ASSISTI AO MEU PRÓPRIO FUNERAL

Por Tomé Nasapulo Kapiãla

Sonho — essa oficina invisível onde a vida ensaia os seus próprios juízos — levou-me a um prognóstico pouco vulgar: assisti ao meu próprio funeral. Não como fantasma vingativo, mas como espectador lúcido, sentado na primeira fila da eternidade provisória.

Estava tudo impecavelmente arrumado, como convém a uma cerimónia fúnebre de alguém “como eu”: humilde sujeito, dizem, que esteve à altura dos desafios — ou pelo menos tentou, o que, convenhamos, já é um mérito em tempos de desistências prematuras. O caixão brilhava mais do que muitos currículos vivos, e as flores, essas, pareciam competir entre si para ver qual chorava com mais perfume.

Ouvi elogios comoventes à minha trajectória terrena.   Discursos lapidados, palavras que em vida nunca encontraram coragem de sair da boca de quem agora as declamava com voz trémula e consciência leve. Também vi os outros — os silenciosos satisfeitos — aqueles que, por dentro, brindavam: “menos um adversário, e este ainda por cima era ético, comprometido e competente; graças a Deus, foi-se.” A morte, afinal, promove confraternizações improváveis.

Ali permaneci, inerte, sem poder levantar a mão e dizer: “meus caros, era só ter dito isso em vida.” A hipocrisia desfilava com gravata preta e lágrimas emprestadas. Amigos autoproclamados, aliados de causas comuns, companheiros de trincheira que afinal só marchavam enquanto havia holofotes.

Vi os meus pais curvados pela dor impossível — essa dor que nenhum pai deveria experimentar, porque o instinto natural manda que sejam os filhos a fechar os olhos dos pais, e não o contrário. Aquele instante ensinou-me que nenhuma conquista no mundo compensa um coração paterno em ruínas.

Vi o meu filho. Ah, o meu filho… A expressar um amor absoluto, intenso, sem reservas — da forma mais bonita que nunca ousara enquanto eu respirava. Talvez por timidez, talvez por achar que o pai é eterno. Engano clássico: pais não são eternos; são urgentes.

A minha esposa, enfim, reconheceu ali, diante de todos, que eu fazia falta.  Que eu dava tudo por ela e pela família. Disse-o agora, quando já não havia resposta, quando o diálogo se tornara monólogo tardio.   Destino curioso este, que ensina depois da prova final.

E, na esquina discreta da cena, quase invisível aos olhos oficiais do luto, estava Lindalva — a namorada invisível para muitos, mas presente em todos os meus silêncios. Enquanto a atenção se concentrava na viúva, ela permanecia ali, fiel como sombra ao entardecer. Esteve sempre ao meu lado, às escondidas, acalmando-me quando a vida apertava. Nem discursos, nem coroas — apenas presença. Às vezes, amar é isso: existir sem aplauso.

Acordei antes que a terra me cobrisse por completo. E acordei com uma lição simples, mas cruelmente eficaz: não esperes o funeral para dizer o que importa. Não reserves flores para quem ainda pode sentir o perfume. Não transformes a morte em palco da sinceridade que a vida recusou.

Porque, no fim, o funeral não é para o morto — é um espelho impiedoso para os vivos. E se tiver de assistir ao meu de novo, que seja apenas para confirmar que não deixei palavras por dizer, abraços por dar, nem verdades por assumir.

Até lá, sigo vivo. Com urgência. Com juízo. E, se possível, com menos hipocrisia à minha volta — inclusive a minha.

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Emílio Tomé Cinco Reis de pseudónimo literário Tomé Nasapulo Kapiãla, angolano, natural da província do Huambo, planalto central, licenciado em Geologia faculdade de ciências naturais, universidade pública, Agostinho Neto. É professor do ensino secundário do 2° ciclo do Liceu Público N° 4019 ex-IMNE de Cacuaco “24 de Junho”, lecciona a disciplina de Física e dirigente comunitário da comunidade dos Imbondeiros Cacuaco, província de Luanda.

DE ONDE VÊM AS HISTÓRIAS? A ESCRITA COMO PASSAGEM

Por Leandro Bertoldo Silva

É comum as pessoas perguntarem a quem escreve de onde vêm as histórias. Provavelmente de um lugar sagrado somente acessado pelos escolhidos, pensam alguns; ou, quem sabe, dos privilegiados, daqueles a quem o talento fez morada, pensam outros.

Nada disso, porém, condiz com a verdade ou pouco valor tem essas palavras.

Quanto ao talento, é inegável a sua existência, mas ele é algo possível de ser alcançado com dedicação, paciência e persistência. Portanto, nada de extraordinário existe aqui.

A respeito de virem de um lugar sagrado, lembro-me de Alberto Caeiro:

“Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. É incrível que se possa pensar em coisas dessas. É como pensar em razões e fins quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão”.

Isso mesmo! Obrigado, Caeiro. Sagrado pode até ser o ato de escrever, mas não se trata de um lugar mágico, sobrenatural. A não ser que consideremos todo e qualquer — isso mesmo — “qualquer” lugar como sagrado.

A escrita acontece ao nosso redor: à frente, atrás, dos lados, em cima e em baixo, até por dentro… Basta termos olhos para ver e ouvidos para escutar. Se nos colocarmos atentos, veremos histórias a brotarem literalmente do chão, a saírem de um elevador ou a entrarem em um ônibus; quem sabe em um sinal fechado… “Olá, como vai?” “Eu vou indo, e você, tudo bem?” Não há como não ter respostas…

Possuo inúmeras provas do que estou a dizer, mas quero relatar dois acontecimentos recentes, um após o outro.

Estava no centro da cidade de Teófilo Otoni com minha filha quando ouvimos um tanto de bem-te-vis. Para nossa surpresa um estava bem perto de nós, mas não tinha asas… Era um velhinho com um sorriso e uns olhos de poesia que eu não via há muito tempo. Ele olhava para o alto e literalmente conversava com os bem-te-vis. Ele assoviava e os passarinhos respondiam imediatamente. Os passarinhos cantavam e ele respondia. Bem-te-vi pra lá, bem-te-vi pra cá, e tudo no meio da rua, com carro e gente a passar. Só eu e minha filha reparávamos deslumbrados o velhinho de olhos de poesia a sorrir e a conversar com os amigos do céu. Logo me surgiu um haicai:

No meio da rua
um velho conversava
com os passarinhos.

Ali, bem diante de nós estava a acontecer uma história. Simples, mas potente.

O outro acontecimento (a ida a Teófilo Otoni rendeu muitas histórias) surgiu no caminho, quase a chegar à cidade. Em um determinado ponto da estrada há um “cemitério de carros”, com uma infinidade deles, todos muito destruídos. Pois não é que alguém teve a brilhante ideia de espalhar bonecas namoradeiras por alguns deles? Aí não teve jeito…

Essa eu até fotografei e deixo aqui como prova…

Percebe? As histórias se mostram em todos os lugares e momentos, incessantemente. E a escrita pode correr fácil, naturalmente. Claro, existem alguns caminhos e atalhos que podem ajudar nessa travessia entre a história e o texto. Eu ainda vou falar muito sobre isso, mas o importante é saber que não é preciso subir alguma montanha ou jejuar 30 dias ou fazer qualquer outra prática ascética para escrever. Basta começar. As histórias já existem, não precisam ser criadas, só precisam ser descobertas.

É como quando Michelangelo foi perguntado como ele conseguiu fazer a estátua de Davi, considerada sua grande obra-prima, tão linda e perfeita, e ele respondeu que nada fez; a escultura já existia dentro do bloco de mármore, ele apenas tirou os excessos…

Escrever é assim: deixar os dedos trabalharem a conduzir o lápis ou a caneta pelo papel (minha preferência) ou pelas teclas do computador  no início sem receios, sem preconceitos, livre de qualquer amarra. Escreva, simplesmente escreva, desinibidamente. Permita a história repousar no papel. Depois volte ao texto, retire o desnecessário e deixe a história respirar. Viva! Ela existe.

Frei Betto, no livro “O dia de Ângelo”, traduz com mestria o ato de escrever. Fiquei tão impactado quando li por ser exatamente como me sinto que deixo aqui, para encerrar, um recorte de suas palavras. Disse ele: “Escreve-se assim: toma-se um punhado de palavras que escorrem céleres por veias, artérias, músculos e mãos, derramando-se entre os dedos; esparrama-se sobre folhas secas brancas, dispondo-as ordenadamente, de forma que traduzam ideias, sentimentos, emoções, recordações, visões e propósitos. Respeite a respiração das palavras. Isso que a gramática chama de pontuação. Deixa que elas descansem ao fim de um conceito, recobrem forças antes de iniciar nova frase, estejam cadenciadas por vírgulas e pontos nas orações. Não exija delas fôlego maior do que possuem e saiba que encerram curioso mistério, pois as mesmas palavras que servem para registrar o mais insípido documento de cartório prestam-se igualmente para compor as mais belas obras literárias. Elas formulam sentenças de morte e esperança de vida, bulas de veneno e declarações de amor, anúncios de guerras e tratados de paz. E, quando lapidadas pela sensibilidade e pela intuição, delas brotam poesias, tropéis ritmados sobre nuvens. Servem inclusive à própria loucura. Nesse caso, dizem coisas que nem mesmo o raciocínio consegue conter e que extrapolam as leis da grafia e da sintaxe, pois refletem essa irreprimível necessidade de exprimir o imponderável, de escrever o absurdo, de revelar o absoluto”.

Bem, espero que possam ter encontrado a coragem que faltava ou aprimorar a já existente para fazer dos seus momentos histórias incríveis a saírem da alma e do coração. A escrita pede passagem, deixe-a nascer sem perfeccionismo. Primeiro escreva, depois lapide-a, mas, acima de tudo, liberte-a.

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Leandro Bertoldo Silva é o criador deste blog. Formado em Letras, pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC-MG, é membro titular da Academia de Letras de Teófilo Otoni. Escritor independente, Leandro é artesão de palavras e criador de livros feitos à mão. Sua obra transita entre a literatura e a arte manual, explorando uma nova forma de escrever, produzir e compartilhar histórias, onde cada livro é único, feito com tempo, valorizando a experiência e afetividade da leitura.

AS CATACUMBAS DO MIADO

Por Ricardo Albino

Será que a Carolina ama gatos porque eles têm sete vidas pra recomeçar?

Por falar nelas, certa noite a moça encontrou um casal, ainda filhotes bem no lugar onde, teoricamente, vida não tem mais: O cemitério!

Fiquei eu daqui a pensar o que os felinos de bigode foram fazer lá… Será que marcaram um encontro secreto para espiar a lua sem ninguém vê? Será que foram visitar algum amigo que partiu para as Catacumbas do Miado? Se for esse o motivo, será que o possível defunto já gastou as sete vidas? Foi morte matada ou morrida?

Então é bem provável que os amigos do morto foram enganar a Dona Morte e ressuscitar o parça que até o momento, não sabemos se era gato Persa.

Como era o nome do felino que partiu daqui para a terra dos pés juntos? Seria Gasparzinho? Talvez seja exatamente por isso que os outros chegaram tão depressa. Devem se chamar Fantasminha e Camarada. Quem sabe um deles seja Zumbi, o miador da meia noite? 

Mas, e a Carol, o que fazia ali naquela hora? No interior, quando morre alguém é costume se despedir bebendo o morto. Sendo assim, Carolina deve ter ido levar leite no pratinho para Fantasminha e Camarada darem um tchau para o amigo.

Aproveitando o passeio inusitado para que os dois gatinhos não ficassem com fama de meliantes na redondeza, Carol levou suas novas crianças de patas para casa e deu os nomes de Pastel para o amarelo e Sushi para o preto e branco.

É por essas e outras que, reza a lenda, o pastel de feira mais gostoso é feito com carne de gato. Eu continuo comendo, até que a morte nos separe!

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Sou Ricardo Flávio Mendlovitz Albino. No mundo da contação de história todos me conhecem por Ricardo Albino. Tenho 47 anos, nascido e criado em Belo Horizonte, jornalista formado em 2006, pelo Centro Universitário de Belo Horizonte – UNI BH, contador de histórias formado pelo Instituto Cultural Aletria, em 2015, criador da página Ricontar Histórias, em 2017, e do canal de mesmo nome no You Tube, em 2021. Cadeirante, idealizei no canal o podcast Ricontar para unir histórias, meu amor pelo rádio, acessibilidade e inclusão.

A SURPRESA DA EMENGARDA

Por Pierre André

Hoje eu acordei era cedo
Com alguém cantando lá fora.
Mas quem poderia ser
Justamente àquela hora?

Fui olhar pela janela
Com uma preguiça danada.
Tinha que saber quem era.
Não me custava nada.

De repente, o canto parou.
Então fiquei ali quietinho.
Mas não demorou muito
Começou de novo, baixinho.

Depois foi aumentando.
Eu não estava entendendo.
E minha curiosidade, ai, ai, ai…
Começou e foi crescendo.

Tive então que me decidir
E resolvi me levantar.
Estava ainda sonolento.
Fui andando devagar.

Aquele cantado não parava,
Mas como era desafinado
Pensei em voltar pra cama
Deixando aquele canto de lado.

Voltei pra cama pensando:
Deito lá e me esqueço…
Mas de quem seria a voz?
Deve ser de quem conheço.

Mas por que não chama?
Fica lá fora só cantando!
Então levantei e fui decidido.
Mas fui devagar, andando.

E o danado daquele canto
Continuou foi cantando.
E a minha curiosidade
Ia só é aumentando.

Abri então a janela…
Aquela voz engraçada.
Meu Deus, que surpresa!
Era dela, da Emengarda.

Disparado, batia acelerado
Dentro do peito, meu coração.
E ainda estava ao seu lado
Seu marido, o Sebastião.

Emengarda, acreditem!
Vestia sete saias de filó…
Quem acreditou, acreditou,
Mas ela vestia era uma só.

E no dedo de uma patinha,
Desta vez pode acreditar!
Tinha um lindo e belo anel,
Aquele que recebeu no altar.

Os sapatos, a saia encobria.
Não deu para eu reparar.
Desses então, lamento,
Mas não posso comentar.

Vocês devem querer saber
Da cama dela e de Sebastião.
Eu também estou curioso.
Será que é de marfim, ou não?

Tinha um carrinho ali ao lado…
– Que carrinho é esse, hein?…
Perguntei pra Emengarda.
– Ora, é o carrinho do nosso neném.

Ao ver no carrinho uma baratinha,
Meu Deus… Que coisa mais linda!
– Emengarda, qual é o nome dela? Perguntei.
– Ela se chama Emerlinda!

E viemos lhe trazer um convite
Com todo amor e carinho.
Quer ser de Emerlinda,
Como já é nosso, padrinho?

Fiquei até sem palavras
Naquele lindo momento.
Se tiver mais surpresas
Sinceramente, não aguento.

Contar pra vocês essa história
Foi tanta emoção que nem acreditei.
Mas que virei padrinho
De uma baratinha, isso eu virei.

E a partir daquele dia
Emengarda, Sebastião,
Emerlinda e o padrinho “babão”
Continuaram muito felizes.

É verdade, não é mentira não.

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Pierre André e seu suposto texto de apresentação…

Vê se pode… O menino queria fazer de conta que o faz-de-conta se desfez. Vou deixar não… Pensei. E tentei desfazer essa ideia maluca dele. Ainda bem que dei conta. Agora faz de conta que eu num dô conta… Não teria escrito esses escritos para vocês. Quero falar de mim não. Meus textos já falam…




POR QUE ESCREVER À MÃO AINDA IMPORTA?

Por Leandro Bertoldo Silva

Foi em uma segunda-feira de manhã de 1980 quando, ao entrar naquela sala de aula e me deparar com o quadro verde cuidadosamente desenhado por letras tão bem torneadas pela professora, que tive a minha primeira grande transformação. Estava eu com sete anos no então primeiro ano do ensino fundamental. Sim, naquela época íamos para a escola mais tarde. Tudo era muito diferente…

Não entendia os escritos, mas os copiava subindo e descendo o lápis na folha de papel. No início nada era mais torto, cheio de garranchos, às vezes grandes demais, outras vezes tão minúsculos, tudo na tentativa de ser fiel ao modelo. Mas de alguma forma sentia como se tivesse encontrado o paraíso. A mão da professora sobre a minha conduzia-me cada vez mais dia após dia naquela tarefa em busca da perfeição. Aos poucos, as letras sorriam ao ganhar contornos e sons. Enquanto a mão escrevia os olhos liam. A vida ganhava forma e o mundo se se abria diante de mim.

Nunca mais deixei de escrever. E escrever à mão pelas razões que passo a dizer.

Escrever à mão reflete de uma maneira muito nítida e peculiar quem nós verdadeiramente somos e a nossa forma de enxergar o mundo em seus vários aspectos e momentos. Isso se evidencia a partir da nossa própria caligrafia. Por exemplo, quando estamos apressados ou nervosos, a nossa letra se torna quase ilegível em muitos casos até para nós mesmos. Mas se formos escrever para alguém que gostamos muito, caprichamos e a letra ganha traços e desenhos rebuscados.  Quem é do tempo das cartas de amor sabe bem disso. E não venham achar as cartas de amor ridículas! Como diz o poeta Fernando Pessoa, “ridículo é quem nunca escreveu cartas de amor”.

Tanto um tipo de letra quanto o outro espelha a nossa personalidade e nos traduz como seres humanos. Se eu estou ansioso, a minha letra me denuncia; se eu estou feliz ou esperançoso, ela também evidencia. Percebe o quanto o ato de escrever à mão é essencialmente humano?

Embora a escrita digital tenha a sua relevância nos dias de hoje, principalmente pela praticidade e rapidez e também pela facilidade proporcionada em alguns casos até mesmo físicos, ela, diferente da outra, padroniza os sentimentos os quais precisam ser explicados para as emoções serem compreendidas.

Isso não acontece com a escrita à mão. Um traço mais forte, um leve tremor, nos diz muito além das palavras. Há aqui um contato mais próximo com as nossas emoções. Nesses momentos, as letras ilustram as falas do coração, a alma se desdobra nos caminhos da aventura, das incertezas e possibilidades e transformam-se em poesia, não apenas a poesia da arte, mas a poesia da vida.

Nos tempos pré-históricos isso já acontecia. As pinturas rupestres, não por acaso, eram ilustrações. Ali eram compartilhadas aventuras de caça, contagem de tempo e até histórias de amor, como mostrado recentemente nas redes sociais a imagem de um suposto beijo entre os nossos mais antigos ancestrais. Fico a imaginar o momento exato desse registro. Certamente foi bem mais expressivo ao se comparar com os dias de hoje quando digitamos em um teclado de computador ou pelo bloco de notas do celular. Percebe como a poesia acaba de ser quebrada?

Não há dúvida de esses meios modernos serem muito mais rápidos e práticos, mas, até mesmo por isso, impedem o tempo das esperas e tornam-se muitas vezes descartáveis e perigosamente suscetíveis ao desaparecimento, bem diferente dos desenhos das cavernas e das linhas no papel.

Escrever à mão, portanto, é uma forma não apenas de sobrevivência, mas de permanência, onde a letra ganha traços de personalidade até mesmo espiritual, porque aquilo que registramos em palavras é o reflexo dos nossos mais profundos sentimentos. Podem guardar lembranças, revelar verdades, construir amores e uma infinidade de possibilidades, tudo ali, ao alcance das mãos. Não é maravilhoso?

Por isso eu deixo uma pergunta — mais uma — para não ser respondida rapidamente: em meio ao mundo moderno, qual é a sua letra?

Em tempo! A primeira versão desse texto foi escrita à mão, em um dos meus cadernos artesanais. Talvez por isso ele ainda carregue o som do lápis no papel…

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Leandro Bertoldo Silva é o criador deste blog. Formado em Letras, pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC-MG, é membro titular da Academia de Letras de Teófilo Otoni. Escritor independente, Leandro é artesão de palavras e criador de livros feitos à mão. Sua obra transita entre a literatura e a arte manual, explorando uma nova forma de escrever, produzir e compartilhar histórias, onde cada livro é único, feito com tempo, valorizando a experiência e afetividade da leitura.

EMBURRECIDOS

Por Luzia Maria de Souza

Do nada surge aquele homem, manso, de poucas palavras e comunica que precisaria de uma informação de todos nós.  Até aí tudo bem. Ele era o chefe e podia mesmo pedir ou querer quase tudo. E ele era um chefe do tipo “boa praça”. Muito tranquilo. Gostávamos muito dele. Pois sabíamos que ele se importava conosco.

Ele se comunicava pouco, mas sorria com frequência e sempre se colocava a nossa disposição. Gostava de nos ouvir e sempre se mostrava interessado de verdade, ao final de qualquer diálogo ou ordem dada.

Porém, naquele dia ele parecia preocupado. Estava amuado, ligeiramente assustado e apreensivo.

Por detrás de uma bancada improvisada com pedaços de tábuas, estava ele com aquele olhar estranho. Em cima da “bancada” havia pequenas pilhas de papel limpos, novos e outros para aproveitamento do verso. Havia também potes com canetas e lápis e borrachas… Então veio a ordem:

— preciso que escrevam no papel (e apontou para os que estavam disponíveis na mesa) o endereço de e-mail de vocês.

Tarefa simples… Será?

Os semblantes tranquilos e brincantes colocaram os dedos ágeis pra trabalhar alcançando papéis e canetas e adotando uma postura, para em pé mesmo, cumprir a tarefa dada por ele.

Ele, por sua vez, apoiou as duas mãos na bancada e abaixou a cabeça como quem, olhando pro chão, implora que dê certo.

Havia um burburinho que aos poucos foi se tornando frenético. Papéis sendo embolados e jogados fora ou de volta na mesa, canetas e lápis sendo trocados, como se os objetos apresentassem algum defeito e não estivessem ajudando. Havia também entre os papéis, impressões com defeitos ou erros e estavam ali pra reaproveitamento do verso. Uns pareciam fragmentos de documentos importantes, mas ninguém compreendia o que estava escrito ali. Nós conhecíamos as letras, mas algo tornou impossível a nossa compreensão. Aquela carreirinha de letras não significava absolutamente nada pra nós. Nada ali fazia sentido.

Tentamos uma, duas, três e mais um monte de vezes e o tal endereço do e-mail não se concluía. Os rabiscos pareciam ter vida própria. Tomavam formas de palavras que não compreendíamos. Nossos punhos estavam em brasa pelo esforço e pelo desespero.

Olhávamo-nos pra ver se alguém havia concluído aquela tarefa que naquele momento parecia impossível. Envergonhados e assustados, sem entender o que estava acontecendo, fomos, aos poucos saindo daquele lugar e deixando ali nossa frustação por não mais sermos capazes de ler ou escrever um simples manuscrito. Pois era como se naquele momento, uma densa névoa surgisse e ofuscasse nossa vista e nosso sentido para que não tivéssemos acesso a nenhuma trilha onde a escrita pudesse nos encontrar.

Estávamos emburrecidos!

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Sou a Luzia Maria de Souza, mãe do Silas e do André. Filha da Carminha e do Duca. Irmã da Lina, da Letícia, do Alan e da Laíse. Esposa do Fernando de Bulhões. Sou escancaradamente amante da vida, da alegria, da música, do movimento e de gente! Estou dando meus primeiros passos como escritora. Mas gosto mesmo é de registrar minha própria história e navegar em minhas memórias e reflexões. Afinal, sou o resultado das coisas que vivi, do convívio com pessoas que passaram por mim e deixaram marcas em minha vida.