O CORVO

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Por Rafaela Caires

O célebre poema O Corvo, de Edgar Allan Poe, teve releituras escritas em diversos países e por diversos escritores renomados, entre eles Machado de Assis e Fernando Pessoa. Pois uma ex-aluna da Árvore das Letras, e agora colaboradora do blog – Rafaela Caires –, nos brinda com sua releitura cheia de alto teor poético de quem sabe o que escreve. Confiram!

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Em certa noite gélida, solitária e sombria do mês de Dezembro, estava a ler alguns artigos sobre doutrinas de tempos transcorridos. Exausto, o sono estava quase a exercer total domínio sobre mim. Foi quando, subitamente, identifiquei um efeito sonoro que aparentemente representava alguém a bater sobre a minha porta, vagarosamente. Para mim era apenas isso e nada mais.

O ruído misterioso trouxe-me a imaginação de sombras fantasmais e, ainda, a lembrança de minha bela amada, que vivia nos céus e lá recebera o nome de Lenora, mas que nome aqui já não tem mais.

Manifestado pelo medo, imaginava mentalmente consistir em uma simples visita que solicitava abrigo em minha casa. Era apenas isso e nada mais.

Decidi praticar a ação de abrir a porta, mas antes disso, solicitei as desculpas do senhor ou senhora que lá fora estava, pois mal havia identificado as suas suaves batidas à porta. Mas ao observar a parte exterior do local, fui surpreendido pela escuridão da noite e nada mais.

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Inicialmente, considerei aquela noite um verídico sinônimo de trevas, um medo cada vez mais agudo que exercia um controle sobre o meu ser. Naquele momento, apenas um nome ouvi: “Lenora”. Posteriormente, o eco repetiu-o também. Em seguida, silêncio e nada mais.

Retornei ao meu quarto e o ruído recomeçou ainda mais forte. Deduzi que estivesse na minha janela, pesquisei e constatei ser apenas o vento e nada mais.

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Abri a janela e eis que, em desordem, um Corvo de eras ancestrais penetrou àquele ambiente. Sem notar meu susto, pousou sobre o busto de uma escultura de Minerva. Conservou-se ali, naquela região elevada e nada mais.

Ao observar a estranha e escura ave, obtive para mim um leve riso diante de toda a minha melancolia. Solicitei-lhe que não sentisse medo e pronunciasse o nome que apresentava nos ambientes infernais. E o Corvo disse: “Nunca mais”.

Maravilhou-me ter presenciado o claro pronunciamento de uma ave. Certamente, nenhum outro alguém já experimentou surpresa igual: a de encontrar uma ave em sua porta, com o nome de “Nunca mais”.

Além dessa frase, nada mais dissera. Encontrava-se ali inerte, enquanto a mágoa consumia-me lentamente. Certamente, assim como a esperança, ele iria embora. E disse o Corvo: “Nunca mais”.

Expressava repetidamente esta mesma frase. Deduzi que a tivesse aprendido através de um suposto dono que lhe gerou grande sofrimento. Sempre em posse da intensa repetição de: “Nunca, nunca, nunca mais”

A ave ainda obtinha o êxito de fazer-me sorrir, mesmo diante daquela intensa amargura. Girei-me sobre uma poltrona e de frente para ela, passei a questionar o seu secreto fim, o que realmente pretendia ao gritar sempre: “Nunca mais”.

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Com o olhar fixo sobre mim, insistia em aplicar distintas deduções sobre a missão da ave à minha frente. Descansava-me sobre a almofada da poltrona de veludo e adormecia suavemente. Mas não repousaria, “Nunca mais”.

Repentinamente, o ar adotou um estado pacífico, perfumado, supliquei-lhe o esquecimento de Lenora; que levasse consigo essa mortífera lembrança.

Sem discernir o que verdadeiramente era, chamei-lhe de “Profeta” e questionei-o se veria Lenora no Éden da reencarnação. E o Corvo disse: “Nunca mais”.

Ordenei-o que partisse em direção de onde veio: à tempestade ou ao inferno; que levasse consigo todos os seus vestígios e retirasse de mim aquele sofrimento que estava a me consumir. E o Corvo disse: “Nunca mais”.

O Corvo junto a Lenora constituía a morte que veio com o intuito de buscar-me. Continuei a vê-lo para sempre. Aquela partícula que estava inclusa à sombra da minha alma, não me libertaria nunca mais!

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4 comentários em “O CORVO”

  1. Adorei os artigos! Realmente, a leitura é algo mágico, mas precisa ser prazerosa para que realmente faça o efeito desejado..
    Lendo os textos, fiquei pensando: como, sendo professora de uma escola particular, que cobra livros em provas, posso fazer diferente? Como não cobrar em prova os livros? Ainda temos muito o que aprender para ensinar….aprender a inovar, aprender a extrapolar e a não ter medo de buscar situações diferenciadas p trabalhar em sala de aula os livros adotados por nós…
    Parabéns, Leandro, pelo incentivo à leitura.. Pessoas como vc fazem a diferença! Abraços carinhosos

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    1. Obrigado, Conceição, pelo rico comentário! E que bom que você mesma respondeu ao questionamento (ou está a caminho) que assola a grande maioria dos professores… “aprender a inovar, aprender a extrapolar e a não ter medo de buscar situações diferenciadas para trabalhar em sala de aula…”
      Não vejo outro caminho… Uma vez, li com meus alunos o livro Manoo Tattoo, de Angélica Lopes (recomendadíssimo!), que conta a história de Manu, que vive conflitos adolescentes até conhecer um garoto chamado Lúcio e um mundo novo: o da grafitagem… Dividi a turma em grupos no mesmo número de capítulos do livro e pedi que cada grupo contasse o seu capítulo, porém não poderiam usar a fala, e sim o “desenho”, ou seja, o grafite. Como a escola era pequena e não tinha espaço suficiente para grafitar o muro, pedi que eles desenhassem em faixas de pano (americano cru), de 5mx2m. Essas faixas foram estendidas pela escola e no dia da apresentação, todas as turmas foram chamadas ao pátio para que os alunos contassem a história pelos desenhos. Claro que, para todos entenderem, tinha que haver uma harmonia entre todos os desenhos, que só foi possível mediante a leitura de todo o livro por parte de todas as turmas… Foi simplesmente MAGNÍFICO. E, no final, foi colocada uma última faixa de mesmo tamanho no chão, limpa, com garrafas de tinta para eles pintarem, na hora, a lição que o livro trouxe a eles ao som de música. Foi possível avaliar a leitura de cada um sem ter que recorrer a uma linha sequer de prova escrita. O melhor de tudo isso foi ver o total envolvimento de cada um com a livro. Acho que é isso que esperam de nós. E para isso, é preciso coragem para arriscar, para errar, enfim.

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  2. Amei as leituras, as 10 dicas. O corvo me assustou kkk , porém, nos leva a reflexão em relação os corvos que rodeia a sociedade nas suas mais diversas estrategias .

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