ENTRE O ONTEM E O HOJE: UMA AMIZADE ATRAVESSADA PELO TEMPO

Por Leandro Bertoldo Silva

Bem ao estilo de “Meia Noite em Paris”, fiz uma viagem ao Rio de Janeiro do século XIX, onde encontrei o autor de umas certas Memórias Póstumas.

A atração fraternal foi imediata como podem perceber. Se bem que da minha parte esse sentimento já existia, mas vindo dele foi, sem dúvida, o maior presente já recebido.

 Senti-me lisonjeado, não menos surpreendido com o pedido que me fez. Talvez mais amedrontado que surpreendido, mas vá lá! Como negar? Não neguei. Qual é esse pedido ainda não posso dizer, mas prometo revelar assim que receber dele a devida autorização. Ora, calma! Não seja impaciente, não vai demorar.

Até lá, relembremos um pouco da vida e trajetória deste meu amigo, para mim o maior escritor de todos os tempos, século após século, do Brasil e do mundo: Joaquim Maria MACHADO DE ASSIS.

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Imagine um garoto mulato, pobre, gago e epilético, filho de pai pintor e mãe lavadeira num Brasil colônia da segunda metade do século XIX…

Uma pessoa assim teria todas as prerrogativas de não se dar bem na vida, certo?

Nem tanto!

As tendências às vezes são só tendências e caem frente às grandes almas…

Estamos falando de Joaquim Maria Machado de Assis, para muitos (inclusive para mim) o maior escritor brasileiro de todos os tempos e um dos mais notáveis escritores do mundo, que revolucionou as nossas letras e a nossa maneira de enxergar a vida.

Contrariando a normalidade, Machado de Assis teve uma existência relativamente estável e conheceu, em vida, o prestígio e a fama que lhe cabiam. Foi um dos fundadores, em 1897, da Academia Brasileira de Letras – ABL e eleito seu presidente vitalício. Ao morrer, em 1908, recebeu honras fúnebres de chefe de Estado.

Nada poderia contrastar mais vivamente com seu nascimento, em 1839, no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, e com sua infância de menino órfão e pobre (sua mãe morreu quando ele tinha 10 anos de idade e seu pai casou-se novamente, vindo morrer pouco tempo depois), sendo criado pela madrasta (felizmente boa, para diferenciar das histórias e contos de fadas…).

Entre nascimento e morte, Machado percorreu um duro caminho de quem se faz pelas próprias mãos – mulato pobre de subúrbio, ele se transformaria num dos mais respeitados intelectuais da corte.

Pelo que indicam os registros, Machado de Assis não frequentou a escola, embora tivesse aprendido a ler antes dos 10 anos. Ainda criança, vendeu doces na rua para ajudar a sustentar a casa. Caixeiro de uma livraria, tipógrafo e revisor foram algumas profissões que exerceu antes de se tornar jornalista e escritor.

A estabilidade econômica, porém, veio de outras fontes. Como uma boa parcela da intelectualidade brasileira da época, Machado ingressou no funcionalismo público. Chegou a fazer carreira, foi oficial-de-gabinete de ministro e diretor de órgão público. Em 1889, ano da Proclamação da República, dirigia a Diretoria do Comércio. Nessa época já era um escritor consagrado.

Costuma-se dividir a obra de Machado de Assis em duas fases bem distintas: a primeira apresenta o autor ainda preso a alguns princípios da escola romântica, sendo por isso chamado de fase romântica ou de amadurecimento; a segunda apresenta o autor completamente definido dentro das ideias realistas, sendo, portanto, chamada de fase realista ou de maturidade.

Em 1904, a vida de Machado de Assis é abalada pela morte da esposa – Carolina Augusta Xavier de Novaes – uma base sólida para a sua carreira de escritor e sua companheira por 35 anos, e de quem ele nutria um amor incondicional.

Cultuado em seu tempo (e até hoje) como escritor “clássico”, representante máximo de nossa “boa literatura”, Machado de Assis soube, como nenhum outro escritor brasileiro, revelar os meandros da alma humana e combater, pela ironia sutil, as mazelas de nossa sociedade, ainda colonial, escravocrata e autoritária.

Parece interessante?

Então veja abaixo um panorama geral para conhecer toda a brilhante trajetória de Machado de Assis – o bruxo do Cosme Velho –, algumas de suas ideias e um cronograma básico com as suas principais obras para quem quer se deliciar nessa leitura, que é um verdadeiro mergulho nas profundezas da alma pelo viés da literatura.

MACHADO DE ASSIS – O BRUXO DO COSME VELHO

1839 – Joaquim Maria Machado de Assis nasce no morro do Livramento, Rio de Janeiro, em 21 de junho, filho do pintor e dourador Francisco José de Assis (neto de escravos) e de Maria Leopoldina da Câmara (portuguesa nascida na Ilha de São Miguel, nos Açores) – que viviam na condição de agregados na chácara de Maria José de Mendonça Barroso Pereira.

1854 – Cinco anos após a morte de sua mãe, seu pai se casa com a mulata Maria Inês e a família se muda para São Cristóvão. Publica seu primeiro poema, “Soneto”, no Periódico dos Pobres.

1885 – Trabalha na livraria  e tipografia de Paula Brito, que edita o jornal de variedades “A Marmota Fluminense”, no qual Machado publica os poemas “Ela” e “A palmeira”. Participa das tertúlias da Sociedade Petalógica (nome derivado de “peta”, “menina”), grupo de intelectuais frequentado esporadicamente por José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo e Francisco Otaviano.

Primeiro fase – romântica

1860 – A convite de Quintino Bocaiúva, trabalha como repórter do Diário do Rio de Janeiro, órgão do Partido Liberal.

1864 – Publica “Crisálidas”, seu primeiro livro de poesias, pela editora Garnier.

1867 – É nomeado ajudante do diretor de publicações do Diário Oficial.

1869 – Casa-se com Carolina Augusta Xavier de Novaes. Publica “Contos Fluminenses” e “Falenas” (poesias).

1872 – Estreia de Machado no romance com “Ressurreição”.

1873 – É nomeado primeiro oficial da Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas.

1874 – Lança em livro seu segundo romance, “A mão e a luva”, que havia saído em folhetim no jornal O Globo.

1976 – Publica “Helena”.

1878 – O Cruzeiro publica, em folhetim, o romance “Iaiá Garcia”.

Segunda fase – madura

1881 – Publicação em livro de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (que havia sido publicado em capítulos na Revista Brasileira).

1884 – Muda-se para a rua Cosme Velho, nº 18. Publica o volume de contos “Histórias sem data”.

1886 – Começa a publicar, em folhetim, o romance “Quincas Borba” (que será impresso em livro em 1891).

1888 – Recebe da Princesa Isabel a Ordem da Rosa.

1889 – É nomeado diretor da Diretoria Geral do Comércio.

1893 – Com a reforma ministerial, que transforma a Secretaria da Agricultura em Secretaria da Indústria, Viação e Obras Públicas, Machado é nomeado diretor-geral da Viação.

1897 – Participa da fundação e é eleito presidente da Academia Brasileira de Letras.

1898 – É colocado em disponibilidade na Viação.

1899 – Lança “Dom Casmurro”.

1902 – Volta a trabalhar na Viação, agora como diretor-geral da Contabilidade.

1904 – Publicação do romance “Esaú e Jacó”. Carolina morre no dia 20 de outubro.

1908 – Morre no dia 29 de setembro, dois meses depois do lançamento do seu último romance, “Memorial de Aires”.

SUAS IDEIAS

“Cada qual sabe amar a seu modo; o modo, pouco importa; o essencial é saber amar”.

“Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e o amor com casamento”.

“O dinheiro não traz felicidade – para quem não sabe o que fazer com ele”.

“Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito”.

“Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens que de um terceiro andar”.

“Para as rosas, escreveu alguém, o jardineiro é eterno”.

“Botas… as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar”.

“Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução”.

“Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho. Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas”.

“Que multidão de dependências na vida, leitor. Umas coisas nascem de outras, enroscam-se, desatam-se, confundem-se, perdem-se, e o tempo vai andando sem se perder a si”.

CRONOGRAMA BÁSICO COM AS SUAS PRINCIPAIS OBRAS

Romances

Ressureição (1872)

A Mão e a Luva (1874)

Helena (1876)

Iaiá Garcia (1878)

Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)

Casa Velha (1885)

Quincas Borba (1891)

Dom Casmurro (1899)

Esaú e Jacó (1904)

Memorial de Aires (1908)

Contos

Contos Fluminenses (1870)

Histórias da meia-noite (1873)

Papéis avulsos (1882)

Histórias sem data (1884)

Várias histórias (1896)

Páginas recolhidas (1899)

Relíquias de Casa Velha (1906)

Contos avulsos.

*Referências:

Literatura brasileira: das origens aos nossos dias – José de Nicola.

Ler é aprender – Machado de Assis/Estadão.

Revista CULT – As magias literárias de Machado de Assis – julho/1999.

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Gostou de conhecer a história de Machado de Assis, esse grande escritor brasileiro e meu amigo? Então compartilhe esse conteúdo e ajude a divulgar essa informação, fomentar a leitura e valorizar a literatura clássica!

A propósito, que tal mencionar logo abaixo nos comentários qual obra de Machado mais lhe marcou? Se ainda não leu, é um bom momento para começar!  

Lembre-se!

COMPARTILHAR É SE IMPORTAR!

Forte abraço!
Leandro Bertoldo Silva.

HAICAIS DE TATTOOS

Por Carolina Bertoldo

Excesso de amor
na falta de espaço
tinge a pele.

Frases e flores
datas, figuras, signos
corpo estampado.

Significado
para quê? Basta querer
colorir você.

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Carolina Bertoldo é escritora, estudante de pedagogia, colecionadora de livros e integrante da turma Manoel de Barros, da Árvore das Letras.

ENCADERNARIA: A LOJA DA ÁRVORE DAS LETRAS QUE AGORA CABE EM SUAS MÃOS

Por Leandro Bertoldo Silva e Geane Matos

Dia 19 de setembro, às 14h30, na FLIM – Festa Literária Vale do Mucuri, na Praça Tiradentes, em Teófilo Otoni/MG, foi celebrado o lançamento do livro “Para sempre, amanhã”, publicado pela Árvore das Letras, através do selo Alforria Literária.

O livro é totalmente feito à mão a partir da paixão pela escrita e pelo desejo de guardar memórias e contar nossas histórias. Afinal, escrever é costurar ideias com as mãos.

Para quem nos conhece há mais tempo, sabe que a escrita, especialmente à mão, é a grande norteadora do nosso trabalho. Não por acaso, grande parte dos nossos livros ganharam seus primeiros esboços em cadernos, blocos de anotações e, acreditem, até em guardanapos de papel. E assim irá continuar.

Por isso, ao longo dos anos viemos nos aprimorando na confecção e produção de cadernos artesanais de diferentes costuras, totalmente autorais, feitos também à mão com técnicas de colagens nas capas, o que os tornam únicos e exclusivos para que as pessoas possam ter a melhor experiência de escrita e fazer aflorar sensibilidades afetivas.

Mas isso não é tudo!

Como eles sempre fizeram muito sucesso, o que nos deixa imensamente felizes, a Árvore das Letras tem agora a ENCADERNARIA, a nossa loja virtual!

Um antigo provérbio árabe já dizia que “A pureza da escrita é a pureza da alma”.

Isso quer dizer que escrever, além de uma forma de arte, é também uma forma de libertação.

É por isso que dedicamos tanto para a abertura de um espaço onde pudesse ficar mais fácil ter acesso aos nossos livros e cadernos artesanais de forma segura e confortável a todo e qualquer momento e não apenas nas feiras e eventos, como aconteceu na FLIM e tantos outros que realizamos.

Então, para ver como ela está bonita é só clicar no link abaixo e aproveitar para conferir alguns dos cadernos e livros já disponíveis.

https://arvoredasletras.lojavirtualnuvem.com.br/

Ao longo do tempo iremos atualizando a loja e sempre teremos novidades neste espaço que já é seu. Esperamos que gostem e façam uso dele. Estamos prontos para atender sempre com um sorriso e muita alegria!

A FELICIDADE

Por Nasapulo Kapiãla

Perguntei na vida:
Aonde andará a felicidade?
A vida respondeu:
– <<Seu endereço é a vida perfeita>>

Perguntei a mim mesmo:
Como encontrar a vida perfeita?
Uma voz tímida,
Ressoante, respondeu:
– <<Ela sedia-se nas metrópoles>>

Apressei-me,
Deixei tudo, vim a cidade.
Encontrei a vida perfeita padronizada,
Deslocada da felicidade,
Vizinha da ansiedade!

Lamuriei:
Ó, felicidade, por que se complexificas?
Vejo que não moras na realidade!
Poupei fundos de alegria, sorrisos,
Numa conta a prazo,
A fim de desejar-te boas-vindas,
Logo que chegasses!

Uma voz sussurrante em meus ouvidos segredou:
– <<Pare de resmungar, encontre-me nos sonhos!>>

Finalmente, sinto-te tão próximo!
Basta que a noite chegue,
Para que sinta-me feliz em meus sonhos!

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Emílio Tomé Cinco Reis de pseudónimo literário Tomé Nasapulo Kapiãla, angolano, natural da província do Huambo, planalto central, licenciado em Geologia faculdade de ciências naturais, universidade pública, Agostinho Neto. É professor do ensino secundário do 2° ciclo do Liceu Público N° 4019 ex-IMNE de Cacuaco “24 de Junho”, lecciona a disciplina de Física e dirigente comunitário da comunidade dos Imbondeiros Cacuaco, província de Luanda.

CORRESPONDÊNCIAS AFETIVAS

Por Ricardo Albino

Belo Horizonte,14 de agosto de 2025.

Oi Ric, tudo bem? Aqui é o Cadinho, você pequenininho. Venho te convidar para a gente conversar um pouquinho com o cara que leva a gente no corpo ,na alma e no coração, o Ricardo. Você topa?

Parece que nós somos a mesma pessoa, né? Mas sabe que não. O Ricardo é o nosso reflexo externo do lado de dentro. Então é por isso que não gosta de se olhar no espelho do banheiro?

Sim, o espelho do banheiro é pequeno demais para quem enxerga metade da vista esquerda, nada da vista direita, mas aprendeu a ver a vida com os olhos do coração. Enxergando o mundo e as pessoas de dentro para fora, o nosso espelho cresce e o colírio da alma limpa e deixa claro o que o ser humano precisa ver na vida.

Obrigado, Ricardo, por ensinar ao cadinho que andando pelo chão como um gatinho, depois de aparelho nas pernas, andador e bengalas, daria ao Ric a força e a certeza que temos alma de passarinho. De asas quebradas sim. Nem há como negar. O espelho está aí para mostrar. Mas ele refletiu também que a gente sabe, quer e pode voar. 

Assim, o Ricardo aprendeu  a pilotar a sua possante e juntos seguimos os três ,num corpo só, com profunda gratidão, felizes por aprender todo dia que deficiência não é doença. Conviver com ela é aprendizado e ensinamento. Aprendemos que somos todos iguais nas diferenças.

Assim, o Ricardo segue contando histórias e  na companhia do Cadinho e do Ric tenta  fazer a diferença através das artes, guiado pelo nosso guia Maior — o Criador do Universo — que nos doa anjos de amor que iluminam o caminho e nos mostram que ser feliz é enxergar na grandiosa beleza das pequenas coisas a mais linda conquista do viver. Assim , acreditamos que muito em breve todo o planeta vai conseguir enxergar, através da acessibilidade e da inclusão, o ser humano como deve ser: simplesmente gente.

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Sou Ricardo Flávio Mendlovitz Albino. No mundo da contação de história todos me conhecem por Ricardo Albino. Tenho 47 anos, nascido e criado em Belo Horizonte, jornalista formado em 2006, pelo Centro Universitário de Belo Horizonte – UNI BH, contador de histórias formado pelo Instituto Cultural Aletria, em 2015, criador da página Ricontar Histórias, em 2017, e do canal de mesmo nome no You Tube, em 2021. Cadeirante, idealizei no canal o podcast Ricontar para unir histórias, meu amor pelo rádio, acessibilidade e inclusão.

COMO VOCÊ LIDA COM OS SEUS SONHOS?

Por Leandro Bertoldo Silva

Como você lida com os seus sonhos? Você os revela para as pessoas ou guarda para si até que eles aconteçam?

O poeta e escritor moçambicano Mia Couto tem um pensamento que diz: “O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar, a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro”.

Acontece que muitas vezes encontramos pela estrada pessoas que nos desencorajam àquilo que sonhamos, e aí nós temos dois caminhos: ou acreditamos nelas ou em nós…

Se acreditarmos nelas, passamos a achar tudo mais difícil, inalcançável e até mesmo impossível… O que era força transforma-se em fraqueza.

Você já viveu algo parecido?

Felizmente há uma saída para essa armadilha. A própria imagem de “carregar água na peneira” pode representar positividades. Ela nos convida a refletir sobre nossas próprias tentativas de alcançar objetivos e o prazer de superar nossas limitações, porque, sim, é possível quando acreditamos!

É claro que as coisas não acontecem como mágica, mas a esperança e a persistência são importantes. Mesmo quando os resultados não são imediatos, lembre-se que tudo tem um tempo de semeadura, plantio e colheita.

Saber esperar com ação e paciência às vezes é o mesmo que carregar água na peneira. É preciso ter coragem de tentar, de seguir em frente, mesmo diante de obstáculo que parecem impossíveis.

Pense: Quais são as suas peneiras? Você se permite carregar água nelas?

Para ajudar nessa reflexão, deixo aqui a poesia “O menino que carregava água na peneira”, de Manoel de Barros, na belíssima interpretação do contador de histórias Pierre André, a partir do livro “Exercícios de ser criança”, de Manoel de Barros, ilustrado com bordados das irmãs Ângela Antônia Marilu Martha e Sávia Dumont a partir dos desenhos de Demóstenes Vargas, da Editora Salamandra, que valoriza a beleza do cotidiano, o valor das pequenas ações e a imaginação, elementos que podem fortalecer a autoestima tão importante para alcançar o que se deseja.

Essa poesia nos ensina que, muitas vezes, o mais importante não é nem o resultado final, mas o ato de sonhar, de acreditar e apreciar o caminho rumo a um novo dia…

Um belo e inspirador dia para todos.

“DESENHANOTADOR ” DE LEMBRANÇAS INVENTADAS

Por Pierre André

Eu me lembro…
Eu me lembro…
Todos iam para os bailes
Brincar o carnaval

“Oh Abre alas que eu quero passar”
E tantas outras marchinhas
Agora querem passar, e passaram,
Aqui diante dos meus olhos…

Eu gostava de ouvir
Aquelas marchinhas
Tocadas naqueles
Fevereiros passados

Eu ficava em casa
Eu e o meu caderno
Não podia ir aos bailes
Criança ainda

Dias de baile
Dias de aproveitar
Meu caderno
De “anotações”

Não sabia escrever
Mas anotava tudo
Tudinho que eu pensava
Com desenhos

Desenhava tudo que eu ouvia
Pierrôs apaixonados
Arlequins sempre felizes

Nunca os via,
Sempre os desenhava
Minha imaginação
Desenhava para mim

Músicas diziam muito
Não só as dos bailes
De qualquer lugar
De onde saíam

Rádios
Televisões
Banheiros
Bocas dos adultos


E eu “desenhanotava”
Tudo que ouvia
Até os sentimentos
Adorava “desenhanotar”

Desenhava
Cheiros do mato
O molhado
Da terra molhada

O Bem-me-quer
Da margarida
Eu sempre desenhava
Com lápis amarelo

O Mal-me-quer
Com lápis branco
No papel branco
Ele nem aparecia

Ninguém via
O Mal-me-quer
Mas estava lá
Desenhanotadinho

Gosto do biscoito
Da tia Paulinha
Desenhava também
E bem anotadinho

O que eu mais gostava
De desenhanotar
Era o perfume
Da “Flor-Cheirosa”

Nome inventado
Ela tinha outro nome
Eu nem sabia
Se chamava Jasmin

Desenhanotando
Tudo que eu gostava
Eu era sempre feliz
Eu com o meu caderno

Como eu amava
Escrever sem saber
Sem imaginar
Que estava escrevendo

Hoje não desenhanoto mais
Agora que sei escrever
Escrevo essas lembranças
Que acabei de inventar

Ah, eu me lembro
Me lembro de tudinho
Me lembro sim, viu!

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Pierre André e seu suposto texto de apresentação…

Vê se pode… O menino queria fazer de conta que o faz-de-conta se desfez. Vou deixar não… Pensei. E tentei desfazer essa ideia maluca dele. Ainda bem que dei conta. Agora faz de conta que eu num dô conta… Não teria escrito esses escritos para vocês.

Quero falar de mim não.

Meus textos já falam…

AOS QUE CAMINHARAM COMIGO ATÉ AQUI

Por Leandro Bertoldo Silva

Quando pensei em convidar pessoas a caminharem comigo nesta linda estrada do processo de feitura do meu livro “Para sempre, amanhã”, mentiria ao dizer não saber até onde ela nos levaria. Sempre soube e tinha a certeza do caminho repleto de prazeres, mas também de desafios. Isso porque nenhuma história floresce sozinha. É preciso tempo e mãos… Mãos que escrevem, que costuram, colam, refilam, dão acabamento, mas também que acolhem e incentivam. Àquelas foram as minhas, essas as de vocês.

Hoje, data da postagem desse texto, é dia 31 de agosto de 2025. Amanhã é o primeiro dia do mês de setembro — não por acaso da primavera — onde o jardim tão preparado, cuidado, adubado em palavras, versos, prosas e imagens irá também florescer em lindos lançamentos a começar pela FLIM – Festa Literária Vale do Mucuri, em Teófilo Otoni/MG, a partir do dia 17.

Por isso, hoje venho agradecer por todos esses dias em que estivemos juntos por aqui. Não só isso! Agradeço cada palavra de incentivo que recebi, cada gesto, mensagem, cada presença de coração aberto e dizer que tudo isso foi um sopro de vida a fazer de todos parte dessa história.

Os livros estão prontos! Aos que estarão comigo na FLIM, não vejo a hora desse encontro, onde teremos a oportunidade de compartilhar um momento incrível. Aos que não estarão, nos veremos certamente nas páginas do livro, onde nossas vozes também se encontrarão.

Para os que adquiriram o livro na pré-venda, muito obrigado e digo que logo estarão com ele autografado em mãos e cheio de carinho.

Obrigado por acreditarem.

Por caminharem.

Por esperarem.

Por sonharem junto.

Se “Para sempre, amanhã” tem a partir de agora a chance de tocar o coração das pessoas, foi porque ele primeiro, de alguma forma, tocou o de vocês.

Aos que caminharam comigo até aqui… a estrada continua.

Gratidão eterna! Até a FLIM e aos próximos lançamentos.

EU E O ESPELHO

Por Luzia Maria de Souza

Quem sou eu? Quem é o espelho?

Mara é uma mulher em seus 60 anos. Vive uma vida de trabalho, de lutas e muita desesperança. Mas todos os dias, sem que ela se desse conta, era convidada a mudar sua rotina, sem sucesso nem mesmo entendimento.

Após sua dura jornada diária, Mara se preparava para dormir, mal fechou os olhos ouviu uma voz vinda bem de trás dela. Vinha do espelho na porta do guarda-roupas…

— Psiu!!! – Disse o “espelho”.  

— Oi! Quem é você? – disse Mara.

— Ora bolas! Não me reconhece? Afinal, faz tanto tempo…

— Ishi. Nem me fale de tempo… não tenho pra perder.

— Há muito tempo que você não me procura. Acho mesmo que já se esqueceu de mim. Às vezes até me procuro nessa imagem aí. Busco alguma coisa que me desperte, mas parece estar adormecido aí dentro. Que pena!

— Como assim? Não faço ideia do que você está falando… – Disse Mara com pouco caso. – Acho que preciso mesmo é ir dormir. Vejam só, estou conversando com um espelho! 

— Espere! Não vá! Fique mais um pouco. Precisamos de sua ajuda…

A luz se apaga e mais uma noite acontece em meio aos sonhos e lembranças confusas daquela mulher. Cansada da vida dura que leva, mas resiliente.

Enquanto pensava se sairia da cama ou não, se levantava ou não para ir ao trabalho ouviu uma voz vinda bem de trás dela. Vinha novamente do espelho na porta do guarda-roupas…

— Bom dia, professora!

— Ai, ai, ai ! Ora essa, professora??Nem bem acordo e já ouço vozes.  Mas é melhor um bom dia que um dia tenebroso como os outros… Disse Mara

— Bora levantar, mulher! Há muita coisa pra se fazer e você está muito atrasada!

— Mais essa. Um espelho falante e ainda me diz que estou muito atrasada. Atrasada pra quê?

— Não está te faltando nada? Há tempos você não me vê, não consegue sentir o que estou sentindo. Onde está você que não encontro aqui? Não me encontro também em você…

— Estou onde sempre estive e ai de mim se não estivesse. Devo estar ficando maluca. O que está acontecendo comigo? Não tenho tempo pra essas histórias. Preciso me tratar.

E sem dar ouvidos à voz, saiu, para mais um dia de labuta, cansada, desanimada, desmotivada e perdida de si mesma. Mara já não era mais a mesma há tempos.

Como ela desejava que tudo tivesse sido diferente. Que a vida tivesse lhe sorrido mais e sido mais generosa.

Quisera ter amigos, memórias lindas e histórias pra contar, mas a única coisa que havia de sobra, eram dívidas, dores, amores desfeitos, cansaço e lutas e lutas. Uma desesperança infinita.

Ela precisava fazer alguma coisa antes que enlouquecesse.

E naquele dia ao voltar pra casa, lembrou-se dos episódios do espelho. E sem saber ao certo se aconteceram ou se foram alucinações ou sonhos, resolveu olhar-se no espelho. Havia um certo receio do que veria, pois já haviam se passado alguns anos… Porém, dessa vez havia muito carinho e respeito por aquela imagem que seria refletida. Fosse qual fosse.

E qual não foi sua surpresa e emoção ao ver, mesclada na imagem de agora, com suas rugas, tristeza e cansaço, a mesma imagem da menina que há anos lhe cobrou que acordasse e a ajudasse.

— Que criança linda eu fui. Quantos sonhos me cercavam!

Chorou e quis pedir perdão à menina, mas essa desapareceu sorrindo e deu lugar a uma outra imagem também fundida naquela mais velha e sofrida. Porém essa continha o viço da idade madura e plena. Plena de beleza, de alegria, coragem e força.

— Céus! Como fui forte e corajosa!!

Essa fez Mara chorar copiosamente, não entendendo por que se desapegou e se distanciou daquela mulher tão destemida e forte que lhe sorrira por muitas vezes ao longo dos anos, quando se olhava no espelho.

Aos poucos e com muita suavidade as imagens foram deixando o espelho.

Até que ficou apenas Mara, consciente de que todas aquelas mulheres e outras tantas que por vezes lhe visitavam diante do espelho, eram a mesma pessoa. E que de tempos em tempos vinham lhe recordar quem ela era. Vinham buscar a Mara de hoje pela mão, pelo colo, pelo olhar e pela sabedoria. Elas não deixariam aquela mulher vacilar.

E agora, sabedora da força que havia em seu interior levantou a cabeça, com um grande sorriso, beijou o espelho e disse baixinho: Obrigada!

E feliz e encorajada foi à luta.

*Texto elaborado a partir do estudo de “O Espelho”, de Machado de Assis.

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Sou a Luzia Maria de Souza, mãe do Silas e do André. Filha da Carminha e do Duca. Irmã da Lina, da Letícia, do Alan e da Laíse. Esposa do Fernando de Bulhões. Sou escancaradamente amante da vida, da alegria, da música, do movimento e de gente! Estou dando meus primeiros passos como escritora. Mas gosto mesmo é de registrar minha própria história e navegar em minhas memórias e reflexões. Afinal, sou o resultado das coisas que vivi, do convívio com pessoas que passaram por mim e deixaram marcas em minha vida.

ALGUMAS PALAVRAS “PARA SEMPRE AMANHÔ

Por Leandro Bertoldo Silva e Elisa Augusta de Andrade Farina

Ao longo do caminho da escrita de um livro encontramos vários “anjos da guarda”, pessoas a nos estenderem a mão ao compreenderem a importância daqueles momentos a se formarem em verdadeiras histórias nascidas de um ato de amor com as palavras.

Uma dessas pessoas a existir nesse “Para sempre, amanhã”, se fez presente logo no início de tudo: Elisa Augusta de Andrade Farina. Elisa é uma alma diferenciada que entende a essência das sensibilidades. É capaz, como diz Manoel de Barros, de “fazer uma pedra dar flor”, tamanha a sua capacidade de absorver a poesia da vida.

Além de possuir tudo que a literatura mais necessita para florescer, Elisa é minha grande amiga, alguém a fazer morada em mim de um jeito especialíssimo. Foi por tudo isso e muito mais que entreguei a ela o carinho do prefácio deste livro para que sempre possam, seja nessa ou em todas as manhãs do mundo, estarem eternizadas suas tão inspiradoras palavras.

Tenho o prazer de vir aqui neste espaço, na companhia de vocês, antecipar o que me foi dito. Leia a seguir o prefácio de “Para sempre, amanha”.

Obrigado, minha amiga!

PREFÁCIO DO LIVRO “PARA SEMPRE, AMANHÔ

Elisa Augusta de Andrade Farina
Presidente da Academia de Letras de Teófilo Otoni

A palavra é a matéria prima da Literatura. Saber usá-la, aproveitando todo o seu poder de sugestão, com originalidade e propriedade, é o objetivo do escritor. Aí residem a sua arte e o seu talento. Aproveita o poder e a originalidade que as palavras oferecem na apreensão da magia poética dos fatos, estruturando as tramas e liames de forma harmônica e estética de todo o conteúdo literário que cria. É o mundo vasto das letras e o poder da palavra.

Parabéns, Leandro, por nos presentear com mais um livro repleto de sentimentos que nos inspiram. Só quem vive sua essência e age de acordo com o que realmente tem no coração pode expressar tantos sentimentos, que tocam nossa alma de leitores, provocando reflexão nos espaços que reforçam a troca de saberes.

Convido a todos a darem um mergulho no universo criativo que o autor nos oferece. Seremos envolvidos pela singularidade contida em cada criação literária, em que o autor deixa antever a sua alma, numa transparência de asas de borboletas multicoloridas, prontas para o voo ao mundo criativo das palavras que nos deleitam.

Cada palavra traz em si um universo indefinível de significados e significantes.

A delicadeza tão peculiar do autor na sua construção literária já é sentida pela escolha do título: “Para sempre, amanhã”, que nos remete a crer que há esperança, apesar dos revezes das armadilhas cotidianas de nossas vidas.

Em seus textos extraímos a genialidade como constrói suas tramas. Suas memórias, tal qual o fio de Ariadne, são costuradas de maneira tão forte e singular, levando o leitor a embrenhar-se em suas lembranças, conduzindo-o através dos labirintos de suas “verdades” de forma mágica, adentrando seus pensamentos e sentimentos guardados nos porões de sua alma sonhadora.

Quando fala da dor, do amor, de seus medos, angústias, frustrações, das lágrimas derramadas em silêncio e também do sorriso esboçado,  quando pousa o olhar de poeta nas coisas “desimportantes”, extraindo a beleza que precisa ser revelada, só para citar alguns pontos de vista distintos, baseados em minha leitura.

Vou deixar para o leitor o prazer de encontrar em cada página que ler a sua análise, para valorizar o talento do autor nos desdobramentos literários e poéticos.

Que este livro tenha a capacidade de iluminar mentes, aquecer corações e inspirar transformação em direção a uma nova realidade do mundo literário humano e libertador.

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A campanha de pré-venda com o preço promocional está chegando ao fim. Estará aberta até o dia 17 de setembro/2025. Quem desejar adquirir, presentear e receber este livro autografado, ou durante o evento de lançamento na FLIM – Festa Literária Vale do Mucuri, em Teófilo Otoni, do dia 16 ao dia 21 de setembro/25, ou em casa, é só acessar o link abaixo e preencher o formulário.

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Forte abraço e até lá!