Por Leandro Bertoldo Silva

Imagine um lugar onde as suas ideias e pensamentos são respeitados…

Um lugar acolhedor onde as palavras são ouvidas com carinho sem qualquer tipo de preconceito…

Onde é possível falar de sonhos, desejos, alegrias, mas também de dores e se sentir abraçado e compreendido…

Um lugar onde é permitido se emocionar pelo simples fato de expressar sentimentos com confiança e segurança…

Esse lugar surgiu em minha mente quando, aos sete anos de idade, subi em um pé de ameixa e abri um livro pela primeira vez. Passava horas nessa árvore lendo e relendo o que a princípio eu não sabia nominar, mas, mesmo tão menino, sabia o quanto aquelas histórias me faziam bem. Foi assim o meu encontro com a literatura. A princípio, a coleção Vaga-Lume me abria as portas. Logo era recepcionado por José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Fernando Sabino, Cecília Meireles…

Anos se passavam e os livros só aumentavam. E na mesma proporção, crescia em mim o desejo de repassar para as pessoas cada um dos benefícios que eu sentia. Descobri, ao longo do tempo, algo incrível: aquele prazer poderia virar profissão. Existia um tal curso de Letras, onde era possível estudar não apenas a nossa língua, mas as nossas literaturas, brasileira e estrangeira. Assim cheguei à Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, onde me formei em 1999.

Embora tenha sido um período maravilhoso da minha vida, faltava alguma coisa. A literatura ali encontrada me era apresentada de uma forma muito acadêmica e isso limitava muito, não o meu prazer, mas a minha vontade de fazer das histórias, consequentemente da própria literatura, uma forma de ajudar as pessoas a se sentirem bem fora daquele contexto e, sim, mais dentro de um aspecto humano e profundo.

Foi preciso muito tempo e buscas até ouvir pela primeira vez a palavra Biblioterapia. Estava eu em um evento na Academia de Letras de Teófilo Otoni, a qual faço parte, quando alguém pronunciou essa palavra e, instantaneamente, o meu coração se iluminou e bateu mais forte. “Biblioterapia?! O que é isso?” Na verdade não era uma pergunta, mas a certeza de ter encontrado a resposta tão procurada.

Daí em diante tudo aconteceu muito rápido. Conheci por meio de encontros, cursos e livros, Carla Sousa e o pensamento da professora Clarice Fortkamp Caldin. Segundo ela, “Biblioterapia é o cuidado com o desenvolvimento do ser humano por meio das histórias literárias, sejam elas lidas, narradas ou dramatizadas”. Isso quer dizer que por meio da literatura, do conto, das crônicas, dos romances, da poesia, das metáforas, é possível entrar em contato com as nossas emoções e cuidar dos nossos sentimentos, estimulando, entre outras coisas, a empatia e o autoconhecimento.

Segundo Clarice, BIBLIO não diz respeito ao livro em si, mas ao conteúdo ficcional que ele representa como se fosse a “capsula” que contém o “medicamento”, ou seja, as histórias, cujos princípios ativos são as metáforas que nos levam à reflexão. Lindo, não é? E TERAPIA? Ah, essa quer dizer o cuidado com o outro, ou “a arte de cuidar do ser”.

Fiquei em êxtase! Havia finalmente encontrado o que tanto procurava. A bem da verdade, eu já utilizava a literatura dessa forma em muitos trabalhos e encontros que eu realizava de maneira intuitiva. Mas, por isso mesmo, faltava-me um direcionamento mais embasado. Bem, não falta mais.

Embora a Biblioterapia seja também uma ciência e, como tal, exige sempre nosso constante estudo e aprimoramento, logo percebi do que me apropriava, ou seja, de um lugar no qual a literatura é vista como progressão humana a partir do momento onde é possível viver e contemplar, através das histórias e personagens variadas, a plenitude da sua condição. Um lugar onde é possível transformar-se integralmente no outro a partir das personagens fictícias ao vivenciar outros papéis e se identificar com situações a refletirem as suas próprias experiências e examinar os seus pensamentos e atitudes, o que auxilia no processo de autodescoberta.

Antes de dizer como isso é possível na prática, o que irá responder em seu contexto à pergunta do título: “por que precisamos de histórias?”, é preciso afirmar algo muito importante.

O QUE SUSTENTA UM ENCONTRO DE BIBLIOTERAPIA?

Trabalhar com Biblioterapia é algo que vai muito além do amor pelos livros e pelas histórias. Não resta dúvida: esse sentimento, acrescido pelo prazer da literatura, é fundamental, mas não é suficiente. É preciso saber onde os pés tocam, conhecer o solo fértil e extenso das experiências humanas, os processos conscientes e inconscientes dos nossos comportamentos, os gêneros literários os quais nos cercamos como pontes de desencadeamento das emoções e uma série de outros fatores muitas vezes despercebidos ou até mesmo negligenciados.

Intuição, sensibilidade, inspiração, criatividade tudo isso é importante em uma prática de grupo. Mas nada disso atinge de fato o objetivo sem o estudo constante e a busca pelo conhecimento. Sem isso, fica-se na superficialidade, na alegoria dos acontecimentos. É como um fruto sem sabor.

Uma prática de Biblioterapia só se realiza minimamente quando os fatores psíquicos, juntamente com a subjetividade da arte literária se correlacionam de maneira harmoniosa e segura pelo mediador.

Um desses fatores de estudo e constante aprimoramento, o que requer muita leitura, não apenas literária, mas teórica no campo da psicologia, filosofia, psicanálise — e aqui cito Freud, Carl Rogers, Schopenhauer, entre outros, está no entendimento do que ocorre na psique humana, isto é, no complexo conjunto de fenômenos, como pensamentos e sentimentos, que formam nossa personalidade.

Na Biblioterapia, chamamos esses fatores de componentes biblioterápicos. Ou seja, para além do acolhimento e afeto motivados pela literatura, seja ela um conto, uma crônica, o trecho de um romance ou poesia, em um momento de Biblioterapia você passa por processos psíquicos essenciais, entre eles a catarse, a identificação e a introspecção.

A CATARSE é um processo inconsciente, em que acontece a liberação emocional. Quando o personagem chora, ama ou supera algo, você lava a alma junto com ele e alivia suas próprias tensões. É uma espécie de purificação, uma limpeza profunda seguida de um estado de leveza que gera um sentimento de alívio.

A IDENTIFICAÇÃO também é um processo inconsciente de apropriação do outro, ou seja, um fenômeno em que você se reconhece em um personagem, na história dele ou em seus dilemas. É libertador, porque você percebe que não está só no que sente.

E a INTROSPECÇÃO já é um processo consciente de reflexão pós-leitura. Você traz as lições da história para a sua vida, pensando em como resolver seus próprios desafios.

Esses três processos acontecem de forma simultânea e absolutamente natural.

É por isso que na Biblioterapia, gostar de ler é importante, mas não é o único requisito para se trabalhar com ela. Se assim fosse, a literatura seria apenas um passatempo, mas ela precisa ser muito mais do que isso. É preciso ser um abraço, sim, mas conduzida com responsabilidade, conhecimento e competência.

Dito isso, passo a relatar como é uma prática de Biblioterapia na prática.

A chegada.

A Biblioterapia já inicia na recepção com um acolhimento afetuoso e um olhar carinhoso. Busca-se envolver as pessoas a compreenderem esse lugar de cuidado, onde todos se encontram no mesmo grau de atenção. Na Biblioterapia não existe obrigatoriedades ou preferências, preconceitos ou julgamentos. Para isso iniciamos de forma a proporcionar fluidez, relaxamento e familiaridade nas apresentações.

A história como potencial terapêutico.

A partir de uma temática proposta e do exercício da escuta, os textos são escolhidos buscando sempre a presença da metáfora e da linguagem simbólica. A partir da leitura, busca-se elaborar perguntas para estimular a discussão e provocar a interação do grupo. Utilizo muito em minha abordagem, mesmo com adultos, textos da literatura infantil repletos de significados.

O exercício da escuta.

Busca-se nesse momento escutar não apenas com os ouvidos, mas com o coração, sem exercer nenhum tipo de poder ou verdade. O que interessa não é nunca o que o autor quis dizer, mas o que cada um sentiu ao ler ou ouvir a história apresentada, sem se sentir ameaçado por qualquer natureza, fortalecendo os sentimentos, histórias pessoais e memórias que foram despertadas.

A dinamização.

A dinamização acontece na medida em que se utilizam atividades que vão potencializar o efeito terapêutico do texto e favorecer a interação das experiências compartilhadas. A partir da temática do encontro, são pensadas atividades lúdicas ou outro tipo de intervenção que possa ser feita de forma criativa.

Fechamento.

Após a conclusão das atividades e de uma breve roda de comentários, é interessante que o participante possa levar uma lembrança do encontro, algo produzido por ele mesmo, a fim de reforçar a sua experiência e fortalecer positivamente as suas emoções e sentimentos. É como sempre digo: na Biblioterapia, a história nunca termina quando acaba.

CONVITE

Se você se viu interessado pela Biblioterapia, se tem vontade de experimentar uma vivência na prática e sentir por si essas emoções a partir de um encontro de grupo de forma acolhedora, segura e respeitosa, te convido a participar dos nossos encontros na Livraria e Cafeteria Papo Café, em Teófilo Otoni. Os encontros na livraria são presenciais e será um prazer ter você conosco.

Caso não seja possível por não ser da cidade ou região, você poderá encontrar aqui muito material relacionado à Biblioterapia, como contos, crônicas, poesias e metáforas compartilhadas e reflexões sobre memórias, afetos, perdas, escolhas, pertencimento e relações humanas, além de propostas breves de leitura e escrita que ajudam a dar palavras ao que sentimos e pensamos. Para além disso, há espaço para encontros on-line, rodas de leitura e experiências coletivas. Tudo de forma lenta e gradual para que a literatura se faça em sua essência. É para isso que as histórias servem.

Um forte abraço!

Leandro Bertoldo Silva.


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Eu sou Leandro!

Aqui as histórias nunca terminam quando acabam. Elas permanecem em nós. Espaço de encontros por meio da literatura, onde é possível entrar em contato com as nossas emoções e cuidar dos nossos sentimentos. Por Leandro Bertoldo Silva, escritor independente, artesão do livro e da encadernação e facilitador de Biblioterapia.

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