LIBERDADE SEM MEDO DE EXISTIR

Por Leandro Bertoldo Silva

Em conversa com um casal amigo meu, falávamos sobre o quanto neste mundo atual perdemos a nossa capacidade de escolha. Se observarmos todo um contexto de vida, ou seja, tudo ao nosso redor, enxergaremos uma padronização massificada e profundamente incômoda para quem cresceu na diversidade.

Sou do tempo onde até os carros eram coloridos e tinham cada qual a sua originalidade pelo formato e desenho próprios, bem diferentes das caixas quadradas ou abaloadas monocromáticas de hoje.

Fala-se tanto em pluralidade e estamos cada vez mais imersos no indivisível, na obrigatoriedade de ser igual. Há coisas e situações que a igualdade é necessária, é um direito e um dever, mas eu me refiro à liberdade de se sentir diferente, de poder, como eu disse, escolher o próprio caminho como quem escolhe a própria roupa, a própria comida, a próxima leitura. Mas sabe de uma coisa? A situação é muito mais séria quando pensamos que nem roupa, nem comida e nem leitura podemos escolher hoje em dia; o mercado, a economia e o sistema comportamental escolhem por nós. Nós até escolhemos, mas apenas o que é permitido, ou seja, é tudo ilusório.

Sair desse lugar é tarefa árdua, é viver na corda bamba da resistência. É preciso muita disciplina e força de vontade para estar em um meio sem ser afetado por ele. Sinceramente, acho quase impossível.

Um dos exemplos disso são as redes sociais.

Por muito tempo acreditei que precisava habitar o lugar das redes para existir na memória das pessoas, mas, pouco a pouco, fui percebendo que a minha própria memória pedia descanso. A constância delas me cobrava uma escrita que não era minha, um ritmo que não era meu e me afastava do que eu realmente queria oferecer.

Então decidi buscar outras maneiras. Maneiras mais profundas, mais lentas, mais alinhadas com o que pulsa em mim. Espaços como esse, onde a escuta é mais ampla e a presença não precisa ser performada, apenas escrita e vivida. Para mim, é bom pensar, mesmo que seja utópico, mas é a “minha” utopia, que não estar nas redes da forma que elas querem não significa ausência, significa presença escolhida, aquela que nasce do silêncio, da intenção e do cuidado com o que venho construindo com as mãos e com a palavra.

Mas não quero desviar o foco apenas nisso. Como eu disse, as redes sociais são só um exemplo, embora dominador ao extremo. Existem outras curvas nessa estrada.

Prefiro seguir inteiro a partilhar ideias, acolher conversas e oferecer o meu trabalho, porém em lugares onde o tempo corre em outra direção, onde a relevância não depende de métricas, mas de encontros verdadeiros e os textos vão muito além de legendas.

Por isso estou aqui, desejoso de uma comunicação mais honesta e direta, de uma forma que não desagasta, mas nutre, em busca de abrigo a me recolher mais profundamente.

Essa é a minha escolha.

Qual é a sua?

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Leandro Bertoldo Silva é o criador deste blog. Formado em Letras, pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC-MG e membro titular da Academia de Letras de Teófilo Otoni. Escritor independente, Leandro é artesão de palavras e criador de livros feitos à mão. Sua obra transita entre a literatura e a arte manual, explorando uma nova forma de escrever, produzir e compartilhar histórias, onde cada livro é único, feito com tempo, valorizando a experiência e afetividade da leitura.

VIVENCIANDO EMOÇÕES

Por Hairon H. de Freitas

O que mais preciso ouvir nesse momento, senão as palavras de um sábio que me oriente sobre as questões emocionais que me afligem e que afligem a humanidade.

Sempre que olhamos para os animais irracionais com suas atitudes abruptas, medrosas e ferozes, tentamos colocar um pouco de razoabilidade sobre suas ações, tentando, às vezes, controlar o ímpeto natural deles. Por vezes, ignoramos o estágio em que vivem, por isso somos tentados a transformá-los em seres humanos ou quase humanos.

Fico pensando se os sábios também nos observam da mesma maneira que observamos os animais, tentando elevar nossas atitudes infantilizadas e recheadas de instintos a um patamar considerável, ou será que eles nos respeitam e entendem os nossos limites, sem impor melhoras inesperadas em nossas emoções?

Por vezes encontramos pessoas surtadas que ignoram o limite da convivência, agindo como um leão na selva, no entanto exigimos que os animais sejam moldados de acordo com as nossas perspectivas de vida.

No estágio atual, o homem já deveria possuir um emocional mais equilibrado, mas, contrariamente, ele insiste em valorizar o ego, criando inúmeros obstáculos e chegando até o nível irracional do ser.

Quem disse que é fácil entender o nosso emocional desvairado, incongruente e contraditório?

Não! Nunca foi fácil entender o que se passa em nossa mente egóica. Hoje temos diferentes tipos de instrumentos utilizados em nossa capacitação e aprimoramento interior, tão necessário para apaziguar os nossos relacionamentos em casa, no trabalho ou em qualquer lugar onde estejamos.

Alguns dos fundamentos importantes com os quais os sábios sempre abrem suas explicações e palestras são: conhecer-se melhor, não julgar e não se precipitar.

Dentro de uma vida desequilibrada, o sofrimento cumpre o seu papel até que o neófito se canse e busque caminhos mais razoáveis, que não promovam tantos desgastes emocionais.

A princípio, busco um sábio que me oriente mais sobre as questões emocionais.

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Hairon Herbert de Freitas é apreciador de arte: poética, musical e desenhos abstratos. É membro das academias de Letras e Artes de Cabo Frio – ALACAF, de Letras de São Pedro da Aldeia – ALSPA e de Artes, Ciências e Letras de Iguaba Grande – AACLIG. Participou de projetos, antologias, varais poéticos e saraus, entre eles: Projeto Poesia na Escola, do professor Gilberto Martins, de Brodowski (SP); antologias “A Aldeia de Pedro”, em São Pedro da Aldeia; antologias “Flores Literárias” em Cabo Frio; antologias, varais poéticos e saraus da ALACAF e da ALSPA. Recebeu o “Prêmio Cultural Caiçara”, concedido pela ALACAF e pela ALSPA, e o Título de Doutor Honoris Causa em Artes e Literatura, concedido pela ALSPA. É colaborador da Árvore das Letras.

QUANDO O TRABALHO DEIXA DE SER IDEIA: O CRITÉRIO QUE INAUGURA 2026

Por Leandro Bertoldo Silva

Existe um momento em que é preciso enxergar as coisas com mais clareza, a vida com mais propósito e o trabalho com mais definição.

No meu desejo de enxergar a literatura bem fora da caixinha em tudo que a envolve, mas principalmente na escrita e na maneira de apresentar isso primeiro para mim e depois para o outro, me levou a uma pergunta nem tão simples de responder, mas fundamental:

“Que problema, afinal, o meu trabalho resolve?”

Confesso já ter tentado responder essa pergunta inúmeras vezes, mas nunca havia conseguido chegar a um resultado satisfatório, mesmo tendo dentro de mim o que eu queria. Mas faltava comunicar às pessoas, fazê-las entenderem onde, de fato, eu me encontrava e o que propunha.

Porém, sou persistente e lancei-me novamente à busca da resposta como quem procura o tão sonhado potinho de ouro no fim do arco-íris. Lá fui eu, caderno e caneta na mão, porque sim, sou coerente com meus propósitos, e comecei a rabiscar palavras e frases como de muitas outras vezes.

Nada saía até que numa das longas pausas, entre uma xícara de café e outra, olhei bem onde e como eu estava a escrever: segurava a minha melhor caneta e a usava em um caderno feito por mim. Hum… Eu disse há pouco a palavra “propósito”?

Algo começou a se iluminar. Minha sobrancelha esquerda arqueou levemente, passei a lembrar dos momentos mais incríveis vividos com as pessoas por intermédio do meu trabalho e lá estavam os lançamentos das coletâneas em livros artesanais, resultantes de momentos mágicos de leitura e escrita.

Então… E se… É isso!

Abri novamente o caderno e escrevi de uma só vez:

“Eu ajudo pessoas a conectarem consigo mesmas através das histórias literárias e da escrita à mão, tendo o caderno como espelho de seus sentimentos e a publicação artesanal como possibilidade”.

Uau! Como tudo ficou muito mais claro! Pousei a caneta do lado e fiquei a olhar aquelas poucas palavras dispostas de uma forma a combinar exatamente tudo o que eu fazia: escrever com paixão, ajudar pessoas a encontrarem dentro de si esse mesmo prazer e exteriorizar seus sentimentos tendo as histórias como suporte e inspiração e, além de tudo, costurar seus próprios cadernos e ter a possibilidade de ver seus escritos reunidos em um livro feito artesanalmente.

Foi muito rápido compreender o prazer e sentir o entusiasmo daquela definição. O próximo passo foi decidir comunicar isso com as pessoas certas e não mais para “todo mundo”. Aprendi ao longo da minha experiência que as coisas não são para todo mundo; algumas são para algumas pessoas, enquanto outras, por mais admiradas que sejam pelo nosso trabalho, estão muito distantes daquilo que oferecemos.

O que eu fiz?

Criei uma pesquisa na Comunidade da Árvore das Letras para ouvir diretamente das pessoas o que elas queriam e pautar as minhas ações a partir das suas respostas. Isso não apenas definiu muitas coisas como me certificou do caminho escolhido e me ajudou a abandonar com muito respeito atitudes e ofertas que já não faziam mais sentido. Na sequência, apresento os resultados obtidos.

Na primeira pergunta Como você se define no seu vínculo com a leitura e a escrita, para 45,5% das pessoas que manifestaram, responderam que leem e escrevem regularmente, ou seja, estamos construindo o nosso trabalho em local certo.

Na segunda pergunta o  que mais te traz até esta Comunidade, tivemos números bem interessantes: para 36,4% das pessoas, é o desejo de escrever mais, enquanto para 27,3% é a inspiração e o bem-estar emocional; o mesmo número para o sentimento de pertencimento.

Sobre quais tipos de conteúdo as pessoas mais apreciam, para 63,6% preferem propostas de escrita afetiva; 54,5% gostam de conversas e reflexões sobre processos criativos e 45,5% de textos de colaboradores publicados no blog. Esses dados direcionam muito a nossa presença por aqui e ao longo do ano.

Para como você prefere receber conteúdos, achei muito interessante 54,5% das pessoas preferirem textos no WhatsApp. Isso demonstra que estamos lidando com pessoas realmente leitoras. 18,2% mencionaram áudios e vídeos, e isso traz muitas boas ideias.

Quanto às expectativas para 2026, 45,5% esperam por práticas guiadas de escrita enquanto 27,3% gostariam de encontrar séries temáticas de escrita, leitura e autocuidado. As duas coisas se aproximam muito.

Por fim, 63,6% das pessoas consideraram participar de oficina de escrita, workshops e cursos de encadernação artesanal pagos e 36,4% também, dependendo do valor. Ou seja, teremos novidades.

Bem, com tudo isso dito e exposto, posso certificar sobre como o meu trabalho deixou de ser uma ideia e se transformou em um critério, transformando-se em uma nova base a dar origem a todo um ecossistema a funcionar a partir de 2026. Trata-se de um trabalho inédito que na próxima publicação mostrarei como irá funcionar.

O que posso adiantar é que as Quartas Literárias passarão a ser direcionadas para assuntos como esse, assim como práticas de escrita, criatividade, leitura e autocuidado, como apontados na pesquisa, enquanto as Crônicas de Domingo serão alternadas entre textos de colaboradores.

Por hora vou ficar por aqui, mas quero dizer uma última coisa: se o que foi dito fez sentido, se você também se encontrou representado, representada nesses dados é porque você não faz parte de todo mundo, mas de pessoas especiais cuja escrita é uma ferramenta poderosa de criatividade e autoconhecimento. E se assim é, talvez o seu próximo passo já para iniciar 2026 de uma forma bem inovadora, seja conhecer o Workshop “O caderno como espelho: uma vivência direcionada para encadernação, escrita, silêncio e presença”, que pode ser realizado de forma presencial ou online. O link para saber mais sobre o workshop está logo abaixo e já temos até datas para acontecer os primeiros do ano.

Aproveito para convidar você também a assinar o blog da Árvore das Letras e receber todas as publicações diretamente em seu e-mail em primeira mão, isso se você já não assinou.

E caso queira participar do grupo exclusivo Conversa ao Pé da Árvore, da Comunidade da Árvore das Letras no WhatsApp e estar em contato com pessoas que valorizam o mesmo que você, é só fazer a sua solicitação. É só acessar os links correspondentes abaixo. Acredito que temos muito a conversar.

Até o próximo encontro. Espero por você.

Forte abraço.

Workshop – https://arvoredasletras.com.br/workshop/

Grupo exclusivo Conversa ao Pé da Árvore – https://chat.whatsapp.com/Kl1xzqFGdlC4kdRPpM5Kdk

QUANDO O SILÊNCIO TAMBÉM ESCREVE: UMA PAUSA PARA REORGANIZAR A PALAVRA

Por Leandro Bertoldo Silva

Olá, amigos e amigas das palavras!

Que a arte da literatura possa tecer nossos caminhos de força e luz .

Fiquei alguns dias sem postar por aqui avaliando se fazia sentido fazer uma pausa em dezembro e cheguei à conclusão de que sim, este é o momento certo para desacelerar, revisar o que construí ao longo do ano e reorganizar as bases do que quero fortalecer em 2026.

Estou há algumas semanas refinando meu posicionamento como escritor independente e artesão e também facilitador de Biblioterapia e escrita, ou seja, todo o meu trabalho, e quero alinhar toda essa narrativa para sustentar tudo isso a fim de ofertar coisas ainda mais relevantes às pessoas.

Então percebi que preciso desse espaço de tempo para ajustar a direção do meu trabalho. É uma pausa intencional para que tudo volte com mais clareza, propósito e força.

E, convenhamos, dezembro é aquele mês em que a vida nos pede pausa e reflexão, além da organização da casa, receber a família, organizar viagens, comprar presentes… E eu definitivamente não quero que o blog vire mais uma aba aberta na sua mente. Sei bem como é ver mensagens que amamos virar algo para “ler depois”, sem esquecer que o “depois às vezes nunca chega”.

Por isso, estamos oficialmente de férias!

Só que antes de eu desejar boas festas, tenho um detalhe que irei adiantar para vocês.

As publicações no blog em 2026 passarão por uma mudança estrutural e substancial: os artigos, contos, crônicas, poesias não serão mais acompanhadas por imagens (como nesse texto aqui). Sendo um site literário, ele definitivamente é feito para quem gosta de ler e escrever com intenção e profundidade, diferente da superficialidade das redes. Assim, o objetivo será priorizar a clareza e a beleza textual em detrimento do visual. Esse ficará a cargo da interpretação e imaginação dos leitores e leitoras. Portanto, o blog seguirá um caminho mais minimalista no melhor da expressão “menos é mais”. Teremos mudanças também na condução das publicações, mas sobre isso falarei depois.

Agora sim. 

Desejo que o final de ano de todos seja leve, significativo e com muitas histórias para ler, escrever e contar.

Que vocês saibam escolher onde colocar suas energias, com a mesma generosidade que dedicam a tantos outros. Dezembro sempre traz balanço, memórias, reorganizações. No meio disso tudo, espero que vocês também encontrem momentos seus, espaços que respiram e celebram o agora, porque é isso que fica na memória e, quem sabe, pode ser escrito…

Nos vemos no dia 07 de janeiro para abrir 2026 com novidades que estou muito animado para contar a vocês.

Até lá!

Forte abraço! – Leandro Bertoldo Silva.

NUNCA É TARDE

Por Leandro Bertoldo Silva

Hoje o assunto é rápido, mas a reflexão e grande.

Nunca é tarde para se encontrar. E sempre o momento é precedido de coragem: coragem para dizer “não” para as crenças que passam a ser nossas sem nunca terem sido.

Por que razão abrimos mão à vontade dos outros? Acreditamos quando nos dizem o que fazer, pois, afinal, é sempre o melhor para nós.

O problema?

Quando passamos a ser dirigidos por outras mãos, a olhar por outros olhos que nunca foram nossos.

Fico a pensar! Quão maravilhosa é a liberdade de sermos realmente livres, ter a dignidade para desagradar caso as expectativas postas em nós não correspondam as nossas próprias verdades.

E quais são as nossas verdades?

Sim, porque o que é luz para alguns, para outros pode ser escuridão; o que é ideal para muitos, para outros tantos pode ser motivo de os jogar no chão.

Talvez a melhor forma de achar seja não procurar… Talvez nem seja preciso, talvez já esteja aqui, basta soltar, parar, chegar ao ponto zero — esse lindo lugar que é a ausência e a presença de tudo.

(RE)AVALIANDO ATITUDES

Por Elisa Augusta de Andrade Farina

Ser solidário neste mundo pragmático e utilitarista é muito desgastante e muitas vezes frustrante. Nós, seres humanos, somos um universo tão complexo, tão individual, somos um amontoado de sentimentos controversos que são só nossos e ficam no recôndito de nosso “eu”.

As experiências, as dores, alegrias são únicos e nos pertencem. A verdade de nossas vidas só é conhecida por nós mesmos. Não temos a coragem de compartilhá-la com ninguém. O clímax da questão está pontuado nessa individualidade que nos faz escravos de nossas tensões e dissabores. Temos medo de nos abrir com os nossos iguais e nos fechamos qual concha, matando a confiança, fazendo morrer atitudes, sorrisos e sepultando a felicidade numa morte simbólica de sonhos, expectativas e mesmo na confiança que depositávamos em nós mesmos, enfim, na vida.

Mas, quando a vida resolve dar um baque, nos vemos ”obrigados” a (re)avaliar nossos valores. A recuperação é lenta e dolorosa, todavia capaz de promover uma verdadeira transformação interior. Aí ficamos mais atentos, matamos atitudes que nos fazem morrer por dentro para que possamos renascer.

Como bem disse Cecília Meireles: “percebemos que o caminho da dor é sempre o mais longo (…) e em alguns instantes a dor da existência se torna bem maior que a dor do insistir (…) de modo que um esplendor mágico abre sobre as tragédias um relâmpago e o coração resiste, pela força do deslumbramento”.

A nossa alma ferida necessita permanecer só para restabelecer-se e voltar a reluzir. Os amigos verdadeiros respeitam esse momento de reclusão, mas tantos outros “amigos” com as melhores das intenções insistem em reabrir a ferida que ainda não cicatrizou. Aí a dor recomeça…

Seria mágico se pudéssemos enxergar no crescimento dos que nos cercam de superação, um motivo de respeito, deixando de lado a lâmina mortífera da inveja e abrindo as portas do amor e da compreensão pela vida e para a vida. O mundo necessita que esse amor transborde nos corações para que haja luz na escuridão das almas humanas.

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Elisa Augusta de Andrade Farina é escritora, presidente da Academia de Letras de Teófilo Otoni – ALTO, colaboradora e integrante da turma Manoel de Barros, da Árvore das Letras.

SÓ POR HOJE

Por Leandro Bertoldo Silva

“Anote coisas que você gostaria de fazer para si mesmo, mas só faz para os outros”.

Pois é, meus amigos e amigas…

São tantas coisas assim que até me perco em meus pensamentos. A lista, caso fosse escrevê-la, ficaria imensa. Talvez abrindo o meu coração e falando a vocês seja uma forma mais interessante, porque internalizo a partir da reflexão e o estado de espírito de uma reflete vibracionalmente em outras. Acredito ser mais fácil, inclusive, de identificá-las.

Vou dar um exemplo. Eu levanto todos os dias e preparo com esmero o café da manhã para minha esposa e filha. Não deixo faltar nada, coloco os melhores talheres, pratos e xícaras na mesa com seus respectivos pires. Deixo tudo à mão: pão, biscoito, queijo, bolo, cremes, geleias e procuro dispor tudo de forma bonita e harmoniosa. Às vezes até flores eu coloco. Faço isso todos os dias sem deixar faltar um sequer.

Mas quando acontece de eu estar sozinho por algum motivo, muitas vezes nem um pão eu como. Sentar à mesa? Jamais! Isso não acontece. E aí eu penso: será que eu não mereço o mesmo cuidado? Se isso acontece com algo tão simples, o que dizer de coisas maiores que afetam nossa autoestima e nosso senso de merecimento? E, Acreditem! Isso influencia  desdobramentos para outros não merecimentos…

Então vamos lá!

E se só por hoje vestíssemos nossa melhor roupa para ficar dentro de casa?

E se só por hoje fizéssemos aquela comida especial e servíssemos de maneira bem bonita para nós mesmos?

E se só por hoje cuidássemos de nosso corpo de forma carinhosa?

E se só por hoje bebêssemos água em uma taça de cristal?

E se só por hoje invertêssemos a máxima e fizéssemos por nós o que gostaríamos que os outros nos fizessem?

Eu não quero aqui dar lições de moral nem agir como guru (nossa! Como têm deles na internet!), tanto porque estou no mesmo barco de centenas de pessoas precisando urgentemente de mudanças e transformações. Eu só quero oferecer — talvez para mim mesmo — um pouquinho de conforto.

Um forte abraço!

VOCÊ VIVE QUEM VOCÊ É?

Por Leandro Bertoldo Silva

Pense rápido! Que vida você gostaria de ter se pudesse escolher apenas com base no que é verdadeiramente seu, sem depender de reconhecimento externo?

Responder essa pergunta não é tão simples assim, não é mesmo? Isso porque vivemos em sociedade e sempre ou quase sempre estamos direcionados a fazer as coisas como esperam que nós a façamos. Isso é muito sério!

Por mais que tenhamos ou buscamos ter autenticidade na vida e viver de acordo com as nossas escolhas, sempre há algo a considerar, seja familiar, profissional, em nosso círculo de amizades.

Mesmo que assim seja, é preciso ter em mente que a felicidade não depende ou não deveria depender da validação externa, mas de alinhar ações aos próprios valores e tempo interior.

Não quero dizer que não devemos ouvir as pessoas, mas ponderar o que elas dizem em detrimento aos nossos próprios desejos é fundamental para uma vida feliz e verdadeiramente autêntica.

Você certamente já ouviu a famosa pergunta: “o que você quer ser quando crescer?” Muito provavelmente já a fez também para alguma criança. Mas deixa-me dizer uma coisa… Essa pergunta nós deveríamos nos fazer todos os dias, independente da idade que tenhamos… 5, 10, 15, 50, 70, 80 anos… Não importa, pois ela é uma forma de saber algo muito importante: “Você está feliz com quem você é?”

Pense em situações em que você agiu segundo os seus valores, mesmo sem aplausos… Como você se sentiu?

Para ajudar nessa reflexão, deixo aqui primeiro a indicação e apresentação de um livro: “Que vida eu quer ter?”, de Susana Maria Fernandes, com ilustrações de Mariângela Haddad, da editora abacate.

O livro mostra de forma magistral que nem toda pessoa autêntica é feliz, mas toda pessoa feliz, antes de tudo, é uma pessoa autêntica. Ser autêntico é fazer as coisas mais simples e importantes da vida de um modo que só você faria, em seu próprio tempo, mesmo que não ganhe aplausos ou fogos de artifício por suas escolhas, mesmo que esse seja o caminho aparentemente mais longo, mais doído, mais difícil… 

Deixo também um pequeno vídeo onde eu conto a vida que eu sempre quis ter: vida de escritor construída pelos livros e autores que me moldaram quando eu tinha 7 anos de idade. Essa história vou deixar aqui para você porque ela responde a mesma pergunta do tema de hoje.

Espero que essas reflexões possam inspirar você a acreditar e valorizar a sua vida e enxergar nela todos os potenciais.

Aproveite e diz aí nos comentários qual a sua vida ideal. Afinal, o que você quer ser quando crescer?

Forte abraço e até a próxima!

ECOS DA CACHOEIRA – CAPÍTULO 11 DO ROMANCE “TRIÂNGULO D’ALMA”, DE TOMÉ NASAPULO KAPIÃLA

Por Tomé nasapulo Kapiãla

Breves palavras de Leandro Bertoldo Silva

Acompanhar Ti Zé, Tchissola e Pedro Sabino em uma viagem que se funde com a própria estrada percorrida é uma experiência absolutamente nova e surpreendente que nos remete à época dos folhetins do século XIX, porém através da modernidade dos dias de hoje. Não bastasse a genialidade do autor em nos proporcionar dessa forma à “conta gotas” uma história repleta de sentimentos à flor da pele, coragem em evidenciar questões e comportamentos sociais que ultrapassam fronteiras e se alojam em todo mundo, Tomé Nassapulo Kapiãla usa de palavras tão bem colocadas em um estilo apuradíssimo de pura literatura poética de modo a nos envolver também sentimentalmente com cada um de seus personagens.

A cada capítulo acende em nós, leitores, a chama da curiosidade do provável e do improvável, da aproximação e da distância, do sorriso e do choro, da tensão e do alívio.

Interessante pensar na estrada, com todas as suas nuances, encostas, rios e cachoeiras, como símbolo de um estado de espírito, onde cada um dos personagens existe a partir das suas escolhas. A estrada é a mesma para todos, mas a percepção dela é de cada um, às vezes docemente compartilhada, como Ti Zé e Tchissola, às vezes repudiada como para Pedro, cuja paisagem muda mais bruscamente. Assim, a estrada é a nossa consciência a cada instante, mutável e fluida e o autocarro o corpo que nos conduz à grande viagem de nossas vidas.

Digo isso porque é possível nos colocarmos no centro deste triângulo onde os personagens estão, sentir o que eles sentem e viver (ler) na esperança do dia (capitulo) seguinte. O que virá? Aguardemos.

Obrigado, meu kamba (amigo), por proporcionar-me experiência tão nobre e gratificante pela primeira vez experimentada. E obrigado pela confiança ao remeter-me tão rica literatura à medida que ela surge.

Capítulo 11 – Ecos da cachoeira

O caminho para o interior do município era sinuoso e encantador. A estrada, coberta de pó dourado, abria-se por entre colinas suaves e palmeiras dispersas, até que o som distante da água a cair se fez ouvir.

O roteiro da agência Soares e Viagens indicava aquele local como o ponto alto da estadia: um recanto de serenidade, onde a natureza se deixava tocar por mãos antigas — o canto das aves, o perfume das acácias, e o rumor eterno da cachoeira, como um hino secreto do tempo.

Eram dezassete horas quando chegaram. O sol já descia, e o acampamento ganhava forma ao pé da mata. Pedro Sabino, visivelmente contrariado, montou a sua tenda afastada dos outros, o olhar frio e o coração em silêncio. Não trocou uma palavra com Ti Zé nem com Tchissola durante todo o percurso.

O ambiente entre os três tornara-se espesso, quase palpável — como se o vento ali também tivesse medo de soprar.

Depois de organizarem o acampamento, Ti Zé procurou refúgio junto à cachoeira, afastando-se dos murmúrios humanos. Levava consigo a guitarra, fiel companheira dos seus pensamentos.

Sentou-se sobre uma pedra, os pés mergulhados na água fresca. O som das quedas d’água misturava-se às notas que ele dedilhava, melancólicas, lembrando Luanda, Ana Bela e Joaquim — os filhos que não ouvia havia quase dois dias.

Na solidão, falava consigo mesmo em silêncio, tentando compreender o turbilhão que o atravessava: o desejo inesperado, o remorso, e a doçura perigosa de se sentir vivo outra vez.

As águas refletiam o céu em tons de âmbar quando Tchissola se aproximou.

Vestia um fato de banho azul turquesa, o corpo cintilando sob a luz das últimas horas do dia.

Chegou devagar, quase em segredo, como quem teme acordar o encanto. E, sem dizer palavra, sentou-se atrás de Ti Zé, acolhendo-o entre as suas pernas.

Os braços dela enlaçaram-se sobre o tronco dele, e o rosto pousou-se-lhe ao ombro, respirando o mesmo ar.

Ti Zé estremeceu — o toque dela misturava-se com o som da guitarra, e o coração, antes contido, começou a trair-lhe o compasso.

— Tchissola… — murmurou, sem coragem de se virar. — O que fazes aqui sozinha?

— Vim ouvir-te. — respondeu ela, num fio de voz. — O som que tiras da guitarra… parece vir de dentro de mim.

— Dentro de ti?

— Sim… cada nota parece chamar o meu nome.

— E se for o contrário? — perguntou Ti Zé, voltando-se lentamente. — E se o som apenas responde ao que o teu silêncio me grita?

Ela sorriu, os olhos rasando de brilho.

— Então que o silêncio fale, — disse, — porque há coisas que as palavras estragam.

O vento brincou nos cabelos de ambos. A água corria, mansa e infinita.

Tchissola encostou a fronte ao ombro dele.

— Sabe, Ti Zé… às vezes sinto que a vida é como esta cachoeira. A água cai sem pedir licença, mistura-se à terra, e segue. Ninguém a impede.

— E quem tenta impedir?   — Perguntou ele.

— Afoga-se. — respondeu ela, e a voz saiu como um sussurro embriagado de poesia. — O amor, quando é verdadeiro, não aceita margens.

Ti Zé pousou a guitarra sobre as pedras e, por um instante, deixou o coração ceder ao tempo.

O som da cachoeira envolvia-os num manto de música líquida. O perfume das flores, o chilrear das aves e o toque dos corpos compunham um quadro que o mundo não precisava ver.

— Tenho medo, Tchissola… medo de me perder em ti, — confessou ele, a voz embargada.

— E se perder for o mesmo que encontrar? — respondeu ela, fitando-o. — Às vezes, é preciso cair para ouvir o som da própria alma.

As palavras dela eram como versos antigos, ditos pelo vento.

O entardecer descia sobre eles, pintando a paisagem em tons de ouro e silêncio.

Ti Zé segurou-lhe a mão, devagar.

— Não sei o que será de nós depois desta viagem, — disse, — mas sei que o que sinto aqui… é real.

— Então não temas o depois, — sussurrou Tchissola. — Deixa que o agora seja o nosso abrigo.

As águas continuavam a cair, eternas, como se a própria natureza abençoasse aquele instante.

E na imensidão do som e da luz, dois corações, por um breve momento, esqueceram o peso do mundo.

Por Tomé Nasapulo Kapiãla.
(O romance está em escrita).

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Emílio Tomé Cinco Reis de pseudónimo literário Tomé Nasapulo Kapiãla, angolano, natural da província do Huambo, planalto central, licenciado em Geologia faculdade de ciências naturais, universidade pública, Agostinho Neto. É professor do ensino secundário do 2° ciclo do Liceu Público N° 4019 ex-IMNE de Cacuaco “24 de Junho”, lecciona a disciplina de Física e dirigente comunitário da comunidade dos Imbondeiros Cacuaco, província de Luanda.