Por Tomé Nasapulo Kapiãla
O militante é um poeta de capacete, escreve versos com as mãos sujas de realidade e os bolsos cheios de sonhos. Não rima por vaidade, rima por necessidade: cada estrofe é um “deveria ser” lançado contra o muro teimoso do “sempre foi assim”. Já o cidadão é o leitor desses poemas públicos, lê-os nas paredes descascadas, nas filas intermináveis, nos discursos mal pontuados. Uns leem em silêncio, outros sublinham com raiva, há quem dobre a página e finja que não viu, mas todos, sem exceção, vivem dentro do livro.
A militância nasce quando o poeta se cansa de escrever só para a gaveta e resolve declamar na praça. É nesse instante que o sonho vira barulho e a metáfora vira incômodo. Porque sonhar, neste País, é actividade suspeita: quem imagina demais acaba acusado de desrespeito à realidade, como se a realidade fosse uma senhora frágil que não suporta ser contrariada.
A cidadania, por sua vez, chega com manual de instruções: pode usufruir, mas não questione; pode reclamar, mas baixinho; pode sonhar, desde que não acorde os outros. E assim, o cidadão é convidado a ser leitor obediente, nunca coautor. Aplaudir o poema é permitido, corrigir o verso é quase crime.
Mas todo poeta sabe, e todo leitor atento desconfia, que um poema só se completa quando é lido com espírito crítico. Do mesmo modo, uma pátria só amadurece quando entende que crítica não é ofensa, é revisão ortográfica do futuro. O erro não está em quem aponta a falha, mas em quem insiste em chamar rascunho de obra final.
No fundo, militantes e cidadãos partilham a mesma página. Uns escrevem com urgência, outros leem com esperança. O problema começa quando o editor, essa entidade invisível chamada poder, decide censurar os versos e acusar o poeta de antipatriótico, esquecendo-se de que não há pátria sem poesia, nem progresso sem quem ouse imaginar diferente.
E assim seguimos: poetas a construir a realidade com sonhos, leitores a aprender que ler também é um acto político. Porque, mais cedo ou mais tarde, todo leitor consciente percebe que não basta virar a página, é preciso ajudar a escrever o próximo capítulo.
_______________________
Emílio Tomé Cinco Reis de pseudónimo literário Tomé Nasapulo Kapiãla, angolano, natural da província do Huambo, planalto central, licenciado em Geologia faculdade de ciências naturais, universidade pública, Agostinho Neto. É professor do ensino secundário do 2° ciclo do Liceu Público N° 4019 ex-IMNE de Cacuaco “24 de Junho”, lecciona a disciplina de Física e dirigente comunitário da comunidade dos Imbondeiros Cacuaco, província de Luanda.
Descubra mais sobre Por uma literatura de identidade própria , onde escrever é costurar ideias com as mãos
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
