A PASSAGEM

A Passagem

Não me procures ali

onde os vivos visitam

os chamados mortos.

Procura-me dentro das grandes águas.

[…]

 Hilda Hilst

Um dia, um pescador saiu para pescar. Levantou mais cedo que os outros e foi para o mar. Lá, desembainhou o facão e desvestiu a pele de seu corpo, jogando-se na água. Assim que seu corpo sem pele tocou a água, ele transformou-se em um peixe lindo, encantando os outros peixes, conduzindo-os às redes dos outros pescadores a essa altura já armadas. No final do dia, já em forma de homem, voltou para casa levando um único peixe, diferente dos demais que voltaram com as redes cheias. Com o tempo, seu filho foi achando aquilo estranho, mas era só ouvir as algazarras dos meninos, que logo esquecia e ia brincar com as outras crianças.

Numa bela manhã, o rapaz acordou mais cedo do que o pai. Esperou que ele saísse e o seguiu, presenciando tudo o que fazia. Naquele dia, o pai não mais voltou para casa. Os pescadores também não levaram peixe algum. Assim foram todos os outros dias seguidos até que o rapaz, mantendo silêncio, fez o que precisava: levantou cedo e foi para o mar procurar o pai. Ao chegar, viu-o de costas na margem da água, parecendo que o esperava.

            — Você descobriu… Agora terá que tomar o meu lugar.

            — E se eu não quiser, pai?

            — Todos morrerão de fome. Nós dois sabemos que não há escolha.

Desembainhou o facão… Um grito de pânico se fez ouvir. O rapaz sentou-se na cama, sentindo-se completamente ofegante e suado…

            — Pesadelo, filho?

            — Sim, eu…

            — Já não era sem tempo… Levante-se! Hoje você vai pescar comigo.

            Um medo terrível assolou o garoto, e ele fez a mesma pergunta do sonho:

            — E se eu não quiser, pai?

            — Nós dois sabemos que não há escolha… Eu vi como ontem você não quis brincar com as outras crianças…

O tempo havia chegado… E foi assim que a passagem de sua infância se deu como uma lâmina a desvestir o seu corpo e expor a sua alma. Era isso o que pensava, lembrando-se do pai, enquanto ele, agora homem feito, olhava o filho que dormia parecendo sonhar…

Ouça o conto narrado

Acompanhe essa e outras histórias no nosso canal do Youtube no Literatura em Áudio.

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