A PROPÓSITO D’O MENINO DO DEDO VERDE

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Por Leandro Bertoldo Silva

Você já leu O Menino do Dedo Verde, do acadêmico francês Maurice Druon?

Se sim, para você é uma obra infantil ou adulta? Se não, tanto para você quanto para quem leu vale muito a pena a reflexão publicada na orelha da 57ª edição – Rio de Janeiro, da José Olympio, de 1996.

Bem, a edição vem demonstrada como literatura infanto-juvenil, mas posso lhe assegurar que este é um dos deliciosos casos que a classificação pouco importa, pois tanto crianças, quanto jovens ou adultos são arrebatados para um mundo onde Tistu, o personagem dessa história, nos coloca de frente a uma enxurrada de pensamentos…

Nessa referida edição é onde se encontra a reflexão mencionada que o crítico José Geraldo Nogueira Moutinho (1933-1991), uma das grandes personalidades literárias do Vale do Paraíba, publicou na Folha de São Paulo em junho de 1973.

Na época, estando eu com então 1 ano de idade, não podia sequer imaginar que 44 anos depois iria encontrar, tanto nestas palavras quanto na obra em si de Maurice Druon, um livro que é exatamente, sem pôr nem tirar, tudo o que Moutinho diz.

Na verdade, acredito que ele traduz exatamente o que os que leram a obra tiveram a oportunidade de conferir. E para aqueles que ainda não tiveram essa oportunidade, transcrevo aqui o que lá se foram tantos anos e ainda se mantém absolutamente atual…

Vamos lá…

Um acontecimento a destacar

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A propósito d’O MENINO DO DEDO VERDE o crítico paulista Nogueira Moutinho escreveu na Folha de São Paulo a seguinte crônica:

Trata-se de um dos acontecimentos, não direi literários, mas poéticos, do ano, o lançamento deste livro de Maurice Druon, traduzido por um dos mais completos conhecedores da linguagem lírica no Brasil, Dom Marcos Barbosa. O fato do monge beneditino, recriador em nosso idioma do Pequeno Príncipe, haver se dedicado a verter esse outro texto, já é uma espécie de garantia prévia no tocante à sua qualidade, ao seu lirismo, à sua lição de poesia e de verdade. Maurice Druon, embora acadêmico e autor de romances históricos, nada perdeu de flexibilidade, de gratuidade lírica, não se deixou esclarecer nem emburguesar pelos títulos, lauréis e outras prendas da velhice. É capaz de articular um relato nesse dificílimo idioma que adultos e crianças entendem, os primeiros, é claro, se não matarem em si o espírito de infância, isto é, o espírito de poesia.

Livro para reler ao longo dos anos, se termos a sorte de descobri-lo na idade cronológica certa; livro para meditar em toda a sua riqueza, se já o recebemos adultos.

O paralelo com o récit hoje clássico de Saint-Exupéry não é exagerado. Dom Marcos, que verteu a ambos para o nosso idioma, confessa que só deu pela semelhança quando terminou o trabalho e se pôs a refletir criticamente sobre o livro. De fato, o Pequeno Príncipe pertence a uma mitologia; Tistu, o menino do dedo verde está, ao contrário, preso às contingências sociológicas do mundo em que existimos. O primeiro é intemporal, o segundo é filho da era da poluição, de agressividade e do desentendimento. Sua missão é justamente despoluir, humanizar, reintroduzir a poesia num universo do qual ela se encontra exilada.

Sobre um mundo cinza e enlutado, Tistu deixa impressões digitais misteriosas que suscitam o reverdecimento e a alegria. Tão apaixonante quanto o Pequeno Príncipe, sua tarefa é mais urgente e mais original. Druon foi capaz de criar um símbolo rico de conotações e de apelos, um significante símbolo cujo significado jaz um pouco em cada leitor, capaz de florescer ao descobrir-se também possuidor de um polegar verde.

senhor Bigode

Segundo a explicação do velho jardineiro, Bigode, ao menino, “o polegar verde é invisível. A coisa se passa dentro da pele: é o que se chama um talento oculto. Só um especialista é que descobre. Ora, eu sou um especialista. Garanto que você tem polegar verde”. E à pergunta atônita de Tistu o jardineiro prossegue: “Ah! é uma qualidade maravilhosa, um verdadeiro dom do Céu. Você sabe: há sementes por toda parte. Não só no chão, mas nos telhados das casas, no parapeito das janelas, nas calçadas das ruas, nas cercas e nos muros. Milhares e milhares de sementes que não servem para nada. Estão ali esperando que um vento as carregue para um jardim ou para um campo.”

A simbologia quase evangélica deste pequeno livro faz dele realmente um acontecimento a destacar entre a massa dos lançamentos literários. Cremos estar presenciando o retorno do Pequeno Príncipe: como nas fábulas antigas, se disfarça como Tistu, para só revelar sua verdadeira identidade aos que como ele possuem o polegar verde.”

(Folha de S. Paulo, junho de 1973)

Maravilhoso, não?

Então é assim: se você é um dos felizardos que já leu este livro de verdades e encantos, de flores e cheiros, não importa quanto tempo tenha, se muito ou pouco, se dê a oportunidade de reler agora com ainda mais atenção no momento atual que estamos passando, não apenas no nosso país, mas em toda humanidade…

Se você ainda não leu, nem é preciso dizer, um mundo de emoções, descobertas e verdades o espera…

E não se esqueça! Adoraria saber o que você achou da obra. Entre em contato, comente, recomende…

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