Por Leandro Bertoldo Silva
Foi em uma segunda-feira de manhã de 1980 quando, ao entrar naquela sala de aula e me deparar com o quadro verde cuidadosamente desenhado por letras tão bem torneadas pela professora, que tive a minha primeira grande transformação. Estava eu com sete anos no então primeiro ano do ensino fundamental. Sim, naquela época íamos para a escola mais tarde. Tudo era muito diferente…
Não entendia os escritos, mas os copiava subindo e descendo o lápis na folha de papel. No início nada era mais torto, cheio de garranchos, às vezes grandes demais, outras vezes tão minúsculos, tudo na tentativa de ser fiel ao modelo. Mas de alguma forma sentia como se tivesse encontrado o paraíso. A mão da professora sobre a minha conduzia-me cada vez mais dia após dia naquela tarefa em busca da perfeição. Aos poucos, as letras sorriam ao ganhar contornos e sons. Enquanto a mão escrevia os olhos liam. A vida ganhava forma e o mundo se se abria diante de mim.
Nunca mais deixei de escrever. E escrever à mão pelas razões que passo a dizer.
Escrever à mão reflete de uma maneira muito nítida e peculiar quem nós verdadeiramente somos e a nossa forma de enxergar o mundo em seus vários aspectos e momentos. Isso se evidencia a partir da nossa própria caligrafia. Por exemplo, quando estamos apressados ou nervosos, a nossa letra se torna quase ilegível em muitos casos até para nós mesmos. Mas se formos escrever para alguém que gostamos muito, caprichamos e a letra ganha traços e desenhos rebuscados. Quem é do tempo das cartas de amor sabe bem disso. E não venham achar as cartas de amor ridículas! Como diz o poeta Fernando Pessoa, “ridículo é quem nunca escreveu cartas de amor”.
Tanto um tipo de letra quanto o outro espelha a nossa personalidade e nos traduz como seres humanos. Se eu estou ansioso, a minha letra me denuncia; se eu estou feliz ou esperançoso, ela também evidencia. Percebe o quanto o ato de escrever à mão é essencialmente humano?
Embora a escrita digital tenha a sua relevância nos dias de hoje, principalmente pela praticidade e rapidez e também pela facilidade proporcionada em alguns casos até mesmo físicos, ela, diferente da outra, padroniza os sentimentos os quais precisam ser explicados para as emoções serem compreendidas.
Isso não acontece com a escrita à mão. Um traço mais forte, um leve tremor, nos diz muito além das palavras. Há aqui um contato mais próximo com as nossas emoções. Nesses momentos, as letras ilustram as falas do coração, a alma se desdobra nos caminhos da aventura, das incertezas e possibilidades e transformam-se em poesia, não apenas a poesia da arte, mas a poesia da vida.
Nos tempos pré-históricos isso já acontecia. As pinturas rupestres, não por acaso, eram ilustrações. Ali eram compartilhadas aventuras de caça, contagem de tempo e até histórias de amor, como mostrado recentemente nas redes sociais a imagem de um suposto beijo entre os nossos mais antigos ancestrais. Fico a imaginar o momento exato desse registro. Certamente foi bem mais expressivo ao se comparar com os dias de hoje quando digitamos em um teclado de computador ou pelo bloco de notas do celular. Percebe como a poesia acaba de ser quebrada?
Não há dúvida de esses meios modernos serem muito mais rápidos e práticos, mas, até mesmo por isso, impedem o tempo das esperas e tornam-se muitas vezes descartáveis e perigosamente suscetíveis ao desaparecimento, bem diferente dos desenhos das cavernas e das linhas no papel.
Escrever à mão, portanto, é uma forma não apenas de sobrevivência, mas de permanência, onde a letra ganha traços de personalidade até mesmo espiritual, porque aquilo que registramos em palavras é o reflexo dos nossos mais profundos sentimentos. Podem guardar lembranças, revelar verdades, construir amores e uma infinidade de possibilidades, tudo ali, ao alcance das mãos. Não é maravilhoso?
Por isso eu deixo uma pergunta — mais uma — para não ser respondida rapidamente: em meio ao mundo moderno, qual é a sua letra?
Em tempo! A primeira versão desse texto foi escrita à mão, em um dos meus cadernos artesanais. Talvez por isso ele ainda carregue o som do lápis no papel…
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Leandro Bertoldo Silva é o criador deste blog. Formado em Letras, pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC-MG, é membro titular da Academia de Letras de Teófilo Otoni. Escritor independente, Leandro é artesão de palavras e criador de livros feitos à mão. Sua obra transita entre a literatura e a arte manual, explorando uma nova forma de escrever, produzir e compartilhar histórias, onde cada livro é único, feito com tempo, valorizando a experiência e afetividade da leitura.
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