[ENTREVISTA] A VITÓRIA DA VONTADE DE ELISA AUGUSTA DE ANDRADE FARINA: A ESCRITORA E SEU TEMPO

Por Leandro Bertoldo Silva

“Você já foi à Bahia, nêga? Não? Então vá!”

Assim perguntou Dorival Caymmi, inspirando, posteriormente, Lenine em sua emblemática canção Lá e Cá. E é parafraseando esses dois ícones da música popular brasileira que eu inicio este artigo-entrevista, perguntando:

Você conhece Elisa Augusta de Andrade Farina? Não? Então conheça…

Elisa Augusta… A menina da Fazenda Tabatinga, em Teófilo Otoni, Minas Gerais, que aprendeu a magia de juntar palavras e sonhava em ser ouvida…

A mulher que tem na escrita o seu oxigênio e alimento…

A escritora que aprendeu com Clarice, Cecília, Adélia, Rachel, a essência de ser mulher das letras e dar voz à luta compartilhada e nunca dissociada de gêneros…

A menina, mulher, escritora que é hoje a Presidente da Academia de Letras da cidade onde nasceu, mostrando que os sonhos é o caminho da construção…

Foi sobre essas vertentes e verdades, entre poesias e memórias, lembranças e sonhos – sempre filtrados por um profundo senso de carinho nas palavras e no trato com elas – que Elisa Augusta de Andrade Farina nos falou nesta entrevista à Árvore das Letras.

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Árvore das Letras:   Quem é Elisa Augusta de Andrade Farina?

Elisa Augusta de Andrade Farina:   Nasci em Teófilo Otoni. Sou a quarta filha de dez irmãos. Tive uma infância feliz e cheia de peripécias, a maior parte dela vivida no campo, entre brincadeira e muito exemplo de trabalho e disciplina. Até os sete anos, morei na Fazenda Tabatinga, lá pras bandas de Valão. Depois mudei para Teófilo Otoni onde fui alfabetizada aos 8 anos no Grupo Escolar Teófilo Otoni. Sempre estudei em escola pública, do ginásio ao clássico, no Colégio Estadual Alfredo Sá. Prestei vestibular na UFMG, graduando-me em Filosofia. Morei em Belo Horizonte até 1999, retornando a Teófilo Otoni até os dias de hoje.

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AL:   Você sempre teve inclinação para a escrita? Fale um pouco da sua trajetória até chegar à presidência da Academia de Letras de Teófilo Otoni.

EAAF:   A maior conquista da minha vida foi quando consegui juntar sílabas e formar palavras. Foi mágico e essa magia se arrasta até hoje. Sinto um prazer incrível em produzir conhecimento, seja através dos meus escritos ou histórias que eu conto. A minha trajetória cultural não foi fácil… Tudo que conquistei foi com muito empenho e esforço. Sempre acreditei que um dia eu seria ouvida, que as minhas ideologias seriam respeitadas e serviriam de influência para aqueles que gostam das palavras. Ser membra da Academia de Letras de Teófilo Otoni foi a realização de um sonho que sempre acalentei, e acreditava bem distante da minha realidade. Quando surgiu a oportunidade de criar uma Academia de Letras, trabalhei arduamente, juntamente com alguns companheiros de sonho para a sua concretização. Sou membra fundadora da ALTO. O amor, compromisso e dedicação foram as molas propulsoras para a minha conquista à presidência dessa ilibada Instituição Cultural. Como bem disse Clarice Lispector: “Ainda bem que sempre existe outro dia. E outros sonhos. E outras pessoas. E outras coisas.”

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AL:   Para você, qual a responsabilidade do escritor diante da realidade presente do país? O que a preocupa?

EAAF:   Como disse anteriormente, nós escritores fomentamos ideologias, que podem ser acatadas ou refutadas de acordo com o interesse daqueles que estão sendo formados. O Brasil de hoje é muito complicado de se analisar sobre o ponto de vista do conhecimento ideológico, social e político. O nosso papel como formadores de opinião é de suma importância. Podemos escolher o que semear, mas somos obrigados a colher aquilo que plantamos. Temos que ter a consciência de que não podemos perder o foco dos valores que servem para humanizar uma sociedade narcísica e consumista.

AL:   Essa atitude de falar sobre questões do seu tempo, remonta ao Romantismo. Castro Alves fazia isso ao proclamar a respeito da liberdade dos escravos, o que demonstra uma participação social muito grande do escritor. Você acha que o escritor de hoje está omisso?

EAAF:   O tempo vivenciado acarreta consigo implicações na vida intelectual de um povo. A vida transforma as palavras e as palavras transformam o mundo. E no centro dessas transformações estão os escritores, esses artífices da linguagem que, em acaloradas discussões, descobrem identidades e diferenças, unem-se em grupos e criam então os chamados movimentos literários. Dessa forma, sempre estão atuando, não importa se no passado ou na atualidade sempre encontram uma maneira de se expressarem disseminando, assim, as mais diversas formas de expressão e ações conscientes.

AL:   Historicamente, o número de escritores sempre foi maior do que o número de escritoras, embora todas as pesquisas mostram que o número de leitoras é muito maior que o número de leitores. Como você enxerga a linguagem feminina na literatura brasileira hoje?

EAAF:   Em uma sociedade machista, a mulher sempre terá que lutar para conseguir alcançar a sua meta, não importando em que área atue. Na literatura não foi diferente. Somente no século XX que o povo viu surgir as grandes escritoras. Graças a elas, muitas mulheres hoje podem escrever seus veros, seus sonhos e seus livros sem serem julgadas injustamente. As estatísticas comprovam que existem mais leitoras que leitores e a única explicação plausível é o fato de a mulher estar mais propensa a mudar seu estilo de vida e estar mais aberta para ideias novas.

AL:   No seu livro ANTES DE TUDO, MULHER, você diz que “ser mulher é, antes de tudo, uma visão que envolve todas numa luta tão própria do sexo feminino”. Que luta é essa? É possível mensurá-la?

EAAF:   Esse livro nasceu da minha experiência ideológica de enfrentamento ante a posição de inferioridade intelectual da mulher e sua luta de coibir essa defasagem. Mostro, de forma poética, que essa luta pode ser compartilhada sem distinção de gênero através do amor, companheirismo e, acima de tudo, do respeito.

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AL:   Você também escreveu o livro infantil REINO FELIZ. Como foi a experiência de escrever para criança? O que a motivou?

EAAF:   Sempre sonhei com um mundo melhor e priorizei a imaginação como forma de minimizar o sofrimento e a injustiça. Por que não caminhar pelas veredas da magia e da criatividade como forma de educação e do resgate literário? Foi gratificante a minha experiência porque “podemos escolher o que semear, mas somos obrigados a colher aquilo que plantamos”, e o produto que colhi foi edificante e me move a investir na área literária infantil.

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AL:   Escrever é algo diferente para cada escritor/escritora. Para alguns, curiosamente, é árduo, insano, torturante; para outros é altamente prazeroso. Para você, como é? Por que você escreve?

EAAF:   Sempre amei escrever, faz parte do meu dia a dia. Através das letras, vou construindo um mundo mais justo, com mais ética e humanidade. Sinto a vida, vejo as pessoas e as formas… A magia se instaura e o amor explode de todas as formas detalhando toda a diferença. Escrever é o meu oxigênio, meu alimento, minha força, meu refúgio…

AL:   A tecnologia ajudou muito o surgimento de novos escritores e escritoras. Muitos jovens estão indo por esse caminho, o que é bom, porque nunca se escreveu tanto como agora. Um dos caminhos utilizados por eles são aplicativos e redes sociais, como o wattpad, onde o usuário pode publicar histórias, contos, romances e poemas online. Porém, curiosamente, o número de escritores cresce proporcionalmente ao número de não leitores, ou seja, estamos vivendo uma geração de contrastes, onde quem deveria ler cada vez mais para escrever, está lendo cada vez menos. Especialistas chegaram a dizer que se as pessoas lessem apenas um terço do que deveriam para escrever, estaria resolvido o problema do mercado editorial brasileiro. O que você tem a dizer sobre isso? Você também acha que para escrever bem é preciso ser um bom leitor, ou uma coisa não tem nada a ver com a outra?

EAAF:   A tecnologia é uma realidade irrefutável. Temos que ter em mente de que ela nos favorece se usada corretamente. Estamos num mundo mediático, vivemos uma relação de aldeia global. Tudo é exposto, natural… Mas para escrever dentro dos preceitos gramaticais e cultos temos que ler os clássicos, até mesmo como forma de analisar a época que foi vivenciada e sua influência na ideologia expressada. Não quero dizer que temos que abandonar as formas literárias populares como a de cordel, contações de histórias, quadrinhos. O respeito por essas formas literárias tão prazerosas e ricas de conteúdos é fundamental num país como o nosso tão diversificado e multifacetado.

AL:   Mia Couto, um escritor moçambicano, diz que os escritores nascem de outros escritores. Isso nos leva a crer em pais escritores e mães escritoras. Quem são os seus pais literários?

EAAF:   Eu tive uma formação acadêmica clássica. Bebi, em várias fontes, as águas do conhecimento. É claro que sofri influência literária de Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Adélia Prado, Cora Coralina, Cecília Meireles, dentre outras. Emergi-me nos seus ditos, absorvi os seus versos numa troca de mulher para mulher. A minha vida literária sofreu influências diversas: dos filósofos que tive que estudar e entender, perpassando por todas as Escolas Literárias até os dias atuais. Cada autor que lia era uma paixão que se tornava amor e me levava a produzir e a sonhar no mergulho da imaginação.

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AL:   Num mundo tão degradado por consumismos desenfreados, qual seria a importância, ou a função, ou o sentido da literatura, da poesia, da narrativa?

EAAF:   A sua função primordial seria de humanização. Estamos em um mundo de consumo exacerbado, em que o ser humano se coisificou. Precisamos da poesia como forma de minimizar essa triste realidade que é expressa a todo o momento, daquilo que vemos, sentimos e nunca vamos entender.

AL:   Vivemos num tempo em que parece que as pessoas buscam o tempo todo a perfeição: o corpo perfeito, o trabalho perfeito, a casa perfeita… Como você lida com o erro?

EAAF:   Apesar da sensibilidade humana de oposição ao erro e ao mal, na verdade não podemos dizer que o homem se incline naturalmente a assumir uma posição de luta contra os erros. A luta pela verdade deve ser positiva. E deve ser verdadeira, isto é, inteligente. A inteligência é a faculdade de aprender o real. O real é concreto, é singular. Devemos, portanto, realizar o esforço de apreender e circunscrever o caso particular. Se existem erros, na ordem prática é necessário cuidar dos que erram. E quem somos nós, em nossas deficiências, para pontuar erros e mais erros? Se os mesmos sempre foram relativizados? E a perfeição é uma questão de visão? E se estivermos míopes? Eis a questão…

AL:   O que é memória para você e quais são as suas memórias?

EAAF:   Em consonância com o dicionário Aurélio, memória é a faculdade de reter as ideias, impressões e conhecimentos adquiridos. Um povo sem memória não constrói sua história. A mesma é uma prática social, construída na vida real por homens e mulheres. As minhas memórias são constituídas por reminiscências alegres ou tristes que fizeram e fazem parte da minha vida. São tantas as minhas memórias que estou estruturando-as e em breve serão apresentadas num livro que será lançado este ano, aguardem…

AL:   Do que você tem saudade?

EAAF:   Tenho saudade dos tempos idos da minha vida, dos momentos que se perderam, quer por fragilidade ou desconhecimento de fazer uma leitura de que a felicidade preenchia todas as lacunas que eu pensava estarem vazias… Tenho saudade do aconchego de colo de mãe, do amor que, como chama, queimava dando-me forças para buscar o desconhecido… Ah, são tantas… Se fosse enumerá-las dariam páginas e páginas perdidas no tempo…

AL:   Nesse mundo de hoje, você acha que ainda há lugar para os sonhos?

EAAF:   Sim. Sem os sonhos não construímos. Se pararmos de sonhar nos perdemos em nós mesmos.

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Gostou de conhecer a escritora Elisa Augusta de Andrade Farina? Então comente, compartilhe essa entrevista e ajude a divulgar os seus livros, a sua história, as suas ideias. Principalmente você, professora, diretora de escola, coordenadora pedagógica, construa uma relação de proximidade entre escritores contemporâneos e seus alunos, dê a eles a oportunidade do encontro. Como muito bem disse Elisa: “A magia se instaura e o amor explode de todas as formas detalhando toda a diferença..”

Leve um escritor, uma escritora em sua sala de aula e verá essa magia acontecer…

Obrigado, Elisa!

5 comentários em “[ENTREVISTA] A VITÓRIA DA VONTADE DE ELISA AUGUSTA DE ANDRADE FARINA: A ESCRITORA E SEU TEMPO”

  1. Elisa,
    Linda a sua história…lindas foram as suas palavras….
    Parabéns, Árvore das Letras, pelas maravilhosas perguntas e por incentivar a leitura, por dar às pessoas a oportunidade de estar em contato com o escritor..
    Que .privilégio para aqueles q convivem com uma pessoa tão culta e que tanto bem pode trazer e sei que traz à sociedade…muito sucesso na sua carreira…
    Parabéns, Árvore das Letras, pelo trabalho maravilhoso que executa aí na sua cidade.
    Abraços!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Leandro,você É realmente uma pessoa que nos faz sentirmos úteis, através do que produzimos intelectualmente,pois vc com sua sábia condução de buscar nas entrelinhas a captação das ideias nos faz ter a sensação de que estamos produzindo cultura e isso É muito bom e eleva a auto estima. Obrigada amigo.

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