
Por Regina Lúcia Caminha Tôrres
Buscava um fio de meada para tecer uma história sobre delícias da minha infância.
Buscava algo novo no meu baú de memórias e, de repente, aflorou! Quantos momentos deliciosos compartilhei com minha mãe Efigênia em volta do seu cadernão de receitas escritas a mão, recortes de jornais e revistas. O caderno está agora em minhas mãos,
É um caderno 23X32 cm, capa grossa, forrado de pano grosso, costurado com barbante e tem um selo “ Índice do Imposto Territorial Rural da Coletoria Estadual”. Suas páginas têm linhas para a escrita e linhas vermelhas separando para contabilidade e em cada pág. está escrito: “nome do contribuinte, número do livro, folhas do livro, no. da inscrição”. Deve ter sobrado no almoxarifado da Coletoria Estadual, após a introdução do primeiro computador na Secretaria da Fazenda de MG que, tenho notícia, foi implantado por meu pai Afonso Soares Caminha na década de 50 ou 60. Disseram-me que era imenso e ocupava uma sala inteira!
Só agora percebi o invólucro ou capa que narrei para vocês. O caderno já está esbeiçado, o urdume está se desfazendo, as folhas estão amareladas e rasgadas em vários pontos pelo uso. A maior parte das receitas estão escritas a lápis, com a linda caligrafia de minha mãe, e tem muitos papéis de receitas agregados de forma desordenada.
As folhas têm manchas diversas de gordura, manteiga, farinhas… São lembranças de muitas comidas gostosas compartilhadas ao lado dela. Como não lembrar do pé de moleque e eu, ao lado, com uma xícara com água esperando para provar o ponto? E as balas delícias sendo puxadas para dar o ponto para serem enroladas no formato de cobra e cortadas? E as balas de cachaça e gelatina cortadas e passadas no açúcar depois de esperar um dia no tabuleiro? Era o céu na boca saborear suas balas de licor… Se esmerava nas tantas tortas doces e salgadas, pães, biscoitos e bolos. Naquela época, não havia padarias como as de hoje.
Numa primeira página, tem um recorte do “Jornal de casa” sem data. Debaixo dele encontrei o que, talvez, tenha sido uma das muitas festas que preparou para nós. É de lamber os beiços… está escrito:
“ Encomendei: pastéis de nata, brigadeiros, bombons de uva, bombons de figo, bombons de mandita, bombom da fábrica, olho de sogra” Ao lado acho que são as coisas que ela deve ter feito “ empadinhas, enrolados de salame (também chamados de sacanagem), pãezinhos de batata, rocambole de queijo, barquetes, pastel português”. Com certeza, também deve ter encomendado bolinho de feijão de uma senhora lá do alto do bairro Santo Antônio, marca registrada de suas festas.
Adorava a gelatina rosa e a mosaico com várias cores. Os bolos decorados com glacê de cores diferentes eram sempre gostosos e maravilhosos. Fez aulas com a doceira Dona Madalena, que morava defronte à nossa casa na rua Carangola. Tinha todos os bicos para fazer os “ Bolos Artísticos” do grosso livro da Dolores Botafogo. Fazia também glacês e flores com massa de araruta com fécula.
Tinha nove anos mas lembro-me do bolo de Bodas de Ouro dos meus avós Judith e Sô Dinho, feito no formato de um livro aberto com dizeres das datas. Foi uma linda festa com muita cantoria afinada de minha mãe e meus tios. Uma destas músicas habita meu coração até hoje. É “Bodas de Prata”, de Carlos Galhardo:
“Estavas vestida de noiva
Sorrindo e querendo chorar
Feliz, assim, olhando para mim
Que nunca deixei de te amar…”
Comemoramos muitos aniversários (éramos 4 filhos) e fez bolo com casebre da roça, gata borralheira, jogo de futebol para meus irmãos, corações unidos, leque e outros. Fez cestas de flores com sanduiches primorosamente recortados e multicores, com sabores diferentes feitos com produtos naturais como beterraba, cenoura e espinafre.
Fez também o bolo de casamento de meu padrinho tio Pedro e Tia Alzira. Tinha 8 anos mas lembro-me que alguns enfeites foram recortados em cartolina e revestidos de glacê e açúcar cristal. Consegui hoje com minha prima a foto do álbum. Nem sabia que tinha sido feito por minha mãe. Um espanto a delicadeza artística!
Tinha formas de bolo diferentes: sino, leque, coração, retangulares, redondos com furo no meio etc. Os biscoitos eram recortados com carinha de gato e estrela (tenho estas formas até hoje). O mais fofo é lembrar que tinha forminhas bem pequenas de alumínio e juntava às fornadas estes pequenos bolos, com furo no meio, que formavam o banquete para os nossos batizados de bonecas para os quais ela costurava roupas novas, fazia Q-suco e nos permitia chamar as amigas para as festinhas, que também traziam suas bonecas.
Algumas receitas têm os nomes das donas das receitas originais: “ Pão de queijo da Rosa, Bolo da Tina, Bom Bocado Da. Judith, Mãe Benta da Dona Mariquinha, Amendoim do Francisco, Pão de Ló da Leonor, entre outros.
Explorar estas tantas receitas que marcaram minha infância e a convivência com minha Mãe Efigênia, pessoa que AMO profundamente e da qual tenho imensas saudades, vai se fazer necessário…
Tenho que terminar este texto incompleto, que abriu um grande portal em meus tesouros da memória. Vou fazê-lo citando um escrito com minha letra e colado na última contracapa do livro de receitas da minha Mãe.
Lá estão escritos os nomes das bonecas de minha madrinha e avó Judith, que se casou em 1910, aos 16 anos de idade.
¨Ambira- asiática
Dejanira- europeia
Paraguaçu –índia
Ambá- crioulinho¨.
Tem também o que deve ser o que dizíamos quando batizávamos nossas bonecas:
¨Eu te batizo pela tua formosura
Não te dou os santos óleos
Porque não és criatura”.
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Texto elaborado na Oficina literária de Leandro Bertoldo “ Novos Autores”, em outubro de 2023.
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Que delícias de lembranças!!! Aprendi bastante com este banquete de experiências. Parabéns!!!
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Não é mesmo, Adriana? Também aprendi muito 🙂
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Que riqueza de vivências tão humanas, afetuosas, que nos reconectam à consciência de que somos sistemicamente interligados. Saudades da infância com tias e avós, e a alegre simplicidade que nos acompanhava.
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Que belo comentário, Ageu! Gratidão por estar aqui neste espaço.
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