticos livros de histórias e contos da Carochinha. Novamente, o pé de ameixa transformava-se naquele lugar e de lá eu ia à lua e dela aos corredores assustadores do labirinto do Minotauro, protegido por Teseu e Pedrinho. O pé de ameixa era, portanto, um portal onde eu desnudava-me de mim mesmo e ali eu sonhava nas páginas dos livros, inicialmente da Coleção Vaga-lume que, por intermédio de uma professora – Dona Marieta – a qual sou muito grato eternamente, incentivou-me a ler “O Caso da Borboleta Atíria” e “A Ilha Perdida”… Hoje as coleções são mais modernas, mas aqueles livros transformaram a minha vida, que, com o passar do tempo, foram ficando mais robustos…

A partir de José Lins do Rego e seu “Menino de Engenho”, fui descobrindo Graciliano Ramos, Machado de Assis, Drummond, Clarice Lispector, Fernando Sabino e uma infinidade de vozes que tornaram a lista imensa. E ainda hoje continuo descobrindo escritores, muitos se tornando amigos, outros pelas páginas dos seus livros, como Mia Couto, Valter Hugo Mãe, Conceição Evaristo, entre outros e outras.

Entre as muitas coisas que estes escritores e escritoras me ensinaram, está o fato de eu querer profundamente estar entre eles, fazendo parte do mundo das histórias, dos poemas, dos romances, dos contos, pois aquilo tudo me encantava. Hoje sou escritor e devo dizer que nada disso teria acontecido se não fossem muitas pessoas – os meus pais, claro, os primeiros a me contarem histórias, a Dona Marieta, e a tanta gente que entendeu o meu amor pelos livros e começaram a me presentear com eles. Mas essa história só foi possível existir por causa do pé de ameixa. Acredito mesmo que se não fosse ele eu não estaria aqui escrevendo essas lembranças. Essa árvore me acolheu como um fruto, cuidou de mim e dos meus sonhos, afagou a minha imaginação e moldou a minha existência de tal maneira que digo sem hesitação que eu sou essa árvore e essa árvore sou eu.

Recentemente, fui até o local onde ela estava para, depois de tantos anos, pois minha avó se mudara para outra casa, vê-la e abraçá-la, mas… O pé de ameixa já não existe mais. As nossas histórias não são as histórias dos outros e é por isso que devemos escrevê-las – para salvá-las… O pé de ameixa foi arrancado para, em seu lugar, ser construído uma casa. Não cheguei a entrar. Preferi voltar. Mas… Eu disse que ele não existe mais? Não é verdade!

Em uma dessas noites, sonhei que voltei lá onde ele ficava. E no meu sonho ele estava onde sempre esteve, no mesmo lugar. Quando apareci no portão da casa e ele me viu, os seus galhos balançavam tanto, mas tanto, que eu cheguei a ver um sorriso em toda a árvore. Corri a abraçá-la e a acariciá-la e esse acontecimento foi tão real que ficamos os dois assim por um grande tempo. Acordei em meio ao abraço dessa árvore que até agora, quando escrevo, é possível sentir.

Pois é, o pé de ameixa existe sim! Não apenas em meu coração, mas até no meu corpo, pois, uma vez, ao escorregar da árvore, os seus galhos, na iminência de salvar-me, amparou-me na queda deixando uma cicatriz em meu braço. Mais do que isso, ele existe onde hoje é a minha forma de viver e cuidar da minha família e de tantos alunos e leitores, fazendo com que essa história continue. Sua lembrança em mim é tão marcante e sua importância tão grandiosa, que anos depois, já formado, casado e pai – afinal, lembre-se que eu tinha apenas 7 anos de idade – recriei o mesmo pé e dei a ele o nome de Árvore das Letras… Tenho certeza que esse sonho, esse abraço foi um pedido de agradecimento.

Mas mesmo assim, mesmo fazendo existir essa Árvore, senti-me no dever de devolver a ela o acolhimento. Assim, na cidade onde hoje eu moro, a 550 Km de Belo Horizonte, vi um pé de ameixa na casa de uma senhora… Fui até essa casa, chamei a senhora e contei para ela toda essa história. O pé estava cheio de frutas, que ela, entendendo a importância do momento, me deu um cachinho, que levei para casa. Nunca o sabor da fruta me fora tão delicioso! Sabor de lembrança… Das sementes que sobraram, plantei-as em vasinhos e de todos os vasinhos um germinou. Estou cuidando dele com muito carinho, mas todos sabem que um pé de ameixa é uma árvore de grande porte, com raízes bem profundas. Eu não tenho um local para plantá-lo definitivamente… Mas uma pessoa tem! E sei que essa pessoa entenderá perfeitamente o sentimento que aí existe e saberá cuidar muito bem dele.

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Pois é, mano velho, estou cuidando da Árvore das Letras enquanto ela é essa mudinha e preparando-a para viajar até sua chácara em Curitiba. Cuida dessa árvore para mim, sabendo que ela é a minha história e, sendo assim, é uma parte minha que estará plantada aí… Fico muito feliz em saber que assim essa história estará transpondo fronteiras e esse pé de ameixa ficará enorme para, quem sabe, um dia uma outra criança suba nele para ler um livro…

4 comentários em “EU SOU A ÁRVORE E A ÁRVORE SOU EU”

    1. Você consegue fazer vir à tona os momentos fofos e mais inusitados da nossa existência! Parabéns Leandro! Linda história, feliz infância ! Que se eternize essa sua receita de ser feliz!

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