A TERRA VIVA NA NARRATIVA DE MIA COUTO: UMA LEITURA DE UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA

Você é bom em suposições? Boa em decifrar evidências?

Então, vejamos… Observe esta descrição:

“Filho de portugueses, abandonou o curso de medicina para trabalhar como jornalista. Foi militante da Frente de Libertação de Moçambique. É formado em Biologia e dedica-se a estudos de impactos ambientais.”

Perfeitamente possível pensarmos se tratar de um cientista ou pesquisador, correto? Bem, também… Afinal de contas, este é o trabalho dele. O que talvez você não imagine é que estamos falando de um dos maiores nomes da literatura africana em língua portuguesa – o escritor moçambicano mais traduzido no mundo, Antônio Leite Couto, ou, melhor dizendo, Mia Couto.

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Mia é uma espécie de “mágico da língua”, criando, apropriando, recriando, renovando a língua portuguesa em novas e inesperadas direções.

Tem, devido a essa autêntica revolução de inventiva linguística, sido muito apropriadamente comparado a outro grande mágico da Língua, o escritor brasileiro João Guimarães Rosa, por quem tece claros elogios.

E mais ainda…

Em 2013 foi agraciado com o Prêmio Camões. Em 2014 recebeu o Prêmio International Neustadt de Literatura. Em 2015, Mia Couto fez parte dos dez finalistas do Man Booker International Prize, um dos prêmios mais importantes do mundo literário.

Bem, percebe-se que falamos de uma pessoa muito especial, e falamos mesmo. Porém, mais do que os seus prêmios, Mia Couto merece nossa total atenção pelo que escreve, pelas ideias que defende e pelo humano que existe em si. Para ele, “a escrita é necessidade absoluta” para “transpor as fronteiras da realidade”. E duas das realidades mais defendidas por ele é a Terra e a vida. Talvez por também ser biólogo. Talvez por ser um ativista ambiental. Talvez por ser um homem que não se divide, mas se reparta…

Aliás, Mia disse certa feita em uma entrevista ao ser perguntado como ele se dividia entre a biologia e a literatura (Imagem da Palavra – junho de 2013), que repartia-se e distribuía-se de uma maneira que nem ele mesmo sabia qual era a fronteira. Isso por descobrir na biologia algo muito literário, uma espécie de revelação do mundo, de linguagem, em que havia uma espécie de aproximação com a árvore, com a planta e com o animal e aquilo que chamamos Natureza. Fazer biologia, para Mia Couto, é recolher histórias, e principalmente a história da vida, que é a história mais fascinante que podemos ter.

Apaixonante, não? Então, continue lendo esse artigo para saber um pouco mais sobre:

A terra viva na narrativa de Mia Couto. E para isso, a Árvore das Letras convidou a estudante do 7º período de Letras – Keily Martins Francisco – da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), sob a orientação da professora Heloisa Helena Sequeira, Doutora da UNIR e líder do Grupo de Pesquisa em Estudos Literários, para ilustrar o assunto através da leitura da obra Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, do escritor moçambicano, para ver como ele lida com a necessidade da reconexão que estamos vivenciando com a nossa Mãe-Terra. Necessidade esta oriunda de um afastamento não apenas físico, com o desrespeito à nossa fauna e flora, mas um afastamento emocional dessa ligação intrínseca da Terra como gestora, origem de nossas origens.

Antes, porém, vejamos um breve release de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra.

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O estudante universitário Marianinho volta à ilha de Luar-do-Chão depois de anos de ausência. Seu retorno é um imperativo: ele fora incumbido de comandar as cerimônias fúnebres do avô Dito Mariano, de quem recebera o mesmo nome. Neto favorito do patriarca, o rapaz chega à ilha e se vê no centro de uma série de intrigas e de segredos familiares, que envolvem seu pai, Fulano Malta, a avó Dulcineusa, os tios Abstinêncio, Ultímio e Admirança, e também as nebulosas circunstâncias em torno da morte de sua mãe, Mariavilhosa.

Marianinho logo descobre que o falecimento do avô permanece estranhamente incompleto e esconde desígnios que escapam à força dos homens – como tudo nessa enigmática Luar-do Chão.

A TERRA VIVA NA NARRATIVA DE MIA COUTO: UM LEITURA DE UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA

 Por Keily Martins Francisco

 AS LITERATURAS AFRICANAS: A ESCOLHA DE MIA COUTO

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Grande parte das literaturas africanas surgiu por meio da oralidade, como ressalta Maria Aparecida Santilli: “As nações de Angola, Cabo Verde e Moçambique eram originariamente ágrafas, não tinham escrita, embora houvessem cultivado uma literatura oral.” (SANTILLI, 1985, p.7). Essas literaturas eram passadas de geração a geração até surgir a escrita, eram histórias ricas em elementos fantásticos e provérbios, muitos escritores africanos herdaram essas características em sua escrita.

As culturas e literaturas africanas sempre foram muito marginalizadas no Brasil e em todo o mundo, conforme discorre Carmen Lucia Tindó Secco em A magia das letras africanas: ensaios sobre as literaturas de Angola e Moçambique e outros diálogos (2008):

[Quando se pensa em África] duas imagens costumam surgir com freqüência: a da Mãe – África idealizada pelos lugares-comuns de uma mítica “africanidade imaginada”, configurada por sons de tambores, danças sensuais, avós contadoras de histórias; e a da África dizimada por doenças, misérias e guerras. (SECCO, 2008, p. 24)

A imagem do continente tornou-se homogênea e estereotipada, como se houvesse uma única África e as culturas, crenças e literaturas não variassem de um país para outro.

No cenário literário africano, Mia Couto (António Emílio Leite Couto, Beira, 1955) é uma das grandes vozes contemporâneas, formado em biologia e filho de portugueses, o moçambicano tem obras traduzidas para diversas línguas, grande parte delas encontradas no Brasil. Autor de uma prosa poética que, segundo o próprio, recebeu influência do escritor angolano Luandino Vieira e do brasileiro João Guimarães Rosa.

Em entrevista a Vera Maquêa, o moçambicano afirma que “[…] para ganhar existência na actualidade, no terreno da modernidade, Moçambique deve caminhar pela via da escrita. Entramos no mundo pela porta da escrita, de uma escrita contaminada (ou melhor fertilizada) pela oralidade.” (COUTO, 2005, p. 208). Logo, a escrita de Couto recebe influências da literatura oral tão presente nas culturas africanas.

Dentre a vasta quantidade de obras do moçambicano escolhemos, o romance Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2003) para refletirmos sobre a terra e sua relação com as personagens da obra.

 UM RIO, UMA CASA: MARIANINHO E A TERRA/CASA

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Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2003) é uma obra narrada em primeira pessoa por seu personagem central, Marianinho, que após um período estudando na cidade regressa à Luar-do-Chão, ilha em que nasceu, para fazer as cerimônias fúnebres de seu avô Dito Mariano, anfitrião da família. No artigo O ponto de vista na ficção (2002), Norman Friedman nomeia esse tipo de narrador como narrador protagonista, que segundo o estudioso, “[limita a narrativa] a seus próprios pensamentos, sentimentos e percepções. […] O ângulo de visão da narrativa é fixo.” (FRIEDMAN, 2003, p. 177). Na obra em análise os acontecimentos são narrados pelo ponto de vista do protagonista Marianinho.

Marianinho é o narrador de um romance e isto nos leva imediatamente para a questão do gênero textual. Ian Watt em seu livro A ascensão do romance (1990) dedica um dos capítulos à busca por alguma característica capaz de distinguir essa forma literária das demais e ao mesmo tempo agraciar as particularidades de cada autor, segundo ele:

[O critério] fundamental [do romance é] a fidelidade à experiência individual – a qual é sempre única e, portanto, nova. Assim, o romance é o veículo literário lógico de uma cultura que, nos últimos séculos, conferiu um valor sem precedentes à originalidade, à novidade. (WATT, 1990, p. 15)

Segundo Watt, uma das grandes características do romance e o que o diferencia de outros gêneros narrativos como a epopeia, por exemplo, é a fidelidade à experiência individual, no romance o autor não precisava mais trazer temas e relatos de um povo. Na narrativa em análise é apresentada a experiência individual de Marianinho ao regressar à ilha na qual nascera.

Regressar à terra natal traz ao narrador-personagem uma série de questionamentos sobre sua relação com aquele lugar, logo ao chegar a Nyumba-Kaya, casa de sua família, o narrador confessa que “[…] se confirma a verdade das palavras do velho Mariano: [ele] teria residências, sim, mas casa seria aquela, única, indisputável” (COUTO, 2003, p. 29, grifo nosso), ou seja, o afastamento de Marianinho não faria com que ele perdesse o vínculo com aquele lugar.

André Pinheiro (2009) faz uma leitura de alguns poemas da obra Raiz de orvalho e outros poemas (2001) do moçambicano à luz dos elementos terrestres, tanto nos poemas analisados pelo estudioso quanto na narrativa em análise:

[…] A imagem da terra é de fundamental importância para a composição desse cenário, já que ela é simultaneamente uma entidade materna (ligada, portanto, ao sentimento) e uma base sólida para o homem (responsável pela sua força e equilíbrio). (PINHEIRO, 2009, p. 17) e [esse] espaço só [pode] ser definido em função das relações humanas desenvolvidas nele. (p. 16).

Portanto, para Marianinho, regressar àquele lugar era regressar à sua casa, dessa vez com uma visão mais amadurecida da realidade. Pode-se afirmar, baseado nos estudos sobre o mito de Mircea Eliade, que o narrador-personagem se sente “gente daquele lugar” (ELIADE, 1992, p. 118) e ao mesmo tempo tem consciência de que se tornara um estranho para aqueles que o circulam: “há anos que não visito a Ilha. Vejo que se interrogam: eu, quem sou? Desconhecem-me. Mais do que isso: irreconhecem-me” (COUTO, 2003, p. 29). O que os unia era a dor do luto e não os laços familiares. Em entrevista concedida a Vera Maquêa, Mia Couto fala sobre a obra em analise, segundo ele:

Neste meu livro […] está presente, sim, aquilo que são dois universos bem claros que é Moçambique: o universo urbano e o universo rural. E já tem muitos moçambicanos que são urbanos e que, quando saem dessa região urbana e se adentram no mundo rural é como se tivessem chegando a uma outra nação. E constroem fantasmas e recriam mitos antigos. (COUTO, 2005, p. 207).

Marianinho é essa personagem que teve contato com o universo urbano e que quando regressa ao ambiente rural não se reconhece mais naquele lugar, sua identidade assim como sua relação com Luar-do-Chão estão em transição. Recordando as lembranças de sua partida da terra natal, a personagem confirma: “[…] o velho Mariano sabia: quem parte de um lugar tão pequeno, mesmo que volte, nunca retorna. Aquele não seria o lugar de minhas cinzas. Assim fora com os outros, assim seria comigo. E o vaticínio dele se foi cumprindo.” (COUTO, 2003, p. 45).

O narrador-personagem está ao mesmo tempo ligado e desligado de Luar-do-Chão, aquela era sua terra natal, sua “única casa” (COUTO, 2003, p. 29), mas ele havia partido dali, entrado em contato com outra cultura e perdido o vínculo com aquele lugar: como era possível estar tão próximo e ao mesmo tempo tão distante da Ilha?

Após se reencontrar com os familiares e recordar sua infância na Ilha, Marianinho passa a, misteriosamente, receber cartas do anfitrião, seu avô supostamente morto, na primeira delas o mais velho dos Marianos escreve que:

Você não veio a esta Ilha para comparecer perante um funeral. Muito ao contrário, Mariano. Você cruzou essas águas por motivo de um nascimento. Para colocar o nosso mundo no devido lugar. Não veio salvar o morto. Veio salvar a vida, a nossa vida. (COUTO, 2003, p. 64)[1]

Segundo Dito Mariano, Marianinho estava ali para vivenciar um (re)nascimento e salvar Luar-do-Chão com o auxílio do anfitrião. Seria possível alguém que passara tanto tempo fora, com a ajuda de um “morto pela metade”, salvar a Ilha? O que havia para se salvar naquele lugar? Ao observar a situação de Luar-do-Chão o narrador afirma:

“Dói-me a Ilha como está, a decadência das casas, a miséria derramada pelas ruas. Mesmo a natureza parece sofrer de mau-olhado. […] À primeira vista, tudo definha.” (COUTO, 2003, p 28).

Aquela, certamente, não era a Ilha de suas lembranças, o processo de colonização assolara aquele lugar e isso causava dor no narrador da obra. Moçambique, juntamente com Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau integram os PALOPs[2] que foram colonizados por Portugal. Para conseguir a independência foi necessária muita luta e após a tão almejada liberdade restaram apenas países a serem reconstruídos, Luar-do-Chão na obra é um reflexo desse processo. Como afirma Dito Mariano em sua primeira carta ao neto:

Todos aqui estão morrendo não por doença, mas por desmérito de viver (COUTO, 2003, p. 64). Porque todos estavam morrendo eles, juntos, teriam que se unir e salvar aquele lugar.

DITO MARIANO E A TERRA FECHADA

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Dito Mariano é o mais velho de sua família e como tal tem um papel importante na narrativa, Secco em seu artigo “Luandino Vieira e Mia Couto: intertextualidades” argumenta sobre a importância dos anciões para a cultura africana, segundo ela: “Os velhos têm um papel importante na filosofia de vida africana: são os guardiões da memória, os griots, ou seja, os velhos contadores de histórias que passam aos mais jovens a tradição e os conhecimentos ancestrais.” (SECCO, 2008, p. 62).

O mais velho dos Marianos é descrito como uma personagem curiosa que segundo o narrador-personagem “enquanto vivo se dizia morto. Agora que falecera ele teimava em não morrer completamente” (COUTO, 2003, p. 37), homem famoso por seus muitos envolvimentos amorosos e que após morto, resolve dentre outras coisas, “salvar Luar-do-Chão” com o auxílio do neto, para isso ele passa a se comunicar sobrenaturalmente com o neto através de cartas, nas quais  coloca Marianinho em dia com os acontecimentos da Ilha durante sua ausência e lhe passa orientações de como deve proceder com sua família.

A escrita dessas cartas é um tanto quanto intrigante para Marianinho e para o leitor da obra, após ler a primeira delas o narrador questiona: “quem escrevera aquilo? Quando tento reler uma tontura me atravessa: aquela é a minha própria letra com todos os tiques e retiques. Quem fora, então? Alguém com a letra igual a minha.” (COUTO, 2003, p. 56) em outra carta Dito Mariano confessa ser ele o seu autor, Marianinho escrevia as cartas por intermédio do anfitrião que afirma que os dois, juntos, salvarão a Ilha:

Estas cartas, Mariano, não são escritos. São falas. […]

É por isso que visitará estas cartas e encontrará não a folha escrita mas um vazio que você mesmo irá preencher, com suas caligrafias. […] Esse é o serviço que vamos cumprir aqui, você e eu, de um e outro lado das palavras. Eu dou as vozes, você dá a escritura. Para salvarmos Luar-do-Chão, o lugar onde ainda vamos nascendo. E salvarmos nossa família, que é o lugar onde somos eternos. (COUTO, 2003, p. 64-65)

Marianinho oscila entre acreditar ou não acreditar no que a carta dizia, mas logo acaba aceitando o que nela estava escrito e começa a seguir as orientações que lhe são dadas.

Além de atribuir à terra a posse da força da vida e de muitos significados, a narrativa também elege o rio como um elemento fundamental, figura carregada de simbologias que está presente desde o nome da obra e perpassa toda a narrativa. Eliade (1992) trata da simbologia das águas, segundo ele:

As águas simbolizam a soma universal das virtualidades: são fons et origo, o reservatório de todas as possibilidades de existência; precedem toda forma e sustentam toda criação. […]

Em qualquer conjunto religioso em que as encontremos, as águas conservam invariavelmente sua função: desintegram, abolem as formas, “lavam os pecados”, purificam e, ao mesmo tempo, regeneram. (ELIADE, 1992, p. 110)

Luar-do-Chão é uma ilha, segundo Eliade uma ilha é “uma das imagens exemplares da Criação […] que subitamente se “manifesta” no meio das vagas” (ELIADE, 1992, p. 110), estar em um lugar cercado por águas abre caminho para infinitas possibilidades de existências e é ali, naquela ilha, que Marianinho viverá um renascimento.

O fato mais marcante da obra envolvendo Dito Mariano, além das cartas escritas de forma sobrenatural, é o momento de seu suposto enterro. Estando toda a família há muito tempo na Ilha à espera do inevitável, resolvem antecipar a despedida do mais velho dos Marianos, entretanto no momento em que Curozero Muando, o coveiro da cidade, começa a abrir a cova do anfitrião algo incomum acontece:

O coveiro levanta a pá com um gesto dolente. O metal rebrilha, fulguroso, pelos ares, flecha rumo ao chão. Contudo, em lugar do golpe suave se escuta um sonoro clinque, o rasposo ruído de metal contra metal. A pá relampeja, escoiceia como pé de cavalo e, veloz, lhe escapa da mão. Ou fosse o pássaro ndlati despenhando-se no solo terrestre? Certo é que a pá tinha embatido em coisa dura, tanto que a lâmina vinha entortada. (COUTO, 2003, p. 178)

A terra havia se fechado, para o espanto de uns e a loucura de outros, o resultado do encontro entre a pá e a terra é tão agressivo que a primeira entorta. Curozero faz outras tentativas de cavar o solo, todas elas em vão. Que fenômeno incomum era aquele? Teria alguma relação com Dito Mariano? Por que a terra se recusava a recebê-lo? Algumas suposições são levantadas pelas próprias personagens da narrativa, Curozero acreditava ser vingança da terra contra toda a poluição, as guerras e derramamentos de sangue inocente, essa seria uma forma da terra protestar contra todo o mal que o ser humano estaria fazendo a ela ou sua própria morte.

No livro A fidelidade à terra: assim falou Nietzsche IV (2003), organizado por Charles Feitosa está presente o artigo de Willis Santiago Guerra Filho intitulado “A última aventura humana sobre a terra”, no qual  reflete:

A fidelidade à terra e à vida que se tem sobre (uber) ela vem nos cobrando, exigindo, reclamando a preservação delas, que é a nossa também, isto é, uma proteção contra nós mesmos, os humanos, cada vez menos “super”, e, portanto, cada vez mais “sub”, já que o demasiado humano é desumano. (GUERRA FILHO, 2003, p. 156)

Estaria realmente a terra se vingando do humano por sua má conduta diante dela? Após tantos e tantos anos sem se importar com a preservação da terra, o humano poluiu, queimou, matou; estaria agora a terra pagando com a mesma moeda? Ou estaria sucumbindo, morrendo ou já teria morrido de uma vez por todas? Questões como essas perpassam as mentes das personagens da obra de Couto. Conforme Guerra Filho (2003) a fidelidade à terra tem nos cobrado sua preservação, entretanto, o humano tem ignorado isso; quais serão as consequências ? Curozero Muando tem suas suposições.

Reação minimamente estranha diante do fechamento da terra mostra a personagem Fulano Malta, filho de Dito Mariano e pai de Marianinho, após as tentativas fracassadas de Curozero, ele: “[…] fora dos eixos, desata a vociferar: não se devia cavar com um instrumento de metal. Isso feria a terra. Dito isso, ele se ajoelha e desata a cavar com as mãos.” (COUTO, 2003, p. 179) Fulano cava até seus dedos sangrarem e ficarem em carne viva.

Eliade em seu livro O sagrado e o profano (2001) apresenta o mito da Terra Mãe, segundo o qual  alguns povos se recusavam a trabalhar a terra com receio de ferir a sua própria mãe:

O profeta indiano Smohalla, da tribo Unatilla, recusava-se a trabalhar a terra. “É um pecado”, dizia, “ferir ou cortar, rasgar ou arranhar nossa mãe comum com trabalhos agrícolas.” E acrescentava: “Vós pedis-me que trabalhe o solo? Iria eu pegar uma faca e cravá-la no seio de minha mãe? Mas então, quando eu já estiver morto, ela não me acolherá mais em seu seio. (ELIADE, 2001, p. 116)

Postura menos radical que a do profeta indiano toma Fulano Malta, não se devia ferir a Terra com instrumento de metal, segundo a personagem, sua atitude de jogar fora o instrumento e usar as mãos para cavar, porém, não mostra resultado algum: a terra continuava fechada.

Os tios de Marianinho começam a discutir e a supor que toda aquela situação era feitiço: Ultímio acreditava que era por causa de sua aparente prosperidade financeira  e Abstinêncio supunha que era porque o irmão “traiu os mandamentos” se envolvendo na política e esquecendo a família. Problemas familiares à parte, o acontecimento permanece inexplicável e sem reversão até certo momento.

Sem cova, sem enterro: a família retorna à Nyumba-Kaya e naquela noite o narrador tem um sonho no qual “[em todo o mundo] a terra negava abrir seu manto aos humanos desígnios” (COUTO, 2003, p. 187). Em todo o mundo a terra estava fechada e ele acrescenta: “[…] ninguém fazia ideia que a raiz de tão grave desequilíbrio se localizava, afinal, na nossa pequena Ilha. Ninguém sabia que tudo começara na pessoa do avô Mariano.” (COUTO, 2003, p. 188). Logo, o narrador acreditava que o fenômeno tinha relação com o avô. Estaria Dito Mariano fechando a terra? Ou ela se recusava a aceitá-lo? Teria relação com as cartas ao neto e o fato dos dois, juntos, salvarem aquele lugar?

NYEMBETI E A RELAÇÃO DA MULHER COM A TERRA

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Outra personagem que logo nos chama atenção por sua forte relação com a terra é Nyembeti, irmã do coveiro Curozero Muando. A princípio ela aparece como a mulher por quem o protagonista da obra se interessa, segundo Curozero, seu irmão: “[…] Até dói a beleza dela. O problema sabe qual é? É que essa moça não fala direito, a língua tropeça na boca, a boca tropeça-lhe na cabeça.” (COUTO, 2003, p. 160). A moça era bonita, mas não sabia falar e nem se comunicar com as pessoas.

Após o episódio da terra fechada, Marianinho regressa a Nyumba-Kaya e durante a noite tem um sonho no qual Nyembeti aparece com a solução para o problema de ordem sobrenatural. No sonho, os dois fazem amor em uma caverna e após isso a jovem começa a cavar no lugar em que fizeram amor, segundo o narrador:As mãos em concha, escavaram a terra. […] O solo ali era fofo, minhocável, esfarelento. Nyembeti descobrira onde se podia cavar a sepultura do Avô.

Como é que você encontrou esse lugar?

Mas ela negou. Os lugares não se encontram, constroem-se. A diferença daquele lugar não estava na geografia. Apontou para nós dois e embrulhou as mãos para, em seguida, as levar ao coração. Ela queria dizer que a terra ficou assim porque nela nos amáramos? Seria o amor que reparara a terra?  (COUTO, 2003, p. 189, grifo nosso).

Tendo levantado esses questionamentos, Marianinho recorda do lençol de amores de Dito Mariano: “as amantes todas, sem exceção, ele as desfrutara na mesma cama, sobre o mesmo lençol” (COUTO, 2003, p. 43), seria realmente o amor que restauraria a terra? Eliade (2001) explica a relação da mulher com a terra:

A mulher relaciona-se, pois, misticamente com a Terra: o dar à luz é uma variante, em escala humana, da fertilidade telúrica. […] A sacralidade da mulher depende da santidade da Terra. A fecundidade feminina tem um modelo cósmico: o da Terra Mater, da Mãe universal. (ELIADE, 2001, p. 121)

Seria a fertilidade da mulher e o ato de fazer amor que abririam o solo? Nyembeti teria realmente encontrado o segredo da terra? Marianinho acorda do sonho sem saber se ele deveria ser levado a sério. O que é real e o que não é, levando em consideração que tantas coisas aparentemente “sobrenaturais” estavam acontecendo desde que o jovem retornara à Ilha?

MARIANINHO E NYEMBETI: PARTIR OU PERMANECER NA ILHA?

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Marianinho nascera em Luar-do-Chão e partira dali após a morte de sua mãe Mariavilhosa, seu vínculo com aquele lugar era muito forte, mas ali não seria o lugar de suas cinzas. Por outro lado temos Nyembeti, que ali nascera e ali morreria. Levando em consideração que são da mesma idade, podemos comparar a relação de ambos com a Ilha.

Antes de partir da Ilha, Marianinho vai ao cemitério encontrar a jovem que agora era a nova coveira da cidade, eles fazem amor em um cenário muito parecido com o do sonho que o narrador tivera e ali ele constata: “Afinal, entendo: eu não podia possuir aquela mulher enquanto não tomasse posse daquela terra. Nyembeti era Luar-do-Chão.” (COUTO, 2003, p.253). Ela era parte daquele lugar e para possuí-la, ele teria que morar na Ilha.

Qual é relação que uma pessoa tem com sua terra natal? Até que ponto uma pessoa que nunca saiu de determinado lugar está vinculada a ele? Como afirma Dito Mariano “[…] os lugares são bons e ai de quem não tenha o seu, congênito e natural. Mas os lugares nos aprisionam, são raízes que amarram a vontade da asa.” (COUTO, 2003, p. 65).

Até que ponto um determinado lugar é bom? Quando ele se torna uma prisão? Quais são as relações que uma pessoa pode ter com um determinado lugar?

TERRA: SEGREDO E FIDELIDADE

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Cada pessoa desenvolve uma relação diferente com seu lugar de origem: quem nasceu, cresceu e permaneceu sempre ali tem uma relação de certo teor; quem partiu ainda jovem por certo tem outro tipo de relação e quem simplesmente nasceu e não manteve contato tem outra relação, completamente diferente. Assim acontece com as personagens de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2003).

Marianinho sentia que Luar-do-Chão não seria o local de suas cinzas, quem mudara: ele ou a Ilha? Ou ambos? Que (re)nascimento, afinal, ele vivenciara ali? No final da narrativa ele descobre que era, não neto, mas filho do anfitrião dos Marianos. Fruto de um amor proibido entre Mariano e Admirança, irmã mais nova de sua esposa.

Afinal, é “descoberto” o mistério da terra fechada: Dito Mariano não podia levar esse segredo para o túmulo, a terra não o aceita. Após a revelação do segredo ao filho, Dito Mariano finalmente morre e a terra volta a se abrir.

Na narrativa, os questionamentos parecem respondidos, mas ela possibilita várias leituras que nos levam para questões como: o que estamos fazendo com o nosso planeta? A obra Zaratustra (2011) de Friedrich Nietzsche já nos alertava sobre a fidelidade que devemos ter com relação à terra e sua preservação. Até que ponto as guerras e a poluição ferem a terra? Precisaria ela se fechar para o Homem tomar consciência de suas responsabilidades perante o planeta? Existem coisas (mentiras/pecados) que a terra não consegue engolir?

Em sua última carta ao filho antes de sua morte definitiva, Dito Mariano revela o segredo da terra fechada e pede para que seu corpo seja jogado no rio sem que ninguém, além de Curozero Muando, veja: “[…] lembra onde foram enterrados as águas de sua mãe e o corpo de seu pequeno irmão, o pré-falecido? Junto à lagoa que nunca seca. Pois eu quero ser enterrado junto do rio.[…] Eu sou um mal-morrido. Já viu chover nesses dias? Pois sou eu que estou travando a chuva.” (COUTO, 2003, p. 238) Dito Mariano ainda acrescenta: “[…] me faça um favor: meta no meu túmulo as cartas que escrevi, deposite-as sobre o meu corpo. Faz conta me ocuparei em ler nessa minha nova casa.” (COUTO, 2003, p. 238).

Marianinho realiza os últimos desejos do pai e juntamente com Curozero Muando:

Levamos o corpo para o rio, enrolado em seu velho lençol. […] Começa a chover assim que descemos o avô à terra. Conservo as cartas em minhas mãos. Mas as folhas tombam antes de as conseguir atirara para dentro da cova.

– Curozero, ajude-me a apanhar esses papéis.

– Quais papéis?

Só eu vejo as folhas esvoando, caindo e se adentrando no solo. […] vou apanhando as cartas uma por uma. É então que reparo: as letras se esbatem, e o papel se empapa, desfazendo-se num nada. Num ápice, meus dedos folheiam ausências.

Quais papéis? – insiste Curozero. (COUTO, 2003, 239-240)

As cartas haviam se desfeito e Marianinho mergulha no rio: “ […]  não sei do que nos lavamos. Para mim, o rio, de tão sujo, só nos pode conspurcar. Todavia, cumpro o ritual, preceito a preceito.” (COUTO, 2003, p. 240) Após o fim do ritual Curozero Muando afirma: “[…] seu Avô está abrindo os ventos. A chuva está solta, a terra vai conceber.” (COUTO, 2003, p. 240).

Chove durante muitos dias na Ilha e a terra finalmente se abre. Marianinho se despede dos moradores da Ilha e termina a narrativa lendo a última carta do Avô (pai), na carta o agora falecido Mariano afirma: “[…] você, meu neto, cumpriu o ciclo das visitas. E visitou casa, terra, homem, rio: o mesmo ser; só diferindo em nome. Há um rio que nasce dentro de nó, corre por dentro da casa e deságua não no mar, mas na terra. Esse rio uns chamam de vida.” (COUTO, 2003, p. 258) Dito Marino batiza de vários nomes a vida e confessa o alívio que sente por ter finalmente conseguido atravessar a fronteira vida/morte.

Marianinho agora seguiria sua vida ciente de sua verdadeira identidade e sua relação com Luar-do-Chão. Ele voltaria para a cidade? Provavelmente. Certo é que ele realmente vivenciara um (re)nascimento ali e ainda visitara o mundo dos mortos através das cartas de Mariano, vivenciara ainda uma série de experiências mágicas que tornavam sua vida completamente diferente da cotidiana na cidade.

A relação entre uma pessoa e a sua terra de origem é muito particular: existem pessoas para as quais não faz a menor diferença estar em seu lugar de origem ou não, enquanto outras têm um forte vínculo com a terra natal.

Ser ou não ser fiel a terra? Preservá-la ou não? Quebrar ou fortalecer vínculos com o seu local de origem? A terra também protesta? Ela se recusa a receber certos segredos e mentiras?

[1]Em seus contos e romances, Mia Couto grafa sempre os diálogos com uma fonte destacada, não só para distingui-los no corpo do texto, mas também para dar relevo à palavra falada – afinal, é no mundo da oralidade que Mia Couto recolhe as tradições africanas que deseja ver preservadas. (SILVA, 2008, p. 315).

[2] Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.

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