DIÁRIO DE VIAGEM QUE BEM PODERIA SER: PARE O ÔNIBUS QUE EU QUERO DESCER

Por Leandro Bertoldo Silva

Existem muitas histórias em nossas vidas e até dariam um filme. Como não sou cineasta e sim escritor, deixo registrada aqui uma viagem a começar com meus itens básicos em minha bolsa tiracolo…

Livro, diário, caneta, caderno de anotações, carteira, dinheiro, passagens. Chiclete, celular, lenços de papel e óleo essencial. Máscara, vidro de álcool.

— Nossa, parece até bolsa de mulher! — disse com um sorriso minha esposa na rodoviária, ao aguardar comigo a chegada do ônibus que teimava atraso. Junto dela, meu sogro, minha sogra e minha filha também esperavam pacientemente – meu sogro nem tanto assim – o momento de despedirmos, pois chegava a hora de iniciar uma longa jornada de viagem de Minas a São Paulo até a casa dos meus pais.

Sim, a distância é longa, no entanto mais longo é o incompreensível atraso típico dos brasileiros presente em todas as ocasiões, e isso se deu logo no início antes mesmo de começar. O ônibus estava marcado para sair às 21h30 de Padre Paraíso com destino a Belo Horizonte e lá estava eu às 21 horas pronto para o embarque. O ônibus, porém, proveniente de Araçuaí, ainda estava a caminho. E a caminho ficou por 15… 25… 30… 45 minutos, 1 hora sem nada acontecer a não ser uma chuvinha miúda e fina para aumentar o frio.

Quando finalmente o ônibus apontou na pista, as despedidas se sucederam, para total alívio do meu sogro, o qual rapidamente se transformou em agonia ao escutar o agente de viagem falar ao me aproximar com as bagagens:

— Sua passagem é de 21h30?

— Sim…

— Então aguarde, por favor, porque este é o ônibus das 20 horas.

Fiquei perplexo por 45 segundos, mas logo consegui convencer minha esposa e todos a fazer valer aquelas despedidas e, assim, lá fiquei eu sozinho no frio e na chuva por mais algum tempo até a chegada do ônibus das 21h30.

Tempo, tempo, tempo, tempo… Já cantava Maria Bethânia! E eu precisei fazer um pedido ao senhor sentado no meu lugar quando, após uma longa espera, enfim poder entrar no ônibus às 22h40.

— É… O senhor está sentado no meu lugar.

— Jura?! Eu jurava ter lido o número do assento certo. Espere um pouquinho, vou conferir…

— Olha, não precisa; eu não me importo! Eu sento aqui do lado mesmo. É só o senhor arredar um pouquinho, e…

— De jeito nenhum! O certo é o certo. Se o senhor está dizendo que eu estou sentado no seu lugar, precisamos conferir.

— Meu senhor, não precisa. Eu só disse porque…

— Ahá! Viu só? Se disse é porque o senhor quer viajar no seu lugar, certo?

— Todo lugar é lugar, meu senhor… Eu só quero é começar logo a viagem.

— Mas ela já começou…

— Para o senhor sim, mas para mim… Bem, pode ficar em seu lugar. Eu me sento aqui ao lado mesmo.

— Mas o senhor não disse: “o senhor está sentado no meu lugar”?  Então o lugar é seu!

— Disse, mas pode ficar com ele.

— De jeito nenhum!

Nisso o ônibus pelo menos já tinha partido e eu lá em pé sem conseguir convencer o homem a não se incomodar. Depois de aproximadamente cinco minutos ou um pouco mais e de revirar todos os cantos das bolsas em seu colo, ele finalmente encontrou a passagem no bolsinho da camisa.

— Olha, que cabeça a minha… Eu jurava ter colocado a passagem em alguma das bolsas. Ih, olha só… — disse ajeitando os óculos — Eu também jurava ter lido certo o número da poltrona. A minha é essa outra. Mas uma vez aqui, se importa se eu ficar nessa mesma e o senhor ir aí ao lado?

Ou aquele homem não batia bem ou estava gozando da minha cara! Apenas me sentei e disse a ele:

— O senhor jura demais!

— Sou muito religioso, sim senhor.

A partir daí, acomodei no lugar, coloquei o cinto de segurança, esborrifei álcool para todo lado, fechei os olhos, indiferente ao som longe de um ronco, e…

— Moço, desculpe, mas o senhor poderia trocar de lugar comigo?

Já ia perder as estribeiras quando vi se tratar de outra pessoa a me chamar. Dessa vez era uma moça bem nova ainda, quase menina, e me olhava com olhos um pouco assustados. Nem foi preciso esforço para adivinhar: ela, moça, ao viajar sozinha pela primeira vez, estava insegura, para não dizer medo mesmo, de ficar lá atrás do ônibus na companhia de pessoas desconhecidas. Tudo bem na frente também serem pessoas desconhecidas, mas…

— Minha mãe disse para eu tentar trocar de lugar com alguém caso eu…

— Sim, sim, tudo bem, eu compreendo. Onde você estava sentada?

Ela estava sentada muito atrás, bem ao lado do dono do ronco cujo som já não era mais longe, mas perto, insuportavelmente perto, sem contar o cheiro igualmente insuportável do banheiro. Desconfio daquela moça… Ela até podia ser uma menina ainda, mas suspeitei ter caído no maior conto do vigário. Não por acaso os olhos assustados e pedintes dela me lembraram de um certo gato do filme Shrek, mas quem poderia ter certeza? E se a suposta simulação existisse apenas na minha cabeça? Assim, passei a viagem toda sem pregar o olho e sem o roncador acordar sequer nas paradas. Ao chegar a Belo Horizonte debaixo de chuva, ainda bem para esfriar a minha cabeça, ouvi do incômodo companheiro:

— Nossa! Já chegou? Como passou rápido…

E era apenas a metade do caminho…

Tempo, tempo, tempo, tempo… Assim esperei pelas ruas e rodoviária de BH de 8h. até às 21h45 quando, por fim, chegou a hora de embarcar para a cidade de Marília, em São Paulo. Bem, “chegou a hora” é modo de dizer. Na verdade, a passagem havia sido marcada para esse horário e, antes mesmo de chegar a Belo Horizonte recebi uma mensagem da empresa de ônibus a perguntar se eu me importava em trocar o meu horário para 20h., mas sem explicar bem o motivo. Respondi positivamente, pois esperaria menos tempo para iniciar a viagem para Marília. Ao desembarcar na rodoviária em BH, dirigi-me ao guichê da companhia para certificar aquela mensagem e pedido. Dois funcionários lá estavam, mas não sabiam do ocorrido. Porém, ao verificarem no sistema de passagens viram que os horários já estavam trocados conforme minha autorização. Tudo resolvido, e apesar daquela desconfiançazinha típica do mineiro, esperei até a hora do embarque com a pulga atrás da orelha. Às 19h45 o sistema de som da rodoviária anunciou: “senhores passageiros, faltam 15 minutos para a próxima partida. Ocupem seus lugares”. Lá fui eu para a plataforma de embarque ocupar meu assento — dessa vez esperava ser o correto —, quando, ao querer ligar para minha esposa e dizer que tudo estava bem, percebi o celular sem bateria. Certo, 15 minutos é o suficiente para conectar o celular na carga, falar com ela e entrar no ônibus. Subi novamente com toda a bagagem as escadas até ao saguão onde ficam as tomadas de recarga, conectei rápido o celular que teimava em demorar a ligar. Nisso aquele friozinho na barriga já começava, pois o ônibus esperava ligado lá embaixo. Já estava ali mesmo, então insisti na ligação, pois minha esposa ficaria muito preocupada se eu não desse notícias. Finalmente consegui falar com ela, puxei rapidamente o telefone da tomada e fui desembestado tropicando pelas escadas em direção ao ônibus batendo as bolsas em todo mundo. O motorista e o agente, após conferirem a passagem e acomodarem as malas no bagageiro, me autorizaram a entrar e eu, coração acelerado, sentei-me aliviado até perceber algo o qual me fez rir de nervoso: em todas as poltronas, inclusive a minha, havia entradas USB para recarregar celular… Seria cômico se não fosse trágico! E não digo isso pelo fato acabado de ocorrer, mas de um problema de última hora, o qual fez com que o ônibus antes marcado para às 21h45 e passado para 20h., saísse somente às 22h30.

A viagem transcorreu normalmente sem percalços nem nada, tirando apenas duas chateações… Os vinte e oito reais pagos em uma xícara de café com pão em uma parada, onde só então entendi o porquê de nos entregar na entrada uma plaquinha com um código de barras e só anunciar o valor do pedido no caixa na hora de pagar e, consequentemente, depois de ter comido, e a distância que era longa, longa demais! Parecia até aqueles probleminhas de matemática do tempo de escola… “Leandro saiu de Padre Paraíso, em Minas Gerais, às 21h45 de quinta-feira para chegar a Marília/SP, sábado, às 11h30, com parada prevista de 14 horas e 30 minutos em Belo Horizonte até a próxima partida. Considerando que o ônibus espacial da NASA até à lua, passando por Júpiter e fazendo uma escala pelos anéis de Saturno é 10 vezes mais perto, quanto tempo levaria para ele gritar SOCORRO??”

Brincadeira à parte, a viagem se mostrava mesmo muito longa, e o motorista a cada rodoviária na qual entrávamos – e entramos em todas, cidade por cidade – gritava duas vezes como se fosse para certificar a distância: “Rodoviária de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto; Rodoviária de Baurú, Baurú…”. E de repetição em repetição, de cidade em cidade, cheguei ao meu destino muitas horas à frente do previsto e com muita história para contar.

A volta? Bem, até contaria se não fosse o frio do ar condicionado do ônibus e eu sem blusa por tê-la esquecido na casa dos meus pais. Além disso, a minha companheira de assento, devido ao seu porte físico um tanto avantajado, ocupava o dela e a metade do meu. E eu ali, espremido entre o anelo e o suspiro, ou melhor, entre a minha sobra e o braço da cadeira. Assim, não pensava em mais nada. Eu só lembrava a minha irmã ao dizer:

— Tudo pronto para iniciar a viagem planetária? Saindo hoje para chegar só sábado, se fosse de avião chegaria ao Japão.

Seria uma boa pedida se na minha cidade existisse aeroporto… Como não tem, fui a novas aventuras, intercalando em minha cabeça novos probleminhas matemáticos que no meu tempo ainda mantinham todos os atrativos de uma boa história como aquelas que eu vivia.

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** Mais uma vez grato pela sua leitura. E se esse texto te fez lembrar alguma viagem que tenha vivido, diz aí nos comentários. A propósito, lembro que no meu tempo de escola a professora sempre pedia para escrevermos uma “composição” com o tema: “Minhas férias”… Se lembra disso?

Forte abraço!

FILOSOFANDO ACERCA DO SILÊNCIO

Contemple uma flor…
Viu? Deus está nos silêncios…
Por que o grito?
(Haicai – Leandro Bertoldo Silva)

Por Valéria Gurgel

“Comunicar não é produzir ruídos.”

Parafraseando essa máxima citada é que começo a refletir sobre o silêncio. Qual a sua verdadeira importância? E o que esse “tal do silêncio” tem a nos dizer?

Dialogando com meu digníssimo amigo das letras, Leandro Bertoldo Silva, acerca do silêncio, ele também se referia a outra máxima, essa de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa que diz: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito, é preciso também que haja silêncio dentro da alma”.

Todos nós, salvo alguns que possuem alguma deficiência da voz, ou da audição, nascemos com esse privilégio de desenvolver a capacidade de falar e de ouvir. E para isso desenvolvemos também o raciocínio, que nos permite pensar, analisar e construir uma conversação, o que nos difere dos animais.

Confesso que já tive muita dificuldade em entender o silêncio em sua subjetividade. Já me senti completamente esgotada ao escutar a um monólogo o tempo todo e principalmente se não tem discernimento daquilo que diz, é uma experiência bastante fatigante. Mas, é nesse processo de aprender a escutar, que treinamos o valor do ouvir e consequentemente o do silêncio. Afinal ninguém pode ouvir o outro de verdade se não se abster da ansiedade de abrir a boca, interrompendo o suposto interlocutor.

E quantas vezes atropelamos as conversas porque mais que querer ouvir o que o outro tem a nos dizer, queremos falar e falar e falar. E geralmente é nesse momento, que quem fala demais se equivoca ou se complica, ou até mesmo passa vergonha em diversas situações envolvidas. E às vezes nem percebe!  Enquanto que o ouvir, muito nos ensina e só nos compromete quando decidimos abrir a boca, sem antes pensar.

São muitos os provérbios construídos sobre a temática do falar e do ouvir, e os ditos populares são também muito verdadeiros. “Boca fechada não entra mosquito,” “Palavra é prata e silêncio é ouro,” ou “Quem fala demais dá bom dia para cavalos,” e tantos outros mais… Sem contar que o nosso próprio corpo sinaliza tudo isso, uma vez que nascemos com dois ouvidos e apenas uma boca!

 Silêncio não é mera ausência de palavras, nem sinônimo dos introspectivos. Silêncio consciente e estruturado é virtude dos sábios.

Muitos de nós efetuamos conversas clonadas, porque pensar dá trabalho. E seguimos tagarelando. Na verdade, não desenvolvemos a capacidade de tampouco ouvir à nós mesmos quem dirá aos outros.

Nessa ânsia desenfreada de falar, sem prestar atenção ao conteúdo proferido, vamos jogando palavras ao vento e desaprendendo mais que nunca a nossa capacidade de discernimento e absorção através do ouvir.

Comecei a entender o valor do silêncio, quando comecei a gostar mais de ouvir que de falar. Observando calada e atentamente os encontros familiares, as rodas de amigos, os debates em escolas, as mesas de bares, as praças de alimentação, os pontos de ônibus, filas de bancos, bancos das praças, e diversos estabelecimentos comerciais aonde se aglomeram pessoas. E percebi que o repertório falante é muito repetitivo e fútil.

Geralmente os temas giram em torno de si mesmo, numa extrema egolatria, ou da vida daquele que está ausente.

 Se todos de um grupo estiverem ali presentes, de que vão falar afinal? Quanta superficialidade e falta de vida interior existe entre as pessoas!

Assim, é perceptível que realmente o silêncio seja ouro diante a tantas palavras de bijuteria enferrujadas, ruídos sem nenhum valor, murmúrios falantes de meras frases baratas são cuspidas e até escarradas a todo momento.

Não me refiro aqui, a nenhum silêncio forçado, forjado, ou associado à frustração, desgosto, mal humor, ou o dito popular; do engolir palavras. Falo do silêncio de raiz, de lucidez que tudo diz, ainda que calado. Muitas vezes na paz de um sorriso, de um olhar, da sabedoria que transcende o sábio no diálogo profundo consigo mesmo dentro de seus olhos.

Aquele diálogo interno do autoconhecimento. Que pensa antes de abrir a boca porque tem plena consciência que se o que tiver que ser dito não for melhor que o silêncio, que não diga! É desse silêncio que me refiro. Silêncio dos ruídos externos e internos. Tal como um esvaziamento dos excessos da alma turbulenta, uma calmaria que começa na mente através também da prática da meditação. 

Uma palavra pode significar uma vida! Como já foi citado no Clássico Budista Dhammapada, que se refere ao Sidarta Gautama, “mais do que mil palavras sem sentido, vale uma única palavra que traga consolo a quem houve.“

De tantas milhões e milhões de palavras proferidas por nós a cada dia, se pudéssemos filtrar e recordar todas elas, será que no fim de um dia, de uma semana, de um mês, de um ano ao menos, filtraríamos “aquela palavra” que poderia justificar a nossa existência?

Se sim, já valeu a pena ter vivido!

Preocupante é não percebermos isso o mais cedo possível. Antes mesmo que nos comprometamos nas relações familiares, afetivas, no ambiente laboral, na sociedade em geral e na maioria das vezes por termos a infelicidade de falar algo que não tenha passado pelo crivo das três peneiras, como assim, já se referia o grande filósofo Sócrates. 

“O que será dito é bom? É justo? É verdadeiro? Se não for que prevaleça o silêncio”!

Os grandes seres humanos que por aqui passaram, tinham bem expandidos essa percepção do silêncio, e o quanto ela pode ser importante para dizer muito de nós mesmos. Quando se aprende a calar, e ouvir a si mesmo, ouvimos o outro. E aprendemos a ter cautela, dar tempo para o entendimento refletir e interpretar, para somente depois, questionar a razão.

Há os dois extremos nesse mundo dual.

Imagina um mundo sem sons? Ou uma melodia sendo executada sem pausas? Sem nenhum momento de silêncio para percebermos o contraste entre os sons? Chegaria um dado momento que estafaria os nossos ouvidos.

Por outro lado, seria possível toda a humanidade entender bem uns aos outros sem emitir ou ouvir nenhum tipo sequer de som? 

Assim como o vazio existe para que as coisas se acomodem, se ajeitem no espaço, o silêncio existe para que as palavras e os sons possam ser emitidos, cautelosamente, ordenadamente, e absorvidos, escutados, apreciados e compreendidos.

Chegará um tempo, em que a humanidade aprenderá enfim a congraçar seus preciosos sentidos, como dizia Hermes Trismegisto, em O Caibalion, e  “Os lábios da sabedoria só se abrirão para os ouvidos do entendimento”.

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** Grato pela sua leitura. Compartilhe este texto com seus amigos e aproveite para refletir… Qual é o seu maior silêncio?

Forte abraço!

SÁBADOS LITERÁRIOS

Com muita literatura, beleza, música e histórias realizamos o primeiro encontro dos “Sábados Literários”, em Teófilo Otoni.

Gratidão imensa a todos os parceiros e apoiadores, como a todas as pessoas que prestigiaram esse momento tão lindo com muita arte e poesia, em especial a presença da presidente Elisa Augusta De Andrade Farina e membros fundadores da Academia de Letras de Teófilo Otoni – MG. Poder levar meu trabalho junto com a Rocinante, minha bicicleta de livros, minha prensa de madeira, os cadernos sustentáveis feitos em parceria com Geane Matos e contar minha história como escritor independente é algo muito valioso.

Agradecimento especial ao Instituto Cultural In-Cena e à Livraria Papo Café.

Espetáculo “Drummond pelos Cantos” (Grupo In-Cena).

Já temos o nosso próximo encontro marcado para o dia 12 de março. Então… Até lá!

Realização: Papo Café Livraria e Cafeteria.

Produção: Instituto In-Cena.

Apoio: Restaurante Rua das Flores, Árvore das Letras Escola Ateliê, Grupo Criativa.

O SILÊNCIO MAIS GOSTOSO DE OUVIR

Por Leandro Bertoldo Silva

Certa vez, em um texto de Rubem Alves, li o seguinte: “Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.” E mais adiante ele parafraseia Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, e diz: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Fiquei pensativo. Não porque aquilo não fazia sentido para mim; pelo contrário, fazia muito, muito mesmo. Lembrei-me, inclusive, de uma experiência vivida e é a ela que recorro. 

Sou uma pessoa muito ligada à espiritualidade à minha maneira… Gosto de ler, meditar, fazer minhas orações e práticas diárias, mas, confesso, não sou muito de ir a Igrejas, embora as respeite profundamente. Sou de enxergar todos os lugares e ocasiões como perfeitos para uma imersão profunda com nós mesmos —e isso inclui meu travesseiro — e acredito que, se somos partículas do todo, como a gota é de um rio, somos o todo e, portanto, não necessitamos de momentos e locais propícios ao encontro, embora, repito: respeito quem pense o contrário.  

Um dia, porém, estava a passar em frente uma Igreja e, na ocasião, até um pouco atormentado, triste mesmo. Ao ver a porta aberta, senti uma imensa vontade de entrar naquele templo e assim fiz, com tranquilidade e a mais absoluta simplicidade. Sentei em um dos enormes bancos de madeira e, para a minha surpresa, não havia absolutamente ninguém lá dentro. Eu estava completamente só. Não poderia ser melhor, pois todo o meu desejo era estar em minha própria presença sem “conselhos” e sermões de quem, fosse um padre, ministro ou pastor, jamais saberia dos meandros dos meus propósitos e eu não estava disposto a dizer. Desculpe a sinceridade, mas naquele momento a minha conversa era mesmo com o “Dono da casa”.  

Imerso aos meus questionamentos e com tantas coisas a dizer fechei os olhos, e… Não me veio nada que eu pudesse verbalizar. Até tentei, forcei, busquei uma sentença, uma palavra ao menos e nada. Falta de inspiração ou de educação? Não sei… Resignei-me. Ao perceber meu insucesso, não quis e nem pretendia maquiar o meu sentimento e mantive disposto a aceitar a minha dor nua e crua em silêncio. Embora eu estivesse calado, minha cabeça era um tumulto de vozes, mas naquele momento, curiosamente, se aquietava. Estaria a ser escutado? Certamente não foi por aquela única senhora ao entrar furtivamente por uma portinhola e sair por outra, quase como um fantasma a soar alto o batido não de correntes, mas de suas sandálias pelo interior da nave, fazendo não sei o quê e sequer prestou atenção em minha presença. Sozinho estava e sozinho fiquei. As pessoas simplesmente passam sem perceber e às vezes é o melhor que podem fazer por nós. 

Não sei quanto tempo fiquei ali. Perdi os ponteiros das horas. Mas digo efetivamente, excetuando os passos da senhora de há pouco, ter sido o silêncio mais delicioso que eu já ouvi em toda a minha vida. Lá dentro, ao usufruir do inexplicável, senti o quanto precisava dele e não imaginava o tanto que me acolhia como um acalento de mãe, um colo de pai, um afago de avó. Ao sair já não era mais a mesma pessoa de outrora, mas alguém a celebrar um encontro. Foi quando disse (finalmente consegui) ao Ilustríssimo Anfitrião sem mesmo vê-lo, mas certamente senti-lo: “Por favor, entenda esse silêncio como a minha oração”. Tenho comigo que Ele entendeu, porque eu compreendi perfeitamente… 

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** Grato pela sua leitura. E você, já ouviu um silêncio que te fez bem? Deixe nos comentários. Compartilhe também este texto com seus amigos. Para mim é de muita valia.

Forte abraço!

CARTA RESPOSTA À QUIXOTE DAS GERAIS

Por Valéria Gurgel
https://www.instagram.com/valeriacristinagurgel/

QUAL O MUNDO QUE VOCÊ QUER?

Essa foi a pergunta feita pelo amigo escritor e administrador deste blog, Leandro Bertoldo Silva, carinhosamente conhecido por Quixote das Gerais, em uma crônica que pode ser conferida AQUI ou na página do Jornal Presença Itabirito, MG acessando https://www.facebook.com/serazzi.gurgel.

Eu dei a minha resposta! Uma carta desabafo que gostaria muito que também fosse lida por Miguel de Cervantes! Claro, se ele hoje pudesse ter acesso às nossas atuais realidades, mas, que para dizer a verdade, vejo que o mundo e a humanidade não caminha! Até hoje mal rasteja por aí! E percebo que dentro de cada um de nós habita um Dom Quixote e um Sancho Pança!!! Vamos à resposta.

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Querido amigo “Quixote das Gerais”, Don Leandro Bertoldo! Essa é a minha humilde carta, que eu, Valéria Gurgel, gostaria ter enviado para Miguel de Cervantes!

Se eu pudesse analisar o mundo em que vivemos, baseado no contraste entre o Cavalheiro Sonhador que nos inspira a agir e o de seu Fiel Escudeiro realista e sua revigorante humanidade, eu diria que seguimos oscilando o pêndulo da razão e da emoção.

Essa busca constante pelo equilíbrio tão almejado que poderia dar fim ao egoísmo, chaga sangrenta essa, que só atrasa o processo evolutivo da humanidade, não cessa. Somos bombardeados a cada século, a cada ano, meses, dias, horas por inúmeros e constantes desafios. Doenças, conflitos familiares, conflitos internos, externos, desigualdades, insanidades inumanas e limitações financeiras, físicas, psíquicas, que resultam em letargiar nossas ações, reações e decisões no cotidiano da vida. E tudo isso vem recheando os nossos mais lindos sonhos deixando-os com um leve sabor amargo de decepção.

Sabemos que viver é uma dádiva, um verdadeiro presente que nos foi concedido pelo criador. Por isso, e por um sentimento que nos invade às vezes, a vida nos instiga a aventurar-se a…

Aí mora o precioso quixotismo imbatível, romântico e sonhador que não nos deixa esmorecer e amarelar o verde de nossas esperanças. Que faz despertar o brilho nos olhos e aquele desejo de fazer acontecer, ainda que quantas vezes, nem sabemos como ou por onde seguir.

Diante a essa competição desenfreada, cruel, onde os verdadeiros valores, vem sendo substituídos por prazeres vãos. Vitórias que jamais conhecerão derrotas, competidores que não enxergam o seu adversário com o mesmo valor e respeito, atropelamentos sucessivos acontecem nessa desenfreada corrida que pisa em cima do outro para se elevar, sucessos que jamais entenderam o que é trabalho. A Selva de pedras devoradora das oportunidades e do papel de destaque.

Ou podemos optar por estagnarmos as ideias, os projetos, os desejos, os sentimentos, por excesso de realismo deprimente, que também não nos conduz a nenhum porto seguro. E morremos frustrados, decepcionados, quantas inúmeras vezes em uma única vida, sem sequer descobrirmos: aonde habita o nosso verdadeiro propósito por trás de tudo isso!?

Lamentavelmente ainda nos perdemos entre o passado e o futuro, entre o medo e a coragem, entre o sonho e a realidade, deixando escapar de nossas mãos esse autoconhecimento de entender, afinal, o que viemos fazer aqui. E nessas angústias existenciais, vamos perdendo o nosso precioso tempo, presente, que é a única coisa real na qual ainda temos um certo controle substancial.

As nossas inquietações pançônicas urgem e nos tornamos leões com garras abertas prontos para atacar, quando o assunto é família, sobrevivência, e defender o nosso condado familiar repleto de carências existenciais e limitantes crenças, medos, bloqueios mentais nos quais somos submetidos de geração a geração, até mesmo sem entender o porquê de tudo isso.

Então, afinal, quem somos nós? Cavalheiros Errantes ou Fiéis Escudeiros, meros acompanhantes? Somos os seguidores da tropa, da grande massa de pés no chão, ou o fidalgo com a cabeça nas estrelas, que mira um oásis no horizonte, ainda que caminhando sobre as areias escaldantes do deserto? Somos simplesmente humanos, ou, desejamos ser?

Como defensores de nossas subjetividades temos o direito de sermos, de querermos, porém, o ciclo vicioso, do “te ver e não te querer, é improvável, é impossível” como diz a letra da música de Francisco Eduardo Amaral e Samuel Rosa de Alvarenga, é um labirinto cruel, sem fim, que às vezes, não nos leva a lugar nenhum. Entender e valorizar o Ser, sem o Ter, é um processo longo e diário.

Portanto, vale a pena gargalharmos por nossas supostas infelicidades ou fracassos assim entendidos por nós e se formos motivos de chacotas por almejarmos algo maior que nós mesmos, que saibamos seguir adiante, com a certeza de que ainda que pareça distante essa conquista, toda longa caminhada sempre começa com o primeiro passo. Às vezes, esse primeiro passo possa representar muita atitude.

Rotulados de covardes sempre seremos, pela sociedade Quixotesca, porque os Sanchos se recusam a entrar em combates fadados ao fracasso. Rotulados de loucos sempre seremos, pela sociedade Panciana, dos Sanchos que não acreditam que a vida é aquele cenário paradisíaco, palpável, de justiça e ao alcance de todos e de nossos olhos ilusórios de cristal. A trajetória vai sendo escrita e precisa ser lida, relida, pontuada e corregida diversas vezes. É um verdadeiro percurso sinuoso, que não se conclui em decisões retilíneas. Onde tanto o Cavalheiro como o Escudeiro, precisam interagir-se num bom diálogo interno, pautado com vírgulas do bom senso, exclamações de encantamentos, interrogações, na hora do medo, aspas, para enfatizar cenários específicos, parênteses para repensar situações para, no final da história, fecharmos a última página sem nenhumas reticências, e sim um certeiro ponto final.

Nossas querências jamais serão capazes de responder afinal qual o mundo queremos viver. O mundo de Quixote, ou o mundo de Sancho Pança? Sabemos que muitos são os que nem sequer vivem, apenas sobrevivem!

Mas, diante tudo isso, amigo Don, em pleno século XXI e um mundo tão caótico e repleto de incertezas, de uma coisa eu tenho a certeza, que a verdadeira realidade das escolhas individualistas, não são nem uma coisa nem outra. E como já dizia Martin Luther King “O que mais me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”!

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** Grato, como sempre, pela sua leitura. E se gostou desse texto, lembre-se de curtir, compartilhar, comentar. Ações simples, mas grandiosas para mim. Mas… Qual é mesmo o mundo que você quer?

Forte abraço!

PELA LITERATURA INDEPENDENTE

Hoje, ser um escritor independente é sinônimo de coragem. Claro, não basta escrever, mas fazer todo o processo acontecer.

Mas posso dizer uma coisa?

Isso é MARAVILHOSO!!

E não por acaso a literatura independente vem conquistando e dominando as escolhas dos autores e autoras mundo afora que passaram a entender que ser dono e dona dos seus próprios trabalhos é um grito de liberdade.

Eu como escritor não apenas sou independente por opção e convicção, mas confecciono os meus próprios livros. Isso mesmo! Com agulha e linha, papeis ecológicos e muita criatividade faço nascer cada livro que escrevo sem abrir mão de uma boa revisão profissional, ISBN, ficha catalográfica, ilustração, quando necessário, e tudo que o mercado proporciona.

Para você que é escritor/escritora e pensa em seguir por esse caminho, veja algumas das vantagens que, para mim, valem por todo o esforço preciso para se colocar no mercado.

– A decisão SEMPRE será sua! Você terá a palavra final em cada etapa da criação do livro, da escrita a parcerias de divulgação e distribuição, capa, projeto gráfico, entre outras coisas.

– Os direitos autorais são absolutamente SEUS, o que permite publicar sua obra no formato que desejar tendo total controle de mudanças no conteúdo.

– 100% do lucro da venda do SEU livro, quando feita diretamente por você, e maior margem de negociação JUSTA de comissões e condições de venda.

O desafio é grande, mas a recompensa é gigantesca. Agora, como diz Ovídio: “Ou nem sequer o tentes, ou senão lança-te por completo a fazê-lo”.

A escolha é e sempre será SUA.

Forte abraço!
Leandro Bertoldo Silva.

QUAL O MUNDO QUE VOCÊ QUER?

Por Leandro Bertoldo Silva

Há um tempo escrevi uma reflexão sobre a pandemia e fiquei a pensar como ele, o tempo, muda de perspectiva. O passado já não existe e o futuro ainda virá e, assim, além de acarretar uma sobrecarga no presente, faz muitas coisas se perderem, inclusive nossas responsabilidades com nós mesmos.  

Para quem escreve, excetuando os clássicos, que só são clássicos por nunca serem esquecidos, pode ser meio frustrante se sentir desatualizado ou, no mínimo, ver se tornar desimportante algo tão sério e talvez diminuído na fala dos que ainda virão. Já pensou ouvir daqui a alguns anos algo do tipo: “Ah, não liga não! Esse negócio de pandemia que o vovô fala é láááá do ‘tempo do onça’ (assim como essa expressão). Hoje não tem importância nenhuma, é só uma ‘gripezinha’”. Tomara mesmo ser uma gripezinha com o avanço da ciência… No entanto, na iminência de deixar vivo o alcance de nossos atos, devo acrescentar apenas uma pergunta ao final do escrito. Foi assim… 

Que momento vivemos! É engraçado — sim, há “graça” em tudo isso — pensar na única certeza existente: as incertezas. 

Sou do tipo de pessoa a acreditar naquele ditado: “se a vida te deu um limão, faça uma limonada”. Pois é, a vida não nos deu um limão, mas uma plantação inteira. 

Estou a falar dessa medonha pandemia que em momento algum da humanidade a história registrou algo tão surpreendente. Mas não quero dizer aqui mais do que os jornais, os especialistas e as autoridades já noticiaram; quero ir além do medo, se é possível, e pensar nisso tudo como um grande presente, uma grande oportunidade de uma mudança absurdamente necessária em nossas vidas, pelo menos na minha. 

Há tempos vivenciava uma angústia por não conseguir expressar meu sentimento ao olhar para as coisas do mundo, de como as pessoas, e até mesmo eu, iam dispondo suas vaidades, suas “certezas” e opiniões em um mundo tão superficial. De repente a felicidade passou a ser medida pela nossa popularidade, pela quantidade de “amigos” e seguidores e, depois, nem isso – bastam as curtidas, o resto não interessa. 

Em um mundo onde tudo virou marketing – e da pior espécie – ao ponto de nos vermos invadidos por uma onda de propagandas de produtos e serviços os quais sequer necessitamos ou temos interesse, em um mundo onde até os sorrisos são vendidos por uma camuflada onda de “gatilhos mentais” para capturar nossa atenção e vender felicidade de forma fácil, para não dizer mágica, a custo da inocência do desejo, vem a vida e nos obriga a parar com tudo isso e a pensar unicamente em sobreviver. 

Mas sobreviver para quê? 

Para voltar ao que era antes? Voltar ao trabalho da mesma maneira como se nada tivesse acontecido ou simplesmente termos tirado umas férias inesperadas? Voltar às enxurradas de postagens marqueteiras e à vida superficial das redes sociais? Voltar a tratar o outro como inimigo porque pensa diferente, embora também não sejamos obrigados a ser cordiais com quem nos faz mal e termos o direito de nos afastar? E por que não fazemos? Porque temos medo de sermos sinceros com nós mesmos e, por isso, suportamos o insuportável? Sabe aquele pensamento: “eu te respeito, mas isso não significa que eu preciso ser seu amigo?” Sabe aquele trabalho que você realiza porque é obrigado a ganhar dinheiro, pois se não fosse isso você não o faria? Sabe tantas outras coisas ditas e acreditadas pela verdade dos outros? 

Pois é… Para esse mundo eu não quero mais voltar. 

Quero o mundo onde eu continue a escrever, porque escrever é a minha sobrevivência, mas sem me ver preso nas correntes ocultas a me forçar a divulgar para todo mundo. Deixa-me falar uma coisa: estou a compreender que o que fazemos não é para todo mundo… Este blog não é para todo mundo, os meus livros não são para todo mundo, nem mesmo este texto é para todo mundo, mas para quem, por alguma razão, se alinha com o meu estado de espírito e com a minha forma de pensar. Pode não ser, e certamente não é, melhor e nem pior do que a de ninguém; é simplesmente minha e nossa para quem nos irmanamos. E isso basta. 

Quero o mundo onde a obrigação de trabalhar não destrua o prazer que o trabalho me traz e nem mesmo faça parte da minha vida; onde as pessoas entendam o meu jeito de fazer as coisas. Pode até não ser o delas, e está tudo bem. 

Quero o mundo onde eu tenha menos amigos virtuais e mais amigos reais. O mundo onde a tecnologia seja usada a meu favor e não o contrário. O mundo o qual não seja preciso me afastar das pessoas para dizer o quanto gosto delas e futuramente eu me arrepender de não tê-lo feito. Quero um mundo tão diferente… 

Sabe o que mais penso de tudo isso? 

Para esse mundo poder existir eu precisarei resignificar dentro dele quem eu sou ou quem eu fui. Não é ele a mudar, mas eu na minha ignorância de me fechar em meus medos por achar não dar conta dos desafios que é não pertencer a lugares, relacionamentos, formas de trabalho há muito perdidas por não mais acreditar dessa ou daquela maneira. 

E aqui está a “graça”, não hilária, mas da permissão de sermos autênticos e fazermos diferente, pois, embora a palavra mudança traga calafrios gigantescos em nossos corações, nos colocamos nessa situação de ter nela a única forma de salvar a nós mesmos e os outros, nos olhando de verdade e transformando as incertezas em possibilidades. 

E VOCÊ, QUAL O MUNDO QUE VOCÊ QUER? 

E aqui acrescento a pergunta a tornar essa reflexão universal e duradoura, a considerar a vitória da ciência. Passado tudo isso e a olhar para você, mas olhar bem, em qualquer tempo e em qualquer lugar, responda: é esse o mundo que você quis? 

** Grato novamente pela sua leitura. E se gostou desse texto, lembre-se de curtir, compartilhar, comentar. São ações muito simples, mas grandiosas para mim.

Forte abraço!

TEMPOS IDOS, MAS VIVIDOS

Por Leandro Bertoldo Silva

Curioso como as profundas transformações da vida só são percebidas depois – muito depois – quando tomam importâncias gigantescas. No momento em si são apenas acontecimentos, nada mais. Felizes são os escritores ao captarem em palavras fotografias dos seus tempos. Se alguém irá ler ou não, como você agora, é outra história. O importante é que está grafada antes de tudo na alma e salva do esquecimento. Mas quem disse que um escritor nasce escritor? Mia Couto bem diz: “ninguém é alguma coisa, e sim está alguma coisa”. E eu nem era e nem estava absolutamente nada naquela época de algum dia de algum mês de 1979. Aliás, era: uma criança de 7 anos de idade a aprender a ler e a escrever sem se dar conta do quanto estava a ser moldado naquelas folhas mimeografadas com cheiro de álcool ao contornar à lápis os pontilhados das letras.

Antes de qualquer coisa, sim, naquela época aprendíamos a ler e a escrever mais tarde e de forma rudimentar. Não era como hoje quando meninos e meninas com 4, 5 anos já estão iniciando suas jornadas com as palavras com as mais avançadas metodologias. Mas tenho comigo que muitas vezes a “pressa é inimiga da perfeição” e nem sempre quem larga na frente chega em primeiro, quando chega, ou chega bem. Basta um olhar minucioso para os acontecimentos do dia a dia em comparação à simplicidade de outrora e tirar as próprias conclusões.

De qualquer forma, eu aprendi a ler muito rápido. Talvez até mesmo pela espera, porque antes de lançar-me às letras eu lia – e lia muito bem – as coisas da vida. Lia o gosto das frutas que eu comia no quintal da minha avó, em especial para as ameixas, goiabas, pitangas e amoras. Lia os meus carrinhos de lata, que até hoje me fascinam. Lia as bolas de gude e as de meia feitas pelo meu pai. Lia as formigas ao acompanhá-las em fila ao formigueiro com as folhinhas às costas. Lia as joaninhas a passear pelos meus dedos. Lia o vento nos cabelos que já não tenho quando, de cima da árvore, continuava a ler o sopro forte da chuva que vinha pelo canto das cigarras.

Ah, que tempos… Tudo isso era o grande livro da natureza e foi muito útil quando finalmente chegou os dias de escola. Engana-se quem pensa que aquelas histórias escritas em língua que hoje se chama “saudade” acabaram com a vinda do novo compromisso. Ir para a escola era uma aventura. A propósito, eu ia de avião. Eu tinha vários. O que eu mais gostava era um branco e laranja com hélice frontal e trem de pouso para a água (vai que chovia no caminho…). Decolava do quintal e por dois a três quilômetros voava com os olhos fixos pelas janelinhas daquele aviãozinho de brinquedo até pousar com segurança no hangar debaixo da carteira da minha sala de aula.

Foi nessa sala, inclusive, que aquela transformação profunda do início desse texto se tornou uma das maiores. Não me lembro dos colegas, mas jamais esqueci a professora que uma vez a segui da escola até sua casa apenas para ver onde ela morava a fim de certificar que ela era uma pessoa normal, que tinha casa, família, comia e bebia como todo mundo. Sempre tive as professoras daquela época como seres diferentes das outras pessoas, quase divinos, e eram mesmo. Havia nelas qualquer coisa de fadas, uma espécie de perfeição que provocava fascínio. Aquela em especial apresentou-me as letras. E a partir daquele momento eu poderia escrever as minhas leituras.

Evoco apenas mais três daqueles tempos: essa mesma professora ao nomear-me “guardião da escada” a fim de impedir que os alunos saíssem do pátio na hora do recreio antes do sinal, o que acarretou em mim um prodigioso sentimento de responsabilidade; a roupa de palhaço que a minha mãe fez para uma festa da escola em que o cós da calça ficava quase à altura do joelho, tornando-me a sensação da festa na qual substituí as gozações pelos aplausos anos depois nos palcos de teatro, e de novo a professora ao ensinar-me que quando estamos sem ideias para escrever, a folha de papel pode se tronar um copo para beber água. É que no caminho de volta para casa havia uma pracinha e no meio dela uma biquinha por onde corria uma água constante. Nunca soube de onde vinha a água, ainda bem, mas meu avião sempre fazia uma escala no banco ao lado da bica, onde eu repetia as dobras na folha de caderno ensinadas pela mestra, e dava forma a um copinho que recebia a água e me saciava a sede antes de continuar a viagem. Embora hoje uso computadores para registrar as minhas leituras, ainda escrevo em cadernos, mas não arranco as suas folhas para que não sacie a importância de tempos idos, mas vividos com a intensidade de um menino que soube o que é ler cada momento da vida, porque, para lá do meu quintal, sempre existiram e irão existir páginas a serem preenchidas e, quem sabe, percebidas.

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Forte abraço!

FELIZ LIVRO NOVO!

Que na vida possamos ser quem realmente somos, sorrir os nossos sorrisos, mostrar, sem medo, os nossos corações. FELIZ LIVRO NOVO para todos! Os que podem ser lidos e os que podem se escritos. A página está em branco e hoje começa um novo capítulo. Escrevamos.

Forte abraço!
Leandro Bertoldo Silva.

CHEGA! É COELHO DEMAIS NESSA HISTÓRIA!

É possível até que, para quem vê um escritor sentado àquela mesa repleta de exemplares de seu livro autografando-os para os leitores ávidos na fila de espera, pense em como é maravilhosa e promissora a vida desses arquitetos da palavra. Mais do que isso, é possível imaginá-los ainda crianças em volta de suas prodigalidades ao ostentar todos os elogios das professoras primárias para o orgulho dos pais.

Bem, devo confessar que o meu início não foi assim tão alvissareiro… Aliás, muito, mas muito longe disso. Quando criança eu sofria de uma certa indisposição periférica de linguagem portátil de intercomunicação simplificada, que, em termo mais popular, significa “preguiça”. Sim, devo admitir – até porque há provas incontestáveis disso – que eu tinha muita preguiça de escrever. Aí está, veja só…

Eu sempre inventei histórias, isso ninguém pode negar, e as contava brilhantemente, embora pessoa alguma as ouvia, pelo menos que eu estivesse consciente disso. Eu inventava e reinventava verdadeiros feitos memoráveis com heróis e mocinhas ao portar os meus bonequinhos de plástico como personagens principais e tinha até os secundários e antagonistas, subia ladeiras impossíveis cheias de obstáculos formados pelas voltas do grosso cobertor de onça na cama dos meus pais com meus carrinhos e minha picape cinza de rodas largas e, mesmo quando não havia a companhia de nenhum desses cúmplices de aventuras, me imaginava em um complexo e extenso torneio chamado “Campeonato Belo-horizontino de Futebol de Jogo Dedado”, que consistia apenas em uma bolinha de gude e os meus dedos indicador e médio de ambas as mãos, como se fossem as pernas dos jogadores, aliás, de todos os 11 jogadores de todos os times inscritos no torneio, que acontecia no tapeta da sala da minha casa com turno e returno. Havia times de todos os bairros da cidade, sendo o maior clássico Pompéia X Esplanada Futebol Clube. E olha que existia passe de calcanhar, embaixadinha, lançamentos precisos e até o som da torcida que vibrava com cada lance e gols antológicos. Digo isso para mostrar que, sim, eu inventava histórias, mas escrevê-las… E é aí que entra a pessoa que me projetou para o que eu sou hoje: para alguns, Maria Elena – com “E” mesmo – para outros, Dona Elena, outro, ainda, Lena, mas, para mim, a minha mãe. E o que tem isso com o título dessa história? Calma! Não sejamos apressados como os coelhos…

Estava eu naquele fim de manhã de uma sexta-feira na sala de aula a contar as horas à espera para ir embora crente que naquele dia não teríamos “para-casa”, o que me renderia todas as tramas e aventuras possíveis com meus companheiros de imaginação, além de poder realizar toda uma rodada do campeonato de jogo dedado, quando tudo se esvaiu como um passe de mágica ao ouvir a professora, minutos antes de soar o sino, pedir que escrevêssemos o que naquele tempo chamávamos de “composição”. Era a redação de hoje  e aquela palavra, por incrível que pareça, me atormentava. A primeira sílaba -com imediatamente era substituída pela correlação -im e a palavra virava “imposição”. Pronto! Era isso o suficiente para toda a minha criatividade ir para o espaço e a indisposição periférica de linguagem portátil de intercomunicação simplificada tomar conta de mim e do meu humor.

Ainda bem que o tema da composição era livre, o que não diminuiu a imposição correlata, e isso me fez voltar para casa acabrunhado já preocupado com o que eu iria escrever. Para que essa história não vire um tratado psicológico ou de educação ao associar o que para mim era e ainda continua sendo óbvio, ou seja, se um dia, para os seresteiros, a televisão matou a janela, para mim a obrigação matava a vontade, cheguemos, pois, logo aos coelhos. Mas não sem antes dizer o quanto minha mãe me conhecia! Ao me ver arrastar o caderno para lá e para cá e brincar com o lápis entre os dedos, ela já sabia do que se tratava. Sem deixar de mexer nas panelas do almoço e vendo o estado que a imposição periférica me deixava, ela disse um “venha cá, meu filho, eu vou te ajudar. Já que o tema é livre, escreva aí! Mas só dessa vez, hein…”. Sentei ali mesmo no chão da cozinha e, olhando para cima, aquela mulher de pouco mais de um metro e sessenta se agigantava em ternura, cuidado, carinho, sabedoria e amor. Preparei-me para escrever, quando ela começou a ditar:

– Era uma vez um coelho… – “Era uma vez um coelho…”

– Que casou com uma coelha… – “que casou com uma coelha…”

– E teve sete coelhinhos…

CHEGA! É COLEHO DEMAIS NESSA HISTÓRIA! O que tinha sido para mim um alívio a ajuda da minha mãe, tornara-se um drama ao lembrar das explicações da professora… Não é que ela havia dito que o tema era, de fato, livre, mas que todo personagem que colocássemos na história tinha que ter nome, sobrenome, história pregressa (eu nem sabia o que era isso) e, para mim, identidade, CPF, procuração passada em cartório – só faltou ser aquela do céu – assinada: “Deus”. Deus do céu…

Confesso não me lembrar de como terminou essa história, essa e a daquela coelhada toda. Talvez a minha ânsia de escrever que tempos depois fez parte do que sou e faço hoje seja a minha tentativa de descobrir. De qualquer forma, sou grato à professora que me venceu ao tirar de mim naquele dia a possibilidade de minhas aventuras, mas me deu a oportunidade de ter com minha mãe um momento breve, brevíssimo, mas o suficiente para marcar oficialmente o meu começo na literatura. Eu sempre disse e continuarei dizendo que a literatura é uma escada muito alta, e que para chegar lá no topo é preciso subir degraus. Se assim é na leitura, na escrita então nem se fala… Sim, ela me venceu, mas “ao vencedor , as batatas”, já dizia Machado de Assis, e certamente não foram as que minha mãe cozinhava naquele dia. Essas eram só minhas. Das mãos generosas da minha mãe surgiam, assim, o alimento do corpo e da alma ao fazer nascer não coelhos, mas, a partir deles, a existência de uma lembrança e de um ofício.