POR UMA LEITURA MAIS AFETIVA

Por Leandro Bertoldo Silva

A leitura para mim sempre foi algo arrebatador e fascinante, mesmo antes de saber juntar letras e formar palavras. Quando criança, lá pelos meus 4 ou 5 anos de idade, pegava livros e revistas em quadrinhos e inventava as histórias que não estavam ali, mas em minha alma de menino. Sim, antes de formar palavras eu juntava sonhos e as escutava dentro de mim enquanto folheava as páginas daqueles objetos mágicos. Gostar de ler, portanto, é e sempre foi natural, ou pelo menos deveria ser. Por que então tantas pessoas dizem ter horror à leitura?

Antes de tentar responder essa pergunta, reforço a minha declaração de que gostar de ler é algo absolutamente natural. Isso porque somos seres humanos e, como tais, temos a necessidade de contar histórias. Fazemos isso tanto pela escrita como pela oralidade, como também pelas cores, pelos cheiros, pelos sabores, pelo tato e, principalmente, pelos sentimentos. Não há como negar a subjetividade da vida, o olhar de carinho da mãe que nos faz ter a certeza da sua alegria por nós, o amparo do pai ao sentir sua mão protetora ao nos jogar para cima quando criança, o medo da perda quando da presença dos avós mais idosos, mesmo sabedores do quanto isso também é natural. O que estou querendo dizer é que não lemos somente palavras; lemos a natureza a partir das nossas percepções, das nossas alegrias, expectativas e também das nossas dores, saudades e frustrações, ou seja, lemos e somos lidos, pois fazemos parte das sensações. Uma vez que todos esses sentimentos podem ser, aí sim, interpretados pelas palavras e absorvidos pelos poetas, pelos romancistas e contistas através de tantas obras maravilhosas, não há nenhum motivo de correr daquilo que apreciamos tanto, porque simplesmente faz parte de nós mesmos. O que acontece então?

Acontece que em algum momento essa conexão não é bem feita, primeiramente pelos pais ao permitirem um certo distanciamento dos filhos a julgarem, muitos, que a responsabilidade é da escola, e essa devolve aos pais a falta de presença e incentivo. Assim, tudo vira cobrança. A propósito, sempre que ouço a expressão “incentivo à leitura”, algo me incomoda, embora eu também já a tenha usado. E não é o incômodo de admitir a necessidade de incentivar alguém a algo que eu tanto aprecio, mas principalmente por saber que de incentivo já estamos cheios. Somos todos super estimulados à leitura, temos hoje livros interativos, eletrônicos, que falam, tocam música e uma série de outras coisas mirabolantes. Portanto, o que falta não é incentivo, o que falta é saber o que fazer com tudo isso e, principalmente, falta afeto literário, e isso dificilmente os pais estão sabendo dar aos filhos, como, mais difícil ainda, as escolas sequer estão aptas a essa tarefa, pois agem na obrigatoriedade e não na esfera do acolhimento. Deixe-me falar uma coisa: onde entra a obrigação expulsa-se o prazer. Acontece que as pessoas não sabem fazer de outra forma e preferem continuar em um infinito jogo de passa ou repassa. Os pais não querem admitir as suas distâncias, assim como as escolas não querem admitir a incapacidade de pensarem fora da caixa e vivemos, todos, essa fragilidade absoluta.

Com tudo isso que foi exposto, resta-nos uma alternativa: a coragem de acreditar que a leitura transcende, e muito, todos os espaços e que em algum lugar de nós mesmos existe aquele menino, aquela menina que um dia se encantou com o primeiro livro que ganhou, mesmo sendo ele de borracha para não estragar ao leva-lo para o banho… Um dia nossos olhos brilharam ao ouvir uma história e nos surpreendemos ao saber que ela veio daquele mesmo objeto mágico que nos fora dado a folhear até que descobrimos que nós mesmos podíamos fazê-la sair de lá, sem cobranças, sem provas, sem atividades para mostrar ao mundo o quanto somos inteligentes. Aliás, inteligência é olhar o mundo com afetividade, é lê-lo em sua inteireza e simplicidade, é sentir grato por aqueles que traduzem os nossos sentimentos e permitem que os modifiquemos a partir das nossas próprias vivências, e isso não tem certo nem errado, tem existência. Inteligência é saber que não precisamos percorrer sempre os mesmos caminhos, porque existem outros, e, se não existirem, podem ser construídos. Quando compreendermos isso, veremos diminuir os horrores em detrimento dos prazeres. Não sei se respondi à pergunta, talvez nunca venha a conseguir, e está tudo bem. Cada um tem o seu momento de descoberta. Apenas sou grato pelo meu ter sido, com o auxílio dos meus pais, desde cedo lá naqueles livros e revistas que me deixaram folhear e um pouco mais tarde em cima de um pé de ameixa, onde levava os meus livros, usando os galhos como estantes, lendo, absorvido pelo encanto, o mundo que se me abria com acolhimento e carinho.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s