Sempre gostei de histórias. Os primeiros livros que li foram os clássicos “Cinderela” e o “Caso da Borboleta Atíria”, da antiga coleção vaga-lume. Hoje as coleções são mais modernas, melhoradas... Mas aqueles livros transformaram a minha vida. Lia-os de cima de um pé de ameixa, na casa de minha avó, e lá passava a maior parte do meu tempo sempre na companhia de outros livros que, com o tempo, foram ficando mais “robustos”. A partir de José Lins do Rego e seu “Menino de Engenho” fui descobrindo Graciliano Ramos, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Henriqueta Lisboa, Fernando Sabino, Murilo Rubião... Ainda hoje continuo descobrindo escritores, muitos se tornando amigos, outros pelas páginas de seus livros, como Mia Couto, Ondjaki, Agualusa. Porém, já naquela época sabia o que queria ser. Não tinha uma formulação clara, mas sabia que queria fazer parte do mundo das histórias, dos poemas, dos romances e das crônicas, pois aquilo tudo me encantava, me tirava o chão, fazia a minha imaginação voar. Hoje sou um homem feliz; casado, eterno apaixonado e pai da Yasmin. As duas, ela e a mãe, minhas melhores histórias... Mas também sou formado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC/MG, com habilitação em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, sou Membro Correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni/MG, título que muito me responsabiliza e sou um homem das palavras. Mas essas palavras tiveram um começo... O meu encanto por elas fez com que eu começasse a escrever, inicialmente para mim mesmo, mas o tempo foi passando e pessoas começaram a ler o que eu produzia. Até que a revista AMAE EDUCANDO me encomendou um conto infanto-juvenil, e tal foi minha surpresa que o conto agradou! Foi publicado e correu o Brasil, como outros que vieram depois deste. Mais contos vieram e outros textos, como uma peça de teatro encenada no SESC/MG, poemas, artigos até que finalizei meu primeiro romance - Janelas da Alma - em fase de edição e encontrei uma grande paixão: os Haicais! Embora venho colecionando "histórias", como todo homem que caminha por esta vida, prefiro deixar que as palavras falem por mim, pois escrever para mim é mais do que um ofício que nos mantém no mundo. Escrever me coloca além dele... E é por isso que a minha vida, como a de um livro, vai se escrevendo – páginas ao vento, palavras ao ar.
Oculto do mundo Entre letras me revelo Em meu submundo Escuro e profundo.
Entre letras revelo insânias paixões Sentimentos severos.
Entre letras Revelo imundas palavras Sentidas na alma Acalentadas no silêncio.
Entre letras Revelo amor não correspondido Petrificado no coração Sem ação.
Entre letras Revelo a coragem moribunda Assombrada no tempo.
Entre letras Estão as dores E as cicatrizes germinadas no tempo Acolhe quem as saiba ler.
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Nasapulo Kapiãla é angolano, colaborador e integrante da turma Paulina Chiziane da Vivência Novos Autores, da Árvore das Letras.
A Quarta Literária é uma ação da árvore das Letras de fomento à literatura independente.
Você também pode ser um correspondente literário. Participe da Vivência Novos Autores, um encontro on-line semanal de leitura e produção literária. Saiba mais AQUI.
Para responder essa pergunta talvez devemos examinar a grande literatura do mundo e nos fazer uma outra pergunta: “quem realmente fez os livros”? Isso porque autores não escrevem livros; eles escrevem textos. Bem, nem todos…
Imagine um autor que, além de escrever os seus textos, também faz os seus próprios livros, cuidando de toda cadeia produtiva. Os textos, depois de escritos, são moldados, reescritos, revisados, transformados pela edição, designer e ilustração. O autor, ele mesmo, escolhe o formato, o papel, faz a impressão e a encadernação, gerando-os ao ritmo de cada palavra ao fazê-los nascer um a um a cada costura, a cada corte e dobra de papel.
Como se não bastasse, esse mesmo autor-artesão, juntamente com sua esposa Geane Matos – https://www.instagram.com/geane_matos_huzie/ – confecciona cadernos artesanais dos mais variados por onde as histórias surgem em uma verdadeira alquimia de criatividade.
Assim passaram a existir os meus cinco livros que podem ser encontrados aqui mesmo neste site: “Janelas da Alma”, “Entrelinhas contos mínimos”, “Relicário pessoal”, “Histórias de um certo Aarão e outros casos contados” e “O menino que aprendeu a imaginar”, além de obras de outros autores que passaram a entender, eles também, o valor desse trabalho, assim como as coletâneas frutos das Vivências de leitura e escrita realizadas na Árvore das Letras. Isso por si já é uma grande alegria, mas prepará-los para enviá-los aos leitores, que também são um elemento essencial no processo, talvez o mais importante de todos, é algo extraordinário.
Inclusive, um dos momentos mais prazerosos é quando eu escrevo cartas para serem enviadas junto aos livros para os leitores como forma de valorização do que é feito à mão, demonstrando acima de tudo o lado humano, do contato real pelas palavras escritas para cada pessoa com o tempo necessário para esse ato de carinho.
Tudo isso junto é que define um escritor artífice, aquele que além de escrever faz existir os suportes de suas ideias e os livros tão sonhados. É nesse lugar que eu me encontro. Se você já conhece sabe do que estou falando. Se ainda não, venha conhecer a arte do livro e dos cadernos artesanais, as texturas, os cuidados extremos com cada detalhe, que faz dessas mesmas artes não só um produto ou objeto a ser vendido, mas uma experiência. Experiência! Como precisamos disso…
Gostava de andar nos trilhos do trem para sentir a vida passar. Ficava horas a se equilibrar na linha de braços abertos, esquecido de si. Cada passo era uma eternidade esvaindo-se de lembranças, memórias das árvores que surgiam a todo instante. Fazia-se parente do futuro e de outras gentes e pássaros e casas a se dissolverem e a se formarem continuamente. Não queria chegar a nenhum lugar, desejava apenas ir, sentir no vento a carícia dos séculos a passar, a passar, a passar…
Sonhos viajam Pelas linhas do tempo. Para onde vamos?
Quem sabe? Até onde o trem parar.
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Para mim que sempre gostei do trem como símbolo de força, de perseverança, de união e conquista, e também como uma verdadeira “máquina do tempo”, essa foto representou muito e me fez pensar em minhas escolhas pela vida… Você se sente satisfeito com quem era e com quem se tornou?
— Alô, amor! Acabei de chegar na rodoviária de Belo Horizonte.
— Que bom! A viagem foi tranquila?
— Sim, muito frio no ônibus, mas foi tudo bem.
— Oi, pai!!
— Oi, filha, tudo bem?
—Tudo. Aonde o senhor vai hoje?
— Não sei. Estou sem lenço, mas com documento. Vou andar por aí…
Assim começou minha peregrinação de um dia na cidade onde nasci. Havia chegado às 9h20 da manhã de Pompéia, em São Paulo, onde moram os meus pais, irmã e alguns outros membros da família. Pegaria outro ônibus apenas às 19h para minha cidade atual, em Padre Paraíso, no Vale do Jequitinhonha. Assim, a ocasião presenteava-me com um passeio turístico pelas ruas da capital mineira.
Era curiosa a sensação de andar pelas ruas já conhecidas como se fosse pela primeira vez. Mais curioso era o fato de diferente de 14 anos atrás, andar sem pressa, sem compromisso, algumas poucas coisas no bolso, como um bloco de notas e mãos vazias para seguir vivendo. Era bem diferente também daquele mar de gente que um dia eu fiz parte, a correr, trombar e até xingar.
Havia acomodado minha bagagem nada pequena no porta-volumes da rodoviária para andar livre ou mesmo voar como um passarinho, uma vez que as memórias criavam asas a cada esquina.
Parei no Café Nice para um lanche matinal. Já não sabia se fazia primeiro o pedido ou se pagava. O atendente, filho ou neto do dono daquele lugar, já um senhor no caixa, conversava com um amigo sobre um exame de próstata indiferente da minha dúvida. A propósito, indiferença parecia ser a tônica não só daquele lugar, mas da cidade. Havia uma atmosfera de individualismo. Mas essa era também do meu tempo.
Fui atendido, afinal, com duas fichas provavelmente as mesmas desde 1939. Tomei um café sem açúcar, agradeci e saí para a rua. Uma moça toda de preto apagava um cigarro em um poste. Olhou para mim como se eu não existisse. Ela também parecia não existir. Andei até o sinal em frente à Igreja São José.
“É melhor perder um minuto da vida do que a vida num minuto!”
Foi o que ouvi há muitos anos de uma senhora quando, ainda criança, fui atravessar correndo aquela mesma rua, naquele mesmo sinal, porém vermelho para os pedestres. Ela me segurou e proferiu essas palavras nunca mais saídas da minha cabeça. Fora um anjo a me salvar.
Resolvi atravessar a rua, agora com segurança, e entrar na Igreja para uma oração. Aproveitei e agradeci à senhora — que provavelmente não mais vivia — com um Pai Nosso e uma Ave Maria.
Segui pela Avenida Afonso Pena em direção ao Palácio das Artes. Um rapaz solava ao violão uma música de Raul Seixas. Show sem plateia. Ninguém dava atenção à belíssima execução. Um casal passou fazendo cooper. Uma mulher levou à boca uma mão cheia de pipocas, enquanto um pai fez poesia sem saber ao descer o filho do colo ávido para ir ao chão e disse: “vá, meu filho, vá ser livre.” E o menino corria desequilibrado, mas feliz. O que estaria reservado àquela criatura? Um dia eu também corri…
Cabelos, roupas, estilos todos diferentes. Carros, buzinas, o som da cidade, um pluriverso de tendências misturadas às lembranças já não mais perturbadoras, mas agradecidas. O que antes era sombrio mostrava-se claro e sereno. O mar nunca existente por aquelas terras com suas ondas rebeldes transformara-se em uma calma lagoa, como a dos barcos no Parque Municipal. Era onde eu já me encontrava depois de brincar com outras lembranças. O lugar já palco de tantos sentimentos controversos, de tantas pessoas e de tantos motivos, para mim era apreciação. Andava indiferente à dor. “Não é aquilo que você olha que importa, mas o que você vê”, diria Thoreau.
Continuei minha caminhada aleatória e como que por um costume já involuntário subi Bahia sem descer Floresta. Lá estava a viver outras épocas em companhia de Drummond, Oswald e Tarsila em lembranças emprestadas, só vistas nos livros, mas curiosamente familiares. Encontrava-me no lendário Edifício Maleta, local de boemia intelectual e ainda hoje um espaço cultural cheio de histórias a acontecer a todo instante. Como essa quando, ao subir a escada rolante há anos sem funcionar, me dirigi aos famosos sebos. Em meio a tantos, meus olhos se deparam quase instantaneamente com Lya Luft e sua “Múltipla escolha” a uma bagatela de R$5,00. Ao abrir o livro, lá estava escrito na orelha:
“A vida é um cenário com um palco e com muitas portas, e diversas maneiras de encarar esse jogo: como um trajeto, um náufrago, um poço, uma montanha. Somos, em parte, resultado das nossas próprias decisões” (…)
Não por acaso eu estava ali e não por acaso o livro também estava ali, exatamente naquele sebo, onde eu encontro um senhor sentado ao lado da gôndola, o domo do sebo. Aproximo-me:
— Lembra-se de mim?
Ele me olhou e sem pestanejar proferiu:
— Você é escritor. Esteve aqui há alguns anos – 5 mais precisamente -, deixou comigo dois dos seus livros. Eu vendi eles.
Era o Seu Demerval e tudo aconteceu exatamente como descreveu. Fiquei emocionado e pedi a ele para registrarmos uma foto que sua neta prontamente providenciou. Boas surpresas da vida.
Despedi-me do Seu Demerval e sua neta e segui caminho. Já encontrava-me na Praça da Liberdade, mas não sem antes massagear algumas lembranças – sempre elas -, como o primeiro selinho “despretensioso” da mulher que eu amo e hoje minha esposa, logo na esquina da rua; a agência bancária que anos mais tarde eu compraria e venderia nossa primeira casa quando nos casamos e tantos outros acontecimentos importantes e outros ainda sem importância nenhuma, mas que grudam em nossa alma.
Antes mesmo de adentrar a praça, uma visita surpresa a um amigo, o maior livreiro que Belo Horizonte tem a honra de possuir: Paulo Fernandes. Chego à livraria e lá está ele em seu posto atrás do balcão rodeado por tantos autores e autoras, todos eles cúmplices de sua esmerada e sensível capacidade de falar dos livros.
— Estou à procura de um livreiro.
Foi o que disse e ver como resposta o mais belo sorriso e brilho nos olhos de quem é um amigo de verdade. Paulo me deu um abraço daqueles de quebrar urso, abraço de quem é abraçado todos os dias por Cervantes, Shakespeare, Pessoa, Guimarães, Conceição Evaristo. São muitos braços em apenas dois que me amparam em seu peito. Sinto-me em aconchego na alegria de um amigo. Breves e rápidas palavras, histórias contadas em curto espaço de tempo, mas suficientes para encherem nossos corações.
Antes de sair, um presente: sem titubear, lançou mão de um livro de uma das muitas pilhas expostas. Tratava-se de “O vício dos livros”, de Afonso Cruz.
— Toma. É pra você, de aniversário. É um livro pra gente como você, eu, o Farelo e tantos que gostam de ler. Você vai amar esse livro.
Amei, mas amei ainda mais aquele gesto de alguém que me presenteou com a sua amizade.
Estava na hora de ir embora, voltar para a rodoviária, seguir meu caminho. Antes, dei uma volta pela praça. Estava a acontecer algumas apresentações culturais. Olhei as flores a fazerem parte de um livro meu e também os bancos e as árvores. Apreciei a arquitetura daquele lugar e pensei como passado e presente se fundiam e se aninhavam tão devagarinho em mim. Estava a me sentir quase completo com aquela visita. Mas faltava uma coisa muito importante. Dirigi-me à Biblioteca Municipal, onde hoje conversam divertidamente e eternamente alguns dos meus outros grandes melhores amigos: Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos, vistos de perto por Murilo Rubião. Sentei-me ao lado deles e ali tive uma boa conversa, em especial com Fernando, uma vez que me sentia como Eduardo Marciano naquele tour pelas ruas da cidade e naquele que se apresentou como um belo encontro marcado. Agradeci e pedi à bênção a todos eles por tudo que fizeram às nossas letras e principalmente a mim com suas inspirações. Agora sim, estava na hora de ir.
Fui em direção de volta à rodoviária. Meus pensamentos saltavam de um lado a outro, mas estava leve com uma profunda e curiosa sensação de vitória. Lembrei-me das vivências boas e nem tão boas que presenciei naquela cidade. Lembrei-me da correria, dos ônibus lotados, do trânsito caótico no horário do rush, dos atrasos e das incontáveis vezes preso ao volante. Mas lembrei-me dos encontros com os amigos, dos teatros e cinemas, das conversas nos bares. Lembrei-me de tudo. Mas estava na hora de deixar tudo aquilo para trás, todas aquelas lembranças, não as memórias, essas permanecem. Porque estou feliz com a minha vida atual de interiorano, de morador do Vale do Jequitinhonha, dos amigos do Mucuri, da Academia de Letras, dos alunos e ex-alunos, das amigas e amigos queridos. Eu venci. Venci a incapacidade de me adaptar, de aceitar que a vida é um ciclo de oportunidades, que devemos fazer florescer o jardim onde estamos. Sempre há algo a ser feito. E a vida sempre continua. Nada é por acaso.
Termino essa pequena historia de um dia com a fala de Xavier de Novais, um personagem de um livro meu. Agora eu o entendo mais ainda…
“Seja como for, andava como se aquela cidade já não me pertencesse. Aliás, eu não pertencia a ela, que ficou no passado. A partir daquele momento, eu apenas contaria histórias…”
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Bem, espero que tenha gostado de ler esses breves acontecimentos de um dia da mesma forma que eu gostei de tê-los escrito. São nossas memórias que nos fazem existir e ter histórias para contar. Mas é em frente que seguimos. A vida é uma página em branco cheia de possibilidades…
Moacyr Scliar, um escritor gaúcho que admiro muito, tem um conto intitulado “Pausa”.
Embora a narrativa se desenvolva em atmosfera bem diferente da que me encontro — e aqui deixo para vocês a indicação dessa leitura maravilhosa e muito, mas muito reflexiva — inspiro-me na “pausa” de Scliar para dizer a vocês que estarei me proporcionando um pequeno descanso necessário neste mês de julho, inclusive nas Crônicas de Domingo e nas Quartas Literárias.
Estarei de volta a partir de agosto que está logo ali, na esticadinha de um dedo…
Agradeço e espero a compreensão, desejo um forte abraço a todos e até logo mais com muitas histórias para ler, escrever e contar.
Vestido, toalha de mesa, cortinas e… cadernos. A chita, chamada originalmente de chint na Índia, com suas estampas florais, galhos e folhagens, espalhou-se rapidamente pela Europa, vindo parar em nosso continente, especialmente no Brasil como moeda de troca com os atravessadores de escravos.
A produção da chita em nosso país, entretanto, sofreu inicialmente impedimentos de Portugal, sendo proibida pela rainha Maria I, que determinou o desmonte dos teares brasileiros e seus envios àquelas terras.
No entanto, o algodão brasileiro chegou a abastecer as indústrias inglesas e sua produção se espalhou pela colônia, sendo que em Minas Gerais os tecidos fabricados eram tão bons que chegavam a ser enviados a outras capitanias. Com isso, apesar do alvará proibitivo da rainha, os mineiros continuaram tecendo, mesmo que clandestinamente.
Com o domínio de Napoleão na Europa e sendo o Brasil já a capital do império, a família real portuguesa se viu obrigada a fugir ao Brasil e, com isso, veio a permissão legal de produzir tecidos que eram feitos nas “chitarias”. Logo a chita se transformou em “tecido do povo”, sendo Minas Gerais um dos seus maiores produtores.
No Vale do Jequitinhonha a chita ganhou fortes significados na arte e cultura com um longo caminho pela frente e a Árvore das Letras não poderia deixar de usá-la em seu trabalho de encadernação.
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Que história, não é mesmo?
Hoje quis trazê-la aqui neste espaço para deixar dois convites para você!
Este ano estaremos levando uma das representatividades da arte do Vale do Jequitinhonha para a 35ª Feira Nacional de Artesanato, em Belo Horizonte, e muitos dos nossos cadernos e livros estarão por lá. Está aí uma ótima oportunidade para conferir de perto esse trabalho que fazemos com tanto carinho e empenho. Apareça por lá, será um grande prazer encontrar você. Não faltarão histórias para contar e coisa bonita para ver, levar, dar de presente. Vai ser uma festa!
E você pode acompanhar também nossas produções e outras histórias desse maravilhoso mundo dos livros e da encadernação em nosso perfil no Instagram. Visite-nos em @arv.das.letras.
Levanto-me cedo para ganhar o pão de cada dia. Percorro quilómetros vendendo produtos em ruas de Luanda.
De rua em rua vendo: Sacos, água fresca, cigarros, laranja, tomate, vendo tudo.
Na chuva, em sol aberto e ardente vendo. Vendo para sobreviver.
Já fui chamado “futuro do amanhã”, porém hoje vendo a minha idade.
Vendo para pagar a escola dos meus irmãos, a saúde dos meus pais.
Parti o lápis muito cedo. E desde cedo vendo os adultos sem juízo comendo tudo. Comendo até o caroço, comem até o dinheiro do povo.
Percorro descalço vendendo nas ruas de Luanda e vendo os adultos vendendo o país. ________________________
António Alexandre é angolano, colaborador e integrante da turma Paulina Chiziane da Vivência Novos Autores, da Árvore das Letras.
A Quarta Literária é uma ação da árvore das Letras de fomento à literatura independente.
Você também pode ser um correspondente literário. Participe da Vivência Novos Autores, um encontro on-line semanal de leitura e produção literária. Saiba mais AQUI.
Como podia ser tão diferente? Desde criança se mostrava o oposto dos outros miúdos. Na verdade isso era sentível na gestação. Nas consultas médicas, se as outras mães relatavam um comportamento tal, o menino, ainda em formação, apresentava-se já na morada do qual. Não por acaso nasceu sorrindo… Ao crescer queria tudo diferente. Preferia pistache a doces, não gostava de balas; na escola, na hora do recreio, preferia os livros na biblioteca — esse comportamento de livros o perseguiu a vida toda. Inclusive, o encontrou em um poema: “O menino que carregava água na peneira”. Ficou encantado! Afinal, aquele tal de Manoel o entendia. Descrevera tudo com tanta clareza! E a sua mãe era igualzinha à mãe do menino. Passou a ser chamado de “o menino dos despropósitos”.
Ao crescer continuou a encher os vazios e a fazer pedras dar flor. Não se via no lugar de todo mundo. Se todo mundo ia por ali ele ia por aqui, e não importava com os falatórios, continuava a desenhar pipas no céu.
Os anos passaram e aquele menino já era um velhinho – não gostava da palavra “idoso”; era velho mesmo e sentia orgulho disso. Rodeado de filhos, netos, sobrinhos e afilhados, reuniu-os todos para se despedir. Foi assim, ao som de canções e brindar de copos, inclusive os dele, logo após o fim da festa, ele se sentou e fechou os olhos pela última vez tão feliz, tão sereno, tão despropositado. Estava na hora de ser árvore, estrela não.
Algum tempo depois, um de seus bisnetos, outro garotinho a receber o nome de Manoel, encontrou nos guardados do avô um papelzinho todo dobrado com marcas do tempo. Ao abri-lo lá estava o segredo dos despropósitos. Nele lia-se:
São muitos caminhos. Façam suas escolhas. SUAS escolhas…
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A vida é uma grande tela em branco para ser pintada… O tempo todo. Quais são as suas cores?
Sabe aquelas histórias bem curtinhas que faz a gente até pensar que é mentira? Pois é… Aqui vai uma!
Ah, eu me lembro, eu me lembro… Foi um alvoroço naquela cidadezinha. Nunca havia acontecido um assalto, umsinho sequer para contar história. E olha que história era o que mais existia no meio daquela gente.
Mas naquela noite o falatório foi geral. Logo que o sacristão abriu a igreja para a missa das oito, alguém gritou: Cadê o Santo Antônio? Virgem Maria! O São Pedro também sumiu! E lá se foi o São João! Socorro, Ave Maria! Foi você, Marinalva? Me respeita, seu Batista! Foi a Emengarda! Queria se casar, levou o Santo Antônio e os outros pra padrinho.
E agora, São José?
No meio de toda aquela agitação um risinho se ouviu. Para espanto de todo mundo, descia em azul do manto de Nossa Senhora a própria Santa a mirar com um doce olhar o rosto de cada um.
— Como disse o poeta: “não entendo essa gente, seu moço, fazendo alvoroço demais…” É festa junina, ora essa! Santo não tira férias, mas também pode brincar, ou não pode?
Ao dizer isso, apontou para a praça da cidade toda enfeitada com bandeirolas coloridas, barraquinhas e até pau de sebo. Lá, bem no meio, estavam eles.
Que aquarela!
Quando oiei a fogueira, Antônio, João e Pedro brincavam nela…
Porque razão não há de poder os Santos pularem as suas fogueiras?
É, pensando bem, não faz mal para ninguém.
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Essa é uma história despretensiosa, de um passeio despretensioso pela cidade onde moro. Ao passar pela praça enfeitada para as festividades juninas que gosto muito, vejo uma grande fogueira. Ao olhar para a Igreja penso nos Santos lá dentro loucos para virem pra fora… Por que não?
A morte nos leva a um questionamento idiossincrático. Toda a nossa má-fé de não querer ver a realidade carregada de limitações humanas é, simplesmente, evaporada. O clima fúnebre que compadece os corações das pessoas em tempos de luto as faz solenes mesmo que durante frações de segundos. São instantes longos e angustiantes de percepção que a finitude é irrevogável. Não há sofisma ou eufemismo que maquie o inevitável fato que a morte é a única certeza absoluta da vida.
A frieza, o cinza, a melancolia, os silêncios ensurdecedores e os gritos de súplica demonstram o mais próximo de total autenticidade humana, num cenário de despedida eterna. O fim. O acabou. Já não existe mais tempo. O último grão de areia da ampulheta da vida caiu. Esvaiu-se todo o sopro de vida. Uma segunda chance? Teria feito algo diferente? Talvez outras escolhas, outras histórias, outras vivências…?
A vida para alguns consiste como um doce delicioso que é preciso apreciar com todo o deleite porque ela é finita, para outros é uma tortura interminável que se assemelha mais com o fel. A dicotomia finaliza com a morte. Pelo menos para a cultura ocidental a morte apresenta significações trágicas que simbolizam perdas. A consciência presente manifesta um sentimento nostálgico precoce e um certo ardor na alma das infinitas possibilidades que já não existem mais.
O homem sofre narcisicamente toda vez que a vida lhe mostra, estupidamente, que na verdade: ele não controla tudo e tampouco tem o poder sobre tudo. O segundo maior inimigo das pessoas depois da morte é o tempo, que quase nunca está a favor. Ele é muito mais traiçoeiro para as pessoas que amam. O que fica evidente ou pelo menos deveria ficar: estar no passado é uma corrente ilusória que impossibilita as pessoas de vi(verem) o presente. Enquanto o presente converte-se numa passagem rápida, sem perceber, sem contemplar todos os presentes e raros momentos que nunca irão se retornar.
Os presentes que a vida pode oferecer se decorre em poder estar e testemunhar a sorte de viver. De amar e ser amado. De errar e poder corrigir o erro. De pedir perdão, de perdoar e de se perdoar. De não desperdiçar a chance única de viver. De não cometer o azar de morrer em vida. Mas é só um talvez. Só se pode morrer porque está vivo. Mas há alguns mortos por aí que respiram. Tudo depende da consciência do sujeito e das suas incongruências humanas. Se por um acaso, morre-se no seu âmago toda a satisfação de se redescobrir e de ser resiliente (arte fênix exigida pela vida para exercer recomeços). Então, se trata de um defunto andante que necessita urgentemente de um sopro de vida.
Perdoar ainda se apresenta como uma ação subestimada frente à qualidade da saúde mental. Mágoas são âncoras muito pesadas que limitam as pessoas à transcendência. Ninguém consegue progredir, completamente, se estiver preso em construções passadas regidas por sentimentos negativos. Certamente, é muita energia investida em se manter preso pelo NÃO do perdão e pelo SIM do orgulho.
No entanto, ainda pode haver mais complexidade no ato em decidir se auto perdoar. Pois isso implica em reconhecimento de fraquezas e limitações. Somos seres em constância mutabilidade. Não somos sempre os mesmos e, portanto, não somos nossos erros. Os erros fazem parte de uma jornada de aprendizagem chamada: VIDA. E talvez por isso, exercer o perdão seja a forma mais compatível de demonstrar amadurecimento e evolução intrapessoal.
O mais cômico, porém com pouca graça, constitui na infeliz sem lógica do sujeito só se perceber vivo e sem tempo quando está diante da morte conceitual – finalização absoluta da esperança, do oxigênio e da realidade presente. Um resgate? Uma segunda oportunidade? Ahhhh! O tempo! O traiçoeiro tempo.
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Fabiene Lemos é psicóloga na abordagem Existencial Humanista e colaboradora da Árvore das Letras.
A Quarta Literária é uma ação de fomento à literatura independente.
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