DE ONDE VÊM AS HISTÓRIAS? A ESCRITA COMO PASSAGEM

Por Leandro Bertoldo Silva

É comum as pessoas perguntarem a quem escreve de onde vêm as histórias. Provavelmente de um lugar sagrado somente acessado pelos escolhidos, pensam alguns; ou, quem sabe, dos privilegiados, daqueles a quem o talento fez morada, pensam outros.

Nada disso, porém, condiz com a verdade ou pouco valor tem essas palavras.

Quanto ao talento, é inegável a sua existência, mas ele é algo possível de ser alcançado com dedicação, paciência e persistência. Portanto, nada de extraordinário existe aqui.

A respeito de virem de um lugar sagrado, lembro-me de Alberto Caeiro:

“Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. É incrível que se possa pensar em coisas dessas. É como pensar em razões e fins quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão”.

Isso mesmo! Obrigado, Caeiro. Sagrado pode até ser o ato de escrever, mas não se trata de um lugar mágico, sobrenatural. A não ser que consideremos todo e qualquer — isso mesmo — “qualquer” lugar como sagrado.

A escrita acontece ao nosso redor: à frente, atrás, dos lados, em cima e em baixo, até por dentro… Basta termos olhos para ver e ouvidos para escutar. Se nos colocarmos atentos, veremos histórias a brotarem literalmente do chão, a saírem de um elevador ou a entrarem em um ônibus; quem sabe em um sinal fechado… “Olá, como vai?” “Eu vou indo, e você, tudo bem?” Não há como não ter respostas…

Possuo inúmeras provas do que estou a dizer, mas quero relatar dois acontecimentos recentes, um após o outro.

Estava no centro da cidade de Teófilo Otoni com minha filha quando ouvimos um tanto de bem-te-vis. Para nossa surpresa um estava bem perto de nós, mas não tinha asas… Era um velhinho com um sorriso e uns olhos de poesia que eu não via há muito tempo. Ele olhava para o alto e literalmente conversava com os bem-te-vis. Ele assoviava e os passarinhos respondiam imediatamente. Os passarinhos cantavam e ele respondia. Bem-te-vi pra lá, bem-te-vi pra cá, e tudo no meio da rua, com carro e gente a passar. Só eu e minha filha reparávamos deslumbrados o velhinho de olhos de poesia a sorrir e a conversar com os amigos do céu. Logo me surgiu um haicai:

No meio da rua
um velho conversava
com os passarinhos.

Ali, bem diante de nós estava a acontecer uma história. Simples, mas potente.

O outro acontecimento (a ida a Teófilo Otoni rendeu muitas histórias) surgiu no caminho, quase a chegar à cidade. Em um determinado ponto da estrada há um “cemitério de carros”, com uma infinidade deles, todos muito destruídos. Pois não é que alguém teve a brilhante ideia de espalhar bonecas namoradeiras por alguns deles? Aí não teve jeito…

Essa eu até fotografei e deixo aqui como prova…

Percebe? As histórias se mostram em todos os lugares e momentos, incessantemente. E a escrita pode correr fácil, naturalmente. Claro, existem alguns caminhos e atalhos que podem ajudar nessa travessia entre a história e o texto. Eu ainda vou falar muito sobre isso, mas o importante é saber que não é preciso subir alguma montanha ou jejuar 30 dias ou fazer qualquer outra prática ascética para escrever. Basta começar. As histórias já existem, não precisam ser criadas, só precisam ser descobertas.

É como quando Michelangelo foi perguntado como ele conseguiu fazer a estátua de Davi, considerada sua grande obra-prima, tão linda e perfeita, e ele respondeu que nada fez; a escultura já existia dentro do bloco de mármore, ele apenas tirou os excessos…

Escrever é assim: deixar os dedos trabalharem a conduzir o lápis ou a caneta pelo papel (minha preferência) ou pelas teclas do computador  no início sem receios, sem preconceitos, livre de qualquer amarra. Escreva, simplesmente escreva, desinibidamente. Permita a história repousar no papel. Depois volte ao texto, retire o desnecessário e deixe a história respirar. Viva! Ela existe.

Frei Betto, no livro “O dia de Ângelo”, traduz com mestria o ato de escrever. Fiquei tão impactado quando li por ser exatamente como me sinto que deixo aqui, para encerrar, um recorte de suas palavras. Disse ele: “Escreve-se assim: toma-se um punhado de palavras que escorrem céleres por veias, artérias, músculos e mãos, derramando-se entre os dedos; esparrama-se sobre folhas secas brancas, dispondo-as ordenadamente, de forma que traduzam ideias, sentimentos, emoções, recordações, visões e propósitos. Respeite a respiração das palavras. Isso que a gramática chama de pontuação. Deixa que elas descansem ao fim de um conceito, recobrem forças antes de iniciar nova frase, estejam cadenciadas por vírgulas e pontos nas orações. Não exija delas fôlego maior do que possuem e saiba que encerram curioso mistério, pois as mesmas palavras que servem para registrar o mais insípido documento de cartório prestam-se igualmente para compor as mais belas obras literárias. Elas formulam sentenças de morte e esperança de vida, bulas de veneno e declarações de amor, anúncios de guerras e tratados de paz. E, quando lapidadas pela sensibilidade e pela intuição, delas brotam poesias, tropéis ritmados sobre nuvens. Servem inclusive à própria loucura. Nesse caso, dizem coisas que nem mesmo o raciocínio consegue conter e que extrapolam as leis da grafia e da sintaxe, pois refletem essa irreprimível necessidade de exprimir o imponderável, de escrever o absurdo, de revelar o absoluto”.

Bem, espero que possam ter encontrado a coragem que faltava ou aprimorar a já existente para fazer dos seus momentos histórias incríveis a saírem da alma e do coração. A escrita pede passagem, deixe-a nascer sem perfeccionismo. Primeiro escreva, depois lapide-a, mas, acima de tudo, liberte-a.

_______________________

Leandro Bertoldo Silva é o criador deste blog. Formado em Letras, pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC-MG, é membro titular da Academia de Letras de Teófilo Otoni. Escritor independente, Leandro é artesão de palavras e criador de livros feitos à mão. Sua obra transita entre a literatura e a arte manual, explorando uma nova forma de escrever, produzir e compartilhar histórias, onde cada livro é único, feito com tempo, valorizando a experiência e afetividade da leitura.

A ESCRITA COMO PERCURSO

Por Leandro Bertoldo Silva

Escrever é uma habilidade necessária para todas as pessoas, mesmo na era das redes sociais, mas aqui quero me dirigir particularmente para quem tem na escrita uma razão maior de ser, que vai muito além de legendas e emojis.

Para escrever com clareza é necessária uma anterior organização lógica do pensamento, podendo-se concluir que sem o pensamento logicamente ordenado não pode haver redação clara, inteligível. Isso significa que ensinar a escrever equivale a ensinar a pensar, tarefa obviamente impossível; no entanto, sugerir técnicas ou práticas que favoreçam o desenvolvimento do processo de redação é tarefa possível.

A redação de um bom texto exige grande domínio do pensamento sobre as palavras. É preciso “capturá-las”, escolhê-las adequadamente, dominá-las para ordená-las em frases e parágrafos, como quem monta uma espécie de quebra-cabeça.

Porém, antes disso, faz-se necessário voltarmos nossos olhos para a leitura, que é a “matéria-prima” de nossas ideias, da riqueza de nossos pensamentos e fortalecimento de nossa visão de mundo. É ela que nos mune de “ferramentas” para um bom texto. Tão importante quanto escrever é saber ler e interpretar para que, através dessa prática, possamos alcançar qualidade em nossos argumentos e transpô-los para o papel.

Falei agora há pouco sobre “técnicas”, mas por que não pensar no caminho inverso do comumente usado? Isto é, ao invés de partir das técnicas para alcançar o prazer da escrita, iniciar exatamente utilizando o prazer das palavras para encontrar o caminho das técnicas para alcançar resultados mais satisfatórios e práticos na arte de escrever.

Foi assim que eu sempre pensei e agi com muitos alunos ao longo de toda essa trajetória, por acreditar na leveza e nas artimanhas da escrita e seus diversos caminhos ou, como diz Ronald Claver, autor do livro A Arte de escrever com Arte, as artes e manhas do gato, ou melhor, do texto.

Mas nada disso adianta para quem quer escrever ou aprimorar sua escrita se não existir o principal: ESCREVER!

Segundo a jornalista e professora Dad Squarisi, ler e escrever são habilidades. Exigem treino. Jogam no time de nadar, jogar ou saltar. Quanto mais se pratica, melhor o desempenho. Os campeões olímpicos só se tornam campeões olímpicos porque treinam muito e sempre. Portanto, para ser campeão ou campeã das letras, a receita é simples; escrever muito e sempre.

Isso quer dizer que escrever não é somente uma atividade intelectual, é também uma atividade física e só se aprende a escrever ou só melhoramos a nossa escrita, escrevendo.

Mas escrever o quê? Qualquer coisa. Poesia, contos, receitas, o resumo de um livro ou de um filme, o resumo do seu dia. Bem, “qualquer coisa” desde que seja mais do que legendas no Instagram…, Pois quando buscamos algo mais profundo a cabeça e as mãos se desinibem. É uma festa. Viva!

Quero deixar aqui algumas dicas na esperança de serem úteis para o seu processo de escrita. Talvez elas te ajudem, talvez você já faça uso de algumas ou talvez elas te inspirem a buscar o seu próprio jeito. Está tudo certo.

Primeiramente, pense em escrever à mão (irei falar muito sobre isso em nossos encontros por aqui). Reserve um caderno especialmente para as suas criações. Se desejar, faça os registros a lápis se se sentir mais seguro, assim poderá apagar livremente sem deixar rasuras. Mas se tiver rasuras, está tudo bem também.

Muitas vezes, nos seus textos, você poderá sentir necessidade de buscar uma forma mais expressiva e que o agrade mais – reelabore-os. Depois, poderá passar a limpo suas criações, em um outro caderno separado ou mesmo em seu computador ou quem sabe, até mesmo em um blog como esse. Será o seu espaço de publicações, para ser divulgado sempre.

E por fim, Coloque sempre a data nas suas criações. Mostre seus textos para seus amigos. Muita gente vai gostar.

Que bom seja o seu trabalho!

Só falta começar!

Em tempo! Esse texto inaugura uma série de 8 publicações quinzenais que farei sobre o tema da escrita, reflexões sobre processos criativos, experiências e organização textual, entre outros, sempre trazendo dicas e propostas de produção.

Se você já segue o blog, ajude a divulgá-lo para mais pessoas que como você ama esse universo das palavras; se ainda não, deixo o convite para seguir e se juntar a nós. Temos muitas histórias para contar.

Forte abraço e até a próxima.

_______________________

Leandro Bertoldo Silva é o criador deste blog. Formado em Letras, pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC-MG e membro titular da Academia de Letras de Teófilo Otoni. Escritor independente, Leandro é artesão de palavras e criador de livros feitos à mão. Sua obra transita entre a literatura e a arte manual, explorando uma nova forma de escrever, produzir e compartilhar histórias, onde cada livro é único, feito com tempo, valorizando a experiência e afetividade da leitura.

OS BENEFÍCIOS DA ESCRITA

Por Leandro Bertoldo Silva

Este conteúdo está disponível em áudio como forma de trabalho inclusivo da Árvore das Letras. Acesse abaixo.

Você certamente já ouviu muito falar dos benefícios da leitura, mas já parou para pensar nos benefícios da escrita?

Engana-se quem acha que escrever é tarefa só para escritores. Certo, eu sou escritor! Mas também utilizo a escrita de outras formas, com outros objetivos e não somente para escrever livros.

A escrita está ao alcance de todas as pessoas. Mais do que contar histórias, escrever pode ser também uma forma de autoconhecimento. Falar sem medo de ser julgado ou mal interpretado, expressar sentimentos de alegria e de apreciação e também colocar para fora as nossas dores e incômodos. Esses são apenas alguns dos benefícios a serem encontrados na escrita, principalmente à mão.

Quantas pessoas você conhece que dizem não saber por onde começar a escrever?… Quantas pessoas você conhece que acham que escrever é muito difícil?… Pois quero desmistificar esse lugar e mostrar outro ponto de vista muito mais acessível, leve e de benefício sem precedentes ao alcance das suas mãos.

(Eu vou apresentar aqui) Veja a seguir algumas dicas de como essa prática pode ser incorporada no seu dia a dia. (e tenho certeza que você vai gostar)

1 – ESCOLHA UM CADERNO PARA CHAMAR DE SEU

Sim! A ideia aqui é escrever usando papel e caneta. A escrita à mão cria uma conexão maior de você com você. Há nessa relação muito mais autenticidade e personalidade. Portanto, escolha um caderno para ser o seu aconchego, te inspirar o desejo da escrita e te fazer feliz. Aqui na Árvore das Letras temos centenas, isso mesmo, centenas de opções onde cada caderno é único, ou seja, nenhum é igual ao outro. A nossa intenção é conseguir fazer um caderno que Já no corte e na costura do papel aflore os melhores sentimentos. E as capas são verdadeiras obras de arte onde se mesclam natureza e poesia, tecidos e colagens de maneira a criar a harmonia necessária para encantar.

2) – ESCREVA LIVREMENTE SEM SE PREOCUPAR COM REGRAS

A proposta é escrever sem medo. Não se preocupe com erros de ortografia, em escrever “certo” ou bonito, nem mesmo se o texto tem coerência. Não julgue. No princípio pode até parecer uma grande bagunça, ideias completamente desconexas; não importa, esse é o caminho. Lembre: ninguém precisa ler o que irá escrever, este é um exercício só seu. E não se surpreenda se no meio de tantos “entulhos” frasais aparecerem verdadeiras pérolas, insights fantásticos a serem aproveitados no futuro. Mas, atenção! Não escreva com essa intenção. Caso aconteça, ótimo! Se não… Ótimo também. O mais importante é escrever, só escrever.

3 – CRIE EM UM AMBIENTE ACOLHEDOR

Acredite: o ambiente influencia e muito a nossa disposição para escrever. Estar de frente a uma janela diante de uma flor ou mesmo em uma rede faz muita diferença. Se for escrever em seu quarto, tudo bem. Cuide para ter perto de você coisas que te tragam acolhimento e conforto. Acenda um abajur perto de você, ele proporciona uma luz aconchegante. Experimente velas ou até mesmo incensos bem suaves, se gostar. Música instrumental ajuda a deixar o ambiente ainda mais propício. Faça tudo que puder te trazer acolhimento.

4 – BUSQUE UMA REGULARIDADE DE ESCRITA, MAS SEJA GENTIL

É importante lidar com a escrita de modo a não torná-la algo obrigatório. Onde entra a obrigação acaba o prazer. Mas manter uma regularidade é necessário para se criar o hábito. Melhor escrever todos os dias, mesmo pouquinho, a escrever muito só de vez em quando. Escreva uma, duas, três páginas… É muito? Escreva meia página, um parágrafo, não importa, o importante é estar em contato com as palavras.

5 – ENCONTRE O SEU TEMPO

Se você não tem o hábito de escrever, no início pode ser um pouco desafiador. Mas você deve procurar conhecê-lo e encontrar o tempo onde você se sinta melhor e possa se entregar a essa prática. Há quem goste de escrever de manhã logo ao acordar, mas há quem prefere a noite antes de dormir. Às vezes durante a tarde seja mais interessante. Só tem uma forma de saber: experimente. Com certeza o melhor tempo irá se mostrar para você. Como irá saber? Pelo coração.

Bem, essas foram apenas algumas dicas das inúmeras existentes. Poderia listar outras tantas. Algumas podem funcionar mais outras menos. Mas o mais importante é você buscar, criar, encontrar a sua forma. O importante é não se prender em regras. A vida é bálsamo de inspiração! Até os momentos não tão bons — sim, eles existem — são fontes de crescimento onde a escrita pode tornar tudo muito mais leve e agradável.

O SEGREDO É COMEÇAR!

_______________________

Bem, espero que essas dicas tenham sido úteis e que tenham inspirado você a iniciar essa prática e colocá-la como um hábito no seu dia a dia. Tenho certeza que isso trará, de fato, muitos benefícios para você.

Se você gostou se inscreva, deixe o seu like, comente, compartilhe e aproveite tudo o que temos a oferecer nesse maravilhoso mundo pelas palavras.

Siga também o nosso canal no You Tube em:
https://www.youtube.com/@leandrobertoldosilva

Um forte abraço e até a próxima.