Por Luzia Maria de Souza
Do nada surge aquele homem, manso, de poucas palavras e comunica que precisaria de uma informação de todos nós. Até aí tudo bem. Ele era o chefe e podia mesmo pedir ou querer quase tudo. E ele era um chefe do tipo “boa praça”. Muito tranquilo. Gostávamos muito dele. Pois sabíamos que ele se importava conosco.
Ele se comunicava pouco, mas sorria com frequência e sempre se colocava a nossa disposição. Gostava de nos ouvir e sempre se mostrava interessado de verdade, ao final de qualquer diálogo ou ordem dada.
Porém, naquele dia ele parecia preocupado. Estava amuado, ligeiramente assustado e apreensivo.
Por detrás de uma bancada improvisada com pedaços de tábuas, estava ele com aquele olhar estranho. Em cima da “bancada” havia pequenas pilhas de papel limpos, novos e outros para aproveitamento do verso. Havia também potes com canetas e lápis e borrachas… Então veio a ordem:
— preciso que escrevam no papel (e apontou para os que estavam disponíveis na mesa) o endereço de e-mail de vocês.
Tarefa simples… Será?
Os semblantes tranquilos e brincantes colocaram os dedos ágeis pra trabalhar alcançando papéis e canetas e adotando uma postura, para em pé mesmo, cumprir a tarefa dada por ele.
Ele, por sua vez, apoiou as duas mãos na bancada e abaixou a cabeça como quem, olhando pro chão, implora que dê certo.
Havia um burburinho que aos poucos foi se tornando frenético. Papéis sendo embolados e jogados fora ou de volta na mesa, canetas e lápis sendo trocados, como se os objetos apresentassem algum defeito e não estivessem ajudando. Havia também entre os papéis, impressões com defeitos ou erros e estavam ali pra reaproveitamento do verso. Uns pareciam fragmentos de documentos importantes, mas ninguém compreendia o que estava escrito ali. Nós conhecíamos as letras, mas algo tornou impossível a nossa compreensão. Aquela carreirinha de letras não significava absolutamente nada pra nós. Nada ali fazia sentido.
Tentamos uma, duas, três e mais um monte de vezes e o tal endereço do e-mail não se concluía. Os rabiscos pareciam ter vida própria. Tomavam formas de palavras que não compreendíamos. Nossos punhos estavam em brasa pelo esforço e pelo desespero.
Olhávamo-nos pra ver se alguém havia concluído aquela tarefa que naquele momento parecia impossível. Envergonhados e assustados, sem entender o que estava acontecendo, fomos, aos poucos saindo daquele lugar e deixando ali nossa frustação por não mais sermos capazes de ler ou escrever um simples manuscrito. Pois era como se naquele momento, uma densa névoa surgisse e ofuscasse nossa vista e nosso sentido para que não tivéssemos acesso a nenhuma trilha onde a escrita pudesse nos encontrar.
Estávamos emburrecidos!
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Sou a Luzia Maria de Souza, mãe do Silas e do André. Filha da Carminha e do Duca. Irmã da Lina, da Letícia, do Alan e da Laíse. Esposa do Fernando de Bulhões. Sou escancaradamente amante da vida, da alegria, da música, do movimento e de gente! Estou dando meus primeiros passos como escritora. Mas gosto mesmo é de registrar minha própria história e navegar em minhas memórias e reflexões. Afinal, sou o resultado das coisas que vivi, do convívio com pessoas que passaram por mim e deixaram marcas em minha vida.
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