O TAMANHO DOS SONHOS

Por Paulo Cezar S. Ventura

Sonhos não devem ser espalhados. Só podem ser cochichados em orelhas amorosas e amigas.

Depois do acidente com o componente da banda Paralamas de Sucesso, Herbert Viana, que o deixou paralítico e matou sua esposa, os voos de ultraleve saíram de moda. Quase não se fala mais neles. Talvez a modernidade aeronáutica tenha decretado sua falência, afinal, espera-se por voos individuais com um motor às costas e propulsor nos pés, não se sabe.

Vô Ventura(eu) sempre gostou de voar. Tem mais horas de voo que urubu de meia idade e pensa em abrir uma escola de pilotagem para pássaros jovens. Se será um sucesso nunca se sabe. Os empreendedores de carteirinha sempre dizem que um bom começo é a ideia original. Mais original que isso?

O fato é que os voos foram diminuindo e hoje, para visitar a filha custa uns dois mil reais, ida e volta, mais deslocamentos aos aeroportos, mais o lanche nas horrorosas horas de espera no aeroporto de conexão, esses e outros voos se tornaram impossíveis. Voar, só em sonhos.

Já que é assim, Vô Ventura sonha e voa. A ordem dessas ações não importa: sonha e voa tanto quanto voa e sonha. Acordado e dormindo. Voos imaginários, porque o que faz, de fato, é caminhar. Não pode ver uma montanha que sonha em voar sobre ela. O problema, um grande problema: as montanhas, hoje, têm donos. As mineradoras são donas de metade delas e fecham suas entradas; os condomínios são donos da outra metade e também fecham suas entradas. A última vez que passou por debaixo de uma cerca encontrou um cão bravo e um vigia atrás dele. Ainda bem que o vigia foi esperto e mandou o cão parar. Só pegou o bolso traseiro de sua bermuda.

O que sobrou, Vô Ventura? Apenas as caminhadas urbanas e algumas caminhadas em grupo pagando um tanto pelas pousadas e pela segurança. Pagar para caminhar, é o que resta aos caminhantes de hoje. Ou simplesmente seguir pelas estradas sob o risco de atropelamentos. Cadê São Cristóvão, o padroeiro dos caminhantes? Perdeu o emprego. E nossos sonhos diminuíram de tamanho! Mas ainda são sonhos e eu os coloco do tamanho que quero.

Abaixo todas as cercas e todas as fronteiras!

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O tamanho dos sonhos é uma história do livro “O encontros das improbabilidades”, do escritor Paulo Cezar S. Ventura. A obra, publicada pela Árvore das Letras, através do selo Alforria Literária e parceria da Editora Rolimã, é fruto da Vivência Novos Autores, uma imersão de sentimentos por meio da leitura e escrita que tem o objetivo de aprimorar a percepção literária e metafórica das histórias que lemos e ouvimos.

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Para adquirir o livro “O encontro das improbabilidades”, entre em contato com a autor no perfil https://www.instagram.com/paulocezarsventura/

Forte abraço!

Até a próxima.

COM A PALAVRA *

* Título da publicação especial dos discursos acadêmicos Vol. 1 – 2006-2013, da Academia de Letras de Teófilo Otoni.

Por Leandro Bertoldo Silva

Dia 07 de outubro de 2023 estarei tomando posse como membro titular da Academia de Letras de Teófilo Otoni, onde irei ocupar a cadeira nº 27, cujo patrono é Luiz Gonzaga de Carvalho.

Essa honraria veio 11 anos após a minha nomeação, na mesma Academia, de onde jamais me afastei, como membro correspondente.

Quando olho o tempo pretérito da vida, de 2012 para cá, as pessoas conhecidas a tornarem-se amigas, outras a chegarem a assumirem o seu lugar em mim e tantas coisas a poetizar caminhos escritos e versejados, vejo que tudo tem seu momento. Foi preciso amadurecer letras e prosas para poder sentir a vida e fazer brotar um novo impulso para o futuro.

O nascer do sol…

Que dia será esse?

Apostas incertas…

Sim, este ainda virá, mas o que vivo hoje é fruto destas palavras compartilhadas no dia 15 de dezembro de 2012, na sessão solene de posse, como então membro correspondente, onde, na ocasião, disse assim:

Inicialmente, quero agradecer a Deus, razão maior de todas as conquistas. Quero saudar e agradecer aos acadêmicos e confrades da ALTO – Academia de Letras de Teófilo Otoni, na pessoa do acadêmico e professor Wilson Colares da Costa e professora Elisa Augusta de Andrade Farina, presidente desta tão importante instituição. Quero externar minha mais alta gratidão à escritora e também acadêmica e amiga, Marlene Campos Vieira, de onde partiu minha indicação para ser agraciado com este título que muito me responsabiliza, e também à acadêmica e amiga Neuza Ferreira Sena, que fortaleceu e consolidou esta indicação tornando-a realidade. […]

À minha querida esposa, Geane Matos, e minha filha Yasmin Bertoldo Silva Matos, pelo amor, pelo carinho, pela força, pelas renúncias e compreensão de meu trabalho e amor pelas letras.

Por fim, agradeço a todos os meus familiares, presentes e ausentes. Mas quero agradecer especialmente e dedicar esta conquista a duas pessoas de extrema importância em minha vida. Pessoas que foram responsáveis por eu estar aqui nesse lugar de honra tão abençoado. Pessoas que se doaram, literalmente, e não mediram esforços para que eu me tornasse um ser humano digno e um homem de bem; que me ensinaram o valor do estudo, do esforço, da fé em Deus e na vida. Pessoas que, por mais que eu agradecesse, ainda ficaria em débito e que por isso, e muito mais, os tenho como heróis: meus pais – Aniel Rocha da Silva e Maria Elena Bertoldo da Silva. Pai, mãe, muito obrigado do fundo da minha alma.

Estar aqui hoje é como um sonho acordado. Esses são os melhores, pois não acabam, permanecem. Ser um acadêmico é ter o seu nome registrado para a eternidade. Olavo Bilac, quando perguntado por que os acadêmicos são chamados de imortais, em resposta ele disse “porque eles não têm onde cair mortos”, mostrando a irreverência de um grande poeta. De qualquer forma, esta condição traz a responsabilidade perene desta honraria. Talvez eu devesse proferir belos poemas ou frases memoráveis, referindo-me a alguns gigantes da literatura que me encantam tanto. Mas creio ser mais sincero e autêntico comigo mesmo e com todos se em vez de belas citações, abrir meu coração e deixar transbordar meus mais sublimes sentimentos de emoção. […]

Neste momento em que passo a integrar esta instituição como um de seus membros correspondentes, explode em mim a vontade de transformar meus escritos, artigos, contos e publicações em algo mais substancial, pois, afinal, encontro-me na presença de ilustres acadêmicos e personalidades, em sua grande maioria com obras já consolidadas e devidamente reconhecidas como parte da história literária e cultural de Teófilo Otoni. De tudo uma certeza: venho para somar. Mas certamente ganho o presente da aprendizagem e bênção de fazer parte deste seleto mundo dos escritores que tem, nesta casa, grandes representantes. Este é o sonho realizado e a oportunidade que me é dada, a qual devo honrar como um de seus filhos. É bem verdade que as oportunidades não acontecem por acaso ou de uma hora para outra. Tenho consciência que elas foram sendo construídas ao longo de muitos anos à base de muito esforço e trabalho. Essa condição, inclusive, nunca acaba; continua sendo necessário o empenho diário. E é bom que seja assim. É o lado positivo da insatisfação, do querer ir além, do não acomodar, do querer aprender por saber que, assim, podemos nos doar mais, com mais qualidade.

Muitas coisas eu ainda poderia dizer, muitas pessoas eu poderia citar, mas como se trata de um espaço predominantemente literário, deixarei que as palavras falem por mim de agora em diante.

Escrever… Dizer o que está por dentro, juntando sentimentos em palavras alucinadas, loucas, desvairadas que, quando encontradas, se acalmam. Será? Não sei… O que sei é que assim, minha vida, como a de um livro, vai se escrevendo – páginas ao vento, palavras ao ar.

Obrigados a todos de coração e está dito o necessário.

Muito obrigado.

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Bem, aí está. Agora, 11 anos depois, deixo aqui o convite para a solenidade de posse para membro titular, a acontecer no dia 07 de outubro, às 19 horas, na Câmara Municipal, em Teófilo Otoni. Viva as letras! Viva a literatura! Viva a ALTO!

Saudações acadêmicas.

Forte abraço!

Até a próxima.

É COMO SE

Por Patrícia Vaucher

Há momentos em que somos provocados a escrever um novo capítulo de nossas vidas. Isso surge quando o que estamos vivendo não faz mais sentido para uma alma que cresceu além dos limites impostos. Com o passar dos anos as coisas que foram vividas vão repousando suavemente no passado, encontrando seu assento. Mas vivemos montados em dias que correm, deslizam na rapidez das horas deixando escapar no movimento a paisagem que muda incessantemente cumprindo seu papel impermanente, e quando nos olhamos no espelho vemos alguém que já não é mais quem era. Esse é o ponto, essa é a hora. Hora de confrontar quem realmente está ali a nos mirar, quem é ela/ele?

Foi assim que aconteceu naquele final de inverno. Chovia muito naquela noite. Ela dormia profundamente. De repente parecia que tinha saltado da cama com uma carga extra de energia, coisa rara. Estranhou, mas não questionou, queria mesmo era aproveitar as horas para colocar em ordem os amontoados de estudos, leituras e demais afazeres do dia a dia. Correu até o banheiro jogou um pouco de água gelada nas faces. Secou o rosto e ao olhar-se viu refletida no espelho a imagem de uma mulher. Quem era ela? Parecia indagar-lhe algo. Olhou detidamente aqueles olhos misteriosos que brilhavam num tom azulado como o oceano. Não hesitou nem por um instante, mergulhou em águas profundas.

A partir dali assistiu várias cenas de sua vida como num filme. Algumas eram fiéis aos fatos, outras pareciam um pouco distorcidas, as melhores eram aquelas que contavam sua história como ela desejaria que tivesse sido. Riu, chorou, desesperou, esperançou. A cada imagem que assistia seu corpo ia se transformando e junto a ele, algo do lado de dentro também precisava se encaixar à nova forma do corpo. O processo era bastante dolorido.

Então sonhou… No sonho ela era aquela mulher do espelho. Entendia a vida de outra forma. Parecia que tudo tinha se invertido, sentia as coisas com o coração. Enxergava o mundo através das essências e não mais a partir dos olhos do ego. Entendeu que todas as coisas eram exatamente como tinham que ser e foi aí que tudo começou a fazer sentido para ela. Entendeu finalmente o verdadeiro motivo de estar viva.

Acordou sabendo que tinha sonhado com algo muito especial apesar de não lembrar muita coisa. Inconscientemente inspirada, viveu a partir daquele dia com uma enorme sensação de pertencimento, apesar da pacata vida social que levava. Nunca tinha vivido algo assim. Nada mais lhe faltava. Tampouco tinha necessidades. Sonhava em compartilhar com as pessoas sua descoberta. E deve ter sonhado muito desde então, inspirou milhares a seguirem seus corações, enfrentando seus medos, superando desafios, entusiasmados pelo simples ato de viver sonhando acordado.

Acredite! É muito mais simples do que parece, dizia ela.

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Nascituro é um livro de Patrícia Vaucher, fruto da Vivência Novos Autores, uma imersão de sentimentos por meio da leitura e escrita que tem o objetivo de aprimorar a percepção literária e metafórica das histórias que lemos e ouvimos. Patrícia traz em sua obre uma interatividade inovadora: cada história é acompanhada por uma consigna, que é uma forma de promover o aprendizado e a reflexão a partir de um caminho sugerido. A consigna dessa história é a que vem a seguir:

Sonhar! Quando somos provocados a sonhar geralmente imaginamos coisas mirabolantes que gostaríamos de fazer ou possuir. Porém a vida exige mais de nós. Qual seria o verdadeiro sonho a ser sonhado?

Você pode escrever, caso queira, aqui nos comentários, ou enviar também para a autora.

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Para adquirir o livro “Nascituro”, entre em contato com a autora no perfil https://www.instagram.com/patricia_vaucher/

Forte abraço!

Até a próxima.

SIM, EU TAMBÉM JÁ ESCREVI CARTAS DE AMOR

Por Leandro Bertoldo Silva

Como diz Fernando Pessoa:

“Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, como as outras, ridículas”.

Mas deixa claro…

“Só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas”.

Concordo tanto com Fernando Pessoa que já me dava por escrevedor de cartas de amor antes mesmo de conhecê-lo. Não porque elas eram direcionadas a alguém, pois as escrevia para que alguém tomasse posse delas e preenchesse o que faltava. Assim, andava a escrever aos ventos, às árvores, aos pássaros e algo curioso aconteceu: ninguém veio ocupar o seu lugar. Com isso, elas se perderam. Mas o tempo, seja lá o que ele for, é generoso, e no dia 18 de março do ano 2000, um mês após estar com quem estou há 23 anos, descobri que todas as cartas viraram poesia. A diferença é que elas, sim, tinham um destino: Geane Matos. Deixo aqui o que foi dito naquele dia, não sem antes uma advertência!

Poderia muito bem fazer várias emendas de linguagem e outras alterações para darem às palavras um estilo mais afeito ao que hoje se tornou a minha escrita. Mas iria junto a feição do sentimento o qual tive no momento em que as compus. Por isso, perdoem-me pelo que achardes ridículo, mas as manterei tal qual as fiz, pois, se assim não fosse, não seria uma carta de amor…

E assim escrevi:

Nem o sol, nem as flores ostentam maior beleza.
Por mais que tentasse dissimular, já não mais conseguiria.
Meus pensamentos me traem ao perceber que são os seus olhos e sorriso
que os conduzem a um mundo de sonhos e cores,
tal qual o sonho do artista que o induz à chama medrosa de encontros coloridos
ao coração que aquece palavras graciosas.

O que dizem os sábios a respeito das paixões?
O que dizem os cavalheiros e até mesmo os menestréis?
Cantaram as rosas de todos os corações,
viveram seus poemas de amor com doçura e imaginações,
e escreveram metáforas, lindas e inesquecíveis metáforas.

Ah, o amor…
Corda de mil nós, música de mil tons!
Renasceste de entre as linhas,
ressurgiste ébrio de encanto
e brilhaste como um arsenal de fogos induzindo o céu a chorar, feliz,
lágrimas de mil anos.

E eu, de baixo, olho, absorto em pensamentos, o céu afoguear.
E sorrio como uma criança ao imaginar, inocente, um corpo de mulher,
lívido de alvura e livre a voar…
Até se encontrar com as águas,
até se misturar com o mar.

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Essas palavras foram entregues em um cartão há 23 anos (o mesmo da foto), um mês após nosso encontro, o qual esperei por 10 anos que acontecesse… Hoje temos 21 anos de casados.

E você, já escreveu cartas de amor?

Forte abraço!

Até a próxima.

MINHAS COSTURAS DE PALAVRAS

Por Elisa Augusta de Andrade Farina

Palavras para mim são o poder criativo pelo qual me expresso.

Sou costureira das palavras…

Pego um papel em branco e vou medindo, alinhavando as frases, remendando afetos, bordando palavras…

Assim, vou costurando rimas nos versos que serão poemas.

Se as palavras que brotam em minha mente não manifestam o que sinto, corto-as imediatamente com a exatidão das minhas mãos, como tesouras afiadas.

Olho no entorno… Procuro uma fita métrica para medir meus pensamentos. Eles fluem pela força criadora de minha vontade.

Vejo o céu na sua imensidão…

O brilho que apreendi é como um tecido valioso que precisa de minha habilidade para moldar o modelo a ser confeccionado.

Corto as palavras que não condizem com o modelo desejado. Alinhavo, alfineto, meço de novo os pensamentos… Agora sim, o meu modelo ganha forma, força, emoção, que se traduzem pela vontade de fazer diferente com coesão, determinação e amor.

Vou costurando a peça almejada que vai se transformando na habilidade criativa da minha intenção poética.

Olho satisfeita para minha peça…

Está da maneira que sonhei… Impecável, bela, ressalta toda a força da magia poética que me impulsiona a tecer e costurar palavras…  Missão inspiradora de uma alma livre e sonhadora…

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Elisa Augusta de Andrade Farina, professora, filósofa, escritora, contadora de histórias, cronista e poetisa teófilo-otonense é graduada em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais, com pós-graduação em Docência do Ensino Superior pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Sócia efetiva do Instituto Histórico e Geográfico do Mucuri e Membro fundadora da Academia de Letras de Teófilo Otoni, titular da cadeira 6 e atual presidente. Em 2018, recebeu do Governo de Minas Gerais a Comenda Teófilo Otoni, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados na área da Educação e Cultura no Vale do Mucuri.

“Minhas costuras de palavras” é um dos textos que dá título ao seu mais recente livro publicado pela Árvore das Letras, através do selo Alforria Literária. O livro é mais um fruto da Vivência Novos Autores, uma imersão de sentimentos por meio da leitura e escrita que tem o objetivo de aprimorar a percepção literária e metafórica das histórias que lemos e ouvimos.

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Para adquirir o livro “Minhas costuras de palavras” e entrar em contato com a autora clique no perfil https://www.instagram.com/elisafarina2/

Forte abraço!

Até a próxima.

EXERCÍCIO CRIATIVO (AINDA SEM TÍTULO)

Por Leandro Bertoldo Silva

Será possível a um personagem sair do livro e manter com o seu autor momentos de conversa acerca da vida, da morte, de questões existenciais? Calma! Não se trata de paranormalidade, muito menos de psicografia. Ora, Xavier, você é um personagem, não uma entidade. Não se pode confundir o fato de ter tido longos colóquios com o fantasma de Aarão Reis – o livro em questão – com fenômenos do espírito aqui onde você é um interlocutor por meio de cartas em diário. Ou de um diário em cartas? Isso ainda veremos. Seja como for, sim, é possível, e trata-se de uma fusão interessante a fazer de nossas conversas momentos de mais puro esquecimento, esses momentos da liberdade da alma em princípio de estado.

Como é doce o não ter que ser. Pensávamos assim, Xavier. Queríamos não ter que ser sempre, entregar-nos a nós mesmos como as flores se entregam ao orvalho sem trocas e sem medos. Sempre tivemos a visão desse encontro, lembra? Ora éramos a flor, ora o orvalho, como ora éramos o escritor, ora o personagem, sem preferências ou escolhas a destruírem os versos existentes “entre o anelo e o suspiro”, como dizia aquela poesia guardada em um naco de memória. Já era noite e toda noite era assim: preparávamos-nos, eu e você, para esquecer, nunca dormir. No esquecimento não há sonhos – essa arrogância do pensamento. Isso já era eu a achar ou você? A essa altura já não sabíamos. Não importa. Calávamos um para o outro no momento exato do esquecimento, fragrância milimétrica de tempo entre o estar acordado e o começar a dormir. Pronto, já foi. O barulho recomeça e o sonho invade os nossos pensamentos.

Boa noite, Xavier. Amanhã voltamos a nos escrever. A partir de agora teremos uma longa conversa.

Xavier de Novais aos 22 anos, época em que mantinha longas conversas com o fantasma de Aarão Reis.

Xavier de Novais nasceu em Belo Horizonte no dia 13 de abril de 1952. Teve uma infância generosa, alternando entre estudar na cidade e passar férias na roça. Brincou na rua, colheu café, andou a cavalo e pegou bicho-de-pé. Seu primeiro trabalho, logo após os primeiros anos da adolescência, foi como segurança de uma livraria, lugar onde o seu gosto pelos livros ganhou contornos expressivos. Lia de tudo, do clássico ao contemporâneo. Sempre teve uma predileção por duas obras: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, e “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes. O momento em que conviveu com o fantasma de Aarão Reis nos encontros na livraria narrados no livro “Histórias de um certo Aarão e outros casos contados – das histórias e lendas de Belo Horizonte recontadas por um segurança que recebia, em seu serviço, a visita ilustre do fantasma de Aarão Reis”  o fez se apaixonar pelas narrativas e acontecimentos, vindo a ingressar, em 1975, no curso de História na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Em 1979, já formado, conseguiu um cargo de professor substituto em uma conceituada escola da capital mineira. Seu sucesso com os alunos foi imediato. Porém, ao receber o convite da direção da escola para se tornar professor titular, Xavier se casa e resolve se mudar com a esposa, com quem vem a ter uma filha, para o Vale do Jequitinhonha em busca de qualidade de vida, deixando para trás as loucuras da cidade grande sem, no entanto, deixar de amá-la. Apenas sente que sua vida pede outras estradas. Na nova cidade de Águas Vermelhas, atua como professor de História em uma escola na qual foi uma das lideranças na sua construção, onde veio a se aposentar. Hoje, aos 71 anos, vive em um sitio na mesma região do Vale. Não colhe mais café. Ao invés disso, navega em um barco a remo em um lago próximo. Continua andar a cavalo, mas sem pegar bicho-de-pé.

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Bem, aqui está o embrião do que pode vir a ser uma história ou até mesmo se tornar um livro. Mas não decidirei isso sozinho, é preciso ter o consentimento de Xavier. Andamos a conversar por meio de cartas que vez ou outra, caso ele autorize, publicarei aqui neste blog. Mas quero pedir a você um grande favor! Suponhamos que ele consinta e que eu resolva deixar público essas conversas em uma obra, qual título você sugeriria?

No mais, obrigado por sua leitura e atenção. Aguardo sua sugestão.

Forte abraço!

Até a próxima.

TÍTULO TEM, MAS É SEGREDO

Por Ricardo Albino

Quem cochicha, o rabo espicha! Quem não conta, ele estoura! Psiu! Cuidado com ela! Quem? A vaca amarela! Quem falar primeiro come… Sabem o que né? E alguém gritava: chega! Não aguento mais ficar calado! Como tudo sozinho! É hora da gargalhada! Vamos brincar de telefone sem fio. Eu falo no seu ouvido e você conta baixinho a fofoca para o outro espalhar até cansar! Mas diz que é segredo tá? A gente cresceu e sabe onde fomos parar? Eu conto, você conta? Nós podemos contar? Sim. Então 1 ,2 ,3 e já!

Numa cidade onde quase tudo é segredo, inclusive o nome do lugar que nem hotel tem para ninguém descobrir o maior segredo de lá! Quando eu e Patrícia fomos num casório na roça do Senhor Pedro Calado tivemos que ficar hospedados na cidade vizinha, curiosamente chamada de Boca Fechada, lembra? O evento do momento era a união do galo Segredo com a galinha Fofoca. Estranho, né? Nunca imaginei que Segredo e Fofoca fossem se bicar um dia. E você ainda percebeu nos bastidores da festança segredos dos noivos que viraram história na tv e agitaram a vizinhança, né?

Sim, lembro-me como se fosse ontem! A Fofoca toda emplumadinha colocando seu vestido de noiva e as damas de honra auxiliando. Nem nessa hora a Fofoca parava de fofocar. Contava pra todos que tinha visto o marido da vizinha com uma franguinha no cinema, falava mal da cor nova da pena da tia Cocotinha que tinha usado um tonalizante caju radiante que ficou horroroso. Não concordo, achei até bonitinho! E assim, foi falando mal da cidade inteira até ficar pronta! E olha, nunca tinha visto uma noiva tão linda!!! Estava encantadora!!!

Pois é! Eu tenho outro segredo sobre o Segredo. Na verdade, dois. O primeiro é que a verdadeira identidade dele é Chico, o Cocoricovo. Chico é galo hermafrodita. Quando as galinhas fazem greve, o bicho vira a chavinha e é obrigado a botar os ovos sem reclamar. Como prêmio, além de não virar galinhada ou molho pardo no panelão vermelhão, desfila e ganha cachê de milhão. Com o dinheiro pediu para o patrão construir um galinheiro de dois andares para o momento de relaxar. Para completar, corre em segredo de justiça um processo movido por fofoca, por calúnia e difamação. Segundo uma fonte, que pediu para ser mantida em segredo, a atual primeira dama do Galináceos Mol, conhecida como Fofoca só canta, não cacareja porque senão gagueja. Não sabemos se é fato ou fake. O casório dos segredos deu até conto e quem quiser que aumente um ponto.

Pior de tudo é que ouvi por aí que o tal galo gostosão já é casado com duas galinhas. Uma mora em Boca Fechada e a outra no município de Calados. Como ninguém pode falar nada, a coisa vai ficando por isso mesmo. E o galo só se dando bem!!!

Sabe o aconteceu quase na hora do nosso último ponto final? Quem pagou o pato na cozinha foi o porquinho que virou lombinho assado. Sem nem desconfiar daquele trem, o pai comeu seu animal de estimação, encheu o barrigão e nos contou histórias de montão!

Você sabia que…

* Texto escrito a quatro mãos entre Ricardo Albino e Patrícia Vaucher.

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Ricardo Albino é jornalista, escritor e contador de histórias. Além disso, é um grande amigo que se fez irmão. Eu tive com ele uma conversa pra lá de agradável e publico aqui em forma de entrevista para que você também possa conhecer um pouquinho do nosso querido Ric.

Árvore das Letras: Oi, Ric, que prazer poder falar com você! Conte um pouquinho da sua história, da sua infância?

Ricardo Albino: Sou natural de Belo Horizonte, tenho 45, quase 46 anos e nasci prematuro de 6 meses. Tive parada cardiorrespiratória que afetou a parte motora e a visão. Enxergo metade da vista esquerda, nada da direita, mas aprendi a ver a vida pelo lado bom e as pessoas pelo coração. Já usei aparelho nas pernas ,andador ,bengala canadense e em 1997 fui pra cadeira de rodas. Com minhas possantes, pois tive algumas até hoje, ganhei asas e voei rumo aos sonhos.

AL: De onde veio a sua escolha pelo jornalismo?

Ricardo Albino: Ser jornalista era um grande sonho e nasceu aos 6 anos de idade por amar os esportes, a música, o rádio e a escrita. Na infância até a adolescência era narrador de jogo de botão e corridas de autorama, jogos de vôlei e queimada com os vizinhos. Cheguei a jogar também como goleiro ajoelhado. Participei de shows de calouros e peças de teatro na escola. Em festa junina fui até um balão. Sempre amei cantar e decorar escalação de times e seleções. Ainda na época escolar, fiz uma montagem da Escolinha do professor Raimundo na qual fiz papel do próprio e ganhei o prêmio de melhor redação da turma com o livro “Vida de um repórter” . Estudei em escolas com menos alunos em sala, o chamado ensino especial até o segundo ano do ensino médio e no terceiro ano fui pra escola regular integrada. Estudei em casa sozinho para o vestibular, passei em 2002 e durante 4 anos gravei as aulas para escutar e passar o conteúdo pra o caderno depois. Em 2006 formei e criei um blog. Em 2010, no hospital Sarah em BH ,na educação física e aula de artes, além de fazer alguns esportes paraolímpicos , escrevi programa de rádio e duas peças de teatro.

AL: Quando você percebeu que era um contador de histórias e quis se profissionalizar nessa arte?

Ricardo Albino: Foi na roça, em 2009, quando criei a primeira história para minha sobrinha que pediu uma história pra dormir, em que nós, eu e ela fossemos personagens. Cada noite, inventava novos personagens e aventuras da Bia e do tio Ric.
Em 2015 fiz o curso de contadores de histórias do Instituto Cultural Aletria e dois anos depois criei a página “Ricontar Histórias” no Facebook. Em 2021 veio o canal no YouTube. Brinco que a contação de histórias é minha pós de jornalismo.

AL: Você tem um estilo muito peculiar de escrita. Você escreve como quem conta de fato uma história. Como é isso?

Ricardo Albino: Meu jeito de escrever eu encontrei nas crônicas. Texto mais curto, de linguagem leve, bem humorada e que se encaixa bem na contação de histórias.
Eu digo atualmente que não me sinto mais jornalista e nem um escritor, mas sempre um ouvinte e criador de histórias que me ensinam que a verdadeira acessibilidade e inclusão nascem dos bons sentimentos.

AL: Você tem dois livros publicados que nós brincamos ao falar que são os dois irmãos: “Histórias de um rapidinho em quarentena” e “Antologia da psicaneta – calmaria sem ponto final”. Apresente cada um deles pra gente.

Ricardo Albino: Meu primeiro livro foi escrito entre 2019 e 2021 no período da pandemia de COVID que passei Com meus pais em isolamento na roça. Quando voltamos para BH, após um ano e meio, conheci o seu trabalho e publicamos pela árvore das Letras o “Histórias de um Rapidinho em Quarentena”. Depois participei do curso de Linguagem, Leitura e Escrita, que hoje é o Novos Autores, onde convivi com os amigos da minha família calmaria. Toda segunda feira a noite havia um encontro e novas vivências e descobertas da arte do viver e conviver comigo e com o outro através da escrita e da liberdade de emoções. Assim nasceu a “Antologia da psicaneta – calmaria sem ponto final”.

AL: Conte um pouquinho sobre o seu processo criativo.

Ricardo Albino: Sobre o meu processo criativo eu tento escrever de uma maneira simples, leve e que leitor, em cada história lida, sinta como se eu estivesse ao lado dele contando aquela história ou buscando nele, sendo eu um ouvinte, motivação, inspiração, alegria e calmaria para o coração. Gosto muito de criar a noite e pela manhã e busco inspiração na simplicidade do amor pela vida.

AL: Que recado você deixa para quem tem o sonho de escrever?

Ricardo Albino: Para você que tem o sonho de escrever e ainda não sabe como começar pense que a arte da vida é fazer da vida uma arte e a arte da escrita é uma constante declaração de amor do pensamento para o coração.

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“Título tem, mas é segredo” é uma das histórias do livro “Antologia da psicaneta – calmaria sem ponto final”, do escritor, jornalista e contados de histórias Ricardo Albino. A obra, publicada pela Árvore das Letras, através do selo Alforria Literária, é fruto da Vivência Novos Autores, uma imersão de sentimentos por meio da leitura e escrita que tem o objetivo de aprimorar a percepção literária e metafórica das histórias que lemos e ouvimos, e ainda aplicar técnicas criativas e afetivas na produção de narrativas e poesias.

Para saber mais sobre a vivência, clique AQUI.

Para adquirir os livros do Ricardo Albino, entre em contato com o autor no perfil https://www.instagram.com/ricardoflavioalbino/

Visite, também, a sua página no You Tube

https://www.youtube.com/@ricontarhistorias9462

Forte abraço!

Até a próxima.

O SEGREDO DE GABI

Por Leandro Bertoldo Silva

Gabi guardava um segredo. Bem, segredo é uma maneira de dizer, porque ela o contava para todas as pessoas, pelo menos para quem quisesse ouvir; ouvir e ler, pois a menina o escrevia em formas multifacetadas de poesia. Toda ela era um brincar de versos. Havia palavras em seus cabelos, rimas em seus gestos cheios de sossegos, métricas em seu olhar. Ninguém entendia a simplicidade em que vivia , mas Gabi naquele seu versejar de oásis repetia, repetia: “sensação de veludo. Lembrem-se! Sensação de veludo”.

O tempo passava descompassado e ninguém sabia o significado daquelas palavras. Gabi sorria, Gabi corria, Gabi dançava. Não sei se os segredos têm os seus métodos, como diziam os incrédulos, mas não havia pessoa a duvidar da felicidade daquela miúda. Como podia? Na cidade dos Afazeres não cabia sorrisos. Trabalhava-se de manhã à noite. Isolavam-se nas fábricas de tecnologia, inventavam-se inteligências, criavam-se máquinas, tudo para resolver o grande problema: onde estaria a felicidade que não vinha? Na falta de resposta e na tentativa de encontrá-la, lá se iam mais máquinas cada vez mais potentes e portáteis para facilitar o manejo e as pessoas as adquiriam ao preço do seu próprio tempo.

Enquanto isso, Gabi sorria, Gabi corria, Gabi dançava. “Sensação de veludo. Lembrem-se! Sensação de veludo” — repetia.

O caso de Gabi foi parar na cúpula de Afazeres. A menina mantinha junto de si um caderno. Há tempos não se via um daqueles. Capa de couro com fitas trançadas como fecho. Uma coisa daquela tão antiga só poderia guardar o tão almejado segredo. Mas como algo tão importante estaria em posse de tão pouca criatura? Chegava a ser infâmia. Cientistas, engenheiros, designers, programadores, até influenciadores debruçavam-se dia e noite na tarefa de buscar a felicidade, mas era em vão. Interrogada pelas autoridades, Gabi apenas sorria sem entender muito a razão de tanto alvoroço e seguia a escrever sua dança e seus movimentos. Todo o seu tempo era destinado às palavras que brotavam de si e também àquelas percebidas em meio a outros, como o cair da folha e o nascer do fruto, a gota de chuva a navegar na janela em sonho de barco, o voo da ave a colocá-la em estado de garça e tantas outras coisas que ela colhia e outras mais que só ela sabia.

Um dia o caderno foi confiscado. Seria analisado pelas autoridades competentes de Afazeres, assim disseram. Contudo, algo curioso aconteceu: o tempo passava e passou também para Gabi, que já não era mais uma criança. O caderno nunca fora aberto. Gabi havia sido proibida de escrever. O motivo ninguém dizia, só não entendiam a felicidade que ainda fazia morada dentro dela ao vê-la pescar luzes e a colorir a vida de pássaros em meio à natureza da alma ecoada pelo mundo.

Sem suportarem mais a curiosidade e ao desistirem de inúteis tentativas de descobrirem por si o segredo de Gabi, um decreto foi instaurado: que fosse aberto o caderno! Alvoroço geral, mídias e redes sociais não noticiavam outra coisa. E assim foi feito. Em posse de tanta euforia, lá se depararam com as coisas simples da vida. Com letra de poeta, lia-se:

“As coisas simples parecem bobas.

Mas deveriam ser percebidas de modo genuíno.

O trigo em embalagem de papel

pode parecer estranho,

mas gosto da textura do papel na mão,

do aconchego da receita naquele contato.

.

Ah! E o café coado fresquinho?

O cheiro da terra que a chuva desperta.

O som de um bando de aves voando ao entardecer.

A água do chuveiro caindo na cabeça,

de olhos fechados e corpo submerso.

.

Andar de meias em dias frios.

Tomar água com muita sede.

Conseguir pegar o pão

que acabara de sair do forno na padaria.

Passar a sola dos pés em um tapete fofinho.

Respirar fundo e soltar o ar.

.

Cada detalhe desses traduzem o que chamo de

sensação de veludo.

É quando viver preenche tanto os tatos da vida

que na maciez dos sentidos

contemplo o belo do existir.”

.

Assinado: Gabriela Lopes.

E não houve mais segredos.

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Essa história foi escrita inspirada na poesia “As coisas simples da vida”, que está no livro Versos, dores e cores, da poetisa Gabriela Lopes. Nasceu de uma proposta da Vivência Novos Autores de escrever prosa a partir da poesia. Como escritor, gosto de ler poesia para escrever prosa, pois muitas são as histórias contidas nos versos. E o melhor de tudo é que as histórias sempre são outras a partir de cada olhar… Gratidão à Gabriela por permitir essa troca. E você, gosta de poesia? Curta, comente. Essa ação é muito valiosa para mim.

Forte abraço!

Até a próxima.

LAVE MARIAS

Por Valéria Cristina Gurgel

“Quem experimenta a beleza está em comunhão com o sagrado”
(Rubem Alves).

Tão logo raiava o dia, em fila, desciam o morro cantando. Passos firmes equilibrando suas bacias, sem titubearem.  Elas se reuniam à beira do Rio das Velhas. Quanta ironia! Elas eram jovens e belas donzelas, em sua maioria. Elas amavam, elas sorriam, elas viviam. Os pés descalços ziguezagueavam entre as pedras e a correnteza cristalina.

Não deviam esmorecer o labor, traziam no rosto o fervor, e na pele essa marca da raça, da estranha alegoria que trazia fé para a vida. Não sentiam o frio e rodopiavam leve e soltas, esnobando a alvura dos lençóis bailando às seis da matina.

Suas jovens mães e avós, precocemente viúvas, permaneciam em casa cuidando dos filhos menores, dos netos, sempre numa escala acirrada de zero a dez. Os mineiros morriam jovens, enterravam a dura ilusão trabalhando na Mina chamada Morro Velho, fatídica dicotomia. Os órfãos amineiravam sonhos de pedra de minério, que viravam pó, sem brilho de valor. Cresciam soltos brincando de alegria pueril e disputando um lugar ao sol.

Mas as mulheres não se queixavam da escassez de futuro. Ali havia excesso de presente. Era preciso ter força, ter garra, ter gana sempre, pois, a labuta diária nas águas daquele rio caudaloso lavava o suor e até os pensamentos insalubres.  Esfregavam as roupas e os problemas com sabão de cinza, o que estivesse mais encardido quaravam e batiam na pedra e, aos poucos, como uma magia, as manchas iam se desfazendo em cada peça e também no coração.

O rio seguia seu curso, desviando obstáculos, sem alterar a rotina das lavadeiras. Lave Maria, lave Maria era o som, era o dom e o canto das corredeiras. Elas lavavam as roupas e as dores da alma e enxaguavam o destino atentas aos redemoinhos.

Elas contavam histórias, as suas, as delas, as nossas. Elas cantavam cantigas de roda, religiosas, folclóricas, inventadas, inspiradas nas dores, nos amores, nas glórias. Lave Maria, lave Maria, lave Maria.

Lavar roupa todo dia, não era uma agonia para essas Marias: andorinhavam a paz do azul celeste sobrevoada no leito do rio.

São todas Marias protagonistas da vida ganhando o sustento de suas famílias.

Lave Maria, Lave Maria, Lave Maria…

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Lave Marias é uma das histórias do livro “Guirlanda das Emoções”, da escritora Valéria Cristina Gurgel. A obra, publicada pela Árvore das Letras, através do selo Alforria Literária e parceria da Editora Rolimã, é fruto da Vivência Novos Autores, uma imersão de sentimentos por meio da leitura e escrita que tem o objetivo de aprimorar a percepção literária e metafórica das histórias que lemos e ouvimos, e ainda aplicar técnicas criativas e afetivas na produção de narrativas e poesias.

Para saber mais sobre a vivência, clique AQUI.

Para adquirir o livro “Guirlanda das Emoções”, entre em contato com a autora no perfil https://www.instagram.com/valeriacristinagurgel/

Forte abraço!

Até a próxima.

O CHÃO DA MINHA TERRA

Por António Alexandre
(Angola)

A caminho, para Sequele musseque, vi-a cantar vitória.

Porém era uma vitória sem glória.

Numa manhã de ditadura

Vi cavalos e cavalaria em aventura.

.

A vitória era doce como o mel.

E por ser bom demais

Os abutres deram-lhe o fim

Tão doce tão curto e tão ruim.

.

A vitória era como a ereção do desejo

Tão doce, que vi o chão perdendo o fundo.

E os olhos também se foram embora para longe.

.

A vitória também era como o solo

Hoje pilhado e seminu ficou para os pés descalços.

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Cada um de nós têm as suas lembranças e afaga as suas memórias. O poeta António Alexandre nos traz as lembranças de um chão que pisou. Qual a memória do seu chão?

Forte abraço!

Até a próxima.