CHEGA! É COELHO DEMAIS NESSA HISTÓRIA!

É possível até que, para quem vê um escritor sentado àquela mesa repleta de exemplares de seu livro autografando-os para os leitores ávidos na fila de espera, pense em como é maravilhosa e promissora a vida desses arquitetos da palavra. Mais do que isso, é possível imaginá-los ainda crianças em volta de suas prodigalidades ao ostentar todos os elogios das professoras primárias para o orgulho dos pais.

Bem, devo confessar que o meu início não foi assim tão alvissareiro… Aliás, muito, mas muito longe disso. Quando criança eu sofria de uma certa indisposição periférica de linguagem portátil de intercomunicação simplificada, que, em termo mais popular, significa “preguiça”. Sim, devo admitir – até porque há provas incontestáveis disso – que eu tinha muita preguiça de escrever. Aí está, veja só…

Eu sempre inventei histórias, isso ninguém pode negar, e as contava brilhantemente, embora pessoa alguma as ouvia, pelo menos que eu estivesse consciente disso. Eu inventava e reinventava verdadeiros feitos memoráveis com heróis e mocinhas ao portar os meus bonequinhos de plástico como personagens principais e tinha até os secundários e antagonistas, subia ladeiras impossíveis cheias de obstáculos formados pelas voltas do grosso cobertor de onça na cama dos meus pais com meus carrinhos e minha picape cinza de rodas largas e, mesmo quando não havia a companhia de nenhum desses cúmplices de aventuras, me imaginava em um complexo e extenso torneio chamado “Campeonato Belo-horizontino de Futebol de Jogo Dedado”, que consistia apenas em uma bolinha de gude e os meus dedos indicador e médio de ambas as mãos, como se fossem as pernas dos jogadores, aliás, de todos os 11 jogadores de todos os times inscritos no torneio, que acontecia no tapeta da sala da minha casa com turno e returno. Havia times de todos os bairros da cidade, sendo o maior clássico Pompéia X Esplanada Futebol Clube. E olha que existia passe de calcanhar, embaixadinha, lançamentos precisos e até o som da torcida que vibrava com cada lance e gols antológicos. Digo isso para mostrar que, sim, eu inventava histórias, mas escrevê-las… E é aí que entra a pessoa que me projetou para o que eu sou hoje: para alguns, Maria Elena – com “E” mesmo – para outros, Dona Elena, outro, ainda, Lena, mas, para mim, a minha mãe. E o que tem isso com o título dessa história? Calma! Não sejamos apressados como os coelhos…

Estava eu naquele fim de manhã de uma sexta-feira na sala de aula a contar as horas à espera para ir embora crente que naquele dia não teríamos “para-casa”, o que me renderia todas as tramas e aventuras possíveis com meus companheiros de imaginação, além de poder realizar toda uma rodada do campeonato de jogo dedado, quando tudo se esvaiu como um passe de mágica ao ouvir a professora, minutos antes de soar o sino, pedir que escrevêssemos o que naquele tempo chamávamos de “composição”. Era a redação de hoje  e aquela palavra, por incrível que pareça, me atormentava. A primeira sílaba -com imediatamente era substituída pela correlação -im e a palavra virava “imposição”. Pronto! Era isso o suficiente para toda a minha criatividade ir para o espaço e a indisposição periférica de linguagem portátil de intercomunicação simplificada tomar conta de mim e do meu humor.

Ainda bem que o tema da composição era livre, o que não diminuiu a imposição correlata, e isso me fez voltar para casa acabrunhado já preocupado com o que eu iria escrever. Para que essa história não vire um tratado psicológico ou de educação ao associar o que para mim era e ainda continua sendo óbvio, ou seja, se um dia, para os seresteiros, a televisão matou a janela, para mim a obrigação matava a vontade, cheguemos, pois, logo aos coelhos. Mas não sem antes dizer o quanto minha mãe me conhecia! Ao me ver arrastar o caderno para lá e para cá e brincar com o lápis entre os dedos, ela já sabia do que se tratava. Sem deixar de mexer nas panelas do almoço e vendo o estado que a imposição periférica me deixava, ela disse um “venha cá, meu filho, eu vou te ajudar. Já que o tema é livre, escreva aí! Mas só dessa vez, hein…”. Sentei ali mesmo no chão da cozinha e, olhando para cima, aquela mulher de pouco mais de um metro e sessenta se agigantava em ternura, cuidado, carinho, sabedoria e amor. Preparei-me para escrever, quando ela começou a ditar:

– Era uma vez um coelho… – “Era uma vez um coelho…”

– Que casou com uma coelha… – “que casou com uma coelha…”

– E teve sete coelhinhos…

CHEGA! É COLEHO DEMAIS NESSA HISTÓRIA! O que tinha sido para mim um alívio a ajuda da minha mãe, tornara-se um drama ao lembrar das explicações da professora… Não é que ela havia dito que o tema era, de fato, livre, mas que todo personagem que colocássemos na história tinha que ter nome, sobrenome, história pregressa (eu nem sabia o que era isso) e, para mim, identidade, CPF, procuração passada em cartório – só faltou ser aquela do céu – assinada: “Deus”. Deus do céu…

Confesso não me lembrar de como terminou essa história, essa e a daquela coelhada toda. Talvez a minha ânsia de escrever que tempos depois fez parte do que sou e faço hoje seja a minha tentativa de descobrir. De qualquer forma, sou grato à professora que me venceu ao tirar de mim naquele dia a possibilidade de minhas aventuras, mas me deu a oportunidade de ter com minha mãe um momento breve, brevíssimo, mas o suficiente para marcar oficialmente o meu começo na literatura. Eu sempre disse e continuarei dizendo que a literatura é uma escada muito alta, e que para chegar lá no topo é preciso subir degraus. Se assim é na leitura, na escrita então nem se fala… Sim, ela me venceu, mas “ao vencedor , as batatas”, já dizia Machado de Assis, e certamente não foram as que minha mãe cozinhava naquele dia. Essas eram só minhas. Das mãos generosas da minha mãe surgiam, assim, o alimento do corpo e da alma ao fazer nascer não coelhos, mas, a partir deles, a existência de uma lembrança e de um ofício.

10 comentários em “CHEGA! É COELHO DEMAIS NESSA HISTÓRIA!”

  1. Texto maravilhoso, como todos os que escreve….Parabéns, Leandro….e que honra para a sua mãe ler tudo isso.
    Mas fica quase que impossível pensar que você um dia foi preguiçoso com a leitura…rsssss……Muito sucesso, meu querido amigo!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Adorei o nome « científico «  da preguiça . Penso que todo gênio precisa sonhar antes da criação acontecer. Leandro, não era preguiça, era destacando contemplativo, reflexão.

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