Por Luciana G. Rugani
De vez em quando, o presente costuma me levar ao passado e, do nada, chegam até mim lembranças de tempos atrás, quais sejam: fatos, objetos, pessoas ou até mesmo a recordação de cada espaço de antigas residências nas quais vivi.
Dias atrás, uma dessas lembranças foi sobre as grades de ferro pintado que havia nas janelas do apartamento onde vivi quando criança. Lembrei-me da fala de minha mãe sobre as grades: “Elas são fortes, não soltam. Foram bem instaladas e chumbadas pelo vovô”. Ela se referia ao meu avô, pai de meu pai, que era um gênio na criatividade e nos segredos da construção civil.
E eu lembro que, de fato, as grades eram fortes! Eram de ferro, porém pintadas de cinza chumbo e, por isso, não enferrujavam. Eram compostas por, talvez, umas dez hastes horizontais e duas verticais, fora as laterais. Em todos os quartos e na sala elas estavam presentes. Morávamos no terceiro andar e elas eram a única possibilidade de garantir nossa segurança, pois ainda não existiam as telas de proteção.
Lembrei-me da segurança que eu sentia ao sentar na beira das janelas, ou ao colocar um travesseiro na beira e ali ficar deitada admirando a paisagem da cidade. Lembrei-me de como as grades permitiam que as janelas ficassem mais bonitas com a presença dos vasos de flores que minha mãe costumava organizar, afinal, se não fossem elas, não seria possível a presença de vasos ali em razão do grande risco de queda.
Em meio a essas lembranças, eis que chega a luz de uma reflexão: às vezes, os limites nos permitem ser mais livres do que seríamos na ausência deles.
Foi quando observei que hoje, por exemplo, quando vivo em um apartamento cujas janelas não têm grades, não podemos sentar no beiral, ou nos estirarmos nele com segurança para observar a paisagem. Não temos as hastes nas quais às vezes nos agarrávamos e nos imaginávamos quase a voar, ao colocarmos o rosto entre elas para tudo olhar, nos sentindo como parte de toda a amplidão daquela vista. Não podemos também ter janelas floridas, pois não temos, nas janelas, espaço com segurança para colocarmos sequer um vaso.
Os limites podem ser justamente aquilo que nos permitirá um viver mais pleno e, de fato, mais livre. Sejam eles os nossos próprios limites, ou sejam eles os limites colocados pela vida, ou pelo viver em sociedade, quaisquer que sejam podem nos levar a usufruir a vida de maneira mais real e menos ilusória. Os limites podem nos ensinar a enxergar a ilusão de liberdade que há em um vão livre; a perceber a cilada abissal à qual pode nos levar uma atrativa janela sem grades.
Os limites éticos nos conduzem a um viver com mais confiança, respeito, responsabilidade com o outro, com o meio em que se vive e responsabilidade também em preservar a boa índole e em formar um bom caráter; os limites legais possibilitam o viver em sociedade respeitando o direito alheio e abraçando todas as formas de diversidade; os nossos próprios limites, quando bem conhecidos por nós, podem nos guiar pelo aprendizado da superação e da resiliência, ou ainda nos ensinar a capacidade de adaptação e de agir com mais flexibilidade em nossas vidas.
Uma lembrança! A simples lembrança de um objeto antigo, presente nas janelas de minha infância, me permitiu refletir e entender que as grades não nos impedem de viver a liberdade real. Elas nos impedem de viver a ilusão da liberdade egoística e destruidora, nos impedem de usufruir da falsa liberdade que nos ata ao pior de nós mesmos e nos impede o autoaprimoramento. Elas nos convidam a enxergá-las e nela nos apoiarmos para crescer sem grandes quedas e para voarmos pela vida sem nos precipitarmos aos abismos em queda livre.
É conveniente que nos lembremos das grades na janela sempre que sentirmos o ímpeto atrativo do ilusório canto de liberdade a nos convidar a um mergulho na vida de qualquer maneira. Seja na vida presencial, ou na vida virtual, elas podem nos ajudar a ser pessoas melhores, mais lúcidas, mais preparadas para lidar coletivamente e mais conscientes da interdependência que rege toda a vida humana.
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Luciana Gonçalves Rugani é escritora e poeta. Natural de Belo Horizonte (MG), tornou-se também cidadã cabo-friense ao receber, da Câmara Municipal da cidade, o Título de Cidadania Cabo-friense. É membra das academias de Letras e Artes de Cabo Frio – ALACAF, de Letras de São Pedro da Aldeia – ALSPA, de Artes, Ciências e Letras de Iguaba Grande – AACLIG e da Associação das Jornalistas e Escritoras do Brasil, coordenadoria Minas Gerais – AJEB-MG. Colunista da Revista Digital Aldeia Magazine, participou de diversas antologias lançadas no Brasil e em Portugal. Foi selecionada, pelos curadores da Lura Editorial e entre autores de todo o país, para participar da antologia “Leituras à Beira-mar”. Recebeu o “Prêmio Cidade São Pedro da Aldeia de Literatura” concedido pela Associação Internacional de Escritores e Artistas – Literarte, o Prêmio Cultural Caiçara, concedido pela ALACAF e pela ALSPA e o título de “Doutora Honoris Causa em Literatura”, concedido pela ALSPA. Possui publicado um livro de poesias e crônicas intitulado “Mar de Palavras”, que originou o audiolivro de mesmo nome, disponível nas principais plataformas digitais de streaming. Idealizadora dos projetos “Sarau 15 Minutos” e “Arte na Rede”, promovidos em suas redes sociais. É autora do blog “Cantinho das Ideias”. Foi vencedora do 3º lugar do Prêmio Teixeira e Sousa de Literatura, da Prefeitura de Cabo Frio, ano 2023, gênero “poema”. Recebeu o troféu “Destaque Cultural 2024” da ALACAF e o Certificado de Excelência Cultural 2024 da ALSPA.
