NOVOS AUTORES – A INCRÍVEL ARTE DE CELEBRAR A LITERATURA

Por Leandro Bertoldo Silva

Imagine fazendo parte de um grupo de pessoas amigas e acolhedoras de várias partes do Brasil em um ambiente leve, descontraído e saudável, extremamente respeitoso, que amam escrever, compartilhar seus textos e leituras e ainda publicar suas histórias.

Imaginou?

Pois esse grupo existe e você pode fazer parte dele.

Estou falando da Vivência Novos Autores, da Árvore das Letras, uma imersão de sentimentos por meio da leitura e escrita, que tem o objetivo de aprimorar a percepção literária e metafórica das histórias que lemos e ouvimos, e aplicar técnicas criativas e afetivas na produção de narrativas e poesias.

Não é maravilhoso para quem tem a escrita como paixão?

Tudo bem! Eu sei que o ofício de escrever geralmente é muito solitário. O escritor ou escritora trabalha de maneira independente, passa horas no computador ou, se você for como eu que ama escrever os primeiros esboços à mão, passa muito tempo em companhia da folha em branco. E muitas vezes não tem com quem se consultar ou a quem recorrer em momentos de dúvidas e incertezas e, também, compartilhar o que escreveu, ouvir opiniões construtivas que podem dar ainda mais direção a sua história ou poesia.

A Vivência Novos Autores proporciona exatamente este lugar.

E sabe o que é melhor?

Não importa se você está no início da sua jornada de escrita ou se já é um autor ou autora experiente, a Vivência é um lugar de trocas construtivas, onde todos e todas se respeitam acerca do fazer literário.

Fantástico, não é?

Aqui mesmo neste blog você encontra tudo sobre a Vivência: como funciona, o dia do encontro, nossas ações, sorteios de livros, nosso Clube de Leitura e, principalmente, como participar. É só clicar AQUI. Qualquer dúvida estou à disposição.

Por hora, quero apresentar para você algumas das muitas pessoas que fazem parte da Vivência e faz desse lugar tudo o que ele representa. Mas não se engane! Para que tudo isso pudesse existir, foram necessários 10 anos de história, muita estrada, muita formação, muitas experiências e muita, muita gente bacana que passou e continua passando por aqui. Por isso, veja só o que algumas delas têm a dizer:

VALÉRIA CRISTINA GURGEL . Escritora e musicaterapeuta – Nova Lima/MG.

A Vivencia Novos Autores criada e administrada por nosso Mestre Leandro, da Árvore das Letras, tem sido muito prazerosa e divertida. Cada semana uma surpresa, um desafio, uma proposta, um tema instigante, um debate e sempre com aquele propósito inteligente e carinhoso de convidar-nos a uma nova reflexão e uma nova escrita. Sem contar as indicações de livros, um Clube de leitura onde a gente discute um universo paralelo a partir de nossas observações por esse intercâmbio literário.  Essa troca tentadora de opiniões, percepções e inspirações que acontece é algo magnífico. Poder oferecer e receber indicações de diversas obras, ler, conhecer novos autores e seus respectivos livros que vão sendo sugeridos a cada mês por um membro de nosso grupo. Tudo flui de forma passiva, deliciosa, em meio a uma amizade bonita, sincera, afetuosa que vem se consolidando entre todos nós, tornando-nos sem nenhuma dúvida uma Família Literária! Gratidão Mestre e amigo Leandro por nos proporcionar esse espaço precioso e ao mesmo tempo tão simples e pleno de arte e sabedoria compartilhadas!  Um forte abraço da escritora e amiga Valéria Gurgel.

PIERRE ANDRÉ . Contador de histórias e escritor – Belo Horizonte/MG.

A Vivência novos Autores me deu, literalmente, vida em relação à escrita e à leitura. Me fez descobrir que podemos, sim, escrever algo que jamais poderíamos imaginar. Como aconteceu comigo e os Haicais, os escrevendo como tradicionalmente são e inventando maneiras diversas, diferentes e brincantes. O que já me rendeu material para pelo menos três livros distintos sobre haicais.

Mas o mais importante é poder fazer isso compartilhando com os colegas, nos nossos encontros semanais, às vezes até criando textos, uns para os outros.

Só posso dizer:

Vivência Novos Autores,

Minha Gratidão!

.

Leandro, meu “fii”,

Sobre a sua pessoa:

Você é o cara.

ELISA AUGUSTA DE ANDRADE FARINA . Escritora e Presidente da Academia de Letras de Teófilo Otoni – Teófilo Otoni/MG.

A Vivência Novos Autores, excedeu minhas expectativas  pela gama de conhecimentos que foram disponibilizados.

Foi um UP para minha carreira de escritora, enriqueceu meus conhecimentos, estreitou laços de amizade e companheirismo entre todos envolvidos nessa grande teia literária e poética.

O bom professor, e o Leandro o é, promove a circulação  do conhecimento  aguçando  a curiosidade  que proporciona a reflexão  e o diálogo.

MARAVILHOSO!

CAROLINA BERTOLDO . Professora e escritora – Pompéia/SP.

A Vivência literária chegou para agregar muito na minha experiência com a escrita. Desde adolescente escrevo trechos, contos e crônicas, mas só quando passei a fazer parte do grupo dos Novos Autores  eu me reconheci como escritora.

Sempre gostei de literatura, desde a época da escola. Até mesmo de alguns dos clássicos! Mas sou muito grata por essa grande e especial permissão de a cada encontro do grupo me conectar mais ainda com o universo da literatura livre!

LUZIA MARIA DE SOUSA . Escritora e amante da reciclagem e das letras – Belo Horizonte/MG.

O trabalho desenvolvido na Vivência Novos Autores tem a cada dia despertado a leitora feliz que há em mim. E para minha surpresa veio junto um desejo enorme de escrever, colocar no papel minhas memórias. E numa linha mais romântica e divertida tenho criado textos que me agradam muito. Feliz demais com o resultado desse processo. Gratidão!

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É isso aí! Junte-se ao nosso grupo.

A temporada 2024 já começou!

Forte abraço!
Até a próxima.

UM AMOR SEM IGUAL

Por Elisa Augusta de Andrade Farina*

Ah! O amor!…  O amor é um dos grandes temas para filmes, novelas, teatros e propagandas. Onde está o amor verdadeiro? Como definir o amor? Como saber amar?

Guimarães Rosa disse que “o amor é passo de contemplação “. Decidi embrenhar-me no filosofar para conhecer a plenitude do viver e do amor. Busco dar sentido e ver sentido nas coisas, nas palavras, nas pessoas, poetizar…

Sou um ser despreparado com relação ao amor; quando ele entrou em minha vida não fui avisada, não pediu-me licença, pegou-me desprevenida. Fez questão de chegar de mansinho para não ser notado. Apaixonei-me pela vida, pelas pessoas, pelas flores e os pássaros em seus voos  livres e felizes. Sonhei… Fiz dos sonhos poesia. O amor estava em toda parte, saciava minha fome. Estava em tudo e ao mesmo tempo no nada, busquei as estrelas mais brilhantes para povoarem o meu céu de amor.

Das asas da liberdade fiz um trampolim para alcançar o inalcançável.  Vi no amor a possibilidade de me conservar viva e atuante.

Quando observo as pessoas na sua luta diária, pergunto-me se sabem o sentido do amor, do existir, da importância de amar e saber ser amado.

O amor que está estampado aos quatro ventos é um amor raso, imediatista, sem profundidade, egoísta e impregnado de falsas ilusões.  O verdadeiro amor reside no âmago da alma, no cerne do ser, pronto para encontrar ressonância  em outra alma. Não adianta ter o amor, se não tiver a quem amar. O amor é troca, é busca, é  renúncia.  Necessita-se do outro com todas as suas especificidades e defeitos para que haja a comunhão.  Não estou falando do amor carnal, este já se banalizou, falo do amor ágape.  O amor que sentimos pelo nosso próximo, um amor generoso, sem limites, puro, livre de amarras. Para amar dessa maneira é necessário abandonar os adornos, esquecer-se de seu ego que necessita de atenção e aplausos.

Coisificamos o homem através do consumismo exacerbado. Para libertar -se dessa teia avassaladora é  necessário  fazer o caminho inverso do que trilhamos. Precisamos ir além do que os nossos olhos veem, a capacidade de ver além do que possamos captar através  dos sentidos. É preciso penetrar o recôndito  do nosso coração  e escutar a linguagem dos sentimentos, encontrar a simplicidade, amar como o Criador nos ama e cuida. O amor é ação.  É movimento. É (re)encontro. O amor dá significado às relações e nos torna mais dóceis,  mais comprometidos com o outro. Deixa-nos mais sensibilizados e preparados para enfrentar a dor e as mazelas que surgem em nossas vidas.

Não temos tempo para o cultivo de uma vida interior. É mais fácil a superficialidade. Não experienciamos as realidades que nos levam a uma transcendência para poder acessar cada vez mais a nossa verdade pessoal, possibilitando a posse de nós mesmos, favorecendo relacionamentos mais saudáveis.

Só quando conseguimos enxergar o outro como possibilidade de complemento, seremos capazes de amar. Aí sim, seremos como a fragrância de um perfume que exala e deixa o seu  cheiro modificando nossa jornada chamada vida!

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* Elisa Augusta de Andrade Farina nasceu e cresceu na cidade de Teófilo Otoni. Morou em Belo Horizonte, onde graduou-se em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, constituindo família. Após 30 anos retornou com sua família à cidade Natal, onde tornou-se integrante da Academia de Letras e concretizou o seu sonho de escritora lançando seu primeiro livro: Antes de tudo, mulher. Após novas publicações, Elisa hoje é presidente da Academia de Letras de Teófilo Otoni – ALTO, exercendo um trabalho de fundamental importância para difusão da literatura nos Vales do Mucuri e Jequitinhonha, em Minas Gerais e no mundo.

Elisa é integrante da Vivência Novos Autores da Árvore das Letras, um encontro on-line semanal de leitura e produção literária. Você também pode participar. Saiba mais AQUI.

MATURIDADE AMORES E DORES AO ENVELHECER – UMA CONVERSA COM PAULO CEZAR S. VENTURA

Neste ano de 2024, a Árvore das Letras estará trazendo mensalmente entrevistas com pessoas e personalidades reais da vida em diversas áreas do conhecimento e da arte, como a literatura, contação de histórias, psicologia, filosofia, pedagogia e outras tão importantes para o desenvolvimento humano. O diferencial e, ao mesmo tempo, o grande prazer e por que não dizer orgulho, é que todas as entrevistas serão com gente da gente, ou seja, pessoas que estão a passar ou passaram pela Árvore das Letras deixando suas presenças nessa verdadeira troca de talentos, conhecimentos e carinhos.

Para abrir mais esse grande momento da existência desse espaço, a Árvore das Letras conversou com Paulo Cezar Santos Ventura, poeta, cronista e contista. Professor aposentado do CEFETMG, é graduado em Física pela USP-São Carlos e Doutor em Ciências da Comunicação e Informação pela Universidade de Bourgogne, em Dijon, França. Enquanto professor e pesquisador, orientou mais de 1000 projetos de Engenharia e Educação em nível de graduação, pós-graduação e mestrado. Além de leitor e escritor apaixonado pela obra de João Guimarães Rosa, que o inspirou nos “Haicais do Riobaldo”, Paulo Cezar Santos Ventura é membro da Academia Novalimense de Letras, da cidade de Nova Lima, onde reside. Seu mais novo livro é “Maturidade amores e dores ao envelhecer”, publicado pela Biblio editora e apoio cultural da Rolimã editora.

Árvore das Letras: Quem é Paulo Cezar S. Ventura por ele mesmo?

Paulo Cezar S. Ventura: Pensava ser um camaleão mutante, de tantas mudanças pelas quais passei durante minha vida. Hoje sei que essas mudanças são naturais, mesmo diferenciando-me por isso, pois muitas pessoas nunca mudam. Cresci menino de interior, desde cedo trabalhei na lavoura, criei calos definitivos de tanto capinar. Mas estudei muito na vida, sou leitor desde muito cedo, e aos quinze anos comecei a escrever poesia. Li um poema em uma enciclopédia e pensei que também poderia fazer isso. Comecei e nunca mais parei. Uma de minhas características é ser muito observador do que se passa em meu entorno e aprender com isso. Outra é ser bem humorado. Meu slogan é “sou feliz por opção e bem humorado por obrigação”.  Sempre pensei que um olhar nos olhos dos outros, um aperto de mão afetuoso e um sorriso são atitudes inesperadas e que podem surpreender os interlocutores e abrir caminhos importantes em sua vida. Uso isso o tempo todo.

AL: Você sempre teve inclinação para a escrita? Conte um pouco da sua trajetória na literatura.

PCSV: Sempre gostei de escrever, era um hobby importante. Mas nunca encarei a escrita como profissão antes. Precisava trabalhar para meu sustento desde muito cedo e mais tarde para sustentar uma família. Fui ser professor. No entanto, eu tinha em mente a ideia de que um dia seria escritor. Que escrever era uma necessidade, publicar era um sonho. Meus textos acadêmicos sempre foram considerados de ótima qualidade, minha tese de doutorado foi elogiada como um relatório de pesquisa de alto nível, e exigia que meus alunos escrevessem com qualidade, com boa legibilidade. Participei de alguns concursos literários sem grandes chances e sem ter um trabalho no qual pudesse acreditar. Mas o germe da escrita estava presente em tudo que eu fazia e ela vinha naturalmente. Em 2008 escrevi, durante um ano, uma série de poemas que viriam a ser meu primeiro livro, Mistérios de Marte, publicado de forma independente em 2015. A partir daí não parei mais de escrever. Muitos de meus poemas e crônicas foram publicados em Antologias e Coletâneas, mais de 10. Em 2017 publiquei o livro infantil Zorro, pela Rolimã Editora, sobre um cachorrinho e suas peraltices em seu quintal. Depois veio Haicais do Riobaldo, publicado em 2022 pela Literíssima Editora. Em seguida veio Encontro das Improbabilidades, em 2023, pela Árvore das Letras, uma edição limitada que será republicado em 2024 pela Rolimã Editora. Recentemente, em dezembro de 2023, publiquei Maturidade: Amores e Dores ao Envelhecer, um livro de crônicas sobre o processo de amadurecimento sob um ponto de vista bem pessoal.  Publiquei também na Amazon KDP, que pode ser baixado e lido em tela de celular ou computador mais dois livros de poemas: um se chama Felicidade Ficção do Futuro, o outro é um livro de poemas eróticos com o título de Cinquenta Cores de Mulher. Terei ainda outras publicações em 2024, que estão a caminho.

AL: Você também é Físico e construiu toda uma carreira como professor e orientador de mestrado e doutorado, ministrando palestras e viajando para fora do país. Como você “se distribui” entre a Física e a Literatura? Como uma complementa a outra?

PCSV: Durante o tempo em que atuei como professor eu escrevia muito, principalmente poesia e crônicas, mas não tinha um método pessoal de escrita e publicava apenas em blogues (https://poesiasparabeber.blogspot.com/ e https://cronicasdamaturidade.blogspot.com/). Passei a escrever com a pretensão de me tornar um escritor apenas ao final de minha carreira de professor, pouco antes da aposentadoria. E aí fui estudar para isso. No entanto, o que aprendi com cursos sobre criatividade dos quais participei, é que o processo de criação na Ciência e na Tecnologia não difere do processo de criação nas Artes, entre elas, a Literatura. Criamos a partir dos questionamentos que fazemos diante das possibilidades da vida e na resolução dos problemas que nos surgem cotidianamente. Nem é uma questão de complementaridade. Criar exige um repertório de conhecimento, imaginação e avaliação constante daquilo que estamos realizando.

AL: Para você, qual a responsabilidade do escritor diante da realidade do nosso país? O que o preocupa?

PCSV: A responsabilidade do escritor é a mesma de qualquer profissional neste país. Trabalhar com ética e contribuir para o desenvolvimento sustentável do país, para a democracia, para a igualdade de condições de desenvolvimento pessoal e diminuição das desigualdades sociais.

AL: Essa atitude de falar sobre questões do seu tempo, remonta ao Romantismo. Castro Alves fazia isso ao proclamar a respeito da liberdade dos escravos, o que demonstra uma participação social muito grande do escritor. Como você vê o engajamento social do escritor de hoje? Ele existe?

PCSV: Acredito ser a mesma coisa em todas as profissões. Alguns profissionais são altamente engajados socialmente, outros não e só produzem pensando em ganhos pessoais. Evidentemente que os ganhos pessoais são muito importantes. Quero ser valorizado e reconhecido como escritor, mas pensar em soluções coletivas para a nossa sociedade também é muito importante. Quando escrevemos uma ficção nossos personagens são representativos da sociedade no momento; quando escrevemos um poema também registramos emoções que se conectam com o que acontece na realidade. Isso é escrever sobre temas que se perpetuam.

AL: Escrever é algo diferente para cada escritor/escritora. Para alguns, curiosamente, é árduo, insano, torturante; para outros é altamente prazeroso. Para você, como é? Você tem algum ritual? Por que você escreve?

PCSV: A escrita, para mim, é prazerosa e, ao mesmo tempo, árdua. Escrever exige foco, concentração, treinamento, muita leitura, conhecimento, etc. É trabalho. Não acredito em dom. Escrevo porque treinei muito, dediquei muito, estudei muito. É muito mais trabalho que inspiração. A escrita, para mim, é uma necessidade. O dia que não escrevo sinto falta de alguma coisa. É como se tivesse uma tarefa a realizar e não a concretizei. E finalizar um texto é altamente gratificante.

AL: Mia Couto, um escritor moçambicano, diz que os escritores nascem de outros escritores. Isso nos leva a crer em pais escritores e mães escritoras. Quem são os seus pais literários?

PCSV: Temos muitos pais e mães literários, alguns definitivos outros temporários. Eu bebi nas fontes de Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Thiago de Melo, Lima Barreto, Machado de Assis, Paulo Leminsk, Ferreira Goulart, Augusto de Campos, Rainer Maria Rilker, Konstantino Kaváfis, para citar uns mais antigos. Mais recentemente me inspirei em José Saramago, Guimarães Rosa, Oswald de Andrade, Mário Faustino, Fernado Pessoa, Mia Couto. Como sou muito ligado ao cinema, os grandes diretores de filmes de arte sempre me inspiraram também. Bem como grandes músicos e letristas. Tenho certeza que estou deixando de citar muitos outros, principalmente estrangeiros.

AL: Fale um pouco sobre os seus livros. Embora a pergunta a seguir para um escritor possa ser perturbadora, mas há algum preferido?

PCSV: Realmente eu gosto de todos, mas os preferidos são sempre os últimos. Assim, cito Haicais do Riobaldo, Maturidade: Amores e Dores ao Envelhecer e Cinquenta Cores de Mulher. Estou trabalhando em novos livros com muito afinco e prazer. Tem alguns de poemas para breve e a reedição de Encontro das Improbabilidades, que espero publicar em março.

AL: Vamos falar sobre o seu mais recente livro publicado: “Maturidade: amores e dores ao envelhecer”. O que o levou a escrevê-lo e como foi o seu processo de escrita?

PCSV: Os tempos de pandemia me trouxeram muitas reflexões sobre o processo de envelhecimento. Nos primeiros momentos da Covid-19, os principais casos de hospitalização e mortes atingiam as pessoas idosas. Eu, hoje com 70 anos, fui infectado e por uns 30 dias vivi a preocupação com a infecção. Felizmente não fui hospitalizado e a virose passou sem me deixar sequelas físicas, apenas psíquicas. E uma das questões que me vieram à cabeça era: o que ainda tenho a perder? Comecei, então, a refletir sobre perdas e ganhos acumulados em nossa vida e aquelas que ainda virão no futuro. Como resultado dessas reflexões fiz um inventário sobre quais são meus principais patrimônios imateriais. Mesmo sabendo que as perdas desses patrimônios são irreversíveis, outra pergunta era: o que fazer para adiá-las o máximo possível? É sobre isso que trata o livro, quais são meus patrimônios e o que fazer e como fazer para não os perder ou, pelo menos, adiar as perdas. Perguntando de outra maneira, como podemos viver longa e saudavelmente nos dias de hoje? A escrita teve início ainda no sossego amedrontado da pandemia e as ideias e os textos, em forma de crônicas, foram se juntando até formar um corpo compacto como foi publicado.

AL: No livro você fala sobre os seus cinco patrimônios? O que são esses patrimônios e como você lida com eles? É possível discorrer resumidamente sobre cada um deles?

PCSV: Os cinco “patrimônios” discorridos no livro são imateriais. São aquisições reunidas durante a vida em função do conhecimento, da maturidade e do trabalho. Representam aquilo que obtive na vida e não quero perdê-los facilmente. Quero que perdurem enquanto eu viver. O primeiro deles é o tempo. Tenho tempo e não quero gastá-lo com veleidades fazendo coisas que não quero e não gosto. Sei que é difícil porque nos relacionamos com as pessoas, então só admito gastar meu tempo com pessoas que são importantes para mim. O segundo tem a ver com meu propósito de vida e com a motivação que tenho para executá-lo com alegria. E meu propósito hoje, que considero uma missão de vida, é escrever histórias que tenham significado para muita gente e as ajude a se transformarem em pessoas melhores. Escrever, publicar e vender minhas histórias é meu propósito. O terceiro patrimônio são os afetos. Quero aumentar o número de afetos e trazer de volta afetos perdidos, aqueles reversíveis. O quarto patrimônio é a saúde financeira. No meu caso é recuperar minha saúde financeira, tão negligenciada em meus anos anteriores. E o quinto é minha sabedoria. Essa ninguém, nem nada nesse mundo, me tiram. Para conversar todos esses patrimônios devo seguir um modo de vida sustentável, dentro desses princípios.

AL: Paulo, você faz parte da Vivência Novos Autores, da Árvore das Letras, que é um encontro semanal juntamente com outros autores e autoras e até mesmo aspirantes à escrita. Como foi e está sendo para você essa experiência?

PCSV: Tem sido uma experiência fantástica. Nem sei quantas páginas já escrevi nesses dois anos de experiência com a Árvore das Letras. Porque ela, a Árvore, através da interação entre os participantes, nos trás temas para a exploração da criatividade e para a discussão entre os escritores do grupo. E o mais importante para os meus “patrimônios”: ganhei novos afetos, novos amigos que entraram para a minha lista de amigos imperdíveis.

AL: Ler é…

PCSV: Primordial para o aumento de nosso repertório linguístico tão necessário à nossa criatividade. Ler abre as cortinas das janelas e portas que nos permitem entrar em outros mundos, imaginários ou reais. É a leitura a ferramenta mais importante para a aquisição e manutenção do patrimônio “sabedoria”.

AL: Escrever é…

PCSV: Uma necessidade fisiológica, como comer e beber. As quatro necessidades básicas do ser humano são: viver, amar e ser amado, aprender e deixar um legado. Ler e escrever são atividades importantes para o atendimento dessas quatro necessidades.

AL: Ser escritor hoje no Brasil significa…    

PCSV: Significa trabalhar duro, muita transpiração para cada inspiração. Significa garimpar leitores com bateias gigantes, significa ensinar a ler primeiro para depois apresentar seu livro, significa correr muitos riscos de se expor e não ter o retorno almejado, significa batalhar muito para mudar este quadro. O número de leitores, no Brasil, tem até aumentado, mas a qualidade da leitura ainda está muito aquém da desejada e necessária.

AL: Paulo, muito obrigado por sua presença aqui nesse espaço. Como as pessoas podem entrar em contato com você, comprar os seus livros, convidá-lo para eventos?

PCSV: Além dos comentários nos blogues colocados acima e também no site www.paulocezarsventura.com, pode ser também através do Instagram @paulocezarsventura bem como @rolimaeditora, do WhatsApp 31-995722702, e através do e-mail pcventura@gmail.com. Estou disponível para palestras e conversas com leitores principalmente nas escolas.

UM NOVO PORQUÊ

Sabe aquela história de estar no lugar certo na hora certa?
Em uma tarde qualquer de um dia muito bonito entro em uma biblioteca e me deparo com uma pilha de livros dispostos em um canto no chão.
— Por que esses livros estão aqui?
— Estão condenados.
— Como é que é?!
Bem, desobri que passaram por uma espécie de pente fino e que muitos deles eram de edições muito ultrapassadas, além de outros tantos estarem avariados e impossibilitados para consulta e alguns até com fungos, o que poderiam contaminar os outros.
— E o que farão com eles?
— Serão descartados. Mas caso alguém queira…
Reparei que muitos eram coleções, enciclopédias. Livros grossos, de capa dura. De fato, alguns apresentavam um estado muito deteriorado, o que era uma tristeza. Mas e os outros? E aquelas gravuras lindas? E o material que eram compostos, como papelão e cabeceado?
Sem mais delongas!
Recolhi o que poderia ser reaproveitado e dei àquela pilha de nada um novo porquê, uma nova vida e função. Não serviriam mais como livros, mas poderiam doar sua arte, ilustrações, matéria-prima e alma e metamorfosear-se em seus parentes mais próximos: lindos e expressivos cadernos para que novas histórias pudessem ser escritas.
Assim nasceu a ideia da criação da coleção UM NOVO PORQUÊ, cadernos de tamanhos e modelos diversos utilizando o reaproveitamento desse material.
A coleção será apresentada em evento on-line no dia 17 de fevereiro, sábado, às 17 horas.
Até lá, acompanhe o processo de confecção em nossas redes sociais. Garanto que irá gostar.

Forte abraço!
Leandro Bertoldo Silva.



O ALEMBAMENTO DA MANA MBOMBÔ (Parte 1)

Por Kafala Tibah

Por Kafala Tibah *
(Luanda)

Mbombô era uma jovem linda, que “arrasava” com a sua beleza interior e exterior, toda e qualquer mulher de Icolo e Bengo. Era muito querida por muita gente da comuna em que nascera Mazozo, mas em particular pelo Tony Feijó, ponta de lança e marcador de golos do Clube Desportivo “Os Bebês da Kasoneka”. Kasoneka era outra comuna de Icolo e Bengo, o municipio de onde partiram muitos heróis do 4 de Fevereiro de 1961 (início da luta armada contra o colonialismo português).

Bastante preservada que era nunca deu oportunidades a este rapaz que “driblava” bem a bola, nos variados campos daquela heróica terra, o Icolo e Bengo.

Por ser muito séria, era muito invejada por muitas moças da sua comuna e de outras. Chamavam-lhe de menina “Sleta”.

-Mbombô, de uma arquitectura de cobiçar, de cintura estreita, ancas avantajadas, desenhando uma linda guitarra, olhos grandes e redondos que por inveja as outras meninas daquela sanzala e outras a apelidavam de olhos de repolho, eram de facto uma (brasa).   Aqueles lindos olhos atraíam os homens de Mazozo, Kasoneka, Kaxikane, Anduri, Ubulutu (Bom-Jesus), Inácio, Domingos João, Kalomboloka, Mbanza Malambo e não só. O seu olhar transmitia mensagens difíceis de decifrar.

No início do ano 1973, Mbombô de 17 anos, filha de pai guerrilheiro, recebeu a orientação para se dirigir a Luanda (capital de Angola) a fim de cumprir algumas missões do movimento de libertação a que pertencia seu pai. Apanhou o autocarro da empresa de transportes Fernandes & Filhos em Mazozo, desceu de fronte ao Cemitério Santa Ana, na estrada de Katete, onde era esperada por Rui de Carvalho, sobrinha do enfermeiro Mendes de Carvalho (Wa Nhenga Xitu, nacionalista da clandestinidade), e dirigiram-se à casa de seu tio que vivia em uma das ruas por detrás daquele campo santo, junto do Campo do Kubaza para receber as instruções que lhe recomendara o velho Domingos Kafala-(Velho Kafala) em Mazozo, “o cirurgião peniano”; assim era designado no município, pois circuncisou gerações e gerações do Icolo e Bengo.

Em casa de seu tio, o mais velho Noé Gaspar, Mbombô recebeu as instruções, e o pseudónimo de guerra “Pombinha Branca”, o qual devia ser usado a partir daquele momento nos contactos com os membros da luta da clandestinidade para a libertação de Angola do jugo colonial fascista português.

Recebera as devidas instruções e saíra para cumpri-las com Rui de Carvalho que recebeu o pseudónimo de guerra Wevu. Wevu era também um jovem da clandestinidade desde os 14 anos e naquela altura já possuia 19. Ele andava em todos os bairros de Luanda cumprindo ordens do movimento de libertação a que pertencia.

Assim, Mbombô conheceu Luanda, de muito viajar para aquela cidade, no cumprimento do dever para a libertação do povo angolano e apaixonou-se (no íntimo) pelo Wevu, numa bela tarde quando esperavam por Maciel da Gama, um militante da clandestinidade que tinha por missão mostrar o caminho para o encontro das células espalhadas naquela cidade pelo movimento de libertação.

No término de autocarros da Mutamba (centro da cidade capital de Angola) surgiram então as primeiras palavras de amor de Rui de Carvalho, pois os olhos dela seduziram-no, porque falavam bem alto a paixão que se manifestava na jovem Mbombô: – Eu “memo” “num” sei mais como dizer, mas… Eu “memo” estou apaixonado por ti!  Desculpa mana… Quer dizer… Mas leva só este envelope “”, pensa bem; o tempo que quiseres e me responde só!… Estou a te pedir muito, “lê só em casa” – dizia Rui de Carvalho que se apercebeu que ela também estava apaixonada por ele e aproveitou a oportunudade para declarar algumas palavras de amor.

Hum! Estás a pedir “muinto”… Você só falou isso agora e uma vez! – dizia Mbombô, sentindo-se valorizada.

– Quer dizer, eu sempre falei para ti no silêncio, mas… Sei que tu sabes jóia linda! Suplicava o jovem Wevu muito sério, dando um toque para endireitar a sua “dizamba”.

– Pombinha Branca franziu o rosto, pois não havia entendido bem a parábola e levou-a como tarefa para casa.

Mbombô sorriu, girou os olhos, com um sorriso ambíguo e fechado, olhou para ele debaixo para cima e disse para o Rui- linda balalaika! – está bem, vou ler e!… Não sei, espera!… Dizia a menina dos olhos redondos, olhando curiosamente no envelope dizendo em seu coraçao: Será que vou lhe dar o sim? Este mesmo me caíu, me “tambulou“ parece boa pessoa, vou perguntar “memo” no “ti” Noé.

Gostei do teu vestido, este tecido “jiloxo” é bem bonito e as pregas estão bem “passadas”. Será que és ciumenta?- dizia o apaixonado Wevu que sorria de mancinho,  lambendo os lábios, seu coração papitava aceleradamente e dizia no silêncio “Yá waba mbá”.

– De repente, “kota” Maciel surgiu e antes da hora marcada, saudando usando a senha, “yá kala yá” e os dois responderam em unissono, “” (contra senha) e depois de um abraço entregou-lhes alguns documentos do movimento; deu às devidas orientações e o casal retirou-se apanhando o autocarro nº 16 que terminava de fronte a sede do Clube Desportivo Terra Nova, e daí rumar para o Reordenamento do Rangel onde se hospedava em casa de seu tio Bartolomeu Kafala, o velho que na clandestinidade era conhecido pelo nome “Cabeça”.  

A menina dos olhos de repolho desceu na paragem do “Kaputu”.

Mbombô atravessou a Avenida Brasil dirigindo-se à rua número 23 do Reordenamento do Rangel e Wevu seguiu viagem até ao término do autocarrro, ali na Terra Nova, junto à sede do Desportivo do mesmo nome.

FIM (da I parte)

SIGNIFICADO DE ALGUMAS PALAVRAS DO TEXTO

Alembamento ou Alambamento– casamento tradicional, para os da tribo kimbundu.

Balalaika– camisa de estilo africano que se usava muito no tempo colonial e possuia uma abertura nos lados e bolsos à frente (estilo goiabeira).

Dizamba– chapéu com aba grande, fabricado de folhas de uma pequena árvore que não dá frutos designado em Angola por a “Mateba”, abundante no norte e sul.

Jiloxo– tecido estampado, de cor azul escuro, muito utilizado no período colonial e estava na moda.

Kaputu– designação em kimbundu que significa pequeno português. Na língua Kimbundu o prefixo “Ka”faz o diminutivo de uma palavra. Putu é o mesmo que português.

Kasoneka– do Kimbundu (Soneka-escrever, ka- faz o diminutivo-radical pré – nominal). Nome atribuido a aquela comuna porque os nascidos nesta praticavam muito a leitura e da escrita, quer dizer assimilavam com muita facilidade tudo.

Kaxikane– comuna do Município de Icolo-e-Bengo, significando – vai-vê-e acredita. 

Kimbundu–  língua nacional angolana falada, principalmente,  nas províncias de Kota – Kimbundu, designação que se dá a um mais velho por respeito-  dikota- Grande   Kota.

Kubaza–  Nome de uma Aldeia do Município de Icolo-e-Bengo.  (nome atribuído a um campo pelado do bairro popular).

Mazozo, Kalomboloka, Kasoneka, Kaxikane, Ubuluto-Bom-Jesus, Anduri, Inácio, Domingos João, Mbanza Malambu – comunas do município do Icolo e Bengo em Luanda (capital de Angola).

Mbanza Malambo– do kimbundu (cidade Malambo; Malambo é um nome).

Mbombô– nome atribuído às meninas que nascem depois de gêmeos. De origem Kimbundu– região do Icolo-e-Bengo.

Memo– significa mesmo. Muitos angolanos pronunciam a palavra mesmo sem o s. Linguagem popular.

Muinto– Muito, (muitos angolanos pronuciam muinto em vez de muito). Linguagem popular.

Num– significa não. Muitos angolanos, em vez de não dizem “num”, dependendo da frase. Linguagem popular.

Sleta–  adjectivo dado às mulheres com características especais;

Tambulou– do Kimbundu, tambula, do verbo receber em portugues. Palavra já aportuguesada. Línguagem popular.

Ti – diminutivo de tio. Muitos angolanos, em vez de dizerem tio, pronunciam “ti”. Linguagem popular.

Ubulutu– da língua Kimbundu  (Bom-Jesus).

Wevu– Em kimbundu, significa ouviste, forma do verbo ouvir, no pretérito perfeito, na 3ª pessoa do singular, indicativo.  

Yá waba mbá– Kimbundu (língua nacional angolana), significando está bom, sim!  Yá waba- Está bom.

Yá kala yá– é um slogan na língua nacional Kimbundu. (Este slogan foi muito utilizado na luta urbana de libertação nacional, significando está tudo bem)? A resposta é“yá”-  significando que sim, está tudo bem.

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* Kafala Tibah é pseudónimo literário de Moisés Kafala Neto, nasceu aos 05 de Dezemro de 1962 em Luanda, onde fez o ensino primário e secundário. É Licenciado em Ciências da Educação pelo ISCED (Instituto Superior de Ciências da Educação) de Luanda, na Opção de Ensino da Matemática. É Mestre em Infomática Educativa, Doutorado em Ciências Pedagógicas, é Perito Forense e foi funcionário sénior do extinto Ministério do Ensino Superior de Angola e também Presidente do Instituo Superior Politécnico Privado do Kilamba- ISPKILAMBA. Actualmente exerce a função de Vice-Presidente para a área Científica do Instituto Superior de Angola. 

É amante de literatura e membro da Brigada Jovem de Literatura de Angola, desde 1989. Tem participação de trabalhos em Revistas Científicas da América Latina e em antologias poéticas. Participou em eventos internacionais sobre a cultura, particularmente no “Fenacult”. Fala fluentemente português, espanhol e kimbundo.

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A Quarta Literária é uma ação da árvore das Letras de fomento à literatura independente.

Participe da Vivência Novos Autores, um encontro on-line semanal de leitura e produção literária. Saiba mais AQUI.

LER É SIMPLESMENTE A MAIOR METAMORFOSE DAS NOSSAS VIDAS

Por Leandro Bertoldo Silva

Você certamente já ouviu falar sobre os clássicos da literatura: Machado de Assis, Dostoiévski, Victor Hugo, Jane Austen, Tolstói, Cervantes, só para citar alguns.

 Mas você sabe o que realmente eles significam? Sabe o que eles são e, principalmente, por que são considerados clássicos?

Bem, antes preciso dizer uma coisa. A leitura sempre foi para mim um alimento. Ela estimula o raciocínio, melhora o vocabulário, melhora a capacidade de interpretação, além de proporcionar um conhecimento amplo de todas as coisas.

Ler desenvolve a criatividade, a imaginação, a comunicação, o senso crítico e amplia a capacidade de escrita. Ler é simplesmente a maior metamorfose das nossas vidas.

Com tudo isso, podemos pensar: se ler é tão bom assim, qual o motivo de haver pessoas que dizem não gostar de ler, ou mesmo encontram tanta dificuldade em algo tão simples e prazeroso?

Porque, como dizia Shakespeare, em Hamlet, “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe sua vã filosofia”.

Ou, mais a propósito, porque entre a obrigação e o prazer há uma grande diferença, assim como entre o discurso e a prática.

Sempre acreditei na leitura do prazer, da descoberta, do estímulo, da junção das artes musicais, manuais e visuais e principalmente do brincar. Ler precisa ser divertido e acima de tudo fazer sentido para si e para o outro. Quando isso existe a magia acontece e o leitor é formado.

Mas há um ponto de fundamental importância: engana-se quem pensa que isso é adquirido de uma só vez. É preciso tempo, carinho, paciência e conhecimento para subir degraus. Contudo, se a condução for bem feita, a chegada é certa. É preciso, pois, saber conduzir este encontro, porque é natural gostar de ler.

Como diz Carlos Felipe Moisés, no seu livro “Poesia não é difícil”, “não há idade mais propícia à poesia do que a juventude: é a idade da autodescoberta e da descoberta do mundo, da curiosidade ilimitada, da imaginação generosa, do desejo de compreender, e também do espírito crítico aguçado, das dúvidas e incertezas, das experiências decisivas, que costumam marcar para o resto da vida. Não é de surpreender, portanto, que todos amem poesia.” Assim acontece não somente com a poesia, mas com todos os gêneros literários, sejam eles romances, contos ou crônicas.

E aqui lanço olhos para uma leitura muito importante dita lá em cima, no início dessa conversa: os clássicos.

Importante porque os clássicos significam o topo da escada literária, e eles não são considerados clássicos por acaso. São obras alinhadas com os nossos mais profundos sentimentos.

Os clássicos atravessam os séculos e sempre se apresentam como atuais ao fazerem um grande sentido em nossa formação humana, porque nos convidam e nos motivam a refletir sobre a essência da vida. Essa é a principal característica de um clássico e o faz ser considerado como tal.

É preciso entender: longe de carregar todo o estigma de ser difícil e maçante, um clássico sempre tem voz, e nunca, nunca mesmo nos sentimos mal em frente a algo que nos completa.

Portanto, acredite! Os clássicos não são inacessíveis, é exatamente o contrário, eles dialogam com tudo e todas as respostas estão lá. Basta darmos uma chance a eles e a nós mesmos. Mas repito: é preciso saber conduzir esse caminho.

É esse o motivo de trabalharmos na Árvore das Letras a formação de Mediadores de Leitura em conjunto com a contação e mediação de histórias desde a infância, e seguimos em oferecer uma imensa diversidade de gêneros por meio de Clubes de Leitura, tanto presencial quanto on-line, para que os momentos sejam respeitados e os livros, inclusive os clássicos, façam parte natural da nossa existência, a nos tornarem pessoas melhores e esclarecidas. Isso faz toda a diferença no nosso futuro.

Deixo aqui um apanhado geral de quatro motivos para ter os clássicos sempre por perto e dar a eles uma chance de leitura:

Primeiro, um clássico é uma obra atemporal; ela é atual independente da época lida.

Segundo, ele está mais próximo de nós do que podemos imaginar, pelo simples fato de falar sobre os nossos mais profundos sentimentos.

Terceiro, é uma maneira de conhecermos a história do mundo não apenas por um ângulo ou fato, mas ter a oportunidade de ampliar nossas percepções, escolhas e entendimentos.

E quarto, é uma oportunidade de viajar por outras línguas e culturas.

Vamos disseminar essa grande paixão? Acredite, estaremos a construir um mundo muito melhor.

Participe dos nossos Clubes de Leitura. Veja AQUI como é possível e como funciona. Ou entre em contato. Terei muito prazer em conversar com você.

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Bem, espero que essa leitura tenha te inspirado a ler ou mesmo a reler os clássicos. Aliás, qual é o seu preferido ou qual você tem vontade de ler e ainda não leu? Diga aqui nos comentários.

Boa leitura e Forte abraço!

Até a próxima.

LÁ E CÁ

Por Kaká Bertoldo*

— Olá, boa tarde! Poderia me informar que horas são?

— Boa tarde! Você quer enformar qual pão?

— Não, não…quero saber o horário de agora!

— Ah, claro! São 16h. – respondeu o padeiro.

— Nossa, então preciso me apressar!

— Que coincidência! Eu estava indo agora mesmo apreçar, você vai comigo?

— Vou aonde? – perguntou.

— Apreçar os pães, uai! Logo os clientes chegam aqui.

Sem entender nada, resolveu ir embora.

— Olha, obrigado! Já vou indo, meu caminho é bem comprido.

— Ah, eu também estou cumprindo direitinho minha função! Recebo muitos elogios, todos os dias.

— Seus pães são ótimos mesmo, Sr. Padeiro, uma pena essa inflação, estão cada dia mais caros….

— O que foi que você disse? – o interrompeu o padeiro. – Eu não cometo infração nenhuma aqui não! Sou muito cuidadoso com o meu trabalho.

— Calma, não fique bravo não, afinal isso é eminente!

— O que está iminente? Qual infração??

Respirando fundo, continuou a se explicar:

— Fique calmo Sr. Padeiro, sei bem de sua intenção, não se irrite!

— Bom, isso é bem verdade! É preciso muita intensão para fazer pães caseiros.

E cansado de toda aquela confusão, achou melhor se despedir e finalmente seguir seu caminho. Afinal, só havia entrado na padaria para perguntar as horas.

Antes de ir, achou correto se apresentar:

— Sr. Padeiro, meu nome é Sinônimo, qual é o seu?

— Eu me chamo Antônimo!

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* Kaká Bertoldo é integrante da Vivência Novos Autores, um encontro on-line semanal de literatura.

Venha ler e escrever com a gente!

Saiba AQUI como participar.

OBRIGADO 2023! COM UM ALGO A MAIS.

Por Leandro Bertoldo Silva

No dia 1º de janeiro de 2023 publiquei a primeira Crônica de Domingo do ano. De lá para cá foram 53 domingos, com este, e 53 publicações entre crônicas e poesias, sem contar os textos de colaboradores, alunos e parceiros, tanto do Brasil como de África.

Quero deixar o meu muito obrigado a cada um de vocês que contribuíram, leram, comentaram e fizeram desse espaço o meu melhor lugar, porque aqui escrevi o que estava na alma, traduzi em palavras os meus anseios, as minhas alegrias e até mesmo os meus medos e angústias, porque sim, elas existem e é natural.

Lembro-me que no dia 1º de janeiro trouxe como título a frase “Esse ano eu quero o simples sem excessos”. De fato, busquei ser mais assertivo em minhas escolhas, e isso me fez ser mais seletivo também… Disse que em muitas coisas eu desejaria o menos: menos barulho, menos discurso, menos necessidade de mostrar para os olhos poderem enxergar, e citei o menino que carregava água na peneira, de Manoel de Barros, ao dizer: “os vazios são maiores e até infinitos”.

Quanta verdade, Seu Manoel!

Em anos anteriores onde fiz listas e mais listas de desejos e muitas vezes de promessas não cumpridas, em 2023 escolhi peneirar silêncios… Busquei viver cada dia sem expectativas, porém atento às possibilidades e aberto ao que a natureza me oferecesse.

E o que aconteceu?

Nunca vivi um ano tão “cheio de vazios” — os verdadeiros vazios ao preencherem tudo! Não digo em termos de quantidade de acontecimentos, mas de qualidade ao sentir na alma a importância de extrair o máximo de cada coisa.

Nesse ano tomei posse como membro titular da Academia de Letras de Teófilo Otoni, tendo como patrono o jornalista e escritor Luiz Gonzaga de Carvalho, assumindo a cadeira nº 27. Muito obrigado.

Vi cumprir uma visão que profetizei há 10 anos (rsrsrs), quando disse a então aluna Fabiene Lemos, hoje amiga querida e psicóloga brilhante, que um dia trabalharíamos juntos; e foi nesse 2023 que realizamos uma capacitação para 120 professoras da rede municipal de ensino da cidade de Águas Formosas, no Vale do Mucuri, eu com a literatura, ela com a psicologia, em parceria com o Instituto In-Cena. Pois é, Fabiene… Eu estava certo! Muito obrigado.

Nesse ano, a propósito, tal parceria com o In-Cena proporcionou algo incrível em minha vida: a minha volta ao teatro, agora como diretor e dramaturgo, ao dirigir, juntamente com minha esposa Geane Matos, o novo espetáculo infantil do grupo, sendo a primeira direção externa em 15 anos de existência da companhia.

Como se não bastasse, a peça foi inspirada no meu livro “O Menino que Aprendeu a Imaginar”, e rendeu a ele a sua segunda edição lançada no encerramento do “Sábados Literários” no Teatro Raul Belém Machado, em Belo Horizonte, junto com a pré-estreia do espetáculo. Tenho só a agradecer ao André Luiz Dias, diretor do In-Cena e coordenador geral do trabalho e a todos os artistas e equipe desse grupo maravilhoso. Muito obrigado.

E os “vazios- cheios” não pararam por aí…

Foi nesse ano que tive a oportunidade de me encontrar pessoalmente com os integrantes da turma Novos Autores, aqui da Árvore das Letras, hoje meus mais significativos amigos e amigas. O que antes eram apenas encontros virtuais, puderam se concretizar em abraços e sorrisos reais, absorvendo o melhor do calor humano de cada um: Valéria, Luzia, Paulo, Patrícia, Rosi, Maria, Regina, Elisa, Ricardo e Pierre. Até Stefhanie eu conheci. Ainda não me encontrei com Adriana e esse ano com Carolina, mas estamos a caminho. Muito obrigado.

E já no finalzinho do ano pude estar com os “canarinhos cantores”, assim foram batizados carinhosamente pelo Ricardo Albino as crianças da turma Lygia Bojunga, em nosso trabalho presencial aqui na árvore de formação de mediadores de leitura, apresentando a história “Emengarda, a barata”, do Pierre André, com música minha e letra do Ricardo. Muito obrigado.

Nossa! Que ano maravilhoso!!

Encero aqui 2023 com o mais profundo sentimento de gratidão, pois nele encontrei o silêncio das necessárias verdades, onde o simples me levou às minhas letras, exatamente como eu havia planejado.

Obrigado por me acompanharem e lerem os textos aqui publicados. Sou grato por isso.

Vamos a outras páginas…

Mas tem mais uma coisinha!

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Chegamos, assim, à última Crônica de Domingo de 2023. Para 2024 teremos novidades. Mas como a literatura exerce também uma função crítica na sociedade, não poderia finalizar esse ano sem deixar um ponto de reflexão. Esses seis momentos memoráveis, que intercalaram lazer e trabalho, todos eles foram presenciais. Em nenhum deles foram exigidas as redes sociais para além do simples divulgar dia e hora dos eventos e, mesmo assim, tal ação está muito longe de ser única e imprescindível. Isso nos leva a duas questões tratadas como verdadeiras sentenças que muitos tentam impor, mas deixo aqui contrapontos: primeira, “quem não estiver nas redes sociais será invisível e estará fadado ao fracasso”. Será mesmo?! E segunda, “tem que estar, porque “todo mundo” está nas redes sociais”. Todo mundo quem?!

Feliz 2024.

Até a próxima.

A LENDA DO PINHEIRO DE NATAL

Conto popular, por Leandro Bertoldo Silva

Há muito, muito tempo, Em uma noite de Natal, existiam três árvores que ficavam perto de um presépio: uma oliveira, uma tamareira e um pinheiro.

Ao verem o menino Jesus nascer, as três árvores ficaram tão felizes, mas tão felizes, que resolveram, cada qual, presentear o menino oferecendo aquilo que lhes eram mais valioso.

A oliveira foi logo oferecendo ao menino Jesus as suas mais belas e suculentas azeitonas para delas extrair o mais precioso azeite.

A tamareira ofereceu ao menino as suas mais belas e doces tâmaras para delas fazer o mais delicioso suco.

O pinheiro, por sua vez, ao perceber que não tinha frutos para oferecer e muito menos qualquer outra coisa, ficou muito desapontado e triste.

Mas um anjo que passava por ali, ao ver aquela tristeza profunda do pinheiro, se aproximou e disse:

— Oh, meu gracioso pinheiro, por que está tão triste assim? Mas o que foi que aconteceu?

E o pinheiro contou ao anjo o que tinha acontecido; que havia nascido uma bela criança, e ele, como as suas amigas árvores, também queria oferecer ao menino um presente. Mas ele não tinha frutos para oferecer. Ele não podia oferecer nem mesmo a sua sombra, porque os seus galhos eram compridos e pontudos e poderiam, inclusive, machucar a pobre criança.

O anjo se compadeceu daquela tristeza e teve uma ideia!

Não falou mais nada. Subiu ao céu e foi encontrar com as suas amigas estrelas. Chegando lá, contou para elas o que estava acontecendo na terra. E pediu para que elas descessem e pousassem nos galhos do pinheiro. Assim aconteceu.

E quando as estrelas pousaram nos galhos da árvore, ela ficou toda iluminada e enfeitada.

O menino Jesus, ao abrir os olhos e ver aquela árvore tão bonita, ergueu os braços e sorriu.

E reza a lenda que foi assim que o pinheiro passou a ser considerada a árvore símbolo do Natal em todos os cantos da terra. E aquela noite passou a ser para sempre a Noite Feliz.

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Hoje é Natal!

Não poderia deixar de trazer aqui neste espaço de todos os domingos uma história que embalasse esse dia especial. Essa história não é minha; é de origem popular, mas é a minha maneira de contar e perceber em um conto aparentemente simples uma grande reflexão: dar e receber presente é algo maravilhoso, mas somos presentes na vida das pessoas?

Forte abraço e Feliz Natal!

Até a próxima.

É AQUI, É AQUI!

Por Leandro Bertoldo Silva

Essa semana, no dia 12 de dezembro, Belo Horizonte completou 126 anos. É a cidade que me viu nascer. Foi onde eu cresci, estudei, fiz meus melhores amigos, os quais até hoje fazem parte da minha vida; como o moço aí da foto – Pierre André – representando Aarão Reis, o construtor da então Cidade de Minas.

Pierre é um irmão, parceiro das artes e colecionamos juntos muitas vivências para contar. Reis – sim, conquistei essa intimidade de chama-lo assim, foi outro grande amigo que fiz, e juntamente com Xavier de Novais, o segurança de uma livraria, me permitiu escrever em uma deliciosa ficção histórica a história dessa cidade permeada de lendas e fantasmas.

A propósito, é sobre um deles que passo a contar agora, revelando, inclusive, sua origem. Isso pouca gente sabe!

Antes preciso dizer que o caso não é meu… Ele me foi contado por Xavier de Novais que o ouviu de Aarão Reis. Por isso, aos historiadores que se sentirem incomodados, dou-lhes uma sugestão: tão logo tenham suas existências mudadas de patamar, solicitem uma audiência com meu amigo Reis e cobre dele o que aqui vai narrado…

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Voltamos em 1897. Prestes a ser inaugurada, ainda faltava em Belo Horizonte aquele mal necessário… Aliás, não exatamente um mal, mas uma necessidade triste… A cidade precisava de um cemitério. É verdade que Belo Horizonte foi construída a partir de algumas desapropriações e que deixaram muitos moradores, após a passagem para o outro mundo, vagando a ermo pelas ruas da cidade e, por que não dizer, assustando os transeuntes. Sobre isso falarei no cabo deste relato. Por ora, digo que a Loira do Bonfim não é uma dessas assombrações, até porque, ela não fazia parte do rol dos fantasmas pioneiros da cidade, embora sua fama tenha ultrapassado muitos deles. Onde estaria, então, a ligação entre tudo isso? Nele: a razão de ser da loira e de tantos outros que ali fizeram morada, dos mais simples e humildes aos mais abastados e importantes, como Raul Soares, Olegário Maciel e até mesmo o beato holandês Padre Eustáquio. Estou me referindo ao próprio campo-santo, cujo nome traz em seu trocadilho a alcunha perfeita, se não para a sua existência, ao menos para o que vai adiante.

O Bonfim fora planejado para ser o primeiro cemitério da história da então nova capital. E como tudo na época não economizava despesas, artistas italianos recém-chegados a Belo Horizonte no fim do século XIX e início do XX foram convidados a assinarem verdadeiras esculturas artísticas sob os túmulos e mausoléus. Muitas dessas esculturas até hoje estão no local, fazendo com que o cemitério do Bonfim se tornasse um museu a céu aberto e um dos mais impressionantes do país. Difícil é encontrar quem tenha coragem de admirar tais obras, ainda mais a noite…

Bem, como eu disse, o Bonfim fora planejado para ser o primeiro cemitério da cidade. Acontece que não foi. Outra necrópole já existia na nova capital antes dessa. E a razão era lógica: muitos operários, assim como seus parentes, morreram ao longo da construção de Belo Horizonte. Onde os corpos foram enterrados? Oh, meus amigos… Há quem se lembre, já em tempos um pouco mais modernos, daquela noite de chuva torrencial. Foi tanta água, mas tanta, que crânios rolaram pelas ruas do centro da capital, passando pela avenida Afonso Pena e chegaram ao Parque Municipal, causando espanto e pânico nos moradores, na manhã do dia seguinte. A razão de macabro acontecimento? É que o local onde foram enterrados cerca de duzentos corpos ocupou o quarteirão que hoje é circundado pela avenida Amazonas e ruas São Paulo, Tupis e Rio de Janeiro. O lugar, obviamente, não existe mais. Foi ocupado por edifícios e não entrou para a história com a mesma importância do “irmão famoso”, ficando relegado ao esquecimento, pelo menos até agora. Essa história é fundamental para entender o que, na verdade, é a razão deste relato: a origem da loira misteriosa. E tudo começou naquele fim de tarde de 1895, dois anos antes da inauguração da cidade…

“Senhores, temos um problema” — sentenciou um dos homens da Comissão Construtora da Nova Capital. A reunião havia sido marcada com urgência após o trágico acidente que vitimou  um dos operários que trabalhavam sem nenhuma proteção e cuidados especiais, o que era comum naquela época. O infeliz moço caiu em uma vala, bateu com a cabeça e entrou para a história anônima como o primeiro dos duzentos mortos daquela ação em prol da modernidade. Cabe dizer que o “problema” não foi a morte do homem e muito menos da família que choraria sua ausência. Antes fora algo muito mais sério… O cemitério ainda não estava pronto e, mesmo que estivesse, haveria de ser inaugurado com figura ilustre, que fizesse jus ao alto investimento dos artistas italianos. Não seria um operário a ser plantado em hora errada. Não ficaria bem aos olhos do alto escalão e de suas famílias.

— Onde foi a queda?

— Na transversal sul, a duzentos metros da principal.

— Mais essa! Arre!

— Sugiro, senhores, calma e equilíbrio. O planejamento do Bonfim não pode ser alterado e o fato requer medidas diplomáticas.

— Diplomáticas? É um operário!

— Acalme-se. Ele tem razão. Não queremos grandes alterações, creio. Nem tampouco levantar chateações desnecessárias para com os operários e seus familiares… Já está em uma vala, certo? Que fique por lá com honras de condolências, para imprimir aos demais e aos seus nosso devido respeito. 

— Exatamente! Um gesto apenas, para uma eternidade de bons motivos de gratidão.

— Mais claro impossível! — disseram, e após acertarem os detalhes do funeral, a reunião foi encerrada.

No dia seguinte, às cinco horas da tarde, o local improvisado foi cercado, sem grandes pompas para que ficasse assim mesmo, sem importância. Afinal, as coisas sem importância são logo esquecidas. Determinou-se que ali seria onde os operários mortos e seus familiares seriam sepultados, mas que os ricos estavam proibidos de morrer, se é que me entendem… Estes esperarão por campos mais santos — o primeiro. Até lá, flores e palavras bonitas eram suficientes para aquela gente que inaugurava o primeiro desenlace da auspiciosa construção. 

Passemos adiante, mas não sem mencionar que a viúva do infeliz estava grávida, e veio dar à luz a uma menina branca como o leite que, ao crescer, tornara-se uma mulher linda, com olhos e cabelos claros, mas doente e triste. Morreu jovem, vindo a ser sepultada não na mesma cova rasa de seus pais, que já não existia, mas no emblemático Bonfim. Isso mesmo que deve ter pensado, queridos amigos… A mulher linda e triste era ela, ou melhor, é ela: a Loira do Bonfim, ou, ainda, Aurora.

Esse era seu nome, que se contrapunha à insistência de seu destino. Como dito, Aurora era linda, mas triste. Por ironia não inexplicável, nascera para a morte. Embora sua beleza a colocasse em patamares superiores a sua gente, sua ascensão social nunca era permitida, não pelas pessoas, mas antes por acontecimentos quase inacreditáveis. O amor sempre fora impossível na sua vida, apesar de todo poder sedutor que sempre manteve, mesmo depois de seu nome cair no esquecimento ao se tornar a tão assustadora aparição dos motorneiros. 

A propósito, para que saibam os amigos, não é por acaso que a loira sempre fora ligada aos veículos. Eles vitimaram seus namorados, todos eles filhos de autoridades da época, explicando, assim, seus insucessos em ascender, ainda viva, às classes privilegiadas. Cada namorado, um desastre. E não demorou muito para que Aurora sofresse uma sequência terrível de rejeições por moços que seguiam o conselho da mãe; “que se cuidem certos homens”, elas diziam.

Um dos acidentes, talvez o pior deles, aconteceu no segundo semestre de 1915. A Capital ainda era pequena, com pouco mais de quarenta e cinco mil habitantes. Em um domingo de outubro, um jovem de vinte anos, então namorado de Aurora, foi vítima de um grande desastre. Na volta de uma romaria cívica em Caeté, o infeliz rapaz se curvou para fora do vagão em que estava sentado, possivelmente para ver alguém conhecido, no exato momento em que o trem passou pela caixa d’água da ferrovia. Ele literalmente perdeu a cabeça, mas dessa vez, não por Aurora, se é que me entende.

Outros infortúnios se sucederam, mas para o relato não descambar para o grifo do sensacionalismo, tão querido por alguns programas jornalísticos da modernidade, fiquemos por aqui, no entanto, sem deixar de dizer que a essa altura o Bonfim já recebia os seus moradores eternos, sendo um deles, ou melhor, uma delas, a própria Aurora. Ainda que não fosse da estirpe senhorial, ela ganhou por condolência o direito de ser ali sepultada, tornando-se, já naquele tempo, a Loira do Bonfim.

Mal sabiam as autoridades que esse apelido faria história e que essa história ultrapassaria os tempos. E mais do que isso: o fato de darem a ela a comiseração de ser enterrada no segundo cemitério da cidade tido como o primeiro, fez com que Aurora assumisse, já na condição de fantasma, uma espécie de cargo advocatício daquelas duzentas almas de outrora.

Posso novamente até ver as caras de espanto ao lerem este relato… Mas na verdade, meus amigos, Aurora se apropriou de sua nova alcunha para vingar o descaso e o preconceito sofridos pelos seus ao serem sepultados em um cemitério esquecido. E para mostrar sua indignação, escolheu somente os homens como forma de protesto, passando a fazer o que todos já sabem, ou seja, pedir antes aos motorneiros, depois aos taxistas, para a levarem até os portões do Bonfim e os deixarem apavorados ao adentrar o cemitério desaparecendo, mas não antes sem dizer por duas vezes a sentença que por anos pensaram ser indicação do lugar para onde queria ir. Mas o que nunca se soube — pelo menos não até agora — é que na verdade a loira Aurora estava, e está, indicando outra coisa. Sua intenção sempre foi mostrar o local onde corpos de duzentas almas construtoras da cidade deveriam estar enterrados.

Por isso, se você é mulher ou homem sensível e romântico, nada tem a temer. Mas se você é daqueles machistas, patriarcais, é bom se cuidar. Isso se não quiser, como aconteceu com uma das vítimas da loira, enlouquecer, ser internado e passar todo o resto da vida repetindo sem parar: “é aqui, é aqui!”.

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Obrigado por me acompanhar e ler essa história. Sou grato por isso. Fica aqui a minha homenagem a Belo Horizonte, essa cidade tão amada e o meu agradecimento aos primeiros moradores do antigo arraial do Curral del Rey, aos operários que construíram anonimamente a nova capital e aos fantasmas que povoaram e povoam essa cidade.

Essa e outras histórias você encontra no livro Histórias de um certo Aarão e outros casos contados – das histórias e lendas de Belo Horizonte recontadas por um segurança que recebia, em seu serviço, a visita ilustre do fantasma de Aarão Reis.

Se gostou e quiser adquirir o livro, é só clicar AQUI e fazer o seu pedido. Aproveite que essa semana está em promoção de aniversário até dia 31 de dezembro! 🙂

Forte abraço!

Até a próxima.