PENSANDO BEM, QUE MAL TEM?

Por Leandro Bertoldo Silva

Sabe aquelas histórias bem curtinhas que faz a gente até pensar que é mentira? Pois é… Aqui vai uma!

Ah, eu me lembro, eu me lembro… Foi um alvoroço naquela cidadezinha. Nunca havia acontecido um assalto, umsinho sequer para contar história. E olha que história era o que mais existia no meio daquela gente.

Mas naquela noite o falatório foi geral. Logo que o sacristão abriu a igreja para a missa das oito, alguém gritou: Cadê o Santo Antônio? Virgem Maria! O São Pedro também sumiu! E lá se foi o São João! Socorro, Ave Maria! Foi você, Marinalva? Me respeita, seu Batista! Foi a Emengarda! Queria se casar, levou o Santo Antônio e os outros pra padrinho.

E agora, São José?

No meio de toda aquela agitação um risinho se ouviu. Para espanto de todo mundo, descia em azul do manto de Nossa Senhora a própria Santa a mirar com um doce olhar o rosto de cada um.

— Como disse o poeta: “não entendo essa gente, seu moço, fazendo alvoroço demais…” É festa junina, ora essa! Santo não tira férias, mas também pode brincar, ou não pode?

Ao dizer isso, apontou para a praça da cidade toda enfeitada com bandeirolas coloridas, barraquinhas e até pau de sebo. Lá, bem no meio, estavam eles.

Que aquarela!

Quando oiei a fogueira,
Antônio, João e Pedro
brincavam nela…

Porque razão não há de poder os Santos pularem as suas fogueiras?

É, pensando bem, não faz mal para ninguém.

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Essa é uma história despretensiosa, de um passeio despretensioso pela cidade onde moro. Ao passar pela praça enfeitada para as festividades juninas que gosto muito, vejo uma grande fogueira. Ao olhar para a Igreja penso nos Santos lá dentro loucos para virem pra fora… Por que não?

Forte abraço!
Até a próxima.

MORTE-TEMPO-VIDA

Por Fabiene Lemos*

A morte nos leva a um questionamento idiossincrático. Toda a nossa má-fé de não querer ver a realidade carregada de limitações humanas é, simplesmente, evaporada. O clima fúnebre que compadece os corações das pessoas em tempos de luto as faz solenes mesmo que durante frações de segundos. São instantes longos e angustiantes de percepção que a finitude é irrevogável. Não há sofisma ou eufemismo que maquie o inevitável fato que a morte é a única certeza absoluta da vida.

A frieza, o cinza, a melancolia, os silêncios ensurdecedores e os gritos de súplica demonstram o mais próximo de total autenticidade humana, num cenário de despedida eterna. O fim. O acabou. Já não existe mais tempo. O último grão de areia da ampulheta da vida caiu. Esvaiu-se todo o sopro de vida. Uma segunda chance? Teria feito algo diferente? Talvez outras escolhas, outras histórias, outras vivências…?

A vida para alguns consiste como um doce delicioso que é preciso apreciar com todo o deleite porque ela é finita, para outros é uma tortura interminável que se assemelha mais com o fel. A dicotomia finaliza com a morte. Pelo menos para a cultura ocidental a morte apresenta significações trágicas que simbolizam perdas. A consciência presente manifesta um sentimento nostálgico precoce e um certo ardor na alma das infinitas possibilidades que já não existem mais.

O homem sofre narcisicamente toda vez que a vida lhe mostra, estupidamente, que na verdade: ele não controla tudo e tampouco tem o poder sobre tudo. O segundo maior inimigo das pessoas depois da morte é o tempo, que quase nunca está a favor. Ele é muito mais traiçoeiro para as pessoas que amam.  O que fica evidente ou pelo menos deveria ficar: estar no passado é uma corrente ilusória que impossibilita as pessoas de vi(verem) o presente. Enquanto o presente converte-se numa passagem rápida, sem perceber, sem contemplar todos os presentes e raros momentos que nunca irão se retornar.

Os presentes que a vida pode oferecer se decorre em poder estar e testemunhar a sorte de viver. De amar e ser amado. De errar e poder corrigir o erro. De pedir perdão, de perdoar e de se perdoar. De não desperdiçar a chance única de viver. De não cometer o azar de morrer em vida. Mas é só um talvez. Só se pode morrer porque está vivo. Mas há alguns mortos por aí que respiram. Tudo depende da consciência do sujeito e das suas incongruências humanas. Se por um acaso, morre-se no seu âmago toda a satisfação de se redescobrir e de ser resiliente (arte fênix exigida pela vida para exercer recomeços). Então, se trata de um defunto andante que necessita urgentemente de um sopro de vida.

Perdoar ainda se apresenta como uma ação subestimada frente à qualidade da saúde mental. Mágoas são âncoras muito pesadas que limitam as pessoas à transcendência. Ninguém consegue progredir, completamente, se estiver preso em construções passadas regidas por sentimentos negativos. Certamente, é muita energia investida em se manter preso pelo NÃO do perdão e pelo SIM do orgulho.

No entanto, ainda pode haver mais complexidade no ato em decidir se auto perdoar. Pois isso implica em reconhecimento de fraquezas e limitações. Somos seres em constância mutabilidade. Não somos sempre os mesmos e, portanto, não somos nossos erros. Os erros fazem parte de uma jornada de aprendizagem chamada: VIDA. E talvez por isso, exercer o perdão seja a forma mais compatível de demonstrar amadurecimento e evolução intrapessoal.

 O mais cômico, porém com pouca graça, constitui na infeliz sem lógica do sujeito só se perceber vivo e sem tempo quando está diante da morte conceitual – finalização absoluta da esperança, do oxigênio e da realidade presente. Um resgate? Uma segunda oportunidade? Ahhhh! O tempo! O traiçoeiro tempo.

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Fabiene Lemos é psicóloga na abordagem Existencial Humanista e colaboradora da Árvore das Letras.

Quarta Literária é uma ação de fomento à literatura independente.

Participe da Vivência Novos Autores, um encontro on-line semanal de leitura e produção literária. Saiba mais AQUI.

PESSOAS NA PESSOA

Por Leandro Bertoldo Silva

Era o mesmo ritual todas as manhãs. Ao acordar e logo depois do desjejum, se preparava para ir à biblioteca. Lá o recebia o bibliotecário com um olhar inquiridor como se esperasse sempre outra pessoa.

— O que vai ser hoje, Seu…

Nunca terminava a frase. Já se passavam meses e não lhe sabia o nome.

Seu… estranhava esse comportamento e essa maneira de ser recebido como se fosse sempre outro alguém. Com o tempo passou a compreender o homem, pois a cada dia sentia-se diferente. Passou a olhar-se no espelho e a cada vez era como se sua imagem se desfocasse antes de se firmar quase imperceptivelmente alterada. Não era apenas uma ruga a denunciar a passagem do tempo ou outro indício físico a marcar-lhe mudanças, mas algo a metamorfosear os sentidos e desejos da natureza de sua alma.

Gostos culinários se alternavam, certezas e convicções desmoronavam e transfiguravam em outras antes rejeitadas. Os cabelos outrora partidos ao meio ganhavam dia a dia um penteado inédito. É como se já não tivesse filosofias, tivesse sentidos… Tudo transformava, menos o gosto pela poesia.

As mudanças se sucediam e o bibliotecário já não sabia quem recebia, embora nunca o soubera. Um dia, Seu… ao devolver um dos livros tomado por empréstimo deixou esquecido dentro dele um papel escrito à lápis- nunca usava canetas -, onde se lia:

Um certo poeta
sempre viverá em mim.
Ou melhor, em mins…

Abaixo dos versos estava escrito um nome:

Bernardo Soares.

Descobrira enfim.

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A poesia sempre nos transporta para outros lugares, muitos deles versões de nós mesmos… Quais são as suas?

Forte abraço!
Até a próxima.

O QUE FAZ ANDAR A ESTRADA?

Por Leandro Bertoldo Silva

Quem me conhece sabe: há tempos digo que a literatura de nossos irmãos africanos (e a África são muitas) é uma das vozes mais marcantes da contemporaneidade. Escritores como Pepetela, Luandino Vieira, Mia Couto, Paulina Chiziane e tantos outros, assim como Mangel Faria, Tomé Nassapulo, Antônio Alexandre, Kafala Tibah que integram hoje a minha irmandade literária na Árvore das Letras, tornaram-se meus pais e mães de referência do que mais belo é produzido em nossas letras e em nossa língua portuguesa. Ter uma crônica minha — Crônica Testamento — publicada no Jornal Pungu Ndongo, de Angola, é mais do que uma alegria, é a felicidade de uma certeza que eu, quando criança, tinha ao sonhar em ser escritor e lia de cima do pé de ameixa os meus primeiros livros. Nascia ali, entre galhos e frutos, a minha caminhada na vida.

Não por acaso tenho para mim uma frase de Mia Couto:

“O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar, a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro”.

E aqui estou eu neste caminho irmanado com tantos amigos e amigas das letras ao fazer da literatura a minha casa, ao abrir as suas portas e voar para além-mar, como também trazer para cá o melhor que existe lá.

Que essas estradas frutifiquem; construamos pontes ao invés de muros e façamos da literatura um único lugar sem fronteiras e distâncias, porque o que está longe se torna perto na descoberta do olhar.

Sigamos.

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Deixo aqui o meu agradecimento coletivo a Mangel Faria, António Alexandre, Tomé Nassapulo, Kafala Tibah e todos e todas irmãs e irmãos de África pela partilha e pelo convívio que estamos a construir semanalmente, não apenas pelas publicações, mas pela Vivência Novos Autores, onde, juntos fazemos a literatura frutificar.

Para quem deseja saber mais a respeito da Vivência Novos Autores e de como participar dessa construção literária, é só clicar AQUI.

Sejam todos bem-vindos e bem-vindas.

A TRAVESSIA DA VIDA

Por Elisa Augusta de Andrade Farina*

Certa vez, estive a pensar na vida e nas suas suscetibilidades. Imaginei-a como um romance repleto de suspense, até que se vire a página. Cada dia é uma página nova e diferente com surpresas despropositadas…

Nunca se sabe o que virá até que você se surpreende com a realidade que salta aos seus olhos. Cada manhã na virada da página é o prazer de sentir-se dono de sua história. Você pode registrar alguma coisa maravilhosa ou não, depende do seu posicionamento frente aos empecilhos que terão de ser enfrentados ou contornados. Somos seres incompletos, estamos em constante  evolução. Nascemos indivíduos, mas a meta é alcançarmos a condição de pessoas. A travessia não é fácil. É preciso maturidade e desprendimento para abrir mão de muitas coisas, pessoas e até mesmo de sonhos. Ser o que somos demanda cuidado, já não é possível ser somente na solidão; necessitamos do encontro, pois a vida é feita desses embates…

Cabe a nós acreditarmos no valor da nossa potencialidade de desconsiderar pessoas que nos esmagam, que nos viciam e dos que pensam por nós, que nos roubam a nossa alegria e autonomia, fazendo-nos prisioneiros de nós mesmos. 

Devemos abrir as gaiolas que nos aprisionam e ganharmos os céus, num voo que nos leve aonde quisermos chegar.

Como toda “Maria”, batalhamos, temos forças e ainda fé na vida, mesmo que a dureza da existência queira nos tirar o direito de amar e sonhar.

Temos que perpassar todos os valores capazes de nos tornar pessoas melhores a cada virada de página do livro da vida. Só assim teremos a certeza de que alguma coisa maravilhosa pode acontecer em cada amanhecer da nossa existência.

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Elisa Augusta de Andrade Farina é escritora, presidente da Academia de Letras de Teófilo Otoni e integrante da turma Manoel de Barros da Vivência Novos autores.

Quarta Literária é uma ação da árvore das Letras de fomento à literatura independente.

Participe da Vivência Novos Autores, um encontro on-line semanal de leitura e produção literária. Saiba mais AQUI.

REGRESSO

Por Leandro Bertoldo Silva

Havia ficado estéril de prazeres. Há muito não sorria ao sol, nem à lua encontrava juras ou sequer nas estrelas se aninhava em sonhos. Todo ele era uma secura de pedra, sopro de poeira ao vento das lembranças.

Os anos passavam levando suas vontades. Era rio lavando as pedras sem ser a alegria das águas.

Assim permaneceu por longos anos até se esquecer na lembrança do tempo. Mas bastou um canto, um pio de pássaro ao ressoar com outros cantos e outros pássaros para tornar clara sua escuridão.

Na berma daquela estrada, onde tantas vezes se criançou, lá estavam eles a levá-lo pelas asas enquanto os primeiros raios do sol voltaram a brilhar sem ao menos saber o porquê.

Se ao descriançar não desejou saber o motivo, porque desejaria o reverso?

Fechou os olhos e sorriu quando o tempo se abriu. Junto com o que retornava veio o que faltava. Disse a si mesmo:

O dia amanhece
e o tempo floresce
sons de passarinhos.

Resplandeceu.

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Às vezes é preciso apenas um detalhe para voltarmos a nossa própria alma e nos encontrarmos… O personagem dessa história se encontrou no chamado dos pássaros. Onde você se encontra?

Um forte abraço.

Até a próxima.

CINCO PALAVRAS MÁGICAS

Po Kafala Tibah*

Elas doam uma aurora ao deserto e plantam filosofia na rosa dos ventos o canto do rio, sobre rios que percorrem parados a infinitude dos limites do imaginário imortal. São vocábulos escolhidos nos dedos da mão suada que fazem convergir à harmonia dos sentidos nas palavras de amor que nutrem pelas pessoas que são como o vento que não para de soprar para o norte de tudo.

Sabor latino e gelatinoso brota emoções, quem sabe até sentimentos transportando gente desejando todo bem a quem se vê. O vento dança o norte de tudo que permanece vazio na descoberta vazia. Num sabor de emoções latinas?… Sentimentos de gente, a quem se não viu aquela ânsia ou abraço amigo; nem a sombra de raiz nas palavras de amor que, nesse passar de anos sem mel, adormece na mente dos seres fatigados pela falsidade do pensar e da pobre mania de sonhar.

Pelos homens, alguém se esquece de amar; oferece carinho sem espinhos, numa estrada.

O amor de fé, alheio à sã consciência de Abraão, deu luz à íris uma estrada escrita para aqueles por quem se justificou uma troca fora da dimensão normal da compreensão humana…

Na justiça dum Príncipe herdeiro, gerou-se a graça. Quem tem Jesus desfruta a tranquilidade que caracteriza o brilho Céu.

Em um verdadeiro cristão, se pode sentir o equilíbrio de paz, fluindo na sua forma de ser.

Na vida cristã brilham estrelas que, pedagogicamente, doam uma nova dimensão de ver as coisas deste mundo. Mas se tomarmos a nova personalidade de Cristo Jesus.

A marca de sustentabilidade inquestionável na vida ideal será um feito com distinção espiritual. A pedagogia na vida profissional de um professor, oferece-lhe a água da vida de um mestre que faz crescer tudo que está baseado na didáctica das ciências que levam o homem ao sucesso, sabendo que a poesia, como sendo uma das formas mais antigas e populares de arte, de todos os tempos, está recheada de sabedoria.

Com a poesia nós criamos amor, sorrimos e fizemos pessoas sorrirem; ainda que haja quem possa, lacrimejar de olhos abertos e fechados, mesmo dentro do coração de uma mulher. A poesia dá o impulso aos homens despertando seu espírito e este cria sempre algo de valor baseados nos sentimentos e a imaginação criadora. A poesia de alguma forma inspira ou encanta qualquer ser humano, particularmente aqueles que navegam em nuvens azuis e brancas. É só para ver que a fala de uma mulher sempre tem poesia, seu corpo possui a estética que se apresentam em forma de palavras, seus seios possuem uma composição formal com versos estruturados de forma harmoniosa, mas os seus olhos são marcadamente poéticos e podem gerar sucesso.

Ter êxito, bom resultado é granjear sucesso. Quando temos um resultado feliz em algo que gostamos, o prazer de gostar alcança a temperatura adversa a do gelo formando bolhas e vapor de água. Sucessos sucessivos nas sucessivas projecções da pirâmide da vida se instalam no primeiro quadrante da vida, são saindo do positivismo do eixo das ordenadas no plano cartesiano da vida almejada.

Despertar sempre cedo transporta definir objectivos nosso tempo, reunir semanalmente com pessoas mais inteligentes que nós, perguntar “por que?”, para todo “não” faz-nos navegar sem internet no sucesso.

Pousarmos na autenticidade, sermos mais sociáveis, e se abrirmos bem as mãos de recompensas pequenas para alcançarmos as grandes, e se formos determinados e perseverantes, de mente aberta e se investirmos no nosso relacionamento amoroso o sucesso se alcançará sucessivamente com resultado mais infinito.

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* Kafala Tibah é pseudónimo literário de Moisés Kafala Neto, nasceu aos 05 de Dezemro de 1962 em Luanda, onde fez o ensino primário e secundário. É Licenciado em Ciências da Educação pelo ISCED (Instituto Superior de Ciências da Educação) de Luanda, na Opção de Ensino da Matemática. É Mestre em Infomática Educativa, Doutorado em Ciências Pedagógicas, é Perito Forense e foi funcionário sénior do extinto Ministério do Ensino Superior de Angola e também Presidente do Instituo Superior Politécnico Privado do Kilamba- ISPKILAMBA. Actualmente exerce a função de Vice-Presidente para a área Científica do Instituto Superior de Angola. 

É amante de literatura e membro da Brigada Jovem de Literatura de Angola, desde 1989. Tem participação de trabalhos em Revistas Científicas da América Latina e em antologias poéticas. Participou em eventos internacionais sobre a cultura, particularmente no “Fenacult”. Fala fluentemente português, espanhol e kimbundo.

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Quarta Literária é uma ação da árvore das Letras de fomento à literatura independente.

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ENVELHECER

Por Leandro Bertoldo Silva

O relógio soou naquela manhã diferente dos outros dias. Não pelo som, exatamente igual há tantos anos a se repetir metodicamente, mas na atmosfera daquele momento.

A sensação foi de não ter dormido, e sim de ter passado de um segundo a outro. Mal olhou para a janela escura pela noite lá de fora e, sem sequer mover um músculo e apenas piscar, o que era noite virou dia. Levou um tempo a entender tão brusca mudança na claridade do quarto. A sua volta, tudo igual: as mesmas dobras do lençol, a mesma posição das suas mãos ao tocarem de leve o travesseiro. Apenas a luz a revelar com evidência os objetos na penumbra de outrora.

 Como pôde?

Na verdade, só conseguiu entender quando, ao se levantar, o seu corpo, antes cheio de viço e elasticidade, mostrava-se agora mais enrijecido e calmo. As mãos de há pouco se apresentavam com algumas saliências de veias antes inexistentes. Ao olhar-se pelo espelho da parede, lembrou-se do retrato de Cecília, mas sem tristezas e amarguras por não dar-se às mudanças tão simples e certeiras. Havia envelhecido.

Em um brilho momentâneo tudo se assentou, assim mesmo calmo e sem excessos. Sentou-se à escrivaninha e em seu caderno de anotações curiosamente desgastado e com mais páginas preenchidas, acrescentou:

O envelhecer
é um suspiro do tempo
que descansa em mim.

E seguiu os seus dias.

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É incrível como a natureza nos ensina os caminhos da vida. A folha da imagem que ilustra essa pequena história havia acabado de se soltar em meio a tantas outras verdes e novas. Isso aconteceu no exato momento em que eu me sentei à sombra dos ramos que as sustentavam. A beleza desse acontecimento não deixou que eu o mantivesse apenas para mim…

Um forte abraço.

Até a próxima.

POR MUITOS OLHOS SOLARES

Por Patrícia Vaucher*

Hoje o dia está nublado. Mais um. Há pouco começou a chover fraquinho. Cedinho os helicópteros reiniciaram seus voos.

Recebi a ligação de uma amiga que mora longe. Preocupada com a situação, ela, cheia de dúvidas e indagações sobre a vida, questionou-me indiretamente sobre o bem e o mal. Não seria essa tragédia uma ação do bem para que a humanidade acorde? Resposta pra isso não tenho, mas percebo que esse evento está despertando muitas almas, a minha e a dela também!

Há dois dias bateu aqui em casa um casal de desabrigados. Vieram de Mathias Velho. Casa inundada, sem teto, duas filhas, muito medo e tristeza. Estão morando nas ruas. Aliás, numa avenida aqui perto em uma barraca. Tiveram uma experiência não muito boa num abrigo. Lutam por uma casa para retomarem suas vidas e abrigarem suas duas filhas que estão sob os cuidados de uma senhora. Foram avisados que terão que buscar as meninas hoje. Abrigo não querem. Têm a firmeza de quem muito lutou por seu lugar e não aceitam que as águas levem a força interior empregada no enorme esforço que fizeram na conquista de um terreno e uma casa humilde em Canoas. Com orgulho fincaram os pés no chão sem perder a esperança, na certeza de que conseguiriam a casinha alugada. A correnteza não os arrastou. Falta pouco pra conseguir o valor do aluguel, disseram-me na esperança de que eu o completasse. Perguntei sobre as habilidades deles. Faxina, pintura, fazemos qualquer coisa. Dei alguns alimentos e um celular que estava parado aqui. Retornaram para casa, digo, rua.

Em casa assistindo tanta tragédia pela TV, sentia a vontade de fazer algo para ajudar. Abrigos dispensaram-me, pois os voluntários são muitos. Penso que algo surgirá no tempo certo, porque as demandas após o “incêndio” serão numerosas. Pensei então que esse casal talvez seja uma boa oportunidade de fazer minha parte. Eles não sabem, mas dou uma monitorada neles diariamente passando de carro em frente à barraca que montaram em plena avenida. Pensei muito neles, vontade de abrigá-los, dar trabalho, esperança. Pedi que me dessem o número do celular quando conseguissem um número para o aparelho que entreguei.

Tive notícias hoje. Eles vieram aqui desesperados com a situação das filhas. Têm que buscá-las até as 13 horas. Entendi tanta aflição quando me perguntaram várias vezes as horas por volta das 10:45. Vieram pedir socorro. Precisam completar o tal valor do aluguel. Combinamos que me pagariam amanhã com serviço doméstico o valor que precisam agora. Mas, não resolvo sozinha. Pedi um momento para conversar com meu marido sobre isso. Retornei com a resposta e, olhando aquelas faces acinzentadas pela dor vi um brilho iluminando os olhos como se o sol tivesse aparecido subitamente por de trás das nuvens quando disse:

— Vou confiar em vocês!

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Patrícia Vaucher é escritora, Bacharel em Administração de Empresas, pós graduada em Arteterapia e  em  Psicologia Analítica. Facilitadora de Soulcollage. Trabalhou com cerâmica artística por mais de vinte anos em atelier próprio.  Conduz grupos de mulheres através do trabalho terapêutico com argila e Soulcollage. Pesquisa o Feminino na individuação e sua influência no processo de ampliação da consciência. Reside em Porto Alegre/RS.

Um forte abraço.

Até a próxima.

MUITO ALÉM DA COSTURA

Por Leandro Bertoldo Silva

Existem alguns “bichinhos” a picar a gente, mas, diferente daqueles a nos fazerem mal, esses fazem bem. Estou a falar de um deles: o bichinho da encadernação.

Desde criança, ao passar pela adolescência e até hoje em minha fase adulta sempre gostei de cadernos.

Lembro-me de um caderno brochura, capa de papel onde tinha um desenho de um tucano em meio a folhagens coloridas. Eu tinha 7 anos. Esse caderno ficava no guarda-roupa da minha avó e era onde ela anotava números de telefones. Nunca a imagem desse caderno saiu da minha cabeça. Adorava folheá-lo e admirar a capa.

O tempo passou e até hoje difícil é entrar em uma papelaria e não sair com um Caderno e muitas canetas…

Bem, as canetas continuam, mas os cadernos amenizaram um pouco o bolso (rsrsrs) a partir do momento que passei a confeccioná-los, daí o bichinho a me picar. O interessante desse contágio do bem é que os sintomas só aumentam e cada vez mais cadernos aparecem e fazem parte do repertório da alquimia da confecção. Sim, alquimia! O organizar os materiais, como linhas, agulhas, papéis, papelão, suvelas, réguas, estiletes, berço de furação, e tantos outros apetrechos, vê-los ali dispostos e já imaginar o caderno feito, é uma prática mística para mim ao florescer, como na Idade Média, arte, ciência e magia. Sem contar que um dos principais objetivos dela é obter o elixir da vida, a fim de garantir a imortalidade. E o que é um caderno se não um lugar para se eternizar através das palavras e desenhos? Não por acaso, gosto de deixar claro: não faço cadernos; faço, antes, suportes de sonhos.

Como tudo evolui, sigo a aprimorar essa artesania e a cada dia busco aprender uma costura nova, um ponto diferente.

Para mim, o mais encantador na encadernação artesanal é ela ir muito além da costura. Existem histórias contadas por trás de cada ponto. Eu, como escritor, prezo sempre pela arte de uma boa história e a junção de tudo isso me levou à apaixonante costura copta, uma técnica combinada de beleza, elegância, versatilidade e uma tradição milenar ao resgatar a riquíssima cultura egípcia associando-a à contemporaneidade.

A costura copta ganhou esse nome por ter sido criada pelo povo Copta, uma antiga civilização cristã no antigo Egito, com a finalidade de montar os primeiros evangelhos bíblicos. Era preciso deixar as folhas presas, porém com flexibilidade para a obra ser lida com facilidade por muitos anos. Nasce, assim, uma técnica hoje vista como uma das artes mais elegantes da encadernação. Rústica, ao mesmo tempo clássica, milenar sem nunca perder a originalidade, essa forma de costura possibilita o caderno abrir 360 graus. Não há colagem, as capas são presas nos cadernos em linha trançada e deixa o visual parecido com o de correntes.

Encadernação sofisticada atravessou os tempos e hoje existe como profunda expressão artística, tamanha a variedade de cores e estilos.

Fazer cadernos é ser uma espécie de construtor de alicerces, onde histórias são edificadas; fazer um caderno já possuidor delas é preservar memórias. Quando as duas coisas se juntam, algo de muita grandeza realmente acontece.

Essa é a razão principal de um caderno existir. Por mais que a tecnologia modernizou a escrita, os cadernos acolhem sentimentos, paixões, amores, dores, sabores de uma maneira a fazer da alma de quem escreve uma certeza de ser.

Receitas, poesias, reminiscências, orações… São tantas palavras a se fazerem presentes nas folhas de papel, onde a linha e a agulha fazem um apólogo diferente ao se entenderem construtoras da eternidade.

Sejamos, pois, visionários. Tenha um caderno, encontre o seu lápis e escreva a sua história no mundo.

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A Árvore das Letras está sempre presente em eventos literários e feiras de artesanato com uma grande variedade de cadernos e livros. Também mantemos atendimentos de demanda e encomendas, além de encontros e oficinas. Entre em contato, conheça nossos trabalhos.

Um forte abraço.

Até a próxima.